Um Destino Ignorado por Agatha Christie - Versão HTML

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2

Quando Hilary despertou o avião estava descendo.

Paris — pensou Hilary aprumando-se na poltrona e apanhando

a maleta. Mas não era Paris. A aeromoça, caminhando entre as

poltronas, falou com o tom alegre de professora de Escola Maternal,

que alguns passageiros acham tão irritante:

— Vamos aterrar em Beauvais porque o aeroporto de Paris está

fechado pela névoa.

A sua voz sugeria algo como:

— Não é formidável, crianças?

Hilary espiou pela pequena janela a seu lado. Quase nada

podia ver. Beauvais também parecia coberta pela cerração. O avião

fazia grandes voltas, com velocidade reduzida. Levou algum tempo

para aterrar. Os passageiros foram, então, levados através da fria e

úmida névoa, para uma tosca construção de madeira onde havia

algumas cadeiras e um longo balcão de madeira.

Hilary sentia-se deprimida mas tentava reagir. Um homem, a

seu lado, murmurou:

— Um antigo campo militar. Não há conforto ou aquecimento

aqui. Em todo caso, como estamos na França, eles servirão bebidas.

Era verdade. Apareceu um homem com chaves e, pouco depois,

eram servidas bebidas alcoólicas para levantar o moral dos

passageiros. Isto ajudou a animá-los para a longa e irritante espera.

Passaram-se algumas horas antes que algo acontecesse.

Outros aviões que também se destinavam a Paris pousaram no

campo. Em pouco tempo a pequena sala estava lotada de pessoas

tremendo de frio, irritadas com a longa espera.

Para Hilary tudo parecia irreal. Parecia que ela estava

sonhando e, por felicidade, desligada da realidade. Era só uma

questão de esperar. Ela continuava em sua viagem — sua viagem de

fuga. Continuava fugindo de tudo em busca do lugar onde sua vida

iria recomeçar. Essa sensação perdurou durante a fatigante demora,

continuou durante os momentos de caos quando foi anunciado,

quando já era noite, que viriam ônibus para levar os passageiros até

Paris.

Houve uma grande confusão de passageiros, funcionários e

carregadores, todos levando bagagens, empurrando-se e esbarrando

na escuridão. Finalmente Hilary, com os pés e as pernas geladas,

viu-se num ônibus, rodando lentamente através do nevoeiro, em

direção a Paris.

Foi uma longa e fatigante viagem de quatro horas. Era meia-

noite quando chegaram à Estação dos Inválidos e Hilary ficou

aliviada, apanhando sua bagagem e tomando um táxi para dirigir-se

ao hotel onde tinha quarto reservado. Estava demasiado cansada

para comer — tomou um banho quente e atirou-se na cama.

O avião para Casablanca deveria partir do Aeroporto de Orly às

dez e meia na manhã seguinte, mas quando os passageiros

chegaram a Orly reinava a maior confusão. Aviões tinham ficado

retidos no solo em muitos lugares da Europa; chegadas e partidas

tinham ficado atrasadas.

Um funcionário do balcão de partidas, já meio tonto de tanto

trabalho, deu de ombros e disse-lhe:

— Lamento mas a senhora não poderá seguir no avião para o

qual tinha reserva. Os horários foram todos alterados. Peço à

senhora que se sente por alguns instantes. Tudo será resolvido

rapidamente, assim o espero.

Finalmente ela foi chamada e informada de que havia um lugar

no avião para Dacar que normalmente não parava em Casablanca

mas que, devido às circunstâncias, faria uma descida especial.

— A senhora terá um atraso de três horas seguindo nesse

avião.

Hilary concordou, sem protestar, e o funcionário ficou surpreso

e muito contente com a sua atitude.

— A senhora não calcula as dificuldades que eu tenho tido esta

manhã — disse ele. — Enfin, como os passageiros são exigentes e

pouco razoáveis minha senhora... Eu não tenho culpa do nevoeiro. É

claro que tudo ficou transtornado. As pessoas deveriam ficar

conformadas

quando os seus planos são alterados pelas

circunstâncias. Pelo menos assim penso eu. Après tout que

importância tem um atraso de duas ou três horas? Que importância

tem chegar a Casablanca neste ou naquele avião?

Entretanto, naquela manhã, o fato tinha muito mais

importância do que julgava o pequeno funcionário francês. Quando

Hilary, finalmente, dirigia-se para o avião, sob os raios agradáveis do

sol, o carregador, que a seu lado empurrava um carrinho cheio de

malas, observou:

— A senhora teve muita sorte em não tomar o avião antes

deste, o da linha regular para Casablanca.

