Um por Richard Bach - Versão HTML

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E se o espaço mudasse de posição e o tempo se curvasse e

pudéssemos nos conhecer como seremos daqui a vinte anos? E se pudéssemos conversar, face a face, com as pessoas que fomos no passado, com as pessoas que somos em vidas paralelas, em mundos alternativos? O que lhes diríamos, o que lhes perguntaríamos? Em que sentido mudaríamos se soubéssemos aquilo que nos espera além do espaço e do tempo?

UM é o romance mais surpreendente de Richard Bach. Tão cheio de aventura quanto Fernão Capelo Gaivota, tão divertido quanto Ilusões, tão inspirador quanto A Ponte para o Sempre.

Neste livro, ele viaja com a mulher, Leslie, a um mundo onde a sobrevivência depende de descobrirem o que outros aspectos deles mesmos aprenderam em caminhos que eles jamais trilharam; onde a imaginação e o medo são instrumentos para salvar e destruir mundos; e onde morrer é um passo no triunfo sobre a morte.

Do mesmo modo que o mundo pode não ser o que parece,

mostram os Bach, também nós podemos ser mais do que o que

parecemos. UM é uma curiosa fantasia que se apóia tanto na ciência quanto na espiritualidade — uma surpreendente porta entreaberta para um caminho diferente na busca de nós mesmos.

um

Tradução de DONALDSON M. GARSCHAGEN

Já percorremos juntos, não é mesmo, um longo caminho caro leitor?

Quando nos conhecemos, há 25 anos, eu era piloto de avião,

extasiado com o vôo, à procura de significados por trás de

instrumentos e de dados como a velocidade do ar. Há vinte anos, nossa viagem nos levou a um modelo de vida nas asas de uma gaivota.

Há dez anos, encontramos o salvador do mundo, descobrimos que esse salvador éramos nós mesmos. No entanto, até onde você podia saber, leitor, eu era uma alma solitária com a cabeça cheia de rumos e altitudes, escondida atrás de uma cortina de palavras. E você tinha razão.

Era seguro, assim pensava eu, afirmar que descobri algumas

respostas achadas por você, que passei longe de outras que você não descobriu. Está começando a entender como o mundo funciona? Eu estou. Você tem se sentido inquieto e solitário com o que aprendeu?

Eu também. Você procurou, a vida inteira, o amor verdadeiro?

Também fiz isso, achei essa pessoa e, em A ponte para o sempre apresentei-o a minha mulher, Leslie Parrish-Bach.

Agora escrevemos juntos, Leslie e eu. Tornamo-nos

RiLes-chardlie, e não sabemos mais onde termina um de nós e o outro começa.

Por causa de A ponte para o sempre, nossa família de leitores tornou-se ainda mais chegada. Aos aventureiros que voaram comigo em livros anteriores, vieram somar-se aqueles que anseiam pelo amor e aqueles que o descobriram: nossas vidas refletem a deles, é isso que nos dizem repetidamente em cartas.

Em geral, lemos a correspondência na cozinha. Um de nós lê

em voz alta, enquanto o outro prepara a refeição-surpresa para o dia. Já rimos tanto com as cartas de alguns leitores a ponto de deixar cair a salada dentro da sopa. Outras cartas serviram para fornecer o sal de nossas lágrimas.

Um dia, para servir de gelo, chegou esta:

“Lembra-se do diferente Richard sobre quem você escreveu em

A ponte para o sempre, aquele que se recusou a trocar suas muitas mulheres por Leslie? Achei que você gostaria de receber notícias minhas, pois fui eu quem fugi, e sei o que aconteceu a seguir.”

Os paralelos que ele nos contou eram assombrosos. Esse

homem é um escritor. Um único livro lhe rendera uma repentina fortuna, e ele enfrentara os mesmos problemas com o imposto de renda que eu. Havia desistido de procurar uma só mulher e preferira muitas delas.

Foi então que encontrou aquela que o amava tal como ele era, e ela o colocou diante de uma opção: ou ela seria a única mulher de sua vida ou não teria nada a ver com a vida dele, a mesma opção que Leslie um dia me fizera encarar, a mesma bifurcação na estrada.

Diante da encruzilhada, eu tomara o caminho da esquerda,

escolhendo o afeto e o futuro cálido que, segundo eu esperava, viria com ele.

Já ele virou para a direita. Fugiu da mulher que o amava,

abandonou suas casas e aviões para o governo e correu, como eu quase fizera, para a Nova Zelândia. Em sua carta, dizia:

“...a literatura vai indo bem, possuo casas e carros em Auckland, Madri e Cingapura, posso viajar para qualquer lugar deste mundo, menos para os Estados Unidos. Ninguém ameaça pôr as mãos em mim.

“Mas ainda penso em minha Laura. Fico pensando no que teria

acontecido se eu lhe tivesse dado uma oportunidade. Poderia ser o que A ponte para o sempre me diz. Vocês dois ainda estão juntos? Será que tomei a decisão certa? E você?”

O homem é multimilionário, seus desejos se concretizam, tem o mundo a seus pés. Mas enxuguei uma lágrima que me rolava dos olhos e, levantando o olhar, dei com Leslie debruçada sobre a mesa, com o rosto enterrado nas mãos.

Durante muito tempo eu imaginara que o homem era uma

fantasia, uma sombra a viver em alguma dimensão insólita no

podia-ter-sido, alguém que eu inventara. Depois da carta dele, sentimo-nos inseguros, vacilantes, como se uma campainha nos

chamasse e não soubéssemos como responder.

Então, por coincidência, reli um estranho livreto de física A interpretação multimundos da física quântica. Com efeito, muitos mundos, diz ele, A cada instante o mundo que conhecemos se divide numa quantidade infinita de outros mundos, de futuros diferentes e passados distintos.

De acordo com a física, o outro Richard não desapareceu na

encruzilhada onde modifiquei minha vida. Ele existe, neste exato momento, num mundo alternativo que desliza ao lado deste em que estamos. Naquele mundo, também Leslie Parrish escolheu uma vida diferente: Richard Bach não é seu marido, é um homem que ela deixou escapar ao descobrir que o que ele tinha a oferecer não era amor e alegria e sim interminável padecimento.

Depois disso, meu subconsciente levou para a cama um

exemplar fantasma de A interpretação multimundos, leu-o noite após noite, cutucou-me enquanto eu dormia.

E se vocês dessem um jeito de encontrar o Richard e a Leslie

que eram, dizia ele, antes de terem cometido os piores erros e os melhores acertos? E se pudessem adverti-los, agradecer-lhes,

perguntar-lhes qualquer coisa que ousassem? E se pudessem conhecer eus alternativos? O que poderiam eles saber a respeito da vida, sobre a juventude, o envelhecimento e a morte, a carreira, o amor e o patriotismo, sobre a guerra e a paz, sobre responsabilidades, escolhas e conseqüências, a respeito do mundo que vocês consideram real?

Vá embora, eu falei.

Pensa que não pertence a este mundo, com suas guerras e

destruição, com seu ódio e violência? Por que vive aqui?

Quero dormir, avisei.

Boa noite, respondeu ele.

Mas as mentes-fantasmas nunca dormem, e em sonhos eu ouvia

páginas viradas.

Agora estou acordado, e não consigo afastar aquelas coisas da cabeça. As escolhas que fazemos realmente mudam nossos mundos? E

se a ciência afinal estiver certa?

Vínhamos descendo em nosso hidravião de neve e arco-íris,

procedentes do norte, sobrevoando montanhas da cor de lembranças antigas, tocadas pela bruma. Aos poucos surgiu diante de nós a cidade, uma vasta panqueca de concreto, assando ao sol de verão, a sobremesa que encerraria um prolongado vôo.

— Quanto falta, meu bem? — perguntei pelo interfone. Leslie

levou a mão ao receptor de navegação de radar e rádio, e surgiram números brilhantes no painel de instrumentos.

— Cinqüenta e uma milhas para norte — disse ela. — Faltam

19 minutos. Quer a torre de Los Angeles?

— Obrigado — respondi, sorrindo. Quanto havíamos mudado,

desde que nos tínhamos conhecido! Leslie, a quem voar antes

aterrorizava, agora era ela própria uma aviadora. Eu, que antes tinha medo do casamento, já estava casado há 12 anos e me sentia ainda como um namorado.

