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Um teto todo seu por Virginia Woolf - Versão HTML

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Virginia Woolf

Um teto

todo seu

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Um teto

todo seu1

1 Este ensaio baseia-se em dois artigos lidos perante a Sociedade das Artes, em Newnham, e a Odtaa, em Girton, em outubro de 1928. Os

artigos eram demasiadamente extensos para serem lidos na íntegra e foram posteriormente alterados e ampliados.

Capítulo I

Mas, dirão vocês, nós lhe pedimos que falasse

sobre as mulheres e a ficção — o que tem isso a

ver com um teto todo seu? Vou tentar explicar.

Quando vocês me pediram que falasse sobre as mu-

lheres e a ficção, sentei-me à margem de um rio e

comecei a pensar sobre o sentido dessas palavras.

Poderiam significar simplesmente alguns comentá-

rios sobre Fanny Burney; alguns mais sobre Jane

Austen; um tributo às irmãs Brontë e um esboço do

Presbitério de Haworth sob a neve; alguns ditos es-

pirituosos, se possível, sobre a srta. Mitford; uma

alusão respeitosa a George Eliot; uma referência à

sra. Gaskell, e estaríamos conversados. Mas, numa

segunda reflexão, as palavras não pareceram tão sim-

ples. O título "As mulheres e a ficção" poderia sig-

nificar — e talvez vocês assim o quisessem — a mu-

lher e como ela é; ou poderia significar a mulher e

a ficção que ela escreve; ou poderia significar a mu-

lher e a ficção escrita sobre ela; ou talvez quisesse

dizer que, de algum modo, todos os três estão ine-

vitavelmente associados, e vocês desejariam que eu

os examinasse sob esse ângulo. No entanto, quan-

do comecei a ponderar sobre esta última forma de

abordar o assunto, que parecia a mais interessante,

logo percebi que havia um inconveniente fatal. Eu

jamais conseguiria chegar a uma conclusão. Jamais

conseguiria cumprir o que é, segundo entendo, o pri-

7

meiro dever de um conferencista: estender-lhes, após

uma hora de exposição, uma pepita de pura verdade

para que a guardem entre as páginas de seus cader-

nos de notas e sempre a conservem sobre o consolo

da lareira. Tudo o que poderia fazer seria oferecer-

lhes uma opinião acerca de um aspecto insignifican-

te: a mulher precisa ter dinheiro e um teto todo dela

se pretende mesmo escrever ficção; e isso, como vo-

cês irão ver, deixa sem solução o grande problema da

verdadeira natureza da mulher e da verdadeira natu-

reza da ficção. Esquivei-me ao dever de chegar a uma

conclusão sobre essas duas questões — a mulher e

a ficção, no que me diz respeito, permanecem como

problemas não solucionados. Mas, para compensar

um pouco, vou fazer o possível para mostrar-lhes

como cheguei a esse conceito do teto e do dinheiro.

Vou expor diante de todos, tão livre e integralmente

quanto puder, o encadeamento de idéias que me le-

vou a pensar nisso. Talvez, se eu revelar as concep-

ções e preconceitos que estão por trás dessa afirma-

ção, vocês descubram que eles têm alguma relação

com as mulheres e outro tanto com a ficção. De qual-

quer modo, quando um tema é altamente contro-

vertido — e assim é qualquer questão sobre o sexo

—, não se pode pretender dizer a verdade. Pode-se

apenas mostrar como se chegou a qualquer opinião

que de fato se tenha. Pode-se apenas dar à platéia a

oportunidade de tirar as próprias conclusões, en-

quanto observa as limitações, os preconceitos e as

idiossincrasias do orador. É provável que a ficção

contenha aqui mais veracidade que fatos. Portanto,

valendo-me de todas as liberdades e licenças de um

romancista, proponho contar-lhes a história dos dois

dias que antecederam minha vinda aqui — o modo

como, vergada sob o peso do tema que vocês deposi-

taram em meus ombros, ponderei sobre ele deixan-

do-o entrar em minha vida cotidiana e dela sair. Não

8

preciso dizer que o que estou prestes a descrever não

tem existência: Oxbridge é uma invenção, assim

como Fernham; "eu" é apenas um termo convenien-

te para alguém desprovido de existência real. Menti-

ras fluirão de meus lábios, mas talvez possa haver

alguma verdade no meio delas; cabe a vocês buscar

essa verdade e decidir se vale a pena conservar algo

dela. Caso contrário, naturalmente jogarão tudo na

cesta de papéis e esquecerão o assunto.

Assim, ali estava eu (chamem-me Mary Beton,

Mary Seton, Mary Carmichael ou o nome que lhes

aprouver — isso não tem a menor importância), sen-

tada à margem de um rio há uma ou duas semanas,

gozando a amena temperatura de outubro, perdida

em cogitações. Aquela canga de que falei — as mu-

lheres e a ficção, a necessidade de se chegar a alguma

conclusão sobre um tema que suscita toda sorte de

preconceitos e paixões — vergava-me a cabeça até

o solo. Para a direita e para a esquerda, tufos de

plantas, dourados e rubros, resplandeciam, ígneos;

parecia mesmo que tinham sido queimados pelo ca-

lor. Na margem oposta, os salgueiros choravam o

lamento eterno, com os cabelos a envolver-lhes os

ombros. O rio refletia o que bem quisesse de céu e

ponte e árvore flamejante, e, quando o universitário

atravessou, remando, os reflexos, eles se extinguiram

novamente, como se ele jamais tivesse existido. Qual-

quer um podia sentar-se ali horas a fio, imerso em

pensamentos. O pensamento — para chamá-lo por

um nome mais imponente que o merecido — havia

lançado sua linha na correnteza. Minuto após minu-

to, ela oscilou aqui e ali entre os reflexos e as ervas

silvestres, ao sabor da água, que a erguia e a afunda-

va, até (vocês conhecem aquele puxãozinho) sentir

a súbita consolidação de uma idéia na ponta da li-

nha: então, foi só puxá-la com cautela e expô-la cui-

dadosamente. Mas, ai de mim! Estendida na grama,

9

quão insignificante me pareceu — o tipo de peixe

que o bom pescador devolve à água para que possa

engordar e merecer, um dia, ser preparado e comido.

Não os incomodarei agora com esse pensamento,

muito embora, se atentarem bem, talvez o descubram

por si mesmos no transcorrer do que vou falar.

Por menor que fosse, porém, ele tinha, ainda

assim, a misteriosa propriedade dos de sua espécie

— devolvido à mente, logo se tornou muito exci-

tador e importante, e, enquanto ele arremetia e mer-

gulhava, movendo-se como um relâmpago de um lado

para outro, desencadeou uma tal marulhada e tu-

multo de idéias, que foi impossível para mim per-

manecer calmamente sentada. Foi assim que me vi

caminhando com extrema rapidez por um gramado.

Imediatamente, um vulto de homem ergueu-se para

interceptar-me. Nem percebi, a princípio, que os ges-

tos daquela pessoa de aparência curiosa, de fraque e

camisa engomada, eram a mim dirigidos. Seu rosto

revelava horror e indignação. O instinto, mais que a

razão, veio em meu auxílio: ele era um Bedel; eu era

uma mulher. Aqui era o gramado; a trilha era lá.

Somente os Fellows1 e os Estudantes têm permissão

de estar aqui; meu lugar é no cascalho. Esses pen-

samentos foram obra de um momento. Quando re-

tomei a trilha, os braços do Bedel penderam, o rosto

assumiu a serenidade costumeira e, embora seja me-

lhor andar no gramado que no cascalho, não houve

maiores danos. A única acusação que eu poderia le-

vantar contra quaisquer Fellows ou Estudantes da-

quela universidade, era que, para protegerem sua

grama, que há trezentos anos seguidos era aparada,

eles haviam feito meu peixinho esconder-se.

