Um Dia de Verdade por Neo One Eon - Versão HTML

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Cap�tulo 1

 

Ele n�o sabia o porqu�, mesmo assim voltava a acontecer. N�o, ele realmente n�o sabia o motivo do eterno retorno de suas inquietudes passageiras, que nunca s�o e sempre est�o e vice-versa. Os minutos pareciam horas e as horas que pareciam minutos, quando n�o segundos. Quanto maior o conhecimento, maior a responsabilidade, este e outros pensamentos e m�ximas ao mesmo tempo em que o encorajavam, igualmente assustavam, pelo menos um pouco. Era o m�ximo chegar a tais reflex�es ou conclus�es, mas tamb�m havia o risco disso ser o m�ximo onde ele pudesse chegar. E todo o esfor�o de uma vida? E todos os sonhos? E todo o planejamento? E todas aquelas ideias e ideais?

Sentia-se desconfort�vel. Sentia que talvez a �nica coisa que podia fazer em momentos como este era sentir e pensar. E a pr�tica, pensava, como posso transformar a teoria em pr�tica? Por que n�o consigo sair do campo das ideias? Esses questionamentos visivelmente o perturbavam, sentia-se confuso, com aquela inc�moda sensa��o de impot�ncia que s� os bravos conseguem sentir. E neste exato momento ele ouviu ao longe uma voz bem familiar...

Diana era jovem e apesar de tudo ainda precisava de seus cuidados. De vez em quando rogava por sua aten��o, mesmo sem dizer uma palavra sequer; bastava sua presen�a escondida, o seu olhar de soslaio fingindo desinteresse, que j� se percebia sua s�plica, o seu grito mudo. Ele fazia o que podia, mas sentia que n�o era o suficiente. Nunca � o suficiente, pensava enquanto a observava, tamb�m fingindo desinteresse. Sim, voc� pode ficar, dizia apenas com o olhar. Por que n�o dividir suas ang�stias com ela, por que n�o desabafar e quem sabe at� cair em l�grimas em seu colo? N�o, isto seria demais, detestava incomodar os outros e dividir suas preocupa��es. Acreditava que cada um devia cuidar de sua vida, n�o acreditava no acaso ou na sorte. Cada um tem a sua sorte, filosofava, eu tenho a minha e o mundo tem a dele; entendia por mundo tudo aquilo que n�o habitava seu corpo e sua mente ego�sta, que geralmente se preocupa apenas com as sensa��es e necessidades do pr�prio corpo.

����������� Ao p� da cama ela o aguardava, sabendo que provavelmente ele estaria cavalgando por caminhos filos�ficos, por�m atento �s poss�veis imprud�ncias de suas atitudes. Ela espera uma brecha, um instante, um momento de distra��o. Quando ele vai abaixar a guarda, quando vou penetrar em sua fortaleza, por que tudo acontece t�o r�pido? Tais pensamentos a cercavam, no entanto ela tinha consci�ncia que somente de forma muito sutil ganharia terreno. Sabia que era tarefa �rdua, e n�o teria gra�a se assim n�o fosse. Ele fala, dirige a ela algumas palavras, mas s�o apenas meros atentos, nada que cause impacto, nada que mexa com suas paix�es ou abale seu mundo. Nenhuma gota de loucura, nenhuma ponta de insanidade, nem um pouquinho de insensatez. �s vezes � melhor o sil�ncio, pensava, �s vezes � melhor n�o ter nada a ter um pouco, pois no nada a esperan�a � maior...

 

��������������������������������������������������������������������� ∞∞∞

 

Na vida � preciso bastante concentra��o e disciplina para n�o se perder o rumo, o foco de nossos objetivos. Ele j� sabia disso, ou melhor, tinha conhecimento, porque sabedoria � quando se coloca o conhecimento em pr�tica, e este era o seu �Calcanhar de Aquiles�, descobrir qual o caminho para se chegar � pr�tica. Ser� que � pura e simplesmente partir de um ponto nulo e criar algo sem muito planejamento e expectativa ou � preciso planejamento, estudo e an�lise? Ser� que ele seria mais uma dessas pessoas que falam, falam e n�o dizem nada? Ser� que no fim ele vai dizer que podia ter feito ou vai encher o peito e dizer que fez, ainda que o resultado n�o tenha sido satisfat�rio? O problema � a expectativa, o excesso de expectativas... Mas o que seria da vida sem as expectativas?

Na parede do quarto jaziam seus her�is, dentre m�sicos, escritores, poetas, fil�sofos e mentes revolucion�rias. Todos morreram de overdose, seja de exagero ou abuso de subst�ncias t�xicas, pensamentos, ideias ou tomadas de atitude. O que move o mundo s�o as overdoses, conclui, s�o elas que v�o contra a corrente, que possibilitam a evolu��o da humanidade, que tiram a sociedade do marasmo. Sim, todos realmente morreram de overdose, porque o mundo nota quem as tem, porque tais indiv�duos s�o perturbadores da ordem, s�o uma desgra�a para a sociedade, s�o uma desonra �s tradi��es e aos bons costumes. Quem quiser que se acostume, responde ele a suas divaga��es. J� � tarde demais para morrer cedo e sou jovem demais para morrer agora, filosofava ainda confuso diante das transforma��es e da desordem de seus pensamentos.

Diana continuava l�, como uma deusa esperando por um chamado, cortejando a insanidade da raz�o. N�o se importa em esperar, parece que tem a eternidade inteira pra isso. Como uma raposa, est� s� esperando a hora certa para atacar. Ela sabe que o momento ideal � muito importante, que a precis�o da investida � fundamental. Diana tem sonhos, mas n�o deixa de viver a realidade, n�o descansa um segundo! Quase que ingenuamente tem a sapi�ncia dos grandes, sabe o valor do tempo, sabe o valor que a vida tem. Ama o que �, ama o que faz, ama a sua condi��o, porque ama as suas escolhas; por isso brinca com a seriedade e leva a s�rio as brincadeiras. E por isso est� ali de tocaia, mais se tranquilizando com a situa��o do que se impacientando, como qualquer mortal o faria. Mas Diana n�o era uma simples mortal...

Quanto mais o tempo passava, mais ele tentava quebrar as correntes que o aprisionavam em seus pensamentos. Cada dia a mais � mais um dia a menos, pensava, preciso agir! Suas ideias n�o eram mais simples devaneios ou del�rios, tomaram corpo, criaram alma e voz, precisavam ser berradas, escarradas se preciso � o mundo precisava saber, ainda n�o era tarde demais. Tinha que continuar e transmitir seu recado, uma mensagem ou seja l� o que fosse. Precisava saber o resultado.

Mas havia Diana. Ela n�o se contentaria com uma simples desculpa, era inteligente demais para ser subestimada. Como dizer de forma sutil algo que deva ser dito diretamente? Como machucar s� um pouco? Como n�o fazer, fazendo? Os momentos complicados da vida n�o t�m esse nome � toa, nem tudo d� para simplificar. Pensava na rea��o dela, estaria preparada, seria um impacto muito grande para Diana? Ela tinha nome de deusa, ser� que teria tamb�m um cora��o divino? Sua voz era col�rio para seus ouvidos, sua pele o seu descanso, seu colo a sua casa. Ser� que valia a pena tanto esfor�o? Ele ainda n�o tinha respostas, teria que procur�-las, sentia que s� na pr�tica as alcan�aria.

Diana percebeu que havia algo de errado no ar. O semblante, o semblante dele perdera altivez, isso era bastante raro e n�o era nada bom. Teve um mau pressentimento, como h� muito n�o sentia; percebeu que era chegada a hora, mais por necessidade que por vontade. Gostava de deixar a emo��o e os sentimentos guiarem sua vida, mas em momentos como este sabia que era necess�rio usar a raz�o. E foi num misto de raz�o e emo��o, de sentimento e atitude, de sim e n�o, que ela encheu o peito e disse com uma firme do�ura: �Eu vou com voc�!�.

Por esta ele n�o esperava, ela que sempre esperou o sinal verde dessa vez avan�ara ainda no vermelho. Situa��o inusitada, agora n�o teria escapat�ria, o di�logo era inevit�vel. Por mais que fingisse n�o ser nada, por mais que evitasse tais momentos, eles eventualmente aconteciam. S�o prova��es, s�o testes, pensava consigo, e n�o deixava de estar certo. Quando a velocidade do racioc�nio finalmente se rendeu � realidade do tempo, ele retrucou: �Voc� por acaso sabe aonde vou, se vou ou quando possivelmente iria?�.

� N�o me interessam os porqu�s, s� sei que vou com voc� � ela n�o ca�ra em sua armadilha, estava realmente determinada. N�o deixou de sentir certo orgulho de si mesma, por�m a preocupa��o em seu rosto era evidente. Percebeu tamb�m que era in�til ficar discutindo ou filosofando naquele momento, pois ele j� havia tomado sua decis�o, assim como ela. Diana sabia que podia confiar nele, que qualquer coisa que fizesse teria um fim nobre, seria em benef�cio dos outros e n�o apenas de si pr�prio. Conhecia-o bem, por isso decidiu acompanh�-lo, antes mesmo de saber qual seria o destino. Mas precisava que ele tamb�m confiasse nela, que sentisse que estava preparada para qualquer empreitada, que da mesma forma procurava ansiosamente colocar em pr�tica tudo que aprendera com seu mestre.

