Um Artista da Fome por Franz Kafka - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.

index-1_1.jpg

Biblioteca

Virtualbooks

Um

Artista

da Fome

FRANZ

KAFKA

1

index-2_1.png

Edição especial para distribuição gratuita pela Internet,

através da Virtualbooks.

A VirtualBooks gostaria de receber suas críticas e sugestões sobre sua

edições. Sua opinião é muito importante para o aprimoramento de nossas

edições: Vbooks02@terra.com.br Estamos à espera do seu e-mail.

Sobre os Direitos Autorais:

Fazemos o possível para certificarmo-nos de que os materiais presentes no

acervo são de domínio público (70 anos após a morte do autor) ou de

autoria do titular. Caso contrário, só publicamos material após a obtenção de

autorização dos proprietários dos direitos autorais. Se alguém suspeitar que

algum material do acervo não obedeça a uma destas duas condições,

pedimos: por favor, avise-nos pelo e-mail: vbooks03@terra.com.br para que

possamos providenciar a regularização ou a retirada imediata do material do

site.

www.virtualbooks.com.br/

Copyright© 2000/2003 Virtualbooks

Virtual Books Online M&M Editores Ltda.

Rua Benedito Valadares, 429 – centro

35660-000 Pará de Minas - MG

Todos os direitos reservados. All rights reserved.

2

Um Artista da

Fome

F R A N Z K A F K A

O interesse pelos jejuadores profissionais cai consideravelmente nos

últimas décadas. Se antigamente a organização por conta própria deste tipo

de espetáculos trazia o seu lucro, hoje em dia isso seria absolutamente

impossível. Os tempos eram outros. Houve época em que a cidade inteira

sentia viva curiosidade pelo artista da fome, aumentando a excitação à

medida que o jejum se prolongava, querendo todos vê-lo ao menos uma vez

por dia. Havia mesmo pessoas que compravam bilhetes para os últimos

espetáculos, sentando-se desde manhã até a noite diante das grades da

jaula. As exibições noturnas eram realçadas por archotes e, quando a

temperatura era amena, levavam a jaula para o ar livre, sendo o jejuador

mostrado às crianças como divertimento especial.

Os adultos, muitas vezes consideravam aquilo pilhéria, aceita por estar

em moda, mas as crianças ficavam boquiabertas, de mãos dadas para se

sentirem mais seguras, maravilhando-se ante o homem pálido, de costelas

salientes, que vestia justas calças negras e não tinha sequer uma cadeira,

sentando-se na palha espalhada no chão. Às vezes ele inclinava a cabeça

cortesmente, ou respondia com um sorriso constrangido às perguntas que

lhe eram feitas, estendendo de vez o braço através das grades, para que

verificassem como estava magro. Recolhia-se depois à sua mudez, não

prestando atenção a nada nem a ninguém, nem mesmo ao relógio para ele

tão importante e que era a um único adorno ou utensílio da jaula. Ficava a

3

olhar o vazio, de pálpebras semi cerradas, de vez em quando alcançando um

pequeno copo d'água e tomando um gole para umedecer os lábios.

Além dos espectadores comuns, havia permanentemente vigias

escolhidos pelo público, que se revezavam. Por estranho que pareça, em

geral eram açougueiros, em grupos de três, que tinham por obrigação

observar o jejuador dia e noite, para evitar que ingerisse disfarçadamente

algum alimento. Mera formalidade, instituída para tranqüilizar o povo, pois

os iniciados sabiam perfeitamente bem que, fossem quais fossem as

circunstâncias, nem mesmo a força o artista se resolveria a quebrar o jejum,

durante a prova. A honra da profissão o impedia. Nem todos os

espectadores, naturalmente, eram capazes desta compreensão.

Freqüentemente havia grupos de vigilantes noturnos que relaxavam o

cumprimento do dever, retirando-se para um canto, onde se deixavam

empolgar por um jogo de cartas, com a evidente intenção de dar ao jejuador

ensejo de tomar alimento, que eles supunham existir em algum esconderijo.

Nada aborrecia mais o artista que semelhantes vigias. Faziam-no sentir-se

infeliz e tornavam a abstinência insuportável. Às vezes conseguia dominar

suficientemente a fraqueza para cantar, o mais que lhe era possível,

tentando provar a injustiça de tais suposições. Isto de nada adiantava, pois

os homens apenas admiravam a habilidade que lhe permitia comer enquanto

cantava. Apreciava mais os guardas que se sentavam perto das grades e

que, não se contentando com a parca iluminação do local, lançavam sobre

ele o clarão direto das lanternas elétricas que o empresário pusera à sua

disposição. A luz dura não o incomodava.