1 Estudante graduado de uma universidade mantido através de um

fundo especial, a fim de realizar determinados cursos de pós-gradua-

ção; membro de uma faculdade com direito a certos privilégios. (N.

do E.)

10

Eu já não conseguia lembrar qual tinha sido a

idéia que me fizera transgredir a lei tão audaciosa-

mente. O espírito da paz desceu como uma nuvem

dos céus, pois, se o espírito da paz habita algum

lugar, são os pátios e as quadras de Oxbridge numa

bela manhã de outubro. Perambulando em meio

àqueles prédios universitários para além dos solares

ancestrais, a dureza do presente pareceu desvanecer-

se suavemente; o corpo dava a impressão de estar

contido num miraculoso armário de vidro que ne-

nhum som conseguia atravessar, e a mente, liberta

de todo contato com a realidade (a menos que se

invadisse o gramado novamente), estava livre para

deter-se em qualquer meditação que se harmonizas-

se com o momento. Como quis o acaso, alguma lem-

brança perdida de algum velho ensaio em torno de

uma revisita a Oxbridge nas férias de verão trouxe

à mente Charles Lamb — São Charles, disse Thacke-

ray, tocando a testa com uma carta de Lamb. De

fato, dentre todos os mortos (transmito-lhes seus

pensamentos tal como me chegaram), Lamb é um

dos mais agradáveis, um a quem se gostaria de dizer:

"Então, diga-me, como escreveu seus ensaios?" Pois

seus ensaios são superiores até mesmo aos de Max

Beerbohm, pensei, com toda a perfeição deles, por

causa daquela centelha indomada da imaginação, da-

quele estalo relampejante de gênio no meio deles, que

os deixa falhos e imperfeitos, mas estrelados de poe-

sia. Então, Lamb talvez tenha vindo a Oxbridge há

uns cem anos. É certo que escreveu um ensaio —

o nome me escapa — sobre o manuscrito de um

dos poemas de Milton que aqui viu. O Lycidas, tal-

vez, e Lamb escreveu sobre como o chocava pensar

na possibilidade de que qualquer palavra do Lyci-

das pudesse ter sido diferente do que é. Pensar em

Milton alterando as palavras daquele poema pare-

11

cia-lhe uma espécie de sacrilégio. Isso levou-me a

recordar o que pude do, Lycidas e a divertir-me ima-

ginando qual poderia ter sido a palavra alterada por

Milton, e por quê. Ocorreu-me então que o próprio

manuscrito que Lamb examinara estava apenas a

alguns metros, de modo que seria possível seguir-

lhe os passos através do pátio até a famosa bibliote-

ca onde o tesouro está guardado. Além disso, lem-

brei-me, enquanto punha esse plano em execução, que

é nessa famosa biblioteca que se conserva também o

manuscrito do Esmond, de Thackeray. Os críticos

freqüentemente afirmam que Esmond é o mais per-

feito dos romances de Thackeray. Mas a afetação

do estilo, com sua imitação do século XVIII, é um

empecilho, tanto quanto posso lembrar; a menos, é

claro, que o estilo do século XVIII fosse natural em

Thackeray — um fato que se poderia comprovar

examinando o manuscrito e verificando se as altera-

ções foram feitas em benefício do estilo ou do sen-

tido. Mas, nesse caso, seria necessário determinar o

que é estilo e o que é sentido, uma questão que. . .

Nesse ponto, eu já estava na porta de entrada da

própria biblioteca. Devo tê-la aberto, pois instan-

taneamente surgiu dali, como um anjo da guarda a

barrar o caminho com um agitar de túnica negra, e

não de asas brancas, um cavalheiro súplice, grisa-

lho e gentil, que lamentou em voz baixa, e fez-me

sinais para que saísse, porque as damas só eram admi-

tidas na biblioteca acompanhadas por um Fellow

da faculdade ou providas de uma carta de apresen-

tação.

Que uma biblioteca famosa tenha sido amaldi-

çoada por uma mulher é motivo de total indiferença

para ela. Venerável e calma, com todos os seus te-

souros seguramente trancafiados em seu seio, ela

dorme complacentemente e, no que me diz respeito,

12

há de dormir para sempre. Nunca despertarei esses

ecos, nunca buscarei novamente essa hospitalidade,

jurei enquanto descia os degraus, enfurecida. Res-

tava ainda uma hora antes do almoço, e o que fa-

zer? Passear pelas pradarias? Sentar à beira do

rio? Decerto era uma adorável manhã de outono;

as folhas revoluteavam, rubras, até o chão; não

haveria grande dificuldade em fazer uma ou outra

coisa. Mas o som de música chegou-me aos ouvi-

dos. Realizava-se algum serviço religioso ou come-

moração. O órgão lamuriava magnificamente quan-

do passei pela porta da capela. Mesmo a triste-

za do cristianismo soava naquele ar sereno mais

como a recordação da tristeza do que a própria

tristeza; até os gemidos do antigo órgão pareciam

envoltos em paz. Não senti nenhum desejo de entrar;

tivesse eu tal direito, e dessa vez, quem sabe, o sa-

cristão me tivesse detido, exigindo, talvez, minha

certidão de batismo ou uma carta de apresentação

do Deão. Mas o exterior desses magníficos prédios

era muitas vezes tão belo quanto o interior. Além

disso, era assaz divertido observar a congregação

reunindo-se, entrando e voltando a sair, mantendo-

se ocupada à porta da capela como abelhas à entrada

da colmeia. Muitos usavam barretes e túnicas; alguns

traziam borlas de pele nos ombros; outros eram em-

purrados em cadeiras de rodas; outros, embora não

passassem da meia-idade, pareciam abatidos e enge-

lhados de uma forma tão singular que lembravam

aqueles caranguejos e lagostins gigantes a se arreme-

terem com dificuldade através da areia de um aquá-

rio. Quando me encostei no muro, a universidade pa-

receu-me de fato um santuário onde se preservavam

tipos raros, que logo se tornariam obsoletos se dei-

xados a lutar pela existência nas calçadas do Strand.

Antigas histórias de velhos deões e velhos lentes

vieram-me à lembrança, mas, antes que eu reunisse

13

coragem para assobiar — costumava-se dizer que, ao

som de um assobio, o velho Professor. . . irrompia

instantaneamente num galope —, a venerável con-

gregação já havia entrado. Restava o exterior da ca-

pela. Como vocês sabem, suas altas cúpulas e torres

podem ser vistas, qual barco à vela que sempre na-

vega sem nunca chegar, iluminado à noite e visível

por milhas, ao longe, além das montanhas. Um dia,

presumivelmente, esse pátio quadrangular com seus

gramados macios, os sólidos edifícios e a própria ca-

pela foram também um charco, onde a relva ondula-

va e os porcos fuçavam. Juntas de cavalos e bois,

pensei eu, devem ter puxado as pedras em carroças

desde condados distantes, e depois, exaustivamente,

os blocos cinzentos, a cuja sombra eu me detinha

agora, foram sendo depositados uns sobre os outros,

e depois os pintores trouxeram os vidros para as ja-

nelas e os pedreiros trabalharam com afinco séculos

a fio naquele telhado, com estuque e cimento, pá e

colher. Todos os sábados, alguém deve ter-lhes des-

pejado dinheiro de uma bolsa de couro nas velhas

mãos, pois é de presumir que tenham sido noites de

puro divertimento. Pensei que uma torrente infindá-

vel de moedas de ouro e de prata deve ter jorrado

permanentemente nesse pátio, para que as pedras

continuassem a chegar e os pedreiros, a trabalhar —

para aplainar, cavar, revolver e drenar. Mas estáva-

mos então na idade da fé, e o dinheiro era generosa-

mente derramado para se assentarem essas pedras em

fundações profundas, e, quando se levantaram as pe-

dras, mais dinheiro ainda nelas se derramou dos co-

fres de reis e rainhas e nobres ilustres, como garantia

de que aqui se cantariam hinos e se instruiriam es-

tudantes. Concederam-se terras, pagaram-se dízimos.

