Treze à Mesa por Agatha Christie - Versão HTML

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AGATHA CHRISTIE

TREZE À MESA

Tradução de

MILTON PERSSON

Digitalização e Revisão

LORNA ÍRIS

18ª impressão

EDITORA NOVA FRONTEIRA

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ÍNDICE

1 – Uma Representação Teatral 5

2 – Um Jantar 11

3 – O Homem de Dente de Ouro 18

4 – Uma Entrevista 24

5 – O Crime 30

6 – A Viúva 35

7 – A Secretária 41

8 – Possibilidades 47

9 – A Segunda Morte 51

10 – Jenny Driver 56

11 – A Egoísta 62

12 – A Filha 67

13 – O Sobrinho 72

14 – Cinco Perguntas 77

15 – Sir Montagu Corner 83

16 – Pura Conversa 88

17 – O Mordomo 91

18 – O Outro Homem 96

19 – Uma Grande Dama 105

20 – O Motorista do táxi 109

21 – A História de Ronald 113

22 – O Estranho Comportamento de Hercule Poirot 117

4

23 – A Carta 123

24 – Notícias de Paris 130

25 – Um Almoço 134

26 – Paris? 138

27 – A Respeito do “Pince-Nez” 143

28 – Poirot Formula Algumas Perguntas 148

29 – Poirot Fala 152

30 – A História 158

31 – Um Documento Humano 162

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1

Uma Representação Teatral

A memória do público é fraca. O vivo interesse e rebuliço causados

pelo assassinato de George Alfred St. Vicent Marsch, quarto Barão

Edgware, é uma coisa que pertence ao passado e ficou esquecida. Viu-se

substituída por novas sensações.

Meu amigo Hercule Poirot nunca foi mencionado abertamente em

relação ao caso. É bom frisar que isso estava perfeitamente de acordo

com seus desejos. Não quis que seu nome aparecesse. Outra pessoa

levou o mérito — o que era exatamente o que ele desejava. Ademais, na

singular opinião pessoal de Poirot, o caso constituiu um de seus

fracassos. Continua afirmando até hoje que foi a observação casual de

um desconhecido em plena rua que o colocou na pista certa.

Seja como for, foi seu gênio que apurou a verdade da história. Não

fosse Hercule Poirot, duvido que se tivesse descoberto o culpado do

crime.Creio, portanto, que chegou a hora de pôr em pratos limpos tudo o

que sei a respeito do caso. Conheço completamente, de cor e salteado,

cada pormenor do assunto e posso também acrescentar que, assim

procedendo, não faço mais que cumprir a vontade de uma senhora de

raro fascínio.

Nunca me esquecerei daquele dia na saleta de visitas, discreta e

bem arrumada, de Poirot, quando, trilhando sempre o mesmo pedaço de

tapete, o meu pequeno amigo nos fez um resumo magistral e

assombroso do caso. A exemplo dele, começarei a narrativa pelo mesmo

ponto — num teatro londrino em junho do ano passado.

Carlota Adams fazia então o maior furor em Londres. Na temporada

anterior, dera duas matinês que alcançaram um sucesso bárbaro. Desta

vez, completava um contrato de três semanas que se encerraria na noite

seguinte.

Carlota Adams era uma jovem americana, com o talento mais

surpreendente para interpretar esquetes sem auxílio de maquilagem ou

cenário. Parecia não ter problema de espécie alguma para falar qualquer

idioma. O número em que descrevia uma noite num hotel estrangeiro era

realmente sensacional. Um a um, turistas americanos e alemães, famílias

de classe média inglesa, mulheres de reputação duvidosa, aristocratas

russos desencantados e sem vintém, garçons cansados e circunspectos

desfilavam em rápida sucessão pelo palco.

Os esquetes oscilavam entre a seriedade e o humorismo. Um, em

que uma mulher tcheca agonizava no hospital, dava um nó na garganta.

6

No minuto seguinte, ríamos às gargalhadas com um dentista que se

dedicava a seu mister tagarelando despreocupadamente com as vítimas.

O programa se encerrava com Algumas Imitações. Nisso também

revelava uma habilidade espantosa. Sem recorrer a nenhuma

maquilagem, de repente seus traços pareciam se dissolver, adquirindo a

expressão de um político famoso, uma atriz conhecida ou uma beldade

social. Para cada personagem tinha uma fala curta e característica.

Nessas falas, diga-se de passagem, mostrava profundo espírito de

observação. Dir-se-ia que desnudavam as mínimas fraquezas do tipo

visado.

Uma das ultimas imitações era a de Jane Wilkinson — jovem e

talentosa atriz americana, popularíssima em Londres. De fato, era muito

bem feita. Proferia as maiores asneiras com tamanha dramaticidade que,

apesar dos pesares, imprimia a cada palavra um sentido transcendental.

A voz, cheia de musicalidade, possuía um timbre grave e rouco,

fascinante. Os gestos contidos, de estranhos significados, o corpo

ligeiramente sinuoso, a própria sensação de extrema beleza física —

como conseguia? Não dá para imaginar!

Sempre fui admirador da bela Jane Wilkinson. Ela me impressionava

em papéis dramáticos e nunca cansei de repetir, ante os que lhe

reconheciam a beleza, mas negavam-lhe talento de atriz, que havia nela

uma força histriônica considerável.

Foi um pouco fantástico, ao ouvir aquela voz familiar, ligeiramente

rouca, com o toque de fatalismo que tantas vezes me emocionara, e ver

aquele gesto tocante, aparentemente espontâneo, da mão que se

fechava e abria devagar, a cabeça jogada de repente para trás, os

cabelos descobrindo o rosto, constatar que ela sempre fazia isso no

clímax de uma cena dramática.

