Um enjeitado e um sargento de milícias: formação do indivíduo e do romance por Gabriela Hatsue Yuasa Azeka - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.

história; na qual, esperamos, nada se encontrará que já não tenha sido

visto na natureza humana." [ TJ, III, 5, 93]

À vista destas considerações, é possível traçar um quadro que ajuda a desmistificar a

relação entre 7RP -RQHV e a picaresca. O levantamento de todos estes pontos de contato e

também de divergência entre esse romance e esta tradição, se por um lado não pretende

esgotar o assunto, por outro parece comprovar a tese à qual nos referimos anteriormente, de

que 7RP -RQHV configura muito bem o momento que o gênero – e seu contexto histórico-

social – atravessava quando foi escrito. Pode-se dizer que a constatação da presença de

elementos da picaresca no romance não o autoriza, necessariamente, a ser classificado como

obra representativa deste gênero. Ou, em outras palavras: embora certamente tenha "ido

beber" na fonte da picaresca, Fielding no entanto criou algo QRYR e GLIHUHQWH daquilo que

pressupõe esta tradição.

7RP -RQHV H R 5RPDQHVFR

Diz-nos Frye que a função dos escritos romanescos tem sido, desde há muito, projetar

as aspirações da classe social ou intelectual dominante em alguma forma de história “ na qual

os virtuosos heróis e as belas heroínas representam os ideais, e os vilões as ameaças à

supremacia daqueles” , o que equivale a dizer que, dada a sua “ grave idealização de heroísmo

e pureza” , suas “ afinidades sociais” são com a aristocracia 26. Vem daí que, em suas origens,

o gênero propõe um distanciamento da realidade imediata e historicamente localizada, através

da ambientação da narrativa geralmente no passado, muitas vezes longínquo, e do uso do

elemento extraordinário ou maravilhoso, violando claramente as leis da natureza como as

conhecemos – uma visão idealizada e quase mágica da existência, como que “ um sonho que

realiza o desejo” 27. Some-se a isto a preponderância da casualidade, do incidente fortuito e da

mão da providência enquanto agentes dos acontecimentos, o que significa que as personagens

pouco controle exercem sobre o próprio destino. A narração, assim, se configura muito mais

como uma seqüência de fatos arrolados segundo o parecer do autor, sem que um episódio

26 Frye, Northrop. $QDWRPLD GD &UtWLFD. São Paulo, Cultrix, 1973. Respectivamente, p. 185 e p. 300.

27 Idem, ibidem p. 185.

&DStWXOR , ± $ 7UDGLomR GR *rQHUR

tenha necessariamente relação direta com o imediatamente anterior ou posterior. É o que

Northrop Frye chama de narração "e então", em oposição à narração "portanto", que ganhou

maior prestígio a partir do século XIX 28. Em resumo, o romanesco é uma "fábula heróica que

trata de pessoas e coisas fabulosas" e que "descreve o que nunca ocorreu nem é provável que

ocorra" – para usar da definição formulada já em 1785 por Clara Reeve 29.

O conjunto destes aspectos, tomados como um todo, ganha um novo impulso a partir

do Renascimento e, depois, na chamada “ era Augustana” , com a associação do gênero à

tradição clássica. Lennard Davis nos diz que os escritores romanescos aos poucos foram

levados a considerarem-se imitadores dos gregos, incorporando em suas narrativas valores

clássicos como o princípio da verossimilhança e do decoro. Segundo suas premissas, ainda

que a narrativa e as peripécias do enredo fossem ficcionais, os protagonistas deveriam de

alguma forma submeter-se à realidade histórica, personificando exemplarmente a decência, a

moral e os bons costumes. Do que decorre que modos vulgares e baixos não têm lugar nesse

tipo de ficção, e a virtude é sempre recompensada, ainda que isso exija uma ligeira

“ adaptação” das regras de etiqueta do período às convenções em vigor na época em que a

narrativa é publicada 30.

Novamente, é possível encontrar alguns traços da sobrevivência desta tradição no

romance de Fielding – como apontou McKeon, um dos maiores problemas na abordagem de

Ian Watt sobre as origens do romance inglês 31. De nossa parte, verificamos que a

permanência do romanesco se dá em 7RP -RQHV, em especial, no que diz respeito à

caracterização e à construção do enredo.

28 Cf. Frye, N. 7KH VHFXODU VFULSWXUH $ VWXG\ RI WKH VWUXFWXUH RI URPDQFH Cambridge, MA, Harvard

University Press, 1976. pp. 47 e 48: "Romance is more usually "sensational", that is, it moves from one

discontinuous episode to another, describing things that happen to characters, for the most part, externally. We

may speak of these two types of narratives as the "hence" narrative and the "and then" narrative. Most realistic

fiction, down to about the middle of the nineteenth century, achieved some compromise between the two, but

after the rise of a more ironic type of naturalism the "hence" narrative gained greatly in prestige, much of which

it still retains."

29 Citado por Sandra Vasconcelos em "Teorias do romance". IN: 'H] OLo}HV VREUH R URPDQFH LQJOrV GR VpFXOR

;9,,, São Paulo, Boitempo Editorial, 2002. p. 45.

