Um por Richard Bach - Versão HTML

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A moça olhou-a durante um longo instante, depois pôs-se de pé, boquiaberta e estupefata.

— Você... sou eu! — arquejou. — Você sou eu! Não é? Minha

mulher anuiu com a cabeça.

A moça continuou a olhá-la.

— Mas você está crescida!

Como estivera assustada por trás daquela rude independência!

Agora, punha-se de pé, cercada por sua miséria e seus sonhos, os olhos voltados para o futuro. Olhou em silêncio para minha mulher, e finalmente a pétrea muralha de resolução se rompeu.

Caiu de novo na cadeira, enterrando o rosto nas mãos.

— Ajude-me, — gritou. — Por favor, ajude-me!

6

Minha mulher ajoelhou-se ao lado da criança que ela fora,

olhando para ela e falando com mansidão.

— Está tudo bem — disse à moça, consoladora. — Vai dar

tudo certo. Você é uma moça de muita sorte. É mesmo!

A moça empertigou-se, olhou para ela sem acreditar no que

ouvia, e afastou as lágrimas com as mãos.

— Eu, de sorte? Você chama isso de sorte? — Quase começou

a rir, tomada de esperança, apesar dos soluços.

— Sorte, talento, privilégio. Você descobriu aquilo de que gosta!

Pouquíssimas pessoas descobrem isso na sua idade. Algumas, nunca.

Mas você já sabe.

— Música.

Minha mulher concordou.

— Você tem muitos dons: é inteligente e talentosa, ama a

música e possui uma força de vontade inabalável. Nada é capaz de detê-la!

— Mas por que preciso ser tão pobre? Se ao menos... Este piano é uma... Escute! — Dedilhou o teclado quatro vezes, oito notas em oitavas velocíssimas. Até eu podia perceber que havia cordas quebradas dentro da caixa do instrumento. — Duas teclas estão mudas, e não temos dinheiro nem para... — A moça bateu com um punho nas teclas amareladas. — Por quê?

— Para que você possa provar que a força de vontade, o amor e o trabalho duro podem tirá-la da pobreza e do desespero. E algum dia, talvez, poderá transmitir isso a alguma outra jovem que viva nas mesmas dificuldades. E quando ela disser, “Ah, para você é fácil dizer isso, porque é uma pianista famosa, é rica, mas eu... Não tenho nem o suficiente para comer, e preciso me exercitar nessa porcaria de. .”, você poderá transmitir a sua experiência, ajudar essa jovem a ir em frente.

A moça pensou um pouco.

— Estou choramingando, e nem sei por quê. Detesto

choramingações.

— Não há nada demais em dasabafar comigo — disse Leslie.

Eu vou conseguir ir em frente? Vou ter sucesso? —

perguntou.

— As escolhas são suas, mais do que você suspeita. — Leslie

lançou-me um olhar de soslaio. — Se nunca abrir mão daquilo que lhe é importante, se isso for tão importante que você se disponha a se esfalfar para consegui-lo, prometo-lhe uma vida cheia de sucessos.

Uma vida difícil, porque fazer alguma coisa melhor do que a maioria não é fácil, mas uma vida ótima.

A moça olhou-a um tanto perplexa.

— Eu poderia ter uma vida fácil e ruim?

— Essa também é uma escolha.

Um brilho de malícia luziu-lhe nos olhos.

— E uma vida fácil e alegre? Ambas riram.

— Talvez — disse Leslie. — Mas não escolheria uma vida fácil, não é?

A moça olhou para ela, concordando.

— Quero fazer exatamente o que você fez.

— Não — respondeu Leslie, sacudindo a cabeça com um

sorriso contristado. — Não creio que possa. Você deve seguir seu próprio rumo, traçar seu próprio caminho.

— Você é feliz?

— Sou!

— Então quero fazer o que fez.

Leslie examinou a moça por um momento, resolveu contar o

pior:

— Nem sempre minha vida foi fácil. Houve vezes em que foi

tão difícil que perdi a vontade de viver. Muitas vezes. Algumas vezes tentei acabar com a vida...

Lágrimas repentinas brotaram nos olhos da moça.

— Eu também!

— Eu sei — disse Leslie. — Sei como é difícil para você

permanecer viva.

— Mas você conseguiu sair disso. Como?

Leslie levantou-se e virou-se, com vergonha de encará-la.

— Aceitei o emprego com a Conover. Desisti do piano. A moça

também se levantou, atônita, incapaz de acreditar.

— Mas, como? E... e aquela história de amor e força de vontade?

Leslie virou-se novamente.

— Sei como você está vivendo em Filadélfia, dormindo na

rodoviária, usando o dinheiro da pousada e da comida para comprar músicas. Mamãe teria um troço se soubesse. Você passa o tempo todo à beira do desastre.

A moça concordou.

— Fiz a mesma coisa. Foi então que perdi um dos empregos e

caí no abismo... Não consegui achar outro trabalho logo, nem

passando fome consegui manter a situação. Por isso, cheguei à conclusão de que mamãe estava certa.

“Resolvi que podia tirar um ano, trabalhar dia e noite, poupar tudo quanto pudesse, resolvi que poderia ganhar dinheiro suficiente para obter meu mestrado... — A frase acabou em lembranças

melancólicas.

— Mas você não fez nada?

— Não... fiz muito. O sucesso me atingiu como uma

tempestade: propostas para ser modelo, depois televisão. Em um ano eu estava em Hollywood assinando contrato com a Twentieth

Century-Fox, para fazer filmes. Mas eu fazia o que não gostava, e por isso não parecia sucesso. Por outro lado, eu podia agora ajudar minha família, de modo que nunca conseguia justificar o egoísmo de

abandonar tudo e voltar à minha música. Mas nunca resolvi ficar, eu só ia ficando... uma decisão passiva. Mais tarde, entendi que estivera tentando, sempre, abandonar aquele mundo de espetáculos. Sabotei a carreira tantas vezes que nem merecia tê-la.

Seguiu-se um longo silêncio. As duas pensavam nas implicações daquelas palavras.

— O sucesso foi uma vida ruim, acredite ou não — continuou

Leslie. — Eu sempre achava que não tinha nada a ver com aquilo, que eu era uma impostora. A maioria das pessoas que têm sucesso rápido sente-se assim, mas eu não sabia disso na época, sentia-me só. Não podia dizer a ninguém. Como poderia me queixar das coisas boas que me estavam acontecendo? — Leslie suspirou. — É isso. Quando

abandonei a música, tive aventura, desafio, emoção, aprendi muito...

A moça interrompeu-a admirada.

— Mas o que há de errado com isso? Não me parece uma coisa

ruim!

— Eu sei — anuiu Leslie. — Por isso era tão difícil

compreender, era tão difícil sair. No entanto, anos depois, entendi que ao renunciar à música renunciei à oportunidade de uma vida tranqüila e feliz, fazendo aquilo de que realmente gostava. Renunciei àquela vida durante muito tempo, pelo menos.

Fiquei surpreso ante essas palavras. Leslie nunca me contara. Só agora eu percebia o que ela poderia ter sido, o que ela havia posto de lado ao saltar da música para o gelo de sua carreira em Hollywood.

A moça parecia inteiramente confusa.

— Bem, isso aconteceu com você, mas aconteceria comigo? O

que devo fazer?

— Só há uma pessoa no mundo capaz de responder essa

pergunta: você mesma. Descubra o que realmente deseja e faça isso.

Não passe vinte anos de sua existência vivendo passivamente, quando pode decidir agora mesmo seguir o rumo que deseja. O que você realmente quer?

A moça não titubeou.

— Quero aprender. Quero ser a melhor no que faço. Quero dar

ao mundo alguma coisa bela!

— Você há de fazer isso. Que mais deseja?

— Quero ser feliz. Não desejo ser pobre.

— Sei. O que mais? A moça animou-se.

— Quero acreditar que há uma razão para viver, uma coisa que

faça sentido, um princípio que me ajude a suportar os momentos difíceis e também os bons. Não se trata de religião, porque já tentei, tentei mesmo, e em vez de respostas, tudo que escuto é “Tenha fé, minha filha.”

Leslie franziu o cenho, recordando-se.

— E, além disso — continuou a moça, subitamente acanhada

—, quero acreditar que há no mundo uma outra pessoa tão solitária quanto eu. Quero acreditar que vamos nos encontrar, e que... vamos amar um ao outro, e que nunca mais estaremos sozinhos!

— Escute — falou minha mulher, olhando-a nos olhos com

muita intensidade. — Tudo o que você disse, tudo aquilo em que quer acreditar, já é verdade. Você poderá não encontrar alguma coisa durante algum tempo, e até poderá demorar mais para achar outras coisas, mas isso não impede que sejam verdadeiras neste exato instante!

