Um caso medico e outros contos por Anton Tchekhov - Versão HTML

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No mar da Criméia

Tchekhov

I

As trevas tornam-se cada vez mais densas. A noite desce. Gusief, antigo soldado, agora em baixa definitiva, incorpora-se na sua rede e diz baixinho:

— Escuta, Pavel Ivanytch: um soldado me contou que o barco dele chocou-se, no Mar da China, com um peixe que era do tamanho de uma montanha. Será verdade?

Pavel Ivanytch permanece calado, como se não tivesse ouvido nada.

O silêncio volta a reinar. O vento zune por entre as enxárcias. As máquinas, as ondas e as redes produzem monótono ruído. Mas quem tem o ouvido habituado há já muito tempo, quase não percebe dir-se-ia, mesmo, que tudo ao redor está mergulhado em profundo sono.

O tédio gravita sobre os passageiros que se encontram na enfermaria. Dois soldados e um marinheiro voltam doentes da guerra. Passaram o dia inteiro jogando e agora, cansados, deitam-se e dormem.

O mar torna-se um tanto agitado. A rede na qual Gusief está deitado ora sobe, ora desce, lentamente, como um peito arquejante. Algo fez ruído ao cair ao solo; talvez uma caneca.

— O vento partiu as suas correntes e está a correr mar — diz Gusief prestando atenção aos rumores que vêm do convés.

Desta vez, Pavel Ivanytch tosse e exclama com voz irritada:

— Meu Deus! Que idiota que você é! Quando não se põe a dizer que um barco se despedaçou de encontro a um peixe, diz que o vento partiu as correntes, como se fosse uma de carne e osso...

— Não sou eu quem diz isso, são as pessoas de bem.

— São todos uns ignorantes como você. É preciso saber ter a cabeça no lugar e não acreditar em todas as bobagens que se contam pelo mundo. É preciso refletir bem, antes de aceitar uma idéia alheia.

Pavel Ivanytch é sensível ao enjôo. Quando o navio começa a jogar, fica de mau humor e pôr qualquer coisa se irrita. Gusief não compreende pôr que o vizinho de enfermaria se enerva tanto. Não há nada de extraordinário no fato de um barco se despedaçar de encontro a um peixe, havendo, como há, peixes maiores do que montanhas e de pele mais dura que o gelo. É muito natural, também, que o vento rompa as suas cadeias. Há muito tempo contaram a Gusief que lá longe, no fim do mundo, há enormes muralhas de pedra, às quais estão presos os ventos; às vezes eles partem as correntes e lançam-se através dos mares, uivando como cães loucos. Por outra parte, se não fosse verdade que estão acorrentados, onde se escondem quando o mar está calmo?

Gusief fica a pensar longamente nos peixes do tamanho de montanhas, e nas pesadas cadeias recobertas de ferrugem. Depois aborrece-se disso e passa a pensar na sua aldeia, para onde, agora, regressa, depois de cinco anos de serviço no Extremo Oriente. Sua imaginação evoca um vasto dique, recoberto de gelo e de neve. Numa das suas margens ergue-se uma fábrica de louças, construída com tijolos vermelhos, de cuja alta chaminé saem negros rolos de fumaça. Na margem oposta estão espalhadas as casas da aldeia.

Gusief imagina que está vendo sua casa. Seu irmão Alexey, que na sua ausência se tornou o chefe da família, sai do pátio num trenó, acompanhado de seus dois filhos, Vânia e Akulka, ambos com grossas botas; Alexey está um tanto bêbedo. Vânia ri, Akulka traz um xale que quase lhe oculta o rosto.

— Pobres crianças, que frio devem sentir! — pensa Gusief. — Virgem Santa, protegei os coitadinhos!

O marinheiro estendido ao lado de Gusief tem o sono muito agitado e começa a sonhar em voz alta.

— É preciso mandar pôr meia-sola nas botas — exclama. — Se não é melhor jogá-las fora.

A aldeia natal desaparece da mente de Gusief, seus pensamentos tornam-se desconexos.

Vê a seguir uma enorme cabeça de boi, sem olhos; trenós, cavalos envoltos num espesso halo... Recorda, porém, embora vagamente, ter visto os seus, e isso lhe provoca uma alegria tão intensa que ele estremece da cabeça aos pés.

— Vi a minha gente! Vi a minha gente! — murmura sonhando, com os olhos bem fechados.

No mesmo instante incorpora-se bruscamente, abre os olhos e pede um copo de água.

Depois de beber, torna-se a deitar e os sonhos retornam.

E assim até raiar o sol.

II

A escuridão vai diminuindo e a cabina ilumina-se. A princípio vê-se um círculo azul; é o postigo. Logo Gusief começa a distinguir o vizinho de maca, Pavel Ivanytch, o qual dorme sentado porque estendido sufocaria. Tem o semblante acinzentado, o nariz pontiagudo e os olhos muito aumentados pela horrenda magreza, vincadas as frontes, melenas longas... Pelo aspecto não se lhe adivinharia a categoria: intelectual, negociante ou clérigo? Pelas linhas do semblante e pela guedelha, parece um noviço de qualquer convento; porém, quando fala, verifica-se que não é frade. Aniquilado pela tosse, pelo calor e pela doença, respira a muito custo e para falar precisa fazer grande esforço.

Notando que Gusief o observa, volve a cabeça e diz:

— Começo a compreender... Agora, sim, compreendo tudo, perfeitamente bem!

— Como, Pavel Ivanytch?

— Olhe... Parecia-me estranho que vocês, tão doentes, estivessem aqui, num barco em terríveis condições higiênicas, respirando numa atmosfera impura, exposto ao enjôo, ameaçados a todo momento pela morte. Agora já não estranho isso. É uma peça de mau gosto que os médicos vos pregaram. Meteram vocês neste barco para se livrarem de vocês. Estavam fartos de vocês. Além disso, não lhes interessa tratar de doentes dessa laia, pois vocês não pagam. E não queriam que morressem no hospital, pois isso sempre causa má impressão. Para se desembaraçarem de vocês, bastava, em primeiro lugar, não possuir consciência nem sentir amor à humanidade; depois, é só enganar o comandante do navio. Quanto ao primeiro ponto, nem é preciso falar; somos, a esse respeito, artistas; e, com alguma prática, o segundo dá sempre bom resultado. Ninguém nota a falta de quatro ou cinco doentes entre quatrocentos soldados e marinheiros em perfeita saúde.

Embarcados, vocês são postos no meio dos saudáveis; contados de afogadilho e na confusão da partida, nada se vê de anormal. Inicia-se a viagem, percebem, como é natural, que todos vocês são paralíticos e tuberculosos de último grau, a se arrastarem....

Gusief não compreende Pavel Ivanytch . Supondo que Pavel está desgostoso com ele, diz para desculpar-se:

— Não tenho culpa. Deixei que me embarcassem alegrando-me muito pelo fato de poder voltar para casa.

— Oh! É revoltante — continuou Pavel Ivanytch. — Principalmente porque eles bem sabem que vocês não podem suportar esta longa travessia. Admitamos que vocês cheguem até o Oceano Índico. E depois? ... É terrível pensar nisso!... Eis a recompensa de cinco anos de fiel e irrepreensível serviço!

Pavel Ivanytch, com expressão de ira e voz sufocada, diz:

— Os jornais deveriam contar essas sujeiras! Seria uma boa lição para esses canalhas!

Os dois soldados e o marinheiro doente acordaram e puseram-se a jogar baralho.

O marinheiro está meio sentado na maca; os soldados, perto dela, sobre a ponta, em posição incômoda. Um tem o braço enfaixado e o pulso envolto num verdadeiro monte de pensos, de tal maneira que se vale da flexão de cotovelo para segurar as cartas.

O barco baloiça violentamente, o que impede que a gente se levante para tomar chá.

— Você era ordenança? — pergunta Pavel Ivanytch a Gusief.

— Justamente.

— Meu Deus! Meu Deus! — levanta-se Pavel Ivanytch. — Arrancar um homem do seu ninho, obrigá-lo a fazer quinze mil verstas e apanhar a tuberculose, para... para que pergunto-lhes eu?... Para dele fazer a ordenança do capitão Kopeikine ou de um porta-bandeira Durka... Haverá lógica nisso?

— O trabalho não é difícil, Pavel Ivanytch. É só levantar cedo, engraxar as botas, arrumar os quartos, e nada mais. O meu oficial ficava a traçar projetos o dia todo, eu podia dispor do meu tempo, podia ler, passear, conversar com os amigos. Francamente, não posso queixar-me.

— Sim, de fato; o tenente esboçava plantas e você ficava a se aborrecer a quinze mil verstas da sua terra, desperdiçando os melhores anos da sua vida. Traçar plantas!... Não se trata de plantas mas da vida humana, meu caro. E o homem só tem uma vida; devemos poupá-la.

