Um Homem que Promete por Adele Ashworth - Versão HTML

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Um homem que promete

Adele

Ashworth

Um homem que promete

Disponibilização e Tradução: Rachael Moraes

Revisora Inicial: Vania Gusmão

Revisora Final: Lu Machado

Formatação: Rachael Moraes

Logo/Arte: Suzana Pandora

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Um homem que promete

Adele

Ashworth

Resumo:

À margem de ser uma das mulheres mais belas da França de 1849, a melhor

virtude de Madeleine DuMais é sua inteligência… que põe ao serviço da espionagem

britânica. Quando seus serviços são requeridos no sul da Inglaterra para desmantelar

uma trama de contrabando, Madeleine não duvida em arriscar sua vida pela coroa

britânica.

Ao chegar ao pitoresco povo, chamado Winter Garden, Madeleine conhece

quem será seu companheiro na luta secreta: Thomas Blackwood, um homem diferente

a qualquer que tenha conhecido antes. Sua Competência, sua atitude silenciosa e o

mistério que o rodeia acendem o desejo do Madeleine, que prende e prende até

chegar ao vermelho vivo, até converter-se em um ardor desesperado.

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Capítulo 1

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Sul da Inglaterra, 1849

O gélido vento de finais de novembro lhe açoitou a face e sacudiu as vaporosas

saias do vestido contra suas pernas enquanto Madeleine DuMais desembarcava da

carruagem de aluguel no Winter Garden. A jovem respirou fundo para encher os

pulmões com o vivificante ar vespertino, fechou os olhos durante um momento

enquanto girava o rosto para o sol e se envolvia sob a capa de viagem para proteger-

se desse frio ao que não estava acostumada.

Inglaterra. Por fim tinha retornado a Inglaterra. O aroma dos fogos de lenha dos

lares e dessa terra rica e fértil não se apagou nem de seus sentidos nem de suas

lembranças. O sussurro das árvores e o repico dos cascos dos cavalos com o passar do

caminho de cascalho que serpenteava através do povo despertavam tenras

lembranças referentes à família, ao lugar ao que pertencia. Esse era o país de seu pai

(embora também gostasse de considerá-lo o seu) e, de ter podido escolher qualquer

lugar do mundo para viver, teria se instalado ali para o resto de seus dias.

Por desgraça, era francesa, e a vida não era tão singela.

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Quando fez um gesto com a cabeça ao chofer, este deixou suas coisas (um par

de baús, nada mais) junto a ela a um lado do caminho, e depois retornou ao seu

assento para dirigir-se a seguinte parada. O homem não tinha podido aproximar-se

mais a casa com a carruagem devido à estreiteza do atalho, e posto que ela não

pudesse as levar sem ajuda, suas posses teriam que ficar onde estavam. Não

importava. Os baús estavam fechados com chave e Thomas Blackwood, seu novo

colega e um homem ao que logo conheceria, poderia ir buscá-los em questão de

minutos.

As instruções que tinha recebido no dia anterior eram muito claras. Durante as

semanas seguintes trabalharia e viveria na parte sul da cidade, na última casinha da

direita: Hope Cottage. De onde se encontrava nesse momento, podia ver a cerca que

rodeava a propriedade, uma estrutura que lhe chegaria à altura da cintura e que

estava pintada da cor dos narcisos na primavera. Madeleine colocou o folgado capuz

sobre a cabeça e colocou as mechas de cabelo que o vento lhe tinha soltado sob o

couro escuro. Depois de sujeitar o pescoço da capa na nuca com uma das mãos,

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utilizou a outra para elevar as saias e recolher a pequena bolsa de viagem antes de

começar a avançar pelo Farrset Lane.

Essa missão tinha sido toda uma surpresa para ela. Não tinha deixado de se

fazer perguntas a respeito desde que recebeu a mensagem urgente de sir Riley Liddle,

seu superior imediato, dez dias antes. Dita mensagem não dava nenhum detalhe, tão

somente dizia: « Necessitam-lhe em casa. “Vêem rápido”, e só ». E o tinha feito sem

pigarrear, porque para falar a verdade lhe vinha bem qualquer desculpa para voltar

para a Inglaterra; mas sobre tudo porque nisso consistia seu trabalho, e seu trabalho

era quão único tinha, quão único apreciava no mundo.

Não obstante, sir Riley não tinha acrescentado muito à limitada informação que

ela já conhecia. Tinha passado muito pouco tempo com ele em Londres no dia anterior,

já que não se descobriu nada além de certos rumores a respeito de uma estranha

operação de contrabando que ou estava se realizando nesse diminuto e encantador

lugar de retiro invernal, ou utilizava o povoado como rota de passagem. Curiosamente,

o contrabando era sua especialidade, e essa era a razão pela que seus superiores a

tinham escolhido para colaborar na investigação. Também era bastante provável que

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necessitassem a uma mulher para o trabalho, já que enviar outro homem poderia ter

resultado estranho, ou inclusive suspeito, para os habitantes da cidade. A identidade

que tinha assumido o senhor Blackwood, a de um licenciado retirado, correria menos

perigo se ela fingia ser sua acompanhante ou sua enfermeira… ou qualquer outra

ocupação verossímil. Deixaria a decisão em mãos do homem, e lhe proporcionaria os

detalhes que necessitava. Estava ansiosa por conhecê-lo, e não demoraria muito em

fazê-lo.

Madeleine, com seu aspecto mundano, sofisticado e elegante, trabalhava como

espião para o governo britânico. Levava exercendo como tal quase sete anos, e se

dava extraordinariamente bem. Não havia muitas pessoas que reunissem suas

características, e sabia muito bem. Isso também a convertia em alguém muito valioso.

Parisiense de nascimento estava acostumada a trabalhar para a Inglaterra da singular

cidade da Marsella, onde tinha sua residência atual. Sua falsa identidade como a

jovem viúva do mítico Georges DuMais (um comerciante de chá perdido nos mares)

era aceita por todos os que a conheciam. Seu trabalho estava relacionado com

distintos assuntos, embora a maioria das vezes consistisse em revelar os segredos,

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tanto locais como nacionais, do vasto e freqüentemente perigosos reino do

contrabando. Os altos cargos do governo inglês a tinham instalado em uma bonita

casa, perto do centro da cidade mediterrânea em que mais a necessitava, e de ali

enviava toda a informação pertinente sir Riley. É obvio, essa missão na Inglaterra era

um acontecimento sem precedentes para ela, tanto pela escassa informação referente

aos incidentes que lhe tinham proporcionado como pelo fato de que nunca antes tinha

posto a prova suas habilidades fora da França.

Sabia muito pouco sobre esse povo, Winter Garden. Estava localizado a uns

quantos quilômetros da cidade costeira do Portsmouth, aninhado entre as pequenas

colinas que o rodeavam por todos os lados e que o protegiam em certa medida do frio

invernal. A vegetação exuberante e as temperaturas suaves que mantinha durante

todo o ano convertiam essa localidade em um paraíso para a aristocracia inglesa, de

modo que a metade da população estava formada por aqueles membros da classe alta

que viajavam ali somente durante os meses de inverno e o utilizavam como uma

espécie de retiro sazonal. Esse fato em si mesmo era do mais incomum se tinha em

conta a época de dificuldades econômicas que atravessava o país. Ao igual à na

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França, a maioria dos povos ingleses estavam habitados por camponeses, devido a

que as condições de vida eram duras e deprimentes. Entretanto, Winter Garden

gozava de uma reputação diferente e Madeleine entendeu muito bem por que assim

que o viu pela primeira vez. Ali estava rodeada de beleza; a elegância percorria as

ruas. Pese ao frio que fazia, ainda havia alguma planta florida. Jamais nevava no

Winter Garden, ou isso tinha entendido.