Jane Wilkinson era dessas atrizes que trocaram o teatro pelo

casamento só para voltar ao palco na primeira oportunidade. Três anos

antes, casara com o rico, porém um tanto excêntrico Lord Edgware.

Corriam boatos de que o havia abandonado pouco tempo depois. Seja

como for, decorridos dezoito meses das núpcias, já estava filmando na

América e nessa temporada aparecera numa peça de sucesso em

Londres.

Assistindo à imitação de Carlota Adams, caprichada mais talvez

com o seu quê de malícia, ocorreu-me conjeturar sobre a espécie de

opinião que os modelos escolhidos teriam dessas imitações. Alegrar-se-

iam com a notoriedade — com a promoção que lhes proporcionavam? Ou

se aborreceriam com o que, afinal de contas, redundava num

desmascaramento proposital de seu repertório de truques? Não se

colocava Carlota Adams na posição do mágico rival que diz: — “Ora, este

truque é velho! Facílimo. Vou lhes mostrar como se faz!”.

Resolvi que se fosse eu o tipo em questão, ficaria tremendamente

aborrecido. Claro, procuraria disfarçar, mas positivamente não havia de

gostar. É preciso muita largueza de espírito e forte senso de humor para

apreciar uma revelação impiedosa dessa natureza.

7

Recém tinha chegado a semelhante conclusão a gostosa

gargalhada rouca em cena encontrou um eco às minhas costas. Virei

bruscamente a cabeça. Na poltrona logo atrás da minha, curvada para

diante, de lábios entreabertos, achava-se o alvo da imitação — Lady

Edgware, mais conhecida como Jane Wilkinson. Compreendi em seguida

que minhas deduções estavam completamente erradas. Ela se curvava

para diante de lábios entreabertos, com uma expressão de prazer e

vibração no olhar.

Quando o “número” terminou, aplaudiu vivamente, rindo e virando-

se para o acompanhante, um sujeito alto, extremamente alinhado, o

protótipo do deus grego, cujo rosto eu conhecia mais da tela do que do

palco. Era Bryan Martin, o ídolo cinematográfico mais popular da época.

Ele e Jane Wilkinson haviam co-estrelado uma série de filmes.

— Ela é formidável, hem? — exclamou Lady Edgware.

O rapaz achou graça.

— Que entusiasmo, Jane.

— Mas eu acho mesmo extraordinária! Muito melhor do que eu

imaginava.

Não deu para ouvir a resposta espirituosa de Bryan Martin. Carlota

Adams já começara outra improvisação. Ninguém me tira da idéia que o

que se passou depois não foi uma coincidência estranhíssima.

Terminada a sessão, Poirot e eu fomos jantar no Savoy. Na mesa

vizinha, encontravam-se Lady Edgware, Bryan Martin e duas outras

pessoas que eu não conhecia. Ao chamar a atenção de Poirot para o

grupo, entrou outro casal que ocupou a mesa logo após. O rosto da

mulher era familiar; e no entanto, por incrível que pareça, não a

identifiquei imediatamente. De repente, percebi que estava encarando

Carlota Adams! O homem me era desconhecido. Bem vestido, tinha uma

fisionomia jovial, um pouco bronca. Não gostei do tipo.

Carlotta Adams, toda de preto, não chamava atenção. Possuía um

rosto que não despertava curiosidade nem reconhecimento imediatos.

Um desses rostos vivos, delicados, que se prestam de maneira ideal à

arte da mímica. Podia assumir facilmente qualquer personalidade alheia,

porém não tinha individualidade.

Transmiti essas reflexões a Poirot. Ele escutou atento, a cabeça

ovóide ligeiramente inclinada, lançando um olhar rápido às duas mesas a

que me referia.

— Ah, essa é que é Lady Edgware? Sim, lembro... Já a vi no palco.

Uma belle femme.

— E ótima atriz, também.

— Possivelmente.

— Você não parece concordar.

— Creio que depende da peça, meu caro. Se ela for o centro da

ação, se tudo girar em torno dela... então sim, pode ser atriz. Duvido que

seja capaz de interpretar bem um papel pequeno, ou mesmo o que se

chama de papel caraterístico. A peça tem de ser escrita sobre ela e pra

ela. Me parece o tipo da mulher que está interessada exclusivamente em

si mesma — fez uma pausa e depois acrescentou, de modo bastante

8

imprevisto: — Gente assim, corre grande perigo na vida.

— Perigo? — retruquei, admirado.

— Pelo que vejo, usei uma palavra que o surpreende, mon ami.

Perigo, sim. Porque, sabe, uma mulher dessas só enxerga uma coisa pela

frente: ela mesma. Não vê nada dos perigos e riscos que a cercam... os

milhões de interesses conflituosos e relações que todos nós temos. Não

enxergam um palmo diante do nariz. E por isso... cedo ou tarde... é

aquele desastre.

Fiquei interessado. Confessei a mim mesmo que nunca me teria

ocorrido semelhante ponto de vista.

— E a outra? — indaguei.

— Miss Adams?

Desviou o olhar para a mesa seguinte.

— E daí? — perguntou, sorridente. — O que é que você quer que eu

diga sobre ela?

— Qual a impressão que lhe causa?

Mon cher, estará me confundindo esta noite com o clarividente

que lê as mãos e adivinha o caráter?

— Não conheço ninguém mais indicado — respondi.

