Tropas em protesto: o ciclo de movimentos reivindicatórios dos policiais militares brasileiros no... por Juniele Rabelo de Almeida - Versão HTML

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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA SOCIAL

JUNIELE RABÊLO DE ALMEIDA

TROPAS EM PROTESTO:

o ciclo de movimentos reivindicatórios dos

policiais militares brasileiros no ano de 1997

V. I

São Paulo

2010

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA SOCIAL

TROPAS EM PROTESTO:

o ciclo de movimentos reivindicatórios dos

policiais militares brasileiros no ano de 1997

Juniele Rabêlo de Almeida

Tese apresentada ao Programa de

Pós-Graduação em História Social

do Departamento de História da

Faculdade de Filosofia, Letras e

Ciências Humanas da Universidade

de São Paulo, para obtenção do

título de doutora em História.

Orientador: Prof. Dr. José Carlos Sebe Bom Meihy

V. I

São Paulo

2010

Almeida, Juniele Rabêlo

2010

Tropas em protesto: o ciclo de movimentos reivindicatórios dos

policiais militares brasileiros no ano de 1997 / Juniele Rabêlo de

Almeida; Orientador José Carlos Sebe Bom Meihy. – São Paulo:

FFLCH/USP, 2010. V. 1. 472 p.

Tese (Doutorado - Programa de Pós-Graduação em História

Social). Departamento de História da Faculdade de Filosofia,

Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

1. Policiais militares, Movimentos reivindicatórios.

2. História Oral, História de vida, Narrativa.

Copyright©2010

Revisão – nova ortografia

Nilma Lima

Projeto Gráfico - Capa

Dorys Marinho

Digitalização dos jornais

Frederico Moura

Ao meu orientador:

professor José Carlos Sebe Bom Meihy, minha enorme gratidão.

Aos meus queridos:

pai e irmão (Dorival e Juliender), por tudo.

À minha mãe, Nanci:

presença eterna, “que se foi sem ir” há vinte anos.

Dedico o trabalho

ao meu sempre companheiro Rodrigo de Almeida.

RESUMO

Este trabalho propõe um estudo sobre o ciclo de movimentos

reivindicatórios dos policiais militares brasileiros, ocorrido ao final do

primeiro semestre do ano de 1997. As manifestações dos praças da Polícia

Militar de Minas Gerais se tornaram um estandarte tático para a ação

coletiva dos PMs de diversas localidades do território nacional. Quatorze

estados integraram o ciclo nacional de protestos: Alagoas, Bahia, Ceará,

Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Paraíba,

Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Sul; e, sem movimento organizado,

São Paulo e Rio de Janeiro.

Narrativas, em história oral de vida, revelaram o diálogo entre as

especificidades regionais e uma cultura policial militar nacionalmente

constituída. Múltiplas questões, para o estudo da história dos movimentos

sociais e da segurança pública no Brasil, foram problematizadas por meio

de quatro redes de análise – que indicam o repertório da ação coletiva

policial militar: 1ª rede) Policiais militares de Minas Gerais: o início do

ciclo de protestos; 2ª rede) Policiais militares de Alagoas, Ceará,

Pernambuco e Pará: conflitos armados e ameaças; 3ª rede) Policiais

militares da Paraíba, Bahia, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul:

acampamentos e negociações; 4ª rede) Policiais militares do Rio Grande

do Sul, Piauí, Goiás, São Paulo e Rio de Janeiro: manifestações

disciplinadas e articulações políticas à margem do ciclo de protestos. A

crise policial militar brasileira representou conjuntura em que elementos

próprios da corporação se desgastaram, mas não o suficiente para minar

as bases institucionais. O trabalho indica possíveis conexões entre uma

cultura policial militar, expressa pelos pilares militarizantes referentes a

valores e normas institucionais, e preceitos relacionados à democratização

que se passa nas sociedades contemporâneas.

Palavras-chave: Polícia Militar; ciclo de protestos; repertório da ação

coletiva; história oral de vida.

ABSTRACT

The purpose of this research is to look at the movement cycle of

Brazilian military police demands which occurred at the end of the first

semester of 1997. The police officers’ protests in Minas Gerais became a

tactical banner for military police collective actions in various parts of

Brazil. Fourteen states participated in the first national protest cycle:

Alagoas, Bahia, Ceará, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas

Gerais, Pará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Sul; and, without

an organized movement, São Paulo and Rio de Janeiro.