— Até uma pessoa para amar? Haverá mesmo alguém para

mim? Ele também é verdade?

— Ele se chama Richard. Quer conhecê-lo?

— Conhecê-lo agora? — espantou-se.

Leslie estendeu a mão da moça para mim. Saí de trás dela,

satisfeito com o fato de aquele aspecto de uma pessoa tão querida desejar me conhecer.

Ela me olhou, aturdida.

— Olá — saudei-a, um pouco perturbado também. Como era

estranho ver aquele rosto, tão diferente do da mulher que eu amava, e ao mesmo tempo tão igual!

— Você parece muito... assim... muito adulto para mim. — Ela

achara, por fim, uma maneira delicada de dizer velho.

— Na época em que me conhecer, vai gostar de homens mais

velhos — respondi.

— Não amo homens mais velhos! — disse minha mulher, passando o braço em volta de minha cintura. — Eu amo este homem mais velho...

A moça olhou-nos, assim abraçados.

— Não sei se está direito perguntar, mas vocês são realmente

felizes juntos? — Por seu tom, percebia-se que ela achava difícil acreditar nisso.

— Mais felizes do que você consegue imaginar — respondi

— Quando vou conhecê-lo? Onde? No conservatório? Deveria

eu dizer-lhe a verdade? Que isso levaria mais vinte anos, um casamento desfeito, outros homens? Que antes de nos conhecermos, aquela jovem, ao lado de seu velho piano, teria de viver tudo quanto já vivera e mais a metade? Olhei para minha mulher.

— Ainda vai levar bastante tempo — disse ela, amável. -Ah.

Menina valente, pensei. Ainda vai levar bastante tempo, devia ter feito com que ela se sentisse mais solitária que nunca. A moça voltou-se para mim.

— E o que você resolveu ser? — perguntou. — Também é

pianista?

— Não. Sou aviador...

A moça olhou para Leslie, pesarosa.

— ...mas estou aprendendo a tocar flauta.

Era visível que flautistas amadores não a impressionavam. Ela deixou a questão de lado, resolvida a procurar meu lado mais

emocionante, e aproximou-se de mim.

— O que pode me ensinar? O que é que você sabe?

— Sei que todos nós estamos na escola. Alguns dos cursos

obrigatórios são: idade, aparência, relações com outras pessoas, alimentação e moradia — respondi com segundas intenções. Ela sorriu, como que culpada, percebendo que eu tomara conhecimento de sua vida tão pobre. — Sabe o que sei mais?

— O quê?

— Nem discussões, nem argumentos, nem fatos modificam seu

modo de pensar. Para nós é fácil resolver seus problemas, todo problema é simples depois de o ter solucionado. Mas nem mesmo seu futuro ser, que se materializa diante de você e lhe diz, palavra por palavra, o que você há de fazer nos próximos trinta anos, há de alterar sua maneira de pensar. A única coisa capaz de alterá-la é seu próprio entendimento das coisas, individual, pessoal e exclusivo!

Os olhos da moça brilharam.

— Quer que eu aprenda isso com você? — Riu. — Escutei isso

a vida inteira. Toda minha família me acha obstinada e esquisita.

Achariam péssimo ouvir alguém me incentivar.

— Por que acha que viemos vê-la? — perguntou Leslie.

— Por que estão com medo que eu me mate? — perguntou a

moça. — Porque gostariam que algum eu futuro de vocês os tivesse visitado nessa idade para dizer “Não se preocupem, vocês vão

sobreviver”. Não é isso? Leslie concordou.

— Exatamente.

— Mas, em vez disso, sou eu quem lhes diz: Não se preocupem

— continuou a moça. — Prometo sobreviver. Mais que isso, prometo que ficarão felizes por eu ter vivido, prometo que sentirão orgulho de mim!

— Tenho orgulho de você! — disse Leslie. — Nós dois temos.

Minha vida esteve em suas mãos, e você não me deixou morrer, não desistiu quando tudo ao redor era desespero. Talvez não tenhamos vindo para lhe ensinar coisa alguma, talvez tenhamos vindo só para lhe agradecer por ter aberto o caminho. Por possibilitar a Richard e a mim encontrarmos um ao outro e sermos felizes.Talvez tenhamos vindo para lhe dizer que a amamos.

O mundo começou a tremer à nossa volta. O cenário cinzento

ficou borrado, estávamos sendo arrastados.

Ela pressentiu que íamos embora, afastou as lágrimas dos olhos.

— Vou revê-los?

— Esperamos que sim — respondeu Leslie, e agora era ela

quem soluçava.

— Obrigada por virem! — gritou a moça. — Obrigada!

Devemos ter desaparecido para ela, pois em meio à névoa nós a vimos encostar-se ao velho piano, de cabeça baixa. Depois sentou-se na cadeira e os dedos começaram a mover-se sobre as teclas.

7

A sala tosca desapareceu em meio ao espadanar da água e do

ronco do motor.

Pye largou o manete, recostou-se no banco de trás e ficou a nos observar, toda solidariedade

— Ela teve uma vida tão difícil! — lamentou Leslie, enxugando os olhos. — Era tão solitária! É justo que recebamos a recompensa da coragem e do esforço dela?

— Lembre-se de que foi ela quem escolheu aquela vida —

retrucou Pye. — E escolheu as recompensas, também.

— Que quer dizer? — indagou Leslie.

— Ela não faz parte de você agora?

Claro, pensei. O prazer que a música lhe proporcionava, sua

personalidade obstinada, até mesmo seu corpo, trabalhado e modelado por anos de decisões... Por acaso tudo isso não estava ali a nosso lado, naquele exato momento?

— Acho que sim — respondeu Leslie. — Mas fico pensando o

que terá acontecido a ela...

— Aconteceu a ela tudo — disse Pye. — Ela ficou com a

música e não ficou, viajou para Nova York e não viajou, é uma famosa concertista, matou-se, é professora de matemática, é uma estrela de cinema, é uma ativista política, é embaixadora na Polônia. A cada reviravolta da vida de uma pessoa, a cada vez que ela toma uma decisão, torna-se geradora de todas as suas pessoas alternativas que se seguem.

Você é uma das filhas dela... A única filha dela na sua vida, Leslie, no mundo que você conhece.

Estabilizei o hidravião a algumas centenas de pés acima do nível do mar, e puxei o manete para a velocidade de cruzeiro. Não havia necessidade de uma altitude maior quando o mundo inteiro era uma pista de pouso.

Lá embaixo, os desenhos passavam, velozes, trilhas e cores

intermináveis sob a água.

— Complicado, não? — perguntei.

— É como uma tapeçaria — disse Pye. — Fio por fio, é simples.

Mas tente tecê-la a metros... As coisas se emaranham.

— Sente falta das pessoas que já foi? — perguntei à nossa guia.

— Sente falta de nós?

Pye sorriu.

— Não vivo no espaço-tempo. Estou sempre com vocês. Como

sentir falta de vocês se nunca estamos afastados?

— Mas, Pye, você tem um corpo — insisti. — Pode não ser

exatamente igual ao nosso, mas tem uma determinada dimensão, um certo aspecto...

— Não, não tenho corpo. Vocês percebem minha presença, e

acham melhor percebê-la como um corpo. Poderiam ter escolhido inúmeras outras percepções. Todas são úteis, mas nenhuma verdadeira.

Leslie virou-se para olhá-la.

— Por exemplo, que percepção superior poderíamos ter

escolhido?

Virei-me também e vi uma estrela branco-azulada de pura luz,

um arco voltaico na cabine. O mundo tornou-se incandescente.

Viramos o rosto com um arranco. Fechei os olhos com força,

mas aquele clarão persistiu, cauterizante. A seguir, desvaneceu-se. Pye tocou nossos ombros e pudemos vê-la de novo.

— Desculpe — falou. — Como fui descuidada! Vocês não

podem ver-me como eu sou, não podem tocar-me como sou. Sequer podemos falar com palavras e dizer a verdade. A linguagem não consegue decrever... Para mim dizer eu e não pretender dizer vocês-nós-todos-espírito-Um é o mesmo que falar mentiras, mas não utilizar palavras equivale a perder essa oportunidade de conversarmos. É

melhor mentiras bem-intencionadas do que o silêncio, ou não

mencionar coisa alguma...

Meus olhos ainda estavam ofuscados pela luz.

— Meu Deus, Pye, quando vamos aprender a fazer isso?

— Vocês já são isso — riu ela. — O que tiveram de aprender

no espaço-tempo foi manter suas luzes apagadas!

Fiquei mais perplexo do que nunca, e um tanto nervoso por

depender daquela criatura. Por mais simpática que se mostrasse, ela controlava nossas vidas.

