Um Conto De Areia e Mar por Fátima Abreu - Versão HTML

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“O mar é tudo. Ele cobre sete décimos do globo terrestre.

Seu sopro é puro e saudável. É um deserto imenso, onde o

homem jamais está sozinho, pois sente a vida se

movimentando por todos os lados.”

Julio Verne

Conto

De

Areia

& Mar

Por: Fátima

Abreu

Introdução:

GOSTO DA OBRA DE JULIO VERNE, DESDE

MENINA.

INSPIROU-ME PARA AOS 10 ANOS,

ESCREVER MEU PRIMEIRO LIVRO:

Uma Viagem No Tempo (esse não foi publicado,

porque perdi os originais quando casei aos 16

anos)

JULIO VERNE FOI O “PAI” DA FICÇÃO

CIENTÍFICA; GÊNERO QUE APRECIO TANTO

NA LITERATURA, QUANTO NA

FILMOGRAFIA.

AQUI JUNTO A MINHA FICÇÃO

ROMANCEADA, A ALGUNS FATOS

OCORRIDOS NA VIDA DESSE AUTOR.

COMECEI O CONTO NO MEU BLOG “LAR”,

COMO SEMPRE E AQUI SIGO COM ELE.

ESPERO QUE O LEITOR (A) GOSTE E VIAJE

NESSA FANTASIA...

Conto De Areia & Mar

Capt 1

Irina era uma doce e linda mocinha, já com seus 17

anos.

Crescera entre montes e vales. Mas ficara órfã

recentemente. Querendo mudar de ares, decidiu ir para

o litoral.

Sabia pescar muito bem: Aprendera nos rios perto da

casa onde nascera, com o pai um homem sério, mas de

um coração bondoso. A mãe era cozinheira de mão

cheia. Infelizmente já não estavam mais ali...

Deixou a sua casinha nas montanhas, fechada. Se um

dia quisesse voltar teria um teto sobre a cabeça.

Colocou o que precisava numa carroça que havia

pertencido ao pai e foi embora dali.

Antes, deixou um ramalhete de flores silvestres

colhidas pela manhã (ainda com orvalho), nas lápides

de seus pais, que ficavam no campo bem pertinho da

casa, onde viveram felizes, numa vida tranquila por

muitos anos, até a varíola os levar desse mundo.

Mudou-se para uma casa menor ainda, pois agora era

só. No litoral, não se precisava mesmo de muita coisa

para se viver: Apenas uns apetrechos de cozinha e

alguma mobília: uma cama, um baú para guardar suas

roupas e uma mesa com cadeira para suas refeições. A

roupa seria lavada na tina de madeira que fora de sua

mãe.

Sabia bordar e fazer costuras: Sua paciente mãe havia

lhe ensinado desde bem pequena.

Irina era a imagem viva da mãe, porque tal qual, era

dotada de uma beleza natural do interior:

Rosto oval, pele aveludada, um furinho no queixo e

olhos pequenos, mas de um verde estonteante.

O corpo era franzino, porém delineado.

Os cabelos longos e de um castanho que se mesclava a

fios mais claros, beirando o loiro.

Era um pouco mais alta que as jovenzinhas de sua

idade, talvez por esse motivo, parecesse magra.

Aprendia tudo com facilidade.

Chegou à vila de pescadores para informar-se de algum

cômodo com um lavabo e pequena cozinha.

Um senhor grisalho e bem acima do peso, ouvindo sua

conversa com o quitandeiro, aproximou-se dizendo:

_ Moça, existe uma casinha nesses moldes, que está

fechada bem perto da praia; pertence a uma senhora de

nome Ághata. Ela mora bem pertinho da loja de

cestarias, está vendo aquela cerquinha amarela ali, com

uma casinha ao fundo? Pois é lá.

_ Obrigada pela informação, vou procurar essa senhora.

Os dois homens ficaram olhando a jovem afastar-se

com sua carroça, cogitando o que ela fazia sozinha pelo

mundo.

Abriu a porta da casinha que alugara da senhora, uma

viúva de pescador, e pode perceber que precisaria

de muita limpeza. Ergueu as mangas e cuidou disso por

um dia inteiro.

Esquecera-se das horas...

Já no fim da tarde, quando o sol já se punha no

horizonte, o estômago roncou fortemente e deu conta

que não havia se alimentado.

Gastou suas energias com a faxina do ambiente e o

corpo reclamava agora, com uma fome angustiante:

Precisava urgente, de comer algo.

Abriu o cesto que trouxe na carroça e serviu-se das

frutas colhidas no pomar, antes da viagem para o

litoral.

