'Um diário para Manoel de Coco' - uma experimentação documentária inspirada em Mário de Andrade por Domingos Luiz Bargmann Netto - Versão HTML

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Domingos Luiz Bargmann Netto

"Um diário para Manoel de Coco" – uma experimentação

documentária inspirada em Mário de Andrade.

Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação

em Ciências da Comunicação, Área de Concentração

II: Estudos dos Meios e da Produção Mediática,

Linha de Pesquisa – Técnicas e Poéticas da

Comunicação, da Escola de Comunicações e Artes

da Universidade de São Paulo, como exigência

parcial para obtenção do Título de Doutor em

Ciências da Comunicação, sob a orientação da

Profa. Dra. Marília Franco.

São Paulo

2008

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Domingos Luiz Bargmann Netto

"Um diário para Manoel de Coco" – uma experimentação

documentária inspirada em Mário de Andrade.

Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação

em

Ciências

da

Comunicação,

Área

de

Concentração II: Estudos dos Meios e da Produção

Mediática, Linha de Pesquisa – Técnicas e Poéticas

da Comunicação, da Escola de Comunicações e

Artes da Universidade de São Paulo, como

exigência parcial para obtenção do Título de

Doutor em Ciências da Comunicação, sob a

orientação da Profa. Dra. Marília Franco.

São Paulo

2008

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Domingos Luiz Bargmann Netto

"Um diário para Manoel de Coco" – uma experimentação

documentária inspirada em Mário de Andrade.

Comissão Julgadora:

São Paulo, ___________________________

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Agradecimentos

Agradeço o apoio da Profa. Marília Franco, da Profa.

Telê Ancona Lopez, do Prof. Flávio Motta, que me

estimularam a seguir com as idéias que resultaram

no texto/filme ora apresentado. Também, à Direção

do IEB – Instituto de Estudos Brasileiros e da FAU –

Faculdade

de

Arquitetura

e

Urbanismo,

da

Universidade de São Paulo, cujo apoio ao projeto

encaminhado para o FCEX – Fundo de Cultura e

Extensão da Pró Reitoria de Cultura e Extensão da

USP permitiu a produção do documentário “Um

diário para Manoel de Coco”.

Dedico esse trabalho a minha família,

Annick, Thiago, Isabella e Baki.

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"Um diário para Manoel de Coco" – uma experimentação

documentária inspirada em Mário de Andrade.

Resumo

Considerando o trabalho de Mário de Andrade na criação do texto O

Turista Aprendiz, que é ao mesmo tempo poético e referencial,

abordamos o diário de viagem como um gênero híbrido que explora

as fronteiras do real com o ficcional e propomos experimentar uma

produção de documentário que leve em conta as possibilidades de

intervenção criativa sobre o objeto documentado. Por sua vez, o

objeto-personagem escolhido, Manoel de Coco e sua história,

contribui criativamente para a construção da narrativa, dado o

caráter inventivo e lúdico de sua fala, que nos provocou. E a própria

busca por nosso personagem torna-se também um meio de

experimentação.

Palavras-chave: documentário experimental, filme processo,

narrativa híbrida, Mário de Andrade e cinema, metodologia da

criação.

"A Journal for Manoel de Coco" – a documentary experimentation

inspired in Mário de Andrade.

Abstract

Based on Mario de Andrade's creation of the text "O Turista

Aprendiz", whish is at the same time poetic and referential, our

approach to the travel journal sees it as a hybrid genre, one which

explores the boundaries between the real and the fictional, and we

propose to experiment a documentary production that takes into

account possibilities to intervene creatively in the documented

subject-matter. On the other hand, Manoel de Coco and his history,

contributed greatly to the construction of the narrative, given the

inventive and ludic features of his speech, which provoked us. It is

the very search for our character that becomes the means to

experimentation.

Key words: experimental documentary, process film, hybrid

narrative, Mário de Andradeand the cinema, creation methodology.

9

10

”UM DIÁRIO PARA MANOEL DE COCO” – uma experimentação

documentária inspirada em Mário de Andrade.