Mesmo assim, devia recordar que esse aspecto de serenidade não era mais que

uma ilusão; do contrário, não a teriam enviado ali. Sob a superfície tranquila do povo

fervia um escândalo a ponto de transbordar. E seria ela quem o desentupiria com a

ajuda do Thomas Blackwood, um homem de quem sabia menos que da própria missão.

A única informação que lhe tinham proporcionado sobre ele dizia que era um homem

muito alto, de trinta e nove anos, que tinha trabalhado para o governo os últimos dez e

que levava já várias semanas no Winter Garden, embora ainda não tivesse averiguado

muito sobre atividades ilegais. Tinha solicitado ajuda e o governo lhe tinha enviado

Madeleine.

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Aproximava-se já ao final do atalho quando divisou por fim a casa. A luz do sol

matinal iluminava a fachada do que parecia ser um pequeno edifício de dois andares,

encantado em sua simplicidade e construído a base de limpos tijolos brancos. As

portinhas amarelas para combinar com o portão, estavam abertas para permitir que os

raios de sol penetrassem no interior através das grandes janelas chanfradas. As

jardineiras vazias, pintadas em distintos tons de rosa e azul, eram os únicos motivos

de decoração, além das lilases e as letárgicas roseiras que rodeavam a propriedade,

avisos constantes da cálida primavera que estava por chegar.

Madeleine tirou o ferrolho da porta da grade e seguiu o atalho de pedra até o

alpendre, parcialmente coberto por uma grade de hera. Deixou a bolsa de viagem no

chão a seu lado, chamou um par de vezes à porta principal e deu um passo atrás para

comprovar seu aspecto e alisar as saias enquanto sacudia a capa com a palma da

mão. Era uma estupidez preocupar-se por isso ali, pensou; mas sua aparência tinha

sido a maior de suas vantagens, e queria causar uma boa impressão ao homem em

cuja companhia teria que passar bastante tempo.

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Esperou uns momentos, mas ninguém abriu a porta, nem algum serviçal criado

nem o próprio senhor Blackwood; isso há deixou um pouco desconcertada, já que

sabia que a esperavam. Um instante depois escutou os estalos apagados de alguém

que cortava lenha detrás da casa. Deixou a bolsa no alpendre, levantou as saias até os

tornozelos e baixou com muito cuidado até a grama com a intenção de seguir os sons.

Toda a propriedade estava rodeada por altos pinheiros que protegiam sua

intimidade dos possíveis olhares indiscretos dos vizinhos. As lilases cresciam junto às

paredes de tijolo da casa. Quando dobrou a esquina, deu-se conta de que tanto o

jardim como a horta tinham sido arrumados recentemente e aguardavam,

adormecidos a chegada da próxima estação. Era um lugar solitário e encantador, com

extensas zonas que serviam como refúgio do calor no verão e das gélidas rajadas de

vento no inverno; umas zonas especialmente desenhadas para afastar-se um pouco

das pesadas cargas da vida diária.

Foi então quando viu o homem.

Madeleine se deteve em seco e o contemplou com a boca aberta.

Compreendeu imediatamente que essa era uma reação ridícula por sua parte. Não

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obstante, e face às muitas e variadas experiências de sua vida, jamais tinha conhecido

a alguém semelhante. Os vividos pensamentos sexuais que a alagaram de repente a

deixaram completamente aniquilada.

O homem se encontrava junto ao limite posterior da propriedade, a menos de

três metros de distância. De costas a ela, nu da cintura para cima e com as pernas

ligeiramente separadas, elevou o machado com aparente facilidade para descarregá-lo

sobre os arbustos em um intento por desfazer-se das ervas daninhas. Era muito alto,

com músculos que ressaltavam em seus amplos ombros, seus esculpidos braços, a

ambos os lados da coluna e na esbelta cintura, que desaparecia sob umas calças

ajustadas negras rematadas por botas altas de couro. A julgar pelo brilho do sol que se

refletia em seus ombros, era evidente que estava suando a causa do exercício; e

embora ali fora fizesse bastante frio para converter o fôlego em geada, ele não

pareceu notar o gélido ar outonal quando se agachou para agarrar uma rebelde planta

com uma de suas enormes mãos enquanto cortava a base com a outra.

A palavra «grande» não bastava para descrevê-lo, foi à primeira coerência que

ocorreu ao Madeleine quando recuperou o controle de si mesma. Sir Riley ficou

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bastante curto em sua descrição, algo que parecia fazer com muita freqüência e sobre

o que teria que discutir com ele. Ou talvez sir Riley não tivesse acreditado necessário

esclarecer que «grande» significava forte, alto e musculoso; e não gordo, como ela

tinha imaginado. Vendo suas musculosas costas, ninguém diria que esse homem era

um intelectual de trinta e nove anos.

Uma rajada de brisa jogou-lhe sobre os olhos o suave cós de couro de seu

capuz. Madeleine elevou a mão para colocar-lhe e foi nesse preciso instante quando o

homem se precaveu de que estava detrás dele.

Ficou rígido, com o machado no alto. Ato seguido deixou que o cabo se

deslizasse entre seus dedos e que a folha descansasse sobre seu punho. Respirou

fundo e elevou o rosto para o pôr-do-sol. Transcorreram cinco segundos. Dez. Depois,

girou a cabeça para um lado e ela pôde observar seu perfil enquanto lhe falava por

cima do ombro.

—Levava muito tempo esperando-a, Madeleine — disse por cima do ombro.

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Sua voz, suave e profunda, parecia expressar uma espécie de… desejo poético.

Suas palavras, em troca, só expressavam a irritação que lhe causava que tivesse

chegado tarde.

—Senhor Blackwood — replicou ela com serenidade, embora tivesse as mãos

entrelaçadas e apertava os dedos com força.

O homem se endireitou e se girou para ela muito, muito devagar.

Seus olhos, da cor do mel e emoldurados por abundantes cílios, estudaram-na

com atenção. Entretanto, foi à visão de seu rosto e de seu impressionante porte o que

a deixou sem fôlego. Madeleine não o teria qualificado como bonito no sentido

clássico. De fato, não o era. Era brutalmente atrativo.

Sua pele bronzeada brilhava a causa do suor; seu cabelo, abundante e quase

negro, caía em suaves ondas sobre as orelhas e o pescoço. Em seu rosto recém

barbeado, que tinha uma estrutura óssea perfeitamente proporcionada em ângulos

fortes e pronunciado, chamava a atenção uma cicatriz vertical de uns cinco

centímetros que chegava justo até a comissura direita de sua formosa e bem definida

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boca. Esse homem parecia um guerreiro valente e indômito, e as amostras de sua

soberba virilidade eram tão claras como os sinais de fumaça em um dia espaçoso.

Não obstante, o que a fez sentir-se incômoda em sua presença não foi sua

descomunal estatura, a não ser a imediata e explícita indiferença que mostrou por

seus encantos femininos. Não estava acostumada a isso. O homem que tinha diante se

limitava a olhá-la aos olhos sem pestanejar. Não observou sua figura, nem jogou

sequer uma olhada a seus peitos. Cravou esse olhar enfeitiçador nela, dentro dela,

com uma expressão indecifrável em seus traços fortes, duros e cinzelados. Um olhar

hipnotizador. Sem poder evitar Madeleine estremeceu.

Passou um comprido instante sem que ocorresse nada. Não se disseram mais

palavras nem se expressou nenhum outro pensamento. Depois, por fim, o homem

baixou a vista e deixou o martelo no chão, a seu lado.

