Uma Dose Mortal por Agatha Christie - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.

index-1_1.jpg

index-1_2.jpg

http://groups.google.com/group/digitalsource

index-2_1.jpg

index-2_2.jpg

AGATHA

CHRISTIE

UMA DOSE

MORTAL

Tradução

NEWTON GOLDMAN

Título do original em inglês:

ONE TWO BUCKLE MY SHOE

Copyright © 1940.1941 by Agatha Christie Mallowan

Copyright desta edição

DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIÇOS DE IMPRENSA S.A., 1987

Publicado sob licença da

EDITORA NOVA FRONTEIRA S.A.

Direitos desta edição

DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIÇOS DE IMPRENSA S.A.

Impresso no Brasil em oficinas próprias pelo

Sistema Cameron da Divisão Gráfica da

DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIÇOS DE IMPRENSA S.A.

Rua Argentina 171 — São Cristóvão — 20921 — Tel.: 580-3668

Rio de Janeiro — RJ

ISBN 85-l-151605-0

Distribuição exclusiva para bancas de jornais

FERNANDO CHINAGLIA DISTRIBUIDORA S.A.

Rua Teodoro da Silva 907 — Rio de Janeiro, RJ — Tel.: 268-9112

Números atrasados, escreva para:

RP Record Caixa Postal 23052

Rio de Janeiro RJ 20922

ou pelo telefone (021) 580-5182

Contra Capa:

UMA DOSE MORTAL

O Dr. Morley era um dentista de ar severo, pacato, bom, inofensivo. Quem poderia querer matá-lo?

A Srta. Sainsbury Seale, ex-atriz de teatro, chegara da Índia há apenas seis meses, onde vivera em Calcutá, trabalhando com missionários e dando aulas de impostação de voz. Ótima criatura, um tanto simplória, era incapaz de matar uma mosca. A quem sua morte poderia interessar?

O Sr. Amberiotis, milionário grego, morre no Hotel Savoy, onde está hospedado. Causa mortis: colapso por dose excessiva de adrenalina e provocaína, mistura usada pelos dentistas como anestésico local.

Qual seria a relação entre estas três mortes? Hercule Poirot estava diante de um quebra-cabeça intrigante, fatos isolados que tinham que ser unidos para formar um desenho coerente e lógico.

Capítulo 1

O humor do Dr. Morley não estava dos melhores na hora do café. Reclamou o presunto; perguntou por que o café estava com gosto de água suja; e comentou sobre a má qualidade do pão.

Era um homem baixo, de queixo decidido e um ar severo.

Sua irmã, que morava com ele, era, ao contrário, uma mulher enorme que lembrava um fuzileiro naval. Ela o examinou, por um instante, e perguntou se a água do chuveiro tinha estado fria novamente.

A contragosto o Dr. Morley respondeu que não; em seguida, olhou o jornal e comentou que o governo, aparentemente, estava passando do natural estado de incompetência para um completo grau de cretinice.

A Srta. Morley, com sua voz de baixo profundo, concordou com o irmão; e como era uma mulher simples, que não entendia nada de política, pediu ao irmão que lhe explicasse por que a atual política do governo era incompetente, idiota, imbecil e abertamente suicida.

Depois que o Dr. Morley respondeu à pergunta da irmã, tomou outra xícara do odioso café e desabafou a verdadeira razão do seu mau humor.

— Essas meninas são todas iguais — disse. —

Irresponsáveis, egoístas, não se pode contar com elas para nada.

— Gladys? — arriscou a Srta. Morley.

— Acabei de receber um recado dela, dizendo que a tia teve um enfarte e que ela foi para Somerset.

— Um verdadeiro transtorno, meu querido, mas não foi propriamente culpa dela!

O Dr. Morley sacudiu a cabeça tristemente.

— Como é que eu vou saber se a tia teve mesmo um enfarte?

Quem me garante que a Gladys não esteja mancomunada com aquele sem-vergonha que ela namora? Talvez até tenham ido à praia.

— Isso não, meu querido. Você mesmo sempre diz que ela é muito responsável.

— Lá isso é.

— Uma moça correta, trabalhadora como Gladys, não faria uma coisa dessas.

— Eu sei, Georgina, mas isso era antes dela conhecer aquele sujeito. Ultimamente ela não é mais a mesma; anda distraída, nervosa, chateada.

O fuzileiro deu um profundo suspiro de solidariedade.

— Acontece, Henry, que as mulheres se apaixonam, é

inevitável.

— O que não é uma boa justificativa para se transformar numa funcionária relapsa. Ainda mais hoje! Um dia daqueles.

Uma porção de pacientes importantes! É de matar.

— Sei como você deve estar se sentindo — disse a irmã, em tom apaziguador. — E o novo atendente, como está se saindo? O

mau humor do dentista pareceu aumentar.

— É o pior que já tive. Não consegue guardar os nomes dos clientes e tem a educação de um carvoeiro! Se não melhorar vou despedi-lo e arranjar outro. Não sei para que servem nossas escolas, hoje em dia. Acho que para formarem idiotas, em série, que não entendem nada do que se lhes diz, incapazes até de anotarem um recado.

Dr. Morley olhou para o relógio.

— Já está na hora. Uma manhã cheia e ainda tenho que encaixar a Sainsbury Seale, num intervalo, pois está com dor de dentes. Sugeri que fosse ao Reilly, mas ela se recusou.

— E com toda a razão — disse Georgina, lealmente.

— Reilly é muito competente. Está sempre em dia com os avanços tecnológicos.

— As mãos dele tremem — disse a Srta. Morley. — Para mim, acho que ele bebe.

Morley riu, feliz. Seu bom humor estava restabelecido.

— A uma e meia eu subo para comer um sanduíche.

No Hotel Savoy, o Sr. Amberiotis palitava os dentes, satisfeito da vida. Tudo ia às mil maravilhas. A sorte lhe sorria novamente; apenas algumas palavras amáveis àquela mulher imbecil e os lucros exorbitantes não tardariam em vir.

Ele sempre fora um homem bom e “generoso”! Visões de benevolência flutuavam diante dos seus olhos! O pequeno Dimitri; o bom Constantopoulos, lutando para manter seu pequeno restaurante, enfim... que grande surpresa para eles. O palito tocou inadvertidamente num dos dentes e o Sr. Amberiotis prendeu a respiração. As visões róseas do futuro se apagaram e deram lugar às apreensões do presente imediato. Sua língua explorou com carinho e cuidado o dente sensível. Amberiotis folheou o caderno de apontamentos: meio-dia, Dr. Morley, Rua Rainha Charlotte, 58.

Em seguida, tentou recapturar a alegria recém-perdida, mas em vão. Seu horizonte tinha-se transformado em seis palavras: meio-dia, Rua Rainha Charlotte, 58.

O café da manhã, no Hotel Glengowrie Court, estava

chegando ao fim, e os hóspedes estavam se dirigindo para o saguão. A Srta. Sainsbury Seale estava sentada, ao lado da Sra.

Bolitho. Durante as refeições as duas ocupavam mesas adjacentes e, desde a chegada da Srta. Sainsbury Seale, há uma semana atrás, tinham-se tornado amigas.

— Quer saber de uma coisa — disse a Srta. Sainsbury Seale,

— parou de doer. Não sinto mais nada. Acho que vou telefonar.

A Sra. Bolitho a interrompeu. Era uma mulher alta,

autoritária, dona de uma voz ressonante.

— Não seja tola, meu bem. Vá ao dentista e acabe logo com isso!

A Srta. Sainsbury Seale era uma mulher de quarenta e poucos anos, de cabelos louros, mal tingidos, arrumados em cachos; suas roupas eram esquisitas, com um toque pseudo-artístico e seus óculos recusavam-se a ficar parados no nariz.

Além disso, era uma irremediável falastrona.

— Mas, realmente, não está doendo nada! — protestou, em tom de súplica.

— Tolice, a Senhorita mesma me disse que quase não

dormiu a noite passada.

— Eu disse isso? Que bobagem, imaginem! Vai ver, até o nervo já morreu.

— Mais uma razão para ir ao dentista — insistiu a Sra.

Bolitho, com firmeza. — Todos nós gostamos de adiar esses problemas, mas não devemos nos entregar à covardia. O melhor e tomarmos coragem e acabarmos logo com isso!

Um murmúrio de rebeldia se formou nos lábios da Srta.

Sainsbury Seale.

É fácil falar quando o dente não é da gente, pensou.