E quando terminou a idade da fé e veio a idade da

razão, o mesmo jorro de ouro e prata prosseguiu —

14

fellowships1 foram instituídas e dotadas de docên-

cias-livres; só que, agora, o ouro e a prata jorravam

não dos cofres do rei, mas das arcas de comerciantes

e industriais, das carteiras de homens que tinham fei-

to, digamos, fortuna na indústria e, em seu testamen-

to, restituíam generosa parcela para favorecer mais

cátedras, mais docências-livres e mais fellowships à

universidade onde haviam aprendido seu ofício. Daí

as bibliotecas e laboratórios, os observatórios, o es-

plêndido equipamento de instrumentos dispendiosos

e delicados, hoje dispostos em prateleiras de vidro,

onde, séculos atrás, ondulava a relva e fuçavam os

porcos. Sem dúvida, enquanto eu percorria o pátio

interno, a fundação feita de ouro e prata pareceu-me

solene o bastante; o calçamento assentava-se solida-

mente sobre o capim silvestre. Homens com bandejas

na cabeça agitavam-se de escada em escada. Vistosas

flores desabrochavam nos peitoris das janelas. Acor-

des saídos do gramofone berravam do interior dos

alojamentos. Era impossível não repercutir — reper-

cussão, que, qualquer que tenha sido, foi bruscamen-

te interrompida. O relógio bateu. Era hora de irmos

almoçar.

É curioso o fato de que os romancistas têm um

jeito de fazer-nos crer que os almoços são invaria-

velmente memoráveis por algo muito espirituoso que

se disse ou muito sábio que se fez. Raramente, po-

rém, desperdiçam uma palavra sequer sobre o que

se comeu. Faz parte do consenso dos romancistas

não mencionar sopa, salmão e pato, como se sopa,

salmão e pato não tivessem importância alguma,

como se ninguém jamais tivesse fumado um charuto

ou bebido um copo de vinho. Aqui, no entanto, to-

marei a liberdade de desafiar esse consenso e de di-

1 Fundação para manutenção de estudantes graduados chamados

"fellows", que freqüentam determinados cursos de pós-graduação e geralmente residem nas universidades. (N. do E.)

15

zer-lhes que o almoço, nessa ocasião, começou com

filés de linguado num prato fundo sobre o qual o

cozinheiro da universidade espalhara uma cobertura

do mais alvo creme, não fossem, aqui e ali, manchas

castanhas como as dos flancos de uma corça. Depois

disso vieram as perdizes, mas enganam-se se isso lhes

sugere um par de aves implumes e escuras num pra-

to. As perdizes, numerosas e variadas, vieram acom-

panhadas de todo um séquito de molhos e saladas,

picantes e doces, cada qual na sua ordem de entrada:

batatas, finas como moedas, mas não tão duras;

couves-de-bruxelas, folhudas como botões de rosa,

porém mais suculentas. E mal havíamos terminado

o assado e seu cortejo, o garçom, silencioso, talvez

o próprio Bedel numa manifestação mais branda, pôs

diante de nós, enrolado em guardanapos, um doce

que se erguia em ondas de açúcar. Chamá-lo pudim,

aparentando-o assim com o arroz e a tapioca, seria

um insulto. Enquanto isso, os copos de vinho tinham-

se tingido de amarelo e de vermelho, tinham-se esva-

ziado, tinham-se enchido. E assim, gradativamente,

a meio caminho da espinha dorsal, que é a sede da

alma, acendeu-se não aquela luzinha elétrica intensa

a que chamamos brilhantismo, que surge de repente

e desaparece em nossos lábios, mas o clarão mais

profundo, sutil e subterrâneo que é a rica chama

dourada do diálogo racional. Nada de pressa. Nada

de brilhos. Não sejamos nada mais que nós mesmos.

Vamos todos para o céu, e Vandyck é parte do grupo

— em outras palavras, como parecia boa a vida, como

pareciam doces suas recompensas, como parecia ba-

nal este ressentimento ou aquele queixume, como

pareciam admiráveis a amizade e a companhia dos se-

melhantes, quando, acendendo um bom cigarro, a

gente se deixava afundar entre as almofadas junto à

janela.

Se, por sorte, tivesse havido à mão um cinzei-

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ro, se, por falta dele, não se tivesse batido a cinza

fora da janela, se as coisas tivessem sido um pouco

diferentes do que foram, é provável que não se ti-

vesse visto um gato sem rabo. A visão daquele ani-

mal inesperado e mutilado que atravessava o pátio em

passadas suaves modificou, por um acaso feliz da

inteligência subconsciente, a luz emocional em mim.

Foi como se alguém deixasse cair uma sombra. Tal-

vez o excelente Reno estivesse abdicando de sua in-

fluência. Sem dúvida, ao observar o gato cotó parar

no meio do gramado, como se também ele questio-

nasse o universo, foi como se faltasse algo, algo pa-

recesse diferente. Mas o que estava faltando, o que

parecia diferente?, perguntei a mim mesma, enquan-

to ouvia a conversa. E, para responder a essa per-

gunta, tive de deixar a sala em pensamento, recuar

até o passado, antes da guerra, na verdade, e pôr

diante de meus olhos a imagem de outro almoço

realizado em locais não muito distantes destes, mas

diferentes. Tudo era diferente. Enquanto isso, a con-

versa prosseguia entre os convidados, que eram nu-

merosos e jovens, de ambos os sexos; prosseguia

suavemente, prosseguia agradavelmente, livremen-

te, divertidamente. E, enquanto ela prosseguia, co-

loquei-a contra o fundo daquela outra conversa e,

comparando as duas, não tive dúvidas de que uma

era a descendente, a herdeira legítima da outra.

Nada havia mudado, nada era diferente, exceto. . .

Nesse ponto, escutei, toda ouvidos, não exatamen-

te o que estava sendo dito, mas o murmúrio ou

correnteza por trás. Sim, era isso — ali estava a

mudança. Antes da guerra, num almoço como esse,

as pessoas diriam precisamente as mesmas coisas,

mas elas teriam soado diferente, pois, naqueles dias,

eram acompanhadas de uma espécie de cantarolar,

não articulado, mas musical, excitante, que alterava

o valor das próprias palavras. Seria possível pôr em

17

palavras aquele cantarolar? Talvez sirn, com a aju-

da dos poetas. Havia um livro ao meu lado, e abrin-

do-o, folheei-o até deparar casualmente com Tenny-

son. E aqui descobri que Tennyson cantava:

"There has fallen a splendid tear

From the passion-flower at the gate.

She is coming, my dove, my dear;

She is coming, my life, my fate;

The red rose cries, 'She is near, she ir near';

And the white rose weeps, 'She is late';

The larkspur listens, 'I hear, I hear';

And the My whispers, 'I wait' "1.

Era isso o que os homens cantarolavam nos al-

moços antes da guerra? E as mulheres?