— Hastings, você tem uma confiança admirável em mim. Chego a

ficar comovido. Então não sabe, meu caro, que cada um de nós é um

negro mistério, um labirinto de paixões, desejos e talentos antagônicos?

Mais oui, c’est vrai. Vive-se tirando conclusões... que noventa por cento

das vezes são errôneas.

— Não Hercule Poirot — afirmei, sorrindo.

— Mesmo Hercule Poirot! Oh! Sei perfeitamente que você sempre

me acha um pouco pretensioso, mas de fato, garanto-lhe, sou até muito

modesto.

Dei uma risada.

— Modesto? Você?

— Palavra. Exceto... confesso... que tenho um certo orgulho de meu

bigode. Não encontrei em Londres nenhum que fosse comparável.

— Fique descansado — retruquei, irônico. — Não há. Quer dizer,

então, que não se arrisca a emitir uma opinião sobre Carlotta Adams.

Elle est artiste! — respondeu Poirot simplesmente. — O que

explica quase tudo, não é?

— Em todo caso, não acha que ela corre perigo na vida?

— Quem não corre, meu caro? — filosofou Poirot. — A desgraça

sempre está à nossa espreita. Agora, quanto a sua pergunta... Miss

Adams, a meu ver, há de se sair bem. É perspicaz, e isso contribui pro

êxito. Embora ainda reste uma possibilidade de perigo... uma vez que é

de perigo que se trata.

— Qual?

— O amor ao dinheiro. Ele pode desviar uma pessoa como ela do

caminho da prudencia.

— Desse risco ninguém escapa — contestei.

— Tem razão, mas de um jeito ou doutro, tanto você quanto eu

perceberíamos o risco. Pesaríamos os prós e os contras. Ao passo que,

9

preocupando-se unicamente com o dinheiro, é só o dinheiro que conta;

tudo o mais passa pro segundo plano.

Ri da seriedade dele.

— Esmeralda, a rainha cigana, num de seus melhores momentos —

comentei, brincando.

— A psicologia da personalidade é interessante — continuou,

imperturbável. — A gente não pode interessar-se pelo crime sem se

interessar pela psicologia. Não é o mero ato de matar; é o que existe por

trás dele que atrai o especialista. Está entendendo, Hastings?

Afirmei que entendia perfeitamente.

— Já notei que, quando trabalhamos juntos em algum caso, você

está sempre me impelindo à ação física, Hastings. Quer que eu tire

pegadas, analise cinzeiros, deite de barriga pra baixo pra examinar

minúcias. Nunca compreende que, espichando-se numa poltrona de

olhos fechados, se possa chegar mais rápido à solução de qualquer

problema. A gente então enxerga com os olhos da inteligência.

— Eu não — respondi. — Quando me espicho numa poltrona de

olhos fechados, só me acontece uma coisa, e sempre a mesma!

— Pensa que eu não sei? Que engraçado. Nesses momentos o

cérebro devia estar trabalhando febrilmente, em vez de mergulhar na

letargia. A atividade mental... é tão interessante, tão estimulante! O uso

da massa cinzenta é um verdadeiro prazer espiritual. É a única e

exclusiva maneira de romper o mistério e chegar à verdade.

Creio que peguei o costume de me distrair toda vez que Poirot fala

em massa cinzenta. De exaustão, provavelmente. Dessa vez concentrei a

atenção nas quatro pessoas sentadas à mesa vizinha. Quando o

solilóquio de Poirot chegou ao fim , mal pude conter o riso:

— Você fez uma conquista — anunciei. — A bela Lady Edgware não

consegue desviar os olhos de você.

— Decerto foi informada de minha identidade — opinou Poirot,

esforçando-se por bancar o modesto, sem o menor êxito.

— Acho que é o famoso bigode — insisti. — Está fascinada por ele.

Poirot cofiou-o sub-repticiamente.

Não há que negar que é notável — reconheceu. — Ah, meu caro, o

“escovinha”, como se diz, que voce usa... é um horror... uma

atrocidade... uma deturpação proposital das leis da natureza. Desista

dele, meu amigo, por favor.

— Nossa — exclamei, ignorando o apelo de Poirot, — ela se

levantou. Tenho a impressão de que vem falar conosco. Bryan Martin

está protestando, mas ela não quer ceder.

Dito e feito. Jane Wilkinson ergueu-se impetuosamente da cadeira e

dirigiu-se à nossa mesa. Poirot se pôs em pé com uma reverência e eu fiz

o mesmo.

— O senhor é Monsieur Hercule Poirot, não? — perguntou naquela

voz suave, rouca.

— Para servi-la.

— M. Poirot, eu desejava falar com o senhor. Preciso, aliás.

— Mas sem dúvida, Madame. Não quer sentar?

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— Não, não. Aqui não. Quero falar-lhe em particular. Vamos subir

logo ao meu apartamento.

Bryan Martin, por sua vez, se aproximara.

— E melhor esperar um pouco, Jane — disse, com uma risada

crítica. — Estamos no meio do jantar. E M. Poirot também.

Mas não era fácil demover Jane Wilkinson de seu intuito.

— Ora, Bryan, que importância tem? Mandaremos servir lá em

cima. Fale com eles, sim? E Bryan, olhe...

Teve de ir atrás dele, pois já se afastara; pareceu insistir para que

fizesse não sei quê. Minha impressão foi que ele relutava, sacudindo a

cabeça, de cenho franzido. Ela, porém, falou de modo ainda mais

enfático e, finalmente, com um encolher de ombros, ele acedeu.