Acendeu uma vela em cima da mesa (no velho castiçal

que trouxera do antigo lar), para tratar de afugentar os

insetos da noite.

Leu um pouco mais do novo livro do senhor JULIO

VERNE, e depois decidiu deitar-se: Arrumou a cama com lençol limpo e colocou no travesseiro de penas de

ganso, uma fronha com monograma bordado por ela

mesma. Pôs também uma coberta de lã para o frio da

noite, pois sabia que perto do mar, o vento era gelado.

Guardou o resto de seus pertences no baú ao lado da

cama. Deitou-se enfim.

Mesmo cansada da viagem e do trabalho exaustivo de

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limpeza durante todo dia, não conseguiu dormir direito:

Acordara várias vezes durante a madrugada, os

pensamentos em turbilhão:

“Como faria para sustentar-se ali no litoral?

Nas montanhas tinha tudo de que precisava: As

galinhas e seus ovos, o leite da cabra Noely que usava

também para fazer o queijo, além do pomar com muitas

frutas e do peixe que o rio garantia. Bem, peixe ali não

era problema, mas e o resto? Teria que repensar quantas

vezes fosse preciso, para achar um meio de sustento

imediato naquelas paragens...”

Finalmente tirou um sono mais profundo, quando o

raiar do dia já ameaçava, como a primeira claridade.

 

Capt 2

Já eram nove horas da manhã, quando Irina despertou.

Afinal, durante a noite quase não dormira e o sono só

veio firme mesmo, ao raiar do dia...

Fez um desjejum com as frutas que ainda tinha e bebeu

uma xícara de chá com torradas do pão que havia

assado um dia antes da viagem.

De súbito, sentiu falta da cabra Noely: Seria delicioso

tomar seu leite amarelinho ou comer do queijo.

Lavou o rosto no pequeno lavabo e saiu ainda de

camisola para olhar a praia. Sentou-se na areia clara.

Os barcos pesqueiros iam longe. Haviam saído nas

primeiras horas da manhã. Era assim que as pessoas do

litoral sobreviviam: Pesca e comércio.

Diziam que os negócios melhoravam quando era verão:

Os burgueses e pessoas bem situadas em Paris, vinham

passar as férias ali. Sabia-se que o advogado

(formado para satisfazer ao pai, mas sem exercer a

profissão) e escritor Julio Verne, havia estado ali

muitas vezes, vindo com a família que tinha uma

residência em Nantes, quando de sua infância.

O local ficara em evidência desde que o autor começou

a ter êxito em seus livros, já conhecidos em grande

parte da Europa. O primeiro grande sucesso fora a

novela:

Cinco Semanas Em Um Balão, de 1862.

A fama e o dinheiro apareceram dali em diante.

Irina havia comprado um exemplar e gostou muito pelo

"espírito desbravador" do livro.

Soube-se que Julio Verne nunca havia estado no

continente africano até aqueles dias, mas descreveu

com detalhes, a aventura nesse local, falando sobre

animais, cultura, natureza, coordenadas geográficas,

etc.

Irina passou a admirá-lo e leu outros sucessos desse

autor:

Viagem ao Centro da Terra de 1864

Vinte Mil Léguas Submarinas de 1870

A Volta ao Mundo em Oitenta Dias de 1873.

Em pouco tempo, ele se tornou sue autor predileto, pois

o achava um visionário, um gênio por trás das letras. O

seu estilo era algo novo: Nenhum outro escritor ousou

tanto com a imaginação até então!

Irina gostava disso, ela também se achava uma jovem

além de seu tempo, tinha ideias inovadoras para as

mulheres, e adoraria poder escrever sobre tudo que em

sua mente se passava:

Mostrar ao mundo o que uma moça humilde do interior

poderia criar e a diferença que isso poderia fazer na

sociedade.

Sonhava transformar sua vida e de outras pessoas,

assim como os livros que lia.

Queria conhecer lugares, culturas e pessoas diferentes,

para escrever sobre eles.

Ter uma visão global do resto da Humanidade.

Infelizmente até aquele momento, nada mudara...

Entretanto, o primeiro passo havia dado: Saíra do

interior, e fora para o litoral onde a proximidade com o

porto, reservava muitas aventuras. Soube que isso

também havia inspirado Julio Verne anos antes,

fazendo com que ele escreve as "20.000 Léguas"...

Primeiramente, teria de arrumar uma fonte de dinheiro

para seu sustento. Depois, procuraria alguém da família

de Julio, para que fosse possível um contato

posteriormente com o autor. Para que lesse seus

escritos e desse sua opinião (o que para ela, era de

extrema necessidade).