Oral life history narratives revealed interactions between specific

state-level military police groups and the nationally constituted

organizational culture of the military police. Multiple issues of social

movements and public safety in Brazil were addressed in four networks:

1st) Military Police in Minas Gerais: the beginning of the protest cycle cycle

of protests; 2nd) Military Police of Alagoas, Ceará, Pernambuco and Pará:

armed conflicts and threats; 3rd) Military Police of Paraíba, Bahia, Mato

Grosso and Mato Grosso do Sul: encampments and negotiations; 4th)

Military Police of Rio Grande do Sul, Piauí, Goiás, São Paulo and Rio de

Janeiro: disciplined demonstrations and political articulation on the

sidelines of the protest cycle. This analysis indicated different repertoires

of collective action by the military police, which damaged the

organizational elements, but not enough to undermine its institutional

foundations. This research indicates possible connections between the

organizational culture of the military police, expressed by the militarized

precepts regarding institutional values and norms, and precepts of

democratization prevalent in modern societies.

Key words: Military Police; protest cycle; repertoire of collective action;

oral life history.

SUMÁRIO

VOLUME I

AGRADECIMENTOS E HISTÓRIA DO PROJETO........................... 11

1 Tropas em movimento .......................................................... 21

1.1 A corporação policial militar......................................................24

1.2 Farda, democracia e imprensa ..................................................28

1.3 Ações coletivas: novos caminhos ............................................31

1.3.1 O repertório da ação coletiva .................................................32

1.3.2 Os ciclos de protestos ..........................................................34

1.4 História oral e memória: policiais militares em protesto ..............35

2 Início do ciclo de protestos:

crise hierárquica em Minas Gerais ........................................... 43

2.1 Passeata, trégua e confronto - Belo Horizonte ............................44

2.2 A Polícia Militar de Minas Gerais ................................................57

2.3 Personagens de um novo repertório da ação coletiva ..................62

2.4 Repercussão: a morte do Cabo Valério e o efeito dominó .............71

3 Conflitos armados e ameaças:

Alagoas, Ceará, Pernambuco e Pará ......................................... 78

3.1 Dia de guerra e queda do governador - Maceió ...........................79

3.2 Governo de Ferro e a política das exclusões - Fortaleza ...............88

3.3 Sequestros e ameaças - Recife ................................................96

3.4 Policiais encapuzados - Belém ................................................ 103

4 Acampamentos e negociações:

Paraíba, Bahia, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul ................ 108

4.1 Acampamento e greve de fome – João Pessoa .......................... 109

4.2 O papel da imprensa – Salvador ............................................ 118

4.3 Disputas pela liderança do movimento – Cuiabá........................ 123

4.4 Policiais e petistas – Campo Grande ........................................ 127

5 Manifestações disciplinadas e articulações à margem do ciclo:

Rio Grande do Sul, Piauí, Goiás; São Paulo e Rio de Janeiro ... 134

5.1 Ordem e frustração – Porto Alegre .......................................... 135

5.2 Governador e PMs em praça pública – Teresina ........................ 142

5.3 Negociações e controle da tropa – Goiânia ............................... 150

5.4 Margem do ciclo de protestos: repercussões midiáticas e articulações

políticas – São Paulo e Rio de Janeiro ........................................... 156

6 Memória coletiva: policiais militares e tempo presente ..... 160

6.1 Origem social e condições de trabalho dos policiais militares ...... 162

6.2 Cultura policial militar e abusos hierárquicos ............................ 169

6.3 Punições corporativas: prisões e exclusões............................... 179

6.4 O debate sobre desmilitarização e a PEC nº 21 ......................... 183

CONSIDERAÇÕES FINAIS ....................................................... 187

ENTREVISTAS E PERIÓDICOS ................................................. 195

BIBLIOGRAFIA ....................................................................... 202

CRÉDITOS DAS FOTOGRAFIAS ................................................ 212

ANEXO .................................................................................... 217

VOLUME II

Narrativas Referenciais

1 Policiais militares de Minas Gerais: “primeira rede” ........... 227

Início do ciclo de protestos

1.1 Sargento Rodrigues (MG) ...................................................... 228

1.2 Cabo Júlio (MG) ................................................................... 239

1.3 Sargento Maurício (MG) ........................................................ 250

1.4 Cabo Marcondes (MG) .......................................................... 258

1.5 Cabo De Sal (MG) ................................................................ 264

1.6 Sargento Bravo (MG) ............................................................ 272

1.7 Sargento Milton (MG) ........................................................... 282

2 Policiais militares de Alagoas, Ceará, Pernambuco e Pará:

"segunda rede” ...................................................................... 294

