Um enjeitado e um sargento de milícias: formação do indivíduo e do romance por Gabriela Hatsue Yuasa Azeka - Versão HTML

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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE LETRAS MODERNAS

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS LINGÜÍSTICOS E LITERÁRIOS EM INGLÊS

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)250$d2 '2 ,1',9Ë'82 ( '2 520$1&(

GABRIELA HATSUE YUASA AZEKA

Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação

em Estudos Lingüísticos e Literários em Inglês,

do Departamento de Letras Modernas da

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências

Humanas da Universidade de São Paulo, para a

obtenção do título de Doutor em Letras.

ORIENTADORA: PROFª DRA.SANDRA G. T. VASCONCELOS

SÃO PAULO

2005

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE LETRAS MODERNAS

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS LINGÜÍSTICOS E LITERÁRIOS EM INGLÊS

80 (1-(,7$'2 ( 80 6$5*(172 '( 0,/Ë&,$6

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GABRIELA HATSUE YUASA AZEKA

SÃO PAULO

2005

3DUD 0DUFRV

³0HOKRU p VHUHP GRLV GR TXH XP ´

AGRADECIMENTOS

A Deus, pela oportunidade de crescer e pelo sustento fiel ao longo de todo o percurso;

A Marcos, meu esposo, presente de Deus, companheiro carinhoso de todas as horas e

incentivador imperturbável deste e de tantos outros projetos em nossas vidas;

A Key e Teresa, meus pais, por seu exemplo de vida, pelo amor, pelas orações

incessantes e pela apreciação da tese em seus momentos finais; a Lucas, Megumi, André,

Sheila e Cristina, meus irmãos e cunhadas, sempre disponíveis e constantes no afeto e no

companheirismo;

A Kenzo e Kimiyo Azeka, meus sogros, e à Áurea, minha cunhada, pela maneira

amorosa com que me receberam em seu lar e como parte de sua família no decorrer do

segundo ano do programa;

À Profª. Dra. Sandra Guardini Teixeira Vasconcelos, pela inspiração de sua prática

profissional exemplar e por sua criatividade em uma vida intelectual íntegra e bem

fundamentada. Sua orientação precisa, sua paciência dedicada e seu encorajamento amigo

foram uma constante fundamental neste projeto - que nasceu nas aulas da graduação, passou

pelo mestrado e culmina aqui - marcando minha vida muito mais do que ela mesma pode

imaginar;

Ao Profº. Dr. Jorge de Almeida, pelas sugestões à pesquisa feitas durante o Exame de

Qualificação, bem como pelo convite para assistir a uma de suas aulas ministradas no

Programa de Pós-Graduação, ambos igualmente importantíssimos na definição dos rumos

deste trabalho;

À Profª Dra. Maria Eulália Ramicelli, amiga e companheira de estudos desde a

graduação, pela amizade e estima que tornaram a vida (dentro e fora da universidade) mais

gratificante, bem como pela amável disposição de ler o trabalho e fazer comentários em prol

de seu melhoramento;

Aos colegas da turma de orientandos de iniciação científica e pós-graduação da Profª.

Dra. Sandra Guardini Teixeira Vasconcelos, pelos bons momentos de discussão teórica em

nossos seminários, bem como pelas risadas e pelo companheirismo que marcaram esta nossa

fase de convivência acadêmica;

À Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP – pela bolsa de

estudos em nível de doutorado que me foi concedida, ampliando os recursos e a

disponibilidade para a pesquisa e para a participação em eventos significativos da área.

SUMÁRIO

5HVXPR

L L

$EVWUDFW

LY

,QWURGXomR

&DStWXOR , $ 7UDGLomR GR *rQHUR

7RP -RQHV e a Picaresca

14

7RP -RQHV e o Romanesco

26

7RP -RQHV e a Tradição Neoclássica

39

0HPyULDV GH 8P 6DUJHQWR GH 0LOtFLDV: o Romance Brasileiro em Formação

61

&DStWXOR ,, $ 1RomR GH ³1REUH]D $ULVWRFUiWLFD´

A Degradação da Honra em 7RP -RQHV

73

A Ausência de Honra nas 0HPyULDV

92

&DStWXOR ,,, $V &ODVVHV ,QIHULRUHV H D 3UHWHQVmR j )LGDOJXLD

Dissimulação, Orgulho e Eloqüência Verbal

115

Intenção YHUVXV Condição

137

A Diferença Entre os Dois Mundos

147

&DStWXOR ,9 $ 4XHVWmR GR &DVDPHQWR $PRU YHUVXV &RQYHQLrQFLD

A ‘Ética do Melhoramento’ Inglesa

154

L

E Viveram Felizes…Para Sempre?

179

&DStWXOR 9 (VVrQFLD H $SDUrQFLD QD ,URQLD

A Traição da Ironia

200

Intenção Burlesca, Moralismo e Norma

224

&RQFOXVmR

%LEOLRJUDILD

L

RESUMO

Este trabalho busca investigar o processo de formação do romance enquanto gênero

literário na Inglaterra do século XVIII, a partir do paradigma estabelecido por Henry Fielding

(1707-1754) em 7RP -RQHV (1749), bem como suas reverberações no processo de formação

do romance brasileiro em meados do século XIX, através do exame de 0HPyULDV GH XP

VDUJHQWR GH PLOtFLDV (1854), de Manuel Antônio de Almeida (1831-1861).

Propomos que 7RP -RQHV incorpora em sua composição uma tensão entre as

chamadas esferas da essência e da aparência, ou entre o âmbito interior, privado e individual

frente àquele do exterior, público e inerente ao mundo das convenções sociais, o que remete

não apenas ao momento de formação do gênero em questão, mas também às condições

históricas do meio onde o romance é produzido a partir da configuração da noção de

indivíduo burguês. Tal embate não se articula nas 0HPyULDV com a mesma complexidade e

desenvoltura: novamente isso traz à discussão não somente o momento de formação do

romance em solo nacional, mas também a peculiaridade das condições históricas brasileiras,

pouco propícias à configuração da noção de indivíduo à época da publicação do livro.

Palavras-chave: Fielding, Almeida, formação do romance, formação do indivíduo; romance

inglês e brasileiro.

L L

ABSTRACT

This thesis aims at investigating the formation of the novel as a literary genre in

eighteenth-century England, from the perspective of the paradigm established by Henry

Fielding (1707-1754) in 7RP -RQHV (1749), as well as its reverberations in the formation of

the Brazilian novel in mid-nineteenth century, through the examination of 0HPyULDV GH XP

VDUJHQWR GH PLOtFLDV (1854), by Manuel Antônio de Almeida (1831-1861).

We argue that 7RP -RQHV incorporates in its composition the tension between the so-

called spheres of the essence and the appearance, or between the scope of the internal, private

and individual as opposed to what is external, public and inherent in the world of social

conventions. Such a struggle leads us not only to the moment of genre formation, but also to

the historical conditions in which the novel is produced, from the perspective of the rise of the

bourgeois individual. Such a tension is not articulated in the 0HPyULDV with the same level of

complexity and effectiveness: once more, that brings us not only to the moment of genre

formation on Brazilian soil, but also to the peculiarity of the Brazilian historical conditions,

not much favourable to the configuration of the notion of the individual at the time the book

was published.

Keywords: Fielding, Almeida, genre formation, rise of the individual; English and Brazilian

novel.

LY

INTRODUÇÃO

“...um problema de filiação de textos e de fidelidade aos contextos”. A frase de

Antonio Candido 1, com alguma ressalva, pode ser tomada sem temor como a questão central

deste trabalho. Pois o desafio tem sido, desde o primeiro momento, estabelecer um estudo

comparativo entre 7RP -RQHV e as 0HPyULDV GH XP VDUJHQWR GH PLOtFLDV, sem no entanto

desmerecer a peculiaridade das condições históricas de seus respectivos meios enquanto

elemento ativo e essencial em sua composição. Desse ponto de vista, a escolha destes dois

romances como matéria de estudo não é, pois, fortuita, antes obedece a algumas considerações

que julgamos apropriado explicitar ao leitor.

Com efeito, estamos nos referindo acima de tudo ao momento de formação do gênero,

o que nos remete de imediato à Inglaterra do século XVIII. Esta apresentava nesse instante um

quadro favorável à germinação de uma nova forma literária. Era então o único país da Europa

e do resto do mundo a reunir em si uma economia estável, pautada por um capitalismo

florescente e tecnologia industrial em pleno desenvolvimento; uma sociedade em revolução,

mais secularizada e com seus setores burgueses em ascensão; uma incorporação profunda dos

novos conceitos filosóficos de Descartes e Locke e dos valores do Protestantismo e uma

sólida tradição de defesa da propriedade privada. Por meio de alguns poucos escritores de

peso, tal cenário, marcado por profundas transformações, em breve se fez sentir no campo da

1 Antonio Candido. “De cortiço a cortiço”. IN: 2 GLVFXUVR H D FLGDGH São Paulo/Rio de Janeiro, Duas

Cidades/Ouro sobre Azul, 2004. p. 106.

