Um Destino Ignorado por Agatha Christie - Versão HTML

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3

Hilary sempre pensara que fosse fácil comprar drogas nas

cidades do estrangeiro. Ficou muito admirada ao verificar que não

era assim. A primeira farmácia que ela procurou vendeu-lhe apenas

dois comprimidos. O farmacêutico disse-lhe que para maior

quantidade seria necessária uma receita médica. Ela agradeceu

sorrindo despreocupada e ia saindo rapidamente quando esbarrou

em um rapaz alto, de rosto algo solene, que se desculpou em inglês.

Ela ainda ouviu, quando saía da farmácia, que o rapaz pedia pasta

de dentes.

De certa forma, o fato pareceu-lhe interessante. Pasta de

dentes. Parecia tão ridículo, tão normal, tão vulgar. Subitamente ela

sentiu como uma dor aguda porque a pasta de dentes que ele pedira

era a mesma que Nigel usava. Ela atravessou a rua e entrou em

outra loja. Esteve em quatro farmácias antes de voltar ao hotel. Na

terceira farmácia ela achou divertido ver novamente o rapaz com

fisionomia de coruja que continuava obstinadamente procurando a

marca de pasta de dentes que preferia e que, evidentemente, não era

facilmente encontrada nas farmácias francesas de Casablanca.

Hilary sentia-se quase descuidada enquanto trocava o vestido e

retocava o rosto antes de descer para jantar. Ela, propositadamente,

desceu o mais tarde possível porque não queria encontrar nenhum

dos seus companheiros de viagem ou tripulantes do avião. De

qualquer forma isto seria pouco provável visto como o aparelho

prosseguira para Dacar e ela julgava ser a única pessoa que ficara

em Casablanca.

O restaurante estava quase vazio, quando ela chegou, mas o

rapaz com cara de coruja estava terminando a sua refeição em uma

mesa junto à parede. Ele parecia absorvido na leitura de um jornal

francês.

Hilary encomendou uma boa refeição e meia garrafa de vinho.

Sentia-se ligeiramente excitada. Pensou:

Afinal isto é apenas a última aventura.

Mandou que lhe levassem uma garrafa de água de Vichy para o

quarto e, imediatamente depois, deixou o restaurante e subiu.

O garçom trouxe a água mineral, abriu a garrafa e, desejando-

lhe boa noite, retirou-se. Hilary suspirou, aliviada. Quando o garçom

saiu, ela foi até a porta e fechou-a girando a chave. Retirou da gaveta

da mesa de cabeceira os quatro pacotinhos que trouxera das

farmácias e abriu-os. Colocou os comprimidos sobre a mesa e

encheu um copo com água mineral. Como o remédio era em

comprimidos ela só teria que colocá-los na boca e engoli-los com

goles de água de Vichy.

Despiu-se, enfiou um roupão e tornou a sentar-se junto à

mesa. Seu coração batia mais rapidamente. Começava a sentir algo

como medo, mas um medo que era uma espécie de fascínio e não um

sentimento que a fizesse abandonar o seu plano. Estava

perfeitamente calma e decidida. Iria, finalmente, escapar, realmente

escapar. Olhou para a escrivaninha procurando decidir se deixaria

uma nota. Resolveu que não. Ela não tinha parentes, nem amigos

íntimos e queridos a quem quisesse dizer uma palavra de despedida.

Quanto a Nigel, ela não queria causar-lhe um remorso inútil, o que

certamente aconteceria se lhe deixasse um bilhete. Provavelmente

Nigel leria nos jornais que uma Sra. Hilary Craven tinha morrido em

Casablanca por haver tomado, em excesso, comprimidos para

dormir. Seria, certamente, um pequeno parágrafo no jornal. Ele

receberia a notícia sem grande choque.

— Pobre Hilary — diria ele — que falta de sorte.