� Diana, voc� sabe que tenho uma miss�o a cumprir, nunca escondi nada a respeito, muito pelo contr�rio. Minha vida � um livro aberto, inclusive voc� escreveu algumas p�ginas nele, s� n�o sei se nas pr�ximas linhas eu poderei contar com sua companhia.

� Voc� sempre soube que eu teria que completar minha jornada, s� n�o sabia qual seria. Na verdade, nem eu, foi h� pouco tempo que avistei o fim da estrada, n�o o conheci sempre. Conhecia o caminho, mas h� uma grande diferen�a em conhecer o caminho e percorrer o caminho. Preciso percorr�-lo agora, preciso da alquimia de transformar a teoria em pr�tica, de converter o conhecimento em sabedoria. Minha miss�o � bem simples, e por isso um tanto perigosa e at� um pouco assustadora. N�o sei se devo envolv�-la nisto, mas tamb�m n�o posso interferir em tua decis�o, j� tens o discernimento necess�rio para tom�-la sozinha.

Ela estava concentrada e o ouvia pacientemente. Deve ser algo realmente importante, pensava, ele n�o costumava se alongar desse jeito. Chegara a hora realmente! Sempre soube que este dia chegaria, por�m nunca soube se o acompanharia at� aquele instante, onde reinava o sil�ncio e ela o quebrou. A frase que disse veio direto do cora��o, correu seu sangue, percorreu as veias at� o c�rebro e saiu em forma de palavras, com uma certeza poucas vezes sentida em sua exist�ncia. N�o tinha a menor d�vida, precisava acompanh�-lo; mas n�o podia interromp�-lo naquele momento, poderia ser fatal para o desenlace final da conversa. Ent�o se concentrou novamente e apenas consentiu com a cabe�a, para que ele continuasse.

Os pensamentos flu�am, voavam � velocidade da luz, entrela�avam-se uns nos outros, o c�rebro n�o acompanhava direito, as palavras n�o sa�am da boca. � como se estivessem em dimens�es diferentes, em realidades paralelas, o pensamento e a palavra. Mil coisas vinham � mente, n�o sabia por onde come�ar. Na verdade, isto � sempre a maior dificuldade, o in�cio, o primeiro passo, o primeiro tijolo a ser colocado, porque o mundo das ideias � t�o vasto, gigantesco, infinito. Enfim, ele continuou:

� Quero colocar tudo em pr�tica, os princ�pios filos�ficos, os religiosos e altru�stas, os ditos populares, as implica��es acad�micas e cient�ficas. N�o quero provar nada com isto, apenas constatar que tudo � poss�vel. Quero ajudar as pessoas a perceberem que n�o existe certo ou errado, mas sim diferentes formas de pensar e agir, e que de maneira geral todas t�m a mesma finalidade. E quero fazer isso sem qualquer hipocrisia, sem levar em conta a opini�o dos outros, sem avaliar riscos e situa��es, sem pensar muito antes de agir, ou seja, agir de acordo com a intui��o, agir com o cora��o. Sei que me arrisco desta forma, mas os Grandes Homens da Hist�ria assim tamb�m o fizeram, todos em determinado momento de suas vidas resolveram quebrar as correntes, se libertaram das amarras e dos c�digos e regras da sociedade, criaram novos padr�es ou partiram por um novo caminho. Se n�o tivessem existido tais homens n�o haveria a evolu��o da esp�cie, talvez ainda estiv�ssemos nas cavernas ou algo parecido. Quero fazer parte desse grupo n�o por fama ou apenas por vontade, mas por uma necessidade assustadora � concluiu o mestre.

Diana n�o sabia o que dizer, estava boquiaberta. N�o sabia se batia palmas, se dizia o quanto o admirava e o qu�o louco era, n�o sabia se permanecia em sil�ncio. S� sabia que o que j� era certeza virou duas vezes certeza. Passou um filme em sua cabe�a, lembrou-se de quando o conheceu, de como foi acolhida por ele com carinho e sabedoria, de todas as dificuldades e momentos complicados que passaram juntos. Tudo valera a pena! Um grande fim (ou um novo come�o?) se aproximava, e para ela n�o importava se teria final feliz ou n�o, pois ambos tinham a certeza em seus cora��es, ambos tinham for�a, f�, coragem e amor em suas entranhas, e quando se t�m isto at� a derrota faz parte da vit�ria.

Sempre onde h� luz, h� sombra, ele sabia bem disso. Tinha certeza do caminho que escolhera, e por diversas vezes teve a sensa��o de que fora o caminho que o havia escolhido. Iria percorr�-lo com f� e determina��o, mas sabia que n�o teria todas as respostas antecipadas, todos os perigos sinalizados, como numa autoestrada. Sabia que as coisas n�o funcionam assim, e n�o agiria somente com cem por cento de certeza ou com medo dos riscos, como a maioria das pessoas. Jamais ficaria em cima do muro, nem abaixo dele: o atravessaria sem pestanejar, por mais dif�cil que pudesse parecer. N�o idolatrava a ilus�o do conforto, n�o era acomodado, n�o se conformava diante das dificuldades nem fazia delas a desculpa perfeita para n�o agir. N�o, ele queria mais, tinha uma mensagem a transmitir, havia um prop�sito em sua vida. Por�m havia algo que o afligia, era o modo como as pessoas receberiam a mensagem e o qu�o dispostas ou abertas estariam para tal. Pensava bastante no assunto, mas n�o havia filosofia ou teoria que trouxesse alguma resposta ou al�vio, teria realmente que ver na pr�tica. Iria aprender tentando ensinar.

 

 

Cap�tulo 2

 

A chuva ca�a incessantemente, trazendo consigo o frio, como se quisesse amedront�-lo ou afast�-lo de seu objetivo. Mas ele n�o tinha medo, desde que sua f� tornou-se inabal�vel tal sentimento deixou de existir, n�o havia espa�o para um enquanto houvesse o outro. E n�o se tratava de uma f� cega, uma coisa de momento ou uma �f� de aluguel�: o que ele presenciara em sua vida foi o verdadeiro milagre da f�, a f� em si mesmo, a f� no caminho que escolhera. Poderia haver d�vidas, medo n�o.

Seu quarto j� n�o era suficiente, aquelas paredes n�o o segurariam mais, sua casa j� n�o era o bastante. Precisava seguir adiante, por isso virou-se para ela e disse firmemente: �Se est�s preparada, se sentes certeza em teu cora��o, acompanha-me�. E foi assim que sa�ram juntos rumo ao desconhecido, por�m conhecendo bem suas verdades e seus cora��es.

Mal deram os primeiros passos, ele parou diante da porta do vizinho, batendo-na levemente. Logo depois uma voz rouca pergunta quem �, surgindo em seguida no corredor do pr�dio, antes de receber qualquer resposta. Poucas vezes em anos eles viram aquele senhor de meia idade e cabelos grisalhos.

� Como vai senhor, n�o sei se lembra de mim, sou seu vizinho aqui do lado. Precisa de algo? Na verdade s� passo pra desejar um bom dia e oferecer meus servi�os, caso precise � disse.

O senhor n�o sabia o que dizer nem o que pensar. Tanto cavalheirismo n�o era comum de acontecer em tempos atuais, come�ou a ficar desconfiado; e se fosse um golpe, e se o tivessem espionando, se estivessem planejando assaltar sua resid�ncia. E foi com o pensamento torto que respondeu secamente um �n�o, obrigado, at� logo�, batendo a porta abruptamente.

Diana olhou-o num mix de incompreens�o, admira��o e revolta enquanto se afastavam da casa do vizinho, e ele rapidamente come�ou a explicar sua atitude: �Isto faz parte da miss�o, ser educado, gentil e altru�sta, agir sem esperar nada em troca, nenhuma recompensa, nenhuma permuta. Agir desinteressadamente, sem segundas inten��es, preocupar-se com o bem estar do pr�ximo, e do distante tamb�m. Compreender qualquer rea��o e respeit�-la. Teoricamente seria uma tarefa simples e trivial, acaso n�o estiv�ssemos numa cidade grande, onde tais coisas n�o fazem mais parte do cotidiano das pessoas. E � mais ou menos isto que quero transmitir a elas, que � poss�vel nos tratarmos de forma mais carinhosa e gentil independente do mundo em que vivemos, que � nossa miss�o reeducar o universo das rela��es humanas�.

Ela compreendeu, novamente admirou e n�o mais se revoltou. Era perfeitamente aceit�vel a rea��o daquele senhor que atendeu � porta, pois esse n�o era o seu universo. Ele n�o tinha culpa, pensou, mas no fundo a culpa � de quem, de quem domina ou de quem se deixa dominar? Quem realmente obt�m o poder? Qual seria o ato mais poderoso, manter uma domina��o ou transform�-la em liberdade? Estes questionamentos faziam Diana refletir e sentir orgulho de fazer parte de algo grandioso, algo que pudesse dar sentido e prop�sito a qualquer exist�ncia. J� aprendera bastante desde que encontrou o mestre, e sempre havia algo mais a conhecer, a explorar, a vivenciar. Sabia que a mente precisava estar em constante evolu��o e funcionamento, e que quem diz saber tudo, provavelmente n�o sabe de muita coisa. A estrada s� termina quando realmente acaba, e n�o somos n�s que damos fim a ela, pensava em tom de humildade.