— Realmente, é verdade, Pavel Ivanytch — continua Gusief que mal entende o raciocínio do vizinho. — Um pobre diabo não é bem tratado em parte alguma, nem em casa, nem no serviço. Mas se a gente cumpre sua obrigação, como eu, não tem nada e temer, que necessidade haverá de maltratá-los? Os chefes são pessoas instruídas e compreendem as coisas... Eu, em cinco anos, nunca estive preso e, quanto a ser espancado... não o fui — se Deus não me tolhe a memória — senão uma vez...

— E por quê?

— Por uma rixa. Tenho a mão pesada, Pavel Ivanytch. Quatro chineses, se bem me lembro, entraram no pátio da casa. Acho que procuravam trabalho. Pois bem, para passar o tempo comecei a dar neles. O nariz de um dos réprobos sangrou... O tenente, que tudo vira da janela, me deu uma boa lição.

— Meu Deus! Que imbecil que você é! — murmura Pavel Ivanytch. — Você não compreende nada!

Completamente aniquilado pelo balanço do barco, ele fecha os olhos. A cabeça ora se lhe inclina para trás, ora sobre o peito. Tosse cada vez mais. Depois de curta pausa, diz:

— Por que é que você espancou aqueles coitados?

— À toa. Estava muito aborrecido.

Reina de novo o silêncio. Os dois soldados e o marinheiro passam horas e horas a jogar, por entre blasfêmias e insultos. Mas as oscilações acabam por fatigá-los. Acabam a partida e deitam-se. Mal fecha os olhos, Gusief revê o grande lago, a fábrica, a aldeia...

sua aldeia, com seu irmão e seus sobrinhos. Vânia recomeça a rir e a tola da Akulka, pondo as pernas fora do trenó, exclama: “Olhe, ó gente, as minhas botas são novinhas e não como as de Vânia!”

— Ela vai para os seis anos — delira Gusief — e ainda não tem juízo. Em vez de mostrar as botas, devia trazer água para o titio soldado! Depois, dar-lhe-ei bombons.

Depois avista seu amigo Andron, pederneira a tiracolo. Carrega uma lebre que matou.

Issaitchik, judeu, segue-o a propor-lhe a troca da lebre por um pedaço de sabão. Ali, à porta da cabana, há uma novilha negra. Eis que surge Domna, sua esposa, que costura uma camisa e chora. Por que chora ela?... E eis, de novo, a cabeça de boi sem olhos e a fumaça preta.

Adormece, mas um ruído no tombadilho o desperta. Alguém, lá em cima, está a gritar; acorrem diversos marinheiros. Parece que alguma coisa enorme e pesada foi levada à ponte ou, então, aconteceu qualquer coisa inesperada. Acorrem mais homens... Terá sucedido alguma desgraça?! Gusief ergue a cabeça, espreita e vê que os dois soldados e o marinheiro recomeçaram o jogo. Pavel Ivanytch, sentado, move os lábios como se quisesse falar; mas não diz nada. Todos ofegam, sufocam, têm sede; o calor continua.

Gusief tem a garganta a arder, mas a água morna causa-lhe repugnância. E o barco continua a dançar.

De repente, algo de anormal acontece a um dos soldados que jogam. Ele confunde o naipe de copas com o de ouros, erra na conta e deixa cair as cartas. Depois, olha em torno de si com um sorriso hediondamente alvar.

— Voltarei logo, camaradas... Esperem... eu... eu... — e estende-se no pavimento.

Os companheiros interrogam-no, estupefatos; ele não responde.

— Stepan! Sente-se mal? — pergunta-lhe o soldado do braço ferido. — Hein? Quer que chame o padre, sim?

— Stepan, beba água, beba, camarada, beba! — diz-lhe o marinheiro.

— Mas por que você lhe empurra a caneca à boca? — exclama Gusief, irritado. — Não vês, então, seu idiota?...

— Como?...

— “Como?..” — repete Gusief arremedando; — ele já não respira... está morto. E ainda perguntas: “Como?” Que idiota, meu Deus!

III

Cessa o baloiço. Pavel Ivanytch está de novo alegre, não se irrita mais por qualquer coisa.

Tornou-se até fanfarrão, escarnecedor. Tem o ar de quem deseja contar uma história tão engraçada que provoque dor de barriga.

Pelo postigo aberto, uma brisa suave passa sobre Pavel Ivanytch. Ouvem-se vozes; os remos ferem a água compassadamente... Sob o postigo, alguém regouga; talvez um chinês que se tenha aproximado num bote.

— Sim — diz Pavel Ivanytch, sorrindo zombeteiro — eis-nos no ancoradouro. Um mês mais, e estaremos na Rússia. Sim, cavalheiros, estamos chegando. Os soldados são muito acatados, sim senhor. Chegando em Odessa, seguirei para Carcov, onde tenho um amigo escritor a quem direi: “Vamos, amigo, deixa pôr um minuto os teus escabrosos temas relacionados com mulheres e com amor; deixa de cantar as belezas da natureza e procura divulgar as sujeiras dos seres de duas patas. Trago-te esplêndidos temas...”

Depois de ter pensado um minuto em qualquer coisa, torna:

— Gusief, você sabe como os enganei?

— A quem?

— Aos que mandam no navio...Compreende? Na embarcação não há senão duas classes: a primeira e a terceira. De terceira só viajam os mujiks, também chamados broncos. Se você tiver um jaquetão e um certo ar de cavalheiro ou de burguês, é obrigado a viajar de primeira. Dir-lhe-ão: “ Arranje-se como puder, mas deve pagar quinhentos rublos”. “Qual a razão desse regulamento? Quererá o senhor elevar com isso o prestígio dos intelectuais russos?” “Absolutamente, não. Não lhe permitimos viajar de terceira pelo simples motivo de que não convém às pessoas distintas; passa-se bem mal e é repugnante”. “Muito agradecido, prezado senhor, pela sua solicitude para com as pessoas distintas! Mas, como quer que seja, não disponho de quinhentos rublos. Não fiz negócios escuros, não roubei o Estado, não exerci contrabando, não fiz morrer ninguém sob o açoite. Como posso ser rico? Ora, pense bem. Tenho eu o direito de estabelecer na primeira classe e, sobretudo, insinuar-me entre os intelectuais russos?” — Dado, porém que não é possível vencê-los pelo raciocínio, recorre-se a um ardil. Visto o capote e calço as botas altas; tomando um ar de bêbedo dirijo-me ao bilheteiro:

— Excelência, desejo uma passagem de terceira e que Deus o abençoe.

— Qual é a sua profissão? — pergunta-me o funcionário.

— Sou do clero. Meu pai foi um “pope” honesto. Muito sofreu pôr dizer sempre a verdade aos poderosos deste mundo. Eu também sempre digo a verdade...

Pavel Ivanytch cansa-se de falar; respira com dificuldade. Mas prossegue:

— Sim, sempre digo a verdade sem rebuço... Não temo coisa alguma nem ninguém.

Nesse ponto, há entre mim e vocês considerável diferença. Vocês não enxergam nada.

Ignorantes, cegos, esmaga-os o peso da própria inferioridade. Acreditam que o vento está amarrado com correntes e outras bobagens. Vocês beijam a mão que vos fere. Um espertalhão qualquer, vestido de peliça, rouba tudo que vocês têm e depois vos atira quinze kopeks de gorjeta, e vocês dizem: — “Dê-me, Excelência, a honra de lhe beijar a mão”. Párias, asquerosos... Quanto a mim, sou bem diferente. Levo uma vida consciente.

Vejo tudo, como a águia ou o abutre que se eleva muito acima da terra. Compreendo tudo. Sou a encarnação do protesto. Protesto contra o arbitrário, contra o beato hipócrita, contra os suínos triunfantes. E sou indomável. Nem mesmo a Inquisição espanhola me obrigaria a calar. Sim... Se me arrancassem a língua, minha mímica protestaria. Lancem-me num cubículo, tranquem a porta: bradarei tão fortemente, que serei ouvido a uma versta de distância; ou então, me deixarei morrer de fome para que a lôbrega consciência dos carrascos sinta um peso a mais. Todos os conhecidos me dizem: — “Pavel Ivanytch, na verdade você é insuportável!” Mas eu me orgulho dessa reputação. Enfim, que me matem! Minha sombra voltará aterradoramente. Prestei três anos de serviço no Extremo Oriente, e lá deixei uma reputação para cem, porque me incompatibilizei com todo mundo. Os amigos escrevem-me: “Não apareça!”, pois conhecem meu caráter belicoso. E

eu embarco! e volto a despeito dos seus avisos!... Sim, essa é a vida que eu compreendo.

Isso sim é que se pode chamar a vida.