E talvez, secretamente, ele sentisse um certo alívio. Isto

porque, pensava ela, Nigel devia ter um pequeno peso na consciência

e ele era um homem que gostava de estar em paz consigo mesmo.

Mas Nigel já lhe parecia muito distante e, curiosamente, sem

qualquer importância. Nada mais restava a fazer. Ela engoliria os

comprimidos, deitar-se-ia na cama e dormiria. Desse sono nunca

mais acordaria. Não tinha, ou julgava não ter, nenhum sentimento

religioso. A morte de Brenda havia fechado a porta a tudo isto. Não

havia, por conseguinte, nada mais a considerar. Mais uma vez ela

era uma viajante, tal como fora no Aeroporto de Heathrow, um

passageiro esperando a partida para um destino ignorado, sem

bagagens para incomodar e sem amassada das despedidas. Pela

primeira vez em sua vida ela estava livre, inteiramente livre para agir

como bem o entendesse. O passado já estava longe dela. A longa e

dolorosa miséria que a atormentava sempre que estava acordada

tinha acabado. Sim. Leve, livre e sem complicações. Pronta para

começar a sua jornada.

Estendeu a mão para o primeiro comprimido. No mesmo

instante bateram leve e discretamente à porta. Hilary franziu a testa.

Sua mão parou no ar, a meio caminho. Quem seria — a criada de

quarto? Não, a cama já estava preparada. Alguém, talvez, para falar

sobre papéis ou passaporte? Deu de ombros. Não abriria a porta.

Para que incomodar-se? Fosse quem fosse iria embora e voltaria

noutra ocasião.

Bateram, novamente. Desta vez um pouco mais fortemente.

Hilary não se moveu. Não podia haver assunto tão urgente e quem

estava batendo acabaria indo embora.

Ela olhava para a porta e, subitamente, seus olhos se

arregalaram de espanto. A chave estava lentamente girando para

trás, depois avançou e caiu ao chão com ruído metálico. A maçaneta

girou, a porta foi aberta e um homem entrou no quarto. Ela o

reconheceu. Era o moço com ares de coruja que ela vira comprando

pasta de dentes. Hilary fitou-o. Naquele instante ela estava tão

assombrada que não poderia fazer ou dizer qualquer coisa. O rapaz

virou-se e fechou a porta; apanhou a chave do chão, enfiou-a na

fechadura e girou-a. Depois dirigiu-se em direção a ela, sentou-se

numa cadeira do outro lado da mesa. O que ele disse pareceu a ela

completamente absurdo.

— Meu nome é Jessop.

A cor voltou, violentamente, ao rosto de Hilary. Ela se inclinou

para frente e disse, com cólera e frieza:

— Que pretende fazer aqui?

Ele a olhou, solenemente — e piscou.

— É curioso — disse ele; — eu vim perguntar a mesma coisa.

Ele olhou de lado, e rapidamente, para os preparativos sobre a

mesa.

Hilary disse, irritada:

— Não sei o que o senhor pretende dizer.

— Sabe. Sabe muito bem.

Hilary ficou calada, tentando encontrar palavras. Havia muita

coisa que ela queria dizer. Mostrar indignação. Mandá-lo sair do

quarto. Mas, estranhamente, foi a curiosidade que predominou. A

pergunta chegou a seus lábios com tal naturalidade que ela quase

não percebeu que a fazia.

— A chave — disse ela — virou sozinha na fechadura?

— Ora, foi isso!

O rosto do homem pareceu transformar-se com um sorriso de

menino. Enfiou a mão no bolso e de lá retirou um instrumento de

metal que entregou a ela para examinar.

— Aí está — disse ele; — uma pequena ferramenta muito útil.

É só enfiá-la na fechadura, ela prende a ponta da chave e a faz girar.

Pegou de volta o instrumento e o colocou no bolso.

— Os arrombadores usam esta ferramenta — disse ele.

— Então o senhor é um arrombador?

— Não, não, Sra. Craven, seja justa comigo. Eu bati na porta.