1

,QWURGXomR

literatura, o que a levou à criação de uma tradição própria que, sem dificuldades, logo se

tornou referencial para a definição e consolidação do gênero.

Em meio ao debate conceitual e teórico que se estabelece entre os romancistas dessa

época, Henry Fielding (1707-1754) naturalmente ganha projeção – a começar pelo seu perfil

enquanto escritor. Nascido em berço aristocrata, filho de um fidalgo endividado mas bem-

sucedido na carreira militar, neto de um vice-bispo de Dorset recompensado pelos reis

William e Mary com uma capelania real, Fielding foi educado por professores particulares

antes de ingressar em Eton e posteriormente na Universidade de Leiden. Com tal educação

formal, enveredou pelos caminhos da dramaturgia, da advocacia e do jornalismo antes de

fixar-se definitivamente como romancista. Sua posição na hierarquia social o distancia, assim,

da grande maioria dos romancistas ingleses, em especial de Daniel Defoe e Samuel

Richardson, seus contemporâneos. Dada a sua formação, não é de se estranhar que a sua obra

apresente características um tanto diversas daquelas dos romances que a precederam. Fielding

é o primeiro grande escritor inglês dessa época a demonstrar uma postura crítica contrária às

tendências inovadoras do gosto literário propostas pelo novo gênero e, se sua evolução como

escritor mais tarde revela uma mudança de opinião em alguns aspectos, tanto mais enfatiza

uma constante e incansável experimentação em busca dos melhores mecanismos para

expressar o gênio de sua criatividade.

Imbuído como estava de uma formação acadêmica de primeira linha, seria natural

encontrar em sua definição do gênero os rastros de tradições literárias anteriores e, até certo

ponto, ainda vigentes no meio intelectual ao qual pertencia. E, com efeito, é o que se pode

constatar em sua obra. Seus romances mesclam convenções literárias e recursos estilísticos

que remetem a Cervantes, à picaresca e às histórias romancescas, sem mencionar a força da

tradição neoclássica que permeia sua composição como um todo. Não se trata, pois, de

romances refratários às tendências anteriores, buscando afirmar-se tão-somente pela negação

daquilo que lhes antecede em termos de vertente. Fielding deixa claro que estava equipado

com o melhor que uma boa educação formal poderia lhe prover, e não deixou de tirar proveito

disso ao se deparar com a oportunidade de fazer-se, ele mesmo, escritor.

,QWURGXomR

Por outro lado, a sua obra também não se furta a incorporar o aspecto inovador que o

gênero nesse momento traz em si. Fielding de fato abre novas frentes de realização literária na

maneira como responde ao paradigma de Richardson e molda sua própria concepção de

romance, ainda que em meio a uma grande tensão frente às antigas tradições. Sua contribuição

inclui a primazia do enredo e do retrato social sobre a abordagem subjetiva e psicológica das

personagens, a criação de um narrador auto-reflexivo, intrusivo e extremamente controlador

do ato narrativo, a divisão do texto em livros e capítulos, formando um todo bastante coeso e

articulado, a inserção de capítulos introdutórios em cada livro, o uso consistente de ironia,

sátira e humor como ferramentas retóricas e a concessão ao estilo baixo através do retrato

deliberado de todas as classes sociais e seus respectivos maneirismos, vícios e defeitos – para

citar somente alguns dos elementos de maior evidência.

Fielding ocupa, portanto, uma posição de destaque junto aos fundadores do gênero, na

medida em que demonstra uma ambivalência única frente às tendências opostas e

contraditórias com as quais teve que lidar ao abraçar a carreira de romancista. Aderente aos

rastros de tradições que pautaram sua formação intelectual e acadêmica, mas nem por isso

imune aos novos ventos de mudança que o gênero trazia consigo, sua obra revela o embate

íntimo que ele certamente travou consigo mesmo enquanto buscava afirmar-se num ofício

ainda pouco reconhecido, como escritor de uma forma literária ainda em vias de definição.

Tudo isto pode ser constatado particularmente em 7RP -RQHV (1749), romance em que

Fielding demonstra muito maior maturidade enquanto escritor. Ao contar a história de um

enjeitado que sofre o cerceamento contínuo de suas aspirações a uma posição de status e

privilégio e à realização pessoal na esfera dos sentimentos e da constituição de uma família

dentro da estrutura social inglesa setecentista, até ver sua sorte mudar por uma série de

recursos literários convencionais, Fielding trai a intimidade que tinha com as tradições

vigentes na maneira como formula, ordena e narra os acontecimentos. Ao mesmo tempo,

porém, mostra ao leitor que tem em mente quebrar as convenções e fundar uma “nova

província do escrever”, como ele mesmo o declara. 7RP -RQHV, portanto, pode ser tomado

como um romance que, ao contrário de outros mais calorosamente recebidos pela crítica e

pelo público leitor, deixa entrever em suas páginas a força ainda palpitante dessas tradições,

bem como o impacto das novas incursões na prática literária de seu autor. Tem-se a impressão

,QWURGXomR

de que Fielding, tendo testado suas idéias e concepções do gênero em -RVHSK $QGUHZV

(1742), vem apresentar a expressão máxima de seu vigor criativo em 7RP -RQHV, de uma

maneira mais coesa, explícita e consistente.

Um outro ponto, porém, merece maior ênfase. Referimo-nos à maneira peculiar como

7RP -RQHV configura a noção de indivíduo ao longo de sua narrativa. Uma das hipóteses que

norteia nosso trabalho é a idéia de que Fielding desenvolve a noção de indivíduo em seu

romance maior a partir de um movimento a que houvemos por bem denominar “dialética da

essência e da aparência”. Trata-se de um embate, perceptível no entrecho do romance, entre o

nível da individualidade, do particular e do único, da esfera da subjetividade e da interioridade

– a essência - , que entra em oposição ao nível das convenções sociais, do coletivo, da norma,

da esfera da objetividade e da exterioridade – a aparência. Entendemos que o romance pode

ser lido à luz desse conflito agudo que permeia sua composição nos âmbitos da

caracterização, da noção de classe, das instituições sociais e do estilo apresentado. Em outras

palavras, é possível detectar um deslizamento contínuo das personagens, de seus valores ou

mesmo do discurso do narrador entre R TXH VH DSDUHQWD e R TXH VH UHDOPHQWH p, configurando

uma tensão entre esses dois pólos que marca o romance do início ao fim. No escopo dessa

dinâmica, no entanto, vemos tomar forma e ganhar projeção a noção de indivíduo segundo a

postulam os tempos modernos: aquilo que é indivisível, individual e privado em contraste

com aquilo que é divisível, social e público; ou seja, a essência em direta oposição às

aparências. Nessa dualidade, que caracteriza o modo de ser da sociedade retratada no

romance, está implícita a noção de indivíduo; esta, por sua vez, inexiste sem a conseqüente

configuração de tal dilema no universo social. No jogo de forças em que ora um lado, ora

outro ganha força, estabelece-se a idéia de que a existência do homem em sociedade

pressupõe a adesão a esse conflito, vivido de maneira aguda e perceptível em todos os seus

aspectos. 7RP -RQHV, por isso, mostra-se enquanto romance alinhavado forte e

uniformemente em torno dessa dialética, revelando a admirável capacidade de seu autor no

sentido de construir uma obra tão coerente diante das questões das quais decide tratar. Sua

grande extensão, o enredo intrincado e o vasto universo social que retrata constituem o

ambiente no qual os ecos da dialética da essência e da aparência reverberam na produção de

seu significado.

,QWURGXomR

Mas o mais interessante é que, na verdade, dessa maneira Fielding traz para a estrutura

interna de seu romance o embate que de fato se travava na sociedade em que vivia. Pois,

testemunha ocular do processo de formação do indivíduo e de todos os valores a ele

relacionados na Inglaterra de seu tempo, não há dúvida de que o romancista captou, de

alguma forma, o conflito entre essência e aparência que era realmente observável no universo

social ao qual pertenceu. Não se pode esquecer que, naquele momento, a noção de

individualidade começava a moldar a visão de mundo e a revolucionar os conceitos em todas

as frentes, definindo, inclusive, o surgimento do próprio romance enquanto gênero. “Todas as

características técnicas do romance”, diz Ian Watt, “contribuem para a consecução de um

objetivo que o romancista compartilha com o filósofo: a elaboração do que pretende ser um

relato autêntico das verdadeiras experiências individuais” 2. Isto nos remete, por sua vez, à

revolução maior que se processava com intensidade na época de Fielding, cujos

desdobramentos podem ser constatados em avançado grau de desenvolvimento

particularmente em seu país natal:

“ ...tanto as inovações filosóficas quanto literárias devem ser encaradas

como manifestações paralelas de uma mudança mais ampla – aquela

vasta transformação da civilização ocidental desde o Renascimento que

substituiu a visão unificada de mundo da Idade Média por outra muito

diferente, que nos apresenta essencialmente um conjunto em evolução,

mas sem planejamento, de indivíduos particulares vivendo experiências

particulares em épocas e lugares particulares.” 3

A percepção do indivíduo em contraste com a sociedade à qual pertence estabelece, na

Inglaterra setecentista, a conscientização de que a vida em comunidade se caracteriza por um

jogo de “ máscaras” , onde nem sempre aquilo que as aparências mostram condiz com a

verdade interior e oculta de cada um. É então que o romance surge como gênero literário que

se deixa moldar no epicentro desse conflito, incorporando, portanto, a missão de retratar o

indivíduo e sua luta frente às convenções sociais estabelecidas que, vezes sem conta, buscam

2 Watt, Ian. $ DVFHQVmR GR URPDQFH (VWXGRV VREUH 'HIRH 5LFKDUGVRQ H )LHOGLQJ São Paulo, Companhia das

Letras, 1990. p. 27.