Gusief deixa de escutar e olha através do postigo. Uma canoa oscila sobre a água transparente, cor de turquesa pálida, banhada em cheio pelo sol deslumbrante e abrasador.

Nela, de pé e nus, alguns chineses oferecem gaiolas de canários e gritam:

— Canta bem! Canta muito bem!

Outra canoa bate contra a primeira: passa uma embarcaçãozinha a vapor. E eis ainda outra canoa, em que se vê um gordo chinês, que come arroz com pauzinhos. A água gorgulha preguiçosamente; há gaivotas brancas voando com indolência.

— Oh! aquele gorducho... — pensa Gusief. — Seria gozado dar uns sopapos nesse animal de cara amarela.

Dormindo em pé, aparece-lhe que toda a natureza cabeceia com sono. O tempo corre veloz. O dia se escoa sem que se dê pôr isso e do mesmo modo a noite vem chegando...

O barco desamarrou e prossegue para destino ignorado.

IV

Passaram-se os dias. Pavel Ivanytch já não está sentado, mas curvado. Tem os olhos fechados e o nariz afinou-se ainda mais.

— Pavel Ivanytch! — grita-lhe Gusief. — Ouviu, Pavel Ivanytch?

— Como é? Isso vai ou não vai?

— Assim, assim... — responde Pavel Ivanytch, arquejante. — Ao contrário, vai até melhor... Olhe, passo até deitado... A coisa vai melhorando.

— Então, que Deus seja louvado!

— Sim, estou melhor. Quando me comparo a vocês, sinto compaixão...Tenho os pulmões fortes; a tosse me vem do estômago... Sou capaz de suportar o inferno. Por que falar no mar Vermelho? Além do mais, considera a minha doença e os remédios do ponto de vista crítico... e vocês são uns pobres diabos... É terrível para vocês... muito, muito terrível.

Tenho verdadeira pena de vocês.

As ondas já não fazem o barco jogar, mas a atmosfera é cálida e pesada como um barco a vapor. Gusief apóia a cabeça nos joelhos e põe-se a pensar na sua aldeia. Com o calor que faz, é um prazer pensar na aldeia, completamente coberta de neve nesta época do ano.

Sonha que está passeando de “ troika “ através dos campos gelados. Os cavalos espantados sem motivo, correm como loucos e atravessam o dique num único salto. Os camponeses procuram detê-los, mas Gusief pouco se importa. Sente-se possuído pôr intensa alegria. É com prazer que recebe no rosto e nas mãos a glacial carícia do vento, e a neve a lhe cair pelo cabelo, pelo pescoço e pelo peito o imunda de felicidade.

Não se sente menos contente quando, em dado momento, o carro vira, atirando-o na neve.

Levanta-se satisfeito, coberto de neve da cabeça aos pés, e fica a se sacudir entre gostosas gargalhadas. Ao redor, os camponeses também soltam risadas e os cachorros, nervosos, ladram. Realmente formidável.

Pavel Ivanytch entreabre um olho, fita Gusief e pergunta:

— Teu oficial roubava?

— Não sei Pavel Ivanytch. Essas coisas não são de nossa conta.

Volta a reinar profundo silêncio. Gusief mergulhou de novo nos seus sonhos. De quando em quando toma um pouco de água. O calor é tão forte que ele não tem vontade nenhuma de falar nem de ouvir, e teme que a qualquer momento alguém lhe dirija a palavra.

Uma, duas horas transcorrem. À tarde sucede a noite; mas Gusief parece não ter notado nada; continua na mesma posição, a fronte nos joelhos, a pensar na sua aldeia, no frio, na neve.

Ouvem-se passos, vozes. Ao cabo de cinco minutos tudo volta a cair no silêncio.

— Que a terra lhe seja leve! — murmura o soldado do braço ferido. — Era um homem que deixava a gente nervoso.

— Quem? — pergunta Gusief esfregando os olhos. — De quem é que estás falando?

— Ora, de quem? De Pavel Ivanytch! Morreu. Levaram-no para cima.

— Como? — murmura Gusief como se não compreendesse. Fica longo tempo a meditar e por fim, com um suspiro, diz: — Então tudo se acabou! Que Deus o perdoe!

— O que é que você acha? — pergunta o soldado. — Você acha que ele será admitido no Paraíso?

— Ele quem?

— Pavel Ivanytch, homem!

— Ah!... Creio que sim. Sofreu muito. Além disso, era do clero. Seu pai era “pope” e rogará a Deus pelo filho.

O soldado senta-se na cama de Gusief e olhando-o fixamente, diz em voz baixa:

— Também você, Gusief, não há de viver muito. Não voltará a ver a sua terra.

— Quem disse isso!? O médico? O enfermeiro?

— Ninguém, mas a gente vê logo. Percebe-se muito bem quando uma pessoa está para morrer. Você não come, emagrece dia a dia... causa medo. Enfim, é a tuberculose. Não digo isso para o assustar, mas apenas no seu próprio interesse. Deveria receber os Sacramentos... Além disso, se você tem dinheiro deve deixá-lo com o comissário do navio...

— Nem escrevi para minha gente — suspira Gusief. — Morrerei e eles não saberão de nada.

— Como não saberão? Quando você morrer eles escreverão para as autoridades militares de Odessa, que, por sua vez, avisarão sua família.

Gusief está profundamente perturbado. Vagos desejos o afligem. Toma um pouco de água, volta a perscrutar o mar através do postigo, porém nada consegue acalmá-lo. Nem mesmo a lembrança da aldeia consegue, agora, tranqüilizá-lo. Tem a impressão de que se permanecer mais um minuto na enfermaria cairá sufocado.

— Estou muito mal, meus irmãos — diz baixinho. — Não posso continuar aqui... Quero ir lá para cima. Quem quer ajudar-me?

— Bom — diz o soldado. — Vou acompanhá-lo, já que não pode ir só. Apoie-se no meu ombro.

Gusief obedece. O soldado segura-o com a sua mão sã e ambos sobem vagarosamente a escada que conduz ao convés.

Em cima, o tombadilho está cheio de marinheiros e de soldados deitados no chão. São tantos que é difícil abrir caminho.

— Sente-se — diz o soldado. — Eu o seguro.

Não se vê muito bem. Não há luz no tombadilho, nem nos mastros, nem no mar. Uma sentinela, de pé na extremidade do navio, está tão imóvel que parece adormecida. Dir-se-ia que o barco se encontra abandonado ao seu próprio destino e que ninguém se importa em lhe dar um rumo.

— Vão atirar Pavel Ivanytch ao mar — murmura o soldado. — Vão costurá-lo num saco e atirá-lo às ondas.

— Sim — responde Gusief suavemente. — É do regulamento.

— É melhor morrer em terra. De vez em quando a mãe da gente vem chorar junto ao túmulo, ao passo que aqui...

— Sim, eu também preferiria morrer na minha casa, na aldeia...

Penosamente, os dois se erguem e começam a andar. Em certo trecho sente-se pronunciado cheiro de forragem e de esterco: vem de um curral improvisado no tombadilho, onde se encontram oito vacas. Um pouco mais adiante, há um potro amarrado. Gusief estende a mão para acariciá-lo, mas o cavalo sacode furiosamente a cabeça e mostra os dentes, com eloqüente intenção de mordê-lo.

— Bicho do inferno! — protesta Gusief.

Ele e o soldado apoiam-se na balaustrada e ficam a olhar em silêncio ora o mar, ora o céu.

Sob a abóbada celeste, calma e muda, reinam a inquietação e as trevas. As ondas se entrechocam ruidosamente. Cada uma procura erguer-se mais do que a outra e se atropelam, e se Empurram, furiosas e disformes, coroadas de branca espuma.

O mar é impiedoso. Se o navio não fosse tão grande e tão sólido, as ondas o destroçariam sem piedade, tragando cruelmente todos quantos viajam nele, sem distinguir os bons dos maus. O próprio barco não é menos cruel. Semelhando um estranho monstro, corta com a quilha milhões de ondas. Não teme nem a noite, nem o vento, nem o espaço infinito, nem a solidão. Se a superfície do mar estivesse cheia de seres humanos, cortá-los-ia da mesma maneira, sem tampouco, fazer distinção entre os bons e justos e os pecadores.

— Onde estamos agora? — pergunta Gusief.

— Não sei. Acho que no oceano.

— Não se vê terra...

— Que dúvida! Antes de oito dias não veremos nem sombra de terra!

Ambos continuam perscrutando a espuma branca e fosforescente, mergulhados no mais completo silêncio. Cada um parece perdido em remotos pensamentos. Gusief é o primeiro a falar:

— Eu não tenho medo do mar. É lógico que, de noite, a gente não vê bem. Mas mesmo assim, se agora me mandassem, num bote, a pescar a cem quilômetros daqui, iria com muito gosto. Ou, se por exemplo, tivesse que salvar alguém que tivesse caído na água, eu me atiraria sem vacilar. Isto é, caso se tratasse de um cristão. É claro que eu não arriscaria a vida por um turco ou por um chinês.