Foi até a vila e conversando com a sua senhoria, a

viúva Ághata, soube que precisavam de uma

arrumadeira na casa de Gaston, sobrinho de Julio

Verne (filho de seu irmão Paul).

Era um rapaz desequilibrado. Diziam à "boca pequena"

que talvez fosse louco mesmo. Isso não a desencorajou,

muito pelo contrário!

Se ele fosse assim, seria uma fonte de estudo da psiquê

humana para ela. Irina gostava de teosofia e lia muito

desse assunto.

Teosofia era em síntese “conhecimento divino".

Estava sendo difundida pela Sociedade Teosófica, em

livros como: Ísis sem véu (1877), A Doutrina Secreta

(1888). Como as demais doutrinas espiritualistas, a Teosofia quer a evolução humana para o Bem, o amor,

a paz entre as pessoas, o altruísmo, além do sonho

'utópico' do fim da pobreza, ignorância, violência e

desigualdade.

Para Irina, a psiquê humana estava diretamente

influenciada pelo "mundo invisível" que temos ao

nosso redor.

Suas ideias não agradariam aos leigos, mas aos

estudiosos do assunto como Helena Blavatsky,

poderiam até interessar.

A viúva deu-lhe o endereço da casa de Gaston, mas

alertou-a:

_ Minha jovem, tenha cuidado: Ao menor sinal de

desequilíbrio desse homem, vá embora!

_ Não se preocupe senhora, isso não me assusta,

porque sei me cuidar, meus pais ensinaram isso desde

pequena, já prevendo que eu fosse ficar sozinha um

dia...

A senhora deu de ombros... A mocinha tinha uma

personalidade forte, e pelo pouco tempo que se

conheciam, já dera para perceber.

Irina saiu com um aceno e dirigiu-se à quitanda para

comprar alguma comida, lá também saberia com

detalhes como era Gaston.

Era certo que o quitandeiro soubesse alguma coisa,

afinal, ali a burguesia e o povo compravam seus

mantimentos, compotas, legumes e hortaliças.

Natural que Gaston também abastecesse sua casa.

Capt 3

Irina soube pelo quitandeiro, que Gaston precisava

mesmo de arrumadeira, já que ninguém parava em sua

casa como serviçal, pois pelo seu comportamento

estranho, tinham medo dele.

Dizia-se que ele invejava o tio famoso também.

Isso deixou Irina mais intrigada com o perfil

psicológico de Gaston...

Agora mesmo que ela seria a mais nova candidata à

arrumadeira em sua casa.

Foi até a residência indicada no papel pela viúva

Ághata, e bateu à porta.

Um homem vestido com uma casaca num tom cinza

opaco veio atender-lhe:

_ Sim, o que deseja minha jovem?

_ Soube que aqui precisam de uma arrumadeira... Sou

nova nessa localidade, mas gostaria de empregar-me

aqui em Nantes, para poder me sustentar. Isso se faz

necessário, pois não tenho mais os meus pais comigo.

_ Bem se o caso é esse, a vaga é sua. Pode começar já.

Minha casa precisa de boa arrumação, principalmente

na biblioteca, onde os livros estão muito empoeirados.

Entre para tratarmos de tudo.

Irina seguiu pelo vestíbulo de entrada, que deu

diretamente numa sala bem ampla, de sancas

desenhadas no teto, quadros de pintores franceses em

todas as paredes e poltronas de madeira com assento de

veludo vermelho, combinando com o tapete de mesma

cor. Em um canto, havia também uma mesa pequena de

formato redondo, com apenas uma cadeira e um jarro

com flores murchas e despencadas do ramalhete sobre

uma toalha branca, muito bem bordada.

Ele mostrou uma das poltronas para que ela se sentasse.

Irina entretanto, permaneceu de pé.

Disse-lhe então:

_ Senhor, estou bem aqui. Serei sua empregada,

guardemos as formalidades. Se assim não fosse,

tomaria assento. Meu nome é Irina, sei que o senhor se

chama Gaston. Tenho 17 anos, fazendo 18 em breve.

Agora, poderia dizer-me quanto pagaria?

_ Bem, se prefere assim... Noto que mesmo jovem, é

bem centrada em suas ações. Tem atitude, gosto disso!

Quanto ao pagamento, que tal dizer-me seu preço?

_ Não gosto deste termo. Mas que seja pelo menos o

que pagava aos que vieram antes de mim.

_ Certamente... e um bônus por sua atitude. Pode

começar já. Preciso que venha três vezes na semana:

Segundas, quartas e sextas feiras. Está certo assim?

