Um Amor Conquistado: O Mito do Amor Materno por Elisabeth Badinter - Versão HTML

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UM AMOR CONQUISTADO:

O MITO DO AMOR MATERNO

Elisabeth Badinter

http://groups-beta.google.com/group/digitalsource

Um amor conquistado

Sinopse

Será o amor materno um instinto, uma tendência feminina inata, ou depende, em grande

parte, de um comportamento social, variável de acordo com a época e os costumes? É essa a

pergunta que Elisabeth Badinter procura responder neste livro, desenvolvendo para isso uma

extensa pesquisa histórica, lúcida e desapaixonada, da qual resulta a convicção de que o instinto

materno é um mito, não havendo uma conduta materna universal e necessária.

Ao contrário, a autora constata a extrema variabilidade desse sentimento, segundo a

cultura, as ambições ou as frustrações da mãe. Não pode então fugir à conclusão de que o amor

materno é apenas um sentimento humano como outro qualquer e como tal incerto, frágil e

imperfeito. Pode existir ou não, pode aparecer e desaparecer, mostrar-se forte ou frágil, preferir

um filho ou ser de todos. Contrariando a crença generalizada em nossos dias, ele não está

profundamente inscrito na natureza feminina. Observando-se a evolução das atitudes maternas,

verifica-se que o interesse e a dedicação à criança não existiram em todas as épocas e em todos os

meios sociais. As diferentes maneiras de expressar o amor vão do mais ao menos, passando pelo

nada, ou quase nada.

O amor materno não constitui um sentimento inerente à condição de mulher, ele não é

um determinismo, mas algo que se adquire. Tal como o vemos hoje, é produto da evolução social

desde princípios do século XIX, já que, como o exame dos dados históricos mostra, nos séculos

XVII e XVIII o próprio conceito do amor da mãe aos filhos era outro: as crianças eram

normalmente entregues, desde tenra idade, às amas, para que as criassem, e só voltavam ao lar

depois dos cinco anos. Dessa maneira, como todos os sentimentos humanos, ele varia de acordo

com as flutuações sócioeconômicas da história.

São essas as conclusões a que chega Elisabeth Badinter neste seu controvertido estudo,

que vendeu, quando de seu lançamento na França, mais de meio milhão de exemplares.

1

1 Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a intenção de facilitar

o acesso ao conhecimento a quem não pode pagar e também proporcionar aos Deficientes Visuais a

oportunidade de conhecerem novas obras.

Se quiser outros títulos nos procure http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros, será um prazer recebê-

lo em nosso grupo

Elisabeth Badinter

Um Amor Conquistado: o Mito do Amor Materno

Tradução: WALTENSIR DUTRA

EDITORA: NOVA FRONTEIRA

Título original: L'AMOUR EN PLUS © 1980, FLAMMARION, Paris

Direitos de edição da obra em língua portuguesa, no Brasil, adquiridos pela EDITORA

NOVA FRONTEIRA S/A

Rua Bambina, 25 - Botafogo - CEP: 22.251 - Tel.: 286-7822

Endereço Telegráfico: NEOFRONT - Telex: 34695 ENFS BR

Rio de Janeiro, RJ.

Revisão de tradução: MARIA LUÍSA X. DE A. BORGES

Revisão tipográfica: WILSON CHAVES, CANTALICE MARIA OLIVEIRA LIMA E MARIA

ADELAIDE DE AMORIM OLIVEIRA

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

Badinter, Elisabeth. B126a Um Amor conquistado: o mito do amor materno.. Elisabeth

Badinter; tradução de Waltensir Dutra. — Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

Tradução de: L'Amour en plus

1. Amor materno I. Filosofia francesa..Dutra, Waltensir II. Título

85-0655

CDD — 194 649.1 173

AGRADECIMENTOS

Este livro é o resultado de um seminário realizado durante dois anos na Escola

Politécnica. Isso significa que ele deve muito à paciência e ao humor dos meus alunos. A eles

dedico portanto esta obra, que prolongadamente "maternaram" comigo.

SUMÁRIO

Prefácio à edição de bolso – 9

Prefácio - 19

I. O AMOR AUSENTE - 25

1. O longo reinado da autoridade paterna e marital - 29

2. A condição da criança antes de 1760 - 53

3. A indiferença materna - 85

II. UM NOVO VALOR: O AMOR MATERNO - 145

1. Em defesa da criança - 149

2. A nova mãe - 201

III. O AMOR FORÇADO - 237

1. O discurso moralizador herdado de Rousseau, ou "Sophie, suas filhas e suas netas" –

241

.2. O discurso médico herdado de Freud - 295

3. As distorções entre o mito e a realidade - 331

PARAÍSO PERDIDO OU REENCONTRADO? – 367

PREFÁCIO À EDIÇÃO DE BOLSO

A julgar pelas reações apaixonadas que este livro provocou — e que me surpreenderam,

confesso —, a maternidade é, ainda hoje, um tema sagrado. Continua difícil questionar o amor

materno, e a mãe permanece, em nosso inconsciente coletivo, identificada a Maria, símbolo do

indefectível amor oblativo.