Conflitos armados e ameaças

2.1 Soldado Simas (AL) .............................................................. 295

2.2 Soldado Elias (AL) ................................................................ 300

2.3 Soldado Barbosa (CE) ........................................................... 306

2.4 Soldado Tupinambá (CE) ...................................................... 311

2.5 Soldado Moisés (PE) ............................................................. 315

2.6 Soldado Cordeiro (PE) .......................................................... 330

2.7 Cabo Élio (PA) ..................................................................... 334

2.8 Cabo Savedras (PA) ............................................................. 344

3 Policiais militares da Paraíba, Bahia, Mato Grosso e Mato Grosso

do Sul: “terceira rede”............................................................ 349

Acampamentos e negociações

3.1 Soldado Onildo (PB) ............................................................. 350

3.2 Sargento Denis (PB) ............................................................. 354

3.3 Cabo Pires (BA) ................................................................... 366

3.4 Soldado Alfeu (BA) ............................................................... 377

3.5 Sargento Delgado (MT) ......................................................... 383

3.6 Cabo Nonato (MT) ................................................................ 389

3.7 Soldado Melo Irmão (MS) ...................................................... 400

3.8 Soldado Souza (MS) ............................................................. 408

4 Policiais militares do Rio Grande do Sul, Piauí, Goiás; São Paulo e

Rio de Janeiro: “quarta rede” ................................................ 416

Manifestações disciplinadas e articulações à margem do ciclo

4.1 Soldado Lucas (RS) .............................................................. 417

4.2 Soldado Giovani (RS) ........................................................... 425

4.3 Cabo Santiago (PI) ............................................................... 430

4.4 Cabo Jarbas (PI) ................................................................... 441

4.5 Soldado Gilberto (GO) ........................................................... 445

4.6 Cabo Wilson (SP) .................................................................. 453

4.7 Soldado Vanderlei (RJ) .......................................................... 462

AGRADECIMENTOS E

HISTÓRIA DO PROJETO

11

O estudo da corporação policial militar e as reflexões sobre história

oral marcaram minha formação acadêmica. Em Belo Horizonte, realizei,

durante a graduação em História, o curso de formação em história oral,

ministrado pela professora Dra. Lucília de Almeida Neves. Sou muito grata

à professora Lucília que sempre acreditou e apoiou este esforço de

pesquisa. Por meio de sua orientação, desenvolvi o projeto de iniciação

científica intitulado Farda e Política, no ano de 2001. O trabalho

evidenciou a dificuldade de se compatibilizar o princípio da igualdade e o

direito de participação, inerentes à democracia, com a especificidade da

categoria policial militar, inserida em uma estrutura organizacional

hierarquizada e rígida.

Ao término do curso de bacharelado, ingressei no Programa de Pós-

Graduação em História da Universidade Federal de Minas Gerais e defendi,

em 2004, na linha de pesquisa História e Culturas Políticas, a dissertação

Um Novo Repertório da Ação Coletiva: movimento reivindicatório dos

praças da Polícia Militar em Belo Horizonte, orientada pelo professor Dr.

Rodrigo Patto Sá Motta, com financiamento do CNPq. Manifesto sinceros

agradecimentos ao professor Rodrigo: pela orientação criteriosa, pelas

sugestões valiosas e por todo o apoio. E, também, a colaboração da

professora Dra. Carla Anastasia que, em um diálogo imprescindível para o

desenvolvimento do trabalho, partilhou o entendimento das noções de

repertório e ciclo da ação coletiva. Ao Dr. Celso Castro, pelos motivadores

comentários sobre a dissertação.

12

Apresento, agora, minha tese de doutoramento em História Social,

na Universidade de São Paulo, sob a orientação do professor Dr. José

Carlos Sebe Bom Meihy, a quem agradeço a confiança, o compromisso, o

entusiasmo e as oportunidades para ampliação dos meus estudos. O

Núcleo de Estudos em História Oral (NEHO/USP) contribuiu enormemente

para as minhas reflexões sobre memória, identidade e narrativa. É uma

honra integrar o NEHO e o conselho editorial da Oralidades: Revista de

História Oral.