Umas duas vezes, durante a cena, ela olhou de relance para a mesa

onde se achava Carlotta Adams e me pus a imaginar se o que estava

sugerindo teria algo que ver com a americana.

Vencida a questão, Jane voltou triunfante.

— Vamos subir, então — propôs, me incluindo com um sorriso

estonteante.

O problema de concordarmos ou não com o seu plano, pelo visto,

nem lhe ocorrera. Arrastou-nos junto sem o mínimo pedido de desculpas.

— Que sorte louca encontrá-lo aqui esta noite, M. Poirot — disse,

conduzindo-nos ao elevador. — É fantástico como tudo parece dar certo

comigo. Estava mesmo quebrando a cabeça pra ver o que teria de fazer,

quando levanto os olhos e vejo o senhor na mesa vizinha; aí eu disse pra

mim mesma: “M. Poirot me indicará a solução!”

Interrompeu-se para pedir: — Segundo andar — ao ascensorista.

— Se eu puder ajudá-la... — começou Poirot.

— Tenho certeza de que pode. Soube que o senhor é o homem mais

fabuloso que jamais existiu. Alguém precisa me tirar dessa complicação

em que me meti, e acho que o senhor é a pessoa indicada.

Saímos no segundo andar e ela tomou a dianteira no corredor,

parando diante de uma porta e entrando num dos apartamentos mais

suntuosos do Savoy.

Arremessando o abrigo de peles branco em cima de uma cadeira e

a pequena bolsa cravada de jóias sobre a mesa, a atriz mergulhou numa

poltrona e exclamou:

— M. Poirot, eu simplesmente tenho de me ver livre do meu marido.

Custe o que custar!

11

2

Um Jantar

Após o primeiro momento de assombro, Poirot voltou ao normal!

— Mas, Madame — falou, o olhar cintilante. — A minha

especialidade não é eliminar maridos.

— Ora, claro, eu sei.

— É de um advogado que a senhora precisa.

— Pois está muito enganado. Ando simplesmente farta de

advogados. Já tive de toda espécie, honestos, ladrões, e não me

adiantaram de nada. Limitam-se a conhecer leis; até parece que não têm

o menor senso comum.

— E a senhora pensa que eu tenho?

Ela riu.

— Me disseram que o senhor é um fenômeno, M. Poirot.

Comment? Um fenômeno? Não compreendo.

— Bem... que o senhor é o maior.

— Madame, se sou inteligente, não sei... pra usar de franqueza,

sou... pra que fingir? Mas esse seu pequeno impasse não é o meu

gênero.

— Não vejo por quê. É um problema.

— Ah! Um problema!

— E difícil — continuou Jane Wilkinson. — Não me parece que seja

homem que se acanhe diante de dificuldades.

— Permita-me cumprimentá-la pela argúcia, Madame. Mas mesmo

assim, não faço investigações pra divórcio.. Não é bonito... ce métier là.

— Meu caro, não lhe estou pedindo pra bancar o espia. Seria inútil.

Mas é que eu tenho de me livrar do sujeito e estou certa de que pode me

ensinar uma maneira.

Poirot hesitou antes de responder. Quando se decidiu, havia um

tom novo em sua voz.

— Primeiro me diga, Madame, por que está tão ansiosa em “se

livrar” de Lord Edgware?

Não houve demora nem hesitação na resposta dela. Veio rápida e

direta.

— Ora, que dúvida. Quero casar outra vez. Que mais podia ser?

Arregalou com candura os grandes olho azuis.

— Mas, qual é o problema em obter o divórcio?

— O senhor não conhece meu marido, M. Poirot. Ele é... é... —

estremeceu. — Não sei como explicar. É um sujeito esquisito... diferente

dos outros. — Fez uma pausa e prosseguiu: — Ele nunca devia ter

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casado... com ninguém. Falo com conhecimento de causa. Não dá pra

descrevê-lo, mas ele é... esquisito. Sua primeira mulher, sabe, fugiu...

deixando-lhe uma criança de três meses. Jamais se divorciou dela, que

morreu na penúria, não sei onde, no estrangeiro. Depois casou comigo.

Ora... eu não agüentei. Fiquei apavorada. Larguei ele e fui pros Estados

Unidos. Não tenho justificativa pro divórcio e se lhe apresentasse

alguma, nem tomaria conhecimento. É... é uma espécie de fanático.

— Em certos Estados americanos a senhora teria o divórcio,

Madame.

— Não me serve pra nada... se quiser morar na Inglaterra.

— E a senhora quer?

— Quero.

— Com quem pretende casar?

— Aí é que está. O Duque de Merton.

Sufoquei uma exclamação. O Duque de Merton, até então, era o

desespero das mamães casamenteiras. Rapaz com tendência de ermitão,

anglicano ferrenho, constava que vivia sob o jugo da mãe, a terrível

Duquesa viúva. Levava vida de extrema austeridade, colecionando

porcelana chinesa e com fama de esteta. Dizia-se que não se interessava

absolutamente por mulheres.

— Sou simp1esmente louca por ele — disse Jane, toda sentimental.

— Não se parece com ninguém que eu conheça e o castelo da família é

uma coisa fabulosa. A história toda é o negócio mais romântico que já

houve. E ainda por cima ele é bonito... assim, uma espécie de monge

visionário.

Parou.

— Vou deixar o palco quando casar. Tenho a impressão de que

perdi todo interesse pelo teatro.

— E enquanto isso — comentou Poirot irônico, — Lord Edgware

estorva esses sonhos românticos.