3 Idem, ibidem p. 30.

,QWURGXomR

neutralizá-lo enquanto tal. Isso posto, cremos que Fielding se mostra claramente como

romancista permeável não apenas ao conflito que caracteriza o momento de formação do

gênero, mas às tensões que marcam o próprio momento histórico de seu país. Daí, portanto,

seu peso enquanto referencial comparativo em nosso trabalho.

Com tais considerações em mente, a pergunta que se formula a seguir refere-se às

condições brasileiras em termos de formação do gênero e circunstância social. Sabemos que

as 0HPyULDV GH XP VDUJHQWR GH PLOtFLDV estabelecem uma distância de pouco mais de cem

anos com seu paradigma inglês. Este dado, por si só, pode dar uma idéia da diferença palpável

entre os dois contextos, o que não pode ser ignorado em um estudo como o nosso.

Os processos literários, em solo brasileiro, ganham impulso somente a partir da

abertura dos portos assinada por D. João VI em 28 de janeiro de 1808, cinco dias após o seu

primeiro contato com a colônia. É a partir deste evento que se criam condições mais

favoráveis para que os efeitos do chamado “ século das luzes” se disseminem e se estabeleçam

em nossa terra, o que ocasionará avanços consideráveis na economia, na política, na sociedade

e na cultura nacionais. Neste último aspecto, ressaltam-se a fundação de cursos técnicos e

superiores, a divulgação de preleções e conferências públicas e a organização do pensamento

livre, com destaque para o florescimento de associações político-culturais – estas, importantes

na definição do papel do “ intelectual” ao motivarem seus membros a participar mais

ativamente da discussão dos grandes problemas sociais.

Surge a imprensa periódica no mesmo ano, embora editada em Londres ( o &RUUHLR

%UDVLOLHQVH, de Hipólito da Costa) e, um pouco mais tarde, (1812 e 1813, respectivamente),

novos jornais passam a ser editados na Bahia e no Rio de Janeiro. Surgem também as

tipografias privadas e as livrarias. As bibliotecas, anteriormente limitadas aos conventos,

começam a aumentar em número. Em 1837, é fundada a primeira biblioteca circulante do país

e, dois anos mais tarde, o -RUQDO GR &RPpUFLR começa a publicar os primeiros romances

seriados. Ainda que o público leitor seja por ora escasso, tais acontecimentos sem dúvida vêm

contribuir para a difusão do hábito da leitura.

E não demora muito para que livros estrangeiros comecem a aportar em maior número

em solo brasileiro. Se antes, devido à censura e ao monopólio do comércio exterior por

,QWURGXomR

Portugal, tal prática se desse de modo quase sempre ilegal, agora o número de exemplares

crescia continuamente. Eis então onde encontramos um dado importante. Sabe-se, por meio

de provas documentais, que 7RP -RQHV chegou ao Brasil. A primeira referência que dele

encontramos em caráter “ oficial” é um anúncio na *D]HWD GR 5LR GH -DQHLUR no dia 10 de

maio de 1817, mas outras podem ser verificadas nos catálogos dos gabinetes de leitura e de

algumas bibliotecas, o que indica que o público leitor brasileiro em formação teve acesso a

ele 4. Constatada a circulação do paradigma estabelecido por Fielding no Brasil, resta então

formular a questão referente ao tipo de ressonância, dentro da forma romance, a que o escritor

inglês deu início por aqui.

É evidente que em terras brasileiras o gênero, nesse momento, ainda está em vias de

moldar-se. É preciso aguardar vários anos até que o país veja nascer essa forma literária já

consagrada na Inglaterra e na Europa. O destaque para o nome de Manuel Antônio de

Almeida (1831-1861) não é, por isso, casual. Nascido no bairro da Gamboa no Rio de Janeiro,

em família humilde, quando jovem estudou com grande dificuldade financeira na Academia

de Belas-Artes e na Faculdade de Medicina antes de enveredar pelo caminho das letras. Suas

primeiras atividades literárias são poesias românticas e de menor importância que publicou

nas revistas +DUSHMRV 3RpWLFRV, *XDUDFLQJD e *XDUDFLDED em 1849. Em 1852, no entanto,

conseguiu empregar-se efetivamente nas oficinas do &RUUHLR 0HUFDQWLO, tido como o mais

importante jornal da Corte na época, e em cujo suplemento “ Pacotilha” publicou

semanalmente, entre 27 de junho de 1852 e 31 de julho de 1853, seu primeiro e único

romance 0HPyULDV GH XP VDUJHQWR GH PLOtFLDV, em formato seriado. Em 1854 e 1855,

republicou-o em livro, com várias alterações e, como era uso comum, sob pseudônimo – “ Um

Brasileiro” . Chama a atenção, no entanto, o fato de que, dentro da corrente de obras de ficção

românticas iniciada por Teixeira e Souza em 1843 e Joaquim Manuel de Macedo no ano

seguinte, posteriormente levada adiante por José de Alencar e Bernardo Guimarães,

0HPyULDV GH XP VDUJHQWR GH PLOtFLDV certamente fica à margem dos padrões literários e do

tom romântico em vigor. Segundo a crítica, uma explicação parcial para isso deve-se à

4 Não estamos levando em consideração, aqui, a presença do romance em bibliotecas particulares. Em sua tese de

Livre-Docência, a Profa. Dra. Marcia Azevedo de Abreu aponta para um exemplar de 7RP -RQHV na biblioteca

do Padre Jozé Libanio Dicier de Brito, já em 1796 [2 FDPLQKR GRV OLYURV Tese de Livre-Docência defendida

junto ao Instituto de Estudos da Linguagem, Unicamp, Campinas, 2002, p. 175]. Tal informação, contudo, não

nos fornece dados acerca da FLUFXODomR da obra junto ao público leitor da época.

,QWURGXomR

maneira com que Almeida evita os extremismos de exaltação poética, sentimental e retórica

em sua narrativa, optando por fazer dela um romance de costumes urbanos impregnado de

elementos da oralidade, do folclore e da cultura popular carioca tal como ele as via em sua

época, cujo protagonista é um bastardo que logra ascender socialmente no final.

À vista dessas constatações, começa a tomar forma a percepção de algumas

semelhanças entre as 0HPyULDV e o romance de Fielding. Teria Manuel Antônio de Almeida

lido 7RP -RQHV ? A pergunta se coloca como um falso problema. Feliz ou infelizmente, não

dispomos de provas materiais para fazer tal afirmação. Daí a ressalva à frase de Candido a que

nos referimos anteriormente: a idéia de filiação deve ser tomada com cautela. Já dissemos que

o romance de Fielding circulava no Brasil e certamente no Rio de Janeiro de Almeida – o que

também nos permite dizer que, por outro lado, não há provas de que o escritor não o tenha

lido. Mas cabe antes ao estudo da forma, fundamentalmente, sugerir a aproximação entre este

romance brasileiro e 7RP -RQHV e quaisquer outras vias de análise:

“ Mas nós sabemos que, embora filha do mundo, a obra é um mundo, e

que convém antes de tudo pesquisar nela mesma as razões que a sustêm

como tal. A sua UD]mR é a disposição dos núcleos de significado,

formando uma combinação VXL JHQHULV, que se for determinada pela

análise pode ser traduzida num enunciado exemplar. Este procura

indicar a fórmula segundo a qual a realidade do mundo ou do espírito foi

reordenada, transformada, desfigurada ou até posta de lado, para dar

nascimento ao outro mundo.” 5

Com efeito, a leitura da obra em si é o que permite constatar que, além da categoria –

romance de costumes – e da escolha de um bastardo como protagonista, as 0HPyULDV se

alinham com o romance inglês no elemento de adoção que se apresenta ao herói desde a

primeira infância, no caráter transgressor que lhe é dado, no seu amor sincero e juvenil pela

mocinha rica, no fato de sair ou ser expulso de casa, no relato das aventuras ao longo de suas

andanças, na fraqueza em geral com as mulheres, na passagem pela prisão, no

apadrinhamento por terceiros e na sua restauração final e completa em termos afetivos,

5 Antonio Candido. Op. Cit. p. 105. Grifos do autor.

,QWURGXomR

materiais e sociais. Tudo isto sem mencionar a superficialidade da exploração psicológica e o

retrato de diversas classes sociais em estilo baixo, descrevendo tipos humanos, lugares e

costumes. Num momento em que o gênero ainda está em formação em nosso país, tendo

necessariamente o modelo estrangeiro como paradigma em circulação, é sugestivo que o

romance de Almeida tenha tantos elementos em comum com o romance de Fielding. Se não

podemos afirmar que Almeida se baseou em 7RP -RQHV ao escrever seu romance, não há

dúvidas, por outro lado, de que seu romance estabelece um diálogo com o romance inglês na

medida em que manifesta tantos pontos de contato em sua composição.