—Esperava-a ao meio-dia.

Ela recuperou a compostura ao ver que parecia de mais bom humor.

—O trem saiu tarde da cidade esta manhã, e perdi a primeira carruagem.

Acabo de chegar — umedeceu os lábios. — É um povoado encantador. — Vá um

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comentário mais ridículo… Era uma profissional e estava ali para trabalhar com esse

homem. Um pouco bastante singelo e, entretanto, esse homem a posto nervoso.

Ele estirou o braço para agarrar a camisa branca de algodão que pendurava do

ramo de uma árvore, e a passou pela cabeça para cobrir o corpo coberto de suor.

Incapaz de apartar o olhar, Madeleine observou seus movimentos e se fixou no pêlo

úmido de seu peito, que brilhou a luz do sol quando os músculos de seu torso se

flexionaram.

—Tem um acento marcado — assinalou-o, ressaltando o obvio.

Ela esteve a ponto de sorrir.

—Mas falo seu idioma à perfeição.

—Sem dúvida — O homem estudou com atenção seus lábios. — Uma

combinação que pode resultar da mais sedutora.

Madeleine começou a mover-se com nervosismo. Era a primeira vez em sua

vida que uma insinuação, por mais rouca e deliberada que fosse, conseguia que se

sentisse incômoda.

O homem apoiou as mãos nos quadris e a olhou nos olhos uma vez mais.

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—Isso poderia nos servir de ajuda.

Primeiro um comentário sugestivo e depois outro do mais franco… Madeleine

se limitou a piscar, incapaz de formular uma réplica adequada. Não obstante, esse

homem não se moveu de onde estava não tinha respondido a suas perguntas e,

embora parecesse bastante sincero, estava claro que não se sentia atraído por ela no

sentido físico. E não estava segura de se isso a incomodava ou não.

Deu um passo para ele.

—Senhor Blackwood…

—Thomas.

Ela se deteve e assentiu com a cabeça.

—Thomas, importaria-lhe recolher meus baús? So trouxe dois, mas o chofer não

pôde aproximar-se mais a casa e tive que deixá-los ao lado do caminho.

Os sombrios traços de seu rosto se contraíram o suficiente para que ela notasse

sua indecisão. Ou acaso era chateio? Não estava segura. De ter tido que escolher uma

palavra para descrevê-lo, esta teria sido «poderoso», e essa força mais que evidente

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lhe permitiria conduzir seus pertences sem nenhuma dificuldade. Contudo, parecia

resistente a fazê-lo.

Recolheu o machado do chão uma vez mais. Depois, com um único movimento

da mão, cravou-a na terra que havia a seus pés.

—Irei por eles — disse com um tom reservado. — Depois, entraremos na casa e

falaremos.

—Obrigado — O radiante sol banhava suas bochechas com uma luminosidade

enganosa, mas o vento gélido que uivava a seu redor lhe introduzia pela nuca e por

debaixo das saias. Ia ser um inverno muito frio, tanto no interior dessa casinha como

fora dela.

Thomas a olhou de novo aos olhos antes de dar uns quantos passos para ela e

foi então quando Madeleine compreendeu a perfeição por que se mostrava resistente.

Sua pronunciada claudicação a surpreendeu tanto que era provável que ele

desse-se conta. Ou que o esperasse. A primeira vista, não parecia causada por uma

ferida recente em vias de cura. Thomas favorecia sua perna direita, embora ambas

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parecessem afetadas. Por sua forma de mover-se, deduziu que se tratava de uma

antiga lesão que teria deixado cicatrizes.

—Thomas…

Ele se deteve imediatamente para interrompê-la, mas não encarou seu olhar.

—Não passa nada, Madeleine — replicou em um rouco sussurro.

Ato seguido passou tão perto dela que Madeleine sentiu o calor de seu corpo e

se apartou instintivamente a um lado. Ele prosseguiu sua marcha sem prestar atenção

à incomum preocupação que ela mostrava por sua condição física e dobrou a esquina

para dirigir-se ao caminho principal.

Madeleine, que se orgulhava de seu aprumo e sua atenção constante aos

detalhes, ficou profundamente envergonhada nessa conversa. Muito mais que ele,

pensou. As reações que tinha mostrado ante esse homem não eram próprias dela e,

pelo geral, jamais colocava a pata com tão pouco tato. Seu primeiro encontro tinha

sido muito estranho. E, quanto mais o pensava, mais lhe incomodava que sir Riley não

lhe tivesse mencionado que seu novo colega de trabalho estava descapacitado. Sem

dúvida, deveria ter sabido.

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Com os ombros erguidos e as bochechas ardendo, voltou sobre seus passos e

atravessou a erva antes de seguir o flanco da casa. Thomas não tinha esperado a que

o seguisse, e já tinha desaparecido da vista pelo caminho principal. Madeleine se

dirigiu para o alpendre e aguardou em silêncio, com as mãos entrelaçadas junto ao

regaço. Negava-se a observar como esse homem lhe trazia as coisas, embora sentisse

uma inexplicável necessidade de fazer isso mesmo… e não porque a intrigassem suas

lesões, mas sim porque a intrigava todo o resto.

Um minuto mais tarde escutou seus passos irregulares sobre o cascalho.

Thomas apareceu de entre as árvores que flanqueavam o caminho instante depois;

levava os baús nas mãos, um em cima do outro, como se não pesassem mais que um

par de quilogramas. Uma força extraordinária, sem lugar a dúvidas.

Madeleine desviou o olhar por volta das grades recém pintadas quando ele

atravessou a porta da grade e entrou no atalho de pedra.

—Abre-me a porta? — pediu-lhe com uma voz firme que carecia de todo sinal

de esgotamento.

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Pelo amor de Deus, que diabos estava acontecendo? Já deveria a ter aberto.

Não desejava começar sua relação trabalhista dando a entender que era uma

francesinha estúpida e atordoada. Sem dúvida, ele já estaria questionando suas

habilidades.

Obrigou-se a mostrar um aprumo que não sentia absolutamente e agarrou a

bolsa de viagem com uma mão enquanto girava o trinco com a outra. Quando a porta

se abriu com suavidade, fez-se a um lado a toda pressa para lhe permitir o passo.

Quando o seguiu para o interior da casinha, deu-se conta a simples vista de que

o edifício era muito mais espaçoso do que parecia no lado de fora. Deixou atrás o

pequeno saguão, vazio salvo por um cabide de parede de latão, e entrou na sala de

estar, que estava decorada em tons verdes e marrons e que conforme parecia era a

única estadia de lazer. No centro, de casa à chaminé situada na parede oeste, havia

um rústico sofá estofado em brocado de uma suave cor verde azulada. Ao lado deste

havia uma única poltrona revestida do mesmo material, com o respaldo alto, um

acolchoado generoso e uma banqueta a jogo justo diante. Não havia quadros sobre o

papel de estampado floral que cobria as paredes, embora as grandes janelas

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ocupassem a maior parte do espaço da parede norte até sua direita. Os chãos de

madeira também careciam de adornos, à exceção de um tapete oval marrom que se

estendia do sofá até a chaminé e que se mantinha em seu lugar graças a uma robusta

embora magnífica mesinha de chá de carvalho. Entre o sofá e a poltrona, em cima de

uma mesa auxiliar muito similar, havia um maravilhoso jogo de xadrez, belamente

esculpido em mármore de cor coral e castanho… a única coisa que havia na estadia, à

exceção de uns quantos vasos de barro e uns poucos livros que demonstravam que ali

vivia alguém.