"My heart is like a singing bird

Whose nest is in a water'd shoot;

My heart is like an apple tree

Whose boughs are bent with thick-set fruit;

My heart is like a rainbow shell

That paddles in a halcyon sea;

My heart is gladder than all these

Because my love is come to me"2.

Era isso o que as mulheres cantarolavam nos

almoços antes da guerra?

1 Tradução livre: "Rolou uma esplêndida lágrima j Da flor-da-paixão no portão; / Ela está vindo, pomba minha, minha amada; / Ela está

vindo, minha vida, meu fado; / Grita a rosa vermelha: 'Ela está perto, ela está perto'; / E chora a rosa branca: 'Ela está atrasada'; / A es-poreira escuta: 'Eu ouço, eu ouço'; / E o lírio sussurra: 'Eu espero'".

(N. da T.)

2 Tradução livre: "Meu coração é qual pássaro canoro / Cujo ninho está num broto orvalhado; j Meu coração é qual uma macieira / Cujos ramos se vergam com frutos polpudos; / Meu coração é qual concha

multicor / Que navega docemente em mar tranqüilo; / Meu coração é

mais radioso que todos eles / Pois meu amor veio até mim." (N.

da T.)

18

Era tão ridículo pensar nas pessoas cantarolan-

do essas coisas, mesmo a meia voz, nos almoços antes

da guerra, que caí na risada e tive de explicar meu

riso apontando para o gato cotó, que parecia mesmo

um tanto ridículo; pobre animal, sem rabo, no meio

do gramado. Teria realmente nascido assim, ou per-

dido o rabo num acidente? O gato sem rabo, embo-

ra afirmem que existem alguns na ilha de Man, é

mais raro do que se supõe. E um animal esquisito,

mais singular que belo. É estranha a diferença que

faz um rabo — vocês sabem, essas coisas que se

dizem enquanto um almoço termina e as pessoas

começam a procurar o casaco e o chapéu.

Esse, graças à hospitalidade do anfitrião, ha-

via-se estendido tarde adentro. O lindo dia de outu-

bro findava, e as folhas caíam das árvores da ave-

nida, enquanto eu a percorria. Portão após portão

pareciam cerrar-se com uma mansa determinação

atrás de mim. Inúmeros bedéis enfiavam chaves sem

conta em fechaduras bem lubrificadas; a tesouraria

era trancada por mais uma noite. Depois da aveni-

da, a gente sai numa estrada — esqueço-lhe o nome

— que leva, caso se vire à direita, até Fernham. Mas

havia muito tempo. O jantar não seria servido antes

das sete e meia. Era quase possível passar sem o

jantar depois daquele almoço. Estranho como um

fragmento de poesia atua na mente e faz com que

as pernas se movam ao ritmo dele pela estrada. Aque-

las palavras. . .

"There has fallen a splendid tear

From the passion-flower at the gate.

She is coming, my dove, my dear. . ."

cantavam em minhas veias, enquanto prosseguia ra-

pidamente rumo a Headingley. E então cantei, pas-

19

sando para a outra estrofe, onde as águas são revol-

vidas pelo açude:

"My heart is like a singing bird

Whose nest is in a water'd shoot;

My heart is like an apple tree. . ."

"Que poetas!", exclamei em voz alta, como se faz ao

cair da noite. — Que poetas aqueles!

Numa espécie de ciúme, suponho, de nossa pró-

pria época, por mais tolas e absurdas que sejam essas

comparações, comecei a indagar-me se, honestamente,

seria possível apontar dois poetas vivos tão grandes

hoje quanto foram Tennyson e Christina Rossetti

naquela época. Obviamente, pensei, olhando para

aquelas águas espumantes, é impossível compará-los.

A verdadeira razão por que aquela poesia nos excita

a tal abandono, tal enlevo, é que ela celebra algum

sentimento que costumávamos ter (nos almoços antes

da guerra, talvez), de modo que reagimos facilmente,

com familiar idade, sem o trabalho de investigá-lo ou

compará-lo com qualquer outro que tenhamos agora.

Mas os poetas vivos expressam um sentimento que

está sendo feito de fato e, no momento, arrancam de

nós. Para começar, não nos reconhecemos nele; mui-

tas vezes, por alguma razão, nós o tememos; nós o

observamos com agudeza e o comparamos, enciuma-

dos e desconfiados, imbuídos do velho sentimento,

nosso conhecido. Daí a dificuldade da poesia moder-

na, e é por causa dessa dificuldade que não conse-

guimos lembrar mais que dois versos consecutivos

de qualquer bom poeta moderno. Devido a esse mo-

tivo — o de que a memória me falhou — a discussão

arrefeceu por falta de elementos. Mas por que, con-

tinuei, prosseguindo rumo a Headingley, paramos

de cantarolar a meia voz nos almoços? Por que

Alfred parou de cantar

20

"She is coming, my dove, my dear"?

E por que Christina parou de responder

"My heart is gladder than ali these

Because my love is come to me"?

Devemos responsabilizar a guerra? Quando os ca-

nhões dispararam em agosto de 1914, será que o

rosto dos homens e das mulheres pareceu tão feioso

aos olhos uns dos outros a ponto de matar o roman-

tismo? Há de ter sido um choque (particularmente

para as mulheres, com suas ilusões sobre educação,

e assim por diante) ver o rosto de nossos gover-

nantes à luz do fogo de artilharia. Tão feios eram

eles — os alemães, os ingleses, os franceses — , tão

estúpidos! Mas onde quer que se ponha a culpa, em

quem quer que se a coloque, a ilusão que inspirou

Tennyson e Christina Rossetti a cantar tão apaixo-

nadamente a chegada de seus amantes é bem mais

rara agora do que naquela época. Basta ler, olhar,

escutar, lembrar. Mas por que dizer "responsabili-

zar"? Por que, se era uma ilusão, não louvar a ca-

tástrofe, qualquer que tenha sido, que destruiu a

ilusão e pôs a verdade em seu lugar? Pois a ver-

dade. . . Essas reticências assinalam o ponto onde,

em busca da verdade, perdi a entrada para Fernham.

Sim, de fato, qual era a verdade e qual era a ilusão?,

perguntei a mim mesma. Qual a verdade sobre essas

casas, por exemplo, agora obscuras e festivas com

as janelas rubras ao cair da noite, mas feias, verme-

lhas e esquálidas, com os doces e cordões de sapatos,

às nove horas da manhã? E os salgueiros e o rio e

os jardins que descem correndo até o rio, difusos

agora, com a neblina a cair furtivamente sobre eles,

mas dourados e vermelhos à luz do sol — qual

a verdade e qual a ilusão acerca deles? Poupo-lhes

21

as voltas e meandros de minhas cogitações, pois não

se chegou a conclusão alguma na estrada para Hea-

dingley, e peço-lhes que imaginem que logo desco-

bri meu erro quanto à entrada e refiz meus passos

até Fernham.