Se numerosos leitores manifestaram-me a sua simpatia, se certos especialistas das

disciplinas relacionadas expressaram interesse, ou aprovação, recebi em compensação certo

número de críticas, todas voltadas para a mesma questão: tem o filósofo o direito de estabelecer a

existência ou a inexistência de um instinto, seja ele qual for? Não se deve deixar ao biólogo a

tarefa de responder a essa pergunta? Alguns leitores, lembrando-se de que biólogos eminentes já

se haviam manifestado pelo reexame global da problemática do instinto no homem, fizeram-me

saber que meu trabalho não tinha mais grande interesse. Outros, pelo contrário, que consideram

o problema ainda não resolvido, julgaram impossível tratá-lo sem levar em conta os dois

hormônios da maternidade: a prolactina e a ocitocina. Outros, ainda, acharam inadmissível usar a

história em apoio de uma tese que não era da competência nem do filósofo, nem do historiador.

Todos esses críticos me acusaram, portanto, de

9

ultrapassar de maneira intolerável os limites de minha disciplina.

Mas, na verdade, quais são os limites da filosofia? E de que serve esse discurso,

especializado em nada e que se ocupa de tudo, senão justamente para questionar de novo as

verdades aceitas e analisar todos os sistemas de pensamento? Pode-se proibir ao filósofo a

reflexão sobre os pressupostos da biologia ou da história, quando sabemos bem que ali se articula

toda a problemática da natureza e da cultura? Por que poderia ele ser considerado inapto para ler

a história, ou para interpretar comportamentos, se dispõe dos mesmos materiais que o

historiador?

É certo que o filósofo não faz avançar a ciência, pois não traz documentos ou fatos

novos à coletividade científica, mas será preciso considerar seu trabalho inexistente se ele

procura, mais modestamente, debelar os preconceitos?

Não obstante, entre todas as críticas que me foram feitas, algumas me pareceram

necessárias e construtivas. Por vezes, pequei por imprecisão ou omissão. Teria sido preciso ceder,

por exemplo, ao prazer de dar à primeira parte o título "O amor ausente"? Tantos leitores

deixaram-se levar por ele — mesmo entre os mais bem-intencionados — que é preciso

reconhecer minha culpa. Eu nunca disse que o amor materno é uma invenção do século XVIII:

em várias ocasiões, neste livro, cheguei a ressaltar o contrário. O título, porém, podia sugerir ao

leitor apressado ser esse o meu propósito. Queria dizer apenas que uma sociedade que não

valoriza um sentimento pode extingui-lo ou sufocá-lo ao ponto de eliminá-lo totalmente em

numerosos corações. E não que tal sociedade tornasse impossível todo amor materno — o que

teria sido um absurdo.

Errei também ao não insistir suficientemente no aspecto predeterminado, universal e

necessário do conceito de instinto. Deveria ter lembrado as definições dos dois dicionários mais

populares. Não para encontrar nelas a expressão final da teoria

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científica, mas para recordar a ideologia comum nessa matéria. Pois, embora muitos

cientistas saibam perfeitamente que o conceito de instinto está caduco, alguma coisa em nós, mais

forte do que a razão, continua a pensar na maternidade em termos de instinto. Teria sido preciso,

portanto, citar a definição do dicionário Robert ("tendência inata e poderosa, comum a todos os

seres vivos ou a todos os indivíduos de uma mesma espécie"), já que contesto ao mesmo tempo o

caráter inato" do sentimento materno e o fato de que seja partilhado por todas as mulheres.

Era preciso lembrar também a definição, ainda mais carregada de pressupostos

ideológicos, do Larousse do século XX (edição de 1971), que descreve o instinto materno como

"uma tendência primordial que cria em toda mulher normal um desejo de maternidade e que,

uma vez satisfeito esse desejo, incita a mulher a zelar pela proteção física e moral dos filhos", pois

acredito que uma mulher pode ser "normal" sem ser mãe, e que toda mãe não tem uma pulsão

irresistível a se ocupar do filho.

Devia, sem dúvida, ter explicitado melhor os postulados filosóficos subjacentes a este

trabalho. Não que tivesse pretendido dissimulá-los e apresentar-me "mascarada". Não me parecia

útil, porém, voltar ao debate que opõe, há tanto tempo, os essencialistas aos filósofos da

contingência, os que acreditam na preeminência do "fundo" aos que se inclinam pela realidade

única da forma... Também nisso errei, pois meus detratores puderam julgar-me inconsciente de

minha própria filosofia, que se apressaram a rebaixar ao nível de um simples militantismo,

enquanto eles mesmos escapavam a toda influência filosófica e detinham o privilégio e a

exclusividade da objetividade científica.

Isso se tornou particularmente claro quando certos historiadores me acusaram de

anacronismo, isto é, de julgar a realidade passada com os olhos de hoje, em nome de valores que

então não circulavam. Um debate clássico, e até ultrapassado.

