Um Destino Ignorado por Agatha Christie - Versão HTML

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UM DESTINO

IGNORADO

Nada mais restava a fazer. Ela engoliria os

comprimidos, deitar-se-ia na cama e dormiria.

Desse modo nunca mais acordaria. Não tinha, ou

julgava não ter, nenhum sentimento religioso.

A morte de Brenda havia fechado a porta a tudo

isto. Não havia, portanto, nada mais a considerar.

Mais uma vez ela era uma viajante, tal como fora

no Aeroporto de Heathrow, um passageiro

esperando a partida para um destino ignorado, sem

bagagens para incomodar e sem despedidas.

COLEÇÃO AGATHA CHRISTIE.

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AGATHA CHRISTIE

UM DESTINO

IGNORADO

Tradução

PAULO BUARQUE DE MACEDO

6ª edição

Título do original em inglês:

DESTINATION UNKNOWN

© Agatha Christie 1942

Capa

ROLF GUNTHER BRAUN

Revisão

A. TAVARES

Direitos adquiridos com exclusividade para o Brasil pela

EDITORA NOVA FRONTEIRA S.A.

Rua Maria Angélica, 168 — Lagoa — CEP 22461 — Tel.: 286-7822

Endereço Telegráfico: NEOFRONT

Rio de Janeiro — RJ

Proibida a exportação para Portugal

e países africanos de língua portuguesa

Para Anthony

que, tal como eu, gosta muito de viajar em outros

países.

PERSONAGENS

JESSOP — Um a um, os mais brilhantes cientistas do Ocidente

desapareciam sem se saber para onde. Este agente da

Segurança Britânica põe a sua inteligência em luta com o

cérebro desconhecido responsável pelos desaparecimentos.

THOMAS BETTERTON — O jovem gênio que descobrira a Fissão ZE e

o último cientista a sumir.

OLIVE BETTERTON — Mulher de Thomas Betterton que planeja uma

súbita e misteriosa viagem a Marrocos.

BORIS GLYDR — Um contra-parente afastado de Thomas Betterton.

Um estrangeiro de aspecto severo e que não demonstrava

qualquer emoção, mas que não podia esconder um interesse

fora do comum pelo desaparecimento.

HILARY CRAVEN — Sua missão é praticamente um suicídio.

Assumindo a identidade de uma mulher já morta, e que nunca

conhecera, ela entra no emaranhado de intrigas que cerca o

físico desaparecido.

MRS. CALVIN BAKER — Tipicamente uma turista americana —

enérgica, palradora, curiosa. Ela talvez seja demasiado típica.

JANET HETHERINGTON — Um outro tipo: a reservada e seca

viajante inglesa, preocupada com as restrições cambiais. O seu

tricô fica prejudicado mas os seus olhos nada perdem do que se

passa em redor.

HENRI LAURIER — Ele, também, é típico: um francês que se esforça

para ser galante e agradável, mesmo quando fala sobre o tempo.

MONSIEUR ARISTIDES — Um homem de fortuna inacreditável e

cujos dedos amarelados manipulam cordéis em todo o mundo.

ANDREW PETERS — Um jovem e simpático químico pesquisador

americano. O seu objetivo é a AMIZADE ENTRE OS HOMENS e

ele daria tudo — ou quase tudo — para alcançá-lo.

TORQUIL ERICSSON — O idealismo desse norueguês é tão intenso

que chega a ser assustador. “Ele parece um cientista louco de

fita de cinema.”

DR. LOUIS BARRON — Inteiramente devotado às pesquisas

bacteriológicas. Não hesitaria em matar desde que fosse no

interesse da ciência.

HELGA NEEDHEIM — Arrogante e intolerante. Ela é totalmente

cientista e nada mulher.

PAUL VAN HEIDEM — Alto e simpático. Seus modos e sua voz são

agradáveis mas o seu olhar é estranhamente frio.

LEBLANC — O investigador francês que recruta bérberes para

percorrer e investigar os desertos de Marrocos. Os resultados

são surpreendentes.

CAPÍTULO 1

O HOMEM SENTADO à mesa moveu alguns centímetros para um

lado o grande pesa-papéis de vidro. Sua fisionomia parecia mais sem

expressão que abstrata ou pensativa. A sua compleição era pálida

como a dos que ficam quase todo o dia sob a luz artificial. Ele dava a

impressão de viver sempre entre quatro paredes. Era um homem que

vivia entre mesas e arquivos. Parecia natural que para se chegar a

sua sala fosse preciso andar por corredores subterrâneos e

tortuosos. Seria difícil precisar a sua idade. Não parecia nem velho

nem moço. Seu rosto era liso e sem rugas mas havia um grande

cansaço em seus olhos.

O outro homem na sala era mais velho. Era moreno e tinha um

pequeno bigode militar. Emanava vivacidade e energia. Não podia

estar quieto. Andava de um lado para outro e, de vez em quando,

fazia uma observação em tom nervoso.

— Relatórios — disse subitamente. — Relatórios, relatórios e

mais relatórios e nenhum deles vale um caracol.

O homem sentado à mesa olhou para os papéis a sua frente.

Sobre eles havia uma pasta marcada “Betterton, Thomas Charles”.

Depois do nome havia um ponto de interrogação. O homem sacudiu

a cabeça, pensativo. Disse, então:

— Você investigou todos estes relatórios e nenhum deles vale

nada?

O outro encolheu os ombros:

— Quem poderá saber? — perguntou.

O homem sentado à mesa suspirou.

— Sim — disse ele, — isto é verdade. Não se pode ter certeza.