— Não tem medo da morte?

— Tenho sim, principalmente quando penso na minha casa. Sem a minha presença tudo irá por água abaixo. Meu irmão é uma verdadeira calamidade, um beberrão que bete na mulher todo o santo dia e não respeita os pais. Sim, sem mim tudo irá mal. Minha gente ver-se-á obrigada, talvez, a pedir esmolas para não morrer de fome.

Cala-se por alguns instantes e por fim conclui:

— Vamos para baixo. Não posso mais suster-me em pé. Além disso, a atmosfera está muito pesada... Já é hora de dormir.

V

Gusief desce para a enfermaria e deita-se. Vagos desejos, cuja natureza não pode precisar, continuam a atormentá-lo. Sente um peso no peito; dói-lhe a cabeça. Sua boca está seca que sente dificuldade em mover a língua. Cai em profunda sonolência e logo depois, esgotado pelo calor e pela atmosfera carregada, adormece. Os mais fantásticos sonhos voltam a repetir-se!!!

Dorme, assim, dois dias seguidos. Ao cair da tarde do terceiro, os marinheiros vêm buscá-

lo e levam-no para o convés.

Costuram-no num saco, no qual introduzem, também, para torná-lo mais pesado, dois enormes pedaços de ferro. Metido no saco Gusief parece uma cenoura: volumoso na cabeça e afinado nas pernas.

Ao pôr do sol colocam o cadáver sobre uma prancha que tem uma das extremidades apoiada na balaustrada e a outra num caixão de madeira. Ao redor enfileiram-se os soldados e os marinheiros todos de gorro na mão.

— Bendito seja Deus todo-poderoso pelos séculos dos séculos — diz com tom solene o sacerdote.

— Amém! — respondem os marinheiros.

Todos fazem o sinal-da-cruz e ficam a olhar as ondas. É algo estranho ver um homem metido num saco e a ponto de ser lançado ao mar. No entanto, é uma coisa que pode suceder a qualquer um de nós!

O sacerdotes deixa cair um pouco de terra sobre Gusief a faz profunda reverência. A seguir, canta-se o Ofício.

O oficial de plantão soergue um dos extremos da prancha. Gusief desliza de cabeça para baixo, dá uma volta no ar e cai na água. Por alguns instantes fica a boiar, coberto de espuma, como se estivesse envolto em rendas; por fim, desaparece.

Submerge rapidamente. Chegará ao fundo? Segundo os marinheiros, a profundidade do mar nestas paragens alcança quatro quilômetros.

Após fazer vinte metros, começa a descer mais lentamente. O cadáver vacila, como se hesitasse em continuar a viagem. Finalmente, arrastado pela corrente, prossegue a marcha diagonalmente.

Não demora em tropeçar com um cardume de peixinhos — dos chamados “pilotos”, os quais, ao divisarem o enorme vulto, estacam assombrados e, como se obedecessem a uma ordem, voltam-se, todos ao mesmo tempo, e, como minúsculas flechas, atiram-se a Gusief.

Minutos depois aproxima-se uma enorme massa escura: um tubarão. Lentamente, com fleuma, como se não notasse a presença de Gusief, coloca-se sob o saco de maneira a dar a impressão de que o cadáver está de pé sobre o seu ombro. Visivelmente satisfeito, o tubarão dá, depois várias voltas na água e, sem se apressar, escancara a enorme boca, armada de duas fileiras de dentes. Os “pilotos” estão encantados. Mantêm-se um pouco afastados e admiram o espetáculo atentamente.

Depois de brincar um pouco com o corpo de Gusief, o tubarão crava os dentes de mansinho, no tecido da mortalha, a qual no mesmo instante abre-se de cima a baixo. Um pedaço de ferro tomba no lombo do tubarão, assusta os “ pilotos” e desce rapidamente.

Enquanto isso, lá no alto, no céu, onde o sol pouco a pouco se oculta, as nuvens vão-se acumulando. Uma delas parece um arco-de-triunfo, outra um leão; outra ainda uma tesoura. Através de uma das nuvens projeta-se até o centro da abóbada do céu um amplo raio verde. Ao lado dele surge, pouco a pouco, um colorido de lilás bem pálido. Sob este esplêndido céu, o oceano torna-se a princípio obscuro; logo, porém, passa, por sua vez, a tingir-se de cores tão suaves, alegres e belas que a língua humana é incapaz de descrevê-

las.

Varka

Tchekhov

Tradução de Costa Neves

Anoitece. Varka balança com o pé um berço onde chora uma criança, cantarolando monotonamente:

— Bain bainscki bain...

Uma lâmpada verde brilha diante de uma imagem de santo. Um par de grandes calças negras pende de uma corda. A lâmpada projeta uma mancha verde sobre as coisas e as calças fazem dançar sombras na parede e no berço. A chama vacila como tocada pelo vendo. O ar é sufocante, impregnado de um odor de sapatos, de couro, de tinta.

O menino chora. Não cessa de chorar e de gemer; está extenuado, sua vozinha tornou-se rouca; mas ele chora ainda, sem parar.

Varka tem sono. Seus olhos fecham-se, sua cabeça inclina-se para o peito. Mal pode abrir os olhos tanto lhe pesam as pálpebras.

— Bain bainscki bain... — murmura com voz extinta, — bain bain...

Um grilo estridula numa frincha do chão. No aposento vizinho, ouve-se a máquina do sapateiro.

O berço range lamentosamente. Varka cantarola, e tudo se confunde num doce murmúrio que convida ao sono. Mas não se deve dormir! Varka resiste ao torpor que a invade, porque, se por desgraça adormecer, o patrão bater-lhe-ia. A chama da lâmpada vacila. A mancha verde e a sombra negra dançam diante dos olhos fixos que Varka se esforça por conservar abertos. Sonhos indistintos vagam no seu cérebro amodorrado. Ela vê nuvens negras que se perseguem, gritando com voz infantil. As nuvens se desfazem e Varka divisa uma estrada, longa, negra e lamacenta. Filas de carros avançam lentamente; homens caminham vagarosamente, sombras se agitam aqui e acolá! Através de uma névoa cinzenta e fria ela entrevê os albergues, dos dois lados da estrada. As sombras se alongam, os viajantes perdem-se na estrada lamacenta.

— Por quê? — pergunta Varka.

— Para dormir, para dormir...

E dormem um sono de chumbo, profundamente, enquanto sobre os fios telegráficos corvos gritam, com voz infantil, para acordar aqueles homens...

— Bain bainscki bain... — canta Varka, e, súbito, acha-se numa mísera isba negra, acanhada e sufocante. Não é aquele seu pai, Efim Stepanov, que ali jaz por terra e se estorce em sofrimentos atrozes? Ela vê, mas não ouve os gemidos. É a sua hérnia que o atormenta. A dor é tão forte que ele não pode falar; respira penosamente, com um gargarejo contínuo:

— Groo... groo... groo...

Eis a mulher, Pelágia, que se precipita para fora da isba, para dizer ao patrão que Efim é moribundo. Quando voltará? Saiu já há muito tempo e Varka espera-a. Varka está acordada perto do fogão, mas não dorme e escuta o ofegar do moribundo:

— Groo... groo... groo...

Finalmente, um rumor de rodas que se dirige para a isba. Um médico vem visitar o doente. Entra no quarto. A escuridão é tanta que Varka não o vê, mas ouve a sua voz.

— Dê-me uma luz! — exclama ela.

A mãe acende uma vela. Efim sufoca.

— Que tem? pergunta o médico curvando-se sobre ele.

— Que tenho? Morro. Está acabado.

— Ainda não. Salvar-te-emos. Havemos de curar-te.

— Se vossa senhoria acha, agradeço-lhe muito. Mas se a morte está aqui, paciência.

O médico examinava o doente. Os minutos corriam.

— Não posso fazer nada — disse —, é preciso mandá-lo para o hospital para ser operado; mas isto depressa, sem perder um minuto. É tarde, e no hospital devem todos estar recolhidos, mas eu darei um bilhete de recomendação para o diretor. Compreendeu?

— Mas ele não pode andar, senhor! Nós não temos cavalo! — gemeu a mãe.

— Mandarei buscá-lo — disse o médico, e foi-se, e a vela apagou-se e Varka ouve novamente:

— Groo... groo... groo...

Alguns instantes depois pára um carro à porta. Recebe Efim e parte...

É dia. O tempo está alegre. A mãe vai ao hospital saber notícias. E volta. Entrando na isba, faz o sinal-da-cruz e chora.

— Operaram-no, e a princípio estava melhor, mas depois, pela madrugada, morreu. Que Deus o tenha em sua paz. Disseram que era muito tarde, que deveríamos tê-lo mandado mais cedo para o hospital.