Uma vez dentro, Thomas dobrou a esquina para a esquerda e seguiu um curto

corredor antes de desaparecer em um quarto que imaginou seria a dela. Madeleine

notou que justo a sua esquerda havia uma estreita escada que subia até o segundo

andar e, baixo ela, ao lado do saguão, havia uma porta que conduzia à cozinha.

Permaneceu em silêncio onde estava, à espera que a convida-se a sentar, embora

soubesse que aquele era já também seu lar.

Era uma casa muito menor que a da Marsella, e não via nenhum servente,

outra das coisas às que se acostumou muito. Na Marsella não tinha mais que uma

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donzela pessoal, a eficiente Marie Camille, quem também se fazia cargo das comidas,

da casa e de seu guarda-roupa. No geral, Marie Camille viajava com ela, mas as

instruções que tinha recebido de sir Riley o tinham impedido nessa ocasião. Teria que

arrumar-se sem ajuda no Winter Garden.

Thomas retornou instantes depois, e teve que se agachar para evitar bater de

frente com a parte superior da porta, posto que sua cabeça chegasse quase até o teto.

Não obstante, parecia fazê-lo sem dar-se conta, já que voltou a cravar o olhar nela

imediatamente.

—O quarto da direita é o seu — explicou suavemente. — Beth Barkley, a filha

do reverendo, vem todo dia para preparar a comida, limpar e recolher a roupa suja.

Pedi-lhe que pusesse lençóis limpos em sua cama esta manhã.

—Bem — Começou a puxar as luvas de couro azul para tirar-lhe por razões que

não entendia muito bem, ainda se sentia incômoda. Seu único consolo era que ele não

parecia dar-se conta do mau gole que estava passando. — E onde dorme você,

Thomas?

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O homem se deteve um metro dela com os braços em jarras, sem encontrar ao

parecer nenhum significado oculto atrás da pergunta.

—Eu escolhi o quarto de cima, assim disporá de toda a intimidade que

necessite. O banheiro está perto de seu dormitório, ao final do corredor. Não temos

banheira, mas na estalagem local não terá que pagar mais que uma ínfima quantidade

para utilizar a sua, e é limpa.

Madeleine tentou esboçar um sorriso e começou a desabotoar a capa.

—Obrigado.

Desejava que ele deixasse de olhá-la com esses olhos duros e escrutinadores,

como se não percebesse quão feminina era e em troca lhe resultasse… era um pouco

contraditório, não? Estava claro que sir Riley lhe havia dito o que devia esperar dela.

Entretanto, parecia estudá-la com atenção em lugar de admirá-la.

—Gostaria de tomar um chá? — perguntou com cortesia, interrompendo seus

pensamentos.

—Sim, por favor — respondeu ela a toda pressa enquanto apartava a capa dos

ombros.

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Sem fazer comentário algum, Thomas estirou o braço para agarrá-la junto com

as luvas, e jogou um olhar rápido a sua figura, embelezada com um singelo vestido de

viagem de musselina azul celeste. Continuando, deu a volta e desapareceu pelo

corredor uma vez mais.

Madeleine repreendeu a si mesma e respirou fundo em um intento por relaxar.

Devia lutar contra o cansaço, contra a dor de cabeça e contra a pressão das cintas que

oprimiam sua cintura desde fazia já dez horas. Precisava manter a mente limpa e

recordar qual era seu objetivo. Estava ali por assuntos governamentais, e também ele.

O que pensasse dela, a impressão que lhe tivesse causado, era irrelevante. Para falar a

verdade, tampouco ela se entendia muito bem no que a ele se referia, nem as reações

que tinha experiente ao vê-lo pela primeira vez. Pelo geral, quando escolhia

companhia masculina preferia cavalheiros de boa família arrumados e sofisticados.

Nunca antes se sentiu atraída pelos homens como Thomas Blackwood, e esse fato em

si mesmo a intrigava.

Escutou o tinido dos pratos na cozinha, mas não se dirigiu para ali. O que

poderia lhe dizer? Tinham um montão de coisas que discutir, certamente, mas se

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sentiria mais cômoda deixando que ele iniciasse a conversa, algo que sem dúvida faria

enquanto tomavam o chá. Além disso, estava muito inquieta para retirar-se a seu

quarto tão cedo.

Em lugar disso, Madeleine entrou na sala de estar. Agradava-lhe a sensação de

amplitude que se respirava na estadia; embora os móveis fossem escuros e as janelas

estavam ao norte e oeste, a sala parecia luminosa e confortável. As brasas da chaminé

estavam a ponto de apagar-se, mas logo se avivariam e se acrescentaria mais carvão

a fim de esquentar a casa para a noite que se aproximava. Por cima do fogo, no

suporte, havia um relógio dourado que marcava quase as quatro, e ao lado se

encontrava o que parecia ser uma caixa de música de madeira. Madeleine se

perguntou se essas coisas, ou qualquer das que se encontravam na sala, eram dele.

Estava claro que o jogo de xadrez sim o era. Não o tinha sabor de ciência certa, mas a

dureza das peças e a solidão que sugeria pareciam encaixar com o que sabia dele.

Deteve-se frente ao tabuleiro, agarrou um cavalo de mármore marrom e o fez

girar entre os dedos. Era pesado, frio e robusto. Sim, o xadrez lhe pertencia.

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Levantou o olhar ao escutar os passos masculinos sobre o chão de madeira.

Thomas entrou na estadia com uma bandeja chapeada que continha um bule de

porcelana, taças e pires a jogo, uma de açúcar e uma terrina de nata. Olhou-a nos

olhos de novo com uma expressão neutra e indecifrável.

Sem deixar de olhá-lo, Madeleine se deixou cair muito devagar no sofá e tentou

sufocar a risada que lhe provocava a imagem que tinha ante si: um enorme semideus

guerreiro, moreno e sensual, com uma bandeja de chá nas mãos, preparado para

servir-lhe pessoalmente. Conseguiu manter-se impassível e lhe formulou uma

pergunta.

—A quem pertence esta casa, Thomas?

Ele arqueou um pouco as sobrancelhas.

—Não estou seguro — Deixou a bandeja na mesinha, agarrou o bule e serviu as

duas xícaras antes de colocar uma diante dela. — Sir Riley só me deu as chaves e a

direção. As poucas coisas que há aqui são minhas, o que trouxe de minha casa. Os

móveis dos dormitórios e da cozinha já estavam aqui quando cheguei.

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Adele

Ashworth

Madeleine alisou as saias e as colocou de forma que ele pudesse tomar assento

na poltrona do lado sem as pisar. Thomas sujeitou o pires e a xícara e se sentou com

certa rigidez.

—Então você não é daqui — comentou com os olhos fixos em seu rosto.

—Sou do Eastleigh, uma localidade há várias horas ao norte daqui — replicou

ele imediatamente e sem afetação. — Vim um par de vezes ao Winter Garden de

férias, embora hajam acontecido seis ou sete anos da última vez que estive aqui. Não

conhecia ninguém quando cheguei esta vez, mas consegui conhecer algumas pessoas

e estabelecer certas amizades durante as últimas semanas.

—Suponho que isso nos será de certa ajuda em nossa missão — respondeu ela

com ar pensativo.

—Mmm…

Produziu-se um incômodo momento de silêncio. Madeleine voltou a jogar uma

olhada à peça de mármore que ainda tinha na mão.

—Joga xadrez, Thomas?

Ele levou a xícara aos lábios e deu um pequeno sorvo do fumegante chá.

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Adele

Ashworth

—Jogo freqüentemente, sim. Ajuda-me a pensar e, em ocasiões, a me relaxar.

Seu tom se fez mais grave ao responder à pergunta pessoal, mas ela decidiu

ignora-lo.