30 Davis, Lennard. “ The romance: liminality and influence” IN: )DFWXDO ILFWLRQV 7KH RULJLQV RI WKH (QJOLVK

QRYHO New York, Columbia University Press, 1983. pp. 27-32.

31 McKeon, Michael. “ Introduction: dialectical method in literary history” IN: 7KH RULJLQV RI WKH (QJOLVK QRYHO

Baltimore, The John Hopkins University Press, 1988. pp. 1-4.

&DStWXOR , ± $ 7UDGLomR GR *rQHUR

Em termos de caracterização, o primeiro fator que chama a atenção é que, exatamente

como nas histórias romanescas, as personagens parecem ter sido desenvolvidas sem dar muita

margem à sutileza ou à complexidade. Elas são, em geral, descritas de modo estereotipado

pelo narrador, e quase não oscilam ou subvertem essa descrição ao longo de todo o romance.

E, em geral, como diz Frye, dividem-se apenas entre aquelas que são “ boas” e aquelas que são

“ más” , sem quaisquer nuances intermediárias ou maiores ambigüidades. Em nosso caso, do

lado daqueles que enfeitam a galeria do bem estão Allworthy, Tom, Sophia, e Sra. Miller. Do

lado oposto, Thwackum, a Sra. Western, Blifil, Lady Bellaston, Lorde Fellamar. O Sr.

Western pode ser considerado um caso à parte; a única personagem que, de “ boa” , passa a ser

“ má” pela insistência com que pressiona a filha a casar-se com alguém que ela detesta,

somente para depois, aprovando a união dela com Tom, reintegrar-se ao hemisfério do bem no

desenlace. E, neste contexto, o protagonista encontra um rival ou “ inimigo” em relação ao

qual desenvolve um conflito - pois a relação que se estabelece entre as personagens é

necessariamente de ordem dialética 32. Estamos nos referindo, assim, às personagens planas

de que fala Forster 33 .

Um outro aspecto que remete ao romanesco é o fato de que, ao fim e ao cabo, o

protagonista em 7RP -RQHV tem ascendência fidalga. É o que Frye chama de a "força do

sangue":

"Um herói pode aparentar ter uma origem social baixa, mas, se é um

herói genuíno, é provável que ao final do relato se revele que ele

pertence à fidalguia." 34

32 Frye, N. $QDWRPLD GD FUtWLFD Op.Cit. p. 193: “ A caracterização da história romanesca segue sua estrutura

dialética geral, e isso significa que a sutileza e a complexidade não são muito favorecidas. As personagens

tendem a ser favoráveis ou contrárias à procura. Se a ajudam, são idealizadas como simplesmente bravas ou

puras; se a atrapalham, são caricaturadas como simplesmente vis ou covardes. Por isso toda personagem típica,

na história romanesca, tende a ter sua antagonista moral a defrontá-la, como as peças pretas e brancas num jogo

de xadrez” .

33 Forster, E.M. $VSHFWRV GR URPDQFH. [Tradução Maria Helena Martins]. Porto Alegre, Editora Globo, 1969.

Parte IV – “ As pessoas” (Cont.), pp. 51-65.

34 Frye, N. 7KH VHFXODU VFULSWXUH Op.Cit. p.161: "A hero may appear to be of low social origin, but if he is a

real hero he is likely to be revealed at the end of the story as belonging to the gentry." Tradução minha.

&DStWXOR , ± $ 7UDGLomR GR *rQHUR

É exatamente o caso de Tom. Vale ressaltar que pertencer às classes altas, neste caso,

vai um pouco além de ser bem-nascido. Veremos mais adiante que nesse conceito

tradicionalmente se mesclam as noções de nobreza de nascimento, de ordem social, e a

nobreza de coração e alma. Em outras palavras, ser nobre é tanto ter berço quanto ser

essencialmente uma boa e virtuosa criatura. Numa perspectiva romanesca, tais qualidades são

acentuadas, como parte da idealização que caracteriza o gênero – de modo que se possa

diferenciar com clareza o que (ou quem) é bom do que (ou quem) é mau.

Como é sabido, é precisamente o que se dá em 7RP -RQHV Tom é o típico exemplo do

herói que apenas DSDUHQWD ser de condição social inferior, acerca de quem falava Frye. A

descoberta de suas origens no final da narrativa, na verdade, vem somente confirmar o que o

leitor já sabe a seu respeito: ele é um autêntico fidalgo, pois tem berço e bom coração. O

narrador não se cansa de apontar indícios desse fato, já que, a despeito da negativa descrição

inicial, Tom vai se revelando como um rapaz de índole benigna, capaz de arriscar a própria

integridade física para agradar à amada, como no episódio do passarinho de Sophia

maldosamente liberto por Blifil, ou resgatar uma donzela em perigo, por ocasião do tombo

que Sophia por pouco não leva, ao ser atirada de seu cavalo, e ao salvar a Sra. Waters do

ataque de Northerton. Tom insiste em prestar ajuda financeira a Black George e sua família, e,

como dissemos anteriormente, a vários outros necessitados que encontra nas estradas. E, além

de tudo, Tom corporifica no semblante o ideal do herói perfeito. Ele é repetidamente descrito

como um belo rapaz, que desde cedo atraíra a atenção de sua mãe, Bridget, causando assim os

ciúmes de Thwackum e Square, e que, aos vinte anos, se destaca dentre os homens com os

quais se encontra. Ao passar por uma estalagem no caminho a Bristol, Tom surpreende o

oficial a quem comunica sua intenção de se alistar no exército e acompanhar a tropa, pois,