Como já disse que era um dia de outubro, não

me atrevo a perder o seu respeito e pôr em risco o

bom nome da ficção mudando a estação e descre-

vendo lilases pendendo de muros de jardins, aça-

frões, tulipas e outras flores da primavera. A ficção

deve ater-se aos fatos, e, quanto mais verdadeiros os

fatos, melhor a ficção — é o que nos dizem. Por-

tanto, ainda era outono e as folhas ainda estavam

amarelecidas e caíam, quando muito, um pouco mais

depressa que antes, pois então era noite (sete e vinte

e três, para ser precisa) e uma brisa (do sudoeste,

para ser exata) começava a soprar. Mas, com tudo

isso, havia algo estranho em andamento:

"My heart is like a singing bird

Whose nest is in a water'd shoot;

My heart is like an apple tree

Whose boughs are bent with thick-set fruit. . ."

talvez as palavras de Christina Rossetti fossem par-

cialmente responsáveis pela tolice da fantasia — não

passava, de fato, de mera fantasia de que o lilás sa-

cudia flores por sobre os muros dos jardins, e as

borboletas sulfurinas corriam aqui e ali, e a poeira

do pólen estava no ar. Soprou um vento, de onde não

sei, mas que ergueu as folhas meio crescidas, de

modo que houve um rasgo de cinza prateado no

ar. Era a hora do crepúsculo em que os matizes ga-

nham mais intensidade e os púrpuras e dourados

ardem nos vidros das janelas como as batidas de

um coração excitável; quando , por alguma razão,

a beleza do mundo revelada e prestes a findar (nesse

22

ponto, fui num impulso até o jardim, pois a porta

ficara inadvertidamente aberta e não parecia haver

bedéis por perto), a beleza do mundo que logo fin-

dará, tem dois gumes, um de riso, outro de angústia,

que cortam o coração em pedaços. Os jardins de

Fernham estavam diante de mim no crepúsculo prí-

maveril, desertos e vastos, e no extenso gramado, sal-

picados de água e negligentemente espalhados, havia

narcisos e jacintos, não ordenados, talvez, nas melho-

res ocasiões, agitando-se agora, inclinados pelo vento,

repuxados nas raízes. As janelas do prédio, curvas

como escotilhas de navio por entre generosas ondas

de tijolo vermelho, iam da cor de limão ao prateado

com a passagem das ligeiras nuvens de primavera.

Havia alguém numa rede, alguém, mas nessa luz eram

apenas fantasmas, meio adivinhados, meio vistos,

perseguidos através do gramado — será que nin-

guém pode pará-la? —, e então, no terraço, como

se saltasse para respirar o ar, para olhar o jardim,

surgiu um vulto vergado, impressionante, mas hu-

milde, com testa ampla e o vestido surrado — seria

a famosa acadêmica, seria a própria J. . . H. . . ?

Tudo estava escuro, mas intenso também, como se

a mantilha que o anoitecer estendera sobre o jardim

tivesse sido despedaçada por uma estrela ou uma

espada — o lampejo de alguma terrível realidade

saltando, como de costume, do coração da primavera.

Pois a juventude. . .

Ali estava minha sopa. O jantar estava sendo

servido no grande refeitório. Longe de ser primave-

ra, era de fato uma noite de outono. Todos estavam

reunidos no grande refeitório. O jantar estava pron-

to. Ali estava a sopa. Era um simples caldo de carne.

Nada havia nele que atiçasse a imaginação. Teria

sido possível ver através do líquido transparente

qualquer desenho que houvesse no próprio prato.

Mas não havia desenho algum. O prato era liso. Em

23

seguida veio a carne de vaca com seu acompanha-

mento de legumes verdes e batatas — uma trindade

doméstica, que sugere alcatras de boi em algum mer-

cado lamacento, couves-de-bruxelas murchas e ama-

reladas nas pontas, pechinchas e reduções de preço,

e mulheres com sacolas de alças em manhã de se-

gunda-feira. Nenhuma razão havia para reclamar do

alimento diário da natureza humana, visto que a

quantidade era suficiente e que os mineiros de carvão

sem dúvida estariam sentados à mesa para algo me-

nos substancial. Seguiram-se ameixas secas com cre-

me. E, se alguém se queixar de que as ameixas secas,

mesmo quando suavizadas pelo creme, são um legu-

me impiedoso (fruta é o que não são), fibrosas como

o coração de um avarento e ressumando um líquido

semelhante ao que deve correr nas veias dos sovinas

que negaram a si mesmos vinho e calor durante

oitenta anos, e que ainda não têm boas relações com

os pobres, deverá considerar que há pessoas cuja ca-

ridade abarca até a ameixa seca. Vieram a seguir bis-

coitos e queijo, e nesse ponto a jarra de água circulou

prodigamente de mão em mão, pois é próprio dos

biscoitos serem secos, e esses eram biscoitos até a

alma. Isso foi tudo. A refeição estava terminada.

Todos arrastaram a cadeira para trás; as portas de

vaivém abriram-se violentamente para lá e para cá;