De qualquer maneira, não podia mesmo dormir, mas conseguia cochilar,

sob qualquer luz, fosse qual fosse a hora, mesmo quando a sala se achava

repleta de espectadores ruidosos. Ficava satisfeito por poder passar uma

noite insone em companhia de tais vigias, estando sempre disposto a

pilheriar com eles, contendo-lhe histórias de sua vida nômade, qualquer

coisa que os conservasse acordados para demonstrar que não tinha comida

na jaula e era capaz de uma abstinência que nenhum deles suportaria. Mas

o momento mais feliz era quando chegava a manhã e vinham servir aos

guardas, a suas expensas, um farto desjejum, ao qual eles se atiravam com

feroz apetite de homens robustos, após cansativa noite de vigília.

Naturalmente havia quem alegasse ser tal refeição uma desleal tentativa de

suborno, mas isso era ir longe demais. Quando essas pessoas eram

convidadas a participar de uma noite de guarda, apenas por amor a arte,

sem a expectativa do café da manhã esquivavam-se, embora continuassem

teimosamente a manter suas dúvidas.

4

Tais suspeitas, no entanto, eram inevitáveis na profissão. Impossível,

naturalmente, ficar uma pessoa e observá-lo continuamente, dia e noite, e

ninguém poderia garantir, por experiência própria, que o jejum fora rigoroso

e ininterrupto. Somente o artista sabia disso, sendo, portanto, o único

realmente convicto. Mas, por outros motivos, nunca estava verdadeiramente

satisfeito. Talvez não fosse apenas o jejum que o tivesse reduzido àquele

estado de magreza que fazia com que muitas pessoas se afastassem,

embora a contragosto, por não poderem suportar o espetáculo. A

insatisfação para consigo mesmo talvez fosse a verdadeira causa de seu

depauperamento. Só ele sabia o que não era dado a saber nem mesmo a

outros iniciados: como era fácil jejuar. A coisa mais fácil do mundo. Não

fazia segredo disto, mas o povo não lhe dava crédito. Quando muito,

consideravam-no modesto, mas a maioria achava que ele estava querendo

fazer publicidade, ou, então, que se tratava de um trapaceiro que descobrira

meio de tornar fácil o jejum e cinicamente o confessava.

Ele vira-se obrigado a aceitar tal reação e, com o tempo, a ela se

habituara, mas a íntima satisfação persistia e nunca, justiça seja feita,

deixara a jaula por espontânea vontade, quando chegava o término da

prova. O prazo máximo fora fixado em quarenta dias pelo empresário, que

não lhe permitia ir além, nem mesmo nas grandes cidades. Havia boas

razões para isso. A experiência demonstrara que, durante 40 dias, a

curiosidade do público podia ser mantida pela pressão de anúncios, mas

depois disso o povo começa a se desinteressar, diminuindo o numero de

simpatizantes. Isto variava, naturalmente, de uma cidade a outra, entre este

ou aquele país, mas em geral 40 dias era o limite.

Assim, no quadragésimo dia abria-se a porta da jaula engrinaldada de

flores. Entusiásticos espectadores enchiam o local, entravam na jaula, para

verificar o resultado da prova, que era anunciado por meio de alto-falante.

Finalmente apareciam duas moças, felizes por terem sido escolhidas para tal

honraria. Iam ajudar o artista a descer os poucos degraus que levavam à

mesa onde se achava a refeição cuidadosamente preparada para um homem

em suas condições físicas. Neste momento, o jejuador sempre se mostrava

obstinado. Verdade que entregava os braços descarnados às duas moças

que sobre ele se inclinavam para auxiliá-lo, mas não queria saber de

levantar. Por que interromper o jejum especialmente neste instante, após 40

dias? Agüentara por muito tempo: por que desistir agora, quando se achava

em plena forma, ou, para ser exato, ainda não estava em sua melhor forma?