Lembro, aqui, a leitura atenta e o incentivo das professoras Dra.

Maria Aparecida de Aquino e Dra. Maria de Lourdes Janotti, integrantes da

banca examinadora de qualificação do trabalho. Ao CNPq, por ter

viabilizado o trabalho por meio da concessão de bolsa.

A todos os amigos que fiz no NEHO registro minha gratidão: Fabíola

Holanda Barbosa, Fernanda Guimarães, Marcel Diego Tonini, Marcela Boni

Evangelista, Marta Gouveia de Oliveira Rovai, Maria Aparecida Blaz

Vasques Amorim, Ricardo Santhiago, Suzana Lopes Salgado Ribeiro,

Valéria Barbosa de Magalhães, Vanessa Generoso e Xênia de Castro

Barbosa. Em especial, os cuidados de: Cida, Fernando, Marcel e Ricardo.

Aos que sempre acreditaram: professores do Departamento de

História da PUC Minas; amigos do Curso de História e do Curso de

Jornalismo do Centro Universitário Newton Paiva. Agradeço a amizade e a

constante interlocução com: Adriane Vidal, Denise Pimenta, Marialice

Emboava, Martha Meniconi, Pedro Krettli, Thábata Alvarenga e Wilson

Avelar. Não poderia deixar de agradecer os meus alunos e ex-alunos do

Centro Universitário Newton Paiva, da Estácio, do UNI-BH e da PUC Minas.

Aos amigos que estiveram sempre comigo, todo o meu afeto!

À grande família pelo carinho: Rabêlos, Almeidas, Bernardes, Prates

e Lyras. Especialmente, aos meus “tios policiais” (Carlos José, Donato e

Leci), pois sempre estive atenta aos vários “casos de polícia” que marcam

os encontros familiares. À Val, Dona Luzinete, Tia Miriam, Marli e Fátima

pelo acolhimento. Aos cunhados, Karine e Rafael, obrigada pela

prestatividade. Ao meu avô Augusto (vô Gusto), por todas as histórias.

13

Ao meu irmão Juliender, por todas as manifestações de admiração e

carinho. Ao meu querido pai, Capitão Dorival, enfatizo minha enorme

gratidão. Com seu auxílio e constante diálogo, a Polícia Militar tornou-se

“mais próxima”. Valeu a preocupação e o esforço amigo com que me

acompanhou mais uma vez. À minha mãe pela presença eterna! Ao

Rodrigo, meu sempre companheiro, pelos planos, pelo amor e o intenso

convívio – agradeço àquele que é meu estímulo, por estar sempre perto.

Agradeço a colaboração dos entrevistados. Para tanto, apresentarei

um breve relato dos nossos encontros no intuito de evidenciar a

participação de cada policial militar. As narrativas que compõem o eixo

desta pesquisa emergiram de entrevistas realizadas com policiais

militares de quatorze estados brasileiros que integraram, no ano de 1997,

o ciclo nacional de protestos: Alagoas, Bahia, Ceará, Goiás, Mato Grosso,

Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Pernambuco, Piauí e Rio

Grande do Sul. Ressalva-se que, apesar de estarem à margem do ciclo de

protestos, entrevistas realizadas com policiais militares dos estados de

São Paulo e Rio de Janeiro foram incluídas nesta pesquisa, frente ao

papel de suas respectivas lideranças nas discussões fomentadas durante

as manifestações por todo o Brasil.

São 47 narrativas (em história oral de vida) de lideranças e

manifestantes que participaram das mobilizações policiais militares.

Destas, aparecem integralmente, no volume II deste trabalho, 30

narrativas selecionadas como “entrevistas referenciais” – colaboradores

que destacaram como eixo narrativo, em suas histórias de vida, a

importância dos movimentos reivindicatórios ocorridos em 1997. Nos

diversos encontros percebi as especificidades regionais (PMs estaduais) e

uma cultura policial militar nacionalmente constituída.