O homem mais velho falou com a rapidez súbita de uma

metralhadora:

— Relatórios de Roma, relatórios da Tourraine, visto na Riviera;

percebido em Antuérpia; positivamente identificado em Oslo;

reconhecido em Biarritz; observado quando agia de forma suspeita

em Strasburgo; avistado na praia em Ostende, em companhia de

uma linda loura; notado nas ruas de Bruxelas com um galgo. Só não

foi visto, até agora, no Jardim Zoológico abraçando uma zebra, mas

isto não tardará.

— Você não tem nenhum palpite, Wharton? Eu tinha

esperanças no relatório de Antuérpia, mas deu em nada. É claro que

já agora...

O homem mais moço parou de falar e pareceu completamente

alheio a tudo. Subitamente saiu do transe e disse, enigmaticamente:

— Sim, provavelmente... entretanto... eu me pergunto...

O Coronel Wharton sentou-se bruscamente no braço de uma

poltrona.

— Mas temos que achar a solução — disse com veemência. —

Temos que descobrir todos esses como, por que e onde? Não se pode

perder um cientista pacato cada mês, ou coisa que o valha, sem que

se tenha uma idéia de como eles vão, do por que eles vão ou para

onde vão! Será para onde nós pensamos, ou não? Sempre

presumimos que o destino fosse esse, mas já não estou tão seguro.

Você leu tudo que chegou ultimamente da América sobre Betterton?

O moço sentado à mesa aquiesceu, com a cabeça.

— As mesmas tendências esquerdistas que todos os jovens de

certo período. Tanto quanto foi possível averiguar, nada de

duradouro ou permanente. Fez trabalhos sérios antes da guerra mas

nada de espetacular. Quando Mannheim fugiu da Alemanha,

Betterton foi designado para seu auxiliar e acabou casando com a

filha dele. Depois da morte de Mannheim continuou a trabalhar só e

de forma brilhante. Deu um salto para a fama com a surpreendente

descoberta da Fissão ZE. A Fissão ZE era uma descoberta brilhante e

absolutamente revolucionária Elevou Betterton ao topo do mundo

científico. Tudo indicava que teria uma carreira notável na América,

mas sua mulher morreu pouco depois do casamento e ele ficou

profundamente chocado e magoado. Mudou-se para a Inglaterra.

Trabalhou em Harwell durante os últimos dezoito meses. Seis meses

atrás casou-se novamente.

— Haverá algo nisso? — perguntou Wharton, bruscamente.

O outro sacudiu a cabeça.

— Nada descobrimos. Ela é filha de um advogado. Antes de

casar trabalhava numa agência de seguros. Tanto quanto podemos

averiguar não tinha idéias nem ligações políticas extremadas.

— Fissão ZE — disse o Coronel Wharton aborrecido e com ar

de desagrado. — O que eles querem dizer com todas essas palavras é

além da minha compreensão. Eu sou antiquado, nem sequer

concebo mentalmente o que seja uma molécula, mas eles, hoje em

dia, falam em rebentar o universo! Bombas atômicas, fissão nuclear,

Fissão ZE e o que mais seja. E o Betterton era um dos maiorais. Que

pensam dele em Harwell?

— Um tipo simpático. Quanto ao seu trabalho, nada de

excepcional ou espetacular. Somente variações sobre as aplicações

práticas da FZE.

Os dois ficaram calados alguns momentos. A sua conversa fora

sem importância, quase automática. Os relatórios da Segurança

formavam uma pilha sobre a mesa. Eles nada continham de útil ou

valioso.

— Ele foi rigorosamente investigado quando aqui chegou, é

claro — disse Wharton.

— Sim, tudo foi considerado plenamente satisfatório.

— Há dezoito meses — disse Wharton, pensativo. — Eles ficam

deprimidos, você sabe. Precauções de segurança. A sensação de estar

sempre sendo vigiados como se estivessem sob as lentes de um

microscópio, a vida como se estivessem num claustro. Ficam

irritadiços e estranhos. Eu já vi isso mais de uma vez. Começam a

pensar num mundo ideal. Liberdade e Fraternidade, troca de todas

as; informações científicas para o bem da humanidade. Nada de

segredos! É justamente num desses momentos que alguém,

pertencendo à escória da humanidade, percebe a oportunidade e a

aproveita. — Coçou o nariz. — Não há ninguém tão crédulo quanto

um cientista — disse ele. — Todos os falsos médiuns assim o

afirmam. Não posso entender por quê.

O outro sorriu. Um sorriso muito cansado.

— Sim — disse ele, — é natural que assim seja. Eles pensam

que sabem, compreende? Isto é sempre perigoso. Nós somos outro

tipo de gente. Somos homens de mentalidade humilde. Não

pretendemos salvar o mundo. Servimos apenas para apanhar alguns

pedaços quebrados ou para tirar corpos estranhos que estão

provocando enguiços na máquina

Tamborilou com os dedos sobre a mesa.

— Se ao menos eu soubesse um pouco mais sobre o Betterton

— disse ele. — Não sobre a sua vida e seu modo de agir, mas sobre

as coisas quotidianas que podem ser tão reveladoras. Que tipo de

piada o fazia rir. O que o fazia blasfemar. Quais as pessoas que ele

admirava e quais as que o irritavam.

Wharton, curioso, olhou para ele.

— E a mulher? Já conversou com ela?

— Várias vezes.

— Ela não pode ajudar?

O outro sacudiu os ombros.

— Até este momento, não.

— Você acha que ela sabe alguma coisa?

— Evidentemente ela não diz que sabe qualquer coisa. Mostra

todas as reações que se podem esperar: preocupação, tristeza,

grande ansiedade, nenhum indício ou suspeita anterior, vida do

marido perfeitamente normal, nenhuma espécie de tensão... e assim

por diante. A sua idéia é que o marido foi raptado.