Ele tinha carro e situa��o financeira de certa forma confort�vel para se locomover de t�xi, por�m frequentemente viajava de �nibus, gostava de estar entre as pessoas, de observar suas a��es e rea��es. E finalmente fez algo que sempre quis fazer, mas que ainda n�o era chegado o momento: como de costume, cumprimentou o motorista e o cobrador, desta vez indo al�m, deu bom dia a todos os passageiros do ve�culo e sentou-se l� atr�s, no �ltimo banco. Pouco a pouco foram surgindo os primeiros cochichos, inicialmente entre as duplas que dividiam o mesmo assento e depois em grupos de tr�s ou quatro. Uns coment�rios foram em tom de desaprova��o, outros em tom de surpresa agrad�vel (a maioria feito por senhoras idosas), teve gente que apenas retribuiu com um sorriso e alguns o consideraram maluco. Mas independente da opini�o ou sensa��o de cada um sobre o ocorrido, todos tinham uma certeza, algo diferente aconteceu naquele momento. E n�o foram as interrup��es corriqueiras de vendedores ambulantes ou pedintes de qualquer sorte, foi algu�m que simplesmente cumprimentou um a um e desejou despretensiosamente que cada pessoa ali presente tivesse um bom dia pela frente.

No fim de mais uma surpreendente a��o, Diana sentou-se ao seu lado, observando o murmurinho que havia se formado dentro do ve�culo. Instintivamente repetiu o gesto dele, fazendo parte diretamente da experi�ncia, sendo tamb�m um agente ativo daquela a��o. E gostou, Diana gostou do que sentiu, porque uma coisa � assistir e contemplar uma a��o admir�vel, outra coisa � participar dela. Apesar de parecer algo simples a ponto de deixar algu�m extasiado, aquilo mexeu bastante com ela, pois aprendera que � na simplicidade que se encontram os segredos e grandes mist�rios da vida. Sim, teve essa li��o com o mestre, e agora ele lhe dera a oportunidade de senti-la na pr�tica.

Desceram do �nibus ainda sob o olhar perplexo de alguns, indo em dire��o a uma pra�a que ficava a tr�s quadras dali. J� nos primeiros passos, ele quebrou o sil�ncio: �Voc� percebeu o que aconteceu h� pouco? Al�m da minha real inten��o e desejo para com todos, voc� conseguiu captar o efeito subliminar do ato em si?�. Um gesto simples, por�m impens�vel, respondeu Diana, no que ele se apressou em acrescentar: �Sim, um gesto simples, mas que ao se concretizar provocou ao menos uma coisa: comunica��o�. Diana estava atenta, ele continuou:

� Quando n�o compreendemos algo, tendemos a nos expressar, nem que seja com um desconhecido, algu�m que esteja ao nosso lado no momento.

� E quando nos comunicamos existe a possibilidade de haver harmonia e qui�� at� o surgimento de novas amizades. Quantas amizades que temos hoje n�o surgiram de coment�rios ao acaso? Como nascem as amizades, sen�o atrav�s da comunica��o? Ningu�m olha para uma pessoa e diz que vai ser amigo dela sem ao menos escut�-la, saber o que ela tem a dizer.

� Pois bem, este tamb�m foi um intuito do ato, de quem sabe ter incitado o surgimento de uma nova amizade, um v�nculo que talvez n�o possa ter se consolidado hoje, mas que uma semente j� possa ter sido jogada ao vento � completou o mestre.

 

 

 

 

 

Cap�tulo 3

 

J� era perto do meio-dia quando eles chegaram na pra�a. O local era grande, bastante arborizado e com alguns animais silvestres � solta, como cotias, coelhos, patos e outras aves, al�m de um curioso pav�o. Por�m os simp�ticos animais n�o eram o motivo da visita, havia tamb�m alguns transeuntes humanos, pessoas que �s vezes passavam quase o dia todo naquele lugar, muitos por n�o ter para onde ir e outros porque simplesmente moravam nas ruas ou perambulavam sem rumo. E foi justamente na dire��o destes que ele caminhou.

Assim que percebeu a inten��o do mestre, Diana ficou apreensiva. Confiava nele, mas a cidade onde viviam era um tanto perigosa, n�o seria recomend�vel sair por a� falando com qualquer um, especialmente moradores de rua e mendigos. Chegou a ter vergonha da sensa��o de alerta, por um momento duvidou de si mesma e do sucesso da investida. No entanto algo lhe tranquilizou a alma, veio � cabe�a a lembran�a de conversas que tivera com ele sobre quem eram os verdadeiros bandidos. Ser� que aquelas pessoas das quais se aproximavam representavam real perigo e eram mais assustadoras do que alguns que regem nossas leis ou outros que enriquecem �s nossas custas? Seria correto julgarmos e condenarmos algu�m pelo seu cheiro ou pela roupa que est� vestindo? Imediatamente ap�s esses questionamentos, lembrou-se tamb�m de outro fato que viera ao seu conhecimento recentemente: um casal estava num restaurante com seu filho de tr�s anos quando de repente se aproximou do vidro um mendigo e ficou brincando com o pequeno. A crian�a retribuiu � brincadeira fervorosamente, meio que se libertando do t�dio em que se encontrava, o que come�ou a incomodar os pais, que logo notificaram o gar�om sobre o que estava ocorrendo. Este por sua vez comunicou o seguran�a do estabelecimento, que em seguida tratou de enxotar o indigente do local. Ao ver a cena, a crian�a saiu em disparada, driblando aquele que maltratava o seu amigo e indo direto para os seus bra�os. Todos ficaram paralisados, n�o sabiam o que fazer; os pais se dirigiram � porta do restaurante, j� esperando pelo pior. Ent�o o homem, com o pequeno no colo, aproximou-se deles e proferiu as seguintes palavras:

� Est� tudo bem, tudo bem, v� com os seus pais, voc� � uma crian�a muito especial � disse o mendigo, dirigindo-se ao pai em seguida.

� Muito obrigado, o senhor me proporcionou um dos momentos mais felizes de minha vida, esta � uma crian�a aben�oada, cuide bem dela, boa noite.

Diana mais uma vez sentiu-se envergonhada e reeducou o seu olhar para a alma das pessoas, assim como fez a crian�a, e n�o para o que elas aparentam ser. O medo desaparecera, esta energia negativa n�o a incomodava mais.

O casal rumou na dire��o de uma senhora que alimentava alguns gatos num dos cantos da enorme pra�a, que mais parecia um pequeno parque. Ela os fitou surpresa e ensaiou uma retirada, quando ele ligeiramente disse: �Espere, n�o vamos lhe fazer mal, tampouco queremos incomod�-la. Viemos atender o seu chamado�. Al�m da senhora, Diana tamb�m tomou um susto com a �ltima frase que saiu da boca do mestre. Como assim, pensou, ele n�o comentou nada parecido comigo. Do outro lado, a solit�ria senhora j� ia se preparando para rebater o que ouviu quando de repente lembrou ter desejado intensamente, dias atr�s, exatamente isto, que algu�m conversasse com ela, que ouvissem o seu lamento, nem que fosse por alguns minutos apenas.

O mestre percebeu a surpresa de ambas e recordou a primeira vez que Safira fez o mesmo com ele. Tudo que aprendera, tudo que ele representa hoje era gra�as a ela, que fora a sua mestra. A Ordem da qual ele fazia parte geralmente escala homens para ensinar mulheres e vice-versa, por acreditar que tais seres se complementam e que para haver verdadeira harmonia entre eles, a mensagem deve ser enxergada e sentida pelo ponto de vista do outro.

� Vou ensin�-lo a ouvir o cora��o dos desesperados e a escutar os seus chamados � disse uma vez Safira.

� Estamos todos sintonizados, participamos da mesma frequ�ncia, somos todos fragmentos da Grande Can��o Universal. Somos �gua da mesma fonte, l�rios do mesmo campo! Aprendendo a ouvir � que se pode falar...

Quando ouviu essas palavras pela primeira vez, ainda que com muita f� e total confian�a em sua guia espiritual, sentiu uma ponta de descren�a, pois o ser humano tem uma forte tend�ncia a rejeitar o desconhecido. E agora era a vez de Diana passar por isso.

Sentaram-se os tr�s no banco da pra�a e subitamente a senhora come�ou a falar: �N�o sei o que aconteceu comigo, h� tempos que minhas companhias s�o apenas estes pequenos animais. Tinha uma vida tranquila, recebia pens�o do meu falecido marido, meus filhos viviam na minha casa. Foi quando de repente tive a primeira crise. De uma hora pra outra senti uma dor de cabe�a muito forte e quando retomei a consci�ncia estava deitada no sof�, no colo de minha filha mais velha. Ela disse que eu revirava os olhos e falava coisas estranhas, como se fosse outra l�ngua que ela n�o conhecia. Dali em diante as crises foram se tornando mais frequentes, a ponto de minha fam�lia optar por me internar num hospital psiqui�trico. Tamb�m l� n�o souberam definir o que havia de errado comigo, alguns diziam ser uma esp�cie de dist�rbio psicol�gico, outros afirmavam ser problema emocional. At� chegar um dia que n�o aguentei mais aquele confinamento e resolvi sair, por livre e espont�nea vontade. Sim, fugi, prefiro ser livre e enfrentar o meu problema a ser tratada como uma prisioneira e continuar com ele da mesma forma. Hoje vivo aqui e ali e n�o incomodo mais a minha fam�lia; ainda tenho minhas crises, por�m n�o sinto mais remorso nem arrependimento, sinto at� uma certa paz quando elas ocorrem. N�o sei explicar direito, mas hoje me sinto mais em paz comigo mesma neste caminho que escolhi, nesta minha vida solit�ria, somente eu, os animais e Deus, se � que ele continua olhando por mim�.