logo o refeitório estava esvaziado de qualquer sinal

de comida e pronto, sem dúvida, para o café da ma-

nhã seguinte. Ao longo de corredores e escadas aci-

ma, a juventude da Inglaterra ia batendo portas,

cantando. E caberia a uma convidada, uma estranha

(pois eu não tinha mais direitos aqui em Femham do

que em Trinity ou Somerville ou Girton eu New-

nham ou Christchurch), dizer: "O jantar não estava

bom", ou dizer (estávamos agora, Mary Seton e eu,

em sua sala de estar): "Não poderíamos ter jantado

aqui sozinhas?", pois, se eu dissesse qualquer coisa

24

do gênero, estaria bisbilhotando e também me intro-

metendo na administração secreta de uma casa que,

para um estranho, ostenta uma fachada tão distinta

de alegria e coragem. Não, não era possível dizer nada

parecido. De fato, a conversa esmoreceu por um mo-

mento. Sendo a estrutura humana o que é, coração,

corpo e cérebro misturados, e não contidos em com-

partimentos separados, como sem dúvida serão em

mais um milhão de anos, um bom jantar é de grande

importância para a boa conversa. Não se pode pensar

bem, amar bem, dormir bem, quando não se jantou

bem. A lâmpada na espinha não acende com carne de

vaca e ameixas secas. Todos iremos provavelmente

para o céu, e Vandyck, esperamos, virá em nosso en-

contro na próxima esquina — tal o estado de espírito

equívoco e limitado que geram as ameixas secas ao

final de um dia de trabalho. Felizmente, minha amiga

que ensinava ciências tinha um guarda-louça onde ha-

via uma garrafa atarracada de copinhos (mas deveria

ter havido linguado e perdizes, para começar), de

modo que conseguimos acomodar-nos junto ao fogo e

reparar alguns dos danos causados por aquele dia. Em

mais ou menos um minuto, estávamos nos movendo

livremente por entre todos aqueles alvos de curiosi-

dade e de interesse que se formam na mente na au-

sência de determinada pessoa, e que naturalmente

serão discutidos quando voltarmos a nos encontrar

— como alguém se casou, e outro não; um pensa

isso, outro aquilo; um progrediu, ultrapassando to-

das as expectativas, outro se saiu surpreendentemen-

te mal — com todas essas especulações sobre a natu-

reza humana e o caráter do espantoso mundo em que

vivemos, que decorrem naturalmente de tais come-

ços. Enquanto essa coisas eram ditas, no entanto,

conscientizei-me, com muita vergonha, de uma cor-

rente instalando-se por vontade própria e levando

tudo adiante até seu próprio fim. Podíamos estar fa-

25

lando da Espanha ou de Portugal, de livros ou corri-

das de cavalos, mas o interesse real do que quer que

se dissesse não estava em nenhuma dessas coisas, mas

numa cena de pedreiros num telhado alto cerca de

cinco séculos atrás. Reis e nobres traziam tesouros

em sacos imensos e derramavam-nos sob a terra. Essa

cena ganhava vida para sempre em minha mente e se

colocava ao lado de outra, de vacas magras e um mer-

cado lamacento e verduras murchas e o coração fibro-

so de homens velhos — esses dois quadros, por mais

desarticulados, desconexos e absurdos que fossem,

estavam perpetuamente a juntar-se e a combater um

ao outro, tendo-me inteiramente à sua mercê. A me-

lhor providência, a menos que se quisesse distorcer

toda a conversa, era expor ao ar o que estava em mi-

nha mente, quando, com sorte, a coisa definharia e se

desintegraria como a cabeça do rei morto quando lhe

abriram o caixão em Windsor. Em suma, portanto,

falei com a srta. Seton acerca dos pedreiros que ti-

nham estado todos aqueles anos no telhado da capela,

e sobre os reis e rainhas e nobres que carregavam nos

ombros sacas de ouro e prata e as lançavam com pás

à terra em grandes quantidades; e depois, sobre co-

mo os grandes magnatas financeiros de nossa própria

época chegaram e depositaram cheques e títulos fi-

nanceiros, suponho, onde os outros haviam deposi-

tado lingotes e pepitas brutas de ouro. Tudo isso

está abaixo dos prédios das faculdades que lá estão,

disse eu; mas e esta faculdade, onde estamos agora

sentadas, o que há abaixo de seus imponentes tijolos

vermelhos e dos agrestes e malcuidados gramados do

jardim? Que força estará por trás da louça simples

que usamos ao jantar e (nesse ponto, as palavras sal-

taram de minha boca antes que pudesse detê-las) da

carne de vaca, do creme e das ameixas secas?

Bem, disse Mary Seton, por volta de 1860. . .

Ah, mas você conhece a história, interrompeu-se,

26

entediada, ao que suponho, pela narrativa. E me

contou: alugaram quartos. Houve reuniões de comi-

tês. Endereçaram envelopes. Rascunharam circulares.

Realizaram reuniões; leram cartas; fulano de tal

prometeu tanto; o sr.. . ., ao contrário, recusa-se a

dar um centavo. O Saturday Review foi muito rude.

Como podemos levantar fundos para pagar por escri-

tórios? Devemos promover um bazar de caridade?

Será que não conseguiremos uma jovem bonita para

sentar-se na primeira fila? Vamos ver o que disse

John Stuart Mill sobre o assunto. Será que alguém

consegue convencer o editor do. . . a publicar uma

carta? Podemos fazer com que Lady. . . a assine?

Lady. . . está fora da cidade. Foi desse modo que a

coisa se fez, presumivelmente, sessenta anos atrás, e

foi um esforço prodigioso, e muito tempo se despen-

deu nisso. E somente depois de uma longa luta e com

a mais extrema dificuldade é que elas conseguiram

reunir trinta mil libras1. Portanto, obviamente, não

podemos ter vinho e perdizes e criados para carregar

bandejas de metal na cabeça. Não podemos ter sofás

e quartos separados. "As comodidades", disse ela, ci-

tando um trecho de algum livro, "terão de esperar"2.

Ao pensarmos em todas aquelas mulheres tra-

balhando ano após ano e sentindo dificuldade em

reunir duas mil libras, e que fizeram tudo o que

puderam para obter trinta mil libras, irrompemos

numa explosão de escárnio diante da repreensível

pobreza de nosso sexo. O que estavam fazendo nos-

1 "Dizem-nos que devemos pedir pelo menos trinta mil libras. ( . . . ) Não é uma grande soma, considerando-se que haverá apenas uma faculdade desse tipo para a Grã-Bretanha, a Irlanda e as colônias, e considerando-se quanto é fácil levantar somas imensas para escolas de rapazes. No entanto, considerando o número tão pequeno de pessoas

realmente desejosas de que as mulheres sejam instruídas, é um bom

negócio." Lady Stephen, Emily Davies and Girton College. (N.

da A.)

2 Cada centavo que se conseguia juntar era separado para a constru-

ção, e as comodidades tiveram de ser adiadas. — R. Strachey, The cause. (N. da A.)

27

sas mães, que não tiveram nenhuma riqueza para

nos legar? Empoando o nariz? Olhando as vitrines

das lojas? Exibindo-se ao sol em Monte Cario? Ha-

via algumas fotografias sobre a lareira. A mãe de

Mary — se é que aquele era seu retrato — talvez

tivesse sido uma esbanjadora nas horas vagas (teve

treze filhos de um pastor da igreja), mas, se assim

foi, a vida alegre e dissoluta lhe havia deixado mui-

to poucos traços de seus prazeres no rosto. Era uma

pessoa comum: uma senhora idosa com um xale pre-

gueado preso por um grande camafeu; estava sentada

numa cadeira de vime, fazendo que um spaniel olhas-

se para a câmera, com a expressão divertida, embora

tensa, de alguém segura de que o cachorro se mexerá

no instante em que o botão for apertado. Agora, se

ela tivesse entrado no mundo dos negócios; se tives-

se se tornado fabricante de seda artificial ou magnata

da Bolsa de Valores; se tivesse deixado duzentas ou

trezentas mil libras para Fernham, poderíamos ter-

nos sentado à vontade essa noite e talvez o assunto

de nossa conversa tivesse sido arqueologia, botânica,

antropologia, física, a natureza do átomo, matemáti-

ca, astronomia, a relatividade ou geografia. Se apenas

a sra. Seton e sua mãe e a mãe de sua mãe tivessem

aprendido a grande arte de ganhar dinheiro e tives-

sem deixado seu dinheiro, como fizeram seus pais e

seus avós antes deles, para instituir fellowships e do-

cências-livres e prêmios e bolsas de estudo apropria-

das para o uso dos membros de seu próprio sexo, po-

deríamos ter jantado aqui em cima, sozinhas e bem

razoavelmente, uma ave e uma garrafa de vinho; po-

deríamos ter antecipado, sem indevida confiança,

uma vida agradável e honrada no refúgio de uma das

profissões generosamente beneficiadas. Poderíamos

ter estado explorando ou escrevendo; vagueado pe-

los lugares veneráveis da Terra; sentado, contempla-

tivas, nos degraus do Partenon, ou ido para um es-

28

critório às dez da manhã e voltado tranqüilamente

para casa às quatro e meia para escrever um pouco de

poesia. Só que, se a sra. Seton e outra igual a ela ti-

vessem entrado no mundo dos negócios aos quinze

anos de idade, não teria havido — e esse era o ponto

fraco da argumentação — Mary alguma. O que, per-

guntei eu, achava Mary disso? Ali entre as cortinas

estava a noite de outubro, calma e adorável, com

uma ou duas estrelas presas nas árvores amareleci-

das. Estaria Mary pronta a renunciar ao seu quinhão

e a suas lembranças (pois tinham sido uma família

feliz, embora grande) de brincadeiras e discussões lá

na Escócia, que ela não se cansa de elogiar pela pu-

reza do ar e pela qualidade dos bolos, para que

Fernham pudesse ter sido favorecida com uma doa-

ção de umas cinqüenta mil libras de uma só penada?

Pois fazer doações para uma faculdade exigiria a com-

pleta eliminação de famílias. Fazer fortuna e ter tre-

ze filhos. . . nenhum ser humano suportaria isso.

Examinemos os fatos, dissemos. Primeiro, são os

nove meses, antes de o bebê nascer. Então o bebê

nasce. Há então três ou quatro meses gastos na ama-

mentação do bebê. Depois que o bebê é amamenta-

do, há sem dúvida uns cinco anos gastos em brinca-

deiras com o bebê. Ao que parece, não se pode deixar

as crianças soltas pelas ruas. Os que as viram crescer

desregradamente na Rússia dizem que a visão não é

agradável. Dizem também que a natureza humana

assume sua forma entre um e cinco anos de idade.