— E você não acredita nela?

— Eu tenho preconceitos — disse com ar amargo o homem

sentado à mesa. — Eu nunca acredito em ninguém.

— Bem — disse Wharton, vagarosamente, — eu penso que se

deve ter a mente sem muitos preconceitos. Que tal é ela?

— Um tipo comum de mulher. Daquelas que se vêem todos os

dias jogando bridge.

Wharton indicou, com um gesto da cabeça, que compreendia.

— Isto torna as coisas mais difíceis — disse ele.

— Ela está aqui agora, para ver-me. Falaremos novamente

sobre as mesmas coisas.

— É a única maneira — disse Wharton. — Eu não poderia fazê-

lo, entretanto. Não tenho bastante paciência. — Levantou-se. — Não

vou mais tomar seu tempo. Não avançamos muito, não é verdade?

— Infelizmente não. Você poderia mandar estudar mais a

fundo o relatório de Oslo. Parece ser um lugar prometedor.

Wharton fez que sim com a cabeça e saiu. O outro homem

levou o fone, que estava perto, ao ouvido e disse:

— Verei a Sra. Betterton agora. Mande-a entrar.

Ficou fitando o espaço até que bateram à porta e a Sra.

Betterton entrou. Era uma mulher alta, aparentando uns vinte e sete

anos de idade. O que mais chamava a atenção nela era a sua

magnífica cabeleira ruiva. Sob o esplendor da cabeleira, o rosto

parecia quase insignificante. Tinha os olhos azuis e os cílios claros

que tão freqüentemente acompanham os cabelos ruivos. Ele notou

que ela não usava nenhuma maquilagem. Pensou no que isto poderia

significar,

enquanto

a

cumprimentava

e

fazia

sentar

confortavelmente numa cadeira próxima a sua mesa. O fato

inclinava-o, ligeiramente, a pensar que a Sra. Betterton sabia mais

do que dizia saber.

Sabia, por longa experiência, que as mulheres, mesmo quando

sofrendo agonias e ansiedades, não descuidavam a sua maquilagem.

Sabendo o quanto o sofrimento marcava os seus rostos, faziam o

melhor possível para melhorar a aparência. Pensou que, talvez, a

Sra. Betterton tivesse deixado de se maquilar para melhor

representar o papel da esposa desesperada. Quase sem fôlego ela

perguntou:

— Oh, Sr. Jessop, espero que tenha alguma notícia.

Ele sacudiu a cabeça e disse, delicadamente:

— Peço desculpas por ter pedido que viesse aqui novamente,

Sra. Betterton. Lamento dizer que não temos notícias positivas a dar.

Olive Betterton disse, falando com rapidez:

— Eu sei. O senhor o disse em sua carta. Mas eu imaginava

que talvez, depois que o senhor escreveu... oh, foi um alívio vir até

cá. Ficar só em casa pensando e preocupada... é o pior de tudo

porque nada se pode fazer!

O homem chamado Jessop disse, com voz tranqüilizante:

— A senhora deve desculpar-me, Sra. Betterton, se eu falo as

mesmas coisas novamente e se faço as mesmas perguntas e repiso

os mesmos pontos. A senhora compreende que é sempre possível que

possa surgir um pequeno ponto. Alguma coisa que a senhora não

tivesse pensado antes ou talvez julgasse tão insignificante que não

valesse a pena mencionar.

— Sim. Sim, eu compreendo. Pode perguntar novamente tudo o

que quiser.

— A última vez que a senhora viu seu marido foi no dia 23 de

agosto?

— Sim.

— Isso foi quando ele partiu da Inglaterra para tomar parte em

uma conferência, em Paris?

— Sim.

Jessop prosseguiu, rapidamente.

— Ele esteve presente aos dois primeiros dias da conferência.

No terceiro dia não apareceu. Parece que disse a um dos seus

colegas que iria fazer um passeio em um bateau mouche em vez de

comparecer.

— Um bateau mouche? Que é um bateau mouche?

Jessop sorriu.

— Uma das pequenas embarcações que navegam no Sena —

olhou atentamente para ela. — Parece-lhe pouco provável que seu

marido fizesse tal coisa?

Ela respondeu, com ar de dúvida.

— Francamente, parece-me. Eu diria que ele estava muito

interessado nas discussões da conferência.

— Possivelmente. Entretanto os assuntos a serem debatidos

naquele dia não eram de seu especial interesse e é razoável que ele

tirasse um descanso. Mas a senhora acha que isso não está muito de

acordo com o feitio do seu marido?

Ela sacudiu a cabeça.

— Naquela noite ele não voltou para o hotel — continuou

Jessop. — Tanto quanto foi possível averiguar, não atravessou

nenhuma fronteira, pelo menos com o seu passaporte. A senhora

acha que ele poderia ter um outro passaporte, possivelmente com

outro nome?

— Oh, não, para que ele precisaria disso?

Ele a observava.

— A senhora nunca viu tal passaporte em poder dele?

Ela sacudiu a cabeça, com força.

— Não, e eu não acredito nisso. Absolutamente não acredito.

Não acredito que tenha ido embora deliberadamente, como os

senhores todos pretendem insinuar. Alguma coisa aconteceu-lhe, ou

então... ou então talvez ele tenha perdido a memória.

— A saúde dele era normal?

— Sim. Ele estava trabalhando muito e algumas vezes sentia-

se algo cansado. Nada além disso.

— Ele não parecia preocupado ou de qualquer forma

deprimido?

— Não estava preocupado nem deprimido por coisa alguma! —

Com dedos trêmulos ela abriu a bolsa e tirou um lenço. — É uma

coisa terrível. — Tremia-lhe a voz. — Não posso acreditar. Ele nunca

teria partido sem me dizer nada. Alguma coisa aconteceu. Foi

raptado ou talvez atacado. Procuro não pensar nisso mas algumas

vezes acredito ser esta a única solução. Ele deve estar morto!