Por que negar-lhe a fama que teria, se continuasse, a glória de ser, não

apenas o recordista da fama de todos os tempos (o que talvez já fosse) mas

a de sobrepujar seu próprio feito, com uma demonstração que ninguém

julgaria possível? Ele sabia não haver limite para sua resistência. Já que o

público parecia admirá-lo tanto, por que não se mostrava mais paciente? Se

5

ele podia suportar uma abstinência prolongada, por que não agüentavam

eles o espetáculo? Além do mais, estava cansado, achava-se sentado

confortavelmente sobre a palha, e agora lhe viam exigir que se levantasse

para comer! Só de pensar nisto sentia náusea e somente a presença das

moças o impedia de manifestá-la e, assim mesmo, com esforço. Fitou-as,

aparentemente tão amigas, mas na realidade cruéis; e sacudiu a cabeça que

lhe pesava no pescoço enfraquecido. Aconteceu então, o que sempre

acontecia. O empresário adiantou-se sem dizer palavra – a banda

impossibilitava qualquer espécie de discurso – ergueu os braços acima do

artista, como que a convidar o céu a olhar para aquela pobre criatura ali na

palha, mártir que em verdade era, embora noutro sentido. Com exageradas

precauções, agarrou-lhe a cintura emaciada, para que pudessem apreciar

devidamente a sua frágil condição, e entregou-o as moças, muito pálidas,

dando-lhes disfarçadamente uma sacudidela que fez vacilarem suas pernas

trôpegas. O artista submeteu-se agora totalmente, a cabeça tombada sobre

o peito, como se ali tivesse ido parar por acaso. O corpo foi puxado para

fora, os joelhos tentavam firmar-se um no outro, no instinto de conservação,

as pernas se arrastavam como se ele não pisasse terreno firme e, apesar

disso, o procurasse. Leve como pluma, tentou apoiar-se a uma das moças.

Ofegante, ela olhou à volta em busca de socorro, parecendo achar que o

posto de honra não correspondia à expectativa, e espichou o pescoço o mais

que pôde para livrá-lo do contato desagradável. Vendo que era impossível e

que sua mais feliz companheira não lhe vinha em auxílio, limitando-se a

segurar na mão trêmula o feixe de ossos que era a mão do artista, rompeu

em pranto, com grande gozo dos espectadores. Teve que ser substituída por

um funcionário, que ali se achava de prontidão. Chegou a hora da comida e

o empresário conseguiu enfiar alguma coisa por entre os lábios de seu

protegido, que parecia a ponto de desmaiar. Falava ao mesmo tempo,

alegremente, para que ninguém notasse o estado do jejuador. Depois, foi

feito ao público um brinde, aparentemente instigado por um murmúrio do

artista ao ouvido do empresário. A banda confirmou-o com um vigoroso

rufar de tambores e o povo foi-se dissolvendo, parecendo todos satisfeitos

com o que tinham visto, com exceção do homem que se exibira, que nunca

se sentia satisfeito.

Assim viveu muitos anos, com pequenos intervalos de recuperação, em

plena glória, admirado pelo mundo, mas apesar disto infeliz, tanto mais que

ninguém parecia levar a sério seu desgosto. Que palavras de conforto

precisaria ele ouvir? Que mais poderia desejar? Quando uma pessoa de boa

vontade, dele se apiedando, tentava consolá-lo, dizendo que o jejum devia

ser a causa de sua tristeza, acontecia ver-se ele tomado de cólera,

principalmente quando a prova já ia adiantada. Com alarme geral, punha-se

a sacudir as grades da jaula, tal animal selvagem. Mas o empresário tinha

meios de pôr cobro a essas explosões, com as quais o artista gostava de se

6

exibir. Desculpava-se publicamente por tal procedimento. Devia ser

relevado, dizia ele, por causa da irritabilidade provocada pela abstinência,

que pessoas bem alimentadas não estavam em condições de compreender.

Depois, numa transição natural, mencionava a também incompreensível

jactância do homem que se dizia capaz de jejuar por prazo maior ainda,

elogiava-lhe a ambição, a boa vontade, o espírito de sacrifício implícitos em

semelhante declaração. Dava em seguida o contragolpe, trazendo os

fotógrafos que iriam vender ao público os retratos onde se veria o jejuador,

no quadragésimo dia, caído na palha, quase morto de exaustão. Essa

distorção da verdade, embora conhecida do artista, tirava-lhe a coragem,

deixando-o mais abatido ainda. Aquilo que era apenas conseqüência do

precoce término do jejum era apresentado como causa! Impossível lutar

contra a geral incompreensão. Inúmeras vezes, com o máximo da boa

vontade, ficava perto das grades, ouvindo palavras do empresário, mas,

assim que chegavam os fotógrafos, caía de novo na palha, com um gemido,

e o público, tranqüilizado, podia de novo aproximar-se para contemplá-lo.