Ele ouviu atentamente aquelas palavras, entendendo perfeitamente o que se passava com a senhora que agora chorava copiosamente, imaginando seu sofrimento, a ang�stia em n�o saber a causa de seu problema, sua solid�o aterradora. Olhou para Diana (que estava com os olhos cheios d��gua) e analisou seu semblante, que refletia compaix�o. Ficou imaginando at� onde ia a compreens�o dela sobre a triste hist�ria que acabavam de tomar conhecimento, tentou ouvir seu cora��o, mas n�o havia muito tempo, precisava confortar aquela senhora, precisava lhe dar uma explica��o. Tinha que lhe contar o que se passava com ela, dizer o porqu� dos m�dicos n�o conseguirem diagnosticar o seu problema, explicar a sensa��o de paz que sentia ap�s as crises. Precisava amenizar o seu sofrimento, por�m sabia que os pr�ximos minutos seriam bastante dif�ceis pra ela, pois sua vida viraria de cabe�a para baixo num piscar de olhos, j� que a verdade sobre si mesma e sua condi��o especial lhe seriam reveladas. S� nos � ensinado vivenciar meias verdades, encarar verdades incontest�veis � outro terreno bem menos explorado pelo Homem.

O vento agora havia se intensificado, como se antecipasse a tempestade que se formaria na cabe�a daquela humilde senhora. Ele sabia que nada nessa vida � por acaso, que isto era um sinal, aprendera a interpretar os sinais da natureza e como ela se comunica com as pessoas atrav�s de seus elementos; os seus segredos est�o � disposi��o de todos, a qualquer momento, mas poucos s�o aqueles que se prestam a enxergar com os olhos abertos. Sentindo a inspira��o vir � tona, ele come�ou a agir: �Ester, � este o seu nome, correto?�. A senhora apenas assentiu com a cabe�a, provavelmente surpresa por um desconhecido saber seu nome. Ele continuou sua fala, passando a ser um pouco mais informal, para que ela talvez pudesse se sentir mais � vontade:

� N�o existe doen�a alguma, quanto a isso pode ficar tranquila. Por�m lhe trago uma revela��o, algo que certamente n�o ser� f�cil de absorver agora, mas que o tempo, a paci�ncia e a dedica��o fornecer�o as repostas necess�rias.

� Ester, voc� possui um dom que ter� que compreender e exercitar, caso queira cumprir o seu objetivo aqui neste plano. Sei que n�o me conheces e tampouco nunca nos vimos antes, mas te digo de cora��o aberto que n�o vim aqui por acaso e me disponibilizo a ajud�-la, por isso a �nica coisa que te pe�o por hora � que leve a s�rio estas minhas palavras � falou calmamente o mestre.

A curiosidade e o espanto eram claramente vis�veis tanto na face de Ester quanto na de Diana. A seguran�a com que ele dissertava sobre aquele misterioso assunto deixara Diana meio at�nita. Conhecia-o bem, sabia que se tratava de algo realmente s�rio. Ele falava de um dom, o que poderia ser? Ela j� tinha perguntado sobre os dons que tornam algumas pessoas especiais, na ocasi�o ele dissera que ainda n�o havia chegado a hora de se explanar tais quest�es. Presenciando aquela cena e tamb�m percebendo os sinais naturais, Diana tinha certeza que finalmente esta hora havia chegado, e que mais uma vez ela aprenderia na pr�tica. Embora aflita, sentia novamente uma imensa gratid�o por seu mestre naquele instante.

Apesar de ter o controle da situa��o e da extrema felicidade de estar cumprindo a sua miss�o e ser �til a algu�m, a experi�ncia pr�tica tamb�m o assustava. Sabia que estava no rumo certo, mas era a primeira vez que percorria o caminho. Tudo estava correndo bem, por�m por mais que tivesse autocontrole e houvesse se preparado intensamente para estes momentos, n�o deixava de sentir aquele frio na espinha que s� uma estreia � capaz de produzir. Diana era sua �nica disc�pula e tinha orgulho disso, conhecia suas limita��es, seus medos e ang�stias, suas qualidades e excel�ncias, o oposto da situa��o que enfrentava agora. Entretanto precisava continuar, n�o tinha mais como voltar, nem se ele quisesse. Por isso encheu o peito, alimentou-se novamente de sua ess�ncia interior e prosseguiu:

� Ester, voc� recebeu uma d�diva, seu dom � falar a l�ngua dos anjos e atrav�s dele comunicar a mensagem divina, que passa agora a ser sua mensagem pessoal. Voc� deve estudar e evoluir o seu dom, e com ele ajudar� muitas pessoas e esp�ritos.

� Voc� � uma mensageira do Amor Maior, aquele que tudo criou e que em tudo � consumido. E isso n�o lhe ocorreu de uma hora pra outra, seu dom sempre esteve contigo, s� que agora chegou a vez dele se manifestar por inteiro. Se voc� puxar pela mem�ria, vai se lembrar de alguns fatos que nunca tiverem explica��o, principalmente na inf�ncia, que � a fase onde o esp�rito ainda n�o foi corrompido pelas coisas e pessoas mundanas.

Ele tinha raz�o, pensou Ester, quase que automaticamente passaram flashes em sua mente de alguns epis�dios mal resolvidos em sua vida. Lembrou que por diversas vezes sua m�e a levou em m�dicos, alegando que de vez em quando a filha balbuciava palavras estranhas enquanto dormia, o que n�o foi levado muito a s�rio pela medicina na �poca. Recordou vagamente que durante a pr�-adolesc�ncia come�ou a ter os apag�es, igualmente sem solu��o m�dica, o que lhe rendeu alguns apelidos esquisitos que ela detestava. Entendia agora que j� era o seu dom se manifestando timidamente e por alguns instantes houve sil�ncio: o sil�ncio da mem�ria, o sil�ncio do desespero, o sil�ncio que precede a explos�o...

Diana solidarizava-se com a situa��o daquela senhora que via seu mundo virar de cabe�a para baixo, pois j� tinha passado por algo semelhante. Sabia que naquele momento n�o havia nada que ela, seu mestre ou qualquer pessoa na face da Terra pudesse fazer. Era algo muito particular, uns demoram bastante para digerir tais situa��es, outros se levantam mais r�pido, e ela n�o conseguia definir em qual perfil Ester se encaixava. A confus�o e o espanto no semblante da mulher era algo que nunca tinha visto antes, provavelmente esta foi a cara que fez quando aconteceu com ela mesma. Aquela senhora a princ�pio iria lutar com todas as for�as para negar tudo aquilo, porque � isso que estamos acostumados a fazer em rela��o ao desconhecido ou ao que n�o compreendemos, uma rea��o autom�tica que s� o tempo e a experi�ncia s�o capazes de polir. Lembrou quantas vezes isto havia acontecido com ela antes de conhecer o mestre, perdera at� a conta de quantas vezes havia negado a sua ess�ncia, quantas vezes utilizou a raz�o dos outros para tentar resolver seus problemas, quantas vezes se anulou em prol de m�ximas populares f�teis e descabidas, quantas vezes desejou sumir por causa de opini�es alheias. Mas agora n�o, aprendera a ser uma vencedora, e opini�es de derrotados jamais a derrubariam novamente. Chegou a sentir uma ponta de raiva ao final de seu pensamento, certamente esta era uma das coisas que teria que trabalhar para sua evolu��o pessoal, aquela situa��o que presenciava mexia com suas mem�rias e cutucava feridas antigas. Talvez n�o houvera tanta relut�ncia do mestre quando ela disse que o acompanharia exatamente por isto, esta jornada tamb�m seria sua, serviria para o aperfei�oamento espiritual o qual tanto desejava.��

 

 

Cap�tulo 4

 