"além de estar muito bem vestido, e possuir uma fidalguia natural, tinha uma expressão de

notável dignidade, que raro se vê entre os homens vulgares e que, de fato, não se encontra

obrigatoriamente entre os superiores" [TJ, VII, 11, 285] . Em outro ponto, Tom é referido

como, de fato, "uma figura encantadora; e, se uma belíssima pessoa, adornada de mocidade,

saúde, força, viço, coragem e bondade pode fazer que um homem semelhe um anjo, não lhe

faltava por certo a semelhança" [TJ, IX, 2, 387] . Enfim, fica claro que Tom detém uma

&DStWXOR , ± $ 7UDGLomR GR *rQHUR

aparência favorável que é confirmada por uma boa índole, ou vice-versa – o que, como

dissemos, vem confirmar sua origem verdadeiramente fidalga.

Mais ainda, as demais personagens de destaque na narrativa – Sophia, Allworthy,

Blifil e Western, em torno de quem, de modo especial, o romance evolui até o desenlace feliz

- são, de fato, membros da JHQWU\ ✂✁ . A primeira personagem apresentada ao leitor é na

verdade Allworthy, logo no início do romance. O narrador deixa claro, de saída, que ele se

caracterizava pela posição verdadeiramente favorecida, em todos os aspectos, da qual gozava

na época em que se passa a história:

"Na parte da divisão ocidental deste reino comumente chamado

Somersetshire, vivia há pouco tempo (e talvez ainda viva) um cavalheiro

que tinha o nome de Allworthy, e ao qual se poderia chamar muito bem

o favorito, assim da Natureza como da Fortuna; pois ambas pareciam

havê-lo, à competência, abençoado e enriquecido. Nessa porfia pode

parecer que a Natureza haja vencido, pois concedera-lhe muitos dons,

35 Aqui tratamos de um termo um tanto polêmico. Por um lado, há uma certa reticência em arriscar uma

definição mais precisa. Dorothy Marshall, em (LJKWHHQWK FHQWXU\ (QJODQG [Essex, Longman, 1993], aponta

para o fato de que esse termo não era legalmente reconhecido, embora a sociedade como um todo soubesse do

que se tratava: “ Again it is not easy to define exactly who were covered by this term [JHQWU\]. The Law knew

nothing of gentle birth but Society recognized it” [p. 30]. Michael McKeon, por sua vez, problematiza a questão

aliando-a ao que classifica como “ instabilidade” das categorias sociais e de suas implicações, ambas já

claramente detectáveis no século XVII e demonstrativas da “ complexidade da experiência histórica” , refratária a

categorizações de ordem analítica: “ Historians, concerned to argue the rise or fall of ‘the gentry’ soon found

themselves face to face with the prior question: Who are the gentry? The inconsistency of seventeenth-century

usage reflects the lived complexity of historical experience, which resists analytic categorization.” Por outro

lado, encontramos também os que preferem adotar uma definição convencional e de caráter prático. Roy Porter

[(QJOLVK VRFLHW\ LQ WKH HLJKWHHQWK FHQWXU\, London, Penguin, 1991] diz que JHQWU\ se refere a cerca de 15.000

famílias proprietárias de terras que não tinham que cultivá-la pessoalmente, e que iam de baronetes de mais de

£1.500 ao ano até o “ squire” de £300: “ Beneath these magnates stretched down some 15,000 further landed

families. These “ gentry” (proprietors who did not personally have to till the soil) were lordlings…They ranged

from baronets, who in 1700 might have over £1,500 a year (by 1800 perhaps £4,000), down to the squire feeling

the pinch on as little as £300” (p. 66). Segundo o 2[IRUG (QJOLVK 'LFWLRQDU\, o termo JHQWU\ é usado, em inglês

contemporâneo, para designar "pessoas de nascimento e educação superior; a classe a que pertencem" ou "a

classe imediatamente abaixo da nobreza". No original: "People of gentle birth and breeding; the class to which

they belong; in modern English use spec. the class immediately below the nobility". Tradução minha.

Estabelece-se, assim, uma clara distinção entre QREUH]D/DULVWRFUDFLD e JHQWU\, com aquela em posição superior a

esta, tal como, no século XVIII, se organizavam as classes sociais inglesas mais altas. *HQWOHPHQ ou membros da

JHQWU\ seriam, portanto, as pessoas de posses e educação refinada que não detinham títulos de nobreza e/ou não

eram aparentados à família real inglesa, bem como aqueles que, em função disso, não exerciam posição de

destaque nas altas rodas políticas. Dada a sua propriedade, e por motivos práticos, cumpre esclarecer, então, que

passaremos daqui em diante a empregar este termo para nos referirmos às personagens ou à classe em questão,

no original inglês e em itálico, por falta de um termo preciso equivalente em português.