Anos mais tarde, quando testemunhas de tais cenas as relembravam,

não podiam às vezes compreendê-las. É que, neste meio-tempo, o interesse

por essas exibições esmorecera, tendo acontecido quase que da noite para o

dia. Talvez houvesse razões profundas para o fato, mas quem iria se

preocupar em analisá-las? De qualquer maneira, o mimado artista da fome

viu-se um belo dia abandonado pelas pessoas ávidas de divertimento, que

iam agora em busca de espetáculos mais atraentes. Num derradeiro esforço,

o empresário correu com ele metade da Europa, a ver se a antiga simpatia

poderia ser reavivada. Tudo em vão. Em toda a parte, como que por secreto

acordo, havia positiva repulsa pelos jejuadores profissionais. Naturalmente

isto não poderia ter surgido assim tão de repente. É claro que tal fenômeno

não aconteceu de um momento para o outro e que agora,

retrospectivamente, as pessoas se lembravam de alguns acontecimentos aos

quais na altura não fora dada a devida atenção, indícios que não foram

devidamente suprimidos, mas de qualquer das formas já era demasiado

tarde para os tentar combater. Que poderia então fazer o artista da fome?

Fora aplaudido por milhares de pessoas e não queria agora conformar-se

com exibições em barracas de feira, nas aldeias. Quanto a adotar outra

profissão, não somente estava muito velho, como era fanático pela sua.

Assim, despediu-se do empresário, companheiro de uma carreira inigualável,

e firmou contrato com um grande circo. Para não ferir a própria

susceptibilidade, evitou ler-lhe as cláusulas.

Um circo importante, que está continuamente contratando e

substituindo homens, animais e aparelhamento, sempre pode utilizar um

artista, até mesmo um jejuador, contanto que não exija muito. No caso

presente, não estavam os diretores interessados somente no artista, como

7

em sua fama, durante longos anos adquirida. Considerando-se a

peculiaridade de seu ofício, que não se prejudicara com a idade, não se

podia dizer que ali estivesse um artista que, tendo ultrapassado a

maturidade e não se achando mais em plena forma, viera buscar refúgio

num circo. Pelo contrário, o jejuador afirmava ser capaz de suportar a

abstinência tanto quanto antes e disso não se poderia duvidar. Chegou

mesmo a declarar que se lhe dessem carta branca, o que lhe foi

imediatamente prometido, poderia assombrar o mundo, estabelecendo um

recorde jamais alcançado. Tal declaração provocou risos nos outros

profissionais, pois não estava sendo levada em conta a frieza do público,

fato que o jejuador, em seu zelo, parecera ter convenientemente esquecido.

No íntimo, ele não deixava de perceber a verdadeira situação.

Conformou-se em ver sua gaiola colocada, não no meio da arena, como

principal atração, e sim fora, perto das jaulas dos animais -–local, afinal de

contas – bastante acessível. Cartazes grandes e vistosos emolduravam a

jaula, anunciando o tipo de espetáculo. Quando o público vinha, nos

intervalos, ver as feras, tinha de passar pelo jejuador e algumas pessoas

paravam, por momentos. Talvez se demorassem por mais tempo, não

fossem os empurrões dos que vinham atrás, pela estreita passagem, e que

não compreendiam o motivo pelo qual eram detidos. Isto impedia que os

primeiros o examinassem com calma. Foi esta a razão que fez com que o

artista que aguardara tais visitas como o maior acontecimento de sua vida,

começasse a temê-las. A princípio, mal podia esperar pelos intervalos. Era

excitante ver a multidão escoar para o seu lado, até que (tarde demais!)