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Há muito tempo foi reconhecida a impossibilidade de um observador, por mais

circunspecto e cauteloso que seja, despojar-se de seus valores e de suas paixões para ver os outros

com toda a objetividade. Georges Duby lembrou recentemente esta verdade essencial aos seus

colegas historiadores. O desenvolvimento da história quantitativa e a utilização da informática,

diz ele, permite ter materiais mais precisos, mas o historiador os utiliza a serviço de suas paixões e

da ideologia que o domina.1

Uma vez que uns e outros dispõem das mesmas informações, como explicar a

divergência das interpretações, senão pelas divergências de nossas filosofias, ideologias ou

paixões respectivas? Tomemos como exemplo a permanência da criança na casa da ama-de-leite

no século XVIII. Ninguém contesta os números mencionados, a amplitude do fenômeno nas

cidades de média ou grande importância.

Apesar disso, chegamos a interpretações opostas. Há quem pense que as mães urbanas

que enviaram seus bebês para o campo deram com isso uma prova cabal de seu amor materno.

Convencidas das vantagens do ar do campo e da nocividade da urbe, elas teriam sacrificado o seu

desejo de maternagem à saúde da criança. Assim interpretada, a entrega do filho a uma ama-de-

leite para ser criado deixa de ser sinal de desinteresse pela criança afastada, tornando-se ao

contrário, a ilustração suprema do mais puro altruísmo. O amor materno está salvo. Dir-se-á

mesmo que sai engrandecido. Esse sentimento não conhece portanto eclipses, e nada mais

permite colocar em dúvida o instinto do mesmo nome.

Minha interpretação — como a de alguns outros — não revela o mesmo otimismo. Se

podemos admitir que a entrega da criança a uma ama-de-leite tenha sido, para algumas mães, uma

prova de amor ao filho, podemos legitimamente duvidar de que o mesmo tenha ocorrido em

todos os casos. O fato de todas as classes da sociedade urbana — mesmo nas pequenas cidades,

menos "empesteadas" que as grandes — terem utilizado os serviços de amas mercenárias e

aceitado longas separações dos seus bebês parece-me que deve ser interpretado de outra maneira.

Nota de rodapé:

1 Magazine Littéraire, n. 164, set. 1980.

Fim da nota de rodapé.

12

Esse conflito de interpretações encontra-se também em outros níveis de análise. Houve

quem me lembrasse — o que era perfeitamente inútil — que as mães do Antigo Regime não

conheciam as estatísticas de mortalidade das crianças confiadas às amas-de-leite e portanto não

tinham condições de avaliar os danos desse modo de criação. Como, porém, anular a experiência

pessoal de cada mulher, ou das mulheres que lhe eram próximas? Como explicar que uma mulher

que já perdera dois ou três filhos colocados em casa de amas continuasse a enviar os outros filhos

para o mesmo lugar? Graças a Mareei Lachiver, os historiadores dos costumes conhecem bem o

caso de Marie Bienvenue, ama negligente que deixou morrer 31 crianças em cerca de 14 meses...

Que terão pensado as mães dessas crianças, que com freqüência eram das mesmas cidades?

Dizer que as mães não sabiam, dizer que os costumes eram outros e que todas

acreditavam agir no melhor interesse da criança, não será querer eximi-las a qualquer preço de um

"pecado" insuportável: o desinteresse pelo filho? Ora, todo o problema resume-se nisso. Aos

olhos de muitos, não amar um filho é o crime inexplicável. E quem procura mostrar que esse

amor não é indefectível é imediatamente suspeito de ser um insensato, ou um acusador injusto

das mulheres do passado, ou ainda de interpretar propósitos e comportamentos em função de

valores atuais. Numa palavra, de não fazer caso do rigor científico que proibiria inferir, com base

em comportamentos, a existência ou a inexistência de um sentimento. É, porém, reveladora a

constatação de que se é proibido inferir a ausência de amor materno em tal ou qual caso, em

compensação não é proibido postular-se implicitamente a existência e a constância desse mesmo

amor.

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O mal-entendido parece-me ser, antes de mais nada, de ordem metafísica. Portanto, é

exatamente à filosofia que temos de indagar a razão desses conflitos. Os que se recusam a julgar

um sentimento a partir dos comportamentos são partidários de uma filosofia dualista. São os

mesmos que distinguem radicalmente a essência da existência, a realidade da aparência, o fundo

da forma. Aos seus olhos, as formas bem podem se modificar, sem com isso afetar "o fundo" ou

"a essência". Se os comportamentos maternos (as formas) assumem aspectos diferentes, até

mesmo contraditórios, com o correr do tempo, nem assim modificam a realidade "profunda"

desse amor, de alguma forma hipostasiado.

Nessa óptica, torna-se muito difícil chegar à essência do sentimento. Pois se ele se pode

"manifestar" sob formas opostas, sob todas as maneiras possíveis, somos obrigados a reconhecer

que sua essência permanece misteriosa, isto é, indefinível. Parece-me, porém, ser possível

chegarmos a um acordo quanto a uma definição mínima do amor.

Não é ele sempre uma atenção bondosa para com outrem, que se exprime por

pensamentos e gestos? Certamente ninguém pode negar que desejando o bem podemos errar o

alvo e cometer involuntariamente o mal. Seria esse, dizem, o caso dessas mães bem-intencionadas

que enviavam seus bebês para serem criados por amas e não podiam imaginar que estas os

levavam muitas vezes à morte. Se admito esse raciocínio, devo acreditar também que o amor

materno existe quando a mãe não se preocupa mais com o filho dela separado durante vários

anos seguidos?