Sumário

Apresentação / Introdução, pág. 13

1 – Filme documentário pág. 33

1.1 – Novas tendências no filme documentário. pág. 38

2 – Literatura e Cinema pág. 48

2.1 – Cinema e Literatura no Brasil. pág. 61

2.2 – O diário como gênero híbrido. pág. 66

3 – Mário de Andrade, pág. 71

3.1 – Mário de Andrade, idéias e atitudes. pág. 72

3.2 – Mário e as viagens. pág. 88

3.3 – Mário, O Turista Aprendiz. pág. 98

3.4 – Mário, fotografia e cinema. pág. 109

4 – “Um diário para Manoel de Coco”, o filme (em mídia dvd) pág. 121

4.1 – making of literário. pág. 123

5 – Conclusão pág. 165

Bibliografia pág. 177

Anexo I – transcrição de depoimento “Manoel de Coco”. pág. 185

Anexo II – ficha de documento sonoro. pág. 191

11

12

Apresentação / Introdução

Trabalho na Universidade de São Paulo desde 1987, quando fui

contratado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo para

desenvolver a produção de vídeo junto aos alunos, professores e

pesquisadores, em áreas de interesse da instituição.

Minha graduação, bacharel em Geografia, 1980 USP, feita com

interesse e curiosidade não ofereceu, na época, perspectiva

profissional atraente para o meu perfil. A prática da fotografia, que

surgiu de maneira livre e descompromissada, ocupou o espaço de

trabalho. Pensei em unir fotografia e geografia, por via da percepção

e representação do espaço. Depois de um projeto encaminhado à

FUNARTE, não selecionado, engavetei mas não esqueci a idéia. Na

UNICAMP, em 1983, trabalhei com documentação fotográfica em

projetos de pesquisa e daí, o envolvimento com a produção de vídeo

foi apenas mais um passo.

Busquei aprimorar minha formação realizando cursos na área

de

cinema

iluminação

(Gilberto

Botura,

1987),

direção

cinematográfica (Carlos Reichembach, 1988); e ampliando as

atividades – Especialização em Divulgação Cientifica (Núcleo José

Reis ECA, 1993), Seminário Documentário em Debate (CINUSP,

Centro Maria Antonia, 2000), Antropologia Ecológica (Walter Neves,

2001), Gestão de Projetos (FIA FEA USP, 2002).

Com a dissertação de mestrado (ECA, 2000), apresentei uma

visão panorâmica do cinema e do audiovisual na história da

Universidade de São Paulo e adquiri o gosto por filmes antigos,

materiais sonoros e visuais perdidos por aí. Meus olhos e ouvidos

passaram a estar atentos aos sons e imagens que andam escondidos

em gavetas fechadas, em prateleiras empoeiradas. Ao manusear

filmes encontrados em diversos acervos das Unidades da USP cultivei

13

um prazer por trazer de volta à tela imagens esquecidas, em procurar

e encontrar registros do passado. Um prazer de bibliófilo como José

Mindlin, de um cinéfilo como José Luis Zagati.

Zagati é um singelo apaixonado por cinema, morador da

periferia de Taboão da Serra, São Paulo. Ex-catador de sucatas

instalou em sua casa o Mini Cine Tupi, onde faz exibições de filmes de

sua coleção para a comunidade local, nos finais de semana.

Em 2003, elaborei um projeto de documentário a se realizar

com materiais de arquivo, com cenas retiradas de filmes dos acervos

da USP, tendo como foco a história do cinema na Universidade desde

sua criação em 1934 e destacando a urgente necessidade de

preservação do seu patrimônio fílmico. Apresentei o projeto à

Comissão dos 70 anos da USP, vinculada à Pró Reitoria de Cultura e

Extensão Universitária e daí resultou “Filme partido”, 26’, finalizado

em 2004.

No início de 2004, ingressei na Pós Graduação da ECA para

realizar o doutorado tendo como projeto uma pesquisa sobre a

representação da memória na imagem e no som. Interessava

explorar as formas narrativas no documentário de vivificação do

passado.

Em meados de 2004, em visita a Flávio Motta, professor

aposentado da FAU USP, encontrei um material sonoro, uma fita de

áudio, que desencadeou uma série de acontecimentos os quais

resultaram numa nova diretriz para o meu projeto de doutorado.

Naquela ocasião, após atender ao propósito de nossa visita, uma

conversa para a produção de um documentário sobre Roberto Burle

Marx, Flávio nos mostrou um material que tinha guardado há muito

tempo. Retirou-se até sua biblioteca e voltou com um envelope

amarelo e um gravador de áudio, de fitas de rolo, portátil, marca

NATIONAL. Do envelope (que trazia impresso DA ANTROPOFAGIA A

BRASILIA) escorregou uma pequena caixa de papelão com o timbre

14

BASF contendo um carretel plástico com uma fita magnética

enrolada. Flávio propôs escutarmos a fita e pediu ajuda para ligar o

aparelho.