apesar do obstinado e quase consciente desejo de iludir-se, teve que se

render à evidência. Convenceu-se de que aquelas pessoas, a julgar pela sua

atitude, procuravam apenas visitar os animais. A sensação mais agradável

sempre fora vê-los de longe. Quando se aproximavam, ficava aturdido com

os gritos e insultos dos dois grupos dissidentes, sempre renovados,

constituídos, um, pelos que desejavam parar para observá-lo (não por real

interesse e sim por teimosia) e o segundo, por aqueles que ansiavam por

ver as feras. Logo começou a detestar mais os primeiros. Depois que

passava o maior número, vinham os retardatários. Embora pudessem

contemplá-lo à vontade, apressavam-se, sem nem mesmo olhá-lo, tal o

medo de chegarem atrasados às jaulas dos animais. Raramente acontecia

ter ele um golpe de sorte, quando um pai de família parava com os filhos,

apontando-o e explicando o fenômeno, contando histórias de anos passados,

quando ele próprio assistira a espetáculos mais emocionantes. As crianças,

sem nada entender, pois nem na escola e nem em casa haviam sido

preparadas para isto (que lhes importava o jejum?) indicavam, pelo brilho

dos olhos, que dias mais auspiciosos estavam para vir. Talvez as coisas

corressem melhor, pensava o artista, se não o tivessem colocado tão perto

dos animais. Isto tornava ao povo fácil a escolha, mesmo não se levando em

8

consideração que ele sofria com o cheiro desagradável, a inquietação das

feras à noite, a passagem dos pedaços de carne crua, o ruído na hora de

serem alimentados, coisas que o deprimiam profundamente. Mas não

ousava queixar-se. Afinal de contas, devia aos animais a afluência de tantas

pessoas e sempre podia haver alguém que o notasse e lembrasse de sugerir

lugar mais isolado para a gaiola, caso ele chamasse atenção para sua

existência e para o fato de, na realidade, nada mais ser do que um obstáculo

à passagem do público.

Pequeno obstáculo, não havia dúvida, e que cada vez menor se tornava.

As pessoas familiarizavam-se com a estranha idéias de que delas se

esperava, nestes tempos, que se interessassem pelo artista da fome, e esta

familiaridade era justamente o veredicto contra ele. Poderia jejuar à vontade

e era o que fazia, mas nada agora o salvaria. O povo passava, indiferente.

Fosse alguém explicar a arte do jejum! Quem não a apreciasse

espontaneamente, jamais chegaria a compreendê-la. Os belos cartazes

foram tornando-se sujos e ilegíveis e acabaram sendo em parte arrancados.

A pequena tabuleta indicando o número de dias, havia muito marcava a

mesma data, pois nem mesmo este pequeno esforço parecia útil aos

funcionários. Assim sendo, o artista continuava jejuando e jejuando, como

antes fora seu sonho. Isto não o incomodava, como ele soubera, que não o

incomodaria. Mas ninguém mais contava os dias, ninguém.; nem mesmo o

artista sabia que recorde estaria ele batendo e seu coração se confrangia.

Quando, de vez em quando, um passante se detinha e zombava do velho

deitado ali no chão, falando em fraude, tratava-se da mais estúpida mentira

jamais inventada pela indiferença e malícia humanas. Não era o artista que

estava trapaceando. Ele trabalhava honestamente; o mundo, sim, o lograva,

privando-o da merecida recompensa.

Muitos dias se passaram e também aquilo chegou ao fim. Um fiscal

apareceu ali e perguntou aos funcionários por que se desperdiçava uma

jaula que continha apenas um monte de palha suja. Ninguém soube

responder até que um deles, notando o cartaz com o número de dias,

lembrou do artista da fome. Enfiaram um pau na palha e o descobriram.

– Ainda está jejuando? – perguntou o inspetor. – Quando, em nome dos

céus, pretende parar?

– Perdoem-me todos – murmurou o artista. Somente o fiscal, que tinha o

ouvido perto das grades, conseguiu entendê-lo.

– Claro que o perdoamos – respondeu, batendo na testa, como a indicar

aos empregados o estado mental do jejuador.

9

– Sempre desejei que admirassem minha resistência.

– Claro que a admiramos – disse o fiscal, amavelmente.

– Mas não deviam admirar.

– Está certo, não admiramos, então, mas por que diz isto?

– Porque tenho que jejuar, não posso evitá-lo.

– Que tipo você é! – exclamou o inspetor – Por que não pode evitá-lo?

– Porque não consegui encontrar comida a meu gosto – respondeu o

artista, erguendo um pouco a cabeça e falando junto ao ouvido do outro,

para que não se perdesse uma sílaba. – Se a tivesse encontrado, creia que

não teria feito nada disto e me empanturraria como o senhor ou qualquer

outro.