— Pye, quando quisermos voltar dessas pessoas alternativas,

essas que visitamos, como poderemos fazer o hidravião se mover para nos levar embora? Como será possível estarmos em dois lugares ao mesmo tempo?

— Vocês não estão em dois lugares ao mesmo tempo, estão em

toda parte ao mesmo tempo. Não precisam do hidravião ou dos

desenhos. O que ocorre é que vocês lhes dão forma através da

imaginação. E seu mundo adquire a forma que sua imaginação lhe dá.

— Imagino levar minha mão ao manete? Como posso levar a

mão ao manete se estou inteiramente em outro mundo? Se você não o tivesse empurrado para a frente, estaríamos presos em 1952!

— Não. É você que governa seus mundos, não são eles quem o

governam. Gostaria de tentar outra vez?

Leslie pôs a mão em meu joelho e assumiu os controles.

— Experimente, querido. Feche os olhos, diga-me para onde

devo voar.

Recostei-me no assento e fechei os olhos.

— Siga em frente — comandei, sentindo-me um pouco bobo.

Poderia perfeitamente ter dito “Suba constantemente”.

O motor embalou-nos durante algum tempo. Então, embora eu

nada visse, surgiu um súbito propósito na escuridão.

— Vire à direita — falei. — Bem para a direita.

Senti o avião inclinar-se para o lado. A seguir, vi fios luminosos, um fino feixe de névoa que se estendia verticalmente, atravessado por um outro, horizontal. Estávamos à esquerda do ponto em que se cruzavam, aproximando-nos do centro.

— Certo. Continue assim.

A cruz começou a descer, pôs-se a entrar em foco.

— Desça um pouco. Mais à esquerda...

Agora a imagem em minha mente era clara como os ponteiros

em uma aproximação por instrumentos, e tão precisos quanto eles.

Como nossa imaginação parece real!

— Desça um pouco. Estamos em trajetória de aproximação,

bem rumo ao alvo. Um pouco para a esquerda. Devemos estar quase pousando, não é?

— Faltam alguns pés — respondeu Leslie.

— Certo. Agora. Desligue o motor. — Ouvi as ondas roçarem a

quilha de nosso barco voador. Ao abrir os olhos, vi o mundo

desaparecer, envolto em borrifos. Nesse instante tudo se transformou num negrume móvel, baças formas prateadas que estremeciam na

escuridão, e por fim paramos. Ar livre, noite.

Achávamo-nos num vasto campo de concreto... uma base aérea!

Luzes azuis de rolagem nas extremidades, pistas a distância, caças a jato parados na área de estacionamento, formas prateadas ao luar.

— Onde estamos? — sussurrou Leslie.

Os caças, fileiras após fileiras, eram Sabrejets norte-americanos F-86F. Imediatamente percebi onde estávamos.

— Esta é a base aérea Williams, no Arizona. Escola de com bate aéreo. Estamos em 1957. Eu costumava vir para aqui de noite, só para ficar perto dos aviões.

— Por que estamos sussurrando? — perguntou ela. Naquele

instante, um jipe da polícia da Aeronáutica fez uma curva ao final de uma fileira de aparelhos, patrulhando, e veio em nossa direção.

Diminuiu a marcha, contornou um caça estacionado à nossa direita e parou.

Não podíamos ver o policial, mas escutávamos sua voz.

— Com licença, senhor. Quer fazer o favor de mostrar sua

identificação?

Alguém respondeu em voz baixa, umas poucas sílabas que não

conseguimos entender.

— É comigo que ele está falando — falei a Leslie. — Eu me

lembro disso...

— Ótimo, senhor. Estamos apenas verificando. Está tudo certo.

Logo depois o jipe deu marcha à ré para se afastar do avião,

engatou uma primeira, roncou e deu a volta do outro lado do caça. Se o motorista nos viu, não deu sinal disso. Antes que pudéssemos nos afastar, os faróis haviam-se transformado em sóis fulgentes a investir em nossa direção.

— CUIDADO! — gritei, mas era tarde demais. Leslie gritou.

O jipe atingiu-nos de frente, atropelou-nos sem um instante de hesitação e desapareceu ao longe, ainda acelerando.

— Ah — falei. — Esqueci-me. Desculpe!

— A gente demora a se acostumar! — respondeu Leslie, sem

fôlego.

Apareceu um vulto no nariz do avião.

— Quem está aí? Você está bem?

O homem usava um traje de vôo de náilon escuro. Ele próprio

parecia um fantasma ao luar. Asas de piloto bordadas no dólmã, distintivo de segundo-tenente.

— Vá você lá — murmurou Leslie. — Vou ficar por aqui.

Balancei a cabeça e abracei-a.

— Estou bem — respondi. — Posso me aproximar, senhor? —

Sorri, achando graça por falar como um cadete depois de tantos anos.

Quem é?

Para que ele precisava fazer aquele tipo de pergunta?

— Tenente, sou o segundo-tenente Bach, Richard D., A-0

Três-Zero-Oito-Zero-Sete-Sete-Quatro!

— É você, Mize? — Ele riu. — O que está fazendo aqui, que

nem um bobalhão?

Phil Mizenhalter, pensei. Grande sujeito! Daqui a dez anos

estará morto, abatido com seu F-105 no Vietnã.

— Não sou Mize — respondi. — Sou Richard Bach, sou você

vindo do futuro, trinta anos a contar desta noite.

Ele perscrutou a escuridão.

— Você é quem?

Se vamos fazer isso mais vezes, pensei, é melhor nos

acostumarmos a essa pergunta.

— Sou você, tenente. Sou você com um pouco mais de

experiência. Sou aquele que cometeu todos os erros que você cometeu, e que não se sabe como, sobreviveu.

Ele se aproximou um pouco, inspecionando-me na escuridão,

ainda achando que se tratava de uma brincadeira.

— Eu vou cometer erros? — exclamou. — Difícil de acreditar!

— Chame-os de experiências inesperadas de aprendizado.

— Não vou cometer erros se você me avisar — retrucou.

— Você já cometeu um erro enorme. Ingressou na carreira

militar. O melhor a fazer seria dar o fora agora mesmo. O melhor, não.

O sensato.

— Ah! — exclamou ele. — Acabei de me formar na escola de

vôo! Ainda não consigo acreditar que sou um piloto da Força Aérea, e você vem com essa história de dar o fora. Muito boa, essa! O que mais sabe?

— Muito bem. No passado de que me lembro, achei que estava

usando a Força Aérea para aprender a voar. Na verdade, era a Força Aérea que estava me usando, e eu não sabia.

— Mas eu sei! — replicou ele. — Acontece que gosto de meu

país, e se for preciso lutar para mantê-lo livre, quero participar da briga!

— Lembra-se do tenente Wyeth? Fale-me sobre o tenente

Wyeth. — Ele me olhou de soslaio, contrafeito.

— O nome dele era Wyatt — corrigiu. — Instrutor de

treinamento preliminar de vôo. Alguma coisa aconteceu a ele na Coréia, e ficou meio doido. Diante de toda nossa turma, escreveu em letras grandes no quadro: ASSASSINOS! Depois, virou-se, olhou-nos de cara feia e disse: “São vocês!” O nome dele era Wyatt.

Encostei-me na asa do avião.

— Sabe o que vai aprender em seu futuro, Richard? Vai

descobrir que o tenente Wyatt era a pessoa mais sã que você conheceu na Força Aérea.

Ele sacudiu a cabeça, triste.

— Sabe, de vez em quando fico pensando como seria um

encontro meu com você, como seria uma conversa com o homem que serei daqui a trinta anos. Você não é como ele De jeito nenhum! Ele se orgulha de mim!

— Também me orgulho de você. Mas não pelos motivos que

imagina. Se me orgulho, é porque sei que você está fazendo seu trabalho da melhor maneira que é capaz. Mas não me orgulha o fato de que o melhor que sabe fazer é se apresentar como voluntário para matar pessoas, metralhar, bombardear e lançar napalm sobre aldeias cheias de mulheres e crianças aterrorizadas.

— Nunca vou fazer isso! O que vou fazer é tomar parte em

combates aéreos, em missões de interceptação e defesa.

Fiquei em silêncio.

— Bem, a defesa aérea é o que eu gostaria de fazer... Continuei a olhá-lo, no escuro.

— Ora, estou servindo a meu país e farei qualquer coisa que...

— Você pode servir a seu país de milhares de outras maneiras.

Vamos, por que está aqui, realmente? Será que é suficientemente honesto para pelo menos admitir a verdade para si mesmo?

Ele hesitou por um momento.

— Eu quero voar.

— Você estava aprendendo a voar antes de entrar para a Força

Aérea. Poderia ter voado Piper Cubs e Cessnas.

— Eles não são... rápidos o bastante.

— Não são como os aviões que aparecem nos cartazes de

recrutamento, não é? Os Cessnas não são como os aviões do cinema.