— Por favor, Sra. Betterton, por favor, ainda não há motivo

algum para pensar assim. Nada justifica tal suposição. Se ele

estivesse morto o seu corpo já teria sido encontrado.

— Talvez não. Coisas horríveis sempre acontecem.. Pode ter

sido afogado ou jogado no esgoto. Qualquer coisa pode acontecer em

Paris.

— Posso assegurar-lhe, Sra. Betterton, que Paris é uma cidade

muito bem policiada.

Ela retirou o lenço dos olhos e fitou-o com indisfarçável rancor.

— Eu sei o que o senhor pensa, mas não é verdade. Tom nunca

venderia segredos ou trairia segredos. Ele não é comunista. Sua vida

é um livro aberto.

— Quais eram as suas opiniões políticas, Sra. Betterton?

— Na América, creio que ele era democrata. Aqui ele votava no

Partido Trabalhista. Não se interessava por política. Era um

cientista, pura e simplesmente. — Acrescentou com ênfase: — Era

um cientista brilhante!

— Sim — disse Jessop, — ele era um cientista brilhante. Aí

está o âmago de toda a questão. Pode ser que lhe tenham oferecido

grandes vantagens e atrativos para deixar este país e ir para outro.

— Não é verdade — a cólera surgiu novamente. — É isso que os

jornais procuram insinuar. É isso que todos os senhores pensam

quando me fazem perguntas. Não é verdade. Ele nunca iria embora

sem me dizer, sem ao menos me dar alguma idéia.

— E ele nada disse?

Novamente ele a olhava com grande atenção.

— Não sei onde ele está. Penso que foi raptado ou, como receio,

assassinado. Se está morto preciso saber. Preciso saber sem demora.

Não posso continuar neste suplício de esperar e imaginar o pior. Não

posso dormir nem comer. Não suporto mais tantas preocupações. Os

senhores não me podem ajudar? Não podem ajudar de forma

alguma?

Ele se levantou e contornou a mesa. Em voz baixa disse:

— Lamento muito, Sra, Betterton, lamento profundamente.

Posso assegurar que estamos fazendo o máximo que é possível para

descobrir o que aconteceu ao seu marido. Estamos recebendo

relatórios diários de vários lugares.

— Relatórios de onde? — perguntou ela vivamente. — Que

dizem esses relatórios?

Ele sacudiu a cabeça.

— Todos eles exigem novas diligências e investigações. Têm que

ser estudados e verificados. De um modo geral, lamento dizê-lo, até

agora só temos informações muito vagas.

—Eu preciso saber — murmurou ela quase soluçante. — Não

posso continuar assim.

— A senhora gosta muito do seu marido, Sra. Betterton?

— É claro que eu gosto dele. Há apenas seis meses que

estamos casados. Só seis meses.

— Sim, eu sei. Perdoe a pergunta: não havia brigas ou

discussões de qualquer espécie entre a senhora e seu marido?

— Oh, não.

— Nenhum problema por causa de outra mulher?

— É claro que não. Eu já disse ao senhor, nós só estamos

casados desde abril.

— Peço que acredite que eu não estou sugerindo que tal coisa

seja provável, mas temos que examinar todas as possibilidades que

possam explicar a sua partida tal como se deu. A senhora diz que

ultimamente ele não parecia transtornado ou preocupado; não

demonstrava qualquer espécie de nervoso?

— Não, não, não.

— A senhora sabe que trabalhando como o seu marido, sob

condições irritantes de segurança e fiscalização, muitas pessoas

ficam nervosas. De fato, o normal é que assim seja — disse ele,

sorrindo.

Ela não correspondeu ao sorriso.

— Ele era o mesmo de sempre — disse ela friamente.

— Estava contente com o trabalho? Conversava com a senhora

sobre as suas atividades?

— Não. O seu trabalho era demasiado técnico e complicado

para mim.

— A senhora acredita que ele tivesse preocupação ou

lamentasse, digamos, as possibilidades destrutivas do que estava

fazendo? Alguns cientistas têm tais sentimentos, não é?

— Ele nunca deu a entender tal coisa.

— Veja bem, Sra. Betterton — ele se debruçou sobre a mesa e o

seu rosto perdeu a impassividade, — o que estou tentando fazer é

compreender o seu marido. Que espécie de homem ele era, mas

tenho a impressão de que a senhora não me quer ajudar.

— Mas... que mais posso dizer ou fazer? Respondi a todas as

suas perguntas.

— Sim, respondeu a todas as minhas perguntas mas

principalmente com negativas. Eu preciso de algo positivo, algo

construtivo. Compreende o que eu quero dizer? É muito mais fácil

procurar por um homem quando se sabe como ele é, como ele age.

Ela pensou alguns instantes.

— Eu compreendo. Pelo menos creio ter compreendido. Bem,

Tom era alegre e tinha bom humor. É claro que era muito inteligente.

Jessop sorriu.

— A senhora enumerou qualidades. Vejamos algo de mais

pessoal. Ele lia muito?

— Bastante.

— Que tipo de livros?

— Oh, biografias, livros recomendados por clubes de bibliófilos

e, quando estava cansado, livros policiais.

— O tipo normal de leitor. Tinha alguma preferência especial?

Jogava cartas ou xadrez?

— Jogava bridge. Costumávamos jogar com o Dr. Evans e sua

esposa, uma ou duas vezes por semana.

— Seu marido tinha muitos amigos?

— Sim, ele era bastante gregário.