Estamos centralizando nosso estudo, portanto, em dois romances precursores da

categoria no momento de formação do gênero em seus respectivos contextos. O que está em

jogo, assim, são os momentos iniciais do romance enquanto gênero na Inglaterra de meados

do século XVIII e no Brasil de meados do século XIX. Nosso interesse é verificar em que

medida o estudo de um processo de formação literária no país de referência ajuda a esclarecer

o processo que se dá em solo nacional. Também desejamos constatar de que maneira o

processo nacional ressalta sua peculiaridade frente ao modelo estrangeiro – daí a “ fidelidade

aos contextos” que tomamos emprestada de Candido.

Isto nos leva a uma última – e importante - reflexão. Se há em 7RP -RQHV um embate

entre essência e aparência, desdobramento imediato da configuração da noção de indivíduo,

embate esse que remete ao momento histórico vivido tanto pelo gênero quanto pela sociedade

inglesa setecentista, é preciso se perguntar em que medida esse quadro reverbera nas

0HPyULDV. Daí uma segunda linha-mestra de nosso trabalho. Temos em mente demonstrar

que no romance de Almeida não encontramos um deslizamento entre essência e aparência

constituído com a mesma desenvoltura que constatamos no romance inglês. O cotejo entre as

duas obras deixa claro que a dialética da essência e da aparência se articula com maior peso

em 7RP -RQHV, ao passo que, se ela aparece nas 0HPyULDV, adquire antes um status de

simulacro de seu modelo inglês do que de real constituição do dilema no corpo da obra. Ao

contrário do romance de Fielding, a dialética não ganha peso no romance brasileiro no âmbito

da caracterização das personagens e das classes sociais ou do estilo. Sua maior desenvoltura

pode ser constatada, quando muito, principalmente na abordagem que a obra faz da instituição

social do casamento.

,QWURGXomR

A nosso ver, tal constatação novamente encontra duas explicações. Em primeiro lugar,

o momento de formação do gênero em nosso país. Sempre dependente do modelo estrangeiro,

o romance enquanto gênero literário ainda está em sua fase inicial quando as 0HPyULDV são

publicadas pela primeira vez. Até então, vigorara em nossas terras o romance seriado,

especialmente com as obras de escritores estrangeiros traduzidos e alguma ficção de pequena

envergadura produzida principalmente por Pereira da Silva, Joaquim Norberto, Gonçalves de

Magalhães e Teixeira e Sousa. É somente em 1843 que este último publica 2 ILOKR GR

SHVFDGRU, seguido por $ PRUHQLQKD, de Joaquim Manuel de Macedo no ano seguinte, dando

início à cronologia do gênero propriamente dito. A tendência, nesses primeiros tempos, é de

direcionar a forma literária para a pesquisa do país, o que leva os primeiros romancistas a

concentrar seus esforços em obras que privilegiam maiormente o enredo e os tipos. Como

conseqüência, nessas narrativas - o que inclui o romance de Almeida - a noção de indivíduo

fica automaticamente relegada à margem. Num momento em que o que importa é inscrever-se

dentro do projeto de nacionalismo literário cada vez mais encorpado, Almeida se junta aos

seus antecessores no sentido de produzir um romance que tem por objetivo maior fixar os

costumes e os tipos sociais. Está longe, portanto, de ter a exploração do conceito de indivíduo

como um dos alvos de seu romance. Daí a superficialidade com que trata o tema e seu

desdobramento em termos da dialética da essência e da aparência nas 0HPyULDV.

Acima de tudo, porém, é preciso ter em mente as circunstâncias históricas brasileiras

desse momento. Entendemos que as 0HPyULDV não articulam a noção de indivíduo à maneira

de 7RP -RQHV porque, na sociedade brasileira em que foram produzidas tal conceito se

encontra em estágio ainda muito primitivo, se comparado à sociedade inglesa que lhe serve de

contraponto. O Brasil de meados do século XIX ainda é um país escassamente povoado e com

pouquíssimos centros urbanos. Imperam o regime da escravidão, a produção voltada para o

mercado externo e o sistema patriarcal latifundiário. A população se organiza por extremos:

de um lado, a minoria dos senhores; de outro, a enorme massa dos escravos, com uma camada

intermediária rarefeita e composta cada vez mais dos “ desclassificados, dos inúteis e

inadaptados” 6. As relações sociais, portanto, se estabelecem em ambiente rudimentar e

carecem da complexidade típica das grandes sociedades urbanas. A formação social brasileira

6 Prado Jr., Caio. )RUPDomR GR %UDVLO FRQWHPSRUkQHR São Paulo, Editora Brasiliense, 2004. p. 281.

,QWURGXomR

está, nesse momento, intimamente determinada pela condição econômica, o que afasta a

possibilidade da composição tipicamente estamental que se verifica em outras sociedades

mais antigas. Nesse cenário, não admira que a concepção do indivíduo encontre pouca

reverberação no modo de ser da colônia. Será mais adiante, com o advento de uma burguesia

formada pela imigração dos fazendeiros e pela ascensão de comerciantes, junto ao

desenvolvimento da burocracia nos centros urbanos, que novos “ problemas de ajustamento da

conduta” se farão sentir 7, instaurando ambiente mais propício para a formação e consolidação

do indivíduo enquanto princípio social ativo e suas conseqüentes implicações no âmbito das

convenções sociais. As 0HPyULDV, portanto, na maneira como manifestam o embate entre

essência e aparência, remetem às condições históricas que caracterizavam a vida social

brasileira no século XIX e encontram nesse fator sua justificativa e sua fundamentação.

Isto posto, nosso trabalho se organiza basicamente do seguinte modo: o primeiro

capítulo procura situar os dois romances à luz da tradição do gênero em seus respectivos

contextos. É certo que, nesse sentido, o relato brasileiro acaba necessariamente se

constituindo de maneira mais sucinta, haja vista a escassez de referenciais anteriores à

publicação das 0HPyULDV que remetam a uma tradição própria. O tratado está longe de

esgotar o assunto; seu objetivo, no entanto, é facilitar ao leitor o acesso a uma

contextualização preliminar que ajude a apreender o advento de ambos os romances sob uma

perspectiva cronológica, bem como as inovações que cada um introduz na história do gênero.

Os quatro capítulos seguintes tratam da análise comparativa propriamente dita. O

segundo capítulo se atém à noção de nobreza aristocrática e à maneira como ela se articula no

romance de Fielding. Pretendemos mostrar que a dialética da essência e da aparência se

configura em 7RP -RQHV, nesse sentido, à medida que as personagens de extração social

elevada oscilam entre VHU e SDUHFHU fidalgas, de acordo com a concepção tradicional do termo.

Nas 0HPyULDV, no entanto, constatamos a ausência não somente de personagens de classe

social superior enquanto presença significativa na narrativa, como também a marginalidade do

conceito de nobreza aristocrática na constituição do universo social que compõe o romance. O

7 Antonio Candido. “ Um instrumento de descoberta e interpretação” IN: )RUPDomR GD OLWHUDWXUD EUDVLOHLUD

0RPHQWRV GHFLVLYRV Belo Horizonte/Rio de Janeiro, Itatiaia, 1993. Vol. II, p. 100.

,QWURGXomR

recurso ao estilo baixo, por fim, veda toda e qualquer intenção de acesso a tais valores

inclusive pela via do caráter.

O terceiro capítulo enfoca as camadas sociais inferiores de ambos os romances e o

modo como afetam fidalguia, numa evidente tentativa de incorporar o status e o respeito que

lhes é negado pela condição social que detêm. A dialética se articula enquanto os

representantes das camadas modestas pretendem esconder sua real condição, fazendo-se

passar por aquilo que não são, em termos concretos ou de valores. No romance inglês,

constatamos que a pretensão à fidalguia se articula com destreza no âmbito do indivíduo,

ainda que seja desmascarada pelas circunstâncias e até rechaçada pelas esferas sociais

imediatas. No caso brasileiro, percebemos a falta de desenvoltura dessa conduta, a ponto de

limitar-se às raias da intenção e não caracterizar o indivíduo enquanto tal frente às convenções

sociais estabelecidas.