_ Sim, dessa forma terei folga, para escrever meus

artigos e contos.

_ Ah, a jovem escreve?

_ Sim, gosto de escrever tanto quanto de ler. Sei que o

senhor é sobrinho do grande autor Julio Verne.

Parabéns por ter uma pessoa ilustre na família!

Irina fizera de propósito esse comentário, pois queria

ver qual seria a reação do homem.

Ele rodeou-a e disse:

_ Não veio aqui pelo emprego; veio para saber da

carreira do meu tio? Talvez, levar algo de sua autoria

para que ele lesse?

_ De forma alguma, senhor. Apenas fiz um comentário.

Preciso mesmo desse emprego, pois como iria

sustentar-me?

_ Não me engane, mocinha... Mas alguém que lhe

sustente não seria difícil, não é feia... Hummm deixe

estar, de qualquer forma preciso de arrumadeira e você

de um emprego... Comece por onde lhe disse:

A biblioteca. Na segunda porta, embaixo da escada,

encontrará todo material necessário para limpeza e

arrumação: óleo de peroba, espanador, flanela, essas

coisas...

Irina ficou contrariada com o comentário que ele

fizera, insinuando que poderia vender-se para ter

sustento, porém precisava mesmo arrumar dinheiro e

tentou ignorar isso, respondendo:

_ Obrigada pela chance senhor Gaston.

Ele assentiu com a cabeça e saiu para seu escritório por

uma porta de acesso na sala.

Irina tratou de pegar as coisas para começar seu

primeiro dia de trabalho pago na vida.

No interior, com a vida simples, nunca precisara fazer

isso, pois tinha tudo em um só lugar:

Alimentação, moradia, roupas que ela e a mãe

confeccionavam e sapatos que o pai trazia do artesão

que fazia por encomenda.

O pai sustentava a família com a venda das compotas

de frutas que levava para o mercado e o queijo feito

com o leite das cabras. Irina nunca precisara de mais

nada além disso, exceto dos livros.

Esses, eram comprados sempre que os pais a levavam à

Angers.

Quando seus pais morreram vítimas da varíola (que ela

incrivelmente não pegou , mesmo cuidando deles), ela

vendeu todas as galinhas e cabras, exceto a Noely, que

era de estimação. Dessa forma, conseguiu um bom

dinheiro para seguir com os planos de viagem:

Comprar o que fosse necessário, quando chegasse ao

local que iria se estabelecer, além de pagar o aluguel.

Quando decidira ir embora para perto do litoral, deixou

sua cabra aos cuidados de seu amigo de infância, Jean

Pierre.

No final da tarde, Irina chegou em casa cansada, mas,

satisfeita:

Dera mais um passo para ter seus sonhos realizados, e

em breve, estaria conhecendo o senhor Julio Verne,

com certeza.

Jogou a roupa sobre a cama, tomou um banho e vestiu

novamente sua camisola leve e transparente, colocando

o robe azul que fora de sua mãe, por cima do biombo

(que já havia na casa, ao alugá-la):

Mesmo tendo acabado de tomar seu banho, sentia um

calor subindo e não sabia o porquê...

Capt 4

Irina achou que estava doente. Mas como poderia ser

isso agora que resolvera mudar de vida, alçar voos

nunca sonhados antes, quando morava no interior?

Nunca tivera tal 'calor' que lhe subia pelo corpo daquela

forma...

Teria de ser alguma enfermidade por certo.

Foi até a pequena cozinha que apenas tinha um armário

para guardar a louça, a mesa com cadeira para sentar-se

às refeições (forrada com uma toalha pequena), um

fogão a carvão e a pia com duas prateleiras embaixo,

coberta com uma cortininha de renda.

Tratou de fazer o jantar, pois já eram 18:00hs e

demoraria um pouco, até ficar pronto. Comeu mas, sem

apetite. Estranhou isso.

O 'calor' também não passava...

Seguiu para o quarto, estendeu-se na cama deixando

uma jarra com um copo ao lado, para que bebesse ao

sentir sede durante a noite.

Tentou dormir, mas tal qual na noite anterior, o sono só

veio quase ao raiar do dia.

Ao levantar-se e lavar bem o rosto, foi preparar seu

desjejum e percebeu que enfim o tal 'calor' tinha ido

embora. Era sinal que se enganara: Não estava doente!

Animada novamente, comeu bem desta vez. Foi até a

praia, olhou por momentos incontáveis o horizonte e os

barcos distantes...

Sonhava conhecer outras terras, além do mar que estava

à sua frente.