Depois

de

uns

quinze

minutos

de

suspense,

experimentando o funcionamento do aparelho que há muito não era

utilizado, passamos a escutar uma voz masculina, de homem feito,

sotaque do nordeste e que falava com muito respeito sobre ser

pessoa simples do sertão, iletrada, de poucas posses, mas de muita

experiência. Contava alguns episódios por ele vividos, destacando sua

participação na luta do coronel José Pereira contra o governador da

Paraíba, João Pessoa, na chamada “guerra de Princesa” em 1930.

Debochando da própria sorte, entre tiros e artimanhas para escapar

da morte, em certos momentos o depoente emitia uma sonora risada,

podemos dizer, uma estrondosa risada, de forte impacto em sua

narrativa. Postado junto ao gravador, Flávio acompanhava a falação

do sujeito gesticulando e movimentando a boca, como se estivesse

sendo dublado, como se a voz do nordestino fosse a voz dele. A

situação era muito engraçada e instigante – quem é essa pessoa que

fala? onde está sua identidade? Em seu sotaque, em seu gestual, em

suas palavras, na elaboração do fraseado? De onde vem essa fita

magnética, essa voz? O quê fazer com um relato oral sem

identificação?

Na caixinha da fita estava escrito “Manoel do coco” e uma data

– 1968. Porém na falação ninguém menciona o seu nome, algo como

“este é o fulano de tal”, não havia nenhuma documentação escrita

informando local, quem fez a gravação, qual a finalidade e muito

menos, dados sobre o tal sujeito. Num certo momento, ele fala que é

morador de São José do Egito, a pista mais substantiva para

descobrirmos quem era ele, qual a sua história.

E, o que chamava a atenção era a expressão oral da pessoa,

carregada de um forte sentimento de amor à vida e à própria cultura,

enfatizando o saber da gente simples do sertão e da astúcia em lidar

15

com as adversidades do ambiente semi-árido – era uma fala que

sugeria um personagem. Flávio havia recebido a fita do irmão que

por sua vez, a havia recebido de um amigo francês, e só isso. Não

sabíamos por que, quando, para quê. Flávio comentou ser possível tal

gravação estar vinculada ao grupo que se dedicara ao estudo da

cultura do nordeste e do cangaceirismo, em meados dos anos

sessenta, reunidos em torno do Instituto de Estudos Brasileiros, na

Universidade de São Paulo, grupo do qual participaram entre outros,

Maria Isaura Pereira de Queiroz e Marlyse Meyer.

Logo no início da gravação, uma voz com sotaque francês

anuncia a intenção – “gravar para fazer ouvir, os amigos que também

apreciam esse sertão cheio de folclore, cheio de histórias bonitas ...”

Um francês registrando a cultura do nordeste remete ao olhar

estrangeiro descobrindo e apontando para nós mesmos e dizendo: –

vejam como vocês são! Raymond Cantel, no final dos anos 50, no

Ceará, encantou-se com uma literatura popular em plena

efervescência, os folhetos de cordel. Se alguns folcloristas brasileiros

já haviam notado e registrado tal manifestação poética, como Silvio

Romero, Gustavo Barroso e Mário de Andrade, tardou a academia a

se interessar pelo fenômeno. O trabalho de Cantel trouxe destaque e

visibilidade aos folhetins, valorizando o estudo deles e questionando o

preconceito das elites sobre o valor da criação poética do povo.

Cantada nas feiras do nordeste, lida em voz alta para todos a

conhecerem, a poesia divertia e informava a população.

Cantel entrevistou Patativa do Assaré, que lhe falou: “no

mesmo gravador que estás gravando/ aqui no nosso ambiente/ tu

gravas a minha voz/ o meu verso, o meu repente/ mas gravador tu

não gravas/ a dor que o meu peito sente.”1

1 CANTEL, Raymond. Citado por Gilmar de Carvalho no Diário do Nordeste, Fortaleza, 24 de

março de 2002. Disponível em www.secrel.com.br/jpoesia/1gilmar.html#cantel, acessado em

09/10/2005.

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O nosso Manoel, que depois vimos saber corretamente que era

“de coco” e não “do coco”2, como estava escrito na caixinha da fita,

não se mostra poeta. No registro sonoro que dispomos mostra-se um

contador de histórias, um expressivo e divertido contador de histórias

que se dirige também ao gravador e diz: “qualquer história que o

senhor queira, eu sei contar... se quiser que grave uma história de

Lampião do começo ao fim, eu vou deixar gravada.”