Silêncio.

— Não.

— Então, por que está aqui?

— É uma coisa que tem a ver com alto desempenho... — Ele se

conteve, procurando agora ser o mais honesto possível. — Os caças de combate têm uma atração... Uma coisa relacionada com uma sensação maravilhosa, que nada mais tem, uma sensação de realização!

— Fale-me sobre essa sensação.

— Ela vem de um... um domínio da situação. Quando vôo

nesse aparelho... bem, não estou enfiado na lama até a cintura, não estou preso a mesas ou edifícios, nem a coisa alguma na Terra. —

Então afagou carinhosamente a asa do caça. — Movo-me mais

depressa que o som, a quarenta mil pés de altitude.. Praticamente nenhum outro ser vivo já esteve ali. Alguma coisa dentro de mim sabe que não somos criaturas presas ao chão, diz que nós não temos limites, e é voando num avião desses que quase consigo tomar concreto aquilo que acredito ser verdade. Por acaso, é um caça.

Claro. Fora esse o motivo que me levara a desejar a velocidade, o deslumbramento e o uivo da turbina. Jamais formulara aquilo em palavras, nunca articulara a idéia. Apenas a sentira.

— Detesto quando penduram bombas em aviões — continuou.

— Mas nada posso fazer. Se não fossem as bombas, não haveria um aparelho como esse.

Sem você, pensei, a guerra morreria. Toquei de leve a asa do

caça. Até hoje, considero-o o mais belo avião já construído.

— Lindo — falei. — Isca.

— Isca?

— Os aviões de caça são a isca. Você é o peixe.

— E o que é o anzol?

— O anzol há de matá-lo quando você descobrir. O anzol é o

fato de que você, Richard Bach, um ser humano, é pessoalmente responsável por todo homem, toda mulher e toda criança que virá a matar com esta máquina.

— Eu? Um momento! A responsabilidade não é minha, não

tenho nada a ver com decisões desse tipo. Obedeço a ordens, mas...

— A guerra não é desculpa, a Força Aérea não é desculpa, as

ordens não são desculpa. Cada assassínio o perseguirá até o dia de sua morte, a cada noite você acordará aos gritos, matando cada um deles de novo, sempre, sem parar.

Ele retesou-se.

— Escute, sem a Força Aérea, se formos atacados... Estou aqui para proteger nossa liberdade*.

— Você disse antes que estava aqui porque queria voar, e por

causa da sensação de realização.

— Minha capacidade como piloto protege meu país...

— É isso que os outros também dizem, palavra por palavra. Os

soldados russos, os chineses, os árabes, os soldados sem importância da nação sem importância. Eles aprendem a proclamar que Eles

Confiam em Nós, Defendamos a Pátria Contra Eles. Mas Eles,

Richard, é você.

Sua arrogância desapareceu de repente.

— Lembra-se dos aeromodelos? — perguntou, quase humilde.

— Foram mil aeromodelos, e um pedacinho de mim voou em cada um deles. Lembra-se das árvores em que eu subia, olhando para baixo? Eu era o pássaro, ansioso em poder voar. Lembra-se do primeiro vôo, naquele festival de aviação? Não fui a mesma pessoa durante dias! Aliás, nunca mais fui a mesma pessoa.

— Faz parte do planejamento — respondi.

— Planejamento?

— Assim que você aprendeu a ver, imagens. Assim que

aprendeu a escutar, histórias e hinos. Assim que aprendeu a ler, livros, cartazes, bandeiras, filmes, estátuas e tradições, aulas de história, juramento à bandeira. Há Nós e há Eles. Eles nos farão mal se não formos vigilantes, desconfiados, zangados, se não nos armarmos.

Obedeça a ordens, faça o que mandarem, defenda seu país.

“Estimule a curiosidade dos meninos por máquinas que se

movimentam: automóveis, navios, aviões. Depois, coloque diante deles as mais esplêndidas dessas máquinas maravilhosas e mágicas, num único lugar: nas forças armadas de todo país do mundo. Arraste os motoristas para tanques de milhões de dólares, faça com que os amantes do mar comandem cruzadores nucleares, ofereça aos

candidatos a aviadores, a você, Richard, os mais velozes aviões da história, produzidos em seu próprio país, e você passa a usar esse capacete reluzente, pinta seu nome do lado de fora da carlinga!

“E eles o estimulam: Você t competente mesmo? É resistente mesmo? E

eles o elogiam: Elite! Asas indomáveis! Eles o envolvem em bandeiras, espetam asas em seu bolso, pregam distintivos em seus ombros, penduram em medalhas no peito, apenas porque você faz o que lhe é ordenado.

“Não estou falando de idiotas, Richard, estou falando de você, engolindo a isca e sentindo-se orgulhoso disso. Orgulhoso como um belo marlim azul em seu lindo uniforme azul, fisgado por esse maravilhoso avião, puxado pela linha em direção à sua própria morte, sua própria morte agradecida, orgulhosa, patriótica, honrada, inútil, estúpida. Você vai morrer, lentamente, pregado na cruz de sua própria responsabilidade pessoal.

“E os Estados Unidos não se importarão, a Força Aérea não se

importará e o general que deu as ordens também não se importará. Só você há de se importar, eternamente, com o fato de haver assassinado as pessoas que vai assassinar. Você, elas e as famílias delas. Grande realização Richard...

Virei-me e me afastei, deixando-o junto à asa do caça. Serão as vidas a tal ponto determinadas pela doutrinação, pensei, que não há possibilidade de mudança? Porventura eu mudaria, eu daria ouvidos a mim mesmo se fosse ele?

Ele não levantou a voz, nem gritou. Falou como se não tivesse notado que eu me afastara.

— O que quer dizer quando afirma que sou responsável?

Que sensação esquisita! Eu estava conversando comigo mesmo,

mas aquela mente não era mais minha, não tinha como mudá-la. Só podemos transformar nossas vidas na eternidade in-finitesimal que é o nosso agora. Se nos afastamos um momento daquele agora, já se trata da decisão de outra pessoa!

Esforcei-me por ouvir o que ele dizia.

— Quantas pessoas vou matar?

Retrocedi para ir falar com ele.

— Em 1962, você será mandado à Europa com a 478ª

Esquadrilha Tática de Caças. O episódio será chamado de “a crise de Berlim”. Vai decorar as rotas para dois alvos, um primário e outro secundário. Há uma possibilidade de que, daqui a cinco anos, você lance uma bomba de cinqüenta megatons sobre a cidade de Kiev.

Fiquei a observá-lo.

— A cidade é conhecida principalmente por sua indústria

editorial e cinematográfica, mas o importante para você serão as oficinas ferroviárias no centro da cidade e as fábricas de

máquinas-ferramentas nas cercanias.

— Quantas pessoas...?

— Haverá em Kiev, naquele inverno, 866.000 pessoas, e se você obedecer às ordens, os poucos milhares que sobreviverem a seu ataque desejarão estar mortos.

Oitocentos e sessenta e seis mil pessoas?

— Pavios curtos, o orgulho nacional em jogo, a segurança do

mundo livre. Um ultimato após o outro...

— Eu lançarei... eu lancei a bomba? — Estava muito tenso,

ouvindo seu futuro.

Abri a boca para dizer que não, os soviéticos recuaram, mas

fiquei tonto de raiva. Algum ego alternativo, de um holocausto passado e diferente, agarrou-me pelo pescoço e falou com ferocidade. Era uma voz cortante, rouca, desesperada em sua tentativa de convencê-lo.

Claro que lançou! Não contestei a ordem, tal como você não contestou! Pensei: se estamos em guerra, é o presidente que dispõe de todos os fatos, é ele quem toma as decisões, ele é o responsável. Nem por um instante pensei, até decolar, que o presidente não pode ser responsável pelo lançamento da bomba porque o presidente não sabe pilotar um avião! — Esforcei-me para me controlar, perdido. — O

presidente não distingue uma chave de lançamento de míssil de um pedal de leme, ele não pode ligar o motor, não pode taxiar até a pista...

Sem mim ele seria um idiota inofensivo em Washington, e o mundo permaneceria o mesmo sem a guerra nuclear que ele inventou. Mas, Richard, esse idiota tinha a mim! Como ele não sabia matar um milhão de pessoas, fiz isso para ele! A arma dele não era a bomba, era eu! Na época não juntei os fatos: pouquíssimas pessoas no mundo sabiam fazer essas coisas, e sem nós não seria possível haver guerra alguma!

Destruí Kiev, pode acreditar nisso? Incinerei um milhão de pessoas porque um maluco qualquer... me mandou fazer isso!

O tenente estava boquiaberto, a me olhar.