— Acho que a senhora tem razão — admitiu a sofredora Sainsbury Seale. — O Dr. Morley é tão cuidadoso e quase sempre a gente nada sente.

A reunião da junta dos diretores estava encerrada. Tudo correu como devia; o resultado foi ótimo e não houve, sequer, uma nota de desacordo. Apesar disso, o Sr. Samuel Rotherstein, um homem muito sensível, notou uma pequena modificação no comportamento do presidente da mesa. Uma certa impaciência, um azedume que não se coadunava com o bom andamento dos trabalhos.

Alguma preocupação secreta? Rotherstein não podia

imaginar Alistai Blunt com alguma preocupação secreta. O Sr.

Blunt sempre tão frio, tão formal, tão inglês! Quem sabe era fígado? O fígado de Samuel, às vezes, lhe dava trabalho, mas nunca ouvira Blunt queixar-se do fígado. A saúde do presidente era tão boa quanto sua perspicácia e seu tino comercial.

Mas que havia alguma coisa, isso era evidente. Uma ou duas vezes, o presidente passou a mão pelo rosto, e durante a reunião sustentou o queixo com a mão; um gesto que não lhe era habitual.

Além do mais, durante os trabalhos, Blunt parecia distraído.

Saíram da sala de reunião e se dirigiram para os elevadores.

— Posso lhe dar uma carona? — perguntou Rotherstein.

Alistair Blunt sorriu, sacudindo a cabeça.

— Meu carro está lá embaixo — respondeu, olhando o

relógio. — Não vou para a cidade, tenho hora marcada no dentista.

O mistério estava solucionado.

Hercule Poirot desceu do táxi, pagou o chofer e tocou a campainha da porta.

Após uma breve espera, a porta foi aberta por um rapazinho sardento, de cabelos vermelhos, vestindo um uniforme de atendente.

— O Dr. Morley? — perguntou Poirot.

Em seu coração batia a ridícula esperança de que o Dr.

Morley não estivesse, ou que não pudesse atender ninguém — Em vão! O atendente afastou-se e Hercule Poirot entrou. A porta fechou-se, atrás dele, com a inexorável inconsciência da fatalidade.

— Seu nome, por favor? — perguntou o rapazinho.

Poirot deu o nome e foi levado para a sala de espera, um local decorado com bom gosto, mas, segundo Poirot, de uma severidade jesuítica. Numa mesa, vários jornais e revistas arranjados cuidadosamente. Sobre a lareira, um relógio de bronze, ladeado por dois vasos de porcelana chinesa. As janelas, envoltas em cortinas de veludo azul, e as cadeiras e as poltronas forradas do mesmo material. Uma das cadeiras estava ocupada por um senhor de aspecto militar, pele amarelada e vastos bigodes. Olhou para Poirot como quem enfrenta um inseto nocivo. Pareceu procurar, não por um revólver mas por uma bomba de Flit, para eliminar a nova e desagradável presença.

Poirot o examinou com impaciência.

Verdadeiramente, pensou, existem alguns ingleses que são tão desagradáveis e ridículos que deviam ser poupados da desgraça de viver!

O militar, por sua vez, depois de um longo exame, agarrou um jornal, virou sua cadeira para evitar ter que ver Poirot e voltou a sua leitura.

Poirot começou a folhear o Punch, meticulosamente, mas não conseguiu achar graça nas piadas.

O atendente apareceu.

— O Coronel Arrowbumby.

O militar foi conduzido para um dos consultórios. Poirot começou a se perguntar se era possível existir tal nome, quando a porta se abriu e um rapaz de uns trinta anos entrou.

O rapaz ficou parado, perto da mesa, escolhendo uma

revista, enquanto Poirot o observava.

Um jovem desagradável e perigoso, pensou Poirot, talvez até um criminoso. De qualquer maneira, parecia mais um assassino do que aqueles que Hercule Poirot havia prendido durante sua longa carreira criminal.

A porta se abriu novamente e o atendente apareceu:

— Sr. Peeret.

Poirot levantou-se, entendendo perfeitamente que o nome mal enunciado devia ser o seu. O atendente o conduziu ao elevador e juntos subiram até o segundo andar. Passaram, em seguida, por um corredor e chegaram até uma porta. O atendente bateu duas vezes, abriu a porta e fazendo um gesto, convidou Poirot a entrar.

Poirot penetrou no consultório, ouvindo um barulho de água corrente. Olhou para o fundo da sala e viu o Dr. Morley, lavando as mãos, na pia.

Mesmo na vida dos grandes homens ocorrem situações

humilhantes. É sabido que nenhum homem é um herói diante do seu criado de quarto; e muito menos (deve-se acrescentar) diante do seu dentista.

Hercule Poirot sentia-se morbidamente consciente disso.

Sempre fora um homem acostumado a ter uma boa impressão de si mesmo. Afinal ele era, realmente, superior à maioria dos homens em muitas coisas. Naquele momento, porém, sentia-se incapaz de qualquer sentimento de superioridade: era um mortal como qualquer outro, apavorado diante da cadeira do dentista.

Dr. Morley tinha terminado de lavar as mãos; dirigiu-se a Hercule com sua habitual cordialidade profissional. Será que este tom afável conseguiria diminuir a angústia do momento?

Dr. Morley levou a vítima gentilmente para o lugar temido: a cadeira! Acomodou, com destreza, o encosto para a cabeça, enquanto Hercule, depois de um suspiro, sentou-se, entregando-se às pesquisas profissionais do dentista.

— Pronto — disse Morley, num horripilante tom de alegria,

— está bem cômodo?

Poirot concordou, num tom sepulcral.

A mesinha de instrumentos foi colocada diante de Poirot. O

dentista apanhou o espelhinho e um odioso instrumento pontiagudo e iniciou a investigação. Hercule limitou-se a agarrar os braços da cadeira, fechar os olhos e abrir a boca.

— Está sentido alguma dor? De forma incoerente, dada a dificuldade em formar as consoantes, com a boca aberta, Poirot fez o dentista entender que não havia nada de anormal. Era apenas a visita semestral determinada pelo bom senso e pela higiene.

Poderia ocorrer que Morley não- encontrasse nada de anormal, que ele, talvez, deixasse escapar o penúltimo dente, da arcada superior, o mesmo que ultimamente vinha lhe dando umas pequenas pontadas. Por descuido, qualquer coisa poderia acontecer; mas intimamente, Poirot sabia que não podia contar com isso. Afinal o Dr. Morley era um ótimo dentista.

A pesquisa estendeu-se vagarosamente, dente por dente, e enquanto o dentista ia cutucando e batendo, fazia pequenos comentários.

— Esta obturação está um pouco gasta, mas ainda dá. As gengivas estão em bom estado.

Uma pequena parada diante de um dente suspeito, um

calafrio da vítima, mas, não, apenas um falso alarme. Dr. Morley passou para o outro lado. Examinou o primeiro, o segundo, e ia para o terceiro — não — o cão de fila, pensou Hercule, viu o coelho!

— Temos uma coisinha aqui! Não está doendo? Muito me surpreende — comentou, continuando a pesquisa.

Finalmente, Morley deu a busca por encerrada.

— Nada de mais. Umas obturações gastas e uma cárie no molar superior. Vamos fazer tudo isto hoje de manhã.

Ligou o motor, instalou a agulha e sorriu para Poirot.

— Me avise quando estiver doendo.

Não havia necessidade. Assim que a broca atingia um ponto nevrálgico, Dr. Morley parava, enxaguava a boca de Poirot, trocava a agulha e continuava o trabalho. O suplício do motor, no fundo, era mais angústia do que propriamente dor. Encerrada esta etapa, enquanto o dentista preparava a massa, voltaram a conversar.

— Hoje de manhã, tenho que fazer tudo sozinho — explicou Morley; — minha assistente, Miss Nevill, foi chamada, às pressas, por causa de um parente. O senhor está lembrado dela?

Poirot mentirosamente disse que sim.

— Um telegrama por causa de um enfarte. Tipo da coisa que só acontece quando a gente está com o dia cheio. Já estou atrasado! O paciente anterior ao senhor chegou atrasado, tenho que atender uma senhora, num intervalo, pois está com dor de dente. Sempre dou uma folga, entre um paciente e outro, para atender estas contingências, mas, num dia como hoje, só vem me sobrecarregar.

Em seguida, Morley começou a encher o buraco do dente.