Voltou para casa:

Trocou de roupa e foi até a vila para abastecer sua

pequena cozinha:

Bolos, pães, alguma carne de caça, queijos e um vinho;

por que não?

Gostava do sabor, das faces rosadas que ele lhe

deixava, além de certa 'alegria' que proporcionava por

breves momentos...

Sempre tomara com seus pais, pois era um hábito da

família, afinal, moravam numa região vinícola, da

França.

Ao chegar à vila, pode notar uma aglomeração, na

praça central. Foi até lá, para saber do que se tratava...

Um senhor estava lutando com seu patrão, Gaston!

Mas o que ele teria feito para provocar aquele cidadão?

Ela foi ganhando espaço entre as pessoas que ali

estavam, até chegar à Gaston. Conseguiu que ele a

ouvisse pedir:

_ Senhor Gaston Verne, deixe o homem em paz, por

favor! Vamos comigo, eu o acompanho até sua casa...

Ele de súbito, reconheceu a voz da jovem e largou a

gola da camisa do homem, recompondo-se também,

arrumando a casaca e passando a mão nos cabelos

desgrenhados.

O homem a quem Gaston agredira, acabou saindo em

disparada, talvez com medo que ele voltasse atrás e o

esbofeteasse novamente...

Irina ofereceu-lhe o braço, e seguiu com ele, rumando

para sua residência.

Os olhos de todos que ali ficaram os seguia, pasmos!

Nunca viram uma reação violenta de Gaston, ser

acalmada tão rapidamente como dessa vez!

Será que Gaston apaixonara-se pela jovem de outras

paragens? Isso foi o assunto que envolveu toda a vila

durante uma semana seguida...

Ao chegar à casa de Gaston, Irina fez com que ele se

sentasse em uma das poltronas e descansasse por alguns

minutos, enquanto ela lhe servia um licor. Passou então

a acalmá-lo. Lembrou do conto de sua compatriota:

*A Bela e a Fera ou A Bela e o Monstro é um tradicional conto de fadas francês. Originalmente escrito por Gabrielle-Suzanne Barbot, Dama de Villeneuve, em 1740, tornou-se mais conhecido em sua

versão de 1756, por Jeanne-Marie LePrince de

Beaumont, que resumiu e modificou a obra de Villeneuve

* Wikipédia

Irina parecia-se com a tal Bela do conto de fadas: Gostava de ler, sonhava com novos horizontes e agora

estava envolvida com um homem que era uma

verdadeira "fera", não em feiura (por sinal achava que Gaston até era bem apessoado), mas em gênio...

Ali estava um homem bem difícil de ser controlado.

Entretanto, Irina conseguira isso, na frente de todos!

O que ela teria que freou a atitude dele? Seria a doçura

em sua voz, naquele momento?

De qualquer forma, dizem que o bom som, acalma as

feras...

Irina pode ver o rosto antes amargurado de Gaston, ir se

transformando aos poucos, tornando-se gentil.

Ela se serviu de um cálice de licor também. Gaston

subitamente a olhou vidrado. Irina percebeu que o

pensamento dele estava bem longe dali.

Usando daquilo que lera sobre teosofia, chegou-se perto

dele, colocando suas mãos sobre seu peito e emanando

energia através da imantação. Dessa forma, ele foi

voltando à realidade.

Sem compreender o que ocorria, Gaston finalmente lhe

disse:

_ A jovem tem conhecimento de cura? É alguma

espécie de maga, pertencente a alguma sociedade

secreta? As que conheço, somente aceitam homens;

inclusive eu e meu tio Julio, fazemos parte da Rosa

Cruz.

_ De jeito nenhum, senhor Gaston. Isso não é magia, é

ciência em favor do espírito. Todos temos um campo

energético em volta do corpo físico: A nossa AURA, e quando ela está desequilibrada por muitos fatores,

como a ira, inveja, cobiça, mentiras e outras coisas,

muda de cor e nos faz muito mal.

A psiquê humana sofre com esse fenômeno, assim

como os órgãos do corpo. Pode-se gerar úlceras

estomacais, por exemplo.

_ Eu sei disso, mas como sabe dessas coisas científicas,

sendo uma moça vinda do interior?

_ Sempre li muito, senhor. Interesso-me por muitos

assuntos que a maioria das jovens de minha idade

desconhece, pois estão sempre ocupadas em arrumar

um futuro esposo. O que em minha opinião é de

segundo plano...

_ Qual seria o primeiro plano então, Irina?