— E está-me deixando maluca — recostou-se, pensativa. —

Naturalmente, se estivéssemos em Chicago eu poderia dar cabo dele

com a maior facilidade, mas aqui parece que vocês não dispõem de

pistoleiros.

— Aqui — retrucou Poirot, sorridente, — consideramos todo ser

humano com direito à vida.

— Eu é que não sei. Acho que estariam muito melhor sem certos

políticos. E sabendo o que sei a respeito de Edgware, me parece que

ninguém sairia perdendo... antes pelo contrário.

Bateram à porta e um garçom entrou com os pratos do jantar. Jane

Wilkinson continuou a discutir o problema sem sequer registrar sua

presença.

— Mas não estou pedindo que o senhor mate ele pra mim, M. Poirot.

Merci, Madame.

— Imaginei que talvez pudesse convencê-lo com alguma esperteza.

Fazer com que ele concorde com a idéia do divórcio. Tenho certeza de

que o senhor pode.

— Acho que exagera a minha capacidade de persuasão, Madame.

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— Ah! Mas sem dúvida há de encontrar alguma saída, M. Poirot. —

Curvou-se para a frente. Os olhos azuis tornaram a se arregalar. — Não

gostaria de me ver feliz?

A voz era suave, baixa e adoravelmente sedutora.

— Eu gostaria de ver todo mundo feliz — respondeu Poirot com

prudência.

— Sim, mas eu não estava pensando em todo mundo. Pensava

apenas em mim.

— Eu diria que é o que a senhora sempre faz, Madame.

Ele sorriu.

— Acha que sou egoísta?

— Oh! Não foi o que eu disse, Madame.

— Pois eu acho que sou. Acontece, porém, que detesto ser infeliz,

entende? Chega a prejudicar minhas interpretações. E vou ficar

desolada, a menos que ele aceite o divórcio... ou morra.

— Pensando bem — continuou, — seria preferível que morresse.

Quero dizer, eu me sentiria mais definitivamente livre dele.

Olhou para Poirot em busca de apoio.

— O senhor vai ajudar-me, não vai, M. Poirot?

Levantou-se, apanhou o abrigo branco e ficou parada, com uma

expressão suplicante no rosto. Escutei um rumor de vozes no corredor. A

porta estava entreaberta.

— Caso contrário... — continuou ela.

— Caso contrário, Madame?

Deu uma risada.

— Terei de chamar um táxi e ir dar cabo dele pessoalmente.

E, sempre rindo, desapareceu por uma porta que conduzia à peça

contígua, no momento exato em que Bryan Martin entrava com a moça

americana, Carlotta Adams, seu acompanhanhante, e as duas pessoas

que tinham estado jantando em companhia dele e de Jane Wilkinson. Me

foram apresentadas como Mr. e Mrs. Widburn.

— Olá! — disse Bryan. — Onde está Jane? Quero lhe contar que me

saí bem da incumbência que me deu.

Jane surgiu à porta do quarto de dormir. Segurava o batom na mão.

— Conseguiu trazê-la? Que beleza! Miss Adams, gostei

imensamente de seu trabalho. Achei que tinha de conhecê-la dc qualquer

maneira. Entre aqui pra gente conversar enquanto dou um jeito na cara.

Devo estar com um aspeto simplesmente medonho.

Carlotta Adams aceitou o convite. Bryan Martin se jogou numa

poltrona.

— Então, M. Poirot — disse, — o senhor foi devidamente capturado.

A nossa Jane convenceu-o a lutar pela sua causa? Quanto antes ceder,

melhor. Ela não entende o significado da palavra “não”.

— Talvez nunca tenha encontrado uma.

— Jane é um tipo muito interessante — afirmou Bryan Martin.

Reclinou-se na poltrona soprando a fumaça do cigarro ociosamente para

o alto. — Tabus pra ela não vogam. Nem tampouco princípios éticos. Não

quero dizer que seja exatamente imoral... isso Jane não é. Amoral, creio,

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é o termo. Só enxerga uma coisa na vida: o que ela quer.

Soltou uma gargalhada.

— Acredito que fosse capaz de matar alguém com a maior calma...

sentindo-se ofendida se a pegassem e quisessem enforcá-la por causa

disso. O problema é que seria pega. Não tem imaginação. Sua idéia de

cometer um crime seria tomar um táxi, usando o próprio nome, e abrir

fogo. — Só queria saber o que o leva a falar assim — murmurou Poirot.

— Hã?

— Conhece-a bem, Monsieur?

— Creio que sim.

Tomou a rir, mas a risada me soou inusitadamente forçada.

— Vocês concordam, não? — consultou, subitamente, os outros.

— Ah! Jane é egoísta, sim — concordou Mrs. Widbum. — Embora

uma atriz tenha que ser. Isto é, se quiser exprimir sua personalidade.

Poirot não fez nenhum comentário. Continuou fitando o rosto de

Bryan Martin demoradamente, com uma curiosa expressão especulativa

que me escapava ao entendimento.

Nesse momento Jane irrompeu do quarto vizinho, seguida por

Carlotta Adams. Presumo que já tivesse “dado um jeito na cara”, seja

qual fosse o sentido que emprestava ao termo, de um modo que lhe

parecia satisfatório. Para mim, estava exatamente como antes e

absolutamente incapaz de qualquer melhoria.

O jantar que então teve início foi muito animado, apesar de me

causar de vez em quando a sensação de que havia correntes ocultas que

eu não conseguia definir.

Jane Wilkinson não se mostrou capaz da menor sutileza. Era

obviamente uma mulher que só se ocupava de uma coisa de cada vez.