— Alô, torre de Los Angeles — falei ao microfone. — Aqui é

Martin Seahawk Quatro Quatro Quatro Alfa, no rumo sul de Santa Mônica. — Em particular, chamávamos nosso hidravião de Growly. Ao controle do tráfego aéreo dávamos o nome oficial.

Como é possível que sejamos os felizardos, pensei, levando uma vida que em crianças tomávamos como sonhos? Em menos de meio

século de desafio e aprendizado, de ensaio e erro, cada um de nós tinha passado, com esforço, de tempos duros para um lindo presente que superava nossos sonhos.

— Martin Tríplice Quatro Alfa no contato de radar. — Soou

uma voz em nossos fones.

— Há tráfego ali — avisou Leslie. — E ali também.

— Estou vendo. — Olhei para ela também, para aquela atriz

transformada em parceira de aventura. Os cabelos louros

emolduravam-lhe as curvas suaves do rosto, refletindo luzes e sombras, os olhos azuis de mar que verificavam, sérios, o céu à nossa volta. Que rosto maravilhoso aquela mente moldara!

— Martin Tríplice Quatro Alfa — disse o controle de Los

Angeles —, passe para quatro seis quatro cinco.

Quais eram as probabilidades de nos encontrarmos, essa mulher extraordinária e eu, de que nossos caminhos se cruzassem e se juntassem, como acontecera? Quais as possibilidades de nos

transformarmos de estranhos em almas irmãs?

Agora estávamos voando juntos, convidados a Spring Hill, um

encontro de pesquisadores exploradores dos limites do pensamento criativo: ciência e consciência, guerra e paz, o futuro de um planeta.

— Aquilo não foi para nós? — perguntou ela.

— Foi, sim. Que número ele disse?

Ela virou-se para mim, com um sorriso nos olhos.

— Tente lembrar-se — retrucou.

— Quatro seis quatro cinco?

— Isso mesmo — confirmou Leslie. — Não precisamos confiar

na memória um do outro, não é?

Essas palavras foram as últimas que escutei antes que o mundo mudasse.

2

O transponder é uma caixa preta no painel de instrumentos do hidravião, com janelinhas onde aparece um código de quatro

algarismos. Ajustando algarismos nessas janelinhas, somos

identificados a quilômetros de distância, em salas na penumbra: número da aeronave, rumo, altitude, velocidade, tudo quanto importa aos controladores do tráfego aéreo diante de suas telas esverdeadas.

Naquela tarde, talvez pela milésima vez em minha carreira de

piloto, estendi a mão para modificar aqueles algarismos em suas janelinhas. Quatro na primeira, sãs na segunda, quatro na terceira, cinco na última. Enquanto ainda olhava para baixo, atento a essa tarefa, ouvi um zumbido esquisito que começou num dó grave e cresceu até

ultrapassar o limite da audição; a seguir veio um baque, como se tivéssemos entrado numa forte corrente ascendente, um estralejante clarão de luz âmbar na cabine.

— RICHARD! — gritou Leslie.

Ergui a cabeça de repente, e dei com Leslie de boca aberta e

olhos arregalados.

— Um pouco de turbulência — avisei —, um pouco de... —

Então eu mesmo vi, e parei no meio da frase.

Los Angeles havia desaparecido.

Não se via mais a cidade que se estendia por todo o horizonte, as montanhas à sua volta, o véu de névoa de 160 mil quilômetros.

Tudo sumira.

O céu ganhara um azul de flores silvestres, profundo, fresco e frio. Lá embaixo não havia pistas, telhados e shopping-centers, e sim um mar ininterrupto, um espelho do céu. Um mar de um azul de

amor-perfeito, não o azul-escuro de alto-mar, mas todo feito de baixios, como se um banco de areia, azul-cobalto, se estendesse a quase dois metros de profundidade, um desenho de prata e ouro.

— Cadê Los Angeles? — perguntei. — Está vendo...? Me diga o

que está vendo.

— Água! Estamos sobre o mar! — arquejou Leslie. — Richie, o

que aconteceu?

— Não sei — respondi, em total perplexidade. Verifiquei os

instrumentos, e cada ponteiro apontava para onde devia apontar. A velocidade do ar era a mesma, o rumo mantinha-se em 135 graus na bússola. Agora, porém, a bússola magnética se mexia de um lado para outro em sua caixa, sem se importar para onde ficava o norte ou o sul.

Leslie experimentou botões, premiu comutadores.

— Os transmissores não funcionam — avisou, já com uma

ponta de medo na voz. — Estão ligados, mas não mostram...

Realmente. Os dados de navegação eram linhas brancas e

indicações de OFF. O painel de loran mostrava uma coisa que nunca tínhamos visto: PERDA DE SINAL.

Nossas mentes também se esvaziaram. Ficamos calados por um

momento.

— Você viu alguma coisa antes... da mudança, Leslie?

— Não. Vi! Eu estava à procura de outros aparelhos. Houve um

silvo, você escutou? Aí, um brilho amarelo, uma... uma onda de choque por todos os lados, que logo desapareceu, junto com tudo mais! Onde estamos?

Fiz a melhor exposição possível.

— O avião não apresenta problemas, a não ser o transmissor e

o loran. Mas a bússola magnética parou... O único instrumento de um avião que não pode deixar de funcionar pifou! Não sei onde estamos,

— O controle de Los Angeles? — sugeriu Leslie de repente.

— Isso! — Premi o botão do microfone. — Alô, controle de

Los Angeles, Martin Tríplice Quatro Alfa. — Baixei o olhar, à espera da resposta. Aquele banco de areia submerso estava como que gravado com uma vasta retícula cambiante, como se riachos serpenteantes corressem por ali, correntes incrivelmente entrelaçadas, ribeiros dos quais partiam incontáveis afluentes, cada qual nítido e distinto, todos ligados entre si, refulgindo a pouco mais de um metro sob a superfície.

— Alô, controle de Los Angeles — repeti —, aqui fala o

hidravião Martin Quatro Quatro Quatro Alfa, como está a escuta? —

Aumentei o volume, e a cabine encheu-se de estática. O rádio

funcionava, mas ninguém se comunicava através dele conosco. — Alô qualquer estação que esteja na escuta de Martin Seahawk Tríplice Quatro Alfa, favor chamar nesta freqüência.

Estática. Nem uma só palavra.

— Não sei mais o que fazer — avisei a Leslie.

Por instinto, fiz com que o avião subisse, à procura de uma

visão mais ampla, à espera que a altitude nos proporcionasse algum sinal do paradeiro do que tínhamos perdido.

Alguns minutos depois, havíamos descoberto com certeza

algumas coisas estranhas: por mais que subíssemos, o altímetro não indicava mudança — o ar naquele lugar não ficava mais rarefeito com a altitude. Embora eu subisse a cerca de dez mil pés, o instrumento continuava a indicar o nível do mar.

Por toda parte, o horizonte era um só, sem sinal de montanhas, nuvens ou ilhas, um barco, qualquer coisa viva.

Leslie bateu com o dedo no marcador de combustível.

— Parece que não estamos gastando combustível — comentou.

— Será possível?

— É mais provável que a bóia esteja presa. — O motor

aumentava ou diminuía de rotação à medida que eu mexia nos

comandos, mas nosso marcador de combustível se fixara logo abaixo de meio tanque.

— É isso mesmo — falei, balançando a cabeça, — O marcador

de combustível também deu defeito. Talvez tenhamos ainda duas horas de vôo, mas prefiro economizar o que ainda temos.

— Onde vamos pousar? — perguntou Leslie, perscrutando o

horizonte.

— Isso faz diferença?

O mar reluzia em suas cores esplêndidas, seus desenhos

caprichosos.

Puxei o manete para trás e o hidravião começou a descer,

lentamente. Enquanto descíamos, observávamos o estranho panorama.

Devia haver um milhão de vezes um milhão de trilhas refulgentes no fundo do mar, caminhos brilhantes e foscos, largos e estreitos, retos e quebrados, cada qual ligado, mediante percursos complicados, a todos os outros.

Existe uma razão, pensei. Alguma coisa traçou essas linhas.

Seriam elas caminhos? Estradas submersas?

Leslie pegou-me a mão.

— Richie, talvez estejamos mortos. Quem sabe batemos em

alguma coisa no ar, ou então algo bateu em nós, tão depressa que nem percebemos?

O perito em morte da família sou eu, e nem pensara na... Seria possível que ela tivesse razão? E o que Growly está fazendo aqui?

Nada do que li a respeito de morte diz que ela sequer muda a pressão do óleo.