Como tal figura surge em comunidades fortemente baseadas no

diálogo entre indivíduos, onde a tradição oral exerce ainda um poder

e tem um significado de atração na vida social, Manoel torna-se um

agente da cultura local.

Na oralidade, o papel do intérprete tem a maior importância, o

seu desempenho propicia reações emocionais e a participação do

público. A performance do interprete é responsável pela sua força

enquanto disseminador da cultura oral3. A memória faz um registro

duradouro quando compreendemos o que está sendo dito de forma

espontânea e prazerosa.

Em nosso caso, a oralidade de Manoel, que tem no corpo a

própria mídia, passa da voz viva para o meio eletrônico da fita

gravada. Esta operação de transmissão cria uma nova oralidade,

despojada da presença física, do gesto, da expressão facial,

propiciando uma hibridização de linguagens4.

Mas a fita tornara-se um não-documento, sem dados de sua

origem, de quem gravara e por que. Ficara apenas uma voz sem

passado, sem destinatário.

Terminada a audição da fita, guardado o aparelho, eu disse ao

Flávio que o material era um bom mote para um documentário, que

2 A origem do apelido, que foi incorporado a toda a família, será apresentada no capitulo 4.

3 ZUMTHOR, Paul. A Letra e a Voz. Trad. Amálio Pinheiro e Jerusa Pires Ferreira. São Paulo, Cia.

das Letras, 1993.

4 FERREIRA, Jerusa Pires. Oralidade, Mídia,Culturas Populares. São Paulo, Revista E (SESCSP),

10 de agosto de 2003, pg. 39-41.

17

ali se encontravam algumas questões importantes a serem

desenvolvidas, mas ele pareceu não dar atenção ao meu comentário.

Logo nos dias seguintes, trocamos telefonemas e mantivemos a

conversa sobre o tal Manoel de Coco. Assim, voltei a visitá-lo,

fizemos uma cópia da fita para transcrição e análise, preservado o

original, e firmamos um contato firme. Algum tempo depois, ele me

pediu que a fita original fosse depositada no Instituto de Estudos

Brasileiros da USP. Flávio se preocupava com o destino da fita visto

não haver ninguém formalmente responsável por ela, a quem pedir

autorização de uso; nenhum nome a quem solicitar qualquer

esclarecimento e que se responsabilizasse pela guarda do material.

A fita sonora, como material de pesquisa em Cultura,

Antropologia ou História, ao comentar um fato histórico – a “guerra

de Princesa” – carecia de informações para contextualizá-la como

relato oral. Tratava-se de uma voz forte, rica em expressividade,

porém sem identidade.

Tínhamos nas mãos um interessante material para discutir o

papel da oralidade, da memória pessoal e coletiva, das tensões que

surgem na transposição de um meio para outro. O semioticista russo

Iuri Lotman afirma que cultura é a luta pela memória e longevidade

das informações. Buscar a vivificação da palavra falada, pois, quando

se cala o último falante de certa língua, ou quando desaparece a

identidade da pessoa que fala, aí podemos dizer que a memória e a

cultura estão em risco5. Assim, podemos lembrar Macunaíma, quando

Mário de Andrade remexeu com vigor em todo o nosso passado

lingüístico.

Propomos então nos empenhar para tornar o registro sonoro de

Manoel de Coco um documento, acrescentando-lhe informações que

permitam a sua análise, estudo e indexação.

5 FERREIRA, Jerusa Pires. A Longevidade dos Códigos, entrevista a Carlos Adriano. Disponível

em www.uol.com.br/tropico, acessado em 15/02/2005.

18

Percebi ainda, em Manoel, a figura do sertanejo que incorpora

características essenciais do modo de vida rural, em geral

decorrentes de profunda miséria. Uma vida elementar, rudimentar e

cheia de sensualidade, esperteza e moral escassa. Encontramos em

Marlyse Meyer uma análise do personagem de teatro “Ruzante”, de

Ângelo Beolco, que marca bem o perfil do “palhaço de rua”, do

animador cultural, que Manoel sugere ser. “Ruzante” está sempre a

contar lorotas em que se atribui proezas incríveis e façanhas

astuciosas. A imaginação poderosa mistura suas fantasias com a

realidade6, criando um texto improvisado e espontâneo, inspirado nas

coisas populares. Esse contraste entre o que ele é e o que gostaria de

ser dá ao personagem uma prodigiosa força cômica e, ao mesmo

tempo, uma profunda e comovente humanidade.