— Vou lhe dizer uma coisa interessante, Sr. Poirot. A gente graúda, as pessoas realmente importantes, são sempre pontuais, nunca se fazem esperar. Veja por exemplo, o pessoal da nobreza, que correção! Os banqueiros, a mesma coisa. Hoje de manhã, tenho uma visita muito importante: Alistair Blunt.

Dr. Morley pronunciou o nome com triunfo. Poirot, impedido de falar pelos rolos de algodão, e pelo tubo de prata colocado sob a língua, deu um grunhido de aprovação. Alistair Blunt! Um nome citado diariamente nos jornais. O célebre Alistair Blunt, um homem cujo rosto era quase desconhecido do grande público, que só aparecia citado nas colunas financeiras dos jornais; uma figura pública que não possuía nada de espetacular; era apenas um inglês típico que dirigia a maior firma bancaria da Inglaterra; dono de uma imensa fortuna; um homem que dizia sim ou não aos governos; que vivia pacatamente e nunca aparecia nos lugares da moda. Enfim, um homem em cujas mãos estava encerrado o poder supremo.

A voz de Morley assumiu um tom reverenciai, enquanto trabalhava na obturação.

— Sempre chega na hora. Geralmente, manda o carro

embora e volta a pé para o escritório. Um sujeito simples e pacato que gosta de golfe e jardinagem. Olhando para ele, ninguém diz que a sua fortuna poderia comprar metade da Europa. Um homem, assim, como o senhor.

Uma onda de ressentimento invadiu Poirot. Dr. Morley, pensou, podia ser um bom dentista, mas havia outros bons dentistas em Londres. Agora, só havia um Hercule Poirot.

— Cuspa, por favor. Alistair Blunt é a resposta para os Mao Tse Tung, os russos e o resto da camarilha — continuou Morley;

— nós, aqui na Inglaterra, não gostamos de muita confusão. Veja que figura democrática é a nossa Rainha. É claro que para o senhor, que é francês, e está acostumado com o ideal republicano...

— Naaã sooo fancês, soo bega.

— Psiu, psiu! — fez o dentista, — não deixe entrar saliva no dente. — Deu umas bombadas de ar quente na cavidade. — Não sabia que o senhor era belga. Que interessante! O Rei Baudoin é um homem muito capaz, segundo ouvi dizer. Acredito muito na realeza. É uma grande escola. Repare como eles guardam os nomes e as fisionomias das pessoas: resultado de um

treinamento, não tenha dúvida. Entretanto certas pessoas possuem este dom de forma inata. Eu, por exemplo, nunca me lembro de um nome, mas, por outro lado, nunca esqueço uma fisionomia. Um dos meus clientes apareceu por aqui, eu já o tinha visto. O nome não me dizia nada, mas, mesmo assim eu perguntei: Onde nos vimos antes? Ainda não consegui me lembrar, mas um dia eu acabo me lembrando. Cuspa, novamente, por favor.

Morley deu uma olhada crítica para a obturação.

— Parece que está bem. Feche, com cuidado, a boca. Sente-se bem? Está sentindo a obturação? Abra, novamente. Que tal?

Tudo em ordem, então?

A mesinha foi afastada e a cadeira colocada na posição.

Hercule saltou do lugar, sentindo-se um homem livre.

— Até logo, Sr. Poirot. Não encontrou nenhum criminoso na minha sala de espera?

Poirot sorriu.

— Antes de ser atendido, todos me pareciam criminosos.

Agora, acho que tudo vai parecer diferente.

— Ah! A grande diferença do antes e do depois! De qualquer maneira, nós, dentistas, não somos mais o bicho-papão de antigamente! Quer que eu chame o elevador?

— Não, vou pela escada, obrigado.

— Se quiser, o elevador fica logo ao lado.

Poirot saiu. Enquanto fechava a porta, ouviu novamente o ruído da torneira. Desceu os dois lances de escada. Na última curva, viu o Coronel saindo do outro consultório. Um homem simpático, pensou Poirot, deve ser um ótimo atirador, um militar de grande valia para a defesa do Império Britânico. Poirot dirigiu-se à sala de espera para apanhar o chapéu e a bengala. O

estranho rapaz, para surpresa sua, ainda estava lá. Outro paciente calmamente lia uma revista.

Poirot examinou o rapaz com renovada boa vontade. Ainda o achou um tipo frio, capaz de matar alguém, mas não por que fosse um assassino nato, como havia formulado antes da consulta.

Certamente, este mesmo rapaz, daí a pouco, desceria as escadas, livre da tortura, sorrindo feliz e desejando a todos o bem-estar universal.

O atendente entrou.

— Sr. Blunt, por favor.

O paciente, que lia uma revista, levantou-se. Era um homem de estatura média, de uns cincoenta e poucos anos, bom corpo.

Trajava-se de maneira bastante discreta. Seguiu o atendente.

Um dos homens mais ricos e poderosos dá Inglaterra, e ainda assim, tinha que ir ao dentista, como todo o mundo.

Poirot pegou a bengala, o chapéu e dirigiu-se para a porta.

Olhou para trás, por um instante, e concluiu, com certa pena, que o jovem “assassino” deveria estar com uma terrível dor de dentes.

No vestíbulo, Poirot parou, diante do espelho, para ajustar os bigodes que estavam ligeiramente desgrenhados. Depois abriu a porta e saiu.

Um táxi vinha chegando. Parou. Pela porta de trás, viu, saltando do carro, um pé de mulher. Poirot examinou o pé com interesse, depois o bonito tornozelo numa meia de boa qualidade.

Um pé interessante. O único senão, para Poirot, era o sapato de couro, fechado com uma enorme fivela prateada. Hercule sacudiu a cabeça: nada chique, muito caipira! pensou. A senhora saltou do táxi, mas na precipitação prendeu o outro pé na porta, arrancando a fivela, que voou para a calçada. Gentilmente, Poirot correu para apanhá-la e devolveu-a à dona, com uma reverência.

Infelizmente, a senhora parecia ter uns cincoenta anos!

Usava óculos! Seus cabelos louros eram acinzentados, e as roupas estranhas em tons de musgo. Ela agradeceu, deixando cair os óculos e em seguida, a bolsa.

Poirot educadamente apanhou os pertences da estranha senhora. Ela subiu os degraus e apertou a campainha da casa do Dr. Morley.

— Está livre? — perguntou Poirot ao chofer, que

contemplava com desprezo a gorjeta que a freguesa lhe tinha dado.

— Está — respondeu.

— Eu também, livre de tudo.

Ao dizer isso, Poirot notou o ar de estranheza no rosto do chofer.

— Não tenha medo, meu amigo, não estou bêbado. Acabei de sair do dentista e não preciso voltar nos próximos seis meses! Por isso, estou tão feliz.

Capítulo 2

Eram três e quinze, quando o telefone tocou. Hercule Poirot estava sentado numa espreguiçadeira, cochilando, depois de ter devorado um excelente almoço. Quando o telefone tocou, não se mexeu, esperando que o fiel George viesse atender.

Eh, bien? — perguntou Poirot quando George apareceu.

— É o Inspetor Japp.

— Ah!

Poirot pegou o telefone.

Eh, bien, mon ami. Que que há?

— É você mesmo, Poirot?

— Claro que sou.

— Ouvi dizer que você foi ao dentista, hoje de manhã. É

verdade?

— A Scotland Yard anda muito bem informada.

— Um dentista chamado Morley, que mora na Rua Rainha Charlotte, 58.

— Isso mesmo. Por quê?

— Você foi se consultar, ou foi verificar alguma coisa?

— Fui obturar um dente, trocar a obturação de outros dois, que já estavam gastos, se lhe interessa.

— O dentista lhe pareceu... diferente?

— Não. Por quê?

A voz de Japp continuou fria e distante.

— Porque um pouco mais tarde, ele se suicidou.

— O quê?

— Está surpreso? — perguntou Japp.

— Claro que estou.

— Eu também, não estou muito satisfeito com esta versão da história — disse Japp. — Quero falar com você. Pode dar um pulo até aqui?

— Onde você está?

— Na Rua Rainha Charlotte.

— Vou já para aí — respondeu Poirot.

Um policial abriu a porta para Hercule Poirot.

— Sr. Poirot?

— Sim.

— O Inspetor está lhe esperando no segundo andar. Sabe o caminho?

— Estive aqui, hoje de manhã — respondeu Hercule.

No consultório, Hercule encontrou três homens. O Inspetor Japp encaminhou-se para receber o novo visitante.