Foram estas suas ultimas palavras, mas não olhos apagados restava a

firme, embora não mais orgulhosa, certeza de que continuaria a jejuar.

– Pois bem, limpem isto aqui! – ordenou o fiscal.

Enterraram o artista da fome, com palha e tudo. Em seu lugar, puseram

uma jovem pantera. Até mesmo as pessoas mais insensíveis acharam

agradável ver o animal selvagem pulando na jaula que durante muito tempo

tão lúgubre parecera. A pantera ia muito bem. A comida que lhe convinha

era trazida pontualmente pelos empregados e ela nem mesmo dava

impressão de sentir a ausência de liberdade. Aquele nobre corpo, provido ao

máximo de todo o necessário, parecia trazer em si a própria liberdade. A

alegria de viver fluía de suas faces com tal ardor, que aos espectadores não

era difícil suportar o choque. Mas enchiam-se de coragem, comprimindo-se à

volta da jaula, e acabavam não querendo mais se afastar.

*************

10

index-11_1.jpg

Sobre o Autor e sua obra

Franz Kafka nasceu em Praga a 3 de julho

de 1883, cidade que durante todos os 35 anos

da vida do escritor pertenceu à monarquia

austro-húngara. Filho de um abastado

comerciante judeu, Kafka cresceu sob as

influências de três culturas: a judia, a tcheca

e a alemã.

Filho de uma típica família judeu classe

média, da qual escolheu como ícone seu pai,

um comerciante autoritário, cuja figura

patriarcal ficou associada, na cabeça do

escritor, até o final de sua vida, a de um

gigante, ao mesmo tempo fascinante e

desprezível. Carta ao Pai, escrito em 1919, é

um longo desabafo em que Kafka

responsabiliza o pai (que é claro, nunca

recebeu a tal carta) por sua incapacidade de

viver, casar e amar como os outros. Escolherá

a literatura para tentar exorcizar esse fantasma.

Em 1914 o escritor tcheco Franz Kafka, em seu livro, "O Processo", narrou a história de um bancário, Joseph K., que, ao acordar, é preso por policiais sem

motivos declarados. O personagem parte para uma busca, durante toda obra, a fim

de descobrir o motivo pelo qual estava sendo levado a julgamento.

Em vida, lançou A Metamorfose (1915), Carta a meu Pai e Na Colônia Penal, ambos de 1919, mas sem muita repercussão. Depois de morto, seu amigo Max Brod

patrocinou as edições de O Processo (1925) e O Castelo (1926), seus principais romances, bem como o restante da obra kafkiana.

11

Você pode estar interessado...

  • Hollywood.
    Hollywood. Clássicos Mundiais por V, G.
    Hollywood.
    Hollywood.

    Downloads:
    6

    Publicado:
    Jan 2020

    William Randolph Hearst baixou lentamente seu corpanzil de urso sobre uma linda cadeira Biedermeier, cheia de liras, pergaminhos e marcheteria. — Não conte a...

    Formatos: PDF, Epub, Kindle, TXT

  • A bailarina
    A bailarina Narrativa por E. A.
    A bailarina
    A bailarina

    Downloads:
    28

    Publicado:
    Jan 2020

    Numa primavera, a convite do psiquiatra-chefe da Marinha dos Estados Unidos, a Dra. Edith Eva Eger embarcou num avião de combate sem janelas para um dos maior...

    Formatos: PDF, Epub, Kindle, TXT

  • O homen que Fugiu Do
    O homen que Fugiu Do Narrativa por Henri Ch.
    O homen que Fugiu Do
    O homen que Fugiu Do

    Downloads:
    19

    Publicado:
    Nov 2019

    Sumário 1 | O CAMINHO DA PODRIDÃO 2 | A CAMINHO DO DEGREDO 3 | PRIMEIRA FUGA 4 | PRIMEIRA FUGA (continuação) 5 | VOLTA À CIVILIZAÇÃO 6 | AS ILHAS DA SAL...

    Formatos: PDF, Epub, Kindle, TXT

  • Contraponto
    Contraponto Clássicos Mundiais por Adolf Huxley
    Contraponto
    Contraponto

    Downloads:
    38

    Publicado:
    Nov 2019

    — Não vais voltar tarde? — Havia ansiedade na voz de Marjorie Carling, qualquer coisa que parecia uma súplica. — Não, eu não voltarei tarde — respondeu Wal...

    Formatos: PDF, Epub, Kindle, TXT