De repente o sucesso dura um f�sforo aceso, ouvira isso em uma can��o e sabia bem o significado da referida express�o. N�o podia se deixar influenciar pelo sucesso inicial da miss�o, a concentra��o e o foco deveriam permanecer, o epis�dio na pra�a j� fazia parte de outro presente. Obviamente daria a assist�ncia necess�ria para a evolu��o do dom de Ester sempre que solicitado, mas agora era preciso seguir em frente, ainda havia muito a fazer. Por isso fez um sinal para Diana, ap�s despedir-se daquela senhora que tinha renascido para uma nova realidade, e saiu cidade afora seguindo a sua intui��o, que estava mais agu�ada do que nunca. Dizem que a intui��o � a voz de Deus querendo falar, portanto aprendera a jamais deixar de escut�-la, principalmente nos momentos de d�vida ou que fosse necess�rio tomar uma decis�o r�pida. Enquanto se afastava da pra�a, lhe ocorreu a lembran�a de um sonho que teve sobre o pre�o da liberdade. Estavam ele, uma mulher e duas crian�as, um menino mais velho e uma menina, que eram seus filhos. Eles voavam sobre a cidade como p�ssaros, apenas balan�ando algo preso em seus bra�os e m�os, que mais pareciam caixas de papel�o abertas e esticadas. A sensa��o de voar era indescrit�vel, admiravam l� de cima a beleza natural daquela cidade, que era a vis�o mais bonita que se podia ter. N�o conseguiam voar muito alto, estavam apenas a alguns metros do ch�o, mas era o suficiente para ficarem totalmente deslumbrados com o que viam. De repente avistaram cabos de energia de alta tens�o ligando as torres no meio da mata, exatamente na altura que eles sobrevoavam a grande floresta que beijava o mar. Ele olhou preocupado para a mulher, pois as crian�as ainda n�o conseguiam voar numa altura mais elevada, teria que orient�-los por entre os cabos e evitar que se chocassem com eles, poderia ser fatal. O vento aumentava, como se dissesse que ali n�o era o lugar deles ou que estavam infringindo uma lei natural e que poderiam sofrer as consequ�ncias deste ato de coragem, aud�cia e loucura. Enfim conseguiram passar pelo obst�culo el�trico, com momentos tensos aonde as crian�as chegaram a esbarrar nos cabos, mas por sorte nada acontecera. Em seguida uma forma��o de nuvens os rodeou e tudo ficou completamente �s cegas, teriam que seguir os instintos, seus radares naturais naquela situa��o. O estrondo que ouviam ao longe, agora parecia bem pr�ximo, por�m eles n�o enxergavam nada al�m daquele branco eterno e sufocante. N�o viam, mas sabiam que se tratava de outro capricho do vento, empurrando as �guas do mar e fazendo-as bater com for�a nas pedras da costa, em forma de ondas gigantescas. Uma brecha nas nuvens e ele avistou a cena assustadora, as ondas realmente eram enormes e violentas, j� sentia os pingos amea�adores resvalando em seu rosto. Estavam perdendo altitude, contudo depois de alguma turbul�ncia eles conseguiram ultrapassar mais esse obst�culo. Agora avistavam a praia, inicialmente deserta, numa parte mais afastada da cidade. No entanto a costa era imensa, e � medida que sobrevoavam a praia iam surgindo as primeiras cabe�as humanas l� embaixo, pequenos pontos na areia e na �gua. Num determinado momento, ele decidiu que era hora de pousar e se juntar � multid�o para aproveitar um pouco a praia, depois de terem passado por tantas prova��es. Se fossem s� ele e a mulher, tudo bem, mas as crian�as correram perigo, e quando os filhos s�o colocados em jogo, a situa��o se torna um tanto mais complicada. Ap�s a praia, eles entraram num �nibus a fim de voltar por terra, por�m foram detidos por fiscais que pareciam agentes do FBI, com a desculpa de que j� haviam utilizado aquela condu��o no mesmo dia, dando um ar proibitivo na hip�tese. Como que num conto kafkaniano, o absurdo ficou estampado nos rostos de todos que presenciaram ele, a mulher e as crian�as sendo levados para uma viatura. Dentro do carro tiveram a companhia de um senhor mal encarado que n�o parava de falar sobre as t�cnicas de tortura dos tais fiscais, que na verdade eram agentes disfar�ados, do tempo da ditadura. Mas algo soava estranho nas palavras daquele homem, que falava como se tivesse incitando o medo para testar a f� deles. Ele percebeu a t�tica e logo viu que n�o se tratava de um homem, e sim de um anjo que estava ali para ajudar aquela fam�lia. Depois deste sonho ele nunca mais esqueceu que o medo existe para testar a f� do ser humano.

 

∞∞∞

 

Lidar com o lado espiritual das pessoas gasta bastante energia, Diana sempre ouviu essa afirma��o de seu mestre e agora sentia na pele o fato, pois inesperadamente uma fome aterradora invadiu o seu corpo e sua mente. Mas de forma alguma queria interromper ou atrapalhar a miss�o, que afinal de contas tamb�m era sua, por isso suportou a fome, trabalhou o seu psicol�gico para n�o cair em desespero, como, ali�s, tantos fazem mundo afora, pelo simples fato de n�o terem o que comer. Chegou a considerar que tais pessoas deveriam dar palestras sobre o assunto, de como ajustar o c�rebro para domar suas vontades e necessidades extremas. Lembrou que por algumas vezes tamb�m conseguira esta fa�anha em situa��es em que era imposs�vel se alimentar; a fome intensa do in�cio acaba passando com os minutos, realmente temos o poder de controlar o c�rebro, s� que nos esquecemos disso na maioria das vezes. Fazia tamb�m um calor sufocante, o que a desanimava de comer, e ao inv�s de deixar a irrita��o tomar conta, preferiu preencher seus pensamentos filosofando sobre a utilidade de um calor t�o intenso e cruel como aquele. N�o conseguia enxergar nenhum benef�cio nesta sensa��o que tornava o racioc�nio lento, o corpo mole e o esp�rito cansado, sem falar nas batalhas di�rias com os implac�veis mosquitos na tentativa de um sono tranquilo e de ter que dormir com o ventilador ligado todas as noites quentes de ver�o, o que prejudicava a sua garganta. N�o, tais divaga��es certamente n�o estavam ajudando, quando coisas ruins v�m � mente com mais frequ�ncia e ferocidade do que as boas � melhor dar uma pausa no pensamento, aprendera isso com o mestre. Foi uma li��o dolorosa, reeducara o seu modo de pensar a muito custo, pois com o tempo ficamos programados a enaltecer mais os acontecimentos negativos do que os positivos. Conhecera diversas pessoas que chegavam a vibrar com not�cias ruins e trag�dias, enquanto as boas viravam simples banalidades. Era tempo de focar novamente na miss�o e deixar sensa��es particulares de lado.

Como tivesse ouvido os pensamentos de Diana, depois de caminharem algumas quadras ele disse que era hora de comer e descansar o corpo. Por�m n�o foi uma simples pausa para almo�o, pois no caminho em dire��o ao restaurante ele convidou dois meninos e uma menina que pediam esmola nas proximidades para acompanh�-los. Mal entraram no local e v�rios rostos se voltaram para aquelas crian�as maltrapilhas que adentravam o ambiente; Diana prontamente lembrou-se da est�ria do mendigo e o garotinho no restaurante.

N�o demorou muito para um gar�om ir at� a mesa onde estavam, e pelo andar meio desesperado do funcion�rio e a aus�ncia de card�pios nas m�os, ele j� imaginou o que viria pela frente e preparou-se para o debate.

� Boa tarde, infelizmente terei que pedir que fa�am a gentileza de se retirarem do estabelecimento, pois n�o � permitido o acesso de pedintes ou pessoas que venham a se tornar um inconveniente para nossos clientes � disse o gar�om, gaguejando um pouco.

Antes de responder, ele deu uma boa olhada ao redor, reparou que aqueles que mais se sentiam incomodados eram justamente os que aparentavam ter menos condi��es financeiras ou ent�o os novos ricos, tamb�m conhecidos como �emergentes� na cidade onde viviam. Ele n�o estava ali para criar confus�o nem convidou aquelas crian�as para chocar ningu�m, mas sabia que estes �choques� eventualmente iriam acontecer depois que a verdade libertou sua vontade, pois a maioria das pessoas n�o est� habituada a situa��es que n�o est�o na cartilha social que aprenderam desde pequenos, e esta sem d�vida era uma delas. Rapidamente rogou por for�a e sabedoria e com muita suavidade na voz respondeu ao seu interlocutor:

� Agrade�o a forma gentil pela qual o cavalheiro veio notificar a sua afli��o ou de quem seja, mas viemos aqui para almo�ar, e certamente iremos pagar pelos servi�os do restaurante, n�o estamos pedindo esmola, n�o desta vez. Por isso pe�o-lhe encarecidamente que nos traga o card�pio, pois estamos com bastante fome, certo crian�as?

As tr�s tomaram um susto quando foram consultadas, mas prontamente acenaram um sim com a cabe�a, ou melhor, v�rios, devido � imensa fome que sentiam. O gar�om igualmente fez um movimento de positivo com o corpo e caminhou na dire��o de um senhor calvo e elegante, que deveria ser o gerente; depois de uma breve conversa, agora foi a vez dele se dirigir � mesa onde estavam e intercal�-los novamente:

� Boa tarde cavalheiro, desculpe o transtorno, apenas seguimos as normas da casa, e uma delas � que n�o podemos abrigar em nosso estabelecimento pedintes ou pessoas de sorte semelhante, espero que compreenda � disse o gerente, com uma tranquilidade na voz de quem est� acostumado com este tipo de situa��o.

Diana e as crian�as come�avam a ficar apreensivas, praticamente pedindo com os olhares para que fossem embora, por isso ele apressou-se em responder:

� Osvaldo, � este o seu nome, correto? Voc� realmente acha que as regras devam ser rigorosamente implementadas ou obedecidas, sem que para isso sejam avaliadas com bom senso? Se n�o houvesse exce��es � regra, voc� acredita que hoje nos encontrar�amos no est�gio evolutivo em que a humanidade est�, ser� que talvez n�o estar�amos vivendo como em tempos remotos?

� O que o seu cora��o te diz? Ser� que n�o andas agindo com certa severidade e austeridade em sua vida, o que acaba por trazer melancolia demais ao teu cotidiano? Voc� n�o se sente acorrentado com tamanha inflexibilidade? Ser� que n�o est� faltando um pouco de desregramento, ser� que ser inconsequente de vez em quando n�o traria de volta sorrisos e paix�es adormecidas?

� J� parou pra pensar que voc� pode estar transmitindo doses de amargura a algum ente querido, que isso pode ser irrevers�vel? Voc� se sentiria bem em ser uma mancha na vida de algu�m que ama ou tem grande estima? Veja bem, n�o estou exigindo que voc� cometa um crime ou fa�a algo que possa vir a corroer o seu car�ter, s� estou pedindo que analise a situa��o com senso cr�tico e, acima de tudo, com amor e sabedoria, pois n�o d� para continuarmos a respirar ares de regimes autorit�rios em pleno s�culo 21.