— Que bom revê-lo, Poirot. Já íamos levar o corpo, quer dar uma olhada?

Um fotógrafo que estava ajoelhado, ao lado do corpo, levantou-se. Poirot deu um passo à frente. O cadáver, perto da lareira, parecia quase vivo. De anormal, só um pequeno buraco escuro na testa e perto da mão direita uma pistola.

Poirot sacudiu a cabeça.

— Podem levá-lo — disse Japp.

O corpo do Dr. Morley foi carregado para o necrotério. Japp e Poirot ficaram sozinhos.

— Já terminamos com quase todas as preliminares:

impressões digitais etc. — disse Japp.

Poirot sentou-se.

— O que aconteceu?

Japp apertou os lábios.

— É possível que ele tenha-se suicidado — respondeu. — É

bem provável, mesmo. No revólver só encontramos suas impressões digitais, mas mesmo assim, não estou satisfeito.

— Quais são suas objeções? — perguntou Poirot.

— Para começar, ele não parecia ter qualquer motivo para se suicidar; gozava de boa saúde, ganhava bem, não parecia ter problemas. Não estava encrencado com mulher alguma, pelo menos que se tenha conhecimento. Além do mais, o Dr. Morley, ultimamente, não aparentava estar melancólico ou deprimido. Por isto, Poirot, eu gostaria de ouvir sua opinião. Você esteve com ele, hoje de manhã, que tal ele lhe pareceu?

Poirot sacudiu a cabeça.

— Igual às outras vezes. Que posso responder? Ele estava no auge da normalidade.

— Portanto, a coisa se torna mais estranha, não acha? —

perguntou Japp. — Além do mais, não é comum uma pessoa se suicidar, durante as horas de trabalho. Por que ele não esperou a noite? Seria muito mais lógico.

Poirot concordou.

— Quando ele morreu?

— Não posso precisar — respondeu Japp. — Ninguém parece ter ouvido o tiro, o que não é de espantar. Existem, entre o corredor e o consultório, duas portas forradas com feltro, para impedir que se escutem os gritos das vitimas, imagino!

— Provavelmente, alguns pacientes suportam mal o motor.

— É mesmo — concordou Japp. — Além disso, a rua é muito barulhenta, de forma que, de fora, ninguém poderia escutar nada.

— Mas, quando descobriram Morley?

— Lá pela uma e trinta, o atendente, Alfred Briggs, um sujeito meio retardado, atendendo às reclamações da paciente de meio-dia e meia resolveu ver o que estava atrasando tanto o doutor. Bateu na porta e como não obtivesse resposta, não se atreveu a entrar. Parece que já havia levado uns pitos do patrão por entrar no consultório sem ser chamado, de maneira que ficou com medo de dar outra rata. Alfred desceu e como não soube dar explicação alguma, a cliente se retirou furiosa.

— Quem era ela?

Japp sorriu.

— Segundo Alfred, chama-se Srta. Shirty; mas nós

verificamos tratar-se de uma Srta. Kirby.

— Qual era o sistema empregado para chamar os pacientes?

— Quando Morley estava pronto para receber o paciente, apertava a campainha e o atendente chamava a pessoa.

— Quando foi a última vez que Morley apertou a campainha?

— Meio-dia e cinco. Alfred encaminhou o Sr. Amberiotis, hóspede do Hotel Savoy, segundo o registro de consultas.

Um sorriso passou pelos lábios de Poirot.

— Imagino o que este atendente inventou com um nome

desses!

— Qualquer loucura — disse Japp. — Só para darmos risada vou perguntar depois.

— Que horas Amberiotis saiu?

— O atendente não o viu sair. A maioria dos pacientes prefere descer pela escada.

Poirot assentiu com a cabeça.

— Liguei para o Hotel Savoy — continuou Japp, — e o Sr.

Amberiotis foi bastante preciso. Disse ter visto a hora em que saiu do consultório, isto é, meio-dia e vinte cinco.

— Não disse mais nada de interessante?

— Não, só que o dentista lhe pareceu calmo e natural.

Eh, bien! — disse Poirot. — Isto parece bem claro, entre meio-dia e vinte cinco e uma e meia alguma coisa aconteceu; provavelmente, por volta de meio-dia e meia.

— Tem razão. Porque...

— Senão ele teria tocado a campainha para chamar o

próximo paciente.

— Exatamente. A perícia médica concorda com isto. O legista examinou o corpo às duas e vinte. Não quis se comprometer, o que, aliás, está muito em moda, hoje em dia, mas acha que Morley não pode ter morrido muito depois da uma hora, com grandes possibilidades de ter sido até antes. Por enquanto, porém, não quis dar a palavra final.

Poirot começou a pensar em voz alta.

— Portanto, ao meio-dia e vinte cinco, nosso dentista é um homem normal, alegre, educado e capaz. Depois disso: melancolia, frustração, o que quer que seja e ele se mata!

— Engraçado — disse Japp — você tem que admitir que é engraçado.

— Não creio que seja o adjetivo apropriado.

— Sei que não é; são formas de expressão. Se preferir, emprego a palavra estranho.

— A pistola era de Morley?

— Não, ele não tinha revólver. Segundo sua irmã, não existe arma alguma na casa, o que, aliás, é muito comum. É claro, também, que ele poderia ter comprado uma pistola para se suicidar. Caso seja verdade, vamos saber logo.

— Há algo mais que o preocupe?

Japp coçou o nariz.

— Sim, o jeito como ele estava caído. Não diria que um sujeito não poderia cair daquela maneira, mas havia algo de forçado na posição; também, uma ou duas marcas no tapete como se o corpo tivesse sido arrastado.

— Isto já é mais sugestivo.

— Isso se não estivéssemos lidando com um débil mental, como este atendente, que pode ter mudado a posição do corpo.

Alfred nega, mas na hora estava bastante assustado. É do tipo que está sempre fazendo besteira e levando pito, de maneira que, passa por defesa, a mentir automaticamente.

Poirot olhou o consultório. Examinou a pia, atrás da porta; o armário de vidro, cheio de instrumentos; a cadeira do paciente; o armário de remédios, ao lado da janela; a lareira e finalmente o local onde tinha sido encontrado o corpo. Ao lado da lareira havia uma pequena porta. Japp acompanhou o olhar de Poirot.

— Dá para um pequeno escritório — explicou Japp, abrindo a porta.

Era realmente uma pequena peça, com uma escrivaninha, um abajur, um arquivo, um aparelho de chá e duas cadeiras.

— Aqui trabalha a secretária dele, Miss Nevill — explicou Japp. — Parece que faltou hoje.

Os dois se entreolharam.

— Dr. Morley me contou — lembrou-se Poirot. — Outra pista contrária à teoria do suicídio?

— Como se ela tivesse sido afastada de propósito? —

perguntou Japp. — Se não foi suicídio, ele foi assassinado. Mas, por quê? Uma coisa é tão absurda quanto a outra. O dentista parecia ser um homem pacato, bom, cumpridor dos seus deveres.

Quem iria querer matá-lo?

— Boa pergunta. Quem?

— E qualquer pessoa da casa poderia tê-lo feito. A irmã, um dos empregados, ou o sócio, o Dr. Reilly. E por que não o atendente ou o Sr. Amberiotis, que esteve com ele durante a consulta?

Poirot concordou.

— Neste caso temos que investigar o porquê.

— Claro — disse Japp, — voltamos ao problema original. Por quê? Amberiotis está hospedado no Hotel Savoy. A propósito de que um milionário grego mataria um inofensivo dentista? O duro vai ser descobrir o motivo.

Poirot sacudiu os ombros.

— Na minha opinião a Morte selecionou, de maneira pouco artística, o homem errado. O grego misterioso, o rico banqueiro, o famoso detetive, poderiam facilmente ser os visados. É sabido que estrangeiros misteriosos podem estar metidos em espionagem; que banqueiros ricos, ao morrer, deixam parentes próximos, em ótimas condições; e que famosos detetives podem ser um perigo para os criminosos.

— E Morley, ao contrário, não era perigoso para ninguém —

disse Japp, com tristeza.

— Disso, não tenho tanta certeza — retrucou Poirot.

Japp virou-se bruscamente.

— Por que diz isto?

— Por nada. Foi um comentário apenas, que ele fez hoje de manhã. Disse que era um ótimo fisionomista, mas incapaz de lembrar o nome das pessoas. Há dias que estava tentando lembrar o nome de um paciente.