Arrombadores não batem. Só quando me pareceu que a senhora não

me ia deixar entrar é que eu usei isto.

— Mas, por quê?

Uma vez mais os olhos do visitante viraram-se para os

preparativos sobre a mesa.

— Eu não o faria, se fosse a senhora — disse ele. — Não é nada

como pensa, sabe? A senhora pensa que adormece e não acorda

mais. Mas não é bem assim. Há uma porção de efeitos

desagradáveis. Algumas vezes convulsões. Gangrena da pele. Se a

pessoa tem resistência à droga o efeito é muito demorado, alguém

pede socorro e acontecem muitas coisas desagradáveis: lavagem

estomacal, óleo de rícino, bofetadas e empurrões. Tudo muito

humilhante.

Hilary recostou-se na cadeira, semicerrando os olhos. Apertou

os punhos e forçou um sorriso.

— O senhor é um homem ridículo — disse ela. — O senhor

imagina que eu ia-me suicidar, ou coisa que o valha?

— Não estou apenas imaginando — disse o homem chamado

Jessop — Estou absolutamente seguro. Eu estava na farmácia

quando a senhora entrou. Eu ia comprar pasta de dentes. Como eles

não tinham a marca que eu queria fui a outra casa. Lá estava a

senhora, novamente comprando comprimidos para dormir. Achei o

fato um pouco estranho e a segui. Todos esses comprimidos para

dormir em farmácias diferentes. A conclusão só podia ser uma.

O seu tom era casual, amistoso, mas denotava perfeita

segurança no que dizia. Olhando para ele, Hilary deixou de fingir.

— E o senhor não acha que é uma intromissão imperdoável de

sua parte tentar impedir que eu faça o que quero?

Ele pensou no assunto por alguns instantes e, depois, sacudiu

a cabeça.

— Não, é uma dessas coisas que não se pode deixar de fazer. É

claro que a senhora me entende.

Hilary respondeu com energia.

— Nesse momento o senhor poderá impedir. Quero dizer que

pode levar os comprimidos... atirá-los pela janela, ou coisa que o

valha... mas não poderá impedir que eu compre mais, amanhã ou

depois; que eu me atire do último andar ou que me jogue na frente

de um trem.

O rapaz pensou por um instante.

— Não — disse ele. — Concordo que não a poderia impedir de

fazer nenhuma dessas coisas. Mas é uma questão de saber se a

senhora iria fazer isto. Quero dizer... que a senhora provavelmente

não faria isto amanhã.

— O senhor acha, então, que amanhã eu estarei pensando de

modo diferente? — perguntou Hilary em tom amargo.

— Acontece a muitas pessoas — disse Jessop em tom de quem

pede desculpas.

— Sim, talvez — observou ela. — Se alguém fosse fazer isso

num assomo repentino de desespero. Mas não quando é um

desespero frio e permanente. Eu não tenho nenhuma razão para

viver, compreende?

Jessop inclinou a cabeça, que lembrava uma coruja e piscou.

— Interessante — observou.

— Nada disso. Não há nada interessante. Eu não sou uma

mulher interessante. Meu marido, a quem eu amava, abandonou-me;

minha filha única morreu de meningite, após sofrer muito. Não tenho

parentes próximos nem amigos íntimos. Não tenho nenhuma

vocação, não tenho nenhum hobby e não sei de nenhum trabalho de

que eu gostasse.

— É muito duro — disse Jessop mostrando compreensão.

Hesitando um pouco, ele acrescentou:

— Mas a senhora não acha que cometer tal ato é errado?

Hilary replicou acaloradamente:

— Errado, por quê? É a minha vida, não é?

— Oh, sim, sim — Jessop repetiu apressadamente. — Quem

sou eu para falar em altos princípios de moral? Mas a senhora bem

sabe que há pessoas que condenam tal coisa.

Hilary respondeu:

— Eu não sou uma delas.