Como viríamos a descobrir depois, durante a pesquisa

realizada, o nosso Manoel tem uma boa dose de “Ruzante”. Em sua

histórias realidade e fantasia se fundem e seu papel vai do palhaço ao

herói em proezas que chegam às raias do absurdo e totalmente

gratuitas. Manoel apropria-se da realidade transportando-a para a

fantasia, modificando-a para melhor cumprir seu papel protagonista.

Incumbido de fazer o depósito do material no IEB USP, a

orientação de Flávio era de apresentá-lo à Profa. Telê Ancona Lopez e

em seguida efetuar a entrega. Quando procurei a profa. Telê, já

estávamos em dezembro de 2004; ela prontificou-se a escutar a fita

e muito apreciou o relato de Manoel de Coco. Com satisfação,

encaminhou-me ao Arquivo Audiovisual do IEB, apresentando-me à

pessoa responsável pelo recebimento de materiais, nos despedimos

com simpatia, sem nenhum compromisso de novos contatos.

No início de 2005, ao fazer a matrícula na pós-graduação, numa

varredura mais ampla sobre as disciplinas oferecidas por outras

6 MEYER, Marlyse. A “Moscheta” de Angelo Beolco, o “Ruzante”, in: Pirineus, Caiçaras…

Deambulações literárias. São Paulo, Conselho Estadual de Cultura, 1967, pg. 7-23.

19

Unidades da USP, encontrei “O Turista Aprendiz: dimensões de um

diário de viagem”, na área de Literatura Brasileira, ministrada por

Telê Ancona Lopez. Como eu já havia feito matricula na ECA (“A

representação da História no cinema e na televisão”, prof. Eduardo

Morettin), e não havendo necessidade de cursar outras disciplinas,

propus à profa. Telê acompanhar suas aulas como aluno ouvinte, o

que foi aceito sem ressalvas. Envolvido pela fluência elegante e culta

da professora e por sua abordagem instigante, meu interesse nas

aulas cresceu.

A análise d’O Turista Aprendiz, de Mário de Andrade, destacou

aspectos que considerei similares a procedimentos de documentarista

que venho adotando e, da maior importância. Passei a compreender o

diário de viagem como um gênero híbrido, na fronteira entre

documentário e ficção, sinalizando uma zona de confluência de duas

linguagens – a escrita e a cinematográfica, o que poderia render uma

boa experimentação.

O diário de viagem é um relato que registra um percurso, é

descritivo ao focalizar o ambiente sociocultural, histórico-geográfico;

é “educativo”, e também expressa as impressões do viajante, suas

sensações e emoções. É um testemunho impregnado da vivência

pessoal. Ainda, o diário é uma narrativa de registro e de invenção,

apresenta a referência ao real vivido, o documental, e ao imaginário,

o ficcional, que expressa os anseios e desejos pessoais.

“Na literatura, a viagem parece ser a metáfora

mais freqüente e diferenciada. Aí ela adquire muitos

significados e muitas conotações. O caminhante devaneia

sobre a estrada e a travessia, o que vê e o que não vê, o

que aprende e o que imagina que sabe. Pode descobrir

20

que na parte ressoa o todo, que o singular carrega o halo

do universal.”7

A partir dessa perspectiva, colocamos Manoel de Coco como um

tipo que, junto à sua história pessoal, revela também uma

personagem freqüente na história universal.

Se por um lado, a viagem assusta certas pessoas, tirando-as da

rede de pertencimentos, das obrigações que lhes conferem um lugar

e um papel no mundo, por outro, o deslocamento representa para

muitos um desafio, uma fuga, um rompimento com as certezas.

Significa a busca de uma nova compreensão de si mesmo e a

descoberta do outro.

Mário de Andrade é do grupo de estudiosos que vai iniciar o

estudo das ciências sociais no Brasil. Recolhendo cenas, artefatos,

músicas, seguindo itinerários muitas vezes coincidentes: o Amazonas,

o Nordeste, a Salvador, Bahia, as cidades antigas de Minas Gerais.

Carregam em si o olhar da geografia, da arquitetura, da etnologia.

“À medida que viaja, o viajante se desenraiza,

solta, liberta. Pode lançar-se pelos caminhos e pela

imaginação, atravessar fronteiras e dissolver barreiras,

inventar diferenças e imaginar similaridades. A sua

imaginação voa longe, defronta-se com o desconhecido,

que pode ser exótico, surpreendente, maravilhoso, ou

insólito, absurdo, terrificante.”8

Se a viagem sugere ao viajante libertar-se, o relato de viagem

confirma o espaço aberto pela diluição da fronteira entre o real vivido

e o imaginado, para misturar a ficção com o documental.