O quarto capítulo volta-se para a instituição social do casamento e como ela incorpora

o embate entre os sentimentos íntimos das personagens envolvidas e as regras que regem a

união das famílias nas sociedades retratadas. No caso inglês, percebemos uma tensão aguda

vivida pelas personagens principais, Tom e Sophia, diante da impossibilidade de concretizar

seu amor através do matrimônio em função das barreiras sociais que os separam. O romance

procura conduzir o leitor para uma valorização da esfera individual, sem, contudo,

negligenciar o aspecto material envolvido. O romance brasileiro desenvolve a dialética de

maneira muito semelhante: há o par romântico central e a impossibilidade de casar-se, não

faltando sequer uma conciliação de valores no desenlace.

Por fim, o último capítulo toma a si a tarefa de discorrer sobre o estilo – mais

especificamente, o uso da ironia pelo narrador enquanto fator de ambivalência: R TXH VH GL]

QHP VHPSUH p R TXH SDUHFH. O narrador de 7RP -RQHV não poupa esforços para utilizar-se

desse recurso, encobrindo e ao mesmo tempo revelando, dessa forma, verdades mais

profundas acerca de suas personagens e de suas condutas. Seu colega brasileiro demonstra

menor apego a tal ferramenta, limitando-se a mais das vezes a ironias verbais curtas e de

pouca profundidade. No que se refere ao estilo, a dialética da essência e da aparência,

portanto, desenvolve-se com menor impacto nas 0HPyULDV do que em seu correlativo inglês.

,QWURGXomR

De modo que, como se pode perceber, os fios principais que percorrem o trabalho são

a formação do romance enquanto gênero literário e a constituição do indivíduo burguês, tanto

na Inglaterra do século XVIII quanto no Brasil do século XIX.

&$3Ë78/2 ,

A TRADIÇÃO DO GÊNERO

7RP -RQHV H D 3LFDUHVFD

Leitores desavisados podem facilmente se deixar enganar ao ler o romance de Henry

Fielding como uma novela picaresca. Os elementos em comum com esse gênero narrativo, de

fato, não são difíceis de encontrar. O primeiro deles, talvez, é a aproximação com o realismo

através do retrato dos vícios e da miséria humana que tanto se distanciam dos ideais canônicos

de beleza e perfeição clássicas ou fantasiosas. É o que fazem os romances picarescos, ao

contar a trajetória de figuras marginais que buscam ascender socialmente através de meios

moralmente reprováveis. Configura-se, assim, um panorama social que se caracteriza por uma

marcada incursão ao que há de mais vil ou degradado na sociedade dos homens. Pois, à sua

maneira, é também o que acontece no romance de Fielding. Nele não são poucos os casos de

personagens de baixa extração que buscam sanar sua precária situação econômica por meio do

roubo, da traição, da chantagem emocional, da bajulação e da mentira. Black George engana e

trai o amigo Tom, roubando-lhe as quinhentas libras recebidas de Allworthy; Molly Seagrim

coleciona amantes por dinheiro; um mendigo cobra para dar informações sobre Sophia; um

assaltante empunha uma arma, segundo diz, para alimentar a família; uma estalajadeira

exagera o conforto e as provisões de seu estabelecimento somente para angariar clientes. E,

como estes, outros exemplos poderiam ser listados.

14

&DStWXOR , ± $ 7UDGLomR GR *rQHUR

Um outro ponto em comum com a picaresca é a ausência de densidade psicológica

demonstrada pelas personagens. Sob um certo ponto de vista, Tom, tal como o pícaro, parece

ter o seu bom caráter – ainda que se revele imprudente, às vezes - definitivamente

determinado em função de seu nascimento, e isso ele parecerá afirmar sucessivas vezes até o

final da narrativa. Ou melhor, ele se aterá a confirmar aquilo que é, em essência, sem maiores

perspectivas de reflexão ou problematização interna. Isso às vezes lhe custa caro em termos de

coerência – como quando repete exaltadas juras de amor e fidelidade eternos a Sophia, para

em seguida cair nos braços de Molly, da sra. Waters e de Lady Bellaston. Tom parece não se

dar conta de fato da própria contradição, ainda que nós, enquanto leitores, saibamos que o seu

verdadeiro amor está reservado a Sophia, e não às demais. Ao longo de suas aventuras, Tom

jamais se detém para analisar a si mesmo e às implicações de suas atitudes. Não há nele

indícios de uma consciência profunda, que o leve a refrear os seus impulsos e a agir em maior

conformidade com a sua própria retórica moralizante. O que tudo isso indica é um certo

intento generalizado de Fielding de abordar as personagens segundo um ponto de vista mais

externo e superficial, evitando o que considera uma excessiva individuação, focando em suas

ações e dando, ao contrário, muito maior ênfase à trama. Como nos diz Ian Watt,

“ Há, pois, em 7RP -RQHV uma relação absoluta entre o tratamento do

enredo e o da personagem. O enredo tem prioridade e, portanto, deve

conter os elementos de complexidade e desenvolvimento. “ 8

Isto nos remete ao fato de que, na verdade, também o esquema básico do enredo

contém muitas semelhanças. Como nos romances picarescos, em 7RP -RQHV o nascimento do

protagonista é determinante, ou justifica o seu padrão de conduta: o pícaro se dedica a

engodos e trapaças até o fim, enquanto Tom tem o seu bom coração e a nobreza de seu caráter

confirmados pelo segredo de suas origens. Tom, a exemplo do pícaro, também passa por uma

infância cheia de maus tratos nas mãos de seus tutores Thwackum e Square, além da

companhia problemática de Blifil. A situação se torna aos poucos de tal maneira insustentável

que, por conta disso, sua partida em uma viagem ao desconhecido representa, como para o

8 Watt, Ian. Op. Cit. p. 240.

&DStWXOR , ± $ 7UDGLomR GR *rQHUR

pícaro, não apenas a própria alienação em relação à realidade à sua volta, mas também uma

liberação de seu estado de provação anterior e a possibilidade (posteriormente frustrada) de

traçar um destino diferente. Como nas histórias picarescas, Tom encontra diversas

personagens ao longo de suas andanças, algumas das quais lhe fazem relatos que pouca

relação têm com a trama principal – é a inserção de narrativas dentro da narrativa, livremente

introduzidas, que representam quase uma digressão no andamento do enredo. Tal é o caso das

histórias contadas pelo Homem da colina e pela Sra. Fitzpatrick.

A grande gama de personagens de todas as extrações sociais, encontradas em cada

etapa da jornada, permite a Fielding traçar um panorama crítico da sociedade a ele

contemporânea – tal como fazem os autores da picaresca. Como mencionamos, a corrupção

moral dos homens é apresentada em 7RP -RQHV sem hesitação, ainda que geralmente de

forma satírica, bem-humorada ou fortemente irônica. Fielding não perdoa, especialmente, a

hipocrisia e a dissimulação que vê estar presentes em todas as classes sociais. Nisto ele retoma

um importante tema dos romances picarescos, a saber, o confronto entre a aparência e a

realidade. O pícaro constitui-se um verdadeiro ator, pois busca, particularmente por meio da

vestimenta, abandonar sua condição de marginal e aparentar pertencer a uma classe social

superior. Ele se faz passar vezes seguidas por alguém que não é, podendo ser considerado,

nesse aspecto, um mestre da ilusão. Numa sociedade rigidamente hierarquizada como a

Espanha do Século de Ouro, o fingimento do pícaro parece ser sua única alternativa para

atingir os seus objetivos, pois, repetimos, tudo se define com o nascimento. Como

procuraremos demonstrar, em 7RP -RQHV, por sua vez, a temática do conflito entre aparência

e realidade aparece em praticamente todas as personagens: identidades são reveladas,

comportamentos se alteram, intenções são desmascaradas, segredos descobertos. Dificilmente

qualquer das personagens escapa a esse padrão. Diz Didier Souiller:

"Em 7RP -RQHV ninguém, exceto Sophia, é o que parece: o romance

leva cada um ao que é além das aparências. O problema central da obra

é o da opinião: a forma na qual cada um se apresenta aos demais. " 9

9 Souiller, Didier. /D QRYHOD SLFDUHVFD. México, Fondo de Cultura Económica, 1985, p. 171 e 172: "... en 7RP

-RQHV (salvo Sofía) nadie es lo que parece: OD QRYHOD O HYD D FDGD XQR KDFLD OR TXH HV, más allá de su aparencia

&DStWXOR , ± $ 7UDGLomR GR *rQHUR

Tentaremos argumentar, nos próximos capítulos, que não estamos inteiramente de

acordo com a primeira afirmativa, uma vez que cremos que até mesmo Sophia acaba, de um

modo ou de outro, aderindo ao jogo de aparências. Mas, por ora, é suficiente reiterar que, ao

nosso ver, a premissa geral de 7RP -RQHV se baseia, sim, numa dialética entre essência e

aparência. A maneira como cada um se apresenta diante dos outros, e a relação entre essa

apresentação e a realidade são ambas ponto de partida para muitos dos desdobramentos do

enredo e das inserções do narrador. Certamente é por isso que, no episódio em que a criada

Molly Seagrim resolve aparentar opulência na igreja da paróquia, o narrador aproveita para

declarar que absolutamente ninguém está imune à vaidade, independentemente da classe ou

posição social. Como se vê, ele não poupa ninguém. Assim, valendo-se da pretensão da moça

em aparentar pertencer a uma classe social superior, Fielding aproveita para assumir a

condição de crítico social. Além disso, este e outros episódios também remetem à questão da

vestimenta na picaresca. O pícaro continuamente se veste com roupas que não lhe pertencem

de fato, com o fim de fazer-se passar por algo que não é. Mais adiante voltaremos a tratar

desta questão - o conflito entre essência e aparência - em maior profundidade.