Não poderíamos pensar que se tivesse havido algum amor materno por ocasião do

nascimento, ele se teria estiolado à falta de cuidados? Será absurdo dizer que à falta de ocasiões

propícias ao apego, o sentimento simplesmente não poderia nascer? Responder-me-ão que

levanto por minha vez a hipótese discutível de que o amor materno não é inato. É exato: acredito

que ele é adquirido ao longo dos dias passados ao lado do filho, e

14

por ocasião dos cuidados que lhe dispensamos. É possível que a ausência do ser amado

estimule nossos sentimentos, mas ainda assim é necessário que estes tenham existido

previamente, e que a separação não se prolongue demasiado. Todos sabem que o amor não se

exprime a todo momento, e que pode perdurar em estado latente. Mas se não se cuida dele, ele

pode se debilitar ao ponto de desaparecer. Se faltarem oportunidades para se exprimir o próprio

amor, se as manifestações do interesse que se tem por outrem são demasiado raras, então se corre

o grande risco de vê-lo morrer.

Quando as mães se separavam de seus filhos por três ou quatro anos, que sentimento

materno podiam experimentar quando voltavam para casa?

Penso, enfim, como os psicanalistas, que não há amor sem algum desejo, e que a

ausência da faculdade de tocar, mimar ou beijar é pouco propícia ao desenvolvimento do

sentimento. Se a criança não está ao alcance de sua mão, como poderá a mãe amá-la? Como

poderá apegar-se a ela?

Mais precisamente, os defensores do amor materno "imutável quanto ao fundo" são

evidentemente os que postulam a existência de uma natureza humana que só se modifica na

"superfície". A cultura não passa de um epifenômeno. Aos seus olhos, a maternidade e o amor

que a acompanha estariam inscritos desde toda a eternidade na natureza feminina. Desse ponto

de vista, uma mulher é feita para ser mãe, e mais, uma boa mãe. Toda exceção à norma será

necessariamente analisada em termos de exceções patológicas. A mãe indiferente é um desafio

lançado à natureza, a a-normal por excelência.

Em princípio, a lei natural não admite nenhuma exceção. Mesmo se substituímos o

conceito de lei (universalidade) pelo de regra (geral), é necessário constatar que há demasiadas

exceções à regra do amor materno para que não sejamos forçados a questionar a própria regra. O

Amor, no reino humano, não é simplesmente uma norma. Nele intervém numerosos fatores que

não a respeitam. Ao contrário do reino animal, imerso na

15

natureza e submetido ao seu determinismo, o humano — no caso, a mulher — é um ser

histórico, o único vivente dotado da faculdade de simbolizar, o que o põe acima da esfera

propriamente animal. Esse ser de desejo é sempre particular e diferente de todos os outros. Que

os biólogos me perdoem a audácia, mas sou dos que pensam que o inconsciente da mulher

predomina amplamente sobre os seus processos hormonais. Aliás, sabemos que a amamentação

no seio e os gritos do recém-nascido estão longe de provocar em todas as mães as mesmas

atitudes.

Parece-me que devemos deixar a universalidade e a necessidade aos animais e admitir

que a contingência e o particular são o apanágio do homem. A contingência dos comportamentos

e dos sentimentos é o seu fardo, mas também a única falha pela qual se exprime sua liberdade.

Hoje, uma mulher pode desejar não ser mãe: trata-se de uma mulher normal que exerce a sua

liberdade, ou de uma enferma no que concerne às normas da natureza? Não teremos, com

excessiva freqüência, tendência a confundir determinismo social e imperativo biológico? Os

valores de uma sociedade são por vezes tão imperiosos que têm um peso incalculável sobre os

nossos desejos. Por que não poderíamos admitir que quando não é valorizado por uma

sociedade, e portanto não valoriza a mãe, o amor materno não é mais necessariamente desejo

feminino?

A voz do ventre? Mas só hoje começamos a perceber como o desejo de ter um filho é

complexo, difícil de precisar e de isolar de toda uma rede de fatores psicológicos e sociais.

À idéia de "natureza feminina", que cada vez consigo ver menos, prefiro a de uma

multiplicidade de experiências femininas, todas diferentes, embora mais ou menos submetidas

aos valores sociais cuja força calculo. A diferença entre a fêmea e a mulher reside exatamente

nesse "mais ou menos" de sujeição aos determinismos. A natureza não sofre tal contingência e

essa originalidade nos é própria.

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A sobrevivência da espécie exige sem dúvida que façamos filhos, mas quem nos poderá

obrigar a obedecer à santa natureza? A fêmea, esta não tem escolha... Hoje, já não podemos

admitir como inevitável que a mulher tenha filhos. Nem mesmo que os ame, quando os teve. Mas

isso, em contrapartida, não é novidade, embora seja sempre visto como um escândalo.

Escândalo em relação à idéia generalizada de que a natureza é "boa", de que nada faz em

vão, etc. Idéia que nos remete a uma filosofia finalista, que encontra sua realização numa

teodicéia, mesmo que não o confesse. Pois não é fácil sustentar que a natureza faz bem as coisas.

Sua obra não está livre de defeitos. E para impor essa idéia é preciso defender duramente a sua

causa que, para muitos, é a causa de Deus. Todo o problema consiste em demonstrar que

vivemos no melhor mundo possível, o que, afinal de contas, não é evidente.