— Isso não pode ser a morte! — exclamei. — De acordo com

os livros, quando morremos há um túnel de luz, uma sensação incrível de amor, e um grupo de pessoas que vêm se encontrar conosco... Se nos demos ao trabalho de morrer juntos, os dois ao mesmo tempo, você não acha que eles dariam um jeito de se encontrar conosco em tempo?

— Talvez os livros estejam errados — disse Leslie. Passamos a voar mais baixo, em silêncio. Como era possível que a alegria e as perspectivas de nossas vidas tivessem chegado ao fim assim tão subitamente? Não era impossível, pensei, mas era difícil de acreditar.

— Você se sente morto? — perguntou Leslie.

— Não.

— Nem eu.

Sobrevoamos baixo os canais paralelos, à procura de

afloramentos de coral ou troncos flutuantes antes de amerissarmos.

Mesmo morto, ninguém quer arrebentar o avião numa pedra.

E que maneira estúpida de acabar com uma vida! Sequer

sabemos o que aconteceu, nem mesmo como foi que morremos!

— A luz dourada, Leslie, a onda de choque! Não pode ter sido

uma bomba atômica? Será que fomos as primeiras baixas da Terceira Guerra Mundial?

Leslie pensou no assunto.

— Não acredito nisso. A coisa não vinha em nossa direção,

estava se afastando. E teríamos sentido alguma coisa.

Continuamos em silêncio. Tristes. Muito tristes.

— Não é justo! — exclamou Leslie. — A vida tinha ficado tão

bonita! A gente trabalhava tanto, superava tantos problemas...

estávamos apenas no início da vida boa.

— Bem, se estamos mortos, morremos juntos — suspirei. —

Ao menos essa parte de nossos sonhos aconteceu.

— E dizem que a vida passa, todinha, como um filme em nossa

frente. Você viu sua vida toda num segundo?

— Ainda não — respondi. — E você?

— Nada. Outra coisa que dizem é que tudo fica preto. Isso

também está errado!

— Como é possível que tantos livros... que nós estivéssemos enganados? — indaguei. — Lembra-se de nossas experiências de

deixar o corpo, à noite? A morte deveria ser assim, sempre assim, só que seria uma sensação sem fim, não estaríamos de volta pela manhã.

Eu sempre acreditara que morrer faria sentido, que seria uma

oportunidade racional e criativa de chegar a um novo conhecimento, uma prazerosa libertação dos limites da matéria, uma aventura para além das muralhas das crenças grosseiras. Nada nos advertira de que a morte significa sobrevoar um oceano infinito, destituído de vida.

Podíamos pousar. Não havia rochas, nem sargaços, nem

cardumes. O mar estava calmo e claro, o vento mal agitava a superfície.

Impulsionei o manete para a frente e o fiel Growly subiu,

preparando-se para uma suave descida.

Leslie apontou os dois caminhos coruscantes.

— Aqueles dois parecem ser amigos. Sempre Juntos.

— Talvez sejam pistas de pouso, Leslie. Parece mais

conveniente alinhar na direção deles. Vamos pousar no ponto exato onde eles se juntam, certo? Está pronta?

— Acho que sim.

Olhei pelas janelas laterais, verificando o trem de pouso.

— Estamos com as rodas retraídas para uma amerissagem, os

flaps baixados...

Começamos a última curva lenta, deslizando na direção daquele lugar esquisito, e o mar inclinou-se graciosamente, bem devagar, em nossa direção. Flutuamos durante um longo momento, a poucos

centímetros da superfície, e reflexos pastéis coloriram a fuselagem branca.

A quilha roçou nas ondas e o hidravião transformou-se numa

lancha de corrida, voando numa nuvem de borrifos. O murmúrio do motor foi abafado pelo ímpeto da água à medida que eu puxava o manete para trás e diminuíamos de velocidade.

Nesse instante, a água desapareceu, o avião sumiu. À nossa

volta, borrados, passavam telhados, manchas de tijolos vermelhos e palmeiras, e bem à frente surgiu a parede de um imenso edifício cheio de janelas.

— CUIDADO!

Uma fração de segundo depois estávamos parados dentro do

edifício, atordoados mas incólumes, de pé num comprido corredor.

Estendi as mãos para minha mulher na mesma hora, segurando-a.

— Você está bem? — perguntamos ao mesmo tempo, sem

fôlego.

— Estou! — dissemos. — Sem um arranhão! E você? Estou!

Não havia vidros partidos na janela no fim do corredor,

nenhum buraco na parede pela qual tínhamos entrado como um

foguete. Não se avistava vivalma, nem se ouvia ruído algum no prédio.

Fui tomado de frustração.

— Que droga está acontecendo?

— Richie, eu conheço esse lugar — disse Leslie, com assombro

no olhar. — Já estivemos aqui antes!

Olhei em volta. Um saguão com muitas portas, um tapete

vermelho-alaranjado, portas de elevadores bem à nossa frente, palmeiras em vasos. A janela do saguão dava para ensolarados telhados vermelhos, monos dourados mais adiante, uma enevoada tarde azul.

— É um... está parecendo um hotel. Não me lembro de hotel

nenhum...

Ouvi um tilintar suave, e uma seta verde acendeu-se sobre as

portas do elevador.

Observamos enquanto as portas se abriam com um zumbido.

Dentro do elevador havia um homem anguloso e todo músculos, ao lado de uma bela mulher que vestia uma blusa desbotada debaixo de uma jaqueta da Marinha, calças jeans e um gorro. O homem nada tinha de especial, mas o rosto da mulher era espantoso.

Senti minha mulher arquejar a meu lado, percebi que seu corpo se retesava. Do interior do elevador, mal nos dirigindo um olhar, saíram o homem e a mulher que tínhamos sido 16 anos antes, as duas pessoas que éramos no dia em que nos conhecemos.

3

Detivemo-nos estupefatos, petrificados, boquiabertos. A Leslie mais jovem murmurou um muito obrigada ao Richard que eu fora. A seguir, mal se contendo para não correr, ela se apressou na direção de seu quarto.

— Leslie! Espere! — gritou minha Leslie.

A jovem parou e se virou, à espera de ver uma amiga, mas não

pareceu nos reconhecer. Com a janela às nossas costas, devíamos estar na sombra, ou em silhueta.

— Leslie — chamou minha mulher, simpática, caminhando em

sua direção. — Pode me dar um momento?

O Richard mais moço, enquanto isso, passou por nós, em

direção ao seu quarto. O fato de a mulher que o acompanhara no elevador ter-se encontrado com amigos não era com ele.

E não sabermos o que está acontecendo, pensei comigo, não

nos impede de sermos os controladores da situação. Senti uma coisa esquisita, ao ver aqueles dois andando em direções opostas quando sabíamos que estavam destinados a passar o resto da vida juntos.

Deixei que Leslie fosse em busca de sua vida anterior, enquanto eu corria na direção do rapaz.

— Com licença — falei, atrás dele. — Richard?

Ele se virou, chamado tanto por minhas palavras quanto pelo

som de minha voz, tomado de curiosidade. Lembrei-me da jaqueta que ele usava, cor de pele de camelo. Tinha no forro um rasgão que eu costurara uma dúzia de vezes, sem sucesso. A seda, ou independente do que fosse, não parava de ser cortada pela linha.

— Preciso me apresentar? — perguntei.

Ele me olhou, e nos olhos grandes apareceu alguma coisa como

um tranqüilo autocontrole.

— O quê!

Escute — comecei, o mais calmo possível. — Nós também não estamos compreendendo. Estávamos num avião, uma coisa

esquisita bateu em nós e...

— Você é...? — Sua voz sumiu e ele ficou ali, parado, pasmo.

Evidentemente, aquilo para ele era um choque, mas me senti

estranhamente irritado com o sujeito. Quem poderia dizer de quanto tempo dispúnhamos para ficar juntos, se minutos ou menos, se horas ou menos, e ele perdia tempo, recusando-se a acreditar no que deveria ser óbvio?

— A resposta é sim — respondi. — Eu sou o homem que você

será daqui a alguns anos. Por algum motivo estamos aqui, e foi-nos dada uma oportunidade que todo mundo deseja mas nunca consegue ter.

O choque transformou-se em desconfiança.

— Qual era o apelido que mamãe me dava? — perguntou,

apertando os olhos.

Suspirei e respondi.

— Qual era o nome de meu cachorro quando eu era menino, e

que fruta gostava de comer?