— Por acaso a Força Aérea ensinou-lhe ética? — sibilei. —

Você algum dia teve um curso chamado Responsabilidade dos pilotos de caças? Nunca teve, nem terá. Tudo o que a Força Aérea lhe disse é que obedecesse a ordens, que fizesse o que lhe era ordenado. A Força Aérea não diz que você deve viver com a sua consciência. Você obedece à ordem de acabar com Kiev, e seis horas depois um sujeito de quem você seria amigo, um piloto chamado Pavel Tchemov, obedece às ordens que ele recebeu e põe fim à existência de Los Angeles. Todo mundo morre. Se você mata a si mesmo quando

assassina os russos, por aue matá-los, então!

— Mas eu... eu prometi obedecer a ordens!

No mesmo instante, o louco largou meu pescoço, desesperado,

e desapareceu. Tentei raciocinar de novo com o tenente.

— O que hão de fazer com você se não obedecer às ordens?

Dirão que não é um profissional? Submeterão você à corte marcial?

Vão matá-lo? Isso seria pior do que o que fará à cidade de Kiev?

Durante um longo momento, ele me olhou em silêncio.

— Se você pudesse me dizer qualquer coisa — falou, por fim

—, e eu prometesse lembrar-me do que falou, o que me diria? Que está envergonhado de mim?

Dei um murro na asa do avião.

— Ah, garoto, seria muito mais fácil para mim se você

simplesmente teimasse, insistisse em que está com a razão ao obedecer a ordens. Por que precisa ser tão cordato?

— Porque sou o senhor!

Encostei-me no metal frio e enterrei o rosto nas mãos. Senti um toque no ombro, e levantando o olhar vi o brilho de cabelos dourados ao luar.

— Apresenta-me? — disse Leslie. As sombras revelavam uma

feiticeira na noite.

Empertiguei-me logo, captando apenas um vislumbre do que ela

pretendia.

— Este é o tenente Bach. Quero apresentá-lo a Leslie Parrish.

Sua companheira, sua futura mulher, aquela por quem esteve

procurando, aquela que você encontrará ao fim de muitas aventuras, no começo da serenidade feliz.

— Como vai? — cumprimentou ela.

— Eu... ah... Como vai? — respondeu ele, hesitante. — Você

disse... minha mulher?

— No tempo oportuno — respondeu Leslie.

— Tem certeza de que se refere a mim?

— Existe, neste momento, uma Leslie jovem — disse ela —

que está começando a carreira, imaginando quem será você, onde está, quando vão se encontrar...

O rapaz a encarava com assombro. Durante anos sonhara com

ela, a amara, soubera que em algum lugar escondido do mundo ela estava à sua espera.

— Não posso acreditar nisso. Você veio de meu futuro?

— Um de seus futuros — retrucou Leslie.

— Mas como podemos nos encontrar, onde você está agora?

— Não poderemos nos encontrar enquanto você estiver na

Força Aérea! Num determinado futuro, jamais nos encontraremos.

— Mas se somos companheiros um do outro, devemos nos

encontrar! Os companheiros nascem para passar a vida juntos!

Leslie recuou um pouco, afastando-se dele.

— Talvez não.

Nunca esteve tão linda como esta noite, pensei. E como ele

anseia por saltar no tempo para encontrá-la!

— Jamais pensei que alguma coisa pudesse... Qual é o poder

capaz de afastar duas pessoas que nasceram uma para a outra? —

perguntou ele.

Era minha mulher quem falava? Ou seria uma Leslie alternativa, vinda de seu próprio futuro diferente?

— Meu querido Richard — disse ela —, naquele futuro em que

você bombardeia Kiev, e seu amigo russo, o piloto, bombardeia Los Angeles? O estúdio da Twentieth Century-Fox, onde estarei

trabalhando, fica a mais ou menos um quilômetro e meio do ponto zero. Estarei morta um segundo após a queda da primeira bomba. —

Virou-se para mim, com um darão de terror na expressão, sentindo que o objetivo de nossas vidas estava perdido. Há alguns futuros, clamava aquela outra Leslie... Nem sempre as pessoas que nasceram uma para a outra se encontram!

Coloquei-me a seu lado, enlaçando-a, amparando-a enquanto

passava o terror.

— Não podemos modificar isso — avisei.

Ela concordou, já sem angústia, entendendo a situação antes de mim.

— Tem razão — disse com tristeza, e virou o rosto para o

tenente. — A escolha não é nossa. É sua.

Havíamos dito tudo quanto sabíamos. Ele estava a par de tudo

que sabíamos.

Em algum ponto de nosso futuro simultâneo, Leslie fez o que

Pye nos indicara. O momento da despedida havia chegado. Fechando os olhos, imaginando o mundo dos desenhos sob a água, ela empurrou o manete do Seahawk para a frente.

O céu noturno, os caças e toda a base estremeceram à nossa

volta, como também o próprio tenente, que dizia “Esperem...!”.

E desapareceram.

Meu Deus, pensei. Ante a ordem de algum presidente, mulheres, crianças e homens, amantes e padeiros, atrizes e músicos, comediantes, médicos e bibliotecários... o tenente mataria todos, sem misericórdia.

Gatinhos e pássaros, árvores, flores e fontes, livros, museus e obras de arte.. ele calcinará sua própria alma irmã, e nada que possamos argumentar é capaz de detê-lo. Ele sou eu, mas não posso detê-lo!

Leslie leu meu pensamento, segurou-me a mão.

— Richard, querido, escute. Talvez não pudemos detê-lo. Mas

talvez consigamos.

8

Leslie manteve o manete à frente, e o Martin ganhou

suavemente o céu. A cem pés de altitude acima dos desenhos, ela colocou o avião em velocidade de cruzeiro, estabilizando-o.

Embora voássemos com um tempo esplêndido, sobre águas

reluzentes, o desespero tomava conta da cabine — o assombro ante o fato de seres humanos inteligentes poderem ser arrastados a uma guerra suicida. Era como se a idéia fosse nova para nós, como se a amarga resignação tivesse sido despedaçada por um exame mais detido da sandice que aquilo representava. Voamos durante muito tempo em silêncio.

— Pye — perguntei por fim —, entre todos os pontos onde

poderíamos pousar num desenho que se estende até o infinito, por que escolhemos justamente esses passados? Por que Leslie ao piano e Richard junto de seu caça?

— Não adivinham? — replicou, devolvendo a pergunta para

nós.

Refleti sobre os dois episódios. O que tinham em comum?

— Ambos eram jovens e estavam perdidos?

— Perspectivas? — sugeriu Leslie. — Ambos haviam chegado

ao momento em que precisavam lembrar do poder das escolhas..

Pye assentiu.

— Exatamente.

— E a finalidade desta viagem é aprendermos perspectiva? —

perguntei.

— Não, não havia finalidade alguma — respondeu ela. —

Vocês caíram aqui por coincidência.

— Ah, Pye! — exclamei.

— Não acredita em coincidência? Então precisa acreditar que

você foi o responsável, que navegou para este lugar com a precisão de um fóton, saindo do centro de seu sol até a ponta de uma agulha.

— Bem, é evidente que eu não estava navegando.. — retruquei.

As palavras ganharam sentido, e me virei para Leslie.

Havia entre nós uma brincadeira particular, a de que Leslie, que no chão não possui nenhum senso de direção, sabe melhor do que eu para onde ir quando estamos no ar.

— A navegadora sou eu — avisou ela, com um sorriso.

— Ela acha que está brincando — disse Pye. — Mas sem ela

você não teria conseguido, Richard. Sabe disso?

— Sou eu quem sente fascínio por percepção extra-sensorial,

por viagens para fora do corpo e experiências de semimorte —

retruquei. — Leio os livros, estudo página por página até altas horas.

Leslie raramente lê os livros, mas lê mentes, vê nosso futuro...

— O que é isso, Richard! Sou uma cética, e sabe disso! Sempre fui cética com relação à vida extraterrena. -

— Sempre? — perguntou Pye.

— Bem... já aprendi que às vezes ele tem razão — respondeu

Leslie. — Ele vem com uma idéia esquisita qualquer, e na semana seguinte ou no ano seguinte a ciência descobre a mesma coisa. Por isso, aprendi a encarar essas idéias dele, por mais loucas que pareçam, com uma certa dose de respeito. E eu gostaria das voltas e reviravoltas estranhas da mente dele, mesmo que a ciência nunca as corroborasse, pois são idéias fascinantes. Mas eu é que sempre fui a prática, a que tem os pés na terra.

— Sempre? — perguntei.

— Ah... Isso não vem ao caso — retrucou, lendo meu

pensamento. — Eu era uma garotinha. E não gostava daquele tipo de coisa, tanto que parei.