No intuito de expor as relações estabelecidas entre entrevistadora e

entrevistados, devo ressaltar minha origem familiar: filha de um policial

14

militar reformado. Quando iniciei os agendamentos para as entrevistas,

em dezembro de 2006, preferi me apresentar como pesquisadora ligada

ao Núcleo de Estudos em História Oral. Nos agendamentos, estabelecia-

se a relação pesquisadora e policiais militares. Já nos encontros para

entrevista, observei que “ser filha de PM” aproximava os colaboradores,

que flexibilizavam as fronteiras entre o mundo militar e o mundo paisano,

conforme indicou Celso Castro (1990) em seu estudo de Antropologia

Social na Academia Militar das Agulhas Negras. Afinal, para a construção

do espírito militar, afirma-se que os militares são diferentes dos paisanos.

Pude ter acesso a “muitas histórias” que não teria como

pesquisadora paisana distante dos militares. Fui sempre recebida como

uma paisana de tipo especial. Concentrei inicialmente meu esforço de

pesquisa em MINAS GERAIS, por ter sido o estado detonador do ciclo de

protestos. Em janeiro de 2007, eu me encontrei com o Cabo Júlio,

indicado pela imprensa como grande líder da greve dos praças em Belo

Horizonte, em um momento complicado de sua trajetória pública – após o

segundo mandato como Deputado Federal não alcançou a reeleição. A

partir dele, consegui contato com: Sargento Maurício, Cabo

Marcondes, Cabo Jacinto, Sargento Edmundo e Cabo De Sal: todos

participantes da greve de 1997, expulsos da corporação em 1998 e

“anistiados” em 1999 (reintegração ao Corpo de Bombeiro Militar de Minas

Gerais). Ainda em Minas Gerais, entrevistei o Sargento Rodrigues –

Deputado Estadual em seu terceiro mandato após liderar, juntamente com

Cabo Júlio, a greve mineira. Rodrigues solicitou que eu entrevistasse o

Sargento Bravo e o Sargento Milton, afirmando que ambos

acompanharam

efetivamente

o

movimento

de

1997

e

seus

desdobramentos. Todos se dispuseram prontamente a narrar suas

histórias de vida, principalmente por terem sido indicados pelo Cabo Júlio

e pelo Sargento Rodrigues como “parte daquela história”.

No RIO GRANDE DO SUL, ao final do mês de julho de 2007,

contatei o Soldado Leonel – integrante do movimento grevista dos

praças na cidade de Porto Alegre e atual presidente da Associação dos

15

Cabos e Soldados da Brigada Militar – ACSBM/RS. Tomando chimarrão,

Leonel Lucas – conhecido como “presidente” – me recebeu como

convidada de honra na sede da Associação. Entusiasmado, rememorou

suas experiências de vida e indicou três companheiros para narrar suas

histórias: Soldado Agra, Soldado Giovani e Soldado Paim. Em todos

os estados, apresentei para cada entrevistado o projeto de pesquisa. As

entrevistas foram sempre agendadas previamente, a partir das indicações

dos “entrevistados referenciais”, o que possibilitava ao narrador reflexões

prévias sobre “o que” dizer e “como” gostaria de registrar suas

experiências.

Em janeiro de 2008, segui rumo ao nordeste para entrevistar os

policiais militares do Ceará, Paraíba, Pernambuco e Alagoas. As

“Associações Representativas dos Policiais Militares” prepararam reuniões

para que fosse apresentado o projeto de pesquisa (com posterior

divulgação nos jornais internos). Atribuo essa recepção à ênfase dada,

durante os agendamentos, ao estabelecimento de preceitos éticos na

relação com o entrevistado por meio da colaboração – interação entre os

sujeitos envolvidos para a constituição da narrativa.

Em PERNAMBUCO, fui recebida pelo Soldado Cordeiro,

coordenador da Associação dos Cabos e Soldados – ACS/PE, que afirmou,

durante a sua entrevista, as dificuldades enfrentadas pelos policiais

manifestantes de 1997, na cidade do Recife. Ele indicou os demais

narradores pernambucanos: Soldado Santos, Soldado José Ricardo,

Soldado Renílson e o atual Deputado Estadual Soldado Moisés.

Soldado Moisés me recebeu em seu gabinete na Assembleia Legislativa de

Pernambuco e enfatizou, em “tom heróico”, a sua participação na

construção da Associação dos Cabos e Soldados, a luta por melhores

salários na greve de 1997 e a sua atual carreira de Deputado Estadual.