Eis Varka no meio do bosque. Caminha ao lado da mãe, e chora, chora amargamente.

De repente ela recebe uma pancada na cabeça, tão violenta que cai e bate com a cabeça numa árvore. Abre os olhos e vê o patrão, o sapateiro:

— Que fazes, preguiçosa?! — grita ele. — O menino chora e tu dormes?

E puxa-lhe as orelhas; ela recomeça a balançar o berço, cantarolando:

— Bain bainscki bain...

A mancha verde e a grande sombra negra dançam na parede, e o cérebro dela se entorpece. Ei-la novamente na grande estrada lamacenta. Os viajantes dormem profundamente. Varka tem sono também, tem tanto sono e seria tão feliz se pudesse dormir... Mas sua mãe caminha sempre e arrasta-a pela mão. Dirigem-se à cidade em busca de trabalho.

— Uma esmola, pelo amor de Deus! — mendiga a mãe durante todo o caminho. —

Tende piedade...

— Depressa, dá-me o menino! — responde uma voz tonitruante — dá-me o menino! Tu dormes, canalha! — grita a voz irritada e rude.

Varka levanta-se, estremunhada. Sim, compreende: não mais a longa estrada, os viajantes, a imagem da mãe. É a patroa que aparece no meio do quarto, que vem aleitar o menino.

Aquele era o passado de Varka, visto em sonho; este é o presente.

Enquanto a gorda patroa aleita o menino, procurando adormecê-lo, Varka, de pé, lança os olhos pela janela. O céu empalidece, a sombra e a mancha verde estão quase desvanecidas: dentro em pouco será dia.

— Toma, segura o menino! — ordena a patroa, abotoando a camisa no peito. — Ele chora sempre. Tu com certeza o maltrataste!

Varka torna a deitar o menino e recomeça a embalá-lo. Que sono terrível! Os olhos se fecham, a cabeça pesa-lhe como chumbo.

— Varka, é tempo de acender o fogão — brada a voz do patrão.

É preciso levantar-se e trabalhar. Varka larga o berço e vai buscar a lenha. Está contente de poder mover-se, andar, espantar aquele sono tremendo. Está pronto o fogo. Suas idéias aclaram-se, seu rosto distende-se.

— Varka! o samovar! depressa! — grita a patroa.

Varka apronta o samovar e recebe nova ordem.

— Varka, vai limpar as botas do patrão!

E ela acocora-se para limpar as botas. Ah! como seria bom meter a cabeça dentro de uma daquelas botas e dormir! Varka escancara os olhos e sacode-se vigorosamente.

— Varka, vai lavar a sala! Está que é uma vergonha! E os fregueses não tardam!

Varka lava rapidamente o chão, varre tudo, limpa tudo, acende o outro fogão! O tempo urge: não há um momento a perder.

O dia passa. Varka vê com alegria a noite que chega. O ar fresco da noite promete-lhe um longo e profundo sono. Mas, quando a noite chega, chegam visitas.

— Varka! — grita a patroa — depressa, o samovar!

O samovar é pouco, e Varka deve ferver mais água, enquanto os patrões e os visitantes abancam-se em torno da mesa.

— Varka corre a buscar três garrafas de cerveja! Varka, os copos! Varka!

Vão-se finalmente os visitantes. Apaga-se a luz; os patrões vão deitar-se.

— Varka! vai embalar o menino! — dizem eles.

O grilo canta, a mancha verde e a sombra negra agitam-se novamente ante os olhos sonolentos e entorpecem-lhe o cérebro.

— Bain bainscki bain...

O menino grita... Varka revê a estrada lamacenta, os viajantes, a sua mãe Pelágia, seu pai Efim... Reconhece-os perfeitamente, mas não pode ver o monstro que a tortura, que a tem amarrada de pés e mãos, que a sufoca, que a impede de viver.

Volve a cabeça de todos os lados e procura aquele inimigo infernal, para libertar-se. Em um esforço supremo, abre os olhos, vê a mancha verde, a sombra negra que se agita, quando, de súbito, um grito do menino fere-lhe os ouvidos.

Finalmente! Varka encontrou o inimigo que a impede de viver. É aquele menino o seu inimigo impiedoso! E ela ri, espantada de o não haver descoberto antes. Que estúpida! A mancha, a sombra, o grilo, tudo ri com ela, tão estúpidos como ela. Uma idéia luminosa passa-lhe no cérebro pesado. Levanta-se vagarosamente do escabelo em que está sentada, com um claro sorriso no rosto embrutecido, e dá alguns passos. A idéia de libertar-se do menino aparece-lhe mais viva. Libertar-se daquele que a impede de viver! Precisa matá-

lo, e depois dormir, dormir, dormir...

Sorrindo, rindo e piscando os olhos para a mancha verde, Varka avizinha-se do berço, curva-se sobre o menino: e sufoca-o. Depois estende-se rapidamente no chão, sorrindo de alegria ao pensamento de que finalmente poderá dormir. E adormece logo.

Varka dorme um sono profundo e pesado como a morte.

— Fim —

Fonte: TCHECOV. Contos. Coleção Clássicos Jackson, Volume XXXVII. São Paulo: WM Jackson Inc. Editores, 1965.

O vingador

Tchekhov

Logo depois de haver surpreendido sua mulher em flagrante, encontrava-se Fedor Fedorovich Sigaev na loja de armas de Schmuks e Cia, a escolher o revólver que melhor lhe pudesse servir. Seu rosto expressava ira, dor e decisão irrevogável.

“Bem sei o que devo fazer!”, pensava. “Quando os fundamentos de uma família são profanados, e a honra é arrastada pela lama e triunfa o vício... eu, como cidadão e como homem honrado, devo ser o vingador. Matarei primeiro a ela, depois ao amante e finalmente suicidar-me-ei”.

Não havia ainda escolhido o revólver e nem sequer assassinara alguém, mas na imaginação já se lhe apresentavam três cadáveres ensangüentados, de crânios triturados, os miolos a flutuarem... Barulho, ruído de curiosos e autópsia.

Possuído pela insensata alegria do homem ofendido, calculava o horror dos parentes e do público, a agonia da traidora e até lhe parecia poder ler em pensamento os artigos da primeira página, a comentarem a decomposição dos fundamentos da família.

O empregado da loja, tipo inquieto, afrancesado, de ventre pequeno e colete branco, apresentava-lhe os revólveres e juntando os calcanhares dizia, sorrindo respeitosamente:

— Eu aconselharia a Mousieur que levasse este magnífico modelo do sistema Smith & Wesson. É a última palavra na ciência das armas. Possui três propulsores e pode-se dispará-lo a uma distância de seiscentos passos. Chamo também a atenção de Mousieur para a limpeza do acabamento. Seu sistema é que está mais em moda. Vendemos diariamente dezenas deles, que são utilizados contra os bandidos, os lobos e os amantes.

Seu tiro é preciso e forte, alcança distâncias enormes e mata, atravessando-os, a mulher e o amante. Quanto aos suicidas, Mousieur, não conheço, para eles, melhor sistema.

E o empregado, apertando e soltando o gatinho, soprando o cano e fingindo mirar, parecia próximo a afogar-se de puro entusiasmo. A julgar-se pela expressão extasiada de seu rosto, poder-se-ia pensar que ele mesmo, de boa vontade, pregaria um tiro na testa, se possuísse uma arma tão maravilhosa quanto aquela.

— E qual o preço? — perguntou Sigaev.

— Quarenta e cinco rublos, Mousieur.

— Hum! É muito caro, para mim.

— Neste caso, Mousieur, posso oferecer-lhe algo mais em conta. Aqui está. Tenha a bondade de examinar. Temos estoque variado e de todos os preços... Este, por exemplo, do sistema Lefrauché, que custa somente 18 rublos. Porém... — o empregado fez um muxoxo de pouco caso — é um sistema, Mousieur, demasiadamente antiquado. Quem o compra são os pobres de espírito e os psicopatas. Suicidar-se ou matar a própria mulher com um Lefauché é considerado atualmente de mau gosto. O bom-tom admite somente uma Smith & Wesson.

— Não necessito matar-me ou a alguém — mentiu, com acento sombrio, Sigaev. —

Compro-o simplesmente para a minha casa de campo... Para assustar os ladrões.

— Não nos interessa o seu motivo —sorriu o empregado, baixando modestamente os olhos — Se, em cada caso, buscássemos as razões, já deveríamos ter fechado a loja. Para espantar os corvos, Mousieur, o Lefauché não serve, pois produz ruído um tanto surdo.

Eu lhe proponho uma pistola Mortimer, das chamadas para duelos.

“E se eu o provocasse para um duelo?”, passou pela cabeça de Sigaev. “Porém... não...