Tinha desejado uma entrevista com Poirot, pusera-se em campo e

conseguira o que queria sem demora. Agora se achava, evidentemente,

na melhor das disposições. Seu desejo de incluir Carlotta Adams no

jantar fora, deduzi, um mero capricho. Divertira-se imensamente, feito

uma criança, com a hábil imitação de si mesma.

Não, as correntes ocultas que eu pressentia não tinham nada que

ver com Jane Wilkinson. Em que rumo corriam? Analisei os convidados,

um por um. Bryan Martin? Não havia dúvida que não se comportava com

absoluta naturalidade. Mas isso, pensei comigo mesmo, podia ser pura e

simplesmente típico de um artista de cinema, a exagerada inibição de

um homem vaidoso, acostumado demais em desempenhar um papel

para poder descartar-se dele facilmente.

Carlotta Adams, pelo menos, comportava-se com bastante

naturalidade. Era uma moça calma, de simpática voz grave. Examinei-a

com certa atenção, agora que dispunha da oportunidade de fazê-lo bem

de perto. Achei que possuía notável encanto, embora de espécie um

tanto negativa. Consistia numa ausência de qualquer nota dissonante ou

estridente. Era a quintessência da suave harmonia. Seu próprio aspeto

era negativo. Cabelo preto e fofo, olhos de um azul pálido, quase incolor,

rosto branco e uma boca mutável, sensível. Uma fisionomia agradável,

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mas difícil de identificar novamente, se a encontrássemos, digamos, com

trajes diferentes.

Parecia satisfeita çom a cortesia e os elogios de Jane. Quem não

ficaria? — pensei — e então, nesse momento exato, aconteceu algo que

me obrigou a revisar essa opinião um pouco apressada.

Carlotta Adams fitava a anfitrioa do outro lado da mesa, a qual, por

um instante, tinha virado a cabeça para falar com Poirot. Havia uma

estranha qualidade perscrutadora naquele olhar — dir-se-ia um cálculo

deliberado, e ao mesmo tempo surpreendi uma hostilidade bem definida

nos olhos azuis pálidos.

Imaginação, talvez. Ou, quem sabe, ciúme profissional? Jane era

uma atriz de sucesso, definitivamente consagrada. Carlotta começava

apenas a subir a escada do êxito.

Contemplei os outros três participantes do grupo. Mr. e Mrs.

Widburn; que dizer deles? O marido era um homem alto, cadavérico; a

mulher, uma criatura roliça, loura, gárrula. Pareciam pessoas ricas,

apaixonados por tudo que se relacionasse com teatro. Relutavam, de

fato, em abordar qualquer assunto de natureza diversa. Devido à minha

recente ausência da Inglaterra, descobriram que eu estava

lamentavelmente mal informado e, por fim, Mrs. Widburn, virando-me as

costas rechonchudas, esqueceu-se por completo de que eu existia.

O último membro do grupo era o rapaz moreno, de cara redonda e

jovial, que acompanhava Carlotta Adams. Desde o início desconfiei de

que não estava tão sóbrio assim. À medida que bebia mais champanha,

isso se tomou ainda mais flagrante.

Parecia estar sofrendo de um profundo sentimento de injustiça.

Durante a primeira metade da refeição conservou-se taciturno. Já na

segunda, desabafou comigo, aparentemente sob a impressão de que eu

era um de seus maiores amigos.

— O que eu quero dizer — falou. — Não, não é. Não, meu caro, não

e...

Omito a leve dificuldade em articular as palavras.

— Quero dizer — continuou, — você pode me explicar? Isto é, se a

gente anda com uma garota... bem, ora... se intrometendo por aí.

Deixando tudo em rebuliço. Não que eu jamais lhe tenha dito uma

palavra imprópria. Ela não faz esse gênero. Sabe como é... os Primeiros

Puritanos... o Mayflower... esse ne.gocio todo. Pombas... a moça é direita.

O que eu quero dizer é... o que era mesmo que eu estava dizendo?

— Que foi uma falta de sorte — expliquei, para acalmá-lo.

— Pois é, pombas, isso mesmo. Droga, tive de pedir dinheiro

emprestado pra esta farra ao meu alfaiate. Camarada muito prestativo, o

meu alfaiate. Há anos que lhe devo dinheiro. Cria uma espécie de elo

entre nós. Nada como um elo, não é, velhão? Você e eu. Você e eu. Por

falar nisso, quem é você afinal?

— Meu nome é Hastings.

— Não diga. Ora, eu seria capaz de jurar que você era um sujeito

chamado Spencer Jones. O bom Spencer Jones. Conheci-o em Eton e

Harrow e tomei-lhe emprestada uma nota de cinco. O que eu digo é que

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todas as caras se parecem... isso é que é. Se a gente fosse um bando de

chineses, não se poderia distinguir um do outro.

Sacudiu a cabeça com tristeza, depois reanimou-se subitamente e

bebeu um pouco mais de champanha.

Por fim fez várias observações de caráter otimista.

— Olhe as coisas pelo melhor lado, rapaz — recomendou-me. — E o

que eu digo, olhe pelo melhor lado. Qualquer dia desses... quando eu

tiver setenta e cinco, mais ou menos... vou ficar rico. Quando meu tio

morrer. Então poderei pagar o alfaiate.

Pôs-se a sorrir, embevecido com a idéia. Havia qualquer coisa

estranhamente cativante naquele rapaz. Tinha o rosto redondo e um

bigodinho preto, absurdamente pequeno, que dava a impressão de estar

insulado no meio de um dente.

Notei que Carlotta Adams o observava, e foi depois de um olhar em

sua direção que se ergueu e interrompeu a festa.