Fielding também não deixa de notar o que Soiuller chama de "nível material da

existência" 10: tal como na picaresca, a questão do dinheiro é assunto sempre presente em

todos os momentos; é o que move as personagens e, por vezes, desmascara as reais

motivações por trás de suas ações. É certo que o contexto econômico e social da Inglaterra do

século XVIII é muito diverso da Espanha dos romances picarescos. Entre tantas divergências,

no contexto inglês configura-se um ideal burguês inexistente no contexto espanhol, que se

traduz na busca da felicidade afetiva concomitante à estabilidade material e social. 7RP

-RQHV sem dúvida reflete isso. Mas é fato que o dinheiro, ou a posse dele, se apresenta como

na picaresca enquanto o fator de maior peso que impulsiona as decisões e atitudes das

pessoas. Assim, Goody Seagrim deixa subitamente de censurar a gravidez da filha, Molly, ao

ver o dinheiro que Tom lhe dá. Molly, por sua vez, engole suas palavras de desespero ao ouvir

que Tom pretende deixá-la, já que o filósofo Square lhe oferece dinheiro para continuar sendo

artificial. El problema central de la obra es el de la RSLQLyQ, es decir, la forma en que cada uno VH SUHVHQWD ante

los demás." Grifos do autor. Tradução minha.

10 Idem, ibidem p. 88: "Así es como podemos observar: - el hincapié del relato en el nivel material de la

existencia: por ello es omnipresente el WHPD GHO GLQHUR, motor del personaje y de la sociedad." Grifos do autor.

Tradução minha.

&DStWXOR , ± $ 7UDGLomR GR *rQHUR

seu amante. A Sra. Honour é convencida a ajudar Sophia em sua fuga somente porque esta lhe

promete uma recompensa “ à altura” de suas posses 11. Isso sem contar o fato de que é o

dinheiro – a perspectiva de aumentar ainda mais a sua propriedade e a sua fortuna - , e não a

procura pela felicidade de Sophia ou algo do tipo, o que impulsiona o Sr. Western a casá-la

com Blifil, ou fazer as pazes com a irmã, com quem vive às turras. E assim por diante.

Segue-se que, em comum com os romances picarescos, Tom passa pela provação

maior de sua vida que é a prisão. Suas peripécias o vão levando de complicação em

complicação, até que tudo culmina com o seu encarceramento em Gatehouse. O ápice de suas

tribulações é, de fato, a perspectiva negra de uma vida em confinamento, com o agravante de

poder ser a qualquer momento condenado à forca. É nesse ponto crítico de sua trajetória que,

à semelhança dos pícaros, Tom revê a sua vida à luz da experiência adquirida ao longo de

suas aventuras, e isso o leva a uma certa tomada de consciência. É verdade que, no caso dos

pícaros, tal reflexão não se revela profunda e mesmo autêntica, pois o próprio Guzmán de

Alfarache, como nos diz Mario González, não muda substancialmente de comportamento

após o seu "arrependimento" 12. Mas existe, isso sim, uma "recapitulação da vida à luz de uma

filosofia desencantada", para usar as palavras de Antonio Candido 13, e até mesmo sob uma

perspectiva pessimista, como o que vemos no (O %XVFyQ de Quevedo. Já no caso de Tom, a

sua "conversão" prenuncia um desenlace feliz em todos os aspectos, ainda que tal

arrependimento pareça, por vezes, meramente convencional, tanto do ponto de vista literário

quanto social, uma "apostila de uma vida respeitável", como se fosse a porta de entrada para

uma vida próspera e satisfatória 14. Assim, cumprindo com o seu dever, Tom diz à Sra. Miller,

ainda na prisão:

11 Fielding, H.7RP -RQHV [Tradução de Octávio Mendes Cajado]. São Paulo, Editora Globo [Círculo do Livro],

s/d. p. 270. Sendo esta a edição que utilizaremos ao longo de todo o trabalho, passaremos daqui em diante a

incorporar suas referências no próprio corpo do texto com a indicação [TJ, VII, 7, 270]. Os números apontam,

nesta ordem, para o livro, o capítulo e a página em questão.

12 Cf. González, Mario.2 URPDQFH SLFDUHVFR. São Paulo, Ática, 1988. [Série Princípios] p. 23.

13 Antonio Candido. "Dialética da malandragem" IN: 2 GLVFXUVR H D FLGDGH Op. Cit. pp. 20-21.

14 Ver Parker, Alexander A. /RV StFDURV HQ OD OLWHUDWXUD. Madrid, Editorial Gredos, 1975. p. 168: "La

conversión, que había sido elemento tan auténtico e importante en la tradición picaresca, es ahora mera

convención literaria y social, apostilla de una vida "respetable"que ya no significa sino vida próspera. " Tradução

minha.

&DStWXOR , ± $ 7UDGLomR GR *rQHUR

"Antes de ocorrer este medonho acidente, eu decidira deixar uma vida

de cuja iniqüidade e de cuja loucura já me persuadira. Assevero-vos que,

a despeito das perturbações que infelizmente ocasionei em vossa casa,

das quais peço, sinceramente, perdão, não sou um devasso libertino. Se

bem eu me tivesse entregue a alguns vícios, não aprovo um caráter

vicioso, nem merecerei jamais, a partir deste momento, que mo

atribuam".

[TJ, XVII, 5, 729-730]

Mais adiante, já livre do seu cárcere, declara a Allworthy:

"Ai de mim! Senhor, eu não fui mais castigado do que o merecia e há de

ser a tarefa de toda a minha vida futura merecer a felicidade que agora

me concedeis; pois crede-me, querido tio, a minha punição não foi

perdida; ainda que eu tenha sido um grande pecador, não sou um

pecador endurecido; graças a Deus, tive lazer para refletir sobre a minha

vida passada, na qual, se bem eu não possa acusar-me de nenhuma

grande vilania, distingo loucuras e vícios mais do que suficientes para

que deles me arrependa e envergonhe; loucuras acompanhadas de

tremendas conseqüências para mim mesmo, e que me levaram à beira da

ruína."

[TJ, XVIII, 10, 787]

O desenlace feliz, posterior à reflexão moral feita por Tom, inclui a revelação de que

ele é, afinal, um fidalgo. Com isso, 7RP -RQHV novamente compartilha com os romances

picarescos um viés pelo qual se reitera a hierarquia social vigente, onde poucas (ou

nenhumas) são as chances de galgar seus diferentes níveis. O pícaro vive sob a sina de um

certo fatalismo: "uma vez pícaro, pícaro até morrer", pois, não importa o que faça, ao final da

narrativa ainda lhe resta vislumbrar ao longe a possibilidade de tornar-se o que tanto desejava,

nobre amo de muitas posses. Veja-se, por exemplo, o final inglório na vida do Lazarillo de

Tormes. O mesmo se dá, de certa forma, no romance de Fielding: o nobre ainda é o

referencial a ser almejado e aspirado. O casamento feliz com Sophia só é possível porque,

afinal, Tom é também um fidalgo. Não é conveniente que membros de classes distintas se

&DStWXOR , ± $ 7UDGLomR GR *rQHUR

unam pelo matrimônio e nesse sentido é que TRP -RQHV, como a picaresca, parece afirmar

uma certa imobilidade social. Como nos diz Ian Watt,

"Essa estabilidade de classe é parte essencial de 7RP -RQHV Tom pode

considerar uma desgraça o fato de sua condição de enjeitado impedi-lo

de esposar Sophia, porém não questiona a validade da norma que

determina tal impedimento. A trama de Fielding visa, portanto, unir os

enamorados sem subverter a base da ordem social; e isso só é possível

revelando que, embora ilegítimo, mr. Jones é um homem fino." 15

Por fim, por aí também se entende quão básico é o tema do destino em ambos os

casos, já que o pícaro parece, antes de tudo, regido por sua (má) sorte, e Tom, ao contrário,

por sua (boa) estrela. Em outras palavras, mais do que o princípio da causalidade, pelo qual o

homem se torna sujeito às conseqüências de suas próprias ações, parece vigorar aqui a idéia

de que a Fortuna – para usar o termo empregado por Fielding – é a grande responsável pelo

destino final, seja ele bom ou mau, das personagens. Não deve ser visto como acaso, portanto,

o fato de que o autor inseriu este poema em um de seus capítulos introdutórios:

“ De ti [a Divindade] todas as ações humanas tiram a sua origem,

A ascensão dos impérios e a queda dos reis!” (...)