— Não era bem isto que eu queria saber. Pergunto se ele era

muito ligado a seus amigos?

— Ele jogava golfe com alguns dos nossos vizinhos.

— Não tinha alguns amigos especiais ou companheiros

habituais?

— Não. O senhor sabe que ele viveu muito tempo nos Estados

Unidos e que nasceu no Canadá. Não conhecia muita gente aqui.

Jessop consultou um papel que estava a seu lado.

— Segundo estou informado, três pessoas vindas dos Estados

Unidos o visitaram recentemente. Tenho seus nomes aqui. Tanto

quanto nos foi possível averiguar, essas três pessoas foram as únicas

de fora, por assim dizer, com as quais ele teve contato. É por isso

que lhes demos uma atenção especial. A primeira foi Walter Griffiths.

Ele foi visitá-los em Harwel.

— Sim, ele veio visitar a Inglaterra e foi procurar o Tom.

— E qual foi a reação do seu marido?

— Ficou surpreendido com a visita, mas muito satisfeito. Eles

se visitavam muito nos Estados Unidos.

— Que lhe pareceu esse Griffiths? Pode descrevê-lo?

— Mas o senhor certamente sabe tudo a respeito dele.

— Sim, sabemos tudo a respeito dele. Mas eu gostaria de

conhecer a sua opinião.

Ela pensou por alguns momentos.

— Bem, ele é um tipo solene e muito falador. Foi muito

delicado comigo e pareceu gostar muito do Tom. Queria contar tudo

que acontecera depois que Tom veio para a Inglaterra. Todos os

mexericos locais, suponho eu. Não foi muito interessante para mim

porque eu não conhecia as pessoas de quem falava. Além disso, eu

estava preparando o jantar enquanto eles trocavam reminiscências.

— Não falaram em política?

— O senhor está querendo insinuar que ele é comunista —

Olive Betterton corou violentamente. — Estou segura de que não é.

Ele tem um cargo qualquer junto ao Procurador Distrital, creio eu.

Quando o Tom gracejou sobre a Caça de Feiticeiras nos Estados

Unidos, ele disse, com ar muito sério, que nós não compreendíamos

essas coisas na Inglaterra mas que elas eram necessárias. Isto prova

que ele não era comunista.

— Por favor, Sra. Betterton, não se exalte.

— Tom não era comunista, eu já o disse muitas vezes, mas o

senhor não acredita.

— Acredito sim, mas este assunto fatalmente voltará à baila.

Agora falemos da segunda pessoa vinda de fora e que conversou com

seu marido. Refiro-me ao Dr. Mark Lucas. A senhora e seu marido o

encontraram em Londres. No Dorset, não foi?

— Sim. Nós fôramos ao teatro em Londres e depois fomos

jantar no Dorset. Subitamente esse Sr. Luke, ou Lucas, surgiu e

cumprimentou Tom. Ele é um químico trabalhando em pesquisas

não sei de que e a última vez que vira o Tom fora nos Estados

Unidos. Era um refugiado alemão, naturalizado americano. Mas

certamente o senhor...

— Certamente eu sei disso? Sim, sei, Sra. Betterton. Seu

marido ficou surpreendido ao vê-lo?

— Sim, muito surpreendido.

— Agradavelmente?

— Sim, creio que sim.

— A senhora não tem certeza? — insistiu.

— Bem, Tom disse-me depois que não simpatizava muito com

ele.

— O encontro foi casual? Não combinaram ver-se novamente?

— Não, foi um encontro puramente casual.

— Compreendo. A terceira pessoa vinda de fora que encontrou

seu marido foi uma mulher, a Sra. Carol Speeder, também dos

Estados Unidos. Como foi esse encontro?

— Creio que tem um cargo na ONU. Ela conhecera Tom nos

Estados Unidos e telefonou-lhe de Londres para dizer que havia

chegado e perguntando se nós não poderíamos ir almoçar com ela

qualquer dia...

— Os senhores foram?

— Não.

— A senhora não, mas seu marido foi.

— Que! — olhou-o fixamente.

— Ele não lhe disse?

— Não.

Olive Betterton parecia abismada e perturbada. O homem que

a interrogava teve pena dela, mas não abandonou o ataque. Pela

primeira vez parecia-lhe que começava a conseguir alguma coisa.

— Eu não compreendo — disse ela, pouco segura. — É muito

esquisito que ele não me tenha contado nada.

— Eles almoçaram juntos, no Dorset, onde a Sra. Speeder

estava hospedada, na quarta-feira, 12 de agosto.

— Doze de agosto?

— Sim.

— É verdade, ele foi a Londres, mais ou menos nessa ocasião.

Mas nunca falou nisso — interrompeu o que estava dizendo e,

subitamente, perguntou: — Como é ela?

Ele respondeu rapidamente e em tom tranqüilizador.

— Não é absolutamente uma mulher bonita, Sra. Betterton.

Uma mulher competente, de pouco mais de trinta anos que não é

nenhuma beleza. Não há a menor indicação de que as suas relações

com seu marido pudessem ser íntimas. Justamente por isso é que é

estranho que ele não lhe tivesse falado sobre o encontro.

— Sim, sim, eu também acho.

— Agora pense com cuidado, Sra. Betterton. A senhora notou

alguma modificação em seu marido mais ou menos nessa época? Em

meados de agosto? Isso foi, mais ou menos, uma semana antes da

conferência.

— Não, não, eu não notei nada. Não havia nada para notar.

Jessop suspirou.

A campainha do telefone de mesa soou discretamente. Ele

levou o fone ao ouvido.

— Sim — disse ele.

Uma voz falou-lhe.

— Há um homem aqui que quer falar com alguém responsável

pelo caso Betterton, senhor.

— Qual é o seu nome?