Jessop disse, meio fora de propósito:

— Perfeitamente.

Ele continuava sentado, olhando para ela e piscando os olhos,

pensativo.

Hilary disse:

— Talvez agora, senhor... ah...

— Jessop — disse o rapaz.

— Então o senhor agora me deixa em paz?

Mas Jessop sacudiu a cabeça.

— Ainda não — disse ele. — Eu queria saber o que havia por

trás de tudo. Agora compreendo tudo com clareza, não é? A senhora

não tem interesse pela vida; não quer mais viver e, de certa forma,

acha uma boa idéia morrer.

— Sim.

— Muito bem — disse Jessop com ar satisfeito. — Agora

sabemos a quantas andamos. Passemos ao passo seguinte. A

senhora acha que só pode ser com comprimidos para dormir?

— Que quer dizer?

— Bem, eu já lhe disse que não é tão romântico quanto parece.

Jogar-se do alto de um prédio também não é muito bom. Nem

sempre se morre instantaneamente. O mesmo pode acontecer

atirando-se debaixo de um trem. O que eu queria insinuar é que há

outras maneiras.

— Eu não entendo o que quer dizer.

— Estou sugerindo outro método. Um método realmente mais

esportivo. Um método muito mais excitante. Serei mais claro e

honesto com a senhora. Haverá uma probabilidade em cem de a

senhora não morrer. Mas eu creio que, dadas as circunstâncias, a

senhora acabará não fazendo objeções a isso.

— Eu não tenho a mínima idéia do que o senhor está falando.

— É claro que não — disse Jessop. — Eu ainda não comecei a

dizer do que se trata. Acho que terei de fazer alguns rodeios... contar-

lhe uma história. Posso continuar?

— Acho que sim.

Jessop não deu atenção à relutância do consentimento. Ele

começou, parecendo cada vez mais com uma coruja.

— Creio que a senhora é o tipo de mulher que lê jornais e está

a par das coisas — disse ele. — A senhora deve ter lido sobre o

desaparecimento de cientistas. Vários deles sumiram em pouco

tempo. Houve o caso daquele italiano, há um ano e, há cerca de dois

meses, desapareceu um jovem cientista chamado Thomas Betterton.

— Sim — concordou Hilary, — li a esse respeito nos jornais.

— Mas têm havido mais coisas que as publicadas nos jornais.

Quero dizer que mais pessoas desapareceram. Nem todos eram

cientistas. Alguns eram moços que se dedicavam a importantes

pesquisas médicas. Outros eram pesquisadores no campo da física e

da química. Houve também um advogado. Muitos desapareceram,

em vários lugares. O nosso país é um país livre. Quem quiser pode

deixá-lo. Mas nessas circunstâncias peculiares precisamos saber por

que essas pessoas viajaram e para onde foram. E, o que é muito

importante, como foram. Partiram por sua livre vontade? Teriam sido

raptadas? Foram vítimas de chantagens que as obrigaram a partir?

Que caminhos tomaram... que tipo de organização está provocando

isto e quais os seus verdadeiros objetivos? Muitas interrogações.

Precisamos achar as respostas para elas. A senhora poderia ajudar-

nos a achar tais respostas.

Hilary fitou-o.

— Eu? Como? Por quê?

— Falemos sobre o caso de Thomas Betterton. Ele desapareceu

de Paris há pouco mais de dois meses. Deixou a mulher na

Inglaterra. Ela estava desesperada, ou disse que estava desesperada.

Jurou que não sabia por que ele tinha partido, para onde e como

tinha ido. Tudo isto pode ser verdade e pode não ser. Algumas

pessoas... e eu sou uma delas... acham que ela não falou a verdade.

Hilary inclinou-se na cadeira. Embora contra a vontade, estava

ficando interessada. Jessop continuou.

— Nós mantivemos uma vigilância discreta sobre a Sra.