— Leslie está dizendo que era dotada de uma intuição tão

intensa que ficava assustada — comentou Pye. — Por isso, bloqueou seu dom e faz o quanto pode para mantê-lo bloqueado. Os céticos práticos não gostam de se assustar com poderes estranhos.

— Minha querida navegadora — falei. — Não é de espantar!

Não foi você quem quis voltar quando Los Angeles desapareceu, fui eu.

Não sou eu quem é capaz de empurrar o manete de um hidravião que não enxergo, é você!

— Não seja bobo — protestou ela. — Eu jamais estaria

pilotando um hidravião, jamais estaria pilotando avião algum se não fosse você! A viagem a Los Angeles foi idéia sua...

Leslie tinha razão. Fora eu quem a seduzira, levando-a a deixar a casa e as flores, com aquele convite de Spring Hill. Mas idéias são como a vida para nós dois — mudança e desenvolvimento, tensão e relaxamento, crise e alegria. Do céu caem perguntas fascinantes, despertando respostas, a nos incitar a decifrar isso, exprimir aquilo, ir ali, fazer isso, ajudar acolá. Nenhum de nós dois é capaz de resistir a idéias.

Imediatamente fiquei a imaginar se poderíamos descobrir

respostas, explorar, naquele mundo estranho, outras coisas além de nossas vidas anteriores.

— Pye, de onde vêm as idéias? — perguntei, testando-a.

— Dez graus à esquerda — disse ela,

— Como? — espantei-me. — Não, idéias. Elas simplesmente...

aparecem nas horas mais estranhas. Por quê?

— A resposta a qualquer pergunta que possa fazer se encontra

no desenho. Faça aquela inclinação de vinte graus para a esquerda, agora, e pouse.

Eu sentia em relação à nossa amiga avançada o mesmo que

antes havia sentido em relação aos instrutores de vôo — enquanto estivessem a meu lado no avião, eu não tinha medo de tentar qualquer pirueta que pedissem.

— Certo, querida? — perguntei à minha mulher. — Está pronta

para mais?

Leslie concordou, ansiosa por mais aventuras.

— Que idéia maravilhosa essa, explorar idéias!

Virei o hidravião como Pye pedira, conferindo detalhes: rodas levantadas, flaps baixados. Reduzi a velocidade.

— Dois graus à direita, alinhe com aquela faixa amarela

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brilhante debaixo da água... Diminua a velocidade só um pouquinho —

disse nossa guia. — Isso! Desligue o motor. Perfeito!

O lugar onde paramos parecia um serão no inferno. Labaredas

crepitavam e rugiam em fornalhas, monstruosos caldeirões, com uma substância derretida, suspensos por pontes rolantes, movimentavam-se sobre uma congestionada planície de aço de dez quilômetros

quadrados.

— Meu Deus... — exclamei.

Uma empilhadeira elétrica do tamanho de um carrinho de golfe

deteve-se no corredor mais próximo de nós, e dela desceu uma jovem delicada, de macacão e capacete, para nos levar a nosso destino.

Poderia ter-nos cumprimentado, mas qualquer palavra se perderia na balbúrdia de ferro e fogo. Um caldeirão inclinou-se, e centelhas azuis jorraram dos moldes de lingotes atrás dela, transformando-a numa silhueta.

Ela não tinha mais que a altura de meu peito.

— Que lugar, hem? — comentou, a título de apresentação,

gritando para se fazer ouvir, ao mesmo tempo em que nos entregava capacetes e óculos escuros. Falava como se tivesse orgulho daquele lugar. — É provável que não precisem disso, mas se a gerência nos descobrir sem eles... — Riu e passou o dedo, maliciosa, pelo pescoço, fazendo um sinal para que a seguíssemos.

— Mas não podemos nos comunicar... — Eu comecei. Ela

sacudiu a cabeça.

— Está bem. Podem vir por aqui.

Olhei para Leslie: quem é? Ela entendeu o que eu queria saber, deu de ombros e sacudiu a cabeça negativamente.

— Diga, como é seu nome? — gritei.

A moça parou por um momento, surpresa.

— Vocês me dão tantos nomes, todos tão formais! — Sacudiu

os ombros e sorriu. — Chamem-me de Tink. — Conduziu-nos, a

passos rápidos, na direção de uma rampa que ficava junto à parede mais próxima do local gigantesco, ao mesmo tempo em que mostrava algumas coisas. — O minério vem por correias transportadoras até os criados, do lado de fora. Depois ele é lavado, enquanto é transportado até o funil principal...

Leslie e eu nos entreolhamos, perplexos. Esperava-se que

soubéssemos o que estava acontecendo?

— .. é despejado em um dos cadinhos... há 25 nessa área... e

aquecido a 1.650 graus. Aí, uma ponte rolante levanta o cadinho e o traz para cá.

— Do que está falando? — perguntei.

— Se o senhor deixar as perguntas para mais tarde, é provável que eu responda a maioria delas enquanto lhe explico os

procedimentos.

— Mas nós não...

A moça apontou para cima.

— Na ponte rolante infunde-se gás xenônio no minério fundido, que a seguir é despejado nessas fôrmas, revestidas com vinte mícrons de condrito pulverizado. — Sorriu e levantou a mão, já prevendo nossa pergunta. — Não, o condrito não é usa do para gerar o cristal, apenas facilita a retirada dos lingotes das fôrmas!

Os lingotes não eram de aço, mas de uma espécie de vidro, que ao resfriarem passavam de alaranjado para transparente.

Várias séries de robôs industriais davam forma a blocos quase invisíveis, transformando-os em tarugos, cubos e losangos, do mesmo modo que os lapidadores cortam diamantes.

— Os blocos são aparados e energizados aqui — explicou Tink,

enquanto passávamos. — Cada um é diferente do outro,

naturalmente...

Nossa misteriosa guia fez-nos subir por uma rampa em curva,

até uma câmara pneumática.

— E aqui fica a área de acabamento — apontou mais orgulhosa

do que nunca. — Era isto que estavam esperando para ver!

Portas deslizavam, abrindo-se, ao nos aproximarmos delas, e

fechavam-se após a nossa passagem.

Desaparecera o barulho. O andar não podia ser mais silencioso, nem mais ordeiro e limpo. Entre as paredes colossais viam-se, enfileiradas, mesas com tampo de feltro, e sobre cada uma delas repousava um cristal polido. O lugar mais se assemelhava a um silencioso ateliê de arte que a uma oficina numa indústria pesada. As pessoas trabalhavam concentradas e em silêncio, debruçadas sobre as mesas. Seria aquela a sala de acertos finais da montagem de

espaçonaves?

Retardamos o passo e nos detivemos junto a uma mesa. Um

jovem corpulento, sentado numa cadeira giratória, diante de alguma coisa que se parecia com um torno de revólver, inspecionava um bloco de cristal maior do que eu. Por cima de seu ombro, víamos uma delicada estrutura de luzes coloridas no interior do cristal, minúsculos raios laser embutidos, uma rede caprichosa de brilhantes filamentos. O

rapaz premiu botões na máquina, e dentro do vidro ocorreram

modificações sutis.

Toquei Leslie, apontei para o bloco de cristal e fiz um sinal, tentando lembrar-me. Onde já teríamos visto aquelas coisas antes?

— Ele está verificando se todas as conexões foram feitas —

explicou Tink, num murmúrio quase inaudível. — Basta um filamento solto, e toda a unidade deixa de funcionar.

O homem virou-se ao ouvi-la, e deu conosco a olhá-lo.

— Olá! — saudou-nos, simpático. — Bem-vindos!

— Olá! — respondemos. — Por acaso o conhecemos? Ele

sorriu, e gostei imediatamente dele.

— Conhecer, conhecem. Querem saber se se lembram de mim?

Provavelmente, não. Meu nome é Atkin. No passado fui o montador de seu avião, em outra época seu mestre Zen... Ah, creio que não se lembra. — Deu de ombros, em nada aborrecido, todo simpatia.

Procurei palavras para me expressar.

— O que... O que estamos fazendo aqui?

— Vejam. — Apontou para um visor binocular montado perto

do cristal.

Leslie abaixou-se.

— Puxa vida! — exclamou.

— O que foi?

— Isso é.. Não é vidro, Richie. São idéias! É como uma teia de aranha, todas estão interligadas!

— Explique melhor.

— Não se trata de palavras — disse ela. — Mas acho que a

gente deve exprimir isso em palavras.

— Que palavras você usaria, então, Leslie? Tente me dizer.

— Ah! — fez ela, fascinada. — Veja só aquilo!

Diga — pedi. — Por favor.

— Muito bem. vou tentar... E sobre como é difícil fazer as

escolhas corretas e sobre como e importante nos atermos ao nosso melhor conhecimento... E que nós realmente sabemos o que é o mais certo! — Leslie olhou para Atkin. — Sei que não estou fazendo justiça a essa maravilha. — Voltou a olhar pelo visor. — Por favor, leia esse cristal para nós.