—Nesse caso, suponho que jogará com alguém do povo, não?

Ele guardou silêncio durante tanto tempo que Madeleine se viu obrigada a

voltar a olhá-lo nos olhos. Sua expressão se voltou sombria e intensa quase

imediatamente.

—Jogo sozinho, Madeleine — respondeu com um sussurro grave e rouco. — Faz

bastante tempo que não tenho a ninguém com quem jogar.

Madeleine não tinha a menor ideia de como levar aquilo, mas notou que a

proximidade do homem e a intensidade de seu olhar lhe provocavam uma súbita

quebra de onda de calor. Tinha ideia do sugestivo que resultava essa resposta?

Parecia um comentário íntimo e sensual entre amantes. A Madeleine não cabia a

menor duvida de que, se tivesse dez pessoas mais na sala, ela teria sido a única que

lhe teria encontrado uma conotação erótica para o comentário. Pensaria ele o mesmo?

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Ashworth

Ele se limitou a observá-la com as pálpebras entreabertas e uma leve

expressão desafiante em seus formosos lábios. Madeleine notou que lhe esticavam os

músculos do ventre, mas não podia voltar atrás. Sim. Ele sabia. Era muito consciente

do que havia dito e sabia à perfeição como ela o tinha interpretado.

—Você joga? — perguntou Thomas com uma voz rouca e suave.

Madeleine piscou com rapidez e se endireitou para dirigir o olhar para o

tabuleiro que tinha ao lado antes de colocar com muito cuidado o cavalo de mármore

em seu lugar.

—Sei jogar, mas faz muito que não o faço — admitiu com um acanhamento que

surpreendeu inclusive a ela. — Suponho que você é bom, Thomas.

—Sim eu sou muito bom.

Ela titubeou.

—Está acostumado a… ganhar?

—Até o momento, minhas habilidades nunca me falharam.

Embora nem sequer a havia tocado, sentia as pontadas desse olhar…

descarado, inquisitivo e arrogante.

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Adele

Ashworth

—Acredito que desfrutaria com o desafio — confessou ela em voz baixa ao

tempo que voltava a olhá-lo à face com fingida candura. — Mas você deve saber que

eu também jogo para ganhar.

O homem se acomodou na poltrona e estendeu a perna para apoiá-la sobre a

banqueta que havia diante.

—E o consegue?

—Ganhar?

Ele assentiu com indolência.

Madeleine se moveu com desconforto no sofá e passou a mão úmida sobre a

coxa coberta de musselina.

—Freqüentemente — admitiu com um nó na garganta.

Durante um efêmero instante, pareceu-lhe que Thomas tinha sorrido algo que

até esse momento não lhe tinha visto fazer. Ato seguido levou a xícara aos lábios com

lenta e calculada precisão e deu um comprido sorvo sem apartar os olhos dela.

—Estou seguro de que estará de acordo comigo… — disse uns segundos mais

tarde... — em que quando ambos os competidores têm a oportunidade de ganhar, o

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Ashworth

jogo… resulta muito mais divertido — Fez uma pausa antes de acrescentar em um

suave sussurro. — Acredito que resultaria fascinante observar a expressão de

satisfação de seu rosto quando o consegue, Madeleine.

Não podia acreditar que ele houvesse dito aquilo, e não pôde suportar mais. De

repente, o ambiente da sala lhe pareceu velho, carregado de uma tensão que não

conseguia descrever. Desejou ter um leque à mão, apesar de que estavam quase em

pleno inverno. O calor que sentia provinha de seu interior, e o tinha provocado um

homem que mal conhecia com palavras inocentes cuja conotação sexual era muito

evidente para ambos. E tudo dissimulado em um singelo bate-papo sobre xadrez.

Madeleine estremeceu quando o relógio do suporte marcou as quatro. Apartou

o olhar e estirou a mão rapidamente em busca de seu chá antes de servir o açúcar e a

nata com dedos inusualmente torpes. Fixou-se nos intrincados detalhes das diminutas

tulipas roxas gravados nas delicadas xícaras de porcelana.

—Gostaria de saber algo mais a respeito de nossa missão?

Tremia como um pudim, mas ele parecia ter recuperado de novo seu

comportamento indiferente, quase formal. Era muito bom fazendo isso, pensou

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Madeleine, e estava claro que era um perito na hora de ocultar seus pensamentos,

seus sentimentos e, a bom seguro, suas emoções. Deu-se conta disso imediatamente.

Ela também era boa, mas esse homem parecia lhe levar vantagem no que se referia

recuperar a compostura. Ao menos, ele não se ruborizou como ela, e tinha a certeza

de que esse era um fato que Thomas não tinha passado por cima. Perguntou-se por

um momento se o tinha excitado tanto a conversa como a ela, mas dado que não tinha

forma de averiguá-lo, tratou de não pensar nisso.

—Certamente, por favor — respondeu ao tempo que deixava a colherinha sobre

o prato.

Ele colocou a xícara e o pires sobre a mesa e voltou a reclinar-se na poltrona

antes de apoiar o cotovelo sobre o acolchoado do braço.

—O que é o que sabe já?

Madeleine se encolheu de ombros e se concentrou na xícara de chá fumegante

enquanto a levava aos lábios para dar um pequeno sorvo.

—Só que correm certos rumores sobre atividades contrabandistas que tem

lugar desde ou através do Winter Garden. Nada mais.

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Adele

Ashworth

—O que lhe contou sir Riley sobre mim? — perguntou ele com muita cautela.

Ela o olhou de esguelha através das pestanas e deu outro sorvo ao chá. Os

últimos raios de sol que penetravam através da janela que dava ao oeste iluminavam

seu corpo e seu rosto, destacando a cicatriz da boca. Uma grossa e escura mecha

ondulada caía sobre sua frente, mas ele não parecia notá-lo e permanecia

curiosamente concentrado nela.

Depois de deixar a xícara e o prato sobre a mesa, Madeleine se girou para

enfrentá-lo e entrelaçou as mãos sobre o regaço em um intento por apartar todo

pensamento sexual de sua cabeça. Algo que ao parecer ele já tinha conseguido.

—Só me disse que você era um homem « grande» de trinta e nove anos. E que

levava vivendo aqui várias semanas sem averiguar nada. Comentou que tinha

solicitado ajuda e que seria você quem me proporcionaria todos os detalhes

necessários. Isso é tudo. Logo que estive uns minutos com ele ontem.

—Entendo — Esfregou o queixo com o dorso dos dedos e arranhou a pele com a

barba incipiente. — Sabe o que é o que se está passando de contrabando?

Madeleine arqueou as sobrancelhas.

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—Não, embora suponha que deve ser algo importante ou valioso. Jamais teriam

me pedido que viajasse do sul da França até aqui por um assunto corriqueiro.

—Ópio — revelou com voz firme.

Madeleine se sentiu atravessada por uma gélida e sombria quebra de onda de

emoções que a deixou paralisada. De todas as lembranças infantis que lhe tinham

deixado um amargo rastro, suas experiências com os efeitos do abuso de ópio eram as

que lhe causavam uma maior dor. Mas ele não tinha por que sabê-lo.

—Ópio — repetiu com suavidade. — Como se pode passar de contrabando algo

que é legal e que pode adquirir-se da maneira apropriada?