No estado de ALAGOAS, conversei com o Soldado Simas,

presidente da Associação dos Cabos e Soldados – ACS/AL; e vice-

presidente da Associação Nacional de Entidades Representativas de Praças

Militares Estaduais – ANASPRA. Como integrante do movimento grevista

16

dos praças, ocorrido na cidade de Maceió, no ano de 1997, a narrativa do

Soldado Simas foi marcada pelo desejo de apresentar a crise que

provocou o afastamento do Governador Divaldo Suruagy (PMDB), após o

choque entre PMs manifestantes e soldados do Exército, em frente à

Assembleia de Alagoas, no dia 17 de julho de 1997. Conversei, ainda, com

o Soldado Barboza (que enfatizou a cultura da pistolagem na Polícia

Militar de Alagoas) e com o Subtenente Heleno (atual presidente da

Associação de Sargentos e Subtenentes), ambos indicados por Simas. As

indicações

minimizaram,

em

cada

rede

formada,

as

possíveis

desconfianças dos entrevistados.

No CEARÁ, contei com a ajuda da Associação dos Praças Militares –

ASPRAMECE, em especial do presidente Soldado Queiroz que organizou

um encontro coletivo e indicou os seguintes entrevistados: Soldado

Tupinambá, Soldado Josué e Soldado Barbosa – policiais militares

expulsos após a greve de 1997 e não anistiados. As manifestações na

cidade de Fortaleza foram duramente reprimidas pelo governador à época,

Tasso Jereissati, que ordenou a prisão dos líderes do movimento e

anunciou a expulsão imediata de 70 soldados.

Na PARAÍBA, encontrei-me com o Sargento Denis, considerado o

líder do movimento de 1997 na cidade de João Pessoa. Após a greve,

Sargento Denis foi duas vezes eleito Deputado Estadual da Paraíba. Hoje,

filiado ao PV, concedeu a entrevista em sua casa, na Praia de Cabedelo, e

indicou dois narradores: Sargento Wallace e Sargento Onildo. Os dois

“entrevistados indicados” destacaram a participação no movimento e

indicaram, principalmente, a angústia que eles e suas famílias passaram

com as punições disciplinares. Nas entrevistas foram perceptíveis as

negociações entre as memórias pessoais e a memória coletiva sobre o

movimento.

Em Belém do PARÁ, conversei com Feliciana Mota, presidente da

Associação de Mulheres e Familiares dos Militares do Pará, que

atenciosamente me colocou em contato com o Cabo Élio, excluído da

corporação, por dez anos, após liderar o movimento paraense em 1997.

17

Élio conseguiu, depois de inesgotáveis esforços jurídicos, ser reintegrado à

PMPA no ano de 2007. Ainda no Pará, encontrei o Cabo Savedras,

integrante entusiasmado das manifestações de Belém. Savedras destacou

o “efeito dominó” dos protestos policiais militares, indicando Minas Gerais

como “estado detonador”.

No mês de janeiro de 2009, iniciei as entrevistas da região centro-

oeste. No MATO GROSSO, fui recebida pelo Soldado Gervaldo,

presidente da Associação de Cabos e Soldados – ACS/MT. Os

“entrevistados referenciais” – Sargento Delgado e Cabo Nonato –

disputaram a liderança das manifestações em Cuiabá. Representaram

forças divergentes dentro do movimento, conforme indicam as narrativas.

As brigas políticas, relacionadas à consolidação ou construção de

Associações de Praças ficaram evidentes.

Em Campo Grande, MATO GROSSO DO SUL, fui ao encontro do

Soldado Melo Irmão, atual presidente da Associação de Cabos e

Soldados

ACS/MS

e

da

Associação

Nacional

de

Entidades

Representativas de Praças Militares Estaduais – ANASPRA. Melo Irmão foi

referenciado como o principal articulador do movimento. Conversei ainda

com o Soldado Souza e com o Soldado Amauri que participaram

ativamente das ações reivindicatórias de 1997.