A voz ao telefone tossiu discretamente.

— Bem, eu não estou seguro de como se pronuncia o nome, Sr.

Jessop. Talvez seja melhor que eu soletre.

— Certo. Pode começar.

Escreveu num papel as letras, à medida que as ouvia.

— Polonês? — perguntou.

— Ele não o disse, senhor. Fala inglês bastante bem, mas com

um ligeiro sotaque.

— Peça que espere.

— Muito bem, senhor.

Jessop desligou o telefone e depois olhou para Olive Betterton.

Ela continuava sentada, quieta, com uma placidez desesperada. Ele

arrancou a folha do bloco onde escrevera o nome e entregou a ela.

— Conhece alguém com esse nome?

Ela arregalou os olhos ao fitar o papel. Por um instante ele

pensou que ela estivesse com medo.

— Sim — disse ela, — conheço, Ele me escreveu.

— Quando?

— Ontem. Ele é primo da primeira mulher de Tom. Acaba de

chegar à Inglaterra. Está muito preocupado com o desaparecimento

de Tom. Escreveu perguntando se eu tinha alguma notícia e para

exprimir a sua profunda simpatia.

— A senhora nunca ouviu falar nele, antes?

— Não.

— Então é possível que ele nem sequer seja primo do seu

marido?

— Bem, suponho que sim. Eu não havia pensado nisso.

Ela parecia perturbada.

— A primeira mulher de Tom era estrangeira. Filha do

Professor Mannheim. Pela carta o homem parecia saber tudo sobre

Tom e ela. A carta era muito formal e correta; mostrava ter sido

escrita por um estrangeiro. Tive a impressão de que a carta dizia a

verdade. De qualquer forma, qual seria o objetivo da carta se não

fosse genuína?

Jessop esboçou um sorriso.

— Nós, aqui, estamos sempre fazendo esse tipo de pergunta.

Temos tantas dúvidas que as menores coisas nos parecem, algumas

vezes, completamente fora de proporção.

— Acredito perfeitamente nisto.

Ela teve um súbito tremor.

— É curioso como esta sua sala aqui, no meio de um labirinto

de corredores, parece um desses sonhos que nunca terminam...

— Sim, sim, admito que este ambiente possa dar uma

sensação de claustrofobia — disse Jessop, com ar amável.

Olive Betterton ergueu uma das mãos e ajeitou os cabelos que

lhe caíam sobre a testa.

— O senhor deve compreender que eu não posso suportar esta

situação — disse ela; — esperar, esperar. Preciso mudar de

ambiente. Ir ao estrangeiro, por exemplo. Ir para algum lugar onde

não seja importunada, a cada momento, por jornalistas, onde todos

não estejam sempre me fitando. Todos os amigos que encontro estão

sempre perguntando se tenho qualquer notícia.

Fez uma pausa e continuou.

— Sinto que vou ter uma crise nervosa. Tenho tentado ter

coragem, mas já não tenho mais forças. O meu médico concorda

comigo. Ele acha que eu devo ir para fora por três ou quatro

semanas. Posso mostrar a carta que me escreveu.

Nervosamente ela abriu a bolsa donde retirou um envelope que

colocou sobre a mesa e empurrou na direção de Jessop.

— Veja o que diz o médico.

Jessop tirou a carta do envelope e a leu.

— Sim, sim, eu compreendo.

Recolocou a carta no envelope.

— Então... posso ir?

Seus olhos o fitavam atentamente.

— Mas é claro, Sra. Betterton — respondeu ele. Ergueu as

sobrancelhas denotando surpresa. — Por que não?

— Pensei que o senhor fizesse objeção.

— Objeção... por quê? É um assunto que só depende da

senhora. Só peço que me informe como poderei encontrá-la, caso

tenha alguma notícia enquanto estiver fora.

— Mas, naturalmente.

— Para onde a senhora estava pensando ir?

— Para algum lugar onde haja sol e eu não encontre muitos

ingleses. Para a Espanha ou para Marrocos.

— Isto seria ótimo e estou certo de que lhe faria muito bem.

— Oh, muito obrigada. Muito obrigada.

Ela se levantou excitada, contente mas ainda demonstrando

nervosismo.

Jessop levantou-se, apertou-lhe a mão e tocou a campainha

chamando alguém que a acompanhasse para sair. Tornou a sentar-

se. Por alguns momentos sua fisionomia continuou sem expressão

mas, pouco a pouco, um sorriso veio-lhe aos lábios. Ele levantou o

fone.

— Mande entrar o Major Glydr — disse.

CAPÍTULO 2

- MAJOR GLYDR?

Jessop hesitou um pouco para pronunciar o nome.

— É difícil, sim.

O visitante falava de forma a indicar que compreendia a

dificuldade.

— Durante a guerra os seus compatriotas chamavam-me de

Glider. Agora que vivo nos Estados Unidos, trocarei meu nome para

Glyn. Será mais conveniente para todos.

— O senhor acaba de chegar dos Estados Unidos?

— Sim, cheguei há uma semana. O senhor é... queira

desculpar... o Sr. Jessop?

— Sim, sou Jessop.

O outro olhou-o com atenção.

— Bem — disse ele, — já ouvi falar no senhor.

— Talvez eu esteja indo depressa demais. Antes que o senhor

permita que lhe faça algumas perguntas, quero mostrar esta carta da

Embaixada dos Estados Unidos.

Com uma mesura entregou a carta.