A partir da fita de áudio que estava com Flávio Motta, com a

voz de “Manoel do Coco”, e da leitura de O Turista Aprendiz conforme

7 IANNI, Octavio. “Metáfora da viagem”, in: Enigmas da Modernidade-mundo. Rio de Janeiro,

Ed. Civilização Brasileira, 2000, pg. 28.

8 op. cit. pg. 31.

21

análise de Telê Ancona Lopez, surge a idéia de um documentário

baseado na estrutura narrativa do diário de viagem de Mário de

Andrade, como experimentação de uma produção audiovisual

relatando a busca da identidade, da história, do personagem Manoel.

Interessa observar que, em 1927, quando Mário de Andrade

empreende viagem ao Amazonas, o escritor está impregnado da

criação de Macunaíma. Isso comparece na percepção do viajante e se

reflete no seu diário de viagem.

Vamos então avançar com a proposição de um filme

documentário que não só se inspira no texto O Turista Aprendiz, mas

também no processo de trabalho do escritor, na época, fortemente

marcado por Macunaíma,

“O jogo da escrita é comandado pelos fragmentos

de discursos, retalhos de textos que constroem o

enunciado e o perfil de um “herói sem nenhum caráter”.

Macunaíma, o herói civilizador dos relatos colhidos por

Koch-Grünberg, representa um amalgama de diversos

personagens do folclore, a encarnação das contradições

de um herói sem identidade nacional, logo, sem caráter:

preguiçoso, sonhador, falante, inocente e astuto.”9

O que nos faz lembrar de Manoel, sem dúvida, um forte

candidato a ser Macunaíma.

Assim

como

Mário

de

Andrade

recolhe

fragmentos,

atravessando geografias e histórias de todos os tempos; assim como

Manoel brinca com as palavras e cria um mundo de fantasia inspirado

no real, este projeto também vai criar e coletar fragmentos de uma

viagem para a construção de uma narrativa diarística em vídeo.

A narrativa, como um dos tipos textuais que mais

reconfigurações sofreu, passou por adaptações nos vários suportes

9 SOUZA, Eneida Maria. A Pedra Mágica do Discurso. Belo Horizonte, Ed. UFMG, 1999, pg 43.

22

(oral, escrito, gráfico, sonoro, audiovisual), e, em cada um deles,

ressurgiu modificada em novas estruturas. Da tradição oral presencial

foi para a oralidade do rádio e das gravações. Das narrativas

literárias, para as histórias em quadrinhos, para o cinema,

“A dinâmica da narrativa apenas evidencia como um

gênero representa um ‘nicho’ semiótico que as gestões

culturais não se cansaram de reinventar. E por que a

narrativa foi e continua sendo um gênero tão importante

para a cultura? Porque em toda a narrativa existe o

gérmen de uma aventura que explora um elemento vital

ao homem e à cultura: o deslocamento, o movimento

rumo ao desconhecido, à descoberta. Por representar o

deslocamento no tempo (chronos) e no espaço (topos), a

aventura foi considerada o elemento mais importante do

romance, o cronotopo privilegiado de tudo que se pode

chamar narrativa, segundo o teórico russo Mikhail

Bakhtin. Na aventura, estão impressas as marcas do

tempo e do espaço. O tempo das aventuras é sempre um

tempo de mudanças, de acasos, de renovação.”10

Entendido como capítulo inicial do cinema documental, o filme

de viagem apresenta uma série de características que merecem ser

recontextualizadas

no

âmbito

da

produção

audiovisual

contemporânea. E aqui, o diário de viagem vem cumprir o papel de

estrutura narrativa.

Para tanto, o documentário se organiza em torno de uma

narração na primeira pessoa, no relato do dia a dia, na fragmentação

do tempo desobrigada de continuidade, na mistura freqüente de

objetividade e subjetividade. O diário, gênero híbrido, vem abrir a

possibilidade de uma narrativa densa, como um hipertexto,

10 MACHADO, Irene. Por que se ocupar dos gêneros? In: Revista SymposiuM, ano 5, n. 1,

UNICAP, 2001, pg. 9.