É em virtude dessa "natureza boa" que se formula o seguinte silogismo: dado que a

espécie sobrevive e que o amor materno é necessário a essa sobrevivência, o amor materno existe

necessariamente. Quanto a mim, estou convencida de que o amor materno existe desde a origem

dos tempos, mas não penso que exista necessariamente em todas as mulheres, nem mesmo que a

espécie só sobreviva graças a ele. Primeiro, qualquer pessoa que não a mãe (o pai, a ama, etc.)

pode "maternar" uma criança. Segundo, não é só o amor que leva a mulher a cumprir seus

"deveres maternais". A moral, os valores sociais, ou religiosos, podem ser incitadores tão

poderosos quanto o desejo da mãe. É certo que a antiga divisão sexual do trabalho pesou muito

na atribuição das funções da "maternagem" à mulher, e que, até ontem, esta se afigurava o mais

puro produto da natureza. Será preciso lembrar também que em outras sociedades — e não das

menores — a "boa natureza maternal" tolerava que se matassem as crianças do sexo feminino ao

nascer?

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Se é indiscutível que uma criança não pode sobreviver e desenvolver-se sem uma

atenção e cuidados maternais, não é certo que todas as mães humanas sejam predestinadas a

oferecer-lhe esse amor de que ela necessita. Não parece existir nenhuma harmonia

preestabelecida nem interação necessária entre as exigências da criança e as respostas da mãe.

Nesse domínio, cada mulher é um caso particular. Algumas sabem compreender, outras menos, e

outras ainda nada compreendem. E talvez aí esteja o mal metafísico, uma das causas essenciais da

infelicidade humana. Mas será possível pensar em fugir desse mal negando sua existência?

É verdade que a contingência do amor materno suscita uma terrível angústia em todos

nós. Incerteza insuportável que põe novamente em questão nosso conceito de natureza, ou nossa

fé em Deus. Como pode o melhor dos mundos incluir, além do mal físico, moral e metafísico, a

ausência possível do amor da mãe? Os crentes, e os amantes do determinismo natural e da ordem

que o acompanha, dificilmente são capazes de admiti-lo.

Não será, porém, chegado o momento de abrir os olhos para as perturbações que

contradizem a norma? E mesmo que essa tomada de consciência da contingência ameace nosso

conforto, não será necessário levá-la finalmente em conta para redefinir nossa concepção do

amor materno? Isso nos proporcionará uma melhor compreensão da maternidade, benéfica tanto

para a criança como para a mulher.

A esse debate filosófico de grande importância, toda mulher — mãe ou não — está

convidada. Neste momento, é a todas elas que cabe testemunhar, ouvir e julgar...

julho de 1981

ELISABETH BADINTER

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PREFÁCIO

1780: o tenente de polícia Lenoir constata, não sem amargura, que das 21 mil crianças

que nascem anualmente em Paris, apenas mil são amamentadas pela mãe. Outras mil,

privilegiadas, são amamentadas por amas-de-leite residentes. Todas as outras deixam o seio

materno para serem criadas no domicílio mais ou menos distante de uma ama mercenária.

São numerosas as crianças que morrerão sem ter jamais conhecido o olhar da mãe. As

que voltarão, alguns anos mais tarde, ao teto familiar, descobrirão uma estranha: aquela que lhes

deu à luz. Nada prova que esses reencontros tenham sido vividos com alegria, nem que a mãe

tenha se apressado em saciar uma necessidade de ternura que hoje nos parece natural.

Lendo os números do tenente de polícia da capital, não podemos deixar de fazer uma

pergunta: como explicar esse abandono do bebê numa época em que o leite e os cuidados

maternos representam para ele uma maior possibilidade de sobrevivência? Como justificar

tamanho desinteresse pelo filho, tão contrário aos nossos valores atuais? As mulheres do Antigo

Regime terão agido sempre assim? Por que razões a indiferente do século XVIII transformou-se

em mãe coruja nos séculos XIX e XX? Estranho fenômeno, essa variação das atitudes

19

maternas, que contradiz a idéia generalizada de um instinto próprio tanto da fêmea

como da mulher!

O amor materno foi por tanto tempo concebido em termos de instinto que acreditamos

facilmente que tal comportamento seja parte da natureza da mulher, seja qual for o tempo ou o

meio que a cercam. Aos nossos olhos, toda mulher, ao se tornar mãe, encontra em si mesma

todas as respostas à sua nova condição. Como se uma atividade pré-formada, automática e

necessária esperasse apenas a ocasião de se exercer. Sendo a procriação natural, imaginamos que

ao fenômeno biológico e fisiológico da gravidez deve corresponder determinada atitude maternal.

A procriação não teria sentido se a mãe não completasse sua obra assegurando, até o

fim, a sobrevivência do feto e a transformação do embrião num indivíduo acabado. Essa

convicção é corroborada pelo uso ambíguo do conceito de maternidade que remete ao mesmo

tempo a um estado fisiológico momentâneo, a gravidez, e a uma ação a longo prazo: a mater-

nagem e a educação. A função materna, levada ao seu limite extremo, só terminaria quando a mãe

tivesse, finalmente, dado à luz um adulto.