&DStWXOR , ± $ 7UDGLomR GR *rQHUR

enquanto a Fortuna podia conferir-lhe apenas um; fora, porém, tão

profusa no proporcioná-lo que outros poderão pensar que essa única

dotação valia mais do que todas as diversas bênçãos outorgadas pela

Natureza. Desta última lhe advieram uma pessoa agradável, uma

constituição sadia, uma lúcida compreensão e um coração benevolente;

da outra, a herança de uma das maiores propriedades do condado."

[ TJ, I, 2, 11]

Allworthy é, assim, desde logo apresentado como um autêntico JHQWOHPDQ, no mais

estrito sentido da palavra. Detém tanto o privilégio de nascimento e fortuna quanto o de

virtude moral. E isto é, de certa forma, bastante significativo, porque é ele quem assumirá a

guarda do enjeitado Tom, zelando para que este, pelo menos, cresça tal qual um fidalgo.

Allworthy personifica a figura paterna para Tom, mas, mais do que isso, o referencial de

identidade social a ser almejado: um fidalgo cheio de qualidades morais e abastança material.

Não é à toa que, no desfecho da história, Tom se vê seguindo os seus passos em todos os

aspectos. Allworthy é a figura idealizada do grande proprietário de terras da Inglaterra na

época em que a história se articula.

A mesma idealização se dá, em grau ainda maior, com relação a Sophia. Além de ser

filha de Western, cavalheiro de grandes posses e vizinho de Allworthy, ela é de fato um

modelo de perfeição física e interior. No capítulo 2 do Livro 4 o narrador, depois de declarar

que "suas formas não eram apenas corretas, senão delicadíssimas", detém-se para descrever

em detalhes e à maneira das histórias romanescas a beleza de suas proporções: seus "negros e

opulentos" cabelos, seus olhos negros, que tinham "um fulgor que nem toda a sua meiguice

alcançaria extinguir", seu nariz "exatamente regular", seus lábios "vermelhos", suas faces

ovais - "e a direita ocultava uma covinha, que o menor sorriso patenteava"- , sua pele, que

"lembrava antes o lírio do que a rosa" e o seu seio, "muito mais alvo do que ela mesma".

Ainda não satisfeito, o narrador em seguida acrescenta:

"Esse o exterior de Sophia. Nem era a formosa fábrica desonrada por

algum habitante indigno dela. O espírito, em todos os sentidos, corria

parelhas com o físico; e este, às vezes, vinha pedir encantos àquele; pois,

quando ela sorria, a sua doçura natural difundia-lhe ao semblante o

&DStWXOR , ± $ 7UDGLomR GR *rQHUR

brilho que nenhuma regularidade de traços pode dar."

[TJ, IV, 2, 109-110]

A perfeição global de Sophia leva o narrador a inclusive confessar o seu favoritismo:

"Assim como considero todas as personagens desta história como filhos

meus, assim me cumpre confessar a mesma propensão à parcialidade em

relação a Sophia; para o que espero que o leitor me conceda a mesma

desculpa, a saber, a superioridade do seu caráter. Essa afeição

extraordinária que consagro à minha heroína nunca me permite deixá-la

por muito tempo sem a maior relutância." [TJ, XVI, 6, 696]

O grau de idealização da heroína Sophia é ainda maior do que o que se dá com

Allworthy porque, conforme mencionamos, ela é descrita de maneira mais detalhada, com

qualidades positivas tanto no caráter quanto na constituição física. O autor-narrador faz dela

uma personagem virtualmente perfeita – que, ao contrário de Allworthy, e fazendo jus à

relação que o seu nome tem com a palavra “ sabedoria” , desde logo consegue discernir a

natureza essencialmente benigna em Tom, e o inverso dela em Blifil. Assim, ele nos informa

que Sophia, "quando muito jovem, percebera que Tom, embora maroto, preguiçoso,

descuidado e sem juízo, não era inimigo de ninguém, senão de si próprio; e que Master Blifil,

se bem fosse um cavalheiro prudente, sóbrio e discreto, aferrava-se, ao mesmo tempo,

vigorosamente, aos interesses de uma única pessoa; e qual fosse essa única pessoa adivinhará

o leitor sem qualquer auxílio de nossa parte" [TJ, IV, 5, 116]. Demonstrando uma rara

percepção, Sophia é de fato uma criatura adorável que, além de não enganar a ninguém,

também QmR VH GHL[D HQJDQDU. Antes de qualquer pessoa, ela percebe a diferença essencial

entre os dois rapazes, e, mesmo contra as convenções sociais, escolhe aquele que possui a

índole mais condizente com a sua própria. Sophia deixa esse traço de seu caráter e

personalidade muitas vezes demonstrado ao longo da narrativa, pois também, pelos mesmos

motivos, não se deixa seduzir por Blifil ou por Lorde Fellamar, a despeito de seus títulos e de

suas fortunas. Pelo contrário, rejeita firmemente a corte de ambos.

Bela, de caráter modelar, Sophia portanto certamente se identifica bastante com a

heroína romanesca. E, à semelhança das histórias dessa natureza, ela necessariamente passa

&DStWXOR , ± $ 7UDGLomR GR *rQHUR

por diversos tipos de sofrimento, quando então sua virtude é posta à prova. Para Sophia esse

sofrimento se manifesta principalmente na forma como é cruelmente pressionada por seu pai e

sua tia para se casar contra a vontade, mas também nas tentativas de estupro por parte de

Lorde Fellamar. São, em realidade, facetas da mesma questão: a perda da virgindade,

apontada por Frye como equivalente para a mulher àquilo que é a honra para o homem 36.