— Richard, pare com isso! — exclamei. — Lady não era um

cachorro, era uma cadela e comia damascos. Você tinha uma luneta astronômica de 12,5 centímetros. O espelho estava lascado porque um dia você deixou cair um alicate quando estava consertando alguma coisa nele, com o tubo virado para cima e não para baixo, havia uma passagem secreta na cerca perto da janela de seu quarto, uma abertura com dobradiças pela qual você podia passar quando não queria usar o portão...

— Muito bem — disse ele, olhando para mim como se eu fosse

o resultado de um número de ilusionismo. — Não duvide de que você possa continuar a lembrar essas coisas.

— Indefinidamente. Rapaz, você não pode fazer uma só

pergunta a seu respeito que eu não seja capaz de responder, e com meus 17 anos a mais tenho mais respostas do que você tem perguntas!

Ele olhou para mim. Um garoto, pensei, sem nenhum fio de

cabelo branco. Um pouco de grisalho nos cabelos há de lhe cair bem.

— Pretende perder o tempo que tivermos em conversa aqui no

corredor? Sabe que naquele elevador você acabou de se encontrar com a mulher com quem vai... a pessoa mais importante de sua vida e você nem sabe que se encontrou com ela?

Ela? — Ele olhou para o corredor. — Mas ela é linda! Como é que ela...

— Como, não sei, mas ela o acha atraente. Creia no que digo.

— Certo, acredito. Acredito! — Tirou a chave do aparta mento

do bolso da jaqueta. — Vamos entrar.

Nada fazia sentido, mas tudo estava correto. Não estávamos em Los Angeles, e sim em Carmel, Califórnia, outubro de 1972, terceiro andar do Holiday Inn. Antes mesmo que ele metesse a chave na

fechadura, eu sabia que o quarto estava cheio de modelos de gaivotas, a controle remoto, construídos para um filme que vínhamos rodando na praia. Alguns dos modelos faziam evoluções maravilhosas, mas outros tinham caído de ponta-cabeça e quebrado. Eu havia levado os

destroços para o quarto, a fim de recolá-los.

— Vou chamar Leslie — avisei. — Veja se consegue arrumar

isso aqui um pouco, está certo?

— Leslie?

— É a... Bem, há duas Leslies. Uma é a mulher com quem você

acabou de subir no elevador, ansiosa para que você achasse um jeito de falar com ela. A linda é a mesma mulher 16 anos depois, minha esposa.

— Não consigo acreditar nisso!

— Por que não arruma o quarto um pouco? — propus. —

Voltamos daqui a pouco.

Encontrei Leslie no corredor, alguns apartamentos adiante, de costas para mim, conversando com seu ego mais jovem. Enquanto eu caminhava em sua direção, uma camareira saiu do apartamento ao lado, indo na direção do elevador, empurrando um carrinho com roupa suja.

Sem prestar atenção, ela empurrou o pesado carrinho na direção de minha mulher.

Cuidado! — gritei.

Tarde demais. Leslie virou-se ao ouvir minha voz, mas o carro atingiu-a de lado, passou através de seu corpo como se ela fosse feita de ar, seguido pela camareira, que a pisoteava, sorrindo para a moça.

— Ei! — exclamou a jovem Leslie, alarmada.

— Oi! — respondeu a camareira. — Bom dia!

Corri para Leslie.

— Está bem?

— Muito bem. Acho que ela não.. — Virou-se para a moça. —

Richard, quero apresentá-lo a Leslie Parrish. Leslie, esse é meu marido.

Richard Bach.

Achei graça do formalismo da apresentação.

— Como vai? — disse à moça. — Pode me ver? Ela riu, com

um brilho nos olhos.

— Pensa que é diáfano? — Nenhum choque, nenhuma suspeita.

A jovem Leslie devia ter considerado tudo aquilo um sonho e resolvera se divertir um pouco.

— Estou só verificando — respondi. — Depois do que acabou

de acontecer, não tenho certeza de que faço parte deste mundo.

Aposto que...

Levei a mão à parede, desconfiando que a mão atravessaria o

reboco. Foi o que aconteceu, e o pulso entrou até o papel de parede. A jovem Leslie riu a valer.

— Acho que somos fantasmas — comentei.

Então foi por isso que não morremos ao chegar, atravessando a parede do hotel, pensei.

Com que rapidez nos ajustamos a situações inacreditáveis! Se

caímos de um cais, logo percebemos que estamos debaixo da água.

Movemo-nos de maneira diferente, respiramos diferente, mas em meio segundo estamos adaptados, embora possamos não gostar da água fria.

O mesmo acontecia ali. Estávamos mergulhados em nosso

passado, surpresos por havermos caído nele, fazendo o melhor que podíamos naquele lugar esquisito. E a melhor coisa que podíamos fazer era juntar aqueles dois, poupar-lhes a perda dos anos que havíamos desperdiçado antes de concluirmos que éramos almas irmãs.

Era estranho estar conversando com ela, como se nos

encontrássemos de novo pela primeira vez. Que coisa esquisita, pensei.

Ela é Leslie, mas não tenho nenhuma história em comum com ela!

— Quem sabe se, em vez de ficarmos aqui... — Apontei para o

corredor. — Richard nos convidou para o apartamento dele. Podemos conversar um pouco lá, acertar as coisas sem que carrinhos com roupa suja nos atropelem...

Ela olhou de relance para o espelho do corredor.

— Eu não pretendia me encontrar com ninguém. Estou um

horror — disse, ajeitando os longos cabelos louros debaixo do gorro.

Olhei para minha mulher e não pudemos deixar de rir.

— Ótimo! — exclamei. — Foi nosso último teste com você. Se

Leslie Parrish um dia olhar para um espelho e disser que está bem, nesse caso não será a verdadeira Leslie Parrish!

Caminhei na frente em direção ao apartamento de Richard, e

bati à porta, sem pensar. Os nós de meus dedos, é claro, sumiram na madeira sem nenhum ruído.

— Acho melhor você bater — falei à jovem Leslie.

Ela bateu, pancadinhas alegres e ritmadas, para mostrar que seu toque era não só eficaz como musical.

A porta abriu-se logo Richard segurava uma gaivota feita de

balsa, com um metro de envergadura. No olhar que dirigiu à moça havia uma curiosa mistura de ansiedade e medo.

— Olá! — falei. — Richard, quero apresentá-lo à Leslie Parrish, sua futura mulher. Leslie, esse é Richard Bach, seu futuro marido.

Ele encostou a gaivota na parede e apertou a mão da moça

formalmente.

O brilho divertido nem por um instante deixou-lhe os olhos

enquanto ela o olhava, apertando-lhe a mão com a maior gravidade possível.

— Muito prazer em conhecê-lo.

— E Richard, esta é minha mulher, Leslie Parrish-Bach.

— Como vai? — cumprimentou ele.

Ficou parado por alguns instantes, olhando de uma das Leslies para outra e para mim, como se um grupo de crianças batesse à sua porta no dia das bruxas.

— Vamos entrar — falou, por fim. — O apartamento está uma

bagunça...

E ele falava sério. Se o limpara, nada se notava. Gaivotas de balsa, módulos de controle remoto, baterias, folhas de balsa, lixo nos caixilhos das janelas, tudo cheirando a tinta.

Ele havia colocado na mesinha quatro copos de água, três

saquinhos de flocos de milho e uma lata de amendoins. Se nossas mãos atravessam as paredes, pensei, é possível que não tenhamos muito sucesso com os flocos de milho.

— Para sua tranqüilidade de espírito, Miss Parrish — começou

ele —, já fui casado, mas nunca mais volto a me casar. Não estou entendendo absolutamente quem são essas pessoas, mas lhe asseguro que não tenho a mínima intenção de lhe fazer qualquer proposta...

— Ah, meu Deus! — exclamou minha mulher, em voz baixa,

olhando para o teto. — O discurso anticasamento.

— Por favor, Wookie — sussurrei. — Ele é um rapaz simpático,

só está assustado. Não vamos...

— Wookie? — admirou-se a jovem Leslie.

— Desculpe — respondi. — É um apelido que saiu de um filme

que vimos juntos há muito... daqui a muito tempo. — Comecei a ter a impressão de que talvez a conversa não seria fácil.

— Vamos começar pelo início — disse minha mulher,

organizando o inverossímil. — Richard e eu não sabemos como foi que chegamos aqui, nem quanto tempo isso vai durar, não sabemos para onde vamos. Tudo que conhecemos são vocês, sabemos do

passado e do futuro de vocês... ao menos os próximos 16 anos.