—Roubando-o antes que seja loteado e distribuído — ficou pensativo enquanto

recolhia a informação necessária para continuar. — Nossas suspeitas começaram faz

dezoito meses, quando nos inteiramos de que estavam desaparecendo pequenos

carregamentos pouco depois de sua chegada ao Portsmouth. O serviço secreto não

iniciou uma investigação imediatamente porque as quantidades roubadas, em um

princípio, não mereciam tal esforço. Entretanto, durante os últimos quatro ou cinco

meses as quantidades roubadas se incrementaram até tal ponto que já não podem

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mais ser ignorados. As perdas são cada vez mais altas. Assim, empreendeu-se uma

investigação oficial, mas depois de umas quantas semanas sem descobrir nada, tomou

a decisão de me enviar aqui para que me integrasse no povo e trabalhasse em

segredo.

Intrigada, Madeleine se inclinou para diante, com os antebraços apoiados sobre

as coxas e as mãos entrelaçadas.

—Acreditam que o ópio se passa de contrabando desde o Winter Garden?

Thomas se aproximou dela por cima do braço da poltrona com os olhos

brilhantes e o rosto tenso.

—O rastro conduz até as imediações do Winter Garden, onde se desvanece. Em

condições normais, já deveríamos ter detectado algum sinal de atividade ou ter

averiguado algo útil graças à vigilância e aos rumores, mas até agora não

conseguimos nada — Entrecerrou os olhos de maneira ardilosa. — Acredito que o ópio

se traz até este lugar porque o povo não está sob suspeita, e uma vez aqui, divide-se e

se transporta para o norte da Inglaterra para sua venda e distribuição. As razões não

estão claras, e não sabemos nada a respeito de seus meios, mas acreditam que quem

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quer que esteja se arriscando a fazê-lo o vende para que seja fumado, e não bebido, e

que ele (ou possivelmente ela) está ganhando uma fortuna vendendo-o a uma

clientela da mais seleta. Acredito também que a operação está dirigida, ou ao menos

organizada, por alguém que tem sua residência permanente aqui, já que os

carregamentos foram recebidos durante os meses do verão. Não obstante, ainda fica

por descobrir quem é essa pessoa e como consegue levar a cabo a distribuição

absolutamente secreta.

Madeleine agarrou de novo a xícara de chá; começava a sentir a suave

incitação da antecipação, como sempre que lhe atribuíam um novo caso.

—Posto que o ópio seja roubado, está claro que a operação resulta muito

lucrativa para o distribuidor — especulou em voz alta ao tempo que observava a mesa

que tinha em frente. — Do contrário, essa pessoa não teria se arriscado tanto; e dado

que não se necessita um investimento inicial, a venda não lhe proporcionará mais que

benefícios. Mas não trabalha sozinha. O processo é muito complicado — Deu um

comprido sorvo de chá. — Está a par dos envios que chegam ao porto, organiza o

roubo e consegue de algum modo que o tragam até aqui; e depois o embarca de novo

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para vendê-lo a aqueles que o necessitam, já seja a um preço econômico ou em troca

de sua discrição. Pode que ambas as coisas. E se seus clientes são viciados e

enriquecidos, os benefícios devem ser muito substanciosos — Voltou a olhá-lo nos

olhos com um brilho intenso no olhar. — Uma operação impressionante. Brilhante.

—E também muito perigosa.

Ela assentiu para mostrar seu acordo.

—Pelo que se deduz que essa pessoa ou é muito arrogante, ou está

desesperada. Algum suspeito?

Thomas se reclinou na poltrona uma vez mais e relaxou enquanto a estudava.

—Tenho dois suspeitos, mas nenhuma prova, e não sei muito bem como as

conseguir. Por essa razão solicitei ajuda.

—Já vejo — Madeleine apoiou os ombros sobre o respaldo acolchoado do sofá e

apurou o conteúdo de sua xícara, que estava ficando frio. — Quais são?

—Lady Claire Childress, uma viúva cujo marido morreu em misteriosas

circunstâncias dois anos atrás, e Richard Sharon, o barão do Rothebury.

Os lábios do Madeleine se curvaram em um sorriso.

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—Uma dama e um barão… dois membros da aristocracia.

—Não acredita que os membros da classe alta possam ser tão estelionatários e

avaros como todos os outros, Madeleine?

Ela sorriu de orelha a orelha ao escutar a pergunta e, pela primeira vez desde

que se conheceram, começou a sentir-se cômoda em sua presença.

—Sei por experiência que podem sê-lo, Thomas. De fato, os membros da

aristocracia tendem a ter uma maior ambição de riquezas (em especial se nasceram

com dinheiro e o perderam de algum modo), já que têm muitas mais oportunidades de

consegui-las. Bem é certo que qualquer pessoa pode comprar láudano por pouco

dinheiro, mas não todos os de boa família desejam que seu vício seja do domínio

público. É muito provável que o contrabandista esteja vendendo o ópio entre os

membros de sua mesma classe social.

Ele inclinou a cabeça para dar a entender que estava de acordo com suas

deduções.

—Isso é exatamente o que eu acredito.

Uma cálida sensação de entendimento se estabeleceu entre eles.

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—Por que esses dois?

Thomas fez uma pausa para meditar.

—Lady Claire é… cruel. Entenderá a que me refiro quando a conhecer. A meu

parecer, está perfeitamente capacitada para dirigir a um grupo de contrabandistas.

Não faz muito que começou a restaurar sua propriedade, embora seus únicos e

escassos ganhos procedam do que lhe deixou seu falecido marido. Não sei de onde tira

o dinheiro necessário para fazê-lo — Franziu os lábios enquanto refletia e depois

acrescentou em voz baixa. — Acredito também que é viciada.

O sorriso desapareceu dos lábios do Madeleine. Desviou o olhar por volta da

mesinha de chá e deixou com delicadeza o pires e a xícara vazia sobre ela enquanto

os pensamentos e as lembranças que durante tanto tempo tinha mantido enterrados

em sua cabeça emergiam com uma intensidade que ela acreditava ter aplacado.

—E o barão? — continuou com voz firme, sem revelar nada.

Thomas baixou a perna da banqueta e plantou ambos os pés no chão para

inclinar-se para diante, com os cotovelos apoiados nos joelhos e os dedos

entrelaçados.

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—O barão é um suspeito mais provável — anunciou antes de apartar por fim o

olhar dela para cravá-lo na chaminé. — Em parte porque é um mistério e tão

escorregadio como uma enguia. Só o vi uma vez. Não lhe caí muito bem, embora não

estou seguro de por que.

—Talvez o intimidasse — ela assinalou, mais a sério que em brincadeira.

—Está claro que Rothebury não se parece em nada a mim — reconheceu com

certo matiz molesto. — É arrumado, encantador e sempre está de bom humor. As

damas o adoram. Tem trinta e dois anos, está solteiro e se considera o melhor partido

do Winter Garden.

Madeleine o observou abertamente.

—Acredita que me enviaram aqui por essa razão, Thomas?

Ele girou a cabeça com rapidez e cravou o olhar nela.

—Não.

A veemência dessa única palavra há pegou um pouco despreparada. Para falar

a verdade, em todos os anos que levava trabalhando para o governo, jamais tinha

utilizado seu corpo como um meio para conseguir informação. Seus encantos sim, mas

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nunca seu corpo. Tinha estado com um bom número de homens, mas nunca para

conseguir nenhum tipo de benefício, já fora pessoal ou profissional. Aliviou-há um

pouco saber que Thomas Blackwood não esperava isso dela, e que inclusive o tinha

incomodado de algum jeito que o mencionasse.

—Está aqui para trabalhar comigo, Madeleine — explicou com frieza. —

Necessito a ajuda de um profissional, e o fato de que seja uma mulher tem duas

vantagens. Em primeiro lugar, poderá avaliar com mais perspicácia lady Claire. Em

segundo lugar, o barão se mostrará mais agradável com você. Paquere se quer fazê-lo,

mas não tem o dever de ir mais à frente. Não vale a pena.