Japp pareceu cético.

— É possível — concordou, — mas acho um pouco demais.

Deve ter sido alguém que quis manter o anonimato. Você reparou nos outros pacientes de hoje?

— Reparei num rapaz, na sala de espera — disse Poirot, —

que parecia um perfeito assassino.

— O quê?

Mon cher, eu estava chegando — desculpou-se Poirot, —

estava nervoso, deprimido, enfim, de péssimo humor. Tudo me parecia sinistro: a sala de espera, os pacientes, até a passadeira da escada. Na verdade, acho que o pobre rapaz estava mesmo era com dor de dentes!

— Entendo — disse Japp. — De qualquer maneira temos que interrogar este rapaz também. Vamos descobrir se foi ou não foi suicídio. Primeiro acho que devo ter outra conversa com a irmã de Morley, pois só troquei duas palavras com ela, quando entrei. Ela estava muito abalada mas não é do tipo de ficar prostrada na cama. Vamos dar um pulo até lá em cima.

Georgina Morley, bastante triste, recebeu os dois, ouviu com atenção o que disseram e respondeu a todas as perguntas.

— Acho impossível... impossível, que meu irmão tenha-se matado.

— Mas, então, só haveria outra alternativa, mademoiselle.

— Um assassinato? — Georgina Morley ficou calada, por uns instantes. — É verdade, esta alternativa também me parece impossível.

— Mas, não tanto quanto a do suicídio?

— Sim, porque no caso de suicídio eu estou me baseando numa coisa que sei, o estado de ânimo do meu irmão. Sei que ele não tinha qualquer preocupação, que não havia justificativa alguma para se suicidar.

— A Senhorita esteve com ele, pela manhã?

— Tomamos café juntos.

— Ele lhe pareceu normal, não estava preocupado com coisa alguma?

— Estava preocupado, mas não a ponto de se suicidar. Para ser exata ele estava zangado.

— Por quê?

— Teria uma manhã cheia de clientes e sua secretária não podia vir. Tinha sido chamada às pressas por um parente.

— A Srta. Nevill?

— É.

— Quais eram os encargos da Srta. Nevill?

— Toda a correspondência, marcar as horas com os clientes, arquivar as fichas. Também esterilizava os instrumentos, preparava a massa para as obturações.

— Há muito tempo que ela trabalha com seu irmão?

— Três anos. É muito eficiente e nós gostamos... meu irmão gostava muito dela.

— Seu irmão me disse que ela tinha sido chamada por causa de uma doença na família — disse Poirot.

— É verdade. Ela recebeu um telegrama, dizendo que a tia tinha sofrido um enfarte. Partiu, de trem, hoje de manhã para Somerset.

— Por isto seu irmão estava zangado?

— Sim — hesitou a Srta. Morley, mas continuou

apressadamente, — o senhor não deve fazer uma idéia errada do meu irmão. É que ele achava que...

— Achava o quê, Srta. Morley?

— Que ela tivesse inventado o telegrama para poder faltar.

Não me interpretem mal, tenho certeza de que Gladys seria incapaz disso. Cheguei mesmo a dizer isso a Henry. O que acontece é que ela está noiva de um rapaz meio sem juízo, e Henry andava aborrecido com isso, e achou que o noivo teria convencido Gladys a tirar um dia de folga.

— E possível?

— Não, claro que não. Gladys é uma moça muito

conscienciosa.

— Mas o noivo poderia ser capaz de tal idéia?

— Acho que sim.

— Onde ele trabalha, este rapaz, e como é o nome dele?

— Frank Carter. É agente de seguros ou coisa parecida.

Perdeu o emprego há algumas semanas e ainda não arranjou outro. Henry achava, e sou obrigada a concordar, que ele não vale nada. Gladys lhe emprestava dinheiro o que irritava Henry ainda mais.

— Seu irmão tentou convencê-la a desmanchar o noivado?

— perguntou Japp.

— Tentou.

— Então Frank Carter, provavelmente, teria razões para odiar seu irmão?

O peito do fuzileiro se inflou.

— Que bobagem! O senhor está sugerindo que Frank Carter matou Henry? É verdade que Henry aconselhou Gladys a arranjar outro noivo. Infelizmente, ela é tão boba, que não seguiu o conselho; continua apaixonada por Frank...

— A Senhorita conhece outra pessoa que, por alguma razão, teria raiva do seu irmão?

Georgina Morley sacudiu a cabeça.

— Seu irmão mantinha boas relações com o sócio, o Dr.

Reilly?

— As melhores possíveis — respondeu Georgina, com certo azedume, — em se tratando de um irlandês.

— Como assim?

— Ora, os irlandeses são conhecidos pelo temperamento belicoso, além de gostarem de discussões inúteis. No caso de Reilly, é um homem louco para discutir sobre política.

— É tudo?

— É. O Dr. Reilly pode ser um homem relaxado em diversos aspectos, mas é uma pessoa muito capaz no exercício de sua profissão. Pelo menos, era esta a opinião do meu irmão.

— Relaxado, de que maneira?

A Srta. Morley pareceu hesitar.

— Ele bebe demais, mas por favor, espero que isto fique entre nós.

— Houve, entre seu irmão e ele, alguma discussão por causa de bebida?

— Henry pode ter tocado no assunto, com ele, uma ou duas vezes — ponderou a Srta. Morley, em tom didático. — Na odontologia é necessário ter-se mão firme. Além do mais, o hálito etílico de um dentista pode tirar a confiança de um cliente.

Japp concordou.

— A Senhorita está a par da situação financeira do seu irmão?

— Ele estava ganhando bem e tinha uma quantia razoável de reserva e de investimentos. Além do mais, tínhamos um pecúlio herdado do nosso falecido pai.

— Sabe se o Dr. Morley deixou algum testamento?

— Deixou. Sei até os termos: para Gladys Nevill: 100 libras; o resto para mim. Compreendo agora...

Ouviu-se um estrondo do lado de fora. A porta abriu-se e Alfred surgiu, de olhos esbugalhados, examinando um por um dos presentes, enquanto falava.

— A Srta. Nevill chegou. Chegou e está muito mal. Ela quer saber se deve entrar.

Japp concordou e a Srta. Morley virou-se para Alfred.

— Diga-lhe para entrar, Alfred.

— Tá certo — respondeu o atendente, desaparecendo.

— Este menino é um caso de POLÍCIA! — comentou a Srta.

Morley.

Gladys Nevill era uma moça de vinte e oito anos, alta, loura e ligeiramente anêmica. Embora estivesse muito abalada, preferiu ser imediatamente interrogada pelo Inspetor. Para afastá-la da Srta. Morley, o Inspetor Japp pretextou ter que examinar algumas fichas do Dr. Morley, conduzindo, assim, a secretária para o escritório.

— Não posso acreditar numa coisa dessas! Parece incrível que o Dr. Morley fizesse uma coisa dessas! — repetia, sem cessar, Gladys.

— A Senhorita foi chamada, às pressas, hoje? — perguntou o Inspetor.

— Sim, e afinal não passou de uma brincadeira de mau gosto. Detesto este tipo de gracinha.

— Como assim?

— Acontece que minha tia não tinha nada! Estava muito bem de saúde. É claro que fiquei aliviada, mas também furiosa.

Me mandarem um telegrama urgente, naqueles termos!

— O telegrama está com a Senhorita?

— Não, acho que o joguei fora, na estação. Dizia

simplesmente: Tia teve enfarte ontem à noite. Venha

imediatamente.

— A Senhorita tem certeza — pigarreou Japp,

delicadamente, — que não foi seu amigo, Frank Carter, quem enviou este telegrama?

— Frank? Com que propósito? Ah! sei... como se nós

estivéssemos mancomunados? De modo algum, Inspetor. Nenhum de nós dois seria capaz de uma coisa dessas.

Gladys parecia realmente indignada, de maneira que levou um certo tempo, para o Inspetor Japp apaziguá-la. Mudando de assunto, quis saber sobre os clientes da manhã.

— Estão todos aqui anotados. Creio que o senhor já viu a agenda. Conheço a maioria. Às dez a Sra. Soames, para tratar da ponte; às dez e meia, Lady Grant, uma senhora bastante idosa; às onze, o Sr. Hercule Poirot, que nos consulta regularmente... ora, é claro, desculpe não tê-lo reconhecido antes, Sr. Poirot, mas estou tão nervosa! Às onze e meia, o Sr. Alistair Blunt, o famoso banqueiro; ia ter uma consulta rápida, por se tratar de um curativo. Em seguida, a Srta. Sainsbury Seale, que nos telefonou, porque estava com dor de dentes, de maneira que teve que ser encaixada, entre dois horários. É uma senhora muito tagarela, que se preocupa com tudo e com todos. Ao meio-dia, o Sr.