Seria honra demasiada. A essas bestas, devemos matá-las, como cachorros...”

O empregado, revoluteando graciosamente e em pequenos passos, sem deixar de sorrir e de conversar, apresentou-lhe todo o monte de revólveres. O Smith & Wesson era o de aspecto mais sólido e justiceiro. Sigaev tomou um destes nas mãos, fixou-o e quedou ensimesmado. A imaginação desenhava-o destroçando um crânio, o sangue a escorrer como um rio sobre o tapete e o assoalho, a traidora, moribunda, agitando um pé convulso... Para a alma indignada, aquilo era pouco. O quadro de sangue, os soluços e o estupor não o satisfaziam. Deveria pensar em algo mais terrível.

“Isto é o que farei”, pensou. “Matarei a ele e a mim em seguida, porém ela... deixaria viver. Que morra do arrependimento e do desprezo dos que a cercam! Para natureza tão nervosa quanto a sua, será martírio maior que a morte!”

Começou a imaginar o próprio funeral: ele, o ofendido, estendido no ataúde, com um sorriso bondoso nos lábios... Ela, pálida, torturada pelos remorsos, caminhando atrás do féretro, como uma Níobe, sem poder escapa aos olhares depreciativos e aniquiladores, lançados pela multidão indignada...

— Vejo, Mousieur, que lhe agrada o Smith & Wesson — comentou o empregado, interrompendo o devaneio — Se o acha muito caro, posso fazer uma redução de cinco rublos, embora tenhamos outros mais baratos.

A figurinha afrancesada girou graciosamente sobre os próprios tacões e alcançou na prateleira outra dúzia de estojos com revólveres.

— Aqui está outro, Mousieur. O preço, trinta rublos. Não é caro, se lembrarmos que o câmbio está baixo e que os direitos alfandegários sobem cada dia mais... Juro-lhe, Mousieur, que sou conservador, porém já começo a protestar! Imagine que o câmbio e a tarifa da alfândega são o motivo de que somente os ricos possam adquirir armas! Para os pobres nada mais resta que as armas de Tula, e os fósforos. E as armas de Tula são uma desgraça! Se alguém pretender disparar uma arma de Tula sobre a própria mulher, apenas consegue atingir a própria omoplata...

Repentinamente Sigaev entristeceu-se com a idéia de morrer e não contemplar os sofrimentos da traidora. A vingança unicamente é doce quando existe a possibilidade de ver e tocar seus frutos. Pois, que sentido encontraria em estar deitado no ataúde, se nada poderia perceber?!

“E se eu fizesse isto?... matá-lo, ir a seu enterro, ver tudo e depois me suicidar?... Sim.

Porém... antes do enterro eu seria preso e me tirariam a arma... Bem... O que farei será matá-lo e deixar que ela viva. Eu... enquanto não decorra um certo tempo, não me matarei. Serei preso. Para suicidar-me, sempre terei ocasião. Estar preso será melhor, pois que ao prestar declarações, terei possibilidade de demonstrar, ante o poder e a sociedade, toda a baixeza do seu comportamento. Se eu morresse, ela, com seu caráter desavergonhado e embusteiro, jogaria a culpa sobre mim, e a sociedade acabaria por absolvê-la.... de outro lado, talvez caçoe de mim, se continuo a viver... Então....”

Um minuto depois, pensava:

“Se... Talvez me acusem de sentimentos mesquinhos se eu me matar... E, depois, para que suicidar-me? Isso em primeiro lugar. Em segundo... o suicídio é covardia. Então, o que farei será matá-lo, deixá-la viver e eu irei para o cárcere. Serei julgado e ela figurará como testemunha... Veremos seu sobressalto e vergonha, quando precisar enfrentar meu advogado! Por certo que as simpatias do tribunal, do público e da imprensa estarão ao meu lado!...”

Enquanto assim devaneava, o empregado continuava a expor a mercadoria e considerava de seu dever, entreter o comprador.

— Veja aqui, outros, ingleses, de sistema novo, que recebemos há pouco. Porém, previno-o, Mousieur, de que todos os sistemas empalidecem diante do Smith & Wesson.

Por certo, terá lido, há poucos dias, acerca de um militar que comprara um Smith & Wesson em nossa casa, e que o usou contra o amante... E que imagina tenha acontecido?

A bala atravessou primeiro o amante, alcançou, depois o abajur de bronze, em seguida o piano de cauda e deste, como uma carambola, matou um cachorro pequinês e roçou a esposa... As conseqüências foram brilhantes e honraram nossa firma. O militar está preso agora... Por certo o condenarão a trabalhos forçados!... Em primeiro lugar, porque temos leis muito antiquadas , em segundo, porque já se sabe que o tribunal sempre toma o partido do amante. Por quê? Muito simples, Mousieur. Porque também o jurado, os juízes, o procurador e o advogado de defesa se entendem com esposas alheias e mais tranqüilos estão quando sabem de que um marido há na Rússia. A sociedade se encantaria, caso o Governo desterrasse todos os maridos para a ilha de Sajalin. Ah!

Mousieur! Não pode o senhor imaginar a indignação que me desperta este desmoronar dos costumes morais contemporâneos!... Nestes tempos, cortejar mulheres alheias causa tanto prazer quanto filar cigarros os outros ou pedir livros emprestados! Cada ano que passa, o nosso comércio declina, porém não significa que haja menos amantes... Significa que os maridos reconciliam-se com a situação e temem os trabalhos forçados — e o empregado, olhando em torno de si, sussurrou: - E quem é o responsável, Mousieur? O

Governo!

“Acabar em Sajalin, por causa de um porco... não, não é razoável”, refletiu Sigaev. “Se me condenam aos trabalhos forçados, somente conseguirei dar à minha mulher a possibilidade de casar-se outra vez e de enganar também ao segundo marido. O lucro será todo dela! O que farei então será isto: deixá-la viver, não me matar e nem matar a ele...

Devo imaginar algo mais prudente e sentimental. Castigá-los-ei com meu desprezo e encetarei escandaloso processo de divórcio...”

— Aqui está, Mousieur, um sistema novo — comentou o empregado, recolhendo de outra prateleira mais uma dúzia de revólveres. — Chamou-lhe a atenção para o mecanismo original do cão...

Porém, uma vez tomada aquela decisão, Sigaev não mais necessitava de revólver. Em compensação, o empregado, cada vez mais inspirado, não cessava de mostrar-lhe os artigos que tanto elogiava. O marido ofendido envergonhou-se de que, por sua causa, o sujeito estava trabalhando em vão, a entusiasmar-se e a perder tempo.

—Bem — balbuciou. — Será melhor que eu volte mais tarde ou mande alguém...

Conquanto não visse a expressão do rosto do empregado, compreendeu que, para suavizar a violência da situação, não havia outra saída que comprar algo. Porém, o que?

Seus olhos percorreram as paredes da loja, em busca de uma coisa barata, e se detiveram numa rede de cor verde, pendurada junto à porta.

— E isso? Que é isso? — perguntou.

— É uma rede para caçar codornas.

— Qual o preço?

— Oito rublos.

— Pois pode mandar embrulhar.

O marido ofendido pagou os oito rublos, passou a mão na rede para levá-la e, cada vez mais ofendido, saiu da loja.

— Fim —

Um caso médico

Tchekhov

Um telegrama enviado da fábrica dos Lialikov pedia ao professor que viesse o mais depressa possível.

A filha da Senhora Lialikov, que devia ser a proprietária da fábrica, estava doente; era tudo o que se podia perceber num longo telegrama mal redigido. Por isso o professor não esteve para se incomodar; contentou-se em enviar, para o substituir, o seu ajudante Koroliov. Tinha que se descer na terceira estação para lá de Moscovo e andar em seguida, de carro, quatro «verstas». Na estação, esperava o ajudante um carro de três cavalos. O

cocheiro tinha um chapéu de penas de pavão e, com voz vibrante, como um soldado, respondia sempre a todas as perguntas: «De modo algum!» ou «Exactamente!».

Era num sábado de tarde. Punha-se o Sol. Da fábrica para a estação vinham grupos de operários que cumprimentavam para o carro onde seguia o médico. Aquele fim de dia, os palacetes senhoriais e as casas de verão, dos dois lados da estrada, os amieiros, a calma impressão que de tudo se exalava, na hora em que, já quase a repousarem, os campos, os bosques e o Sol pareciam preparar-se para descansar e talvez até para rezar ao mesmo tempo que os operários — tudo isto encantava Koroliov.

Nascido e educado em Moscovo, o médico não conhecia o campo e nunca se tinha interessado pelas fábricas; nunca tinha visitado nenhuma; mas, depois do que tinha lido sobre este assunto, tinha-lhe acontecido estar em casa de proprietários e falar com eles. E, quando via de longe ou de perto uma fábrica, pensava que por fora tudo parecia calmo e pacífico, mas que lá dentro deviam reinar a impenetrável ignorância e o egoísmo obtuso dos proprietários, o trabalho aborrecido e insalubre dos operários, e as intrigas, e o

«vodka» e a bicharia...