— Vocês dois vão se apaixonar um pelo outro — falei. — Já

estão apaixonados, só que não sabem que cada um de vocês é a pessoa que o outro amaria se se conhecessem. Neste exato momento, vocês acham que não há no mundo ninguém que seja capaz de compreender vocês ou de amá-los. Mas há, e estão um diante do outro!

A jovem Leslie sentou-se no chão, encostou-se num sofá e

reprimiu um sorriso. Apoiou o queixo nos joelhos.

— Temos alguma influência nesse nosso amor, ou se trata de

um destino irrecorrível?

— Boa pergunta — disse Leslie. — Vamos lhes contar aquilo

de que nos lembramos do que aconteceu. — Fez uma pausa,

concatenando as idéias. — Depois vocês deverão fazer o que julgarem acertado.

O que nós lembramos, pensei. Lembro-me deste lugar,

lembro-me de ter visto Leslie por acaso no elevador, ficar depois anos sem revê-la. Mas não me lembro de nenhum encontro aqui neste

apartamento com futuras Leslies, nem de nenhum futuro Richard me mandando arrumar as coisas.

O jovem Richard sentou-se numa cadeira, olhando para a jovem

Leslie. Para ele, a beleza física dela raiava o limiar da dor. Ele se sentia acanhado diante de mulheres bonitas, e nem por um momento lhe passou pela cabeça que ela estivesse tão acanhada quanto ele. Não era de admirar que tivessem passado anos antes que começassem a se conhecer.

— Quando nos conhecemos, as aparências nos bloquearam,

outras pessoas nos impediram inclusive de tentar conhecer um ao outro — disse Leslie. — Aconteceram-nos coisas terríveis durante anos, antes de nos reencontrarmos.

— Cometemos, separados, erros que jamais teríamos cometido

juntos — acrescentei. — Mas, agora, que vocês sabem... não

percebem? Não precisam cometer os mesmos erros!

— Quando nos reencontramos — prosseguiu Leslie —,

tinham-se passado anos. Tudo que podíamos fazer era juntar os pedaços e rezar para que conseguíssemos construir a vida bela que víamos que podíamos ter juntos. Se tivéssemos nos conhecido antes, não precisaríamos passar por toda aquela recuperação. É claro que nos encontramos antes, vimo-nos no mesmo elevador em que vocês

subiram. Só que não tivemos coragem ou perspicácia suficiente... —

Leslie sacudiu a cabeça. — Não tínhamos aquilo quer era preciso ter para sabermos o que poderíamos ser um para o outro.

— Por isso, achamos que vocês são malucos por não caírem um

nos braços do outro agora mesmo — continuei —, dar graças a Deus por terem se encontrado e começar a modificar a vida de vocês, para ficarem juntos. Desperdiçamos tanto tempo quando éramos vocês, passamos por cima de tantas oportunidades de fugir de desastres e seguirmos juntos.

— Desastres? — perguntou Richard.

— Isso mesmo — confirmei. — Vocês estão no meio de vários

neste exato momento. Só que ainda não sabem.

— Você sobreviveu — disse ele. — Acha que sabe todas as

respostas?

Por que ele assumia uma atitude tão defensiva? Caminhei um

pouco, olhando para ele.

— Temos algumas respostas, mas o importante para você é

saber que ela sabe a maioria dessas respostas e que você tem respostas para ela. Juntos, nada conseguirá parar vocês!

— Parar-nos como? — perguntou a jovem Leslie, surpresa com

a intensidade de meus sentimentos, desconfiando, finalmente, de que talvez aquilo não fosse um sonho.

— Impedir que vocês vivam o amor supremo — disse minha

mulher —, impedir que alcancem juntos uma vida tão maravilhosa aue ficarão incapazes de imaginar um sem o outro!

Como era possível que aqueles dois resistissem à dádiva imensa que lhes oferecíamos? Quantas vezes temos a oportunidade de

conversar com as pessoas em quem nos transformaremos, aquelas que conhecem cada um dos erros que haveremos de cometer?

Minha mulher estava sentada no chão, ao lado de Leslie, como

uma gêmea mais velha.

— Na privacidade deste quarto, onde estamos a sós, precisamos lhes dizer uma coisa: apesar de todos os seus erros, cada um de vocês é uma pessoa extraordinária. Vocês têm se apegado a um senso de dever, a uma ética interior, mesmo quando proceder assim é difícil, perigoso, ou quando as pessoas consideram vocês esquisitos. É essa esquisitice que os distingue. Ela os toma solitários. Além disso, faz com que cada um seja perfeito para o outro.

Os dois escutavam com tamanha atenção que eu nada con

seguia perceber em seus rostos.

— Ela não tem razão? — perguntei. — Digam-nos para sumir

se isto é absurdo. Se não for verdade, podemos ir embora, Temos nosso próprio probleminha para resolver...

— Não! — disseram os dois, em uníssono.

— Uma coisa vocês já nos disseram — comentou a jovem

Leslie. — É que vamos viver mais 16 anos! Não haverá guerras, não chegará o fim do mundo. Mas... talvez seja essa a pergunta que quero fazer. Nós sobrevivemos a esta época, ou melhor, vocês sobreviveram?

— Pensam que sabemos o que está acontecendo? — perguntei.

— Errado! Sequer sabemos se estamos mortos ou vivos. Tudo que sabemos é que, por alguma razão, é possível, sem que o universo se desmorone, que nós, vindos do futuro de vocês, os encontremos, chegados de nosso passado.

— Queremos uma coisa de vocês — disse Leslie.

A jovem ergueu os olhos, os mesmos olhos tão bonitos.

— O que é?

— Somos nós que viemos procurá-los, somos nós que pagamos

por nossos erros, que tiramos proveito do esforço de vocês. Somos nós que nos orgulhamos de suas melhores escolhas e que nos

entristecemos com as errôneas. Somos os melhores amigos de vocês, além de vocês mesmos. Independentemente do que acontecer, não se esqueçam de nós, não nos traiam!

— Sabem o que aprendemos? — perguntei. — Tranqüilidade a

curto prazo, em troca de problemas a longo prazo, não é boa coisa. O

caminho fácil não é o melhor. — Virei-me para meu ego mais jovem.

— Sabe quantas propostas assim hão de lhe acontecer entre sua idade e a nossa?

— Muitas?

— Isso mesmo — assenti.

— Como é que evitamos as escolhas erradas? — perguntou ele.

— Tenho a impressão de que já segui pelo caminho fácil algumas vezes.

— É de se esperar — respondi. — As opções erradas são tão

importantes quanto as corretas. Às vezes, ainda mais.

— Não são muito agradáveis — retrucou ele.

— Não, mas elas...

— Vocês são o único futuro que temos? — perguntou a jovem

Leslie de repente, interrompendo-se na ânsia de fazer a pergunta, e sem motivo aparente senti uma pontada de medo.

— Vocês são nosso único passado? — perguntou minha

mulher.

— É claro... — disse Richard.

— Não! — Olhei para ele, atônito. — Claro que não! É por isso que não nos lembramos de qualquer um de nós no Holiday Inn de Carmel! Não lembramos porque isso não aconteceu a nós, aconteceu a vocês!

As implicações dispararam como feixes de laser por todos no apartamento, modificaram-nos para o resto de nossas vidas. Estávamos ali dando aos dois o melhor do que tínhamos, mas seria possível que fossem apenas um de nossos passados, um dos caminhos que

conduziam às pessoas que somos? Por um instante havíamos

significado segurança para eles, tínhamos confirmado que

sobreviveriam. Mas, seria crível que não fôssemos o inevitável futuro que os esperava, que podia haver outras opções para eles, caminhos diferentes dos que tínhamos seguido?

— Não importa que sejamos o futuro de vocês ou não — disse

minha mulher. — Não virem as costas para o amor que... — Leslie parou no meio da frase, olhando para mim com um ar de susto. O

quarto estremecia, um ronco surdo sacudia o edifício.

— Terremoto? — sugeri.

— Não. Não é um terremoto — disse a jovem Leslie. — Não

estou sentindo nada. Richard?

O rapaz balançou a cabeça.

— Nada.

Para nós, o apartamento inteiro se sacudia agora, em freqüências baixas que se aceleravam a cada segundo.