— Por quê? Que aconteceu?

O homem olhou com cuidado para todos os lados mas nunca

pudera guardar um segredo. Baixou a voz e disse, em tom

confidencial:

— Mauvaise affaire! — resmungou. — Caiu, quando aterrava.

O piloto e o navegador morreram e quase todos os passageiros.

Quatro ou cinco foram levados para o hospital, alguns em estado

grave.

A primeira reação de Hilary foi de uma cólera que cegava. Sem

que o quisesse, um pensamento veio-lhe à mente:

Por que não estava naquele avião? Se eu estivesse tudo estaria

terminado agora e eu livre de tudo. Acabados os sofrimentos,

acabada a miséria. Os passageiros daquele avião queriam viver. E eu

— eu pouco me importo. Por que não fui eu?

A passagem pela inspeção da Alfândega foi facílima e ela, com

sua bagagem, dirigiu-se para o hotel. Era uma tarde ensolarada e

linda e o sol começava a mergulhar no poente. O ar transparente e a

luz dourada eram exatamente como ela imaginara. Ela tinha

chegado! Tinha deixado o fog, o frio e a escuridão de Londres; tinha

deixado para trás a sua miséria, a indecisão e o sofrimento. Aqui

havia uma vida pulsante, havia cor, havia sol.

Atravessou o quarto, escancarou a janela e olhou para a rua.

Sim, era tudo como ela imaginara que seria. Lentamente, ela se

afastou da janela e se sentou na cama. Escapar, evadir-se. Era esse

o refrão que não saía de sua cabeça desde que deixara a Inglaterra. E

agora ela sentia uma certeza, fria e horrível, que não havia fuga

possível.

Tudo aqui era o mesmo que em Londres. Ela própria, Hilary

Craven, era a mesma. Era de Hilary Craven que ela estava tentando

escapar e Hilary Craven era Hilary Craven em Marrocos, tanto como

o tinha sido em Londres. Baixinho ela disse a si mesma:

— Que tola eu tenho sido... que tola eu sou. Por que pensei que

me sentiria diferente se saísse da Inglaterra?

O túmulo de Brenda, aquele patético e pequeno montículo

estava na Inglaterra e, muito em breve, Nigel estaria casado com sua

nova mulher, na Inglaterra. Por que tinha ela pensado que essas

duas coisas teriam menos importância para ela em outras paragens?

Era apenas o que ela desejaria que fosse, nada mais. Mas agora tudo

estava acabado. Ela estava frente à frente com a realidade. A

realidade que era ela e do que ela podia suportar. E do que não podia

suportar. É possível suportar as coisas, pensou ela, quando há uma

razão para suportá-las. Ela suportara sua longa doença, suportara o

abandono de Nigel e a forma cruel e brutal como ocorrera. Tinha

suportada essas coisas porque havia Brenda. Depois veio a longa

batalha para salvar a vida de Brenda e a derrota final... Agora não

havia mais nada que justificasse viver. A viagem a Marrocos acabava

de provar isso. Em Londres ela tinha a idéia estranha e confusa de

que se ela fosse para outro país poderia deixar tudo para trás e

recomeçar tudo. Por isto ela fizera a viagem para este lugar que não

tinha nenhuma ligação com o passado e possuía as qualidades que

ela tanto amava: sol, ar puro e a novidade de coisas e gente

estranhas. Aqui, pensara ela, tudo seria diferente. Mas não era. Tudo

era o mesmo. Os fatos eram muito simples, inevitáveis, e não havia

escapatória. Ela, Hilary Craven, não tinha mais nenhuma vontade de

continuar vivendo. Era a conclusão, simples e lógica a que podia

chegar.

Se o nevoeiro não tivesse sobrevindo; se ela tivesse tomado o

avião no qual tinha lugar reservado, todos os seus problemas

estariam resolvidos. Ela estaria agora em um necrotério francês, um

corpo mutilado e cheio de fraturas mas o seu espírito estaria em paz,

ela não estaria mais sofrendo. É verdade que esse mesmo objetivo

poderia ser alcançado mas, para tanto, ela teria algum trabalho.

Seria muito simples se ela tivesse consigo comprimidos para

dormir. Ela relembrou quando pedira uma receita ao Dr. Grey, da

expressão estranha em sua fisionomia quando ele respondeu:

— Acho melhor não. É preferível que você se acostume a

dormir sem remédios. Talvez seja difícil, no princípio, mas você se

acostumará.

A expressão estranha do rosto do médico. Saberia ele, já então,

ou suspeitava que ela chegasse a tal resolução? Não seria difícil.

Levantou-se com firmeza. Iria procurar uma farmácia.