— Que bom que vocês vieram cá — declarou Jane. — Adoro fazer

coisas de uma hora pra outra; e vocês?

— Eu não — respondeu Miss Adams. — Creio que sempre planejo

tudo com muito cuidado antes de fazer alguma coisa. Poupa...

incomodos.

Havia algo ligeiramente antipático em seus modos.

— Bom, em todo caso os resultados são mais que compensadores

— riu Jane. — Nunca me diverti tanto quanto com seu espetáculo desta

noite.

O semblante da moça americana se desanuviou.

— Mas que amabilidade — disse, tocada. — E muito obrigada por

dizer isso. Preciso de estímulo. Todos nós precisamos.

— Carlotta — interveio o rapaz do bigode preto, — diga boa noite,

agradeça o jantar à Tia Jane, e vamos de uma vez.

O modo como ele acertou com o caminho da porta foi um milagre

de concentração. Carlotta seguiu-o rapidamente.

— Ué — estranhou Jane, — de onde saiu esse cara que me chamou

de Tia Jane? Nem tinha reparado nele.

— Minha querida — disse Mrs. Widburn, — não faça caso. Na

adolescência ele foi simplesmente brilhante na Escola de Teatro da

Universidade de Oxford. Hoje, quem havia de dizer, bem? Detesto ver

uma vocação fracassada. Mas Charles e eu positivamente temos de ir

andando.

Os Widburns saíram devidamente andando, em companhia de

Bryan Martin.

— Como é, M. Poirot?

Ele sorriu-lhe.

Eh bien, Lady Edgware?

— Pelo amor de Deus, não me chame por esse nome. Prefiro

esquecê-lo! A menos que o senhor seja o homenzinho mais empedernido

da Europa!

— Mas não, de forma alguma. Não sou empedernido.

Tive a impressão de que Poirot bebera cbampanha demais...

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possivelmente uma taça além da conta.

— Quer dizer, então, que irá procurar meu marido? E convencê-lo a

fazer o que eu quero?

— Irei procurá-lo — prometeu Poirot cautelosamente.

— E se ele se recusar... o que tenho certeza... o senhor pensará

num plano inteligente. Dizem que o senhor é o homem mais inteligente

da Inglaterra, M. Poirot.

— Madame, quando sou empedernido a senhora menciona a

Europa. Mas em matéria de inteligência se restringe à Inglaterra.

— Se conseguir dar conta do recado, direi do universo.

Poirot ergueu a mão, suplicante.

— Madame, não prometo nada. Nos interesses da psicologia, farei o

possível pra marcar um encontro com seu marido.

— Psicanalise-o à vontade. Talvez até lhe faça bem. Mas precisa

alcançar êxito... por minha causa. Tenho de ter meu romance, M. Poirot.

— E acrescentou, lânguida: — Imagine só a sensação que não vai criar.

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3

O Homem de Dente de Ouro

Poucos dias mais tarde, quando estávamos à mesa do café, Poirot

me passou uma carta que recém-abrira.

— Então, mon ami — perguntou. — O que acha disso?

Era um bilhete dc Lord Edgware; numa linguagem empolada,

formal, marcava encontro para as onze horas do dia seguinte.

Devo confessar que fiquei muito surpreso. Tomara as palavras de

Poirot como expressão leviana de um momento festivo, e nem sequer

imaginava que realmente tivesse tomado providências para cumprir a

promessa.

Poirot, com a habitual perspicácia, adivinhou meu pensamento.

Seus olhos brilharam de leve.

— Pois é, mon ami, não foi puramente efeito do champanha.

— Não quis dizer isso.

— Mas sim... sim... você deve ter pensado: “Coitado do velhote,

aderiu ao espírito da festa, promete coisas que nem fará... que não tem a

mínima intenção de fazer.” Mas, meu caro, as promessas de Hercule

Poirot são sagradas.

Assumiu uma postura majestosa ao proferir as últimas palavras.

— Claro. Claro. Eu sei — afirmei, rápido. — Porém supus que seu

raciocínio talvez estivesse ligeiramente... como direi?... influenciado.

— Não tenho o hábito de permitir que o meu raciocínio sofra

“influências”, como você diz, Hastings. O melhor e mais seco dos

champanhas, a mais loura e sedutora das mulheres... nada influencia o

raciocínio de Hercule Poirot. Não, mon ami, estou interessado... só isso.

— No romance de Jane Wilkinson?

— Não exatamente. Seu romance, como diz, é um negócio como

outro qualquer. Um degrau na carreira triunfal de uma bela mulher. Se o

Duque de Merton não possuísse o título nem fortuna, sua parecença

romântica com um monge visionário deixaria de interessá-la. Não,

Hastings, o que me intriga é o lado psicológico da questão, o combate

mútuo de personalidades. Aguardo a oportunidade de analisar Lord

Edgware mais de perto.

— Não espera alcançar êxito na missão?

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Pourquoi pas? Todo homem tem seu ponto fraco. Não pense,

Hastíngs, que só porque estou analisando o caso de uma perspetiva

psicológica eu vá deixar de fazer o possível pra obter sucesso na

incumbência que me confiaram. Sempre gosto de exercitar minhas

habilidades.

Já temia alguma alusão à massa cinzenta e fiquei grato por me ter

sido poupada.

— Quer dizer que nós iremos a Regent Gate amanhã às onze —

perguntei.

— Nós?

Poirot arqueou as sobrancelhas com ar irônico.

— Poirot! — exclamei. — Não vá me deixar de lado. Sempre ando

junto com você.