Minha mulher pôs-se de pé num salto, em pânico. Tendo

sobrevivido a dois grandes terremotos, não estava nada interessada num terceiro. Peguei-lhe a mão.

— Os mortais aqui neste quarto não sentem nenhum terremoto,

Wookie, e nós, fantasmas, não nos importamos com a queda de

escombros... .

Neste instante o quarto começou a se agitar convulsivamente,

tinta azul-claro num misturador de tintas. O ruído tornava-se cada vez mais intenso, os jovens se espantavam com o que estava acontecendo a Leslie e a mim. A única coisa sólida era minha mulher a meu lado, apressando-se, gritando para os dois.

Fiquem juntos! — bradou ela.

Num piscar de olhos o quarto de hotel desapareceu com um

solavanco, engolfado num ruído de motor e espadanar de água.

Borrifos batiam com força no vidro, e ali estávamos de novo na cabine de nosso hidravião, os ponteiros dos instrumentos se agitando, o mar raso batendo sob nós, o Seahawk já leve, pronto para voar.

Leslie gritou de alívio e deu uma pancadinha carinhosa no painel do avião.

— Alô, Growly! Como é bom rever você!

Puxei o manche em minha direção, e em poucos segundos

nossa pequena nave apartou-se da água, deixando para trás um véu de borrifos, e aquelas linhas complicadas do leito marinho se distanciaram.

Como era tranqüilizador estar de volta ao ar!

— Foi o Growly que decolou! — falei. — O Growly nos tirou

de Carmel! Mas, em sua opinião, o que foi que empurrou o manete para a frente? O que foi que começou a decolagem?

A resposta veio antes que Leslie pudesse falar, dada por uma

voz às nossas costas.

— Fui eu.

Viramos no mesmo instante, surpresos. De repente, a trezentos pés de altitude e sobre um mundo que não conhecíamos, tínhamos um passageiro a bordo.

4

Imediatamente minha mão preparou-se para empurrar o

manche para a frente, imobilizar a intrusa contra o encosto do assento.

— Não se assustem! — disse ela. — Sou amiga! — Ela riu.

— Não fiquem com medo, logo de mim!

Minha mão relaxou, mas não muito.

— Quem...? — começou Leslie, olhando para a mulher.

Nossa passageira, que vestia jeans e uma blusa xadrez, tinha a pele morena, cabelos cor de tinta nanquim que lhe caíam até os ombros, olhos pretos como a meia-noite.

— Meu nome é Pye, e sou para vocês o que vocês são para

aqueles que deixaram em Carmel. — Encolheu os ombros,

corrigindo-se. — Vezes vários milhares.

Desacelerei o motor, e o barulho diminuiu.

— Como foi que... — falei. — O que está fazendo aqui?

— Achei que poderiam ficar preocupados — comentou.

— Vim para ajudar.

— O que significa vezes vários milhares? — perguntou Leslie.

— Você sou eu no futuro?

Ela assentiu com a cabeça, chegando-se mais para a frente.

— Sou ambos vocês. Não venho do futuro, mas de... —

Neste ponto ela cantarolou uma curiosa nota dupla. — . .de um presente alternativo.

Eu estava ansioso por saber como ela podia ser nós dois, o que era um presente alternativo, mas acima de tudo desejava saber o que nos havia acontecido.

— Sabe o que foi que nos matou? Onde estamos? — perguntei.

— Morte? — retrucou. — Vocês não estão mortos. Por que

imaginam isso?

— Não sei — respondi. — Estávamos nos preparando para

aterrissar quando, de repente, houve um zumbido forte e a cidade desapareceu, só isso. O que era civilização vaporizou-se em meio segundo e ficamos sozinhos sobre um oceano que não existe no

planeta Terra. E quando pousamos estávamos transformados em

fantasmas à procura de nosso próprio passado, das pessoas que éramos quando nos conhecemos, e só elas podem nos ver, as pessoas nos atropelam com carrinhos com roupa suja, nossos braços atravessam as paredes... — Dei de ombros, desanimado. — A não ser por isso, não imaginamos por que pensaríamos que estamos mortos.

A mulher riu.

— Bem, vocês não estão mortos.

Olhei para minha mulher e senti uma onda de alívio.

— Nesse caso, o que foi que aconteceu conosco? — perguntou

Leslie.

— É uma coisa relacionada com a eletrônica — explicou —,

uma antiga profissão minha. — Olhou para nosso painel de

instrumentos e franziu a testa. — Vocês têm aqui transmissores de altíssima freqüência. Receptor de loran, os transmissores, o transponder, pulsos de radar. Poderia ter sido uma interação. Raios cósmicos... —

Examinou os instrumentos e fez uma pausa. — Houve um forte clarão dourado?

— Isso!

— Interessante — comentou ela, com um sorriso. — A

possibilidade de isso acontecer é de uma em trilhões! — Ela era toda simpatia. — Não devem contar com fazerem essa viagem muitas vezes.

— E a possibilidade de voltarmos? É de uma em trilhões? —

perguntei. — Temos um encontro em Los Angeles amanhã. Vamos

chegar a tempo?

— Tempo?— Ela se virou para Leslie. — Você está com fome?

— Não. Virou-se para mim.

— Está com sede?

— Não.

— Por que acham que não sentem fome nem sede?

— Nervosismo — respondi. — Tensão.

— Medo! — disse Leslie.

— Você está com medo? — perguntou Pye. Leslie pensou um

momento, depois sorriu.

— Agora, não.

Eu não podia dizer o mesmo. Não sou grande apreciador de

mudanças.

Pye virou-se para mim.

— Quanto combustível está consumindo? O ponteiro

permanecia imóvel.

— Nenhum! — respondi, compreendendo de repente o que se

passava. — O Growly não está usando combustível algum, não

estamos consumindo nada porque combustível, fome e sede são coisas relacionadas com o tempo, e aqui o tempo não existe!

Pye anuiu.

— O movimento é uma coisa relacionada ao tempo — objetou

Leslie —, e nós estamos em movimento.

— Estamos mesmo? — Pye ergueu as sobrancelhas,

interrogativamente, virando-se para mim.

— Não me olhe — respondi. — Estamos nos movendo apenas

de faz-de-conta? Estamos nos movendo somente...

Pye me dirigiu um sinal de incentivo, como se dissesse que eu estava “esquentando”.

— ...na consciência?

Ela levou o dedo à ponta do nariz e abriu-se num sorriso.

— Exatamente! Tempo é o nome que vocês dão ao movimento

da consciência. Todo possível acontecimento capaz de ocorrer no espaço e no tempo acontece agora, ao mesmo tempo, simultaneamente.

Não há passado, nem futuro, apenas o agora, ainda que sejamos obrigados a utilizar uma linguagem temporal para conversar. É como...

— Ela olhou para o teto, à procura de uma comparação. — É como a aritmética. Assim que você passa a conhecer o sistema, sabe que todos os problemas numéricos já estão respondidos. O princípio da

aritmética já conhece a raiz cúbica de seis, mas podemos levar um pouco do que chamamos de tempo, alguns segundos, para descobrir o que sempre foi.

A raiz cúbica de oito é dois, pensei, a raiz cúbica de um é um.

Raiz cúbica de seis. Está entre um e dois, para mais.,. Um vírgula oito?

E realmente, enquanto eu fazia o cálculo, sabia que a resposta já estava à espera desde que eu fizera a pergunta.

— Todos os acontecimentos? — perguntou Leslie. — Todo

fato possível capaz de acontecer já aconteceu! Não há futuro?

— Nem passado — disse Pye —, nem tempo. Leslie estava

aturdida.

— Então, por que passamos por todas essas experiências nesse...

nesse tempo de faz-de-conta, se tudo já está feito?

— O importante não é que tudo já esteja feito, mas sim o fato de dispormos de opções infinitas — respondeu Pye. — Nossas

escolhas nos levam a experimentar as coisas que fazemos, e com a experiência compreendemos quem somos.

— Onde é que acontece isso tudo? — perguntei. — Haverá no

céu algum armazém enorme, com prateleiras para todos esses possíveis acontecimentos? E podemos escolher um ou outro?

— Não um armazém, um lugar, ainda que você tenha a

impressão de ser um lugar — explicou. — Onde imagina que ele possa localizar-se?

Balancei a cabeça e virei-me para Leslie. Ela também fez um

gesto negativo.

Pye repetiu a pergunta, teatral.

— Onde? — Olhando dentro de nossos olhos, ela levantou a

mão e apontou para baixo.