� Estamos adentrando uma Nova Era, mudan�as significativas j� est�o acontecendo em todo o planeta, e quem n�o acompanhar este novo ritmo, onde o amor e o respeito � vida ser�o novamente os valores mais altos, vai ficar remoendo as cinzas do passado � finalizou o mestre.

Diana respirou aliviada, agora sabia o real motivo daquilo tudo, ele fora ao restaurante especialmente para transmitir uma mensagem �quele senhor elegante.

Osvaldo era pura perplexidade, n�o acreditava no que acabava de ouvir. Como aquele homem podia definir t�o bem o que se passava em sua vida sem ao menos conhec�-lo, sem nunca terem conversado antes? Chegou a ficar em d�vida, ser� que eles j� haviam se encontrado em alguma ocasi�o anterior e n�o se lembrava? N�o, certamente n�o, Osvaldo tinha uma mem�ria excelente, inclusive esta era uma das raz�es dele ter assumido a ger�ncia do local. Em poucos segundos reviu a sua vida, o resumo dos �ltimos anos de sua exist�ncia lhe deixou um gosto amargo na garganta, e finalmente ele enxergou o fim do po�o para onde estava se dirigindo. Sim, havia se tornado uma pessoa muito r�gida, j� tinha percebido isso, mas n�o sabia o motivo, por�m uma luz se acendeu com as palavras de seu interlocutor desconhecido. Osvaldo se deu conta que desde que assumiu o cargo de gerente, o qual perseguiu por tanto tempo e com certa gan�ncia desenfreada, aos poucos foi se tornando uma pessoa bastante inflex�vel, principalmente com sua fam�lia. Passou a exercer a ger�ncia tamb�m em casa, a tratar a esposa e sobretudo seus filhos como empregados ou subalternos, e aquele homem tinha raz�o, o estrago poderia ser irrevers�vel. Osvaldo percebeu que cometeu um erro comum a tantas pessoas, de levar o excesso de trabalho para dentro de casa, de n�o deixar os problemas ou chatea��es di�rias porta afora, de descontar nos entes queridos os dias ruins. E aprendeu tamb�m uma importante li��o: � preciso ter muito cuidado com o que desejamos intensamente, pois os desejos podem vir a nos consumir se perdermos o controle sobre eles.

O pr�prio gerente atendeu pessoalmente aquela mesa, e ao se despedirem lan�ou um olhar agradecido para a simp�tica criatura que ajudou a tirar a venda de seus olhos. Obviamente algumas pessoas continuaram a olhar torto para as crian�as, que tanto se deliciaram quando chegou a comida, mas Osvaldo n�o dava mais import�ncia, seu cora��o estava curado e seu esp�rito flutuava livre no ar �o brilho nos olhos e sua luz interior tinham voltado a reluzir. Naquele dia ele contou as horas para chegar em casa e poder compartilhar com a esposa o ocorrido, dizer como estava enganado e arrependido, dizer depois de tanto tempo o quanto a amava e poder abra�ar seus filhos com tamanha for�a e amor que provavelmente eles se assustariam e pensariam que o pai enlouquecera de vez. Osvaldo n�o estava mais preocupado em parecer cafona ou antiquado ou louco, ele estava livre, e essa liberdade n�o permitiria mais que julgamentos alheios sobre sua pessoa o atingissem novamente. Ele estava livre das correntes do preconceito, da ignor�ncia, da inveja, do rancor, do medo de viver, do medo de morrer. Osvaldo renascera para sua vida, ele estava livre...

 

 

 

Cap�tulo 5

 

Diana refletia sobre mais esse acontecimento singular da experi�ncia m�gica que estava vivenciando, enquanto caminhava. J� n�o a preocupava mais qual seria o pr�ximo passo, o importante era estar ali, ao lado dele, aprendendo, observando, participando, sendo. N�o estranhou quando o mestre convidou as crian�as para almo�ar, sabia do carinho e cuidado especiais que ele sempre teve com os pequenos esp�ritos do bem, como gostava de cham�-los. No entanto, suas atitudes estavam mais espont�neas do que o normal, parecia que os sentidos e sentimentos tinham agora vontade pr�pria, como se o mestre n�o tivesse mais o controle total sobre eles. Pensando nisso, Diana se deu conta da diferen�a entre o que � comum e o que � normal. As pessoas geralmente confundem as palavras, dizendo �ah, isso � normal�, quando na verdade � apenas comum. O que presenciava diante de seus olhos era a gradativa substitui��o do comum pelo normal, o novo comportamento de seu mestre era o que sempre almejou como normalidade, agora sim trazia consigo uma exist�ncia normal, e n�o uma vida comum. E novamente ele a surpreendera, pois quando pensou que o intuito da ida ao restaurante era t�o somente alimentar decentemente aquelas crian�as, eis que havia outro objetivo subliminar, a mensagem para Osvaldo.

Mas havia algo em especial que chamava a sua aten��o, era como ele sabia o nome das pessoas, aquilo realmente mexia com ela. E o fato parecia hipnotiz�-las, aconteceu tanto com Ester quanto com Osvaldo. Diana percebeu a import�ncia de se chamar algu�m pelo nome e o quanto isso andava meio esquecido e sendo amplamente substitu�do por palavras como cara, brother, amiga e coisas do tipo. Sim, tinha algo de poderoso em dizer o nome de uma pessoa, e nesses casos que ela presenciou, poderia at� arriscar que havia algo de m�gico.

Ele frequentemente explanava sobre magia, que n�o tinha nada a ver com m�gica, ilusionismo ou truques baratos, mas sim a verdadeira magia, a Alquimia, que existe desde tempos imemoriais. Claro que no in�cio ela tamb�m pensou que o intuito dos alquimistas era especificamente transformar metais brutos em ouro, por�m logo entendeu que a quest�o era simb�lica, metaf�rica, pois a Alquimia est� diretamente relacionada � mudan�a interior em cada um, no que tange que � preciso transformar o que existe de �material impuro� em nosso ser e deixar a ess�ncia que h� em tudo e em todos aflorar, desabrochar como uma rosa que espera ansiosamente por isso. Transformar o eu interior, ou melhor, deix�-lo submergir do fundo da alma, morrer para renascer em plena vida, este era o objetivo da verdadeira magia, e parece que ele havia alcan�ado essa importante vit�ria. Diana tinha conhecimento de que atingir a desejada transforma��o n�o era nada f�cil, que muitos ao longo da Hist�ria tentaram e n�o conseguiram, e que os que obtiveram sucesso foram perseguidos, tachados de hereges ou jogados na fogueira. Sabia que n�o bastava ser culto, inteligente e estudioso, que em diversos casos tais qualidades chegavam inclusive a atrapalhar, pois a magia prov�m da simplicidade, da humildade e do amor, e tem gente que n�o consegue conciliar tudo isso. E obter o conhecimento por si s� n�o significava grande coisa, era preciso transform�-lo em sabedoria, e somente atrav�s da pr�tica isso seria poss�vel, ficar somente no campo te�rico e intelectual n�o era o suficiente. Cada pessoa tem seu tempo, uns demoram d�cadas para ter �xito, outros s� necessitam de poucos anos a fio, alguns podem levar uma vida inteira para se dar conta que poderiam ter feito diferente. Com ela foi assim, quando percebeu que sua vida estava muito parecida com a da maioria das pessoas, algo l� dentro lhe disse que era hora de mudar, sen�o seria mais uma que perto do fim se lamentaria de n�o ter feito isto ou aquilo. N�o, Diana n�o seria esse tipo de gente, e foi nesse momento que come�ou a sua busca interior. Hoje ela sabia que a voz que a avisou do perigo era a centelha divina se manifestando em seu ser, hoje ela conhecia o significado de uma frase do Evangelho de S�o Tom�, atribu�da a Jesus Cristo de Nazar�: �O Reino de Deus est� dentro de voc� e � sua volta; n�o em templos de madeiras ou pedras�.

 

������������������������������� ∞∞∞

����������� Depois do almo�o ele pensava no que ainda podia fazer por aquelas crian�as. Bateu uma profunda tristeza e um sentimento de impot�ncia ao lembrar que daqui a poucos minutos a velha rotina delas se instalaria novamente, voltariam a lutar pela sobreviv�ncia nas ruas, o que lhe partia o cora��o. Entretanto, sabia que tamb�m havia um plano divino tra�ado para elas, por mais dif�cil que se pudesse acreditar. Filosofou por alguns instantes, se ao menos n�o precisassem mendigar mais por comida, j� seria uma grande coisa, se outras pessoas fizessem a sua parte social nessa hist�ria, tamb�m ajudaria bastante. Estava feliz por ter conseguido contribuir de alguma forma, mas tinha consci�ncia que por um bom tempo tamb�m agiu assim, ignorava a s�plica dessas almas exaustas e n�o lhes pagava algo para comer, embora tendo dinheiro suficiente no bolso. Sim, tamb�m j� teve pensamentos mesquinhos, do tipo �n�o vou pagar porque pode faltar pra mim depois�, e sentiu uma ponta de vergonha aflorar em sua face. Hoje ele sabia que n�o estava preparado ainda e que a maioria das pessoas tamb�m n�o est�, agem desta forma mais por ignor�ncia do que por maldade, pois em muitas delas existe uma vontade sincera de ajudar, s� lhes falta a coragem necess�ria, e isso requer um desprendimento enorme da vida mundana.