Segundo uma conhecida convenção romanesca, diz Frye, a heroína deve permanecer virgem

até o seu casamento, pois, para o homem, casar-se com alguém que não o seja poderia causar

a sensação de ter adquirido um "produto de segunda mão". Após fugir de casa para não se

casar com Blifil, empreendendo uma jornada até Londres, Sophia se refugia na residência de

Lady Bellaston, que no entanto logo se revela uma rival mesquinha e sem escrúpulos. A dama

planeja com Lorde Fellamar, e mais tarde com a Sra. Western, induzir um casamento entre

Sophia e Fellamar através do estupro. Segundo as convenções, uma vez consumado o ato,

anular-se-ia a possibilidade de Sophia casar-se com qualquer outra pessoa que não o

estuprador. A jovem passa pelo constrangimento de ter que aturar os galanteios e avanços de

Fellamar, e por pouco, não fosse a interferência de seu pai, Sophia se veria arruinada nas

mãos do corrompido fidalgo. Fellamar, por sua vez, corrobora a idéia de degradação da noção

de nobreza aristocrática, da qual trataremos no próximo capítulo. É, por isso, significativo que

ele se configure como ameaça à integridade de Sophia. Seus avanços fazem parte do

sofrimento imposto à heroína, do qual ela deve sair vitoriosa, com sua virtude e sua

virgindade ambas perfeitamente preservadas até que possa, sem restrições, unir-se em amor ao

herói no desenlace da narrativa.

Como já dissemos, Sophia é, então, a heroína exemplarmente bela e virtuosa, que

enfrenta provações mas logra sair delas ilesa, e que, se necessário, se levanta contra as

condições sociais a ela impostas. Sua nobreza é repetidamente afirmada e até fortalecida por

meio das provações que sofre nos desdobramentos da trama. Altamente idealizada, pois, a

heroína de Fielding assim demonstra semelhança com as heroínas romanescas.

Adentramos, já, na discussão de alguns aspectos referentes ao enredo que, conforme

mencionamos, também manifesta alguns pontos de contato com as histórias romanescas.

Principalmente no que se refere à trajetória do protagonista. A exemplo do que acontece em

36 Frye, N. 7KH VHFXODU VFULSWXUH Op.Cit., capítulo 3: “ Heroes and heroines of romance”, pp. 65-93.

&DStWXOR , ± $ 7UDGLomR GR *rQHUR

muitas histórias gregas, Tom, o herói, tem um nascimento misterioso, obscuro, a ser revelado

somente no desenlace e que mantém em suspenso a possibilidade de reviravolta do enredo a

seu favor. Também encontra um pai adotivo na pessoa de Allworthy, que o acolhe e lhe provê

uma educação fidalga, e pode-se dizer que encontra uma figura bastante maternal na pessoa da

Sra. Miller, na terceira parte do livro. Sua condição desvantajosa, em função da ilegitimidade

de suas origens, se confirma com outro desdobramento típico do romanesco: o herói sofre

uma queda abrupta na escala social, o que Frye classifica como uma "ruptura na continuidade

da identidade" 37. Subitamente separado do mundo que até então conhecia, o herói passa a

viver em um estado de crescente alienação, solidão e isolamento, onde deve então enfrentar

aventuras, lutas e sofrimento, e sair, de alguma forma, vitorioso. É exatamente o que acontece

com Tom. Vítima de perseguição desde a infância, por conta de sua bastardia e modos

irreverentes, Tom enfrenta a rejeição de seus tutores e de seu meio-irmão Blifil, sentimento

esse que cresce até culminar em uma bem-sucedida artimanha para expulsá-lo de Paradise

Hall. Como lembra Souiller, até o nome da residência de Allworthy é extremamente sugestivo

neste contexto 38. Tom, subitamente destituído do amparo e do status que a residência lhe

fornecia, é obrigado a viver com recursos materiais limitados e a enfrentar o mundo contando

somente com sua própria força, inteligência e caráter. Ele deixa de ser o protegido de

Allworthy para tentar tornar-se alguém por conta própria. Lemos, nesse momento, que "o

mundo todo, segundo a frase de Milton, estendia-se diante dele; e Jones, como Adão, não

tinha a quem pedir conforto e assistência" [TJ, VII, 2, 251]. Não é, pois, uma jornada fácil:

trata-se, acima de tudo, de lograr viver aventuras da maneira mais bem-sucedida possível,

num mundo que lhe é, vezes seguidas, estranho e hostil. Entre preservar sua honra, encontrar

meios materiais de sobreviver e recuperar o amor de Sophia, ele enfrentará mil perigos e

forças contrárias – ainda que cedendo de vez em quando à tentação da carne, nas pessoas da

Sra. Waters e Lady Bellaston, até chegar a ser acusado de crimes graves, como incesto e

assassinato. Por outro lado, também não lhe faltarão oportunidades para comprovar que,

afinal, ele tem realmente um bom coração – e não apenas uma bela aparência.

37 Idem, ibidem p. 104: "At the beginning of a romance there is often a sharp descent in social status, from riches

to poverty, from privilege to a struggle to survive, or even slavery. (...) But the structural core is the individual

loss or confusion or break in the continuity of identity (...)." Tradução minha.