Olhamos. Lá embaixo, debaixo da água, revoluteavam aqueles

caminhos intermináveis no leito do mar.

— O desenho? — perguntou Leslie. — Debaixo da água? Ah!

Nossas escolhas! O desenho é o caminho que seguimos, as voltas que demos! E todas as outras possíveis voltas que poderíamos ter dado, que demos durante...

— ...existências paralelas? — perguntei, vendo as peças do

quebra-cabeça se juntarem. — Existências alternativas!

O desenho espraiava-se majestosamente lá embaixo.

Arregalamos os olhos, assombrados.

— Sobrevoamos, subimos mais alto — falei, sentindo a voz

trêmula com a carga de respostas —, e temos uma perspectiva! Vemos todas as escolhas, todas as bifurcações, as encruzilhadas. Mas quanto mais baixo voamos, mais perdemos perspectiva. E quando pousamos, desaparece nossa perspectiva de todas as demais opções! Focalizamos em detalhes: detalhes diários, horários, de minutos, e nos esquecemos das vidas alternativas!

— Que bela metáfora vocês construíram para explorar quem

são — disse Pye. — Um desenho de riscos debaixo de águas sem fim.

Vocês precisam voar de um lado para outro em seu hidravião, a fim de visitar seus egos alternativos, mas é um instrumento criativo, e funciona.

— Nesse caso, aquele mar lá embaixo não é um mar de verdade,

não é? — perguntei. — Aquele desenho não existe de modo concreto.

— Nada no espaço-tempo existe de modo concreto —

respondeu ela. — O desenho é um auxílio visual que vocês elaboraram, é sua maneira de compreender existências simultâneas. A metáfora é ligada ao vôo porque vocês entendem de vôo. Quando pousam, o

hidravião flutua sobre o desenho, apartado dele, distante, e vocês se tornam observadores, são como fantasmas em seus mundos

alternativos. Podem aprender com os outros aspectos de vocês sem participarem, considerando reais os ambientes em que eles vivem.

Quando descobrem o que precisam descobrir, lembram-se do

hidravião, empurram o manete para a frente e são lançados ao ar, retornam à perspectiva ampla

— Fomos nós que imaginamos... esse desenho? — perguntou

Leslie.

— Há tantas metáforas para vidas no espaço-tempo quanto

assuntos que a fascinam — explicou Pye. — Se vocês gostas sem de fotografia, sua metáfora poderia ter lançado mão de planos de foco. O

foco torna um ponto definido e todos os demais indistintos.

Focalizamos numa determinada existência e pensamos que só existe ela e nada mais. Mas todos aqueles outros aspectos, os distintos, que consideramos sonhos, fantasias e desejos frustrados, são realíssimos também. Somos nós que escolhemos o foco.

— Não é de admirar que sejamos fascinados pela física —

comentei —, com a mecânica quântica, a anulação do tempo. Nada disso é possível, tudo isso é verdadeiro! Não há vidas passadas, nem vidas futuras, concentramo-nos num ponto, acreditamos que esteja se movendo e inventamos o tempo? Nos envolvemos numa vida e

passamos a acreditar que só ela existe? Isso é verdade, Pye?

— Bem perto — respondeu.

— Então podemos seguir voando — disse Leslie —, podemos

ir além do ponto em que deixamos Richard e Leslie jovens em Carmel, pousar na frente deles e descobrir se ficaram juntos. Podemos ver se pouparam aqueles anos que desperdiçamos!

— Você já sabe — comentou Pye.

— Não sabemos! — exclamei. — Fomos puxados... Pye sorriu.

— Eles têm escolhas, também. Um lado deles se assusta e foge de um futuro carregado demais de comprometimento. Num outro lado, tornam-se amigos mas nunca amantes, em outro se tornam amantes mas nunca amigos, em outro casam-se e se divorciam, em outro

resolvem ser almas irmãs um do outro, casam-se e amam-se para sempre.

— Somos como turistas — disse eu. — Não construímos a

paisagem, apenas escolhemos a parte dela que desejamos ver.

— Muito bem — falei —, suponhamos que voem para um

ponto do desenho onde pousamos e impedimos nossa mãe de

conhecer nosso pai. Se não se encontram, como seria possível

nascermos?

— Não, Richard — respondeu Leslie —, isso não nos impediria

de nascer. Nós nascemos naquela parte do desenho em que eles

realmente se encontraram, e isso nada pode mudar.

— Nada, então, é predeterminado? — perguntei. — Não há

destino?

— É claro que o destino existe — respondeu Pye —, mas ele

não o empurra para onde você não quer ir. São vocês que escolhem.

Compete a vocês traçar o destino.

— Então, Pye, gostaríamos de ir para casa — falei. — O que fazemos para voltar?

Ela sorriu.

Voltar para casa é fácil, é como saltar de um tronco flutuante.

Seu desenho é psíquico, mas o caminho de volta é espiritual. Guiem-se pelo amor... — Pye calou-se de repente. — Desculpem a aula.

Gostariam de ir agora?

— Por favor.

— Não! — disse Leslie. Falava a Pye, mas segurava minha mão,

seu jeito de pedir que eu ouvisse o comentário que ia fazer. — Se eu compreendi bem o que você disse, as pessoas que éramos, a caminho de Los Angeles, estão paradas no tempo. Podemos retornar a elas a qualquer momento que quisermos.

— Claro que podemos — retruquei —, mas no momento

seguinte vem nossa explosão de raios cósmicos e pronto, retornamos aqui!

— Não — discordou Pye. — No instante em que vocês voltam

ao hidravião, um milhão de variáveis se alteram, e qualquer uma dessas variáveis impedirá que o fato se repita. Já querem ir?

— Não — insistiu Leslie. — Quero aprender aqui, Richie,

quero compreender! Se só temos uma oportunidade em um trilhão, e se a oportunidade é esta, devemos ficar!

— Pye, se ficarmos, podemos nos machucar, descambar para

alguma outra época, podemos nos ferir, embora sejamos fantasmas? —

perguntei.

— Podem escolher isso, se assim desejarem — respondeu.

— Escolher isso? — A resposta me pareceu perigosa. Tenho

uma atitude de racionalidade em relação às minhas aventuras. Voar para dentro do inteiramente desconhecido não é aventura, é loucura.

Virei-me para minha mulher, um pouco nervoso. — Meu amor, acho que seria melhor voltarmos.

— Ah, Richie, quer mesmo abrir mão dessa oportunidade? Não

foi sobre isso que você sempre leu, não foi o fascínio de toda a sua vida, vidas simultâneas, futuros alternativos? Pense no que

aprenderíamos! Não vale a pena correr um certo perigo?

Suspirei. O passado de Leslie é, todo ele, feito de escolhas

corajosas em busca da verdade e de princípios. Ela acenava para o explorador que havia em mim.

— Vamos, minha querida — concordei. — Está certo. A

atmosfera estava carregada de riscos subestimados. Sentia-me como um aluno de aeroclube antes de uma aula de acrobacias lentas sem cinto de segurança.

— Pye, afinal de contas, quantos aspectos de cada um de nós

existem? — perguntei.

Ela riu, olhou pela janela do hidravião para o desenho lá

embaixo.

— Quantos você imagina existirem? Não há como contar.

— Todo aquele desenho nos representa? — espantou-se Leslie, atônita. — Até onde vemos, até onde podemos chegar, o desenho representa nossas escolhas!

Pye anuiu com a cabeça.

Ainda nem começamos, pensei, e já é difícil acreditar.

— E as outras pessoas, Pye? Quantas vidas podem existir no

universo?

Ela me olhou, perplexa, como se não compreendesse minha

pergunta.

— Quantas vidas no universo, Richard? — perguntou. — Uma.

5

— Tem certeza de que não há um mapa? — perguntei. Pye

sorriu. — Claro.

Grande parte da atividade aeronáutica consiste na leitura de

cartas, pensei. Põe-se um pontinho em nosso papel: é ali que se está.

Outro ponto: é para ali que se quer ir. Entre os dois, uma torrente de ângulos, cálculos de rumo e de tempo. Agora, numa região infinita que nunca tínhamos visto, a bússola não funcionava, e não dispúnhamos de uma carta.

— Seu guia aqui é a intuição — avisou Pye. — Um nível em

você sabe tudo o que há para saber. Encontre esse nível peça para ser guiado e confie em que será conduzido aonde mais precisa ir. Tente.