Jessop pegou a carta, leu as primeiras linhas de delicada

apresentação e colocou-a sobre a mesa. Olhou para o seu

interlocutor com cuidado. Era um homem alto, de cerca de trinta

anos, de postura algo rígida. Os cabelos louros estavam cortados

muito curtos, à moda do continente europeu. A sua maneira de falar

era vagarosa e cuidada, e embora gramaticalmente certa, tinha um

claro sotaque estrangeiro. Não demonstrava qualquer nervosismo ou

falta de segurança. Este fato, por si só, era pouco usual. Quase todos

os que vinham a este gabinete mostravam-se nervosos, excitados ou

apreensivos. Alguns demonstravam desconfiança e outros falavam

com demasiada veemência.

Aí estava um homem perfeitamente controlado, um homem

cuja fisionomia nada mostrava e que sabia o que estava fazendo e

por quê. Um homem a quem não seria fácil fazer dizer o que não

queria, que só diria o que tinha a intenção de dizer. Jessop disse com

tom amável:

— Que podemos fazer para o senhor?

— Vim perguntar se o senhor tinha notícias de Thomas

Betterton, que desapareceu recentemente de maneira aparentemente

misteriosa e sensacional. Não se pode acreditar piamente no que

dizem os jornais. Indaguei onde poderia ter informações fidedignas.

Disseram-me que com o senhor.

— Lamento dizer que não temos informações positivas sobre

Betterton.

— Pensei que talvez ele tivesse sido enviado ao exterior em

alguma missão — fez uma pausa e acrescentou: — Uma dessas

missões muito secretas.

— Meu caro senhor — Jessop deu a impressão de estar

ressentido. — Betterton era um cientista e não um diplomata ou

agente secreto.

— Considero-me repreendido justamente. Os rótulos nem

sempre estão certos. O senhor perguntará qual é o meu interesse no

caso. Thomas Betterton era meu parente por afinidade. Foi casado

com minha prima.

— Sim. Creio que o senhor é sobrinho do falecido Professor

Mannheim.

— Ah, o senhor já sabia isto. Os senhores aqui estão bem

informados.

— Pessoas vêm aqui e nos contam coisas — murmurou Jessop.

— A mulher de Betterton esteve aqui. Ela me contou que o senhor

lhe escreveu.

— Para exprimir a minha simpatia e indagar se tinha alguma

notícia.

— Muito atencioso de sua parte.

— Minha mãe era a única irmã do Professor Mannheim. Eles

eram muito ligados. Quando eu era um menino ia muito à casa do

meu tio, em Varsóvia, e Elsa era como se fosse minha irmã. Quando

meus pais morreram fui viver com o meu tio e minha prima. Tivemos

dias muito felizes. Depois veio a guerra, a tragédia, os horrores...

Mas não falemos nessas coisas. Meu tio e Elsa fugiram para os

Estados Unidos. Eu permaneci na Resistência subterrânea e, depois

da guerra, foram-me confiadas algumas missões. Apenas uma vez fui

à America ver meu tio e minha prima. Finalmente terminaram meus

trabalhos na Europa e eu pretendia viver nos Estados Unidos, perto

do meu tio, de minha prima e seu marido. Quando lá cheguei... —

abriu os braços — meu tio tinha morrido, minha prima também e

seu marido viera para a Inglaterra e casara novamente. Mais uma

vez eu estava sem família. Foi então que li que o conhecido cientista

Thomas Betterton havia desaparecido e eu vim para saber se podia

fazer alguma coisa.

Parou e olhou para Jessop como a interrogá-lo.

Jessop olhou-o sem qualquer expressão no rosto.

— Por que motivo ele desapareceu. Sr. Jessop?

— Isto — respondeu Jessop delicadamente — é exatamente o

que queremos saber.

— Talvez o senhor realmente saiba.

Jessop refletiu de como os papéis dos dois poderiam estar

invertidos. Naquele gabinete ele é que estava acostumado a

interrogar os outros. Esse estrangeiro não era o inquiridor. Sempre

sorrindo amavelmente, Jessop respondeu:

— Posso assegurar que não.

— Mas o senhor tem suspeitas?

— É possível — disse Jessop cautelosamente — que haja certas

coincidências... Têm havido casos semelhantes.

— Eu sei.

Rapidamente o visitante citou meia dúzia de casos.

— Todos eram cientistas — disse ele com ênfase.

— Sim.

— Eles foram para trás da Cortina de Ferro?

— Possivelmente, mas não temos a certeza.

— Mas, eles foram por sua livre vontade?

— Mesmo isso — disse Jessop — é difícil afirmar.

— O senhor acha que isto não é de minha conta?

— Ora, por favor.

— Mas o senhor tem razão. O assunto só me interessa por

causa de Betterton.

— Queira desculpar-me — disse Jessop, — se eu não entendo

bem o motivo do seu interesse. Afinal de contas Betterton só é seu

parente por afinidade. O senhor nem sequer o conhecia.

— Isto é verdade. Mas para nós, poloneses, a família é coisa

muito importante. Há obrigações.

Levantou-se e curvou-se meio duro.

— Lamento ter tomado o seu tempo e agradeço a sua

amabilidade.

Jessop também se levantou.

— Sinto não podermos ajudá-lo — disse — mas asseguro que

estamos sem qualquer informação segura. Se eu vier a saber alguma

coisa, como poderei comunicar-me com o senhor?

— Aos cuidados da Embaixada Americana por favor.

Fez uma nova curvatura formal.

Jessop tocou a campainha. O Major Glydr saiu. Jessop levou o

fone ao ouvido.

— Peça ao Coronel Wharton para vir a minha sala.

Quando Wharton entrou Jessop disse:

— Finalmente parece que as coisas começam a andar.

— Como?

— A Sra. Betterton quer ir para o estrangeiro.

Wharton assoviou.

— Ao encontro do maridinho?

— Espero que sim. Ela veio trazendo uma carta muito

conveniente, escrita pelo seu médico. Precisa de um repouso

completo e de mudar de ambiente.