Ela pode notar que era a primeira vez que a chamava

pelo nome. Respondeu-lhe então:

_ O primeiro plano sempre é o conhecimento, e tudo

que gira em torno disso. Conhecimento é a chave do

sucesso, essa é a minha opinião. Quero entender cada

vez mais do mundo ao meu redor:

Culturas diversas, ciência, espiritualidade, o elemento

humano e sua psiquê.

_ Se é assim, não poderá ser minha arrumadeira, vou

ser seu benfeitor: Providenciarei para que vá estudar em

Paris.

_ Senhor Gaston Verne, nos conhecemos há apenas um

dia! Não acha que é muito precipitado de sua parte,

querer financiar os estudos para uma mera moça do

interior?

_ Algum sentido tem que se ter nessa vida, Irina. Até

hoje estive em busca do meu. Dizem por aí que sou

louco. Eles não entendem nada de mim. Sou um

homem transtornado por viver à sombra da minha

família. Por não ter nada de útil para fazer. Também

nunca tive sucesso com as mulheres, porque elas tem

medo da minha dita 'insanidade'...

_ Bem, eu sou diferente. Não tenho medo do senhor.

_ Está decidido então: Passará um ano em Paris,

estudando o que achar melhor, com tudo pago por mim!

_ Oh, não sei o que dizer, senhor Gaston!

_ Não diga nada, apenas aceite.

_ Sim, aceito de bom grado!

_ Então Irina, será a motivação de minha vida, por pelo

menos um ano! Dessa forma, tendo com que ocupar

minha mente em defendê-la e educá-la como a uma

dama da Terceira República, estarei livre por algum

tempo, da depressão em que vivo. Cuide de arrumar

suas coisas para a viagem, porque depois de amanhã,

iremos à Paris para matriculá-la. Se puder, ajude-me

também a organizar as minhas... Não sou bom com a

organização de bagagem, as malas vão sempre de

qualquer jeito...

_ Mas claro que sim! Não precisava pedir, é o meu

patrão!

_ Não mais: Agora sou seu benfeitor. Estou apenas lhe

pedindo um favor, não é mais sua obrigação, Irina.

Ela olhou bem no fundo daqueles olhos e reconheceu

um brilho de bondade surgindo...

Capt 5

Um dia de muita agitação para Irina e Gaston. Muitas coisas para combinar, separar para a viagem...

A movimentação na residência de Gaston Verne, foi

percebida pelas pessoas da vila e os rumores de sua

partida, chegaram até o centro de Nantes.

As pessoas já cogitavam se Gaston tinha a moça vinda

do interior, como amante.

Isso explicaria a reação que teve na praça: Atendendo

seu pedido para terminar a briga com o homem, a quem

ele esbofeteou.

Mesmo sabendo de tais comentários, Irina não se

importava. Afinal, iria para Paris, e nada disso

quebraria esse encanto!

Gaston a presenteou com um pequeno colar de pérolas

já que ela tinha paixão pelo mar, natural que tivesse

algo que o lembrasse quando fosse passar um ano

inteirinho em Paris.

Ela amou o presente e agradeceu emocionada:

_ Senhor Gaston, não precisava se incomodar em me

dar nada, já está fazendo muito por mim...

Agradeço de coração, pois nunca tive nada igual e o

senhor sem querer, adivinhou um grande desejo meu:

Desde os meus 15 anos, tinha certo encanto por pérolas

e nutria a vontade de ter algum adereço, fosse colar,

pulseira ou par de brincos.

_ Mas que ótimo ter acertado então! Temos sintonia,

mocinha...

_ Não me chame mais assim, senhor Gaston, prefiro

como fez ontem, quando me tratou pelo nome. Já que

sou sua 'protegida', como o senhor mesmo diz... E

ademais, não é tão mais velho que eu... Vou fazer 18

anos em setembro, e já estamos em finais de julho!

O senhor não deve ter mais do que uns 25 anos...

_ Pois não digo que temos sintonia? Exatamente a

minha idade!

_ Acertei então. Bem, agora vamos ver o que falta para

nossa viagem...

_ Já temos o meu coche, as malas prontas e as

provisões, o que mais faltaria?

_ Não sei, o senhor quem deve saber, pois nunca fiz

uma viagem para tão longe, o máximo que ia com meus

pais, era até Angers para comprar livros e calçados feito

por um artesão de lá.

_ Falando nisso, ao chegar em Paris, compraremos

roupas e sapatos novos para que esteja adequada aos

usos e costumes da capital. Existem casas que estão

fazendo muito sucesso denominaram suas confecções

como Alta Costura, todas se situam na Avenue des

Champs Elysees.