Betterton. Há cerca de quinze dias ela me procurou para dizer que o

seu médico recomendara que ela fosse para o estrangeiro descansar

e procurar alguma distração. Não adiantava nada ficar na Inglaterra

onde estava sempre importunada... jornalistas, parentes e amigos

bondosos.

Hilary disse secamente:

— Eu bem posso imaginar.

— Sim, muito penoso. Muito natural que ela quisesse passar

algum tempo fora.

— Muito natural, eu também acho.

— Mas no nosso departamento temos mentalidade maldosa.

Suspeitamos de todos. Providenciamos para saber onde iria a Sra.

Betterton. Ontem ela deixou a Inglaterra com destino a Casablanca.

— Casablanca?

— Sim, a caminho de outros lugares em Marrocos, é claro.

Tudo perfeitamente às claras. Reservas, passagens etc. Mas pode ser

que esta viagem a Marrocos possa ser o primeiro passo da Sra.

Betterton para o desconhecido.

Hilary deu de ombros.

— Não percebo que ligação eu possa ter com tudo isso.

Jessop sorriu.

— A ligação é que a senhora tem uma magnífica cabeleira

ruiva, Sra. Craven.

— Cabelos?

— Sim. É o aspecto predominante da Sra. Betterton... o seu

cabelo. A senhora sabe, talvez, que o avião antes do seu espatifou-se

ao aterrar?

— Eu sei. Deveria estar naquele avião. Tinha passagem

reservada nele.

— Curioso — disse Jessop. — Bem, a Sra. Betterton estava

naquele avião. Foi retirada dos escombros ainda com vida e está no

hospital. Segundo os médicos, ela já não estará viva amanhã de

manhã.

Hilary percebeu um leve raio de luz. Olhou para Jessop como

quem interroga.

— Sim — disse ele, — talvez agora a senhora esteja percebendo

a forma de suicídio que eu lhe estou oferecendo. Estou sugerindo

que a Sra. Betterton continue a sua viagem. Estou sugerindo que a

senhora passe a ser Sra. Betterton.

— Mas — disse Hilary — isto seria impossível. Eles saberiam

logo que eu não sou ela.

Jessop inclinou a cabeça para o lado.

— Isto, evidentemente, depende inteiramente de quem a

senhora chama “eles”. É uma palavra muito vaga. Quem é ou quem

são “eles”? Existe tal coisa, existem essas pessoas denominadas

“eles”? Não sabemos. Mas posso informá-la de alguma coisa. Se a

explicação mais popular e aceita do que venham a ser “eles” é

verdadeira então sabemos que trabalham em pequenas células auto-

suficientes. Eles agem assim para garantir a própria segurança. Se a

viagem da Sra. Betterton tinha um objetivo e foi planejada, é certo

que as pessoas encarregadas do assunto aqui nada sabem sobre as

pessoas agindo na Inglaterra. Na hora combinada elas entrarão em

contato com uma certa mulher, em certo lugar, e prosseguirão, daí

em diante, de acordo com as ordens que têm. A descrição no

passaporte da Sra. Betterton indica uma mulher de um metro e

setenta de altura, cabelos ruivos, olhos azuis, boca regular e

nenhum sinal especial. Muito bom.

— Mas as autoridades aqui. Elas certamente...

Jessop sorriu.

— Quanto a isto não haverá problemas. Os franceses também

perderam alguns jovens cientistas e químicos de valor. Eles

cooperarão. Os fatos serão os seguintes. A Sra. Betterton, sofrendo

de Concussão, é levada para o hospital. A Sra. Craven, outra

passageira do avião sinistrado, também é levada para o hospital.

Dentro de um ou dois dias a Sra. Craven morrerá no hospital e a Sra.

Betterton terá alta, sofrendo de uma ligeira Concussão mas

perfeitamente capaz de continuar sua viagem. O desastre foi

verdadeiro, a Concussão é verdadeira e uma Concussão será um

bom disfarce para a senhora. Explicará muitas coisas como lapsos

de memória ou qualquer modo de agir inesperado.