— Ainda se fosse um crime, um caso misterioso de envenenamento,

um assassinato.., vá lá! São essas coisas que deliciam sua alma. Mas

uma simples questão de acordo social?

— Nem mais uma palavra — declarei, resoluto. — Eu irei.

Poirot riu discretamente, e nesse instante foi anunciada a presença

de um cavalheiro à sua procura. Para nossa grande surpresa, o visitante

era nada menos que Bryan Martin.

De dia, o ator aparentava mais idade. Ainda era bonito, mas com

uma espécie de beleza em ruínas. Ocorreu-me que seria bem provável

que fosse viciado em drogas. Havia qualquer coisa de tenso em sua

conduta que admitia essa possibilidade.

— Bom dia, M. Poirot — saudou jovial. — Pelo que vejo, o senhor e o

Capitão Hastings tomam café de manhã cedo. Por falar nisso, imagino

que esteja muito ocupado de momento?

Poirot sorriu-lhe, todo afável.

— Não — respondeu. — De momento não tenho praticamente

nenhum assunto importante a tratar.

— Ora, vamos — retrucou Bryan com uma risada. — Não foi

requisitado pela Scotland Yard? Nenhum caso melindroso a investigar por

ordem da Coroa? Mal posso acreditar.

— O amigo confunde a ficção com a realidade — disse Poirot

sorrindo. — Asseguro-lhe que estou completamente sem trabalho de

momento, embora ainda não precise recorrer a esmolas, Dieu merci.

— Bem, tanto melhor pra mim — replicou Bryan com outra risada.

— Talvez aceite o que venho lhe propor.

Poirot considerou o rapaz, pensativo.

— Traz um problema pra eu resolver... é isso? — perguntou após

alguns instantes.

— Olhe... o negócio é o seguinte. Trago e não trago.

Desta vez o riso saiu um pouco nervoso. Sempre observando-o com

ar pensativo, Poirot indicou uma poltrona. O rapaz sentou, de frente para

nós, pois eu me instalara ao lado de meu amigo.

— E agora — disse Poirot, — explique tudo em detalhes.

Bryan Martin ainda parecia encontrar certa dificuldade cm abordar

o assunto.

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— A questão é que não posso contar-lhe tudo por enquanto —

hesitou. — É difícil. A coisa começou na América, sabe.

— Ah, na América?

— Um simples acaso foi que me chamou a atenção. Pra dizer a

verdade, eu estava viajando de trem e reparei num determinado

indivíduo... um sujcitinho feio, bem barbeado, de óculos, e com um dente

de ouro.

— Ah! Um dente de ouro.

— Exatamente. Esse é, de fato, o ponto crucial do problema.

Poirot sacudiu diversas vezes a cabeça.

— Começo a perceber. Continue.

— Bem, como eu ia dizendo, simplesmente reparei no sujeito. Eu

estava, a propósito, viajando pra Nova York. Seis meses mais tarde, me

encontrando em Los Angeles, notei de novo o mesmo indivíduo. Não sei

por que... mas notei. Até aí, nada de mais.

— Prossiga.

— Um mês depois, tive ocasião de ir a Seattle; e logo que cheguei

lá, quem havia de encontrar outra vez senão o meu amigo, só que desta

vez de barba.

— Realmente, é curioso.

— Não é? Claro, na hora não imaginei que tivesse qualquer coisa a

ver comigo, mas quando revi o mesmo sujeito em Los Angeles, sem

barba, em Chicago, de bigode e sobrancelhas diferentes, e num lugarejo

montanhoso, disfarçado de maltrapilho... ora, comecei a desconfiar.

— Lógico.

— E finalmente... bem, pode parecer esquisito, mas não resta a

mínima dúvida. Eu estava sendo, como se diz, seguido.

— Fantástico.

— Não é? A partir de então, tive certeza. Aonde quer que eu fosse,

lá, num canto qualquer, surgia a minha sombra, usando os disfarces mais

diferentes. Ainda bem que, devido ao dente de ouro, sempre conseguia

identificá-lo.

— Ah! Esse dente de ouro; eis aí um detalhe realmente afortunado.

— De fato.

— Desculpe, M. Martin, mas o senhor nunca falou com o homem?

Pra lhe perguntar o motivo dessa persistente vigilância?

— Não falei, não — o ator hesitou. — Pensei em fazê-lo umas duas

vezes, mas sempre acabava mudando de idéia. Me pareceu que serviria

apenas pra deixá-lo de sobreaviso, sem nada me adiantar.

Provavelmente, depois que descobrissem que tinha sido identificado,

colocariam outro na pista... alguém que eu não reconhecesse.

En effet... alguém sem aquele dente de ouro tão propício.

— Exato. Talvez me engane, mas foi o que deduzi.

— Agora, M. Martin, o senhor há pouco referiu-se a “eles”. Que quer

dizer com isso?

— Falei assim, por falar. Usei o termo sem pensar. Presumo... não

sei por que... que no fundo exista uma entidade nebulosa.

— Tem algum motivo pra crer nisso?

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— Nenhum.

— Quer dizer que não tem a mínima idéia de quem possa estar

interessado em segui-lo nem por que motivo?

— A mínima. A não ser...

Continuez — encorajou Poirot.

— Eu tenho uma idéia — disse Bryan Martin devagar. —Mas note

que é mera suposição de minha parte.

— Às vezes uma suposição pode dar certo, Monsieur.

— Relaciona-se com certo incidente que aconteceu em Londres há

cerca de dois anos. Um incidente insignificante, porém inexplicável e