Atkin sorriu mais uma vez.

— Está indo muito bem — elogiou ele, olhando por seu

próprio visor. — Eis o que diz: Uma pequenina mudança hoje acarreta-nos um amanhã profundamente diferente. São grandes as recompensas para aqueles que optam pelos caminhos duros e difíceis, mas essas recompensas acham-se ocultas pelos anos. Toda escolha é feita inteiramente às cegas, e o mundo não nos dá garantia alguma. E logo depois disso, está vendo? A única maneira de se evitar todas as escolhas assustadoras consiste em deixar a sociedade e se tornar um ermitão, e também isso é uma escolha assustadora. E essa parte está conectada à seguinte: O bom caráter advém de seguirmos nosso supremo senso de retidão, de confiarmos nos ideais sem sequer estarmos certos de que darão certo. Um dos desafios de nossa aventura na terra consiste em nos elevarmos acima de sistemas mortos...

guerras, religiões, nações, destruições... recusarmos a fazer parte deles, e em vez disso exprimirmos o que temos de melhor dentro de nós.

— Que coisa maravilhosa! — exclamou Leslie, ainda

contemplando o cristal. — Ah, Richie, escute isso! Ninguém é capaz de resolver problemas para aqueles cujo problema consiste em não desejarem que os problemas sejam solucionados l Li este trecho direito? — perguntou a Atkin.

— Perfeito!

Leslie voltou ao visor, satisfeita por estar começando a

entender.

— Não importa qual seja nossa habilitação ou nosso merecimento, nunca alcançaremos uma vida melhor até conseguirmos imaginá-la para nós próprios e permitir-nos tê-la. Deus sabe que isso é verdade!

“É este o aspecto de uma idéia quando se fecha os olhos!”

Leslie olhou para Atkin com verdadeira admiração. “Está tudo ali, todas as ligações, todas as respostas a todas as perguntas que se podem fazer sobre ela. A gente pode acompanhar as ligações em qualquer direção que desejar. Que coisa linda!

— Obrigado — disse Atkin. Virei-me para nossa guia.

— Tink?

— Sim?

— As idéias vêm de uma fundição? De uma siderúrgica?

Elas não podem ser feitas de ar, Richard — respondeu, muito séria, de testa franzida. — Não podemos utilizar algodão-doce!

Uma pessoa entrega a vida àquilo em que acredita. As idéias dessa pessoa devem sustentá-la, têm de suportar o peso das perguntas que ela própria faz e ainda o peso de cem, mil ou dez mil críticos, incrédulos e detratores. As idéias dessa pessoa precisam se manter de pé, de suportar a pressão de todas as conseqüências que gerarem.

Sacudi a cabeça, admirado com a vastidão da sala, com as

centenas de mesas. É verdade que nossas melhores idéias sempre nos chegam prontas e completas, mas eu não estava preparado para aceitar que elas provinham de uma...

— Se já é ruim fracassarmos quando renunciamos àquilo em

que acreditamos — disse Tink —, pior ainda é verificarmos que as idéias que defendíamos estavam erradas. — Tink franziu o cenho para mim, sincera e resoluta. — É claro que as idéias vêm de uma fundição!

E não de uma fundição de aço! O aço vergaria.

— Isso é maravilhoso! — assombrou-se Leslie, absorta de novo

no cristal, olhando pelo visor como o comandante de um submarino olharia pelo periscópio. — Escute isso: O comércio é idéia e escolha expressadas. Olhe em torno de você neste momento: tudo que você vê e toca foi, um dia, uma idéia invisível, até alguém resolver dar-lhe existência. Não podemos dar dinheiro a um necessitado ego alternativo em outras crenças de espaço e de tempo, mas podemos dar idéias que ele pode transformar em uma fortuna, se assim desejar.

Meu amor, venha olhar. — Leslie voltou-se para Atkin. — Estou atônita. Tudo aí é tão exato, tão bem articulado!

— Fazemos o que podemos — respondeu ele, modesto.

— E este cristal é um desafio. Trata-se de uma idéia central...

chama-se Escolhas... E se uma idéia central apresenta defeitos é preciso parar tudo em sua vida até que ela seja reparada. Nosso trabalho não consiste em fazer com que vocês parem, mas sim ajudá-los a avançar.

Sua voz desapareceu aos poucos no momento em que ajeitei os

olhos ao visor, pois os desenhos no interior do cristal absorveram inteiramente minha atenção.

Eram, ao mesmo tempo, conhecidos e estranhos. Conhecidos

porque eu estava certo de já ter visto aquilo antes, já contemplara a mesma cena de olhos fechados atingido por idéias meteóricas. O

estranho era que a matriz de raios luminosos e planos iridescentes transformavam-se em pensamentos.

É curioso como lançamos redes sobre idéias, pensei. Em todas

as línguas, do árabe ao zulu, da caligrafia à taquigrafia, da matemática à música, da pintura à pedra lavrada; em tudo, da teoria do campo unificado a uma maldição, de um prego a um satélite artificial, tudo que se expressa é uma rede em torno de uma idéia.

Um rutilante brilho âmbar atraiu-me a atenção. Expressei a idéia em voz alta, da melhor maneira que pude.

Coisas ruins não são o pior que nos pode acontecer. O que de pior nos pode acontecer é o NADA. — Olhei para Atkin.

— Cheguei perto?

— Palavra por palavra — respondeu ele.

No cristal, o âmbar converteu-se em azul anil.

— Uma vida fácil nada nos ensina. No fim, é o aprendizado que importa: o que aprendemos e como nos desenvolvemos.

Isso mesmo! — concordou Atkin .

Surgiu uma linha verde-esmeralda numa das faces do cristal,

atravessando-o de um lado a outro:

— Traçamos nossas vidas pelo poder de nossas escolhas. Quando nossas escolhas acabam sendo feitas passivamente, é que nos sentimos mais desamparados.

Quando não fomos nós mesmos que traçamos nossas vidas. Foi isso que você disse à jovem Leslie! Podemos ter desculpas, ou podemos ter saúde, amor, longevidade, compreensão, aventura, riqueza felicidade.

Um terceiro nível conectava os dois planos, parecia reforçar a estrutura.

— Ao começarmos a vida, cada um de nós recebe um bloco de mármore, bem como as ferramentas com que transformá-lo numa escultura. — Paralela cambiante: — Podemos arrastar esse bloco intacto, podemos transformá-lo em fragmentos, podemos dar-lhe uma forma maravilhosa. — Um outro plano paralelo: — De todas as outras vidas restam exemplos para que os vejamos, vidas terminadas e não acabadas, luzes-guias e advertências. — Um outro nível a ligar o último ao primeiro: Ao se aproximar o fim da vida, nosso trabalho no mármore está quase concluído, e com nossos últimos golpes de cinzel podemos polir e dar acabamento ao que começamos anos atrás. Podemos realizar o progresso mais visível no fim, mas para isso precisamos ver além da aparência da idade.

Eu estava absorto como um beija-flor diante de uma rosa.

Geramos nosso próprio meio. Obtemos exatamente aquilo que merecemos.

Como invectivar a vida que nós próprios criamos? Quem terá a culpa, a quem cabe o louvor, senão a nós mesmos? Quem pode mudá-la, a qualquer tempo, senão nós?

Fiquei olhando pelo visor ao acaso, encontrando corolários em todos os novos ângulos.

Qualquer idéia poderosa é de todo fascinante e de todo inútil até resolvermos usá-la.

Claro, pensei. O que há de interessante nas idéias é a utilização que delas se faz. No instante em que nós mesmos as experimentamos, que a atiramos para longe da margem onde eram “e se”,

transformando-se em mergulhos ousados em rios espumantes,

perigosas ou divertidas.

No momento em que me afastei do visor, o bloco de cristal

sobre a mesa converteu-se num objeto muito engenhoso. Percebi seu atrativo potencial, mas perdi o domínio sobre o que ele significava, sobre a emoção e poder à espera de utilização. Se fosse uma idéia na mente, não havia como entendê-la.

— ...do mesmo modo como as estrelas, os cometas e os

planetas atraem a poeira através da gravidade — explicava Atkin a Leslie, feliz por conversar com alguém que sentia tanto fascínio por seu trabalho —, assim também atuam os centros de pensamento,

atraindo idéias de todos os tamanhos e pesos, desde centelhas de intuição até sistemas tão complexos que sua exploração exige toda uma vida. — Atkin voltou-se em minha direção. — Terminou?

Indiquei que sim, e sem ao menos uma palavra de despedida ele premiu uma chave em sua máquina, e o cristal desapareceu. Leu meu pensamento.

— Não desapareceu — comentou. — Está numa dimensão

diferente.