38 Souiller, D. Op.Cit. p. 175: “ La novela termina con la imagen de una sociedad reconciliada con ella misma y

con el retorno a 3DUDGLVH +DO (el nombre es significativo)...” . Grifos do autor.

&DStWXOR , ± $ 7UDGLomR GR *rQHUR

Fielding enfatiza que estas duas últimas qualidades sobrepujam os eventuais deslizes

de Tom. De modo que, apesar das intempéries que se abatem sobre ele, culminando com sua

prisão e possível enforcamento por assassinato, Tom consegue sair vitorioso e "dar a volta por

cima": revela-se, assim, o elemento de “ procura bem-sucedida” vivido pelo protagonista, para

quem se desdobram uma jornada perigosa, uma luta contra seu antagonista e sua exaltação

definitiva no final 39. Frye explica que isso se deve basicamente a dois fatores 40. Em primeiro

lugar, o herói vence em função de sua própria valentia e coragem. Ele merece vencer porque

demonstrou não ter medo de enfrentar as adversidades, e provou possuir o caráter do

verdadeiro herói, que é, acima de tudo, uma pessoa íntegra e de irrefutáveis qualidades

morais. Dessa forma, Tom merece ser reabilitado junto a Allworthy e Sophia porque, ainda

que não seja perfeito, "passou" no teste do caráter e da coragem. A Sra. Miller, nesse sentido,

personifica a principal voz que se levanta para defendê-lo neste pormenor. Graças a ela, Tom

tem seus erros compensados pelo testemunho das várias mostras de generosidade e bom

coração que deu para com as pessoas necessitadas ao seu redor. Em segundo lugar, o herói

vence simplesmente porque está destinado a isso. É a sua sorte, fortuna ou “ estrela” vencer.

Para além de uma questão meritória, o que vale é o destino traçado desde há muito para o

herói protagonista, para quem não se cogita nenhuma outra possibilidade além de triunfar. É

por isso que Walnice Nogueira Galvão nos diz que

"Tom Jones é premiado porque é bom, não porque procure sê-lo; porque

(...) é amado dos deuses, é um ser de eleição, e os deuses não precisam

justificar suas preferências." 41

A vitória consumada do herói se verifica, finalmente, no desenlace feliz que o aguarda

ao fim da narrativa. É bem verdade que, não raro, este parece artificial e um tanto forçado,

mas Frye afirma que, em todo caso, ele é esperado dentro do desenlace convencionalmente

feliz do romanesco. Como um genuíno herói desta tradição, Tom, por uma reviravolta radical

do enredo, é completamente inocentado das acusações que o mantinham preso e, revelado

39 Frye, N. $QDWRPLD GD FUtWLFD Op.Cit. p. 185.

40 Frye, N. 7KH VHFXODU VFULSWXUH Op.Cit. p. 67.

41 Galvão, Walnice N. “ No tempo do rei” IN: 6DFR GH JDWRV. (QVDLRV FUtWLFRV São Paulo, Duas Cidades, 1976.

p. 33.

&DStWXOR , ± $ 7UDGLomR GR *rQHUR

sobrinho de Allworthy e meio-irmão de Blifil, é plenamente reintegrado à família. Com a

expulsão que se segue de Blifil, o vilão desmascarado, Tom se torna automaticamente

herdeiro universal de Allworthy e conquista assim o direito de casar-se com Sophia sem

quaisquer impedimentos. O próprio pai dela, Western, muda bruscamente de opinião acerca

dele quando fica a par de sua nova situação social. Tom então se casa com Sophia e, não

apenas riquíssimo (pois as propriedades Allworthy e Western se juntam com o seu enlace),

termina a história também muito feliz, desfrutando de um casamento por amor que lhe rende

dois filhos e uma "discrição e uma prudência raríssimas em pessoas dotadas de índole viva

como a sua", como diz o narrador [TJ, XVIII, 13, 807]. A história precisa necessariamente

terminar neste ponto pois, como esclarece Frye, o ciclo da vida humana se completa neste

quadro. Herói e heroína estão juntos, "vivendo felizes para sempre", tornam-se adultos,

assumindo os papéis de marido, mulher e pais de seus filhos. É a deixa para concluir a

narrativa, uma vez que nada de interesse pode conter a descrição de sua realização existencial

plena tal como eles a vivem agora. Como último ato, Tom, ao descobrir suas origens e se

casar com Sophia, reforça no final do livro os seus vínculos com a classe fidalga à qual

sempre pertenceu, seja por caráter, seja por berço. Reintegrado a um Paradise Hall ampliado,

de posse de uma identidade descoberta e consolidada, ele agora sabe qual é o seu lugar no

mundo: na conturbada sociedade inglesa do século à qual pertence, seu destino é ser um

verdadeiro fidalgo – ainda que, como veremos adiante, imbuído de valores genuinamente

burgueses. A exemplo das histórias romanescas, 7RP -RQHV com isso parece delinear uma

perspectiva fundamentalmente otimista da existência: a felicidade individual é, afinal,

possível. Desde que cada um saiba muito bem qual é o seu lugar dentro da ordem das coisas.