23

permitindo múltiplas escritas, múltiplas leituras. Seguindo os passos

do escritor,

“O projeto de Mário de Andrade, intertextual ‘avant

la lettre’, consiste na articulação de um texto que se

apresenta como plural, em que a figura do autor se esvai

e se multiplica nos enunciados de que se apropria. O

comércio livre dos signos torna-se moeda corrente,

através da qual varias vozes circulam sem autoridade

nem lei específicas... segundo Mário, Macunaíma

caracteriza-se como resultado de um ato de apropriação e

de roubo, uma dívida contraída no nível dos empréstimos

literários, assim como um montante de textos adquiridos

a título de débito a outras culturas”.11

Também o documentarista se apropria de coisas que não lhe

pertencem, mesmo que provocadas por ele, mas inequivocamente

compartilhadas com outros. São os fragmentos da paisagem, os

rostos e as vozes, sons, as cenas roubadas no percurso da produção

audiovisual que depois, no momento da montagem, serão

reelaborados. Será na ordenação dos fragmentos de imagem/som

que a força da linguagem vai se manifestar, quando poderemos fazê-

las dizer mais do que jamais disseram antes, quando o

documentarista atribui o sentido do filme.

O cinema documentário trabalha muito mais com o imprevisto,

ganhando vida a partir do que o realizador encontra nas ruas,

fazendo com que o filme siga regras muito próprias e só se faça

conhecer depois do processo de montagem.

No decorrer das aulas sobre O Turista Aprendiz a idéia foi

apresentada à Profa. Telê, que aceitou apoiar uma solicitação de

recursos ao FCEX – Fundo de Cultura e Extensão da Pró Reitoria de

11 SOUZA, Eneida Maria. A Pedra Mágica do Discurso. Belo Horizonte, Ed. UFMG, 1999, pg 33.

24

Cultura e Extensão Universitária da USP, para a produção do

documentário.

Em maio de 2005, com o apoio do IEB, encaminhamos ao FCEX

o projeto “Um diário para Manoel de Coco”. Aprovado em agosto,

porém com a liberação de somente um terço da verba solicitada;

após uma argumentação a favor de um acréscimo ao valor concedido,

em setembro de 2005 pudemos iniciar os preparativos da produção,

ainda assim, com metade dos recursos inicialmente previstos. Diante

de tal situação, decidiu-se pela realização de uma viagem a

Pernambuco com o objetivo de obter esclarecimentos sobre quem era

Manoel, sua história, sua vida, aspecto que consideramos prioritário

para o desenvolvimento do projeto. Com o apoio da FAU USP, que me

concedeu liberação e o empréstimo de equipamentos de vídeo, a

viagem ocorreu do dia 19 de outubro ao dia 06 de novembro de

2005. Eu a realizei acompanhado de Silvio Cordeiro, na qualidade de

técnico especializado em captação de som, mas também parceiro de

idéias. No decorrer da viagem e na realização de entrevistas, utilizei

câmera de vídeo, câmera de fotografia e um gravador “de bolso” de

áudio digital, resultando de todo esse material o diário audiovisual. A

escrita também foi usada para registrar o diário da viagem – a busca

por Manoel de Coco. Tal relato será apresentado no capitulo 4.

Nas entrevistas, a estratégia de abordagem era apresentar a

voz de Manoel de Coco. Para isso, levamos um pequeno aparelho de

áudio portátil e uma fita K-7, e eu perguntava se conheciam tal

pessoa. Essa proposição desencadeava uma conversa que se

desenvolvia nas mais diversas direções.

A primeira viagem cumpriu um papel de pesquisa e iniciou a

produção do documentário. No retorno, conhecendo a história de

Manoel e várias outras histórias relacionadas, a análise das

informações coletadas estimularam a criação de cenas a serem

25

produzidas para compor o documentário “Um diário para Manoel de

Coco”. Para tanto, fez-se necessária a segunda viagem.

Com apoio do IEB, da profa. Telê, da FAU, encaminhamos um

novo pedido de recursos ao FCEX, em agosto de 2006. A resposta foi

positiva, novamente com corte no orçamento, apenas 50% aprovado.

Não era a condição desejada, mas a possível.

Aprovado pela banca de qualificação em dezembro de 2006,

senti-me estimulado a dar seguimento ao trabalho. Inicialmente, a

segunda viagem estava prevista para abril/maio de 2007, porém

fomos empurrados pelo movimento grevista que se instalou na

Universidade nessa época. A dedicação ao trabalho na FAU

transformou-se muitas vezes em dificuldades na realização de

pesquisas e no tempo para estudos. A perseverança venceu, apesar

do prazo de conclusão avançar sobre mim assustadoramente

(fevereiro de 2008, depois prorrogado para maio).