Desse ponto de vista, é difícil explicar as falhas do amor materno, como essa frieza e

essa tendência ao abandono que surgem na França urbana do século XVII e se generalizam no

século seguinte. Para esse fenômeno, devidamente constatado pelos historiadores, encontraram-

se várias justificativas econômicas e demográficas. O que equivale a dizer que o instinto da vida

suplanta o instinto materno. Reconheceu-se, no máximo, que ele é flexível e talvez sujeito a

eclipses.

Essa concessão suscita várias questões: que é um instinto que se manifesta em umas e

não em outras? Devemos considerar "anormais" todas as que o desconhecem? E que pensar de

um comportamento patológico que atinge tantas mulheres de condições diferentes e dura há

séculos?

20

Há mais de trinta anos uma filósofa, Simone de Beauvoir, questionou o instinto

materno. Psicólogos e sociólogos, em sua maior parte mulheres, fizeram o mesmo. Mas como

essas mulheres eram feministas, fingiu-se acreditar que sua inspiração era mais militante do que

científica. Em lugar de discutir seus trabalhos, foram muitos os que ironizaram a esterilidade

voluntária de uma, a agressividade e avirilidade da outra.

Quanto aos estudos sobre as sociedades "primitivas", evitou-se extrair deles as

conclusões necessárias. Tão distantes, tão pequenas, tão arcaicas! Que em algumas delas o pai seja

mais maternal do que a mãe, ou que as mães sejam indiferentes e até cruéis, não modificou

realmente a nossa visão das coisas. Não soubemos, ou não quisemos, aproveitar essas exceções

para pôr em questão a nossa própria norma.

É certo que há algum tempo os conceitos de instinto e de natureza humana perderam o

prestígio. Examinando-se de perto a questão, torna-se difícil encontrar atitudes universais e

necessárias. E como os próprios etologistas renunciaram a falar de instinto ao se referirem ao

homem, estabeleceu-se um consenso entre os intelectuais para lançar o vocábulo à lixeira dos

conceitos. Assim, o instinto materno não está mais em circulação. Não obstante, rejeitado o

vocábulo, resta uma idéia bastante tenaz da maternidade, que apresenta notável semelhança com

o antigo conceito abandonado.

Mesmo reconhecendo que as atitudes maternas não pertencem ao domínio do instinto,

continua-se a pensar que o amor da mãe pelo filho é tão forte e quase geral que provavelmente

deve alguma coisinha à natureza. Mudou-se o vocabulário, mas conservaram-se as ilusões.

Serviram-nos de conforto, nesse sentido, notadamente os estudos dos etologistas sobre

o comportamento de nossas primas em segundo grau, as macacas superiores, com os seus filhos.

Alguns julgaram poder tirar desses estudos conclusões sobre as atitudes das mulheres. Sendo

essas macacas tão parecidas conosco, devia-se concluir que éramos iguais a elas...

21

Houve quem aceitasse de bom grado esse parentesco, principalmente porque

substituindo-se o conceito de instinto (que era abandonado às macacas) pelo de amor materno

tomava-se uma aparente distância da animalidade. O sentimento materno parece menos

mecânico ou automático do que o instinto. Sem ver sua contrapartida, a contingência do amor,

nosso orgulho de humanóide ficou satisfeito.

Na realidade, a contradição nunca foi maior. Pois se abandonamos o instinto em

proveito do amor, conservamos neste as características do outro. Em nosso espírito, ou antes em

nosso coração, continuamos a pensar o amor materno em termos de necessidade. E apesar das

intenções liberais, vemos sempre como uma aberração, ou um escândalo, a mãe que não ama seu

filho. Estamos prontos a tudo explicar e justificar de preferência a admitir o fato em sua

brutalidade. No fundo de nós mesmos, repugna-nos pensar que o amor materno não é

indefectível. Talvez porque nos recusemos a questionar o amor absoluto de nossa própria mãe...

A história do comportamento materno das francesas nos quatro últimos séculos não é

muito reconfortante. Ela mostra não só uma grande diversidade de atitudes e de qualidade de

amor, mas também longos períodos de silêncio. Alguns dirão talvez que palavras e

comportamentos não revelam todo o fundo do coração e que resta algo de indizível, que nos

escapa. A estes, somos tentados a responder com a frase de Roger Vail-land: "Não há amor, há

apenas provas de amor." Então, se faltam provas, por que não deduzir as conseqüências dessa

falta?

O amor materno é apenas um sentimento humano. E como todo sentimento, é incerto,

frágil e imperfeito. Contrariamente aos preconceitos, ele talvez não esteja profundamente inscrito

na natureza feminina. Observando-se a evolução das atitudes maternas, constata-se que o

interesse e a dedicação à criança se manifestam ou não se manifestam. A ternura existe ou não

22

existe. As diferentes maneiras de expressar o amor materno vão do mais ao menos,

passando pelo nada, ou o quase nada. Convictos de que a boa mãe é uma realidade entre outras,

partimos à procura das diferentes faces da maternidade, mesmo as que hoje são rejeitadas,

provavelmente porque nos amedrontam.