Por fim, uma vez que todas as personagens principais pertencem à JHQWU\, o desenlace

parece reiterar a idéia de um certo domínio aristocrático, bem como a celebração de seu poder,

tradição e estabilidade a que nos referimos anteriormente. Tom e Sophia encarnam, de

maneira idealizada, a aspiração de fidalguia concretizada em felicidade afetiva, familiar e

material. A confirmação da hierarquia social assim estabelecida é manifesta pelo próprio

narrador, que declara, comentando a completa realização do casal protagonista no último

parágrafo da narrativa:

&DStWXOR , ± $ 7UDGLomR GR *rQHUR

“ E tal é a sua afabilidade, a sua indulgência e a sua beneficência para

com os inferiores, que não há um vizinho, um rendeiro ou um criado que

não abençoe, com a maior das gratidões, o dia em que o Sr. Jones se

casou com a sua Sophia.” [TJ, XVIII, 13, 808]

Ainda que de modo um tanto exagerado, o narrador não deixa de indicar que a

completa felicidade vivenciada por Tom e Sophia se estende, através de seu trato bondoso,

aos seus LQIHULRUHV, a ponto de estes louvarem e agradecerem aos céus pela união do casal. O

que está em jogo, então, não é em nenhum momento o questionamento dessa hierarquia, mas

o ideal de fidalguia que transcende a abastança material e alcança positivamente as classes

inferiores pela via da virtude. Assim, o privilégio da aristocracia é preservado num suposto

estado de felicidade para todos, chegando ao ponto de sugerir que a felicidade das classes

mais altas assume o papel de agente daquela desfrutada pelas classes mais baixas.

Há, porém, o outro lado da moeda. Se 7RP -RQHV manifesta pontos de contato com as

histórias romanescas, não deixa também de, paralelamente, demonstrar seu afastamento dessa

tendência através de uma série de elementos. Destacamos aqui quatro dentre os principais. Em

primeiro lugar, o fato de que, como explica Frye, o autor romanesco não almeja criar “ gente

real” , mas antes “ figuras estilizadas que se ampliam em arquétipos psicológicos” 42. Ora, é

verdade que Fielding não desenvolve suas personagens a ponto de conferir-lhes um caráter

integralmente individualizado, captando seus conflitos interiores e os aspectos mais íntimos e

únicos de suas personalidades. Por outro lado, porém, seria exagero afirmar que suas

personagens são todas “ estilizadas” , e mesmo “ arquétipos psicológicos” . É possível captar a

preocupação de situá-las em um contexto histórico e social definido e particularizado, que é o

ambiente da aristocracia rural da Inglaterra por volta de 1745, ano em que a última rebelião

jacobita “ estava no seu auge” , como diz o narrador [TJ, VII, 11, 283]. Não faltam referências

a lugares, estabelecimentos, eventos e pessoas reais, como as peculiaridades da estrada de

Somersetshire a Londres; a estalagem do Sino, em Upton; o Sr. King, de Bath, dono de um

negócio de coches; a Batalha de Tannières; os Duques de Marlborough e Cumberland; o

pregador Whitefield; a estalagem Bull and Gate, em Holborn, Londres; a famosa Jenny

Cameron – para citar apenas algumas. Além disso, como procuraremos demonstrar adiante,

42 Frye, N. $QDWRPLD GD FUtWLFD. Op.Cit. p. 299.

&DStWXOR , ± $ 7UDGLomR GR *rQHUR

existe, sim, um certo traço de individuação nas personagens. Na maior parte das vezes limita-

se à mera sugestão, mas podemos atestar que ela existe. O narrador também se refere às

personagens com o objetivo explícito de levar o leitor a crer que elas, de fato, existem. Uma

prova disso está na expressão “ e talvez ainda viva” incluída na já mencionada apresentação de

Allworthy ao leitor, no capítulo 2 do Livro 1. Mas, acima de tudo, talvez prevaleça a

declaração do narrador, procurando justificar as falhas de caráter que amiúde se fazem sentir

em diversas personagens e em especial no próprio Tom. Como já mencionamos, ele declara o

seu intento de retratar a natureza humana tal como ela se apresenta na vida real, de modo

algum desprovida de vícios e defeitos.

Isto nos remete ao segundo elemento, a saber, a já comentada presença de personagens

de baixa extração, com seus modos e maneiras, que tenderiam a estar ausentes ou assumir

papel de menor peso em uma história romanesca propriamente dita. Fielding escolhe

apresentar não apenas uma história envolvendo umas poucas personagens da aristocracia

rural, mas também um amplo panorama social segundo o que as andanças de Tom e Sophia

rumo a Londres deixam entrever. É nele que o narrador busca inserir sua percepção global do

homem tal como o vê, pincelando em cores nítidas tanto suas qualidades quanto seus desvios

de conduta mais freqüentes e característicos.