Se a sra. Seton, disse eu, tivesse empregado seu tem-

po ganhando dinheiro, que tipo de recordações você

teria tido de brincadeiras e brigas? O que teria sabi-

do da Escócia, de seu ar puro e dos bolos e tudo o

mais? Mas é inútil fazer essas perguntas, porque você

nunca teria existido. Além disso, é igualmente inútil

perguntar o que teria acontecido se a sra. Seton e sua

mãe, e a mãe de sua mãe, tivessem acumulado uma

29

grande riqueza e a tivessem depositado aos cuidados

das fundações da faculdade e da biblioteca, porque,

em primeiro lugar, lhes era impossível ganhar dinhei-

ro e, em segundo, se tivesse sido possível, a lei lhes

negava o direito de possuírem qualquer dinheiro ga-

nho. Só nos últimos quarenta e oito anos é que a sra.

Seton pôde ter algum centavo de seu. Em todos os

séculos antes disso, o dinheiro teria sido propriedade

do marido — um pensamento que talvez tenha con-

tribuído para manter a sra. Seton e sua mãe fora da

Bolsa de Valores. Cada centavo que eu ganhe, teriam

dito elas, será retirado de mim e empregado de acor-

do com o critério de meu marido. . . talvez para cus-

tear uma bolsa de estudos ou doar fundos para uma

fellowship em Balliol ou Kings, de modo que ganhar

dinheiro, mesmo que eu pudesse ganhá-lo, não é um

assunto de grande interesse para mim. É melhor dei-

xar isso para o meu marido.

De qualquer modo, quer a responsabilidade

coubesse ou não à senhora idosa que olhava para o

spaniel, não restava dúvida de que, por uma ou outra

razão, nossas mães tinham falhado muito gravemente

na administração de seus negócios. Nem um centavo

podia ser desperdiçado em "comodidades": em per-

dizes e vinho, bedéis e turfe, livros e charutos, bi-

bliotecas e lazer. Erguer paredes nuas da terra nua

foi o máximo que elas puderam fazer.

Assim, conversamos de pé, à janela, olhando,

como tantos milhares olham todas as noites, para as

cúpulas e torres da famosa cidade abaixo de nós. Era

muito bela, muito misteriosa ao luar de outono. As

antigas pedras pareciam muito alvas e veneráveis.

Pensava-se em todos os livros reunidos ali embaixo;

nos quadros de velhos prelados e sumidades pendu-

rados nos salões forrados de lambris; nas janelas

pintadas que desenhariam estranhos globos e meias-

30

luas na calçada; nas placas comemorativas e mo-

numentos e inscrições; nas fontes e na relva; nos

quartos tranqüilos que se abriam para os pátios tran-

qüilos. E (perdoem-me o pensamento) pensei, tam-

bém, no fumo e na bebida admiráveis, e nas poltro-

nas aconchegantes, e nos tapetes agradáveis; na

polidez, na afabilidade e na dignidade que são fruto

do luxo, da privacidade e do espaço. Certamente

nossas mães não nos haviam provido de nada compa-

rável a tudo isso — nossas mães que tiveram dificul-

dade em juntar trinta mil libras, nossas mães que

tiveram treze filhos de pastores religiosos em St.

Andrews.

Assim, regressei à minha hospedaria e, enquan-

to percorria as ruas escuras, fiquei pensando nisso

e naquilo, como se faz ao final de um dia de trabalho.

Fiquei pensando por que foi que a sra. Seton não

teve dinheiro algum para nos deixar; e que efeito

exerce a pobreza na mente; e que efeito exerce a

riqueza na mente; e pensei nos curiosos cavalheiros

de idade com tufos de pele nos ombros que vira essa

manhã; e lembrei-me de como, se alguém assobiasse,

um deles corria; e pensei no órgão ressoando na ca-

pela e nas portas fechadas da biblioteca; e pensei em

como é desagradável ser trancada do lado de fora; e

pensei em como talvez seja pior ser trancada do lado

de dentro; e, pensando na segurança e na prosperi-

dade de um sexo e na pobreza e na insegurança do

outro, e no efeito da tradição e na falta de tradição

sobre a mente de um escritor, pensei finalmente que

era hora de recolher a carcaça amarfanhada do dia,

com as discussões e as impressões e a raiva e o riso, e

atirá-la num canto. Milhares de estrelas cintilavam

nos ermos azuis do céu. Parecia que se estava a sós

com uma companhia inescrutável. Todos os seres hu-

manos adormecidos — deitados, horizontais, mudos.

Ninguém parecia se mover nas ruas de Oxbridge.

31

Até a porta do hotel escancarou-se ao toque de uma

mão invisível — nem um servente acordado para ilu-

minar-me o caminho até a cama, tão tarde era.

32

Capítulo II

O cenário, se posso pedir-lhes que me acompa-

nhem, estava mudado. As folhas ainda caíam, mas

agora em Londres, não em Oxbridge; e devo pedir-

lhes que imaginem um quarto, como muitos milha-

res, com uma janela abrindo-se, por sobre chapéus e

caminhões e automóveis, para outras janelas, e na

mesa do interior do quarto uma folha de papel em

branco com a inscrição, em maiúsculas, As MULHE-

RES E A FICÇÃO, porém nada mais. A conseqüência

inevitável de se almoçar e jantar em Oxbridge pare-

cia ser, infelizmente, uma visita ao Museu Britânico.

Tem-se de fazer o maior esforço para afastar o que

de pessoal e fortuito há em todas essas impressões e

assim alcançar o fluido puro, o óleo essencial da ver-

dade. Pois a visita a Oxbridge e o almoço e o jantar

tinham dado início a um enxame de perguntas. Por

que os homens bebiam vinho e as mulheres, água?

Por que um sexo era tão próspero e o outro, tão po-

bre? Que efeito tinha a pobreza na ficção? Quais as

condições necessárias para a criação de obras de arte?

— faziam-se mil perguntas a um só tempo. Mas era

preciso obter respostas, não perguntas; e uma res-

posta só poderia ser obtida consultando-se os sábios

e os imparciais que se haviam colocado acima das

contendas verbais e confusões do corpo, emitindo o

resultado de seu raciocínio e de suas pesquisas em

livros que podem ser encontrados no Museu Britâ-

33

nico. Se a verdade não puder ser encontrada nas pra-

teleiras do Museu Britânico, onde, perguntei a mim

mesma, apanhando lápis e caderno de notas, estará

a verdade?

Assim preparada, assim confiante e inquiridora,

parti em busca da verdade. O dia, apesar de não

exatamente chuvoso, estava sombrio, e as ruas nas

imediações do museu encontravam-se repletas de pe-

quenos depósitos de carvão onde se despejavam sacas

em abundância; carros de aluguel sobre quatro rodas

estacionavam e depositavam na calçada caixotes ata-

dos com cordas que deveriam conter todo o guarda-

roupa de alguma família suíça ou italiana em busca

de fortuna, refúgio ou algum outro conforto que

se desejasse encontrar nas pensões de Bloomsbury

no inverno. Os costumeiros homens de voz rouca

circulavam pelas ruas com plantas em carrinhos de

mão. Alguns gritavam; outros cantavam. Londres era

como uma oficina. Londres era como uma máquina.

Todos estávamos sendo atirados de um lado para

outro nessa verdadeira fundição para fazer algum

molde. O Museu Britânico era outro departamento

da fábrica. As portas de vaivém escancararam-se; e

ali ficamos sob a vasta cúpula, como se fosse um

pensamento na imensa cabeça calva tão esplendida-

mente circundada por uma faixa de nomes famosos.