No dia 28 de outubro de 2007, acompanhado por Antonio

Gonçalves, assistente técnico e fiel companheiro de inúmeras

produções, partimos para Recife num roteiro que iria passar por São

José do Egito, Santa Terezinha, em Pernambuco, por Princesa Isabel,

Campina Grande, Areia, Cabaceiras e João Pessoa, Paraíba.

Retornamos em 12 de novembro.

Todo o material gerado nas duas viagens – 35 horas de

gravações, 1.200 fotografias, 03 horas de registros de áudio e muitas

páginas de diário de viagem, compõem a base para o prosseguimento

do projeto.

É em torno da produção desse documentário, intitulado “Um

diário para Manoel de Coco”, que se desenvolvem as questões

centrais desta tese.

A tradição documentária traz consigo a marcante presença do

autor como aquele que, por suas escolhas e conduta, imprime na tela

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seu ponto de vista. Muitas vezes, uma equipe de filmagem é um

grupo de pressão sobre as pessoas e ambiente onde se está

filmando. Essa presença pode se tornar um obstáculo para a boa

fluência das relações interpessoais em jogo; reduzir o número de

componentes da equipe é uma forma de contornar o problema; outra,

é com as atitudes e modos de relacionamento que vão se

estabelecendo.

“Quando há seres vivos perante a câmera, é

preciso deixá-los assumir o papel deles, é preciso dar-

lhes essa liberdade. Se as escolhas são boas e o

momento é bem escolhido, tudo se passa bem. ... O

desaparecimento da ‘mise en scène’. É disso que se trata.

O abandono de todos os elementos indispensáveis do

cinema atual, e digo com muita prudência que a ‘mise en

scène’, no sentido atual do termo, poderia desaparecer

neste gênero de processo”.12

Inicialmente, vamos verificar o estado da arte do documentário

apresentando uma visão panorâmica sobre essa produção de não

ficção e as novas tendências que se manifestam no mundo. Assim,

questões relativas à presença do autor no documentário, os filmes de

viagem como processo de descoberta/invenção do eu e do outro, a

representação da viagem nas imagens, são matéria de interesse para

começarmos a desenvolver nossa proposta.

Envolvendo a Literatura e o Cinema, partimos de uma

retrospectiva de relações entre a arte cinematográfica e o texto

literário e as experimentações do cinema “puro” dos anos 1920. Por

outro lado, vamos analisar as formas de narrativa do gênero “diário”,

buscando desvendar os processos de hibridismo que diluem a

12 KIAROSTAMI, Abbas. Dez, entrevista a Patrice Blouin e Charles Tesson, Cahiers du Cinema,

setembro de 2002. Disponível em www.atalantafilmes.pt, acessado em10 de maio de 2005.

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fronteira do real com o ficcional. Esta será a segunda etapa de nosso

percurso.

Dentre as várias acepções para o termo “literatura”, e no

interesse das relações desta com o processo de criação

cinematográfico, vamos tomar o sentido apontado por Félix Gaffiot13

em que o “literário” significa “gerar e fabricar”, entendido como um

movimento de dentro para fora, um delineamento que possibilita a

concretização do imaginário. Segundo tal definição, Telenia Hill14 vê a

essência do “literário” representada na forma verbal latina fingere.

Para a autora, quando se fala em imaginário, quer tratar-se do que

ainda está no campo semântico de fingere, de algo que se situa na

imaginação e que necessita de uma força de impulsão para

exteriorizar-se por meio de uma forma. Portanto, num estágio

criativo da elaboração do pensamento, a coisa imaginada se auto-

formata e surge como obra.

Fingere, do verbo latino fingo: modelar em barro; modelar em

qualquer substancia plástica, formar, representar, esculpir; imaginar,

inventar, fingir; ficção. (conforme dicionário Latin – Português, Porto

Editora).

Segundo Luiz Costa Lima15,

“A distinção da literatura com a história não é tão

simples. Como dirão os romanos, a res facta, objeto da

escrita da história, não se confunde com a res ficta,

matéria dos escritores. Contudo os próprios antigos, com

exceção de um Aristóteles, não se empenharam na

distinção. Para potencializar os equívocos que se

seguirão, o próprio termo latino, fictus, tinha um duplo

13 In: HILL, Telenia. Estudos de Teoria e Crítica Literária. Rio de Janeiro/Brasília. Ed. Francisco

Alves/INL, 1989, pg. 22.

14 ibdem

15 In: Literatura: a questão renovada. Disponível em http://www.pacc.ufrj.br/literatura/

polemica_ costalima.php, acessado em 09/02/2008.

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sentido: sua raiz, ‘fingere’, significava usualmente algo