A preocupação que mostrava por ela resultava entristecedora, embora de tudo

desnecessária.

—Sei muito bem como cuidar de mim mesma — afirmou com calma ao tempo

que se endireitava. — Acredito que poderei arrumar isso com o barão.

Ele continuou olhando-há um instante mais e depois voltou a contemplar a

chaminé; ao que parece, não ia discutir esse tema.

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—Pode começar com lady Claire — disse ao fim. — Se conseguimos descartá-la

como suspeita, poderemos concentrar todas nossas energias no barão.

—E você?

—Eu me centrarei na propriedade do Rothebury e em sua casa, e poderei me

aproximar mais a ambos se consigo passar despercebido. Quero averiguar o que é o

que faz, quem o visita regularmente e a que hora.

—Espiá-lo em lugar de entrar em formar parte de sua vida — disse Madeleine

com ar pensativo. — O considera prudente, dadas às circunstâncias?

Os lábios masculinos se curvaram em um leve sorriso.

—Nunca chegamos a ser amigos, se for a isso ao que se refere, de modo que

não posso me aproximar dele desse modo. O barão carece de amigos íntimos e

mantém aos aldeãos a certa distância, salvo quando organiza festas comemorativas às

quais convida a muitos deles. Até agora me mantive em um segundo plano e me

limitei a me familiarizar com a zona e com a gente; mas, posto que agora conto com

sua ajuda, acredito que já podemos intervir e nos expor um enfoque um pouco mais

agressivo.

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Isso era lógico, decidiu Madeleine, embora o risco de ser descoberto sempre era

maior quando se trabalhava nas sombras que quando se fazia mediante uma

confrontação aberta e amistosa.

— Já pensou qual identidade devo adotar?

Ele vacilou o suficiente para que ela compreendesse que o tinha feito, e que se

sentia incômodo a respeito. Isso aguçou sua curiosidade.

—Thomas?

Ele apoiou as mãos nas coxas e ficou em pé com sérias dificuldades; a

Madeleine não lhe passou por cima a careta que se desenhou nas comissuras de seus

lábios nem a rigidez de sua mandíbula. As feridas lhe doíam; possivelmente não muito,

mas lhe doíam.

—Pensei-o muito, Madeleine — replicou em voz baixa enquanto caminhava

muito devagar para o suporte. Cravou o olhar na caixa de música e percorreu as

bordas de madeira com a gema dos dedos. Um instante depois se girou para ela. — E

você?

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Madeleine não tinha esperado que o perguntasse. Tinha imaginado que ele já

teria tudo planejado e estava disposta a aceitar o que lhe dissesse. Entretanto,

Thomas parecia interessado em conhecer sua opinião, e talvez pudessem decidir

juntos.

Enfrentou seu olhar com calma.

—Tinha pensado que poderia ser algo assim como uma ajudante — murmurou

—, mas é você muito… robusto para necessitar ajuda. Agora que o conheço, já não me

parece plausível.

As bochechas masculinas se esticaram em uma careta de diversão.

—Não.

Respondeu-lhe com um pequeno sorriso antes de percorrer seu enorme corpo

de cima abaixo com o olhar. Sua metade superior se encontrava em perfeitas

condições, mas coxeava, uma lesão que sem dúvida os aldeãos teriam advertido.

Poderia apresentar-se como sua enfermeira, embora para falar a verdade não

acreditava que encaixasse muito com o perfil. Mesmo assim, era o melhor que lhe

ocorria.

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—Sua amante? — sugeriu em um grave sussurro.

Não tinha a menor ideia de onde tinha saído aquilo. E tampouco ele. De fato,

parecia atônito.

Madeleine levou uma mão ao pescoço com a esperança de que ele não

advertisse os intensos batimentos do coração que notava sob a gema dos dedos e

rodeou a cintura com o braço livre a modo de amparo. Contudo, não apartou o olhar

de seu rosto.

Ele entrecerrou os olhos e ela sentiu uma vez mais essa estranha atração. A

tensão do ambiente era quase evidente.

—Parece-me que não acreditariam Madeleine — sussurrou com voz rouca,

muito devagar.

Esteve a ponto de perguntar por que, já que lhe parecia perfeitamente

razoável, mas ele lhe adiantou com uma questão muito mais lógica.

—Além disso, isso nos conduziria certos problemas sociais, e devemos estar

livres de compromissos para aceitar outros convites.

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Deveria ter pensado nisso antes de falar. Os rumores de que viviam juntos sem

mais companhia se estenderiam como a pólvora, e a gente ao final suspeitaria que

existia uma relação mais íntima entre eles. Estava claro que ele sim o tinha pensado.

—Tem razão, é obvio — conveio com um pingo de sobressalto. Deixou escapar

um suspiro e seu ânimo decaiu um pouco. — Tem alguma outra ideia, Thomas?

Ele a olhou aos olhos com evidente reticência. Logo soltou um grunhido e

levantou uma mão para esfregar a cara com força.

—Participei da guerra do Ópio, Madeleine — revelou com seriedade. — dali vem

minhas lesões — Se moveu com inquietação sobre o tapete. — Talvez poderia passar

como a tradutora de minhas memórias.

Madeleine se sentiu invadida por uma quebra de onda de compaixão.

Compreendia a perfeição a dor que provocava um passado que jamais poderia mudar.

Era evidente que ele não tinha desejado lhe dizer que tinha lutado em uma

guerra de méritos questionáveis nem que tinha recebido feridas que o deixaram

incapacitado. E a guerra do Ópio tinha terminado seis anos atrás, o que significava que

se suas pernas não se curaram a essas alturas, teria que viver com esse sofrimento

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durante o resto de sua vida. Trágico, embora ele tinha seguido em frente depois das

desgraças, ao igual a ela.

—Para falar a verdade, não tem muita pinta de tradutora — continuou ao ver

que ela não fazia comentário algum—, mas não me ocorre nada melhor. Certamente é

melhor que fazer-se passar por minha ajudante, e é mais provável que acreditem.

Tem razão, pensou Madeleine enquanto enlaçava as mãos às costas presa de

uma crescente confusão. Não pareço nem uma ajudante nem uma tradutora. Pareço

uma amante. Por que não percebe isso, Thomas?

—Estou de acordo em que é o mais razoável de tudo e em que será o bastante

convincente — comentou em voz alta com certa sensação de derrota. — Serei sua

tradutora francesa.

Thomas se encontrava a um metro escasso dela; quão único os separava era a

mesinha de chá. Ele estudou sua expressão em silencio durante um momento e depois

baixou o olhar muito devagar até seus peitos, atrasando-se ali o tempo suficiente para

que ela se sentisse acalorada por causa da carícia visual.

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—Deve estar faminta — disse de repente. — irei ver o que preparou Beth, e

jantaremos logo — Sem mais comentários, deu a volta e se afastou em direção à

cozinha.

Madeleine observou suas costas até que desapareceu de sua vista e só então

se permitiu um enorme sorriso de satisfação. Se ela albergava alguma dúvida sobre se

tinha interpretado mal as insinuações sexuais anteriores, já havia desaparecido. Por

fim tinha ficado claro que ele a via como uma mulher.

O vento tinha adquirido tal intensidade que os ramos das árvores arranhavam

as paredes de tijolo da casa e as portinhas golpeavam contra as janelas. Thomas era

alheio a tudo isso.