Ao pensar nisso tudo, recordou-se de um v�deo que assistiu certa vez, que mostrava uma menina de 13 anos discursando em uma confer�ncia internacional sobre o meio ambiente realizada em seu pa�s. Ela falava sobre o absurdo que era os pa�ses ricos e desenvolvidos n�o ajudarem os pa�ses miser�veis, apesar de terem recursos de sobra, tanto financeiros quanto naturais. Argumentava com a autoridade de um especialista no assunto, contou que ficou chocada quando se deparou com crian�as que viviam nas ruas, algo que n�o existia no lugar onde morava, e que ao conversar com elas, chegou a recolher depoimentos do tipo �eu queria ser muito rica pra comprar comida e roupa para que nunca mais uma crian�a de rua passasse dificuldade�. Era nitidamente vis�vel o espanto nos rostos dos que acompanhavam a menina que mais parecia um gigante com o seu discurso direto e sincero, e ele se emocionou ao lembrar-se do v�deo. No fim de sua interven��o, a menina pedia para que os adultos fizessem o que sempre pedem �s crian�as, de serem corretos, de n�o brigarem uns com os outros e de serem solid�rios, dizendo ainda que eles n�o eram apenas governantes, mas tamb�m pais, tios e irm�os. Finalizou afirmando que todos n�s faz�amos parte de uma mesma fam�lia e que o mundo era a casa de todos, e que dever�amos trat�-lo com mais respeito agora, sen�o n�o haveria mais tempo de recuper�-lo. Isso ocorrera h� cerca de 20 anos e aquela menina j� tinha a vis�o hol�stica do mundo, algo que n�o estava t�o em voga como em dias atuais. Uma aut�ntica crian�a �ndigo.

����������� Rapidamente tratou de voltar do mundo et�reo dos pensamentos e olhou para as tr�s crian�as que sorriam com gosto, deixando transparecer a felicidade de quem resolve um problema que h� muito necessitava de uma solu��o. Antes de se despedir, ele tentou plantar uma semente naqueles pequenos cora��es:

� Voc�s sabem que n�o � todo dia que ter�o almo�o garantido, portanto aproveitem, pois pelo menos por hoje este problema est� resolvido. Pensem no que poderiam fazer, ao inv�s de ficar pedindo esmolas. Imaginem se de repente n�o seria melhor e mais divertido tentar aprender algo novo, talvez um trabalho art�stico... Quem sabe um de voc�s n�o � um grande desenhista ou pintor? J� tentaram isso? E circo, voc�s gostariam de aprender alguma coisa que se faz no circo? Ser� que um de voc�s n�o � um palha�o muito engra�ado ou um grande malabarista?

Ele fez uma breve pausa e percebeu os olhos brilhando nas pequenas faces risonhas, provavelmente cada um deles estava visualizando todas aquelas op��es para si, viajando no maravilhoso mundo da imagina��o infantil. Aproveitando o momento favor�vel, o mestre continuou: �Mas saibam que tudo isso que lhes falei requer muita disciplina, errar, treinar e acertar, errar, treinar e acertar. Voc�s n�o t�m como fugir disso, e se por acaso est�o pensando em dar uma de malandros, � melhor nem come�ar. Lembrem-se, se tentarem enganar ou trapacear, a �nica pessoa que estar�o enganando ou trapaceando s�o voc�s mesmos. Para serem crian�as espertas e inteligentes, t�m que treinar bastante, e como resultado voc�s v�o ver como � bem mais legal ganhar dinheiro fazendo algo que gosta do que ficar pedindo esmola�. Por fim, afagou aquelas cabecinhas pensantes e seguiu adiante.

Diana tentava imaginar o que lhe aguardava nos pr�ximos minutos, nas horas seguintes, nos dias que estariam por vir, como seria sua vida dali pra frente. Dava asas � sua imagina��o, sua mente ia longe, era agora uma cineasta, v�rios roteiros nasciam e morriam dentro de sua cabe�a, diversas possibilidades e in�meros encaminhamentos foram cogitados para este grande filme chamado vida, por�m fazia quest�o de n�o saber o fim. Ao contr�rio do passado, hoje ela planejava o futuro, mas jamais seria escrava dele novamente. N�o agia mais como se as previs�es fossem certezas absolutas, esperava que se tornassem vis�es. Se estivesse previsto um lindo dia de sol para sua vida e de repente chovesse, ela n�o se limitaria a ficar lamentando, empunharia um guarda-chuva ou vestiria uma capa imperme�vel e seguiria em frente, encarando as �guas do inevit�vel. Os imprevistos n�o eram mais uma trag�dia para Diana, aprendera a contorn�-los e acima de tudo respeit�-los, pois sabia que geralmente eram manifesta��es divinas ou o seu anjo da guarda agindo para proteg�-la; ao inv�s de xingar e amaldi�oar, o seu tom agora era de agradecimento, quando tais coisas aconteciam. Hoje tinha plena consci�ncia que fazia parte de um Todo e que tudo estava interligado, e isso a libertou completamente, tornando sua exist�ncia muito mais leve e tranquila. A vis�o hol�stica do mundo a ajudou a combater seus dem�nios, outrora implantados pela sociedade, e belas noites de sono substitu�ram uma ins�nia implac�vel, h�bitos desnecess�rios deram lugar a uma alimenta��o mais saud�vel, a pregui�a foi exonerada de sua vida em prol de uma disciplina e consequente evolu��o nos corpos f�sico, mental e espiritual. N�o perdia mais tempo com televis�o e coisas corriqueiras, ganhava-o com livros, pesquisas, boa m�sica e um bom papo ao vivo, olho no olho, o que para ela era insubstitu�vel. Esta era a sua terapia e tudo isso esteve diante de si a vida inteira, aguardando por uma atitude. A chave sempre esteve em seu poder, s� bastava atravessar a porta, e ela atravessou...

 

 

Cap�tulo 6

 

Algumas nuvens come�avam a surgir no c�u, por�m nenhum sinal de chuva, apenas uns cirrus vagando bem distante. Estas curiosas forma��es de vapor de �gua ou gelo sempre o encantaram, viver nas nuvens para ele era um imenso prazer. Quando jovem era capaz de ficar horas a fio observando-as, imaginando o momento em que se formaram, se tiveram origem no mar ou em algum rio ou lago, e frequentemente avistava diversas imagens em seus formatos, de rostos expressivos a fant�sticos animais. Hoje ele sabia que aqueles eram seus momentos de medita��o, que inconscientemente j� entrava em contato com uma Energia Maior. Sentia algo especial quando contemplava a natureza, seja observando nuvens, as ondas no mar, os p�ssaros voando, a mata ao redor ou a correnteza de um rio. E quando descobriu que tudo isso fazia parte dele e ele fazia parte disso tudo, que a sua ess�ncia se misturava com a ess�ncia natural do mundo, n�o teve alegria maior em sua vida. Na verdade, n�o foi uma descoberta, foi uma revela��o ou confirma��o de algo que existia desde sempre. E o fato de seu treinamento ter sido efetuado praticamente todo em meio � natureza o deixou super � vontade. Se j� havia um grande respeito, este se tornou rever�ncia; se j� existia amizade, metamorfoseou-se em amor.

Duas e meia da tarde, um per�odo do dia geralmente abafado no lugar onde viviam. Felizmente o clima estava mais ameno que o de costume, tornando a caminhada p�s-almo�o menos penosa; mesmo assim, depois de alguns passos desde que se despediram das crian�as, deram uma parada. Apesar de viver numa cidade que n�o para nunca, ele aprendeu que a pausa ap�s as refei��es � sagrada, especialmente a do almo�o, que � bem no meio do dia e requer um cuidado redobrado. Em diversas culturas isso � bastante respeitado, inclusive em seu pr�prio pa�s h� locais onde este descanso � valorizado e incentivado, e n�o � por acaso que esses lugares possuem uma melhor qualidade de vida. Por isso resolveram gozar a pausa visitando uma pequena livraria de estilo simples, por�m aconchegante.

Entrar em livrarias era sempre um momento extremamente valioso para ele. E n�o era s� a literatura em si, mas todo o ambiente, o cheiro dos livros, na maioria das vezes acompanhado da fragr�ncia de caf� no ar, as cores, a ilumina��o, as pessoas �degustando� as obras. Caminhar por entre estantes e prateleiras com centenas ou milhares de est�rias, pensamentos e opini�es em formas de letras, frases e p�ginas lhe massageava a mente e o esp�rito, era um deleite. Entrava em harmonia com tudo aquilo, sentia que fazia parte da humanidade quando aproveitava o seu tempo em alguma livraria. E a que estavam era bem charmosa, um estreito corredor com prateleiras laterais e pequenas estantes centrais que se abria num sal�o maior ao fundo, onde ficava o Caf�. Tocava uma agrad�vel m�sica ambiente, o que n�o deixava de dar um toque especial � ocasi�o. N�o deixou de observar tamb�m alguns reencontros e sauda��es, e mais uma vez notou que existe uma cortesia mais calorosa nas pessoas que frequentam tais lugares. N�o que elas sejam melhores do que ningu�m, mas parece que h� algo de intr�nseco no h�bito da leitura que torna estes seres humanos com uma predisposi��o maior para harmonizar com os outros. O ar � mais leve dentro de uma livraria ou biblioteca, tinha certeza absoluta disso.