Fomos até o balcão, pegamos um pedaço de papel,

abrimos um volume do catálogo e Os cinco

pontos aqui indicam cinco minutos distintos de estu-

pefação, assombro e perplexidade. Têm vocês algu-

ma noção de quantos livros são escritos sobre as mu-

lheres em um ano? Têm alguma noção de quantos são

escritos por homens? Estão cientes de serem, talvez,

o animal mais discutido do universo? Para lá eu fora,

com um caderno de anotações e um lápis, na inten-

ção de passar a manhã lendo, imaginando que ao final

da manhã teria transferido a verdade para meu ca-

34

derno de anotações. Mas era preciso que eu fosse

uma manada de elefantes e uma multidão de aranhas,

pensei, referindo-me desesperadamente aos animais

com fama de serem os mais longevos e mais dotados

de visão múltipla — para enfrentar tudo aquilo. Pre-

cisaria ter garras de aço e bico de bronze até para

penetrar a casca. "Como chegarei a encontrar as se-

mentes da verdade enterradas em toda esta massa

de papel?", perguntei a mim mesma, e em desespero

comecei a percorrer com os olhos a longa lista de

títulos. Até os títulos dos livros davam-me alimento

para a mente. O sexo e sua natureza bem poderiam

atrair médicos e biólogos; mas era surpreendente e

de difícil explicação o fato de que o sexo — quer

dizer, a mulher — atrai também ensaístas agradáveis,

romancistas desonestos, rapazes com diploma de li-

cenciatura em letras, homens sem diploma algum,

homens sem qualificação aparente, salvo o fato de

não serem mulheres. Alguns desses livros eram, a jul-

gar pela aparência, frívolos e jocosos; mas muitos,

por outro lado, eram sérios e proféticos, moralistas

e exortatórios. A mera leitura dos títulos sugeria

inumeráveis diretores de escolas, inumeráveis cléri-

gos subindo em suas tribunas e púlpitos e arengan-

do com uma loquacidade que em muito ultrapassa-

va o tempo habitualmente concedido a tal discurso

sobre este assunto. Era um fenômeno extremamen-

te estranho, e, aparentemente — nesse ponto, con-

sultei a letra M —, um fenômeno restrito ao sexo

masculino. As mulheres não escrevem livros sobre

os homens — fato que não pude deixar de aco-

lher com alívio, pois, se tivesse que ler primeiro

tudo o que os homens escreveram sobre as mulhe-

res e, depois, tudo o que as mulheres escreveram

sobre os homens, o aloés que floresce uma vez a cada

cem anos floresceria duas vezes antes que eu pusesse

a pena no papel. Assim, fazendo uma escolha perfei-

35

tamente arbitrária de uns doze volumes, depositei mi-

nhas tiras de papel na bandeja de arame e aguardei

em minha cabine, entre os outros que buscavam o

óleo essencial da verdade.

Mas qual seria a razão dessa curiosa disparida-

de, indaguei-me, desenhando rodas de carroça nas

tiras de papel fornecidas pelo contribuinte britânico

para outras finalidades. Por que são as mulheres, a

julgar por esse catálogo, tão mais interessantes para

os homens que os homens para as mulheres? Parecia

um fato muito curioso, e minha mente pôs-se a vagar

para retratar a vida dos homens que passam o tempo

escrevendo livros sobre mulheres: se seriam velhos

ou moços, casados ou solteiros, de nariz vermelho ou

corcundas — de qualquer modo, era vagamente en-

vaidecedor sentir-se alvo de tanta atenção, desde que

ela não fosse inteiramente conferida por mutilados e

enfermos; — assim fui ponderando, até que todos

esses frívolos pensamentos se encerraram com uma

avalanche de livros a deslizarem até a escrivaninha

diante de mim. Imediatamente começaram os pro-

blemas. Um estudante treinado em pesquisa em

Oxbridge terá, sem dúvida, algum método para

orientar sua indagação vencendo todas as perplexida-

des até alcançar a resposta, tal como a ovelha alcan-

ça o seu aprisco. O estudante a meu lado, por exem-

plo, que copiava diligentemente um manual científi-

co, estava, eu tinha certeza, extraindo puras pepitas

do minério essencial a cada dez minutos, mais ou

menos. Seus ligeiros grunhidos de satisfação indica-

vam isso. Mas se, infelizmente, não se recebeu trei-

namento algum numa universidade, a pergunta, lon-

ge de alcançar seu aprisco, foge como um rebanho

assustado para cá e para lá, atabalhoadamente, acos-

sada por toda uma matilha de cães de caça. Professo-

res universitários e primários, sociólogos, clérigos,

romancistas, ensaístas, jornalistas, homens sem ne-

36

nhuma qualificação, salvo o fato de não serem mu-

lheres, perseguiram minha única e simples pergunta

— Por que as mulheres são pobres? — até que ela

se converteu em cinqüenta perguntas; saltaram des-

vairadamente em meio à correnteza e foram arrasta-

das para longe. Cada página de meu caderno estava

inteiramente rabiscada de anotações. Para mostrar-

lhes o estado mental em que me achava, lerei algu-

mas delas para vocês, explicando que a página tinha

por título simplesmente "As mulheres e a pobreza",

em letras de imprensa; mas o que vinha a seguir era

algo mais ou menos assim:

"Situação das, na Idade Média,

Hábitos das, nas ilhas Fiji,

Adoradas como deusas por,

Mais fracas do que, no sentido moral,

Idealismo das,

Maior consciência das,

Ilhoas dos mares do sul, idade da puberdade

entre,

Atratividade das,

Oferecidas em sacrifício a,

Pequeno volume cerebral das,

Subconsciência mais profunda das,

Menos pêlos no corpo das,

Inferioridade mental, moral e física das,

Amor aos filhos nas,

Maior longevidade das,

Musculatura mais fraca das,

Resistência às afecções das,

Intensidade dos afetos das,

Vaidade das,

Educação superior das,

Opinião de Shakespeare sobre,

Opinião de Lorde Birkenhead sobre,

37

Opinião do deão Inge sobre,

Opinião de La Bruyère sobre,

Opinião do dr. Johnson sobre,

Opinião do sr. Oscar Browning sobre".

Nesse ponto, respirei fundo e, de fato, acres-

centei à margem: Por que Samuel Butler afirma que

"Os homens sábios nunca dizem o que pensam das

mulheres"? Os homens sábios aparentemente nunca

dizem outra coisa. Mas, prossegui, reclinando-me na

cadeira e olhando para a vasta cúpula em que eu era

um pensamento isolado, mas agora um tanto ator-

mentado, o que há de muito lastimável é que os

homens sábios nunca pensam a mesma coisa acerca

das mulheres. Ouçamos Pope:

"A maioria das mulheres não tem absolutamen-

te caráter algum".

E La Bruyère:

"As mulheres são extremadas; elas são melho-

res ou piores que os h o m e n s . . . "

Uma contradição direta, segundo os observado-

res agudos que lhes foram contemporâneos. São elas

capazes ou incapazes de se instruir? Napoleão as con-

siderava incapazes. O dr. Johnson pensava o opos-

to1. Elas têm ou não têm alma? Alguns selvagens

afirmam que não. Outros, ao contrário, sustentam

que as mulheres são semidivinas e adoram-nas em

1 " 'Os homens sabem que as mulheres são um adversário superior a eles, e, assim, escolhem as mais fracas ou as mais ignorantes. Se não pensassem assim, nunca poderiam temer as mulheres que sabem tanto

quanto eles próprios.' (. . .) Para fazer justiça ao sexo, considero apenas honesto admitir que, em conversa posterior, ele me disse ter sido sério no que falou." Boswell, The Journal of a Tour to the Hebrides.

(N. da A.)