Jazia convexo de costas sobre a cama, nu sob os lençóis, e tinha colocado as

mãos detrás da cabeça enquanto contemplava o teto com o olhar perdido. Levava

nessa posição perto de uma hora, muito inquieto para relaxar, muito concentrado para

mover-se. O mais provável era que ela já estava dormindo, já que lhe tinha parecido

muito cansada durante o jantar e logo que tinha comido. Tinham falado de

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trivialidades: de seu lar na Marsella, de sua viagem à Inglaterra, das diferenças

climáticas entre ambos os países… Depois lhe tinha dado boa noite e se retirou ao seu

quarto a descansar. Ele tinha ficado sentado frente ao fogo durante um bom momento,

escutando seus passos no dormitório, imaginando como esses dedos de unhas

perfeitas desabotoavam os botões do vestido e como se deslizavam as anáguas por

esse comprido e esbelto corpo. Tinha escutado os rangidos da cama quando se deitou

sobre ela. Perguntou-se o que tinha colocado para dormir, se usava algo; se teria

trançado o cabelo ou se o levava solto; se jazia estirada entre os lençóis, como se

esperasse a um homem, ou aconchegada para proteger-se do frio, como uma gatinha

em busca de carícias.

Deus, que formosa era… Embora isso já sabia antes que chegasse; de fato,

sabia muito mais sobre ela que ela sobre ele. Madeleine Bilodeau nasceu vinte e nove

anos atrás; era a filha ilegítima do capitão Frederick Stevens, da Marinha Real

britânica, e da Eleanora Bilodeau, uma atriz francesa sem muito talento e viciada no

ópio. Converteu-se em espiã do governo britânico a pedido próprio, embora os

incrédulos ingleses não a tinham aceitado como tal até que conseguiu evitar a fuga de

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dois prisioneiros políticos franceses informando sir Riley antes que se levasse a cabo.

Ao longo dos anos, tinha demonstrado sua valia com acréscimo. Na Inglaterra era

admirada por todos aqueles que a conheciam; na Marsella, adoravam-na; e no resto do

continente a considerava uma das grandes belezas da época.

Não sabia quanto tempo ficou detrás dele no jardim essa tarde antes que se

precavesse de sua presença. Ficou observando-o, disso estava seguro. A brisa tinha

levado seu aroma até ele e o tinha misturado com essa particular essência própria da

mulher, e isso tinha bastado para excitá-lo e fazer que seu coração pulsasse

desbocado. Tinha demorado uns instantes em recuperar o controle necessário para

poder olhá-la. Quando reuniu por fim as forças necessárias para fazê-lo, ela o

enfeitiçou imediatamente com esse lustroso cabelo castanho recolhido em grosas

tranças ao redor das orelhas; esse rosto em forma de coração que mostrava uma

expressão interrogante; e essa pele de alabastro que parecia suplicar suas carícias. E

esses olhos… Uns olhos azuis que faziam pedacinhos toda resolução e que de algum

modo eram seus traços mais sensuais. Uns olhos capazes de rasgar e ferir

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profundamente, ou de derreter a um homem quando brilhavam com excitação ou

esperança.

Sim, havia-se sentido atraído por ela imediatamente, como lhe teria ocorrido a

qualquer outro homem. E essa conversa sobre xadrez, pelo amor de Deus! Como tinha

começado isso?

Deixou escapar um comprido e lento suspiro antes de girar-se por fim para um

lado e colocar o braço sob o travesseiro. Contemplou as árvores que se balançavam

junto à parede iluminada pela lua. Embora não tinha intenção de mostrar-se tão audaz

com ela, Madeleine tinha percebido seu estado de ânimo e tinha sido o bastante

perspicaz para captar o significado oculto atrás de suas palavras. Sabia que ela perdeu

a virgindade há muitos anos atrás e que passou tempo em companhia de outros

homens muito mais encantadores e atentos que ele; homens muito mais excitantes e

merecedores de uma beleza como a sua. Mas respondeu a suas insinuações sexuais e

o olhou com uma desconcertada fascinação que não pode ocultar; e depois avaliou sua

reação, excitando-o sem propor-lhe obtendo que seu corpo sucumbisse a esse

delicioso palpitar que não experimentou em anos.

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Sentia-se atraída por ele. Sabia, e esse conhecimento o enchia de deleite e de

assombro. Madeleine DuMais, a beldade da França, a menina bonita do governo

britânico, a mulher inteligente, refinada e cativante que se sentou frente a ele durante

o jantar e lambeu o mel dos dedos com tanta sensualidade, sentia-se atraída por ele.

Por ele: Thomas Blackwood, um homem comum; Thomas Blackwood, o enorme e

imponente ermitão; Thomas Blackwood, o aleijado.

Sentia-se atraída por ele.

Com um sorriso, Thomas fechou os olhos e, pela primeira vez em muitos anos,

caiu em um sonho profundo e reparador sem dores no corpo, sem sede na alma e sem

feridas no coração.

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Ashworth

Capítulo 2

Madeleine despertou péssima. Doía-lhe a cabeça, tinha o nariz entupido, sentia

o corpo congelado e, por uns instantes, custou-lhe bastante trabalho recordar onde se

encontrava. Talvez sua confusão momentânea se devesse à escuridão absoluta que

reinava no quarto e que a casa parecia presa de um silêncio sobrenatural. O uivo do

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Um homem que promete

Adele

Ashworth

vento tinha cessado em algum momento durante a noite e a diferença do que ocorria

em sua cálida casa da Marsella, onde sempre escutava o som do tráfico sob a janela

de seu quarto, ali só ouvia os rangidos da casa sobre a terra úmida.

Devia estar no meio da amanhã, embora em realidade não tinha a menor idéia

da hora que era, já que com o céu nublado não conseguia divisar a janela do

dormitório. Enjoe Camille estava acostumada a despertá-la às sete se ela ainda não

houvesse levantado. Mas ali ninguém iria desperta-lá, e Thomas jamais se atreveria a

entrar em seu quarto.

No momento em que pisou em chão britânico três dias atrás não tinha disposto

de muito tempo para meditar sobre sua situação imediata nem sobre o que a rodeava.

Estava na Inglaterra, e basicamente sozinha. Embora estava acostumada à solidão,

durante os últimos anos tinha passado muito tempo em companhia de outros, embora

bem era certo que somente porque seu trabalho assim o tinha exigido. Em seu país

era popular em diferentes círculos sociais, o que garantia muitos convites para a

respeitável viúva do DuMais, conhecida por muitos e amiga de uns poucos… nenhum

dos quais sabia o profundo ódio que albergava por sua herança francesa e pela

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Um homem que promete

Adele

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infância de servidão que se viu obrigada a suportar nas mãos de uma mãe ignorante e

desconsiderada. Entretanto, agora essa vida lhe parecia muito longínqua.

Na Inglaterra ninguém a conhecia, o qual, pensando bem, poderia ser tanto um

inconveniente como uma vantagem nas semanas vindouras. Poderia criar seu próprio

personagem e converter-se no tipo de pessoa que escolhesse ser, utilizar seus

encantos ou ocultá-los. Não obstante, era uma profissional, e seria exatamente quem

deveria ser a fim de completar com êxito essa missão e honrar o amor que sentia pela

pátria de seu pai. Já era hora de começar a trabalhar.

Tremendo por causa do ar gélido e úmido, Madeleine apartou o lençol e a

manta e se incorporou muito devagar na cama ao tempo que esfregava as têmporas e

a fronte com a gema dos dedos. O chá lhe acalmaria a dor de cabeça, mas teria que

vestir-se de forma adequada antes de entrar na cozinha, é obvio.

Obrigou-se a manter os olhos abertos e plantou os pés descalços no chão antes

de ficar em pé com rigidez. O quarto era pequeno, com uma cama individual e uma

diminuta penteadeira pintada de branco que contava com um espelho para facilitar

seu asseio. As paredes estavam empapeladas com o mesmo estampado floral que