— Parece animador.

— Naturalmente, pode ser verdade — Jessop preveniu .

— Nós aqui não aceitamos como tal — disse Wharton.

— Não. Mas ela age de maneira a mais convincente. Não teve

um só lapso.

— Suponho que não conseguiu mais nada dela?

— Um leve indício. A mulher chamada Speeder com quem

Betterton almoçou no Dorset.

— Sim?

— Ele nada disse à mulher sobre esse almoço.

— Oh — murmurou Wharton. — Você acha que isto pode ter

importância?

— Pode ser que sim. Carol Speeder foi chamada a depor

perante a comissão sobre Atividades Anti-americanas. Ela deu

esclarecimentos satisfatórios mas... apesar de tudo ficou marcada

ou, pelo menos, alguns pensam que ficou. É remotamente possível

que se trate de um contato. Foi o único que, até agora, encontramos

com relação a Betterton.

— E quanto às pessoas que tiveram contato com a Sra.

Betterton ultimamente? Alguma delas poderia ter influído para essa

idéia de ir para o estrangeiro?

— Nenhum encontro pessoal. Ela recebeu ontem uma carta de

um polonês. Um primo da primeira mulher de Betterton. Ele esteve

aqui, há pouco, querendo saber detalhes etc...

— Como é ele?

— Não parece um personagem real — disse Jessop. — Muito

correto e muito estrangeiro mas parece um ser irreal.

— Você acha que ele possa ser o “contato” que veio avisá-la?

— Não sei, mas pode bem ser. Ele me intriga.

— Vai mandar segui-lo?

Jessop sorriu.

— Sim, eu apertei a campainha duas vezes.

— Você é uma velha aranha, cheia de artimanhas.

Wharton falou sério, mais uma vez.

— Bem, qual é o programa?

— Creio que Janet e a mesma técnica. Espanha e Marrocos.

— E a Suíça?

— Desta vez não.

— Eu julgava que Espanha e Marrocos seriam mais difíceis

para eles.

— Não devemos subestimar nossos adversários.

Wharton, com ar aborrecido, deu um peteleco no arquivo de

aço, que continha documentos secretos.

— Dois dos poucos países onde Betterton não foi visto — disse

em tom de lástima. — Bem, preparamos tudo. Mas por Deus, se não

formos bem sucedidos desta vez...

Jessop reclinou-se na cadeira.

— Há muito tempo não tenho férias — disse ele. — Mal posso

suportar este gabinete. Eu poderia fazer uma pequena viagem ao

estrangeiro...

CAPÍTULO 3

— VÔO108 PARA Paris. Air France. Por aqui, façam o favor.

As pessoas na sala de espera do Aeroporto de Heathrow

ergueram-se. Hilary Craven apanhou a sua maleta de couro de

lagarto e acompanhou os outros para o ponto de embarque, perto da

pista. Em contraste com a sala aquecida, o vento soprava bastante

frio.

Hilary teve um estremecimento e aconchegou melhor o casaco

de peles. Ela acompanhou os outros passageiros em direção ao avião

que os esperava. Este era o momento. Ela ia viajar — escapar. Ia

para onde havia sol, céu azul e uma vida nova. Deixaria para trás

todo aquele peso — o terrível peso da miséria e da frustração. Subiu

a escada do avião, curvou a cabeça para entrar e foi acompanhada

pelo aeromoço até sua poltrona. Pela primeira vez em vários meses

ela se sentiu aliviada daquela opressão tão forte que parecia um

sofrimento físico.

— Eu conseguirei ir embora — disse para si mesma. — Eu irei

embora.

O ronco dos motores causara-lhe excitação. Parecia que o ruído

tinha algo da selvageria dos elementos. A miséria civilizada é a pior

das misérias. Cinzenta e sem esperança.

Mas agora — pensou ela — vou escapar, fugir.

O avião começou a rolar vagarosamente pela pista.

A aeromoça disse:

— Queiram colocar os seus cintos, por favor.

O avião fez meia volta e ficou aguardando a permissão para

partir. Hilary pensou:

Talvez o avião sofra um acidente. Talvez ele se espatife antes de

levantar vôo. Isto será o fim, a solução para tudo.

A espera do sinal de partida era interminável. Esperando a

permissão de partir para a liberdade Hilary pensou, absurdamente:

Não conseguirei partir, nunca. Terei que ficar aqui —

prisioneira...

Ah, até que enfim.

Os motores roncaram violentamente e o avião começou a rolar.

Rapidamente, cada vez mais veloz. Hilary pensou:

Ele não levantará vôo. Não pode... Isto é o fim.

Ah, parecia que tinham deixado o solo. O avião não parecia

estar-se erguendo, era a terra que estava baixando e ficando com

seus problemas e desapontamentos enquanto o orgulhoso aparelho

se aproximava das nuvens. O avião se erguia descrevendo uma curva

sobre o aeroporto que parecia um ridículo brinquedo infantil.

Estradinhas engraçadas, estranhos caminhos de ferro com

trenzinhos de brinquedo. Um mundo ridículo e infantil onde pessoas

amavam e odiavam, despedaçando os corações. Nada disso tinha

agora importância porque era tudo tão pequeno, ridículo e sem

importância. As nuvens ficaram, agora, por baixo deles, massas

densas de um cinzento esbranquiçado. Já deviam estar sobre o

Canal da Mancha. Hilary recostou-se e cerrou os olhos. Escapar,

fugir. Ela deixara a Inglaterra, deixara Nigel, deixara o triste mon-

tículo que era a sepultura de Brenda. Tudo ficara para trás.

Entreabriu os olhos e tornou a fechá-los, suspirando longamente.

Adormeceu...