E agora, à medida que se afastavam do carro com respeito e medo, lia no rosto do operário, nos bonés, no andar, a porcaria, o alcoolismo, o enervamento, o atordoamento em que viviam.

Entrou pelo portão grande da fábrica. Apareceram de ambos os lados as pequenas casas dos operários, figuras de mulher, e, às cancelas da entrada, roupa branca e mantas. O

cocheiro, sem segurar os cavalos, gritava: «Cuidado!».

Num pátio grande, sem o mínimo sinal de erva, levantavam-se cinco grandes corpos de edifícios com altas chaminés, afastados uns dos outros, com armazéns e alpendres, tudo mergulhado numa espécie de neblina cinzenta, como uma flor de poeira. Aqui e além, como os oásis no deserto, havia uns jardinzitos enfezados e os telhados verdes e vermelhos das casas da Administração. O cocheiro, sofreando de repente os cavalos, parou diante duma casa que fora há pouco pintada de cinzento. Os lilases do jardim estavam cobertos de poeira, e o pórtico, pintado de amarelo, cheirava fortemente a tinta.

— Faça favor de entrar, Senhor Doutor — disseram vozes de mulher à porta da entrada e no limiar da antecâmara.

Ouviram-se depois suspiros e murmúrios.

— Faça favor de entrar... Estamos à sua espera já há tanto tempo... Foi mesmo uma desgraça. Por aqui, faça favor...

A Senhora Lialikov, já de idade e corpulenta, vestida de seda negra e com mangas à moda, mas, pelo que parecia, simples e pouco instruída, olhava para o doutor com receio, sem se atrever a estender-lhe a mão; não ousava fazê-lo.

Perto dela, encontrava-se uma criatura de cabelos curtos, magra e já nada nova, que trazia uma blusa colorida e usava luneta. Os criados chamavam-lhe Cristina Dmitrievna e Koroliov adivinhou ser a governante. Como era a única pessoa instruída da casa, tinham-na sem dúvida encarregado de receber o médico, porque logo se apressou a expor, com pormenores de todo inúteis, as causas da doença, mas sem dizer quem estava doente nem de que se tratava. Koroliov e a governante falavam sentados, enquanto a dona da casa esperava, Imóvel, junto da porta. No decurso da conversação, veio Koroliov a saber que a doente era uma rapariga de vinte anos, Lisa, filha única da Senhora Lialikov. Estava enferma há muito tempo e já a tinham tratado vários médicos. Na noite anterior, sentira, desde a tarde, tais palpitações que ninguém em casa tinha dormido; chegara-se a recear que morresse.

— Ela, na verdade, tem sido doentinha desde criança — contava Cristina Dmitrievna com uma voz cantada e limpando ininterruptamente os lábios com a mão. — Os médicos dizem que são nervos, mas ainda em pequena meteram-lhe para dentro os humores frios, e daí é que vem todo o mal, acho eu.

Passaram ao quarto da doente. Já mulher, alta, bem feita, mas feia, parecida com a mãe, com os mesmos olhitos e a parte inferior do rosto larga e exageradamente desenvolvida, despenteada, os cobertores puxados até ao queixo, a rapariga deu de princípio a Koroliov a impressão de uma pobre criatura, enferma, recolhida por piedade. Ninguém acreditaria que fosse a herdeira dos cinco enormes edifícios da fábrica.

— Venho tratar de si — disse Koroliov. — Bom dia, Menina. Disse o nome e apertou-lhe a mão, mão grande, feia e fria. Ela soergueu-se e, já muito acostumada aos médicos, indiferente à nudez das espáduas e dos braços, deixou-se auscultar.

— Sinto umas palpitações — disse ela. — Toda a noite... foi uma coisa terrível... julguei que morria de medo. Dê-me qualquer coisa, a ver se isto acaba.

— Não tenha receio, vou já receitar.

Koroliov examinou-a e encolheu os ombros.

— O coração está bom — disse ele; — tudo vai bem, está tudo em ordem. Os nervos talvez um pouco abalados... mas é também coisa vulgar. A crise já passou, parece. Deite-se e veja se dorme...

Neste momento trouxeram um candeeiro. A doente piscou os olhos e, de repente, pousando a cabeça nas mãos, pôs-se a chorar.

E a impressão dum ser infeliz e feio desapareceu. Koroliov já não dava pelos olhos pequeninos nem pela parte do rosto anormalmente desenvolvida. Via uma suave expressão de sofrimento, muito comovedora e espiritual, e a rapariga, no conjunto, apareceu-lhe elegante, feminina e simples. E já a queria acalmar, não por medicamentos ou conselhos, mas por uma simples palavra graciosa. A mãe puxou a si a filha e beijou-lhe a testa. E na expressão da face, quanta tristeza, quanto desgosto!

Tinha criado e educado a filha sem se poupar a nada; tinha posto todo o cuidado em lhe mandar ensinar francês, música e dança. Tinha-lhe dado uma dúzia de mestres, tinha chamado os melhores médicos, tomado uma governante — e não compreendia donde vinham aquelas lágrimas e tantos sofrimentos! Não compreendia, atrapalhava-se e tinha uma expressão de culpabilidade; e andava desolada, inquieta, como se tivesse esquecido alguma coisa de muito urgente, como se tivesse tido alguma negligência, como se não tivesse chamado alguém. Quem? Não sabia...

— Lisaunka — disse ela, apertando a filha ao peito -, minha querida, minha pomba, minha filhinha, que tens tu? Diz à mãezinha... Tem pena de mim... Diz...

Ambas choravam amargamente. Koroliov, sentando-se na borda da cama, pegou na mão de Lisa.

— Vamos, não chore mais — disse-lhe ele com um tom de carícia -. Há lá razão para isso... Não há nada no mundo que seja digno dessas lágrimas. Vá, não chore mais. Assim não pode ser...

E pensou:

— Já era tempo de a casar...

— O médico da fábrica dava-lhe brometos — disse a governante — mas notei que só lhe faziam mal. Eu acho que para o coração o bom são umas gotas... ai, esquece-me o nome...

Junquilho, hem?

E recomeçou com os seus pormenores. Interrompia Koroliov, impedia-o de falar e lia-se-lhe no rosto o tormento que lhe causava pensar que, sendo a mulher mais instruída da casa, devia falar sem interrupção com o médico — e falar de medicina, claro.

Koroliov estava embaraçado.

— Não acho nada de especial — disse ele à mãe ao sair do quarto. — Como o médico da fábrica tratou sua filha, pode continuar. O tratamento que lhe deu até aqui foi bom; não vejo que seja preciso mudar. Para quê? É uma doença vulgar; não tem nada de grave...

Falava sem pressa e ia calçando as luvas; a Senhora Lialikov olhava-o de lágrimas nos olhos, imóvel.

— Ainda tenho meia hora até o comboio das dez; terei tempo de apanhá-lo, não...?

— O Senhor Doutor não desejaria ficar? — perguntou a mãe, e de novo as lágrimas lhe correram pela cara.

Custa-me tanto incomodá-lo; mas, pelo amor de Deus — continuou, a meia voz e voltando-se para a porta -, faça-me esse favor. Só tenho esta filha... Assustou-nos tanto a noite passada... Nem estou ainda em mim... Pelo amor de Deus, não se vá embora!

Koroliov ainda quis dizer que tinha muito que fazer em Moscovo, que a família estava à espera, que lhe era muito difícil passar uma tarde e uma noite fora da clínica; olhou para ela: suspirou e pôs-se a descalçar as luvas, silencioso.

Acenderam todas as velas e todos os candeeiros da sala e da saleta; sentado junto do piano de cauda, Koroliov folheou a música, depois foi contemplar os quadros e os retratos. Os quadros, com suas molduras douradas, eram vistas da Crimeia, um mar encapelado com um barquito, um monge católico com um cálice de licor — tudo pobre, lambido, sem talento... Nos retratos, nenhuma figura bela, interessante: faces largas, olhos espantados. Lialikov, o pai de Lisa, tinha a testa baixa e um ar satisfeito; o uniforme ficava-lhe como uma espécie de saco sobre o corpo grande e vulgar; no peito uma medalha e a insígnia da Cruz Vermelha. Cultura estreita, luxo de ocasião, um luxo que não tinha motivos nem vinha a propósito — como aquele uniforme. O brilho dos soalhos irrita, o lustre também; e pensa-se, nem se sabe porquê, na história do comerciante que ia tomar banho de medalha de honra ao pescoço... Na antecâmara havia murmúrios e alguém ressonava suavemente. De súbito, no pátio, ressoaram uns sons agudos, sacudidos, metálicos, que Koroliov nunca tinha ouvido e não soube explicar.