Leslie fechou os olhos imediatamente, e logo relaxou a meu lado, enquanto voávamos fazendo todo o possível para seguir as instruções.

O terreno desdobrava-se sereno, sob nós, nossa estranha passageira mantinha-se em silêncio, e minha mulher estava tão quieta que dava a impressão de haver adormecido.

— Vire à direita — disse Leslie baixinho, por fim. Não me

informou que descrevesse uma curva brusca ou suave, nem quartos graus.

Preferi fazer a curva suavemente. Virei o manche e o hidravião começou a se inclinar graciosamente.

— Basta isso... — disse ela, após um instante. As asas

estabilizaram-se outra vez.

— Desça uns quinhentos pés.

Diminuí a velocidade e nos aproximamos um pouco mais das

ondas.

Isso não é tão estranho assim, pensei. Os psíquicos quando

tentam recordar outras vidas buscam o caminho sentindo o que parece ser o certo, transpondo paredes, passando por portas, até chegarem.

Por que julgar esquisito que esse mesmo poder seja usado para conduzir o Seahawk, para levá-lo a localizar nossas vidas alternativas que o guia interior desejava que encontrássemos? E se não der certo, o que temos a perder?

— Para a direita, outra vez — orientou Leslie. E logo a seguir:

— Para a frente. Desça mais quinhentos pés.

— Com isso vamos ficar bem junto da água — repliquei. Ela

assentiu, ainda de olhos fechados.

— Prepare-se para amerissar.

Não houvera mudança alguma lá embaixo: uma complexidade

infinita até onde a vista alcançava. Turbilhões iridescentes, interseções e paralelas cediam lugar a fusões, encontros e divergências, que passavam de tons pastéis ao negro e, depois, para coruscações de prata.

Sobre tudo isso refulgia o mar cristalino daquele mundo estranho.

Virei-me para Pye, mas tudo que obtive como resposta foi uma

expressão que indicava “espere e verá”.

— Vire à direita — disse Leslie — ...agora estabilize de novo.

Estamos quase chegando. Um pouco para a esquerda... foi demais...

um pouquinho à direita... Desligue o motor, pouse!

Desliguei o hidravião, e a quilha tocou as ondas imediatamente.

Leslie abriu os olhos ao escutar o espadanar da água, e ficou tão atenta quanto eu, enquanto o mundo se dissolvia em borrifos. O Seahawk desapareceu, e com ele, Pye. Leslie e eu nos precipitamos, juntos, num crepúsculo dourado, passando por árvores numa margem de rio,

atravessando as paredes de uma velha casa de pedra.

Paramos na sala de estar, baça e cinzenta. Teto baixo, uma

lareira num canto, soalho velho de tábuas corridas, um caixote de laranjas fazendo as vezes de mesa, um castigado piano de armário encostado na parede. Até a luz naquela sala era cinzenta.

Numa cadeira antiga, à frente do piano, sentava-se uma moça

magra. Tinha os cabelos louros e compridos, as roupas surradas. Á

estante de música diante dela estava cheia de grossos volumes de peças de Beethoven, Bach, Schumann, Brahrns. Ela tocava, de cor, uma sonata de Beethoven, e do instrumento quase aos pedaços emanava uma música maravilhosa.

Leslie observava tudo isso à beira das lágrimas.

— É minha casa — sussurrou. — A casa em Upper Black

Eddy! Richie, aquela sou eu!

Olhei, assombrado. Minha mulher me contara que a família não

tinha muito o que comer quando na sua juventude, mas aquela moça estava à beira da inanição. Não era de admirar que raramente Leslie voltasse os olhos ao passado. Se o meu tivesse sido tão triste, tampouco eu gostaria de relembrá-lo.

A moça não se virou, continuando a tocar como se estivesse no céu.

Uma mulher surgiu na porta da cozinha. Prestou atenção à

música, com a testa franzida de preocupação. Trazia na mão um envelope aberto. Era uma mulherzinha de traços bonitos, porém tão magra e mal vestida quanto a moça.

— Mamãe! — murmurou Leslie. — Tão jovem, tão bonita! —

Mordeu o lábio para reprimir um soluço.

A mulher esperou a música terminar.

— Meu bem, isso é lindo, é muito bonito mesmo, e tenho

orgulho de você — disse às costas da moça, balançando a cabeça com tristeza. — Sei que se esforça muito. Mas isso não tem futuro...

— Mãezinha, por favor...

— Você precisa ser realista — prosseguiu a mãe. — Há muitos

pianistas. Você lembra o que o pastor lhe disse, que a irmã dele nunca conseguiu viver disso. E depois de tantos anos dedicados à escola!

— Ah, mamãe! — A moça levantou os braços, exasperada. —

Não venha com essa história da irmã do pastor de novo! Será que ninguém pára para pensar que a irmã do pastor é péssima pianista?

Que ela não consegue ganhar a vida com o piano porque é horrível?

A mãe não deu atenção às suas palavras.

— Sabe quantos anos você terá de estudar no conservatório?

Sabe quanto isso custa?

A moça endureceu o semblante, olhou firme para as partituras, assentiu com determinação.

— Sei exatamente quanto custa. Tenho três empregos

atualmente, mamãe, e vou conseguir o dinheiro.

A mulher suspirou.

— Não fique zangada comigo, meu bem. Só estou querendo

ajudar. Não quero que você desperdice essas oportunidades

maravilhosas, como eu fiz, para depois passar a vida toda se

arrependendo. Mandei sua fotografia para Nova York porque sabia que essa poderia ser a sua salvação. O que importa é que você ganhou! Eles aceitaram você! — Colocou o envelope junto das partituras. — Pelo menos dê uma olhada. Aqui está sua oportunidade de se transformar em modelo de uma das maiores agências de Nova York, e acabar com essa luta sem fim. Trabalhar como garçonete, fazendo faxinas em casas de família, se matando de trabalhar!

— Não estou me matando de trabalhar!

— Olhe só para você! Está magra como um palito. Pensa que

pode continuar assim por muito tempo, fazendo toda a semana da faculdade em dois dias, indo e voltando de Filadélfia porque não tem dinheiro para ficar lá mais de uma noite por semana? Não vai agüentar muito tempo. Só tem 17 anos e está exausta! Por que não dar ouvidos à razão?

A moça manteve-se quieta, em silêncio. A mãe olhava-a,

balançando a cabeça, atônita.

— Qualquer moça adoraria ser modelo, e você quer desperdiçar

essa oportunidade! Meu bem, ouça. Tente, durante cerca de um ano, economize, e depois poderá continuar com o piano, se ainda quiser.

A moça pegou o envelope, devolveu-o à mãe, por cima do

ombro, sem olhar.

— Não quero ir para Nova York — disse, tentando controlar a

raiva. — Não me interessa se ganhei ou não. Não quero ser modelo. E

não me importa dar duro se for preciso para fazer o que gosto.

A mãe pegou a carta, já sem paciência.

— Será que esse piano é tudo em que você consegue pensar?

— É!

A moça abafou com as mãos qualquer possibilidade de diálogo,

enchendo a sala com os sons que lia nas páginas à sua frente. Seus dedos ora eram borboletas, ora se transmudavam em aço. Com braços tão finos, pensei, de onde ela tira tanta força?

A mãe observou-a por um momento, tirou a carta do envelope,

deixou-a aberta sobre o caixote de laranjas e saiu pela porta dos fundos.

Mas a moça continuou a tocar. No dia seguinte seria o recital em Filadélfia. A música teria de ser perfeita e magnífica. Na madrugada seguinte ela acordaria às quatro, para começar uma viagem de setenta quilômetros, seis horas a pé, de ônibus e de bonde. Teria aulas o dia inteiro e tocaria no recital de noite.

Depois dormiria na estação rodoviária, até a hora de voltar às aulas no dia seguinte, para economizar o dólar que pagaria numa pousada.

Leslie deixou-me de repente, indo postar-se ao lado da moça,

que não lhe deu atenção.

Olhei, fascinado, para as partituras no piano. Como era estranho, pensei! Eram novas. São os mesmos livros... cujas páginas amareladas tenho virado em nosso piano atualmente.

Por fim a moça virou-se para Leslie — um rosto pálido c belo, de traços finos como os da mãe. Os olhos azuis falseavam, ressentidos.

— Se você é da agência de modelos — disse, prestes a

extravasar a fúria —, a resposta é não. Obrigada, mas não.

Leslie sacudiu a cabeça.

— Não sou da Conover.