Com pompa se sucedem as imagens brilhantes.

Capitães que triunfam e monarcas que morrem!

Desempenham a parte indicada pela tua providência

O seu orgulho e as suas paixões inclinam-se a teus fins (...)”

[ TJ, VII, 1, 248]

Os homens estão, portanto, sujeitos aos caprichos da providência e, ao que tudo indica,

só lhes resta inclinar-se à sua vontade. A idéia de uma certa incapacidade de definir o próprio

destino fica aqui, por isso, sugerida.

Por outro lado, é preciso reiterar aqui que o romance maior de Fielding não é,

obviamente, um romance picaresco, e tampouco estamos tratando aqui de filiá-lo a essa

15 Watt, I. Op. Cit. p.235.

&DStWXOR , ± $ 7UDGLomR GR *rQHUR

tradição. Há que se levar em conta, em primeiro lugar, a própria polêmica que cerca a

tentativa de definição desse gênero 16. E, mesmo que, para efeito prático, adotemos por ora a

definição sugerida por Mario González, encontramos de imediato algumas dificuldades em

aplicá-la integralmente ao romance inglês:

"Como definir o núcleo intertextual originário? Nós o entendemos como

sendo D SVHXGRDXWRELRJUDILD GH XP DQWLKHUyL TXH DSDUHFH GHILQLGR

FRPR PDUJLQDO j VRFLHGDGH D QDUUDomR GDV VXDV DYHQWXUDV p D VtQWHVH

FUtWLFD GR SURFHVVR GH WHQWDWLYD GH DVFHQVmR VRFLDO SHOD WUDSDoD H

QHVVD QDUUDomR p WUDoDGD XPD ViWLUD GD VRFLHGDGH FRQWHPSRUkQHD GR

StFDUR.” 17

González adverte de antemão que variações em torno de sua definição são possíveis,

pois para ele o romance picaresco deve ser visto sob uma perspectiva ampla. Seja como for,

não encontramos até o momento nenhum crítico ou especialista em picaresca que tenha

arriscado uma classificação de 7RP -RQHV dentro desse gênero. Tampouco nós o fazemos, e

várias são as razões: em primeiro lugar, sua narrativa não é feita em primeira pessoa, ou na

forma autobiográfica 18, de narração "a posteriori" e caracteristicamente aberta, já que a

autobiografia, por definição, não tem um desfecho propriamente dito – o narrador-autor não

16 Para uma grande parte dos estudiosos, falar em "romance picaresco" é falar na Espanha do século XVI, onde o

gênero teria surgido como uma reação contra a ética aristocrática tematizada, por exemplo, nos romances de

cavalaria. O pícaro seria o agente revelador do momento decadente e miserável atravessado então pelo país,

contrastando assim uma realidade onde dominavam a cobiça, a inveja e a baixeza com a perspectiva idílica da

tradição anterior. O gênero estaria então ligado indissoluvelmente a um contexto social específico, representando

a "expressão de uma mentalidade e de uma prática social limitados no tempo". Cf. Souiller, Didier. Op. Cit. pp.

14, 28, 33, 94. Neste aspecto, ver também: Talens, Jenaro. 1RYHOD SLFDUHVFD \ OD SUDFWLFD GH OD WUDQVJUHVLRQ

Madrid, Vela Latina/Ediciones Jucar, 1975; e Parker, Alexander A. Op.Cit. Para uma minoria dos críticos,

porém, é possível adotar uma perspectiva mais ampla, onde a picaresca, mais do que uma obra ou soma de obras,

deve ser entendida como um "intertexto", o que permitiria estabelecer para ela períodos "que podem vincular-se

a diferenciações histórico-geográficas, e que marcam fases de uma evolução que, no caso, se apóia em sucessivas

transgressões da(s) fórmula(s) anterior(es)." Cf. González, Mario. Op.Cit. p.40. Mais adiante voltamos a tratar

desta questão.

17 González, M. Op.Cit. p. 42. Grifos do autor.

18 González na verdade prevê a possibilidade de outros recursos em termos de ponto de vista, em função do

desenvolvimento das técnicas narrativas: "A principal observação a ser feita será a de que a evolução da

linguagem narrativa levará a que nem sempre seja mantida a forma autobiográfica que, muitas vezes, poderá ser

substituída por outros recursos narrativos, sem que isto leve a rejeitar o caráter picaresco ou neopicaresco do

texto". No entanto, é difícil ignorar o peso dos argumentos da grande maioria dos críticos que, ao contrário, vêem

na autobiografia uma norma geral. Ver Kothe, Flávio. 2 KHUyL. São Paulo, Ática, 1985. p. 46. Para alguns, ela

chega até a ser "condição essencial" ao romance picaresco. Cf. Souiller, Didier. Op. Cit. p. 42.

&DStWXOR , ± $ 7UDGLomR GR *rQHUR

tem como descrever o fim de sua própria vida. Pelo contrário, em 7RP -RQHV Fielding inova

ao criar um narrador onisciente que não apenas expõe os acontecimentos que compõem a

trajetória do protagonista, mas também é intrusivo ao extremo, usando de ampla liberdade

para fazer digressões, referências ao leitor e comentários das mais diversas naturezas nos

capítulos introdutórios de cada livro e ao longo da narrativa em si. O narrador de 7RP -RQHV

busca exercer o controle racional constante e insistente do texto, rompendo com a linearidade

das narrativas convencionais, ao mesmo tempo em que estabelece uma impressão de grande

proximidade com o leitor e o torna consciente de sua condição enquanto tal. A crítica

moderna tem apontado a voz narrativa de 7RP -RQHV como um dos aspectos de maior

relevância na realização literária de Fielding, e não poucos estudos têm sido dedicados a esse

tema.

Um outro aspecto a ser levado em consideração está vinculado à caracterização do

pícaro. Ele é quase sempre pobre, saído das classes sociais mais inferiores e, às vezes, até

marginais. Obviamente, não é o que se dá com Tom. Tido erroneamente como filho ilegítimo

de uma criada, ele é adotado por um fidalgo e, mais tarde, descobre ser filho – também

ilegítimo – de fidalgos. O problema maior da suposição inicial, como o desenlace demonstra

claramente, não é ser ilegítimo, mas sim ser filho GH XPD FULDGD. Seja como for, ela se revela

falsa: Tom tem, de fato, origens fidalgas. E, mesmo levando em consideração o fato de que a

maior parte do livro encobre o segredo de seu nascimento, em nenhum momento Tom é

levado a lidar, de fato, com a pobreza ou com a necessidade ao extremo, tal como se dá com

os pícaros espanhóis. Sua infância e sua educação são equivalentes às de um fidalgo da

província, por conta de seu apadrinhamento por Allworthy. Mais tarde, quando sai de casa, ele

recebe do tio uma vultosa soma de dinheiro. Por um descuido seu, que o leva a perder toda a

quantia, suas provações financeiras em sua viagem à cidade têm início. Mas, ainda assim, não

se pode dizer que a pobreza lhe bate à porta: ele logo encontra quem novamente o ajude na

pessoa de Sophia, que lhe envia o dinheiro que tem em mãos assim que fica sabendo de sua

expulsão. Tom também empresta dinheiro de Partridge em Londres e, ainda lá, recebe ajuda

financeira de Lady Bellaston.

Aqui esbarramos em um outro elemento importante. O pícaro, via de regra, é um

marginal da sociedade que detém um caráter parasita. Mero serviçal que acumula empregos e

&DStWXOR , ± $ 7UDGLomR GR *rQHUR

patrões, ele não tem dificuldade em fazer-se querido com o intuito de ser sustentado, e almeja

subir na escala social por meio da esperteza e da trapaça. Suas ações egoístas são calculadas

no sentido de enganar as pessoas para atingir seus fins – o que, diga-se de passagem, em geral

não acontece. Não é, no entanto, o que verificamos no caso de Tom. A despeito de sua

condição de bastardo, assumida até que o mistério de seu nascimento seja revelado nos

capítulos finais, ele não percorre a narrativa como um elemento propriamente marginal e

parasitário na sociedade, vivendo às custas de outrem. Tampouco se avistam nele indícios de

caráter deliberadamente desonesto e trapaceiro. Ele jamais assume qualquer espécie de

condição servil, ou tenta sair-se bem por conta do disfarce e do engano, mas procura, antes,

pagar religiosamente as suas contas nas diversas estalagens em que se hospeda, e chega a

brigar seriamente com Partridge diante da insistência deste para que ele se aproprie da nota de

cem libras pertencente a Sophia, que fortuitamente lhe cai em mãos. Diante do temor da Sra.