Amberiotis, um cliente novo, que marcou a consulta através do Hotel Savoy. O Dr. Morley recebe muitos clientes do estrangeiro.

Ao meio-dia e meia, a Sra. Kirby...

— Quando cheguei — interrompeu Poirot, — havia um

militar, na sala de espera. Quem era?

— Certamente um cliente do Dr. Reilly. Quer que eu apanhe a agenda dele?

— Obrigado, Srta. Nevill.

Dois minutos depois, ela estava de volta com uma agenda semelhante.

— Às dez horas, Betty Heath, uma menina de nove anos... as onze horas, o Coronel Abercrombie.

Ç’était ça! Coronel Abercrombie.

— Às onze e meia, o Sr. Howard Raikes; ao meio-dia o Sr.

Barnes, e é só. O Dr. Reilly não tem tantos pacientes quanto o Dr.

Morley.

— O que a Senhorita sabe sobre estes clientes do Dr. Reilly?

— O Coronel Abercrombie é um cliente antigo; todos os filhos da Sra. Heath se tratam com o Dr. Reilly. Já ouvi falar no Sr. Barnes e creio que também no Sr. Raikes, mas não sei nada sobre eles. Quem atende o telefone, sou eu...

— Não tem importância — interveio Japp, — podemos

perguntar tudo isto diretamente ao Dr. Reilly.

A Srta. Nevill retirou-se. Japp voltou-se para Poirot.

— Todos clientes antigos de Morley, exceto Amberiotis. Logo mais vou ter uma conversa com esse senhor. Pelo que parece, ele foi a última pessoa a ver Morley vivo; mas temos que ter certeza de que, quando ele saiu do consultório, Morley ainda estava vivo.

— Mesmo assim, para Amberiotis matar Morley precisaria haver uma razão — comentou Poirot, sacudindo a cabeça.

— Eu sei! Isso não vai ser fácil. Talvez lá, no Departamento, exista alguma informação sobre Amberiotis.

— Estou pensando numa coisa...

— O quê?

— Por que está aqui?

— Como?

— Foi o que eu disse. Por que está aqui? Geralmente, um Inspetor da sua importância não é chamado para resolver casos de suicídio.

— Acontece que eu estava aqui, por perto, na hora. Estou investigando um grupo de estelionatários muito inteligentes, que estão me dando muito trabalho. Foi, então, que recebi um telefonema.

— Ainda não entendi por que você foi chamado.

— É óbvio; por causa de Alistair Blunt. Logo que o Inspetor do Distrito soube do caso, associou o acidente com a consulta do banqueiro. O Sr. Blunt é o tipo do homem em quem a Polícia anda de olho, vinte e quatro horas por dia.

— Isto quer dizer que existem pessoas que gostariam de afastar Blunt do convívio dos mortais?

— Claro que sim. Os comunistas, por exemplo. Blunt e o seu grupo determinam a política financeira do nosso Governo. Por isso, para não correr o risco de deixar escapar nada, me enviaram para cá.

Poirot concordou.

— Foi o que pensei. E sinto que esta nossa história — disse Poirot, sacudindo as mãos — não está bem contada. A verdadeira vítima deveria ser Alistair Blunt, ou talvez, este seja o primeiro de uma série de crimes. Sinto cheiro de dinheiro neste negócio.

— Você não está exagerando?

— Estou somente insinuando que ce pauvre Morley era apenas um peão no tabuleiro. Talvez ele soubesse algo; talvez tivesse contado a Blunt alguma coisa. Não sei.

Gladys Nevill interrompeu a conversa.

— O Dr. Reilly está ocupado, extraindo um dente. Daqui a dez minutos estará livre.

— Muito bem, obrigado — disse Japp. — Enquanto isso, vamos ter outra conversa com o atendente.

Alfred estava confuso. Não sabia se devia ficar nervoso, se divertir, ou ter medo. Não sabia, também, se seria acusado por ser o causador de toda a confusão.

Começara a trabalhar para o Dr. Morley, havia quinze dias, e desde então, tinha executado, sistematicamente, todas as ordens que lhe davam, errado. Um eterno sentimento de culpa pairava sobre ele.

— O doutor estava bem nervoso — disse Alfred, — mas não lembro de mais nada. Nunca pensei que ele fosse se matar.

Poirot interveio.

— Você precisa nos contar tudo que aconteceu hoje de manhã. Você é uma testemunha importante e sua versão dos fatos poderá nos ser de grande utilidade.

O rosto de Alfred tornou-se rubro; seu peito cresceu. Ele já havia relatado os acontecimentos da manhã a Japp mas, diante de Poirot, sentiu-se de uma importância capital.

— Posso contar o que quiserem, é só perguntar.

— Para começar, aconteceu alguma coisa de estranho, hoje, aqui?

— Que eu lembre, não — respondeu Alfred, meio tristonho.

—- Tudo se passou como nos outros dias.

— Pessoas estranhas apareceram?

— Não, senhor.

— Nem mesmo acompanhando os clientes?

— Ninguém apareceu aqui, que não fosse esperado, se é isto que o senhor quer dizer. Todos tinham hora marcada.

Japp concordou.

— Alguém poderia ter entrado pela outra porta? —

perguntou Poirot.

— Não, precisaria ter chave, né?

— Sair da casa, porém, não era difícil?

— Não, é só abrir a porta. A maioria dos clientes sai desta maneira. Descem pela escada, enquanto eu levo o novo cliente de elevador lá para cima.

— Entendo. Descreva os clientes de hoje.

Alfred pareceu refletir, longamente.

— Bom, uma mulher com uma criança para o Dr. Reilly.

Uma senhora chamada Soap, para o Dr. Morley.

— É isso mesmo — concordou Poirot.

— Depois uma velha, bacana à beça, veio numa Mercedes.

Quando ela saiu, entrou um militar; aí, depois dele, o senhor.

— É verdade.

— Aí, veio o americano.

— Americano? — perguntou Japp, surpreso.

— É, um cara moço. Era americano, a gente via logo pelo sotaque. Chegou cedo; tinha hora para às onze e trinta, mas não sei por que não foi atendido.

— O quê?

— Quando eu fui levar ele ao Dr. Reilly, devia ser onze e meia ou vinte para o meio-dia, mas ele já tinha se mandado. Deve ter tido medo, ou coisa assim — comentou Alfred, com ar de entendido. — Às vezes, eles têm medo, sabe?

— Então ele deve ter saído logo depois de mim? — perguntou Poirot.

— É verdade. O senhor saiu depois de eu ter subido com o Sr. Blunt, que veio num Rolls Royce. Um carro espetacular. Aí, eu desci, abri a porta e mandei a mulher entrar. Uma tal Srta. Some Berry Seal, ou coisa parecida. Aí, eu, bem, fui comer um troço na cozinha e a campainha do Dr. Reilly tocou e eu fui buscar o americano que, como já disse, tinha ido embora. Contei ao Dr.

Reilly, que achou ruim à beça, e xingou todos os palavrões que sabia.

— Continue — disse Poirot.

— Deixa eu ver... o que aconteceu. Ah! A campainha do Dr.

Morley tocou, chamando a Srta. Seal. O tal banqueiro desceu e eu levei a mulher lá para cima. Voltei, e abri a porta da rua para dois caras. Um sujeito com fala fina, que é cliente do Dr. Reilly, e um gringo gordo que tinha hora com o Dr. Morley. A tal da Srta. Seal não demorou muito: uns quinze minutos. Levei ela para a porta e chamei o estrangeiro. O outro cliente já estava com o Dr. Reilly...

— Você viu o Sr. Amberiotis sair?

— Não, não vi. Ele deve ter achado a saída sozinho. Também não vi sair o cliente do Dr. Reilly.

— Onde é que você estava depois do meio-dia?

— Eu sempre fico no elevador, esperando a campainha da porta ou dos consultórios tocar.

— Mas, hoje, ao meio-dia, talvez você estivesse lendo?

Alfred enrubesceu.

— Que mal há nisso? Não tinha nada pra fazer.

— Muito justo. O que estava lendo?