23

PRIMEIRA PARTE

O AMOR AUSENTE

Para estudar a evolução das atitudes maternas e compreender-lhe as razões não basta

nos atermos às estatísticas da mortalidade infantil ou aos testemunhos de uns e outros. A mãe, no

sentido habitual da palavra (isto é, a mulher casada que tem filhos legítimos),1 é uma personagem

relativa e tridimensional. Relativa porque ela só se concebe em relação ao pai e ao filho.

Tridimensional porque, além dessa dupla relação, a mãe é também uma mulher, isto é, um ser

específico dotado de aspirações próprias que freqüentemente nada têm a ver com as do esposo

ou com os desejos do filho. Toda pesquisa sobre os comportamentos maternos deve levar em

conta essas diferentes variáveis.

É impossível, portanto, mencionar um dos membros da microssociedade familiar sem

falar dos dois outros. A relação triangular não é apenas um fato psicológico, mas também uma

realidade social.

Nota de rodapé:

1 Para a comodidade da análise, consideraremos mais particularmente essa situação conjugal

clássica, deixando de lado a viúva e a mãe solteira.

Fim da nota de rodapé.

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É em função das necessidades e dos valores dominantes de uma dada sociedade que se

determinam os papéis respectivos do pai, da mãe e do filho. Quando o farol ideológico ilumina

apenas o homem-pai e lhe dá todos os poderes, a mãe passa à sombra e sua condição se

assemelha à da criança. Inversamente, quando a sociedade se interessa pela criança, por sua

sobrevivência e educação, o foco é apontado para a mãe, que se torna a personagem essencial, em

detrimento do pai. Em um ou outro caso, seu comportamento se modifica em relação ao filho e

ao esposo. Segundo a sociedade valorize ou deprecie a maternidade, a mulher será, em maior ou

menor medida, uma boa mãe.

Mas, além do peso dos valores dominantes e dos imperativos sociais, delineia-se um

outro fator não menos importante na história do comportamento materno. Esse fator é a surda

luta dos sexos, que por tanto tempo se traduziu na dominação de um sobre o outro. Nesse

conflito entre o homem e a mulher, a criança desempenha um papel essencial. Quem a domina, e

a tem do seu lado, pode esperar levar a melhor quando isso convém à sociedade. Enquanto o

filho esteve sujeito à autoridade paterna, a mãe teve de se contentar com papéis secundários na

casa. Segundo as épocas e as classes sociais, a mulher sofreu essa situação ou aproveitou-se dela

para escapar às suas obrigações de mãe e emancipar-se do jugo do marido.

Ao contrário, quando a criança é objeto das carícias maternas, a mulher predomina

sobre o marido, pelo menos no seio do lar. E quando o filho é sagrado Rei da família, exige-se,

com a cumplicidade do pai, que a mãe se despoje de suas aspirações de mulher. Assim, sofrendo

a contragosto a influência dos valores masculinos, é a mãe triunfante que melhor realiza as

pretensões autonomistas da mulher, constrangedoras para o filho e o marido ao mesmo tempo.

Nesse caso, o filho, sem

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o saber, será o aliado objetivo do homem-pai. Mas nao nos antecipemos...

A primeira parte deste livro tem o objetivo de situar as personagens da história materna

e explicar porque, num período que durou cerca de dois séculos, o comportamento das mães

oscilou com freqüência entre a indiferença e a rejeição.

Teria sido injusto, e mesmo cruel,limitar-nos estritamente ao comportamento da mãe,

sem explicar o que o motivava. É por isso que, antes de considerar a mãe, nos deteremos no pai e

no filho, a fim de observar que funções desempenhava o primeiro e que condição era atribuída ao

segundo.

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1 - O LONGO REINADO DA AUTORIDADE PATERNA E MARITAL

Por mais longe que remontemos na história da família ocidental, deparamos com o

poder paterno que acompanha sempre a autoridade marital.

A acreditar nos historiadores e nos juristas, essa dupla autoridade teria sua origem

remota na índia. Nos textos sagrados dos Vedas, Árias, Bramanas e Sutras, a família é

considerada como um grupo religioso do qual o pai é o chefe. Como tal, ele tem funções

essencialmente judiciárias: encarregado de velar pela boa conduta dos membros do grupo familiar

(mulheres e crianças), é o único responsável pelas ações destes frente à sociedade global. Seu

poderio exprime-se portanto, em primeiro lugar, por um direito absoluto de julgar e punir.

Os poderes do chefe de família, magistrado doméstico, reapresentam-se quase

inalterados em toda a Antigüidade, embora atenuados na sociedade grega e acentuados entre os

romanos. Cidadã de Atenas ou de Roma, a mulher tinha durante

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toda a sua vida, uma condição jurídica de menor, pouco diferente da condição de seus

filhos.1

Foi preciso esperar a palavra de Cristo para que as coisas se modificassem, pelo menos

em teoria. Guiado por esse princípio revolucionário que é o amor, Jesus proclamou que a

autoridade paterna não se estabelecera no interesse do pai, mas no do filho, e que a esposa-mãe

não era sua escrava, mas sua companheira.

Ao pregar o amor ao próximo, o Cristo punha um freio à autoridade, de onde quer que

viesse. Reforçava o companheirismo, e portanto a igualdade dos esposos, fazendo do casamento

uma instituição divina. Assim, punha fim a um poder exorbitante do marido, o poder de repúdio,

e à poligamia.