— Já que estão aqui — perguntou Tink —, há alguma coisa que

vocês gostariam de transmitir a um aspecto diferente de vocês?

Pestanejei.

— O que quer dizer?

— Aprenderam alguma coisa que podem dar a um ego

alternativo para ser desenvolvido? Se desejassem modificar uma vida, permitir que alguém recebesse de presente um pensamento de vocês, que pensamento seria esse? Saltou-me à mente um provérbio.

— Não há desastre que não possa tornar-se uma bênção, nem

bênção que não possa se transformar em desastre.

Tink olhou de relance para Atkin, sorrindo com orgulho.

— Que pensamento interessante! Deu certo em seu caso?

— Se deu certo? — respondi. — Já o usei até gastar! Não

avaliamos o bem e o mal com a mesma rapidez que o fazíamos.

Nossos desastres têm sido, às vezes, as melhores coisas que nos aconteceram. E muita coisa que jurávamos ser bênçãos têm sido os mais terríveis desastres.

— O que faz alguma coisa ser boa ou ruim? — indagou Atkin,

casualmente.

— O que é bom nos torna felizes a longo prazo, o ruim nos

leva à infelicidade.

— O que chama de longo prazo?

— Anos. A vida inteira.

Atkin assentiu, e nada mais disse.

— De onde vêm as suas idéias? — perguntou Tink. A indagação foi acompanhada de um sorriso, mas por trás dele percebi que a pergunta era da máxima importância para ela.

— Promete não rir?

— A menos que seja engraçado.

— Da fada do sono — falei. — As idéias nos ocorrem quando

estamos pregados no sono, ou no momento em que despertamos e não conseguimos ainda escrever.

— Então há uma fada do chuveiro — disse Leslie —, e também

a fada da caminhada, a fada da natação e a fada do jardim. As melhores idéias surgem nos momentos mais improváveis, quando estamos

molhados dos pés à cabeça, enterrados até os joelhos na lama ou quando não dispomos de um bloco de anotações... Sempre que nos for mais difícil registrá-las. Mas como são da maior importância para nós, damos um jeito de reter muitas delas. Se algum dia encontrarmos a fada das idéias, aquela gracinha, vamos matá-la de abraços, de tanto que a amamos. Diante dessas palavras, Tink cobriu o rosto com as mãos e rompeu em lágrimas.

— Ah, obrigada, muito obrigada! — soluçou. — Esforço-me

tanto para ajudar... Eu também amo vocês!

Fiquei atônito.

— É você a fada das idéias?

Ela anuiu com a cabeça, continuando a esconder o rosto.

— É Tink quem dirige este lugar — disse Atkin calmamente,

reajustando os parâmetros de sua máquina em zero. — E leva o

trabalho muito a sério.

Tink enxugou os olhos com as pontas dos dedos.

— Sei que vocês me dão esses nomes bobos — comentou. —

Mas, de um modo ou de outro, vocês prestam atenção. Sabem por que quanto mais idéias têm, mais idéias lhes ocorrem? Porque a fada das idéias sabe que se tornou importante para vocês! Do mesmo modo que ela é importante para vocês, também vocês são importantes para ela.

Digo a todo mundo aqui que precisamos dar o melhor de nós, porque essas idéias não ficam simplesmente flutuando no espaço nulo, elas chegam até alguém! — Tink procurou o lencinho.— Desculpem as

lágrimas. Não sei o que aconteceu comigo. Atkin, quero que esqueça que isso aconteceu...

Encarou-a, sério.

— Esquecer o quê, Tink?

Ela se virou para Leslie, explicando-se aos tropeções.

— É preciso que vocês saibam que não existe neste andar uma

única pessoa que não seja mil vezes mais sábia que eu...

— A palavra-chave é simpatia — disse Atkin. — Todos nós fomos professores, gostamos deste trabalho e há momentos em que mostramos nele alguma habilidade, mas nenhum de nós tem o encanto, a simpatia de Tink. Sem isso, a melhor idéia do universo é como um vidro morto, e ninguém ligará para ela. Mas vocês recebem uma idéia da fada do sono, uma idéia tão simpática que não conseguem resistir, e então ela ganha vida, passa de um mundo para outro.

Essas duas pessoas podem ver-nos, pensei, de modo que ambas

devem ser egos alternativos, aspectos que escolheram caminhos diferentes no desenho sob as águas. Mesmo assim, era inacreditável. A fada das idéias somos nós! Será possível que diferentes níveis de nós próprios passem existências inteiras tornando o conhecimento

cristalino, na esperança de que o encontremos em nosso mundo?

Naquele momento, uma máquina, que não seria maior que um

cão pastor, chegou até onde estávamos, com um zumbido, rolando sobre esteiras de borracha. Trazia nos braços mecânicos um lingote de cristal, ainda informe. Com as juntas a estalar devido ao peso, depôs o lingote, com cuidado, sobre a mesa de Atkin. A seguir, emitiu dois sinais sonoros, suaves, retornou ao corredor e retomou a direção de onde viera.

— É deste lugar que vêm... todas as idéias? As invenções? As

respostas? — perguntei.

— Nem todas — respondeu Tink. — Não aquelas respostas

que você obtém a partir de sua própria experiência. Só as inusitadas, que assustam e surpreendem, aquelas nas quais você tropeça quando não se acha hipnotizado pela vida cotidiana. Tudo que fazemos é passar pelo crivo possibilidades infinitas, separando aquelas que sabem que vocês apreciarão.

— E também idéias para histórias? — indaguei. — Idéias para

livros? Fernão Capelo Gaivota surgiu daqui?

— A história sobre a gaivota era perfeita para você — disse

Tink, franzindo a testa —, mas você era um escritor principiante, e não lhe daria atenção.

— Tink, eu estava prestando atenção! Seus olhos fuzilaram.

— Não me venha com essa! Você queria escrever, mas só se

não precisasse dizer alguma coisa esquisita demais. Tive de fazer o impossível para chamar-lhe a atenção.

— O impossível?

— Foi preciso uma experiência psíquica para conseguir isso

— respondeu a doce alma, revivendo sua frustração —, e não

gosto de recorrer a expedientes assim. Mas se eu não tivesse gritado o título para você, se não tivesse feito a história passar como um filme diante de seus olhos, o pobre Fernão estaria condenado!

— Você não gritou nada.

— Bem, senti-me com se tivesse gritado, depois de tudo que fiz pra chegar até você.

Com que então, fora a voz de Tink que eu escutara! Aquela

noite escura, há não tanto tempo, que não gritava o nome, mas o pronunciava com toda calma possível: Fernão Capelo Gaivota. E eu quase morto de medo, ouvindo o nome e sem ver quem o pronunciava.

— Obrigado por acreditar em mim — agradeci.

— Não há de quê — respondeu ela, apaziguada. — Mas aquela

foi a última idéia para um livro que você recebeu de mim através de estratagemas psíquicos.

— Não precisamos mais de fogos de artifício — aleguei.

— Confiamos em você.

Atkin sorriu, virando-se para sua banca de trabalho.

— Tchau para vocês — despediu-se. — Até a próxima. — Ele

parecia perceber alguma coisa muito engraçada nisso. Sacudiu a cabeça, rindo e perscrutando o vidro informe.

— Vamos revê-la? — Mentalmente, Leslie estendia a mão para

o manete do hidravião.

A diretora da fundição de idéias levou a mão ao canto do olho.

— Claro que sim. Até lá, vou gravar anotações a respeito de

todas as idéias que enviarmos. E lembrem-se: não acordem depressa demais... Façam muitas caminhadas, nadem bastante e tomem muitos banhos de chuveiro!

Despedimo-nos, e a sala derreteu-se, desvaneceu-se num caos

com o qual já nos familiarizávamos. No instante seguinte, estávamos realmente de volta ao Martin, decolando da água, com a mão de Leslie no manete de potência. Pela primeira vez desde que havíamos iniciado aquela estranha aventura, decolamos felizes, em vez de agoniados.

— Pye, que coisa boa! — comentou Leslie. — Muito obrigada!

— Fico contente por ter feito vocês tão felizes antes de ir

embora.

— Você já vai? — perguntei, subitamente alarmado.

— Por algum tempo — disse ela. — Vocês já sabem como

encontrar os aspectos que desejam ver, os locais de aprendizado. Leslie sabe como se afastar quando chega a hora da partida, e você também aprenderá, Richard, quando passar a confiar em seus instintos. Não precisam mais de guia. — Sorriu como sorriem os instrutores para um aluno antes de seu primeiro vôo solo. — As possibilidades são infinitas.

Não resistam a ser atraídos para aquilo que mais lhes interessa, explorem juntos. Havemos de rever-nos.

Um sorriso, um clarão azul intenso, e Pye sumiu.