Ecoaram na sua alma dum modo bem desagradável e estranho.

— Acho que não ficava aqui por nada deste mundo — pensou ele.

E tornou a folhear a música.

A governante entrou e chamou a meia voz:

— Senhor Doutor, pode vir jantar...?

Koroliov seguiu-a.

A mesa, grande, estava coberta de aperitivos e de vinhos; mas só havia duas pessoas: ele e Cristina Dmitrievna. Ela bebia madeira, comia depressa e falava contemplando-o pela luneta.

— Os operários estão muito satisfeitos connosco. Todos os invernos dão nesta fábrica espectáculos em que eles próprios representam. Há também, naturalmente, conferências com projecções, uma sala de chá magnífica; e tudo o mais... Têm muita dedicação por nós; quando souberam que a Lisaunka estava pior, mandaram fazer umas rezas. São pouco instruídos mas têm muito bons sentimentos.

— Parece que não há nenhum homem em casa, não?

— Nenhum. Piotre Nikanorytch morreu há ano e meio e ficámos sozinhas. Vivemos as três, no Verão aqui, no Inverno em Moscovo. Já estou nesta casa há onze anos. É como se estivesse em minha casa.

Serviram esturjão, croquetes de frango e uma compota. Os vinhos eram caros, vinhos de França.

— Faça favor, Senhor Doutor... Não faça cerimónias... Coma — dizia Cristina Dmitrievna comendo e limpando a boca à mão (via-se que estava realmente à vontade).

Faça favor de comer.

Depois do jantar, levou o médico a um quarto onde lhe tinham preparado uma cama. Mas não tinha sono; o quarto era quentíssimo e cheirava a tintas; vestiu o sobretudo e saiu.

Fora, havia fresco. Já havia um prenúncio de alvorada e, no ar húmido, desenhavam-se os cinco edifícios, com as chaminés, os barracões e os armazéns. Como era domingo, não se trabalhava; as janelas estavam escuras e só duas, num dos edifícios onde ainda estava aceso um forno, pareciam incendiadas; de quando em quando, saía lume pela chaminé, de mistura com o fumo. Ao longe, para lá do pátio, coaxavam rãs e um rouxinol cantava.

Ao olhar os casarões da fábrica e as barracas dos operários, Koroliov voltou aos seus pensamentos do costume. Tinham-se instituído espectáculos para os operários, projecções, médicos privativos, toda a espécie de melhoramentos: mas os operários que ele vira de tarde, na estrada, em nada diferiam dos que tinha visto na sua infância, quando não havia para eles nem espectáculos, nem melhoramentos.

Era médico e tinha sido obrigado a fazer uma ideia exacta das doenças crónicas, cuja causa inicial é incompreensível e incurável; considerava do mesmo modo as fábricas como um equívoco cujas causas são também obscuras e inelutáveis. Todos os melhoramentos da sorte dos operários não lhe apareciam, claro, como supérfluos, mas comparava-os ao tratamento das doenças incuráveis.

— Há certamente um engano nesta coisa toda... — pensou olhando as janelas purpúreas.

Mil e quinhentos ou dois mil operários trabalham sem descanso, num ambiente insalubre, para fabricarem péssima chita. Vivem na fome e só de tempos a tempos a taberna os liberta do pesadelo. Uma centena de pessoas vigia-lhes o trabalho e a vida destes contramestres passa-se a aplicar multas, a proferir injúrias e a cometer injustiças. E só duas ou três pessoas, chamadas patrões, aproveitam com os lucros, apesar de não trabalharem e de terem desprezo pela chita ordinária. Mas que lucros! E de que maneira os aproveitam! A Lialikov e a filha são umas infelizes e mete pena vê-las. Só a solteirona, a estúpida Cristina Dmitrievna vive à vontade! E trabalha-se numa fábrica destas, com cinco oficinas, e vende-se má chita nos mercados do Oriente, para que uma Cristina Dmitrievna possa comer esturjão e beber madeira.

De repente, repetiram-se os sons estranhos que Koroliov tinha notado antes do jantar.

Perto de um dos edifícios, alguém batia numa placa metálica e logo amortecia a ressonância, de modo que os sons eram breves, ásperos, mal definidos, qualquer coisa como «dê... dê.. dê...». Depois, meio minuto de silêncio. E, perto do outro edifício, outros sons sacudidos, mas mais baixos, graves: «dran... dran... dran...».

Repetiram-nos onze vezes. Eram, evidentemente, os guardas a darem as onze horas. Junto do terceiro edifício, ouviu-se: «jak... jak... jak...». A mesma coisa diante de cada um dos edifícios, depois por detrás das barracas e às portas.

Parecia que, na calma da noite, os sons eram produzidos por um monstro de olhos de púrpura: o próprio Diabo, que era aqui o senhor de patrões e de operários e que a uns e outros enganava.

Koroliov saiu para os campos.

— Quem está aí? — gritaram-lhe, com voz grosseira.

— Exactamente como numa prisão — pensou ele.

E não respondeu nada.

Fora, ouviam-se melhor os rouxinóis e as rãs. Sentia-se o cheiro da noite de Maio. Da estação vinham ruídos de comboios; para outro lado, cantavam galos sonolentos; contudo, a noite estava calma: a natureza dormia pacificamente.

No campo, não longe da fábrica, erguia-se o esqueleto duma casa de toros; ao lado, encontravam-se materiais de construção. Koroliov sentou-se numas tábuas e continuou a pensar.

— Só a governante vive aqui a seu gosto e a fábrica trabalha para a satisfazer. Mas é apenas uma aparência; é uma personagem imaginária: o patrão para quem tudo se faz aqui é o Diabo.

E pensava no Diabo em que não acreditava. E voltava-se para as duas janelas que o lume iluminava.

Parecia-lhe que, por estes olhos de púrpura, o próprio Diabo o olhava: numa palavra, a força desconhecida que estabeleceu as relações entre os fracos e os fortes, o erro grosseiro que nada agora pode emendar. É necessário que o forte impeça o fraco de viver: tal é a lei da natureza. Mas isto não é compreensível e não entra facilmente no espírito senão à luz dum artigo de jornal ou dum manual. No tumultuar da vida quotidiana e no entrelaçar de todos os nadas de que se entretecem as relações humanas, não parece uma lei; é um absurdo lógico, no qual o forte e o fraco são vítimas das suas relações mútuas e se submetem involuntariamente a uma força condutora desconhecida, que reside fora da vida e é estranha ao homem.

Assim pensava Koroliov, sentado sobre as tábuas, invadido pouco a pouco pela impressão de que essa força desconhecida e misteriosa estava realmente perto dele e o contemplava.

Entretanto, o céu a leste empalidecia; os minutos precipitavam-se. Os cinco edifícios da fábrica e as chaminés tinham, sobre o fundo cinzento da madrugada, nessa hora em que não se via alma viva, em que tudo parecia morto, — os edifícios e as chaminés tinham um aspecto especial, diferente do de dia. Esquecia-se por completo que houvesse lá dentro motores a vapor, electricidade e telefones; mais depressa se pensava nas habitações lacustres e na cidade de pedra; sentia-se a presença de uma força grosseira, inconsciente...

E de novo se ouviu:

— Dê... dê... dê... dê...

Doze vezes.

Depois o silêncio — meio minuto de silêncio -, e, na outra extremidade do pátio:

— Dran... dran... dran...

— É bem desagradável, esta coisa... — pensou Koroliov.

E logo ouviu, num terceiro lugar:

— Jak... jak... jak...

O ruído era sacudido, áspero, exactamente como se estivesse aborrecido.

— Jak... jak...

Para dar a meia-noite foram precisos quatro minutos.

Depois, silêncio completo. E, de novo, a impressão de que tudo estava morto à volta.

Koroliov, depois de estar ainda algum tempo sentado, voltou para casa. Mas ficou ainda muito tempo sem se deitar.

Nos quartos vizinhos conversava-se. Ouvia-se o perpassar de pantufas e de pés descalços.

— Será uma crise? — pensou o médico.

Saiu para ir ver a doente. No quarto havia lá muita claridade; na parede da sala tremia um fraco raio de sol, através do nevoeiro da manhã. A porta estava aberta e Lisa sentara-se numa poltrona perto do leito, de roupão, envolta num xale e com os cabelos caídos. Os estores das janelas estavam corridos.

— Como se sente? — perguntou-lhe Koroliov.

— Obrigada...

Tomou-lhe o pulso, depois arranjou-lhe os cabelos que tinha sobre a testa.

— Não dorme? Está um tempo limpo, é a Primavera... Lá fora cantam os rouxinóis, e a Menina fica aí sentada, às escuras, a pensar não se sabe em quê...