Miller de que sua presença e seus relacionamentos causem prejuízo à boa reputação da casa,

ele não hesita em ir procurar um outro alojamento onde se hospedar durante sua estada em

Londres – afinal, ele sinceramente simpatiza com a boa senhora e não deseja causar-lhe, em

hipótese alguma, qualquer prejuízo ou transtorno. Ele se muda assim que consegue um outro

quarto, inclusive para que a Sra. Miller possa reservar um lugar adequado a Allworthy, que

costumeiramente se hospeda em seu estabelecimento. Sua interferência rápida, sensata e

eficiente se revela essencial para a solução do impasse no casamento entre Nightingale e

Nancy, filha da Sra. Miller. Tom também se mostra sumamente generoso com aqueles mais

necessitados – um bom exemplo é a ajuda monetária que presta a um mendigo na estrada, e as

duas vezes em que ajuda o ladrão de Highgate, que depois se revela ser primo da Sra. Miller.

Sua bondade acaba, por fim, lhe angariando a gratidão eterna daqueles por ele ajudados, o que

mais tarde se revela crucial enquanto testemunho que o resgata aos olhos de Allworthy.

Assim, Tom não está, em nenhum momento, visando tirar partido de ninguém ou de nenhuma

situação em benefício próprio. Ele se mostra, pelo contrário, caridoso com as pessoas em pior

situação do que a sua. É Alexander Parker quem afirma que

"7RP -RQHV não deve ser incluído nos romances picarescos porque

seu herói não é um delinqüente, mas um jovem de caráter aberto e

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generoso. Ainda que indisciplinado e imprudente, não há nele orgulho,

mesquinhez ou espírito vingativo." 19

Na opinião de Frank W. Chandler, tais qualidades positivas lhe conferem uma posição

intermediária, não integralmente identificada com o pícaro:

“ Similarmente difusa e transformada foi a contribuição do romance

picaresco. Pois, se Jones contrasta com o herói romanesco por ser

humano, ele o faz com o anti-herói picaresco por ser compassivo. Ele é

caloroso e generoso, mas também tem pouca força de vontade e tem

algo de malandro. Ele é um meio-termo entre o pícaro e o herói,

destinado por seu criador a apresentar a humanidade média.” 20

Há também a questão da misoginia, própria dos pícaros clássicos espanhóis. Como nos

diz Didier Souiller, o pícaro teme a mulher, pois não raro se torna vítima dela 21, e suas

ligações com o sexo oposto jamais pressupõem amor sincero; antes, estabelecem-se em

função de segundas intenções que em geral revertem em vantagem para si mesmo e desfazem-

se com a mesma rapidez com que se formam. Não é, novamente, o que se passa com Tom.

Desde sua adolescência ele se envolve, ao que tudo indica, sinceramente com Molly Seagrim

e, diz o narrador, entra em debate consigo mesmo ao ver-se forçado a escolher entre ela e

Sophia [TJ, V, 3]. Mais adiante entram em cena outras mulheres com quem Tom se envolve

ao longo de suas aventuras. Mas Sophia, por fim, ganha a disputa em seu coração, e a história

termina com a celebração de seu bem-sucedido e feliz casamento com a jovem heroína. O

amor entre duas personagens é, pois, parte importante da trama 22. O que está em jogo, acima

19 Parker, A. Op.Cit. p. 193: "7RP -RQHV no debe ser incluida entre las novelas picarescas porque su heróe no es

un delincuente sino un joven de carácter abierto y generoso. Aunque indisciplinado e imprudente, no hay en él

orgullo, mezquindad o espíritu vengativo." Tradução minha.

20 Chandler, Frank W. 7KH OLWHUDWXUH RI URJXHU\ New York, Burt Franklin, 1958. [Burt Franklin

Bibliographical Series IX]. Vol. II, p. 307: “ Similarly diffused and transformed was the contribution of the

picaresque novel. For if Jones contrasts with the hero of romance by being human, he contrasts with the

picaresque hero by being humane. He is warm-hearted and generous, but he is also weak-willed and something

of a scapegrace. He is a compromise between the picaro and the hero, intended by his creator to set forth

humanity in the average.” Tradução minha.

21 Souiller, D. Op.Cit. p. 30: "Un rasgo curioso que merece ser señalado es que el pícaro, generalmente experto

en estafas y escenografías, tiene siempre cierto temor ante las mujeres: muchas veces es su víctima, pues le

ganan sobre su propio terreno."

22 Chandler, F.W. Op. Cit. p. 308: “ Romantic love, too, plays a conspicuous part [in 7RP -RQHV].”

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de tudo, é a possibilidade de relacionamento amoroso real e sincero com o sexo oposto,

atrelado ao tema da busca da felicidade e estabilidade social que caracterizam o ideal burguês

de vida almejado; ideal esse obviamente ausente no contexto da picaresca espanhola.

Tendo em mente os fatores até aqui apontados, talvez seja por estas razões que Vitor

Ramos mostra-se convencido de que o fenômeno da picaresca não pode ser considerado

“ realmente transplantável na íntegra das suas características para outra época e outro país” 23.

Junta-se a ele Souiller, para quem a apropriação da picaresca em outros países "implicou uma

modificação da problemática (religiosa, social e moral) para expressar a mentalidade global de

outra nação" 24. Dessa forma, este último classifica 7RP -RQHV não como um romance

picaresco, mas como uma "transição essencial para o realismo", o que explicaria a

"dificuldade de formular uma definição coerente" 25. De fato, Fielding demonstra aderência ao

realismo principalmente quando, como dissemos, não se furta a apresentar em seu romance

personagens falhas, a começar pelo protagonista, e a tratar de temas considerados vulgares

como a promiscuidade sexual, a bastardia, a mesquinhez, a hipocrisia e a crueldade humanas.

Está interessando antes em retratar o homem como ele é, tal como declara, por meio de seu

narrador:

23 Ramos, Vitor. $ HGLomR GH OtQJXD SRUWXJXHVD HP )UDQoD 5HSHUWyULR JHUDO GRV WtWXORV

SXEOLFDGRV H HQVDLR FUtWLFR. Paris, Fundação Calouste Gulbenkian/Centro Cultural Português, 1972. [Coleção

Memórias e Documentos para a História Luso-Francesa N. X] – p. 32: “ Este fenômeno, tipicamente espanhol do

Século de Ouro – recorda-se que a Literatura Portuguesa dos séculos XVII e XVIII não produziu nenhum

romance deste tipo – não nos parece realmente transplantável na íntegra das suas características para outra época

e outro país. Do picaresco, na verdade, estes romances [“ pequenos” , de cunho popular e de menor circulação,

como '5DLPXQGR GH $JXLDU RX RV )UDGHV 3RUWXJXHVHV +LVWyULD 2ULJLQDO (VFULWD SRU (OH PHVPR, 1838; 'RP

-RmR GD )DOSHUUD RX $YHQWXUDV -RFRVDV G¶HVVH FpOHEUH SHUVRQDJHP HVFULWDV SRU HOOH PHVPR, 1840; e uma

seleção de outros títulos arrolados na página 31] não possuem aquilo que constitui a sua essência profunda – o

fatalismo, o determinismo, não genético mas social, que leva a interrogações de alto alcance filosófico sobre o

destino do homem liberto de códigos morais e sociais. Esta novela popular aproveita, entretanto, do gênero os

elementos exteriores, a estrutura mais imediatamente perceptível: a total disponibilidade do herói, o caráter

itinerante da aventura, o tipo de arquitectura aberta da construção, a inserção de histórias alheias ao fulcro da

acção.” Mais adiante retomaremos o autor e estas colocações, a nosso ver pertinentes quando se trata de pensar a

filiação das 0HPyULDV GH XP VDUJHQWRV GH PLOtFLDV à picaresca.

24 Souiller, D. Op.Cit. p. 14: ..."su implantación en otros países implicó una modificación de la problemática

(religiosa, social y moral) para expresar la PHQWDOLGDG global de otra nación". Grifo do autor. Tradução minha.

25 Idem, ibidem p. 167: "Esta novela, publicada en 1749 y que tuvo un éxito inmediato, no se puede identificar

completamente como una novela picaresca: marca una WUDQVLFLyQ esencial hacia el realismo, y esta situación

explica la dificultad de formular una definición coherente." Grifo do autor. Tradução minha.

&DStWXOR , ± $ 7UDGLomR GR *rQHUR

"Pois não levamos em mira apresentar caracteres infalíveis nesta