Em abril de 2009 realizei entrevistas com os policiais manifestantes

da BAHIA. Em Salvador, contatei o Cabo Pires – presidente da

Associação dos Praças da PMBA à época. Cabo Alfeu e Soldado Jackson

foram indicados por Oscar Pires como principais participantes do

movimento de 1997. No mês de julho de 2009, procurei, em Teresina,

Cabo Santiago – considerado o líder dos praças em 1997. Santiago,

hoje, atua na Guarda do Palácio Karnak, sede oficial do Governo do

PIAUÍ. Contatei também o Cabo Jarbas, atual presidente da Associação

Beneficente dos Cabos e Soldados – ABECS/PI. Jarbas indicou os policiais:

Soldado Benevides e Sargento Lima, participantes das manifestações

grevistas.

18

Em agosto de 2009, pude entrevistar, em SÃO PAULO, o Cabo

Wilson, presidente da Associação de Cabos e Soldados da Polícia Militar

do Estado de São Paulo – ACSPMESP. Neste estado não ocorreram

manifestações públicas, a negociação salarial evidenciou articulações

políticas diretas entre Cabo Wilson e o Governador Mário Covas. A

negociação vitoriosa gerou, em 1998, a convite de Mário Covas, a

candidatura de Cabo Wilson (deputado estadual). Cabo Wilson é um dos

poucos que não acreditam na greve como forma de pressão. Em setembro

de 2009, contatei o Soldado Gilberto, presidente da Associação de

Cabos e Soldados de GOIÁS – ACS/GO. Soldado Gilberto liderou e

manteve “sob controle” as manifestações na cidade de Goiânia.

Finalmente, em novembro de 2009, entrevistei o Soldado Vanderlei –

presidente da Associação dos Praças da Polícia Militar do RIO DE

JANEIRO – ASPRA/RJ. Conversei, também, com o Soldado Vieira.

Ambos afirmaram a inexistência de movimentos grevistas no estado do

Rio de Janeiro no ano de 1997. Entretanto, as entrevistas indicaram

manifestações isoladas dos PMs cariocas em solidariedade à morte do

Cabo Valério (policial mineiro morto na manifestação do dia 24 de junho

de 1997).

As memórias narradas revelaram múltiplas experiências dos policiais

militares brasileiros que integraram o ciclo nacional de protestos do ano

de 1997. As narrativas estão catalogadas (total de 47 entrevistas) e

disponíveis no Núcleo de Estudos em História Oral da Universidade de São

Paulo/NEHO-USP.

Agradeço aos funcionários das diversas Associações Policiais

Militares pela recepção, agendamento das entrevistas e por colocar à

minha disposição valiosa documentação sobre os movimentos de 1997.

São elas: Associação Nacional de Entidades Representativas de Praças

Militares Estaduais – ANASPRA, Associação dos Praças Policiais e

Bombeiros de Minas Gerais – ASPRA/MG, Associação dos Cabos e

Soldados da Brigada Militar do Rio Grande do Sul – ACSBM/RS, Associação

dos Cabos e Soldados de Pernambuco – ACS/PE, Associação dos Cabos e

19

Soldados de Alagoas – ACS/AL, Associação dos Praças Militares do Ceará –

ASPRAME/CE, Associação das Mães, Mulheres e Amigos dos Policiais

Militares da Paraíba – AMMA/PB, Associação de Mulheres e Familiares dos

Militares do Pará – AMFM/PA, Associação de Cabos e Soldados do Mato

Grosso – ACS/MT, Associação de Cabos e Soldados do Mato Grosso do Sul

– ACS/MS, Associação Beneficente dos Cabos e Soldados do Piauí –

ABECS/PI, Associação de Cabos e Soldados da Polícia Militar do Estado de

São Paulo – ACSPMESP, Associação de Cabos e Soldados de Goiás –

ACS/GO, Associação dos Praças da Polícia Militar do Rio de Janeiro –

ASPRA/RJ.

Pelo acesso aos arquivos, agradeço os jornais: Correio do Povo,

Correio do Estado, Correio da Paraíba, Diário da Tarde, Diário de

Pernambuco, Diário do Povo, Diário do Nordeste, Estado de Minas, Folha

de São Paulo, Estado de São Paulo, Gazeta de Alagoas, Gazeta do Povo,

Gazeta Mercantil, Hoje em Dia, Jornal do Brasil, Jornal do Comércio,

Jornal da Paraíba, O Globo, O Liberal, O Norte, O Popular, O Povo, O

Tempo, Tribuna do Ceará, Zero Hora.

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1 Tropas em movimento