A Morte às Onze e Quarenta e Cinco. Um livro policial americano, bacana à beça! É sobre um pistoleiro.

Poirot sorriu.

— Do lugar em que estava, você ouviria a porta da frente bater?

— Se alguém saísse? Não, acho que não. O elevador é no fundo à direita do hall. As campainhas é que ficam ao lado do elevador. Estas, eu nunca deixo de ouvir.

— Que houve, em seguida? — perguntou Japp.

Alfred franziu a testa, fazendo esforço para se lembrar.

— A última cliente era a Miss Shirty. Fiquei esperando a campainha do Dr. Morley tocar, mas ele não tocou, e aí, a dona, quando foi uma hora, começou a criar caso.

— Não lhe ocorreu subir e verificar se o Dr. Morley já estava livre?

Alfred sacudiu a cabeça violentamente.

— Eu, nunca! Nem de longe. Pra mim o gringo ainda estava lá, com ele. Eu tinha que esperar pela chamada. É claro que, se eu soubesse que o doutor tinha-se matado...

Alfred sacudiu a cabeça com mórbido prazer.

— A campainha costumava tocar, antes ou depois, do cliente sair?

— Dependia. Geralmente o cliente saía pela escada e então a campainha tocava. Se eles chamavam o elevador, a campainha tocava enquanto eu estava descendo com eles. Não era sempre assim. Às vezes o Dr. Morley deixava passar uns minutos antes de chamar o outro cliente; se ele estava com pressa, a campainha tocava assim que o cliente saía do consultório.

— Entendo — disse Poirot. — Você ficou surpreso com o suicídio do Dr. Morley?

— Caí pra trás. Na minha opinião, ele não tinha razão pra fazer uma coisa dessas... — os olhos de Alfred de repente arregalaram-se. — Ou será que ele foi assassinado?

Poirot interveio, antes que Japp pudesse responder.

— Se isto fosse verdade, você ficaria espantado?

— Bem, não sei, quer dizer, sei lá. Não entendo, quem iria querer matar o doutor? Era um homem tão pacato. Ele foi mesmo assassinado?

— Nós temos que examinar a questão sob todos os ângulos

— respondeu Poirot, com circunspecção, — por isso, disse que você era uma testemunha de muita importância e que seu depoimento nos era muito precioso.

— Bem, eu não lembro de mais nada!

O atendente parecia dizer a verdade.

— Muito bem, Alfred. Você tem certeza de que ninguém mais, além dos clientes, entrou nesta casa, hoje de manhã?

— A única pessoa de fora que entrou aqui foi o namorado de Miss Nevill, que ficou furioso de não encontrar ela aqui.

— A que horas foi isto? — perguntou Japp, incisivo.

— Um pouco depois do meio-dia. Aí, eu disse que Gladys não vinha hoje, e ele ficou tão passado que disse que ia esperar pra falar com o Dr. Morley. Eu disse que o Dr. Morley estava ocupado até a hora do almoço e ele respondeu que não tinha importância, que esperava.

— E esperou? — perguntou Poirot.

O rosto de Alfred demonstrou surpresa.

— É mesmo! Nem me lembrava mais. Ele foi pra sala de espera, mas quando eu voltei lá, depois, ele não estava mais. Deve ter-se cansado de esperar e achou melhor voltar outra hora!

— Você acha que deveria ter falado em assassinato com o garoto? — perguntou Japp, assim que Alfred saiu.

Poirot deu de ombros.

— Acho que sim. Qualquer coisa que ele tenha ouvido ou visto funcionará como estímulo e o manterá alerta.

— Ainda assim, eu acho que foi um pouco cedo para tocar no assunto.

Mon cher, aí é que você se engana. Alfred, por exemplo, lê novelas policiais, é um apaixonado por crimes. Qualquer comentário que ele fizer vai ser tomado, pelos outros, como fruto da sua mórbida imaginação.

— Talvez você tenha razão. Vamos ouvir, agora, o que Reilly tem para nos dizer.

O consultório do Dr. Reilly ficava no primeiro andar; ocupava a mesma área que o consultório de Morley, mas não era tão claro, nem tão ricamente aparelhado.

O sócio do Dr. Morley era um jovem alto e moreno. Suas características mais marcantes eram um tufo de cabelos negros, eternamente caídos sobre a testa, uma voz agradável e um olhar inteligente.

— Esperamos Dr. Reilly — disse Japp, depois das

apresentações, — que o senhor possa nos esclarecer algo sobre o que aconteceu.

— Infelizmente, acho que não vai ser possível — retrucou o jovem. — A única coisa que posso lhe adiantar é que, para mim, Henry Morley seria a última pessoa sobre a face da terra capaz de cometer suicídio. Eu seria capaz de me matar... mas ele?

— Por que o senhor se mataria? — perguntou Poirot.

— Tenho tantos problemas, financeiros para começar. Nunca consegui equilibrar meus gastos com os meus ganhos. Morley, ao contrário, era um homem cuidadoso. Tenho certeza de que não deixou dívidas.

— E os casos amorosos? — sugeriu Japp.

— Morley? O senhor está brincando. Ele nunca se divertiu na vida, vivia agarrado à saia da irmã. Pobre homem!

Japp resolveu mudar de assunto, e perguntar sobre os clientes de Reilly.

— Não vejo nada de suspeito neles. Betty Heath é uma criança, trato aliás da família inteira, o Coronel é um velho cliente, também...

— E o Sr. Howard Raikes? — perguntou Japp.

Reilly sorriu.

— Que foi embora, antes de ser atendido? Nem o conheço.

Ele me telefonou e pediu uma consulta para hoje de manhã.

— De onde ele telefonou?

— Deve ter sido do hotel em que está hospedado. O Holborn Palace Hotel. Pode ser um turista americano.

— Alfred também achou que ele era americano.

— Então deve ser. Alfred é louco por filmes americanos.

— E o seu outro paciente?

— Barnes? Um homem muito meticuloso. É funcionário

público aposentado; mora lá pelos lados de Ealing.

Houve uma pequena pausa.

— O que o senhor sabe sobre Gladys Nevill? — perguntou Japp.

Reilly franziu as sobrancelhas;

— A linda secretária? Daí não vai sair nada... as relações dela com Morley eram estritamente profissionais.

— Eu não sugeri que não fossem — retrucou Japp.

— Então, peço desculpas — disse Reilly. — O senhor vai desculpar minha imaginação, fantasiosa e doentia. Pensei que o senhor estivesse tentando empurrar as coisas pelo lado cherchez la femme. Desculpe falar em francês — continuou Reilly, virando-se para Poirot. — Tenho um ótimo sotaque, não é verdade? Fui criado num colégio de freiras...

Japp não apreciava a desenvoltura de Reilly.

— O senhor sabe alguma coisa sobre o noivo da Srta. Nevill, um rapaz chamado Frank Carter? — interrompeu Japp.

— Morley não gostava muito dele. Parece que tentou tudo para desmanchar o romance.

— O que deve ter irritado Carter?

— Muito — respondeu Reilly, rindo. — Com licença, mas os senhores estão tentando esclarecer um suicídio ou um assassinato?

— Se fosse um assassinato, o senhor teria algo a dizer? —

perguntou Japp, rispidamente.

— Eu, não. Gostaria, porém, que a assassina fosse Georgina.

Um desses casos que uma mulher pacata, de repente, vira um monstro. É claro, que eu também, poderia ter dado uma subida e matado o velho. Mas não se assustem, não fui eu. Aliás, não consigo imaginar porque alguém mataria Morley.

Reilly calou-se por um momento.

— Para falar a verdade — continuou o jovem, — estou bem chateado com o que aconteceu. Não me julguem pelas minhas palavras. Acho que estava nervoso. Eu gostava de Morley e creio que vou sentir falta dele.

Japp desligou o telefone. Seu rosto demonstrava tensão.

— O Sr. Amberiotis não está se sentindo bem. Prefere não me receber hoje. Isto é o que ele pensa! Já tenho um detetive, no Savoy, de olho nele, caso resolva desaparecer.

— Você acha que Amberiotis matou Morley? — perguntou Poirot.

— Não sei. Só sei que ele foi a última pessoa que viu Morley vivo; além do mais, era um cliente novo. De acordo com o que ele falou, ao meio-dia e vinte, quando saiu, Morley estava vivo. Pode ser verdade. Se for, temos que reconstituir o que aconteceu em seguida. Entre um paciente e outro, Morley tinha um intervalo de cinco minutos. Será que alguém o visitou neste momento? Carter?