A mensagem de Cristo era clara: marido e mulher eram iguais e partilhavam dos

mesmos direitos e deveres em relação aos filhos.

Se alguns apóstolos e teólogos obscureceram a mensagem com sua interpretação,

chegando, como veremos, a traí-la, a palavra de Cristo modificou, em boa parte, a condição da

mulher. Na França, até o fim do século XIII, a igualdade proclamada pela Igreja traduziu-se num

certo número de direitos concedidos às mulheres. Pelo menos, às das classes superiores.2

Nessa alta Idade Média, o poder paterno atenuou-se progressivamente, com maior ou

menor rapidez, segundo consideremos o Norte3 (direito consuetidinário) ou o Sul da França

(direito romano). E se, no século XIII, no Sul da França, o pai ainda pode matar o filho sem

sofrer conseqüências sérias, o poder paterno é no entanto moderado pela mãe e pelas instituições,

que se imiscuem cada vez mais no governo da família.

Notas de rodapé:

1 Cícero (Pro Domo, 30) lembra que o pai tinha sobre o filho: direito de vida e de morte, direito de

castigá-lo à sua vontade, de mandá-lo flagelar, de condená-lo à prisão, de excluí-lo, enfim, da família.

2 A mulher tem o direito de administrar sua fortuna e alienar seus bens com o consentimento do

marido, de mover ações judiciais, de possuir um feudo e de residir em corte feudal. O direito, ainda, de

substituir o marido em caso de doença ou ausência.

3 Desde o século XIII, no Norte da França, o filho pode recorrer aos tribunais contra a severidade

excessiva do pai. Unicamente, claro, nos casos muito graves: "Se o pai, por seus maus-tratos, tiver posto sua

vida em perigo, lhe tiver quebrado ou mutilado um membro." Se for considerado culpado, o pai terá de pagar

uma multa.

Fim das notas de rodapé.

30

O desenvolvimento do direito romano na França marcará um estancamento da

influência liberal da Igreja e do direito canônico. A partir do século XIV, os direitos econômicos

da mulher se restringirão tanto que, dois séculos mais tarde, nada restará de seus antigos direitos.

Paralelamente, a partir do século XVI e até o século XVIII, a autoridade paterna se recobrará,

graças não só à influência do direito romano, como também à do absolutismo político.

Não obstante, se a sorte da mulher melhora sob a influência da Igreja, a melhoria

limitava-se às classes superiores. As outras não tinham um destino muito brilhante. Na prática, o

marido conservava o direito de correção sobre a mulher e, apesar das palavras de Cristo sobre a

inocência infantil, o destino dos filhos era pior que o de sua mãe. Demasiados interesses e

discursos abafavam a mensagem de Jesus. No século XVII, o poderio do marido e do pai

predominava, de muito, sobre o amor. A razão era simples: toda a sociedade repousava no

princípio da autoridade.

Três discursos se entremeavam e se auxiliavam para justificar o princípio e os fatos: o de

Aristóteles, que demonstrou ser a autoridade natural, o da teologia, que afirmou ser ela divina, e

finalmente o dos políticos, que a pretendiam divina e natural, ao mesmo tempo.

O LEGADO ARISTOTÉLICO

Aristóteles foi o primeiro a justificar, do ponto de vista filosófico, a autoridade do

marido e do pai. Para compreender a realidade social e familiar do século XVII e seus

fundamentos,

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é preciso voltar por um instante àquele que tanto se copiara até então.

O princípio que sustentava toda a sua filosofia política era assim enunciado: a autoridade

do homem é legítima porque repousa sobre a desigualdade natural que existe entre os seres

humanos.4 Do escravo, desprovido de alma, até o senhor da domus, cada um tinha uma posição

específica que definia suas relações com os outros.

Ao contrário do escravo, de quem todo membro da família podia "usar e abusar", o

filho do cidadão era considerado um ser humano e potencialmente livre. Imperfeito, porque

inacabado, dotado de uma faculdade deliberativa a princípio muito reduzida, sua virtude é ser

submisso e dócil ao homem maduro a quem era confiado logo após o desmame.

Quanto à cidadã, é essencialmente inferior ao homem, seja qual for a sua idade.

Desvalorizada do ponto de vista metafísico, pois encarna o princípio negativo, a matéria

(contrariamente ao homem, que personifica a forma, princípio divino sinônimo de pensamento e

de inteligência), a mulher é igualmente considerada personagem secundária na concepção.5

Semelhante à terra que precisa ser semeada, seu único mérito é ser um bom ventre. Como é

dotada de uma frágil capacidade de deliberação, o filósofo deduz logicamente que sua opinião

não é digna de consideração. A única virtude moral que lhe reconhecia era a de "vencer a

dificuldade de obedecer". Sua honra residia num "modesto silêncio".

Ainda comprada pelo marido, era para ele um bem entre outros. Sua condição não era

portanto diferente da condição do filho, antes que este lhe fosse subtraído ao final da

amamentação.

Notas de rodapé:

4 A política, 1.2: a natureza criou indivíduos próprios para mandar e indivíduos próprios para

obedecer.