Hilary disse:

— Isto seria uma loucura.

— É claro — disse Jessop — que será uma loucura. É uma

missão arriscadíssima e, se as nossas suspeitas forem confirmadas,

a senhora será liquidada. Como vê, eu estou sendo absolutamente

franco mas, segundo a senhora disse, está pronta e mesmo ansiosa

para deixar esta vida. Penso que como alternativa entre o que sugiro

e atirar-se sob as rodas de um trem, ou coisa que o valha, a senhora

achará a minha idéia muito mais divertida.

Súbita e inesperadamente Hilary começou a rir.

— Acabo pensando que o senhor tem toda a razão.

— A senhora, então, concorda?

— Sim. Por que não?

— Neste caso — disse Jessop levantando-se rapidamente, —

não temos nem um minuto a perder.

CAPÍTULO 4

NÃO FAZIA FRIO no hospital mas sentia-se uma sensação de frio.

O ar cheirava a desinfetante. No corredor ouvia-se, de vez em

quando, um chocalhar de vidros e de instrumentos quando um

carrinho passava, empurrado por um servente. Hilary Craven estava

sentada em uma cadeira de ferro, junto a uma cama.

Na cama, com a cabeça envolta em ataduras e sob uma luz

amortecida, estava Olive Betterton, inconsciente. De um lado da

cama estava uma enfermeira e do outro um médico. Jessop estava

sentado a um canto do quarto. O médico virou-se para ele e disse,

em francês:

— Não vai demorar muito. O pulso está muito mais fraco.

— E ela não recobrará os sentidos?

O francês encolheu os ombros.

— É impossível dizê-lo. Talvez sim, quando o fim estiver

próximo.

— E não há nada que o senhor possa fazer, nenhum

estimulante?

O médico sacudiu a cabeça e saiu do quarto. A enfermeira o

seguiu. Foi substituída por uma freira que se postou junto à

cabeceira da cama e lá ficou dedilhando o seu rosário. Hilary olhou

para Jessop e, atendendo a um sinal de seus olhos, acercou-se dele.

— Ouviu o que disse o médico? — perguntou ele em voz baixa.

— Ouvi, sim. Que é que o senhor pretende dizer a ela?

— Se ela recobrar a consciência eu quero qualquer informação

que a senhora possa conseguir. Um sinal, uma mensagem, uma

senha, qualquer coisa. Compreende? É mais provável que ela fale

com a senhora do que comigo.

Hilary, subitamente emocionada, disse:

— O senhor quer que eu traia uma pessoa que está morrendo?

Jessop inclinou a cabeça para um lado, como freqüentemente o

fazia; a pose lhe dava um ar de pássaro.

— Então é essa a impressão que a senhora tem? — disse ele

pensativo.

— É, sim.

Ele a olhou com ar pensativo.

— Muito bem, a senhora dirá e fará o que desejar. Quanto a

mim não posso ter escrúpulos. A senhora compreende isso?

— Naturalmente. É o seu dever. O senhor pode fazer as

perguntas que bem entender, mas não me peça para fazê-las.

— A senhora agirá como entender.

— Há um ponto que precisamos decidir. Diremos a ela que está

morrendo?

— Não sei. Tenho que pensar e resolver.

Ela assentiu, com a cabeça, e voltou para junto da cama.

Sentia, agora, uma grande compaixão pela mulher que ali estava,

morrendo. A mulher que estava a caminho para juntar-se ao homem

que amava. Mas não poderiam todos eles estar enganados? Teria ela

vindo a Marrocos simplesmente para procurar um alívio, para passar

o tempo até que alguma notícia positiva chegasse ao seu co-

nhecimento, esclarecendo se o marido estava vivo ou morto? Hilary

não sabia bem o que pensar.

O tempo foi passando. Umas duas horas mais tarde o ligeiro

ruído das contas do rosário da freira parou subitamente.