Diana tamb�m adorava a atmosfera das livrarias, ficava encantada no meio de tantas rel�quias. Normalmente eles se separavam, cada um ia visitar uma parte e depois debatiam o que tinham achado interessante, filosofavam sobre autores e obras, era um exerc�cio gostoso de troca de conhecimento e ideias. Assim como ele, Diana n�o gostava muito de caf�, mas admirava bastante o cheiro, volta e meia parava em locais impregnados por aquele aroma delicioso; por�m, o m�ximo que conseguia pedir era um caf� com leite, puro jamais, lhe causava n�useas. Vivia se questionando como esta era uma das bebidas mais consumidas no mundo e j� h� um longo tempo. Tinha amigos que sabiam diferenciar os tipos de caf�, mas pra ela era tudo a mesma coisa, n�o possu�a um paladar t�o agu�ado assim para esse l�quido negro e amargo.

Depois de realizarem a viagem liter�ria habitual, o casal deixou a livraria com aquela rotineira sensa��o de estarem atravessando um portal de volta para o mundo exterior. Caminharam por alguns minutos e avistaram uma via fechada, onde havia uma feira de rua, daquelas que vendem frutas, legumes, verduras etc. Ele sempre achou esses lugares interessant�ssimos, um excelente campo de pesquisa para soci�logos e antrop�logos, por isso avan�ou em dire��o ao formigueiro humano e em poucos instantes era mais um na multid�o.

Os feirantes s�o os melhores vendedores do mundo, n�o tinha d�vidas disso, e ainda por cima entendem muito da psicologia humana, sabem ler as pessoas e o momento certo de atacar com suas promo��es fulminantes e irresist�veis. E olha que eles n�o lidam apenas com iniciantes ou indiv�duos que passam ao acaso, a clientela � formada por exigentes senhoras com anos, d�cadas de experi�ncia, fato que enaltece o talento desses profissionais.

Diana e ele caminhavam calmamente no meio de toda aquela gente, observando as conversas e os entraves disputados por promo��es e pechinchas, al�m das frases de efeito gritadas pelos comerciantes, de dar inveja a muito publicit�rio e profissional de marketing. De repente ele parou, algo subitamente lhe chamara a aten��o.

Quase no meio da feira havia uma barraca com um pequeno aglomerado de pessoas em frente. Parecia uma plateia assistindo um espet�culo, e na medida em que se aproximava, ele constatou que era mais ou menos isso mesmo que acontecia.Finalmente conseguiu avistar a dona daquela linda voz que brindava o p�blico com can��es e poemas sobre seus produtos. Ficou encantado, jamais vira nada parecido, tinha que dar um jeito de falar com ela. Era sempre assim, quando a beleza batia � sua porta em forma de Arte, procurava felicitar e conversar com o canal pelo qual ela se manifestou, neste caso aquela senhora de corpo pequeno e franzino.

A performance durava de dois a tr�s minutos, em seguida o p�blico praticamente se atracava para comprar os produtos e falar com a feirante, como f�s em busca de aut�grafo ou foto com o �dolo. E ela possu�a um carisma incr�vel, atendia todos sempre com um sorriso jovial no rosto e uma energia e vitalidade incr�veis, apesar da idade avan�ada. Desde que ele parou e seus olhos brilharam com a situa��o, Diana percebeu o que viria pela frente. Tamb�m ficou impressionada com o que viu, aquela barraca realmente continha uma luz especial, um o�sis num deserto de berros e polui��o sonora. A maioria das pessoas passava direto, n�o podiam perder o seu tempo com cantorias ou declama��es, �tinham mais o que fazer�. Pensou em como tem gente que vive com pressa, at� mesmo quando n�o � preciso, como tem gente que n�o enxerga o belo, inclusive quando ele est� debaixo do pr�prio nariz. N�o julgava tais pessoas, tamb�m j� fora assim, apenas lamentava o fato, e torcia para que um dia elas tamb�m se libertassem.

Enfim chegou a vez do casal ser atendido pela �artista da feira�, como v�rios fregueses haviam comentado entusiasticamente perto deles. Ele tomou a dianteira: �Mas que belo espet�culo a senhora nos proporcionou, ficamos realmente encantados, meus sinceros aplausos, nunca vi nada parecido�. A senhora sorriu novamente, dessa vez com os l�bios, os olhos e a face inteira: �Muito obrigado meu jovem, sinto que foi sincero comigo, vejo como aprecia a beleza�, disse a senhora, virando ao fim da frase para Diana, que retribuiu o elogio com um sorriso encabulado.�Algo me diz que est�o vivendo um dia muito especial hoje�, finalizou. Era o que ele precisava ouvir para confirmar sua intui��o, tinha sido atra�do � feira com o prop�sito de encontrar aquela misteriosa mulher.

� N�o queremos tomar o seu tempo, por isso gostar�amos de lhe convidar para tomar um caf� conosco, se a senhora j� n�o tiver nenhum compromisso � disse ele, com uma suavidade na voz que a conquistou.

� Seria um prazer conversar com este lindo casal, desmonto a barraca �s quatro e meia � disse a senhora, aceitando o convite.

Ele ficou um pouco aturdido com o desmontar da barraca, pensou em oferecer ajuda, mas logo percebeu que era tolice, ela j� devia ter tudo esquematizado. Tamb�m ficou com receio de passar por intrometido, limitou-se ent�o a dizer que estariam l� na hora marcada.

Diana estranhamente ficou paralisada durante a breve conversa, como se estivesse hipnotizada. Sentiu algo intenso nos olhos da jovem senhora, era isso, sentia uma energia jovial magn�fica neles. A mistura do olhar penetrante com a voz pac�fica e envolvente provocou nela um encantamento que paralisou suas a��es, a �nica coisa que conseguiu fazer � dar um sorriso, devido ao estado inebriante ao qual se encontrava. Pensou em comentar com o mestre, mas sentiu que de alguma forma ele j� sabia disso. Preferiu continuar calada, absorta em seus pensamentos; algo lhe dizia que a conversa que teriam dentro de instantes seria importante para ela.

Resolveram ent�o continuar explorando a feira, passando o tempo antes do encontro marcado. Batatas, cenouras, alfaces, lim�es, tomates, laranjas, melancias, peixes, frangos, doces caseiros, havia de tudo num festival de cores e aromas. Era um dos pouqu�ssimos momentos de sentir o campo na cidade, quem tivesse a imagina��o mais f�rtil podia fantasiar que caminhava em alguma horta ou s�tio ou fazenda. Pessoas, alimentos e com�rcio � moda antiga, as casas tombadas pelo patrim�nio hist�rico ajudavam a ludibriar os sentidos. Em meio ao barulho de pessoas falando alto e continuamente, ele fora transportado para uma �poca anterior bastante familiar, que j� tinha visitado em sonhos e vis�es. Tinha a n�tida impress�o de j� ter vivenciado aquelas cenas antes, num tempo diferente, e no fundo sabia que n�o era s� impress�o. Por�m a sua viagem pelo tempo foi interrompida por uma fatalidade atemporal, tinham levado a bolsa de sua disc�pula. Diana instintivamente come�ou a gritar �pega ladr�o�, mas sua voz era abafada pelo barulho ensurdecedor de sirene, uma ambul�ncia atravessava a rua naquele momento. O mestre apenas ficou olhando fixamente para o garoto que corria velozmente e metros adiante o gatuno escorregou e caiu. Alguns comerciantes o cercaram e segundos depois Diana chegou para recuperar seus pertences. Uns perguntaram se queria que chamasse a pol�cia e outros mais exaltados amea�avam linchar o garoto, mas ela disse que n�o havia necessidade de nada. Agradeceu a preocupa��o e deu meia volta, pegando o delinquente pelo bra�o e sussurrando em seu ouvido: �Voc� vai tomar um caf� conosco�.

O incidente n�o atrasou o encontro, na hora marcada os tr�s estavam diante da barraca da senhora, que terminava de guardar seus produtos; ela olhou para o garoto e achou gra�a dele estar ali tamb�m. Pouco depois estavam todos sentados � mesa de uma confeitaria na rua ao lado. O garoto obviamente chamou a aten��o dos que trabalhavam no local, mas ningu�m interveio pedindo que ele se retirasse, como ocorrera no restaurante mais cedo. Os funcion�rios olhavam para o garoto e em seguida encaminhavam um olhar questionador � senhora, que quase que telepaticamente dizia a eles que estava tudo bem.

A confeitaria tinha um estilo colonial, com belas pilastras em tom pastel sustentando o teto, e um lindo som de piano tornava o ambiente ainda mais leve e agrad�vel. O gar�om foi at� a mesa, voltando-se para a dama mais idosa: �Boa tarde Madame Aine, gostaria de algo diferente hoje ou o de sempre?�. Automaticamente todos se viraram para a senhora, que n�o demorou em responder. �O de sempre Augusto, por favor, e para meus convidados tamb�m�. Diana ficou se perguntando de onde conhecia aquele nome, n�o era comum, mas j� tinha ouvido ou lido em algum lugar. Depois de um r�pido esfor�o de mem�ria, conseguiu lembrar: assim como o seu, Aine tamb�m era nome de divindade, uma deusa celta, e ela nutria certa admira��o e respeito por essa rica civiliza��o e sua cultura � prazer, alegria, esplendor, estes eram alguns dos significados do nome.