O terceiro e o quarto aspecto serão melhor comentados adiante. Em todo caso, vale

mencionar que eles se referem a uma certa instabilidade no âmbito ideológico que se faz

sentir, respectivamente, no plano da organização social e no do estilo dentro da forma

literária. Em outras palavras, ainda que, como já dissemos, seja possível detectar uma certa

apologia da dominação aristocrática, por outro lado tal estrutura deixa entrever uma evidente

oscilação no que se refere à ascensão de uma ideologia de ordem burguesa. Afinal, Tom passa

a esmagadora maioria dos capítulos como um mero bastardo de paróquia, e seu destino final

parece configurar de modo ideal a aspiração de ascensão da camadas médias da sociedade. De

modo que, se por um lado existe em 7RP -RQHV uma certa idealização da supremacia

aristocrática, ao melhor estilo romanesco, por outro tal supremacia aparece também

ameaçada, pela incorporação de valores burgueses na esfera das aspirações dos homens

comuns. É, pois, tal fratura um outro elemento que evidencia um certo distanciamento do

universo romanesco propriamente dito.

&DStWXOR , ± $ 7UDGLomR GR *rQHUR

Quanto ao quarto elemento, estamos nos referindo à presença da ironia como uma das

marcas de estilo do romance. Dado o seu caráter ao mesmo tempo encobridor e revelador,

conferindo uma natureza de desmascaramento à narrativa, ela pouco se relaciona com as

histórias romanescas. Nestas, as convenções não passam por uma ruptura, já que, em sua

representação, são todas altamente idealizadas. Do que se depreende que, em 7RP -RQHV, a

presença da ironia característica e marcante do narrador também contribui para a relativização

da perspectiva romanesca na obra como um todo. Veremos mais adiante de que maneira esta

se configura no corpo do romance.

Em suma, novamente percebemos que a relação da obra-prima de Fielding com a

tradição romanesca é, no mínimo, de natureza paradoxal. Revela, sim, o peso que esta teve na

formulação do romance, ao mesmo tempo em que deixa claro o rumo independente e

inovador escolhido pelo autor. A exemplo da tradição picaresca, 7RP -RQHV foi certamente

moldado segundo as convenções desta vertente – indo, porém, adiante enquanto formulação

literária daquela época. É em função disso que não podemos concordar, portanto, com a

premissa de Henry Knight Miller, para quem Fielding teve fundamentalmente esta tradição

em mente ao escrever 7RP -RQHV. Ainda que sua definição desta corrente seja abrangente,

incluindo a épica, a prosa ficcional e narrativa em verso, cremos que denominar 7RP -RQHV

uma obra “ romanesca nos aspectos essenciais” 43 é, entre outras coisas, não apenas restringir

excessivamente o amplo leque de heranças formais que uma obra ficcional em prosa como

esta certamente incorporou em sua formulação, como também diminuir consideravelmente a

“ lente de aumento” pela qual o crítico analisa o romance, conferindo demasiada ênfase ao

caráter romanesco propriamente dito da obra.

7RP -RQHV H D 7UDGLomR 1HRFOiVVLFD

O contexto social, político e econômico caracterizado por mudanças significativas e o

acelerado desenvolvimento que marcou a Inglaterra especialmente no final do século XVII e

no início do XVIII ajudam a explicar o crescente apego que se manifestou, em literatura e nas

43 Miller, Henry Knight. 7RP -RQHV DQG WKH URPDQFH WUDGLWLRQ Victoria, University of Victoria, 1976. [ELS

Monograph Series, N. 6].

&DStWXOR , ± $ 7UDGLomR GR *rQHUR

artes em geral, aos valores da tradição clássica. Tratava-se de, em concordância com o

momento histórico de impressionante progresso em questão, identificar-se com os elevados

valores da extinta Roma Imperial, buscando e zelando por um sofisticado grau de ordem e

aperfeiçoamento segundo o exemplo dos grandes mestres da Antigüidade: entrava em vigor a

chamada “ Era Augustana” . Com uma visão fundamentalmente otimista, centrada no homem e

em suas capacidades, em breve se formularia uma espécie de “ credo” a ser seguido por

aqueles mais aderentes a essa tendência: de acordo com Roger McCutcheon, os melhores

escritores, poetas e romancistas do período só poderiam ser

“ ...homens bem treinados nas literaturas da Grécia e de Roma, que

escreviam com modelos e princípios clássicos em mente. Tais modelos,

conforme entendidos no século XVIII, encorajavam a restrição sobre a

exuberância, louvavam a conformidade mais que a originalidade,

elevavam a razão acima da imaginação e da emoção e enfatizavam a

clareza de afirmação e a regularidade da forma sobre o vago, o

rapsódico ou o excêntrico.” 44

Em literatura, pode-se dizer que tais valores se traduziram, primeiramente, em um

enfoque naquilo que é universal, realçando as qualidades gerais comuns a todos os homens,

uma vez que se entendia que o homem deveria ser “ o objeto de estudo adequado da

humanidade” 45 e que “ a maior das artes é aquela que é imediatamente compreendida e tem o

apelo mais extenso, evitando a expressão de idiossincrasias pessoais e tomando nota de

‘propriedades gerais e aparências amplas’ ao invés daquilo que é peculiar ou particular

demais” 46. O material a ser analisado era, portanto, o homem em sociedade, e não o homem

44 McCutcheon, Roger. (LJKWHHQWK FHQWXU\ OLWHUDWXUH London, Oxford University Press, 1958. p. 2: “ The best

writers of the period were men well trained in the literature of Greece and Rome, who wrote with classical

models and principles in mind. These models, as understood in the eighteenth century, encouraged restraint over