A freira saiu do quarto, Jessop dirigiu-se para o lado oposto e

encostou-se à parede de forma a ficar fora do campo visual da

agonizante.

As pálpebras da mulher tremeram e ergueram-se. Uns olhos de

um azul pálido olharam para Hilary, sem curiosidade. Fecharam-se e

tornaram a se abrir. Uma certa perplexidade pareceu invadi-los.

— Onde...?

A palavra apenas fez tremer os lábios justamente quando o

médico entrava. Ele tomou-lhe a mão, com os dedos no pulso, e

olhou para ela.

— A senhora está no hospital — disse ele. — Houve um

acidente com o avião.

— Com o avião?

As palavras foram repetidas, como num sonho, e a voz era

tênue e sem fôlego.

— Há alguém que a senhora queira ver aqui em Casablanca,

minha senhora? Quer mandar algum recado?

Com esforço ela ergueu os olhos para o médico. Disse:

— Não.

Olhou novamente para Hilary.

— Quem... quem...

Hilary inclinou-se e falou com clareza:

— Eu também vim de avião da Inglaterra. Posso ajudá-la, de

alguma forma? Diga-me.

— Não... nada... nada... a não ser...

— Sim?

— Nada.

As pálpebras tremeram, novamente, e semicerraram-se. Hilary

ergueu a cabeça e encontrou o olhar insistente e imperioso de

Jessop. Com firmeza ela fez que não com a cabeça.

Jessop andou em direção à cama. Colocou-se ao lado do

médico. Os olhos da agonizante abriram-se, novamente. Subitamente

ela reconheceu Jessop e disse.

— Eu o conheço.

— Sim, Sra. Betterton. A senhora me conhece. Quer dizer-me

alguma coisa sobre o seu marido?

— Não.

Seus olhos fecharam-se outra vez. Silenciosamente Jessop

virou-se e saiu do quarto.

O médico olhou para Hilary. Em voz baixa e suave ele disse:

— C’est le fin.

Os olhos da moribunda reabriram-se. Com esforço percorreram

o quarto e, finalmente, fixaram-se em Hilary. Olive Betterton fez um

pequeno gesto e Hilary, instintivamente, segurou aquela branca e fria

mão com as suas. O médico, erguendo os ombros e inclinando-se

ligeiramente, deixou o quarto. As duas mulheres estavam sós. Olive

Betterton estava tentando falar:

— Diga-me... diga-me...

Hilary compreendeu o que ela queria saber e, subitamente,

soube, claramente, o que devia fazer. Inclinou-se sobre a mulher

deitada.

— Sim — disse ela, falando clara e enfaticamente. — Você está

morrendo. Era isto que você queria saber, não era? Agora escute. Eu

vou tentar encontrar o seu marido. Caso eu o consiga, há algum

recado que você queira que eu lhe dê?

— Diga-lhe... diga-lhe... que tenha cuidado Boris... Boris...

perigoso...

A respiração era quase imperceptível. Hilary aproximou-se

ainda mais.

— Há alguma coisa que você possa dizer para me ajudar,

ajudar na viagem. Ajudar a encontrar o seu marido?

— Neve.

A palavra soou tão fracamente que Hilary ficou sem entender.

Neve? Neve? Repetia ela, sem compreender. Um som, parecendo um

leve riso de fantasma, saiu dos lábios de Olive Betterton. Palavras

quase inaudíveis seguiram-se rapidamente:

Neve pura neve, linda neve que cai

Desliza na neve e p’ro chão você vai,

Ela repetiu a última palavra:

— Vai... vai... vai e conta a ele sobre Boris. Eu não acreditei.

Eu não queria acreditar. Talvez seja verdade... se for... se for...

Uma interrogação dolorosa assomou a seus olhos que fitavam

Hilary.

— ...tome cuidado...

Um leve gargarejo chegou-lhe até a garganta. Seus lábios

tremeram. Olive Betterton estava morta.