Reilly? O que será que aconteceu? Dependendo disso, entre meio-dia e vinte e meio-dia e trinta e cinco, no máximo, Morley estava morto, se não teria tocado a campainha ou mandado alguém avisar à Sra. Kirby que não poderia recebê-la. Ou ele foi assassinado, ou recebeu alguma notícia que o traumatizou, a ponto de cometer suicídio.

Japp calou-se. Poirot limitava-se a escutar.

— Vou ter que falar com todos os clientes que ele atendeu, hoje de manhã — continuou o Inspetor. — Existe sempre a possibilidade dele ter dito, a qualquer um deles, algo que nos conduza à pista certa.

Japp olhou para o relógio.

— O Sr. Alistair Blunt me concedeu uns minutos às quatro horas. Vamos vê-lo primeiro. A casa dele é em Chelsea. Depois, podemos ir ver a Srta. Sainsbury Seale que fica a caminho do Hotel Savoy, onde encontraremos Amberiotis. Prefiro ter todos os dados antes de enfrentar nosso amigo grego. Depois vou querer ver o tal americano que você disse ler cara de assassino.

Hercule Poirot sacudiu a cabeça.

— Cara de assassino, não. Cara de dor de dentes.

— De qualquer maneira vamos ver este tal de Raikes. Vamos também checar o telegrama da Sra. Nevill, saber direito esta história da tia, e falar com o noivo. Para encurtar a história, Poirot, vamos examinar este caso até as últimas conseqüências.

Aos olhos do grande público, Alistair Blunt não significava muita coisa. Talvez, por ser ele um homem metódico e simples.

Talvez, por ter sido, durante muitos anos, um príncipe consorte e não um rei.

Rebecca Sanseverato, née Arnholt, chegou a Londres, com quarenta e cinco anos, desiludida da vida. Descendia, de ambos os lados, de famílias milionárias. A mãe era herdeira dos Rotherstein, o pai, chefe do grupo bancário Arnholt. Rebecca, devido a um desastre aéreo, perdeu seus dois irmãos e um primo, tornando-se única herdeira de uma colossal fortuna. Casou-se com um nobre europeu chamado Felipe di Sanseverato. Três anos depois, divorciou-se, obtendo a custódia do filho. Seu casamento tinha sido um desastre completo, seu marido não passava de um vigarista internacional. Alguns anos depois, seu único filho veio a falecer.

Amargurada, Rebecca Arnholt voltou-se para as finanças, aptidão herdada dos pais. Em Londres, encontrou um secretário, enviado ao hotel para esclarecê-la sobre a assinatura de vários documentos. Seis meses mais tarde, surpreendeu o mundo com a notícia do seu casamento com Alistair Blunt, um homem vinte anos mais jovem que ela. Houve os comentários habituais, risos e chacotas. Rebecca, segundo os amigos, era uma romântica incurável! Primeiro, Sanseverato; agora, este rapazola! É claro que ele estava se casando com ela por causa do dinheiro. Ela ia sofrer outra grande desilusão!

Para surpresa geral, o casamento foi um sucesso. Os que achavam que Alistair Blunt iria gastar o dinheiro de Rebecca com outras mulheres se enganaram. Ele se manteve sempre fiel a sua esposa; mesmo depois da morte dela, quando se viu herdeiro de toda a fortuna, Alistair não se casou outra vez. Continuou sua vida pacata de sempre. Seu gênio financeiro era comparável ou superior ao de Rebecca; suas conclusões, seus empreendimentos eram bem fundamentados, seu código moral acima de qualquer suspeita. Alistair controlava os interesses do complexo Arnholt-Rotherstein com grande habilidade. Quase não fazia vida social, tinha uma casa de campo em Kent, outra em Norfolk, onde, às vezes, passava os fins de semana, sempre acompanhado de poucos amigos, todos tão sérios e prudentes quanto ele. Gostava de golfe, esporte que jogava com certa habilidade, e de jardinagem.

A mansão gótica em que Blunt morava era bastante

conhecida em Chelsea. O interior era luxuoso, mas simples. A decoração tendia mais para o conforto do que para os ditames da moda.

Alistair Blunt não fez o Inspetor e seu amigo esperarem muito.

— Já o conheço de nome, é claro, M. Poirot. Recentemente...

eu diria... eu... — Blunt calou-se pensativo.

— Foi hoje de manhã, monsieur, na sala de espera do pauvre Morley — explicou Poirot.

O rosto de Blunt iluminou-se.

— É claro que eu já o tinha visto . — Alistair virou-se para Japp. — Em que lhe posso ser útil? Fiquei muito sentido com a morte do Dr. Morley.

— Surpreso, também, Sr. Blunt?

— Bastante. Eu o conhecia superficialmente, é claro, mas nunca pensei que fosse capaz de se suicidar.

— Ele lhe pareceu bem disposto, hoje de manhã?

— Eu diria que sim — respondeu Blunt, depois de uma

pequena pausa. — Para ser sincero, tenho pavor de ir ao dentista.

Detesto aquele motor! Acho que por isso não notei nada com o pobre dentista. Quando acabou o tratamento e eu estava de saída, achei o Dr. Morley muito bem, alegre e natural.

— O senhor se consultava sempre com ele?

— Acho que esta foi a terceira ou a quarta vez. Meus dentes só começaram a me incomodar, no ano passado. Deve ser a idade.

— Quem lhe recomendou o Dr. Morley? — perguntou Poirot.

Blunt franziu as sobrancelhas num esforço de memória.

— Deixe-me ver... eu senti uma pontada... e alguém me falou nele, que era um dentista muito bom, na Rua Rainha Charlotte...

não... não consigo lembrar quem foi...

— Caso se lembre, por favor, nos comunique — pediu Poirot.

Alistair Blunt olhou para Poirot com ar de curiosidade.

— Claro, claro. É um detalhe muito importante?

— Eu penso que sim.

Quando Japp e Poirot desciam as escadas de mármore, em direção à rua, um carro esporte parou perto deles. Uma moça emergiu das engrenagens complicadas do volante e deu um alô para os dois, que não perceberam que estavam sendo

cumprimentados. A moça insistiu.

— Ei! ei! Vocês aí!

Os dois se voltaram. A moça se dirigiu a eles. Era uma mulher alta, magra, e apesar de não ser bonita, transparecia vivacidade e inteligência. Estava bastante queimada de sol.

— Eu o conheço, o senhor é aquele detetive, Hercule Poirot!

Sua voz era macia e envolvente, e o sotaque ligeiramente americano.

— As suas ordens, mademoiselle.

A moça olhou para Japp, com curiosidade.

— O Inspetor Japp — apresentou Poirot.

— O que estão fazendo aqui? — perguntou a moça, num tom de alarme. — Houve alguma coisa com o meu tio?

— O que poderia ter acontecido ao seu tio? — indagou Poirot.

— Não aconteceu nada? Ótimo.

Japp porém resolveu insistir na pergunta.

— O que poderia acontecer ao seu tio, Senhorita...?

— Olivera; meu nome é Jane Olivera. Dois detetives na porta da minha casa, eu naturalmente pensei em bombas-relógios ou coisas parecidas...

— Não houve nada com o Sr. Blunt — assegurou Poirot.

Jane Olivera o olhou de frente.

— Ele o chamou por alguma razão?

— Nós é que viemos visitá-lo — disse Japp, — para ver se ele poderia esclarecer algo sobre um suicídio ocorrido hoje de manhã.

— Suicídio? De quem? Onde?

— Um dentista chamado Morley.

— Ah! sei — Jane olhou em volta; de repente disse: — Mas, isto é absurdo!

Virou as costas, correu para casa, abrindo a porta da frente com chave própria.

— Isto é que foi um absurdo! — comentou Japp.

— Interessante — murmurou Poirot.

Japp olhou o relógio e chamou um táxi que ia passando.

— Vamos ver Miss Sainsbury Seale, antes de irmos para o Savoy.

Encontraram a Srta. Sainsbury Seale, no hall do Hotel Glengowrie Court, tomando chá. Ela ficou surpresa, com a presença de dois policiais à paisana, mas não se fez de rogada.

Poirot percebeu, com uma certa pena, que ela ainda não havia costurado a fivela do sapato.

— Bem, Inspetor — disse a Srta. Sainsbury Seale, olhando ao redor, — não sei onde poderíamos conversar em particular, a esta hora... quem sabe o senhor