Desde 1858, um costureiro chamado Worth, foi

considerado o fundador desse tipo de roupas, para

senhoras da elite parisiense.

_ Mas não é para tanto, senhor Gaston Verne. Não

preciso de roupas tão caras, como essas parecem ser...

_ Não se iluda, Irina: A capital pode ser muito má com

quem não se habitua aos seus costumes. Deixe que

disso cuido com a maior satisfação, porque sei que em

breve, não terá mais os ares de 'moça do interior'.

_ Se prefere assim...

_ Sim, prefiro; e como poderia apresentá-la à sociedade

parisiense, se assim não fosse? Por acaso não quer

conhecer meu tio Julio?

_ De certo que gostaria disso, se for possível.

_ Então será nos meus moldes. Bem, agora acho que

terá que falar com a viúva Ághata, pois não será mais

necessário que alugue aquela casa.

_ Está certo, vou agora mesmo cuidar desse particular.

Irina se dirigiu para o portão de ferro que rangia ao

fechar, e ele ficou lhe observando pela janela.

Ali nascera uma grande amizade que no futuro

próximo, seria pelas artimanhas do destino, sua maior

ruína...

Capt 6

Julio Verne nasceu na cidade francesa de Nantes, em

1828.

Passou toda a infância com os pais e irmãos, na casa de

verão da família. O porto e das docas eram fascinantes

para ele. Certamente fora de grande impulso na sua

imaginação: Detalhes da vida marítima, locais nunca

conhecidos e possivelmente desbravados por algum

almirante ou simples marinheiro...

Passeava pelas docas com seu irmão Paul, um ano mais

novo que ele, e perdiam-se nas histórias de marinheiros,

que falavam de terras distantes e muitas vezes

inóspitas.

Aos onze anos, tentou fugir de casa para viajar pelo

mundo, mas o pai conseguiu pegá-lo no porto de

Poimboeuf, na primeira escala do navio.

Levou uma surra de chicote por conta disso, pois um

filho de advogado não poderia ser um simples marujo!

Quando começou a ter sucesso em sua carreira literária,

comprou um barco, para vez por outra, navegar e

sentir-se parte daquela imensidão chamada oceano.

“Batizou-o” com o nome de Saint-Michel.

Para fazer gosto ao pai, Pierre Verne e à mãe Sophie

Allote de la Fuÿ, que pertencia a uma família burguesa

de Nantes, anos antes fora estudar Direito.

Mas o que lhe interessava mesmo eram outras

atividades como o teatro, e chegou a escrever livretos

de operetas e pequenos contos de viagens. A boemia

também era agradável aos seus olhos de rapaz.

Nessa época conheceu uma viúva de nome

Honorine de Viane Morel, que já tinha duas filhas,

Casaram-se em 1857 e tiveram um filho juntos, em

1861: Michel Jean Pierre Verne.

Entretanto, Honorine tinha interesses próprios:

Roupas caras, festas onde pudesse se exibir e

às suas filhas, como no conto de “Cinderela”.

Interesses bem diferentes dos de Julio, que eram a

escrita, avanços científicos, balonismo, máquinas e

viagens pelo mundo.

*DEPOIS QUE FOI APRESENTADO A VICTOR

HUGO E ALEXANDRE DUMAS, SUA CARREIRA

LITERÁRIA SURGIU; DESTACANDO-SE AO

CONHECER O EDITOR: Pierre-Jules Hetzel.

Assinou um contrato com o editor para fazer dois livros

por ano, durante vinte anos. Mas ele tinha a “febre de

escrita” e costumava escrever até três livros ao mesmo

tempo. Quase não mudava a versão original enquanto

escrevia, o que demonstrava dessa forma, que era um

ótimo redator. Todos os livros eram sucessos.

Michel Verne não apresentava bom relacionamento

com o pai. Julio Verne então, o enviou aos 16 anos, a

uma viagem de instrução em um navio, por 18 meses.

Foi pior:

O rapaz já rebelde tornara-se ainda mais.

Depois disso, Michel casou-se com uma atriz, contra a

vontade da família, com quem teve dois filhos.

Gaston Verne tentava ser gentil com o tio Julio, para

conquistar o lugar no coração, que Michel dispensava...

Faziam parte da mesma sociedade secreta Rosa Cruz e

costumavam estar nos mesmos lugares onde tudo

‘acontecia’: A Ciência, as Artes e a Literatura.

Na verdade, Gaston Verne não entendia seus

sentimentos para com seu tio: Ao mesmo tempo em que

queria ser como um filho para ele nutria inveja (pela

fama, tendo a atenção voltada para si, onde estivesse) e

ciúme.

Talvez a presença de Irina na vida de Gaston, ocupasse

sua atenção, tirando de vez, esse acúmulo de

sentimentos direcionados a uma só pessoa.

Era o que ele mesmo esperava, quando se propôs a ser

seu benfeitor.

Irina era uma jovem de atitude, inteligente, de ideias

novas e isso lhe agradava muito. Não achava graça nas

moças parisienses que eram fúteis e volúveis.

Mas estando lá, Irina teria que pelo menos parecer

como uma delas, por esse motivo, iria comprar-lhe

roupas, sapatos, chapéus e adereços novos.

Com o tempo, lhe faria o favor de apresentá-la ao

famoso Julio Verne, para que pudesse mostrar seus escritos.

Quem sabe seu tio, poderia indicá-la ao seu editor e

amigo Pierre-Jules Hetzel?

Irina estava encantada com sua chegada em Paris:

Ao descer da carruagem e olhar em sua volta, ficou sem

palavras: casas de roupas e chapéus para senhoras,

livrarias, cafés, bares para senhores e sapatarias! Nunca

tinha visto uma em sua vida.

Gaston ficou satisfeito de vê-la tão contente.

Realmente, isso o deixou intrigado:

Nunca havia nutrido tal sentimento por outra pessoa

estar feliz...

O que estaria acontecendo com ele? Seria necessidade

de preencher sua vida com outros assuntos? Amor para

ele, era fora de cogitação: No máximo um interesse

passageiro, poderia estará acontecendo, vulgarmente

dizendo, uma paixão...

Não acreditava nessa coisa do ‘amor’; isso era apenas

tema para livros.

Bem, era isso que sempre pensara até então. Nenhuma

mulher o queria para namoro, e nunca se incomodara

com isso: Quando estava querendo prazer, bastava-lhe

ir até uma ‘casa’ de meretrizes e ali encontrava.

Seguia sua vida até ali, dessa forma.

Mas, não pode deixar de dizer a si mesmo que Irina

exercia certo fascínio sobre ele: Algo novo, que nunca

experimentara antes!

Perdido nesses pensamentos, não percebera que Irina já

tirava toda a bagagem da carruagem e punha no

passeio. O meio fio era alto e essa tarefa foi um pouco

desastrosa, pois uma das malas se abriu, espalhando a

roupa pela calçada...

Gaston correu para lhe ajudar a juntar as peças do

vestuário novamente na mala. Mas instintivamente,

guardou uma combinação de Irina, branca, com rendas,

sem que ela percebesse.

Não soube porque fez isso, mas foi o que ele achou a

mão, talvez pelo aroma que vinha daquela peça de

roupa tão feminina...

Irina agradeceu a ajuda e juntos entraram na casa

parisiense de Gaston.

Era um casarão do início do século XIX. Fora

comprado pelo seu pai, Paul Verne.

Como na casa de Gaston em Nantes, tinha muitos

quadros nas paredes, mas do estilo impressionista, bem

diferente do que os que vira na outra.

Um piano branco e lustroso destacava-se no salão para

ser tocado nos saraus.

A um canto, estava uma enorme mesa de madeira

trabalhada, nos moldes do século XVIII, com suas 12

cadeiras impecavelmente dispostas lado a lado e

forradas em algum material que se assemelhava aos

tecidos indianos.

Numa das paredes menores, estavam cabeças de alguns

animais empalhados.

O que deu certo mal estar em Irina: Aqueles olhos dos

animais pareciam ter vida! Francamente, não gostava

do ser humano fazer da caça, um esporte.

Gaston apresentou-a ao mordomo que veio recebê-los:

_ Esta é minha protegida Jacques: Mademoiselle Irina...

Oh, percebo que até hoje não sei seu sobrenome!

_ Não disse. Achei que como antes era sua arrumadeira

não precisaria saber mais do que meu primeiro nome...

Meu nome todo é: Irina Desiré Madeleine Laforet

_ Que lindo nome tem! Acostumei-me a chamá-la de

Irina, pois só o primeiro conhecia, mas acho que se

pretende ser uma escritora no futuro, deva usar somente

Desiré Laforet, é mais encantador e com certeza será

mais fácil de ser lembrado, porque Irina não é de

origem francesa...

_ Sim, vem do latim, uma variante de Irene. Tenho aqui

um livro que diz o significado do meu nome, na

bagagem. Quer que eu leia?

_ De certo que gostaria, agora mesmo se for possível...

_ Mas claro, senhor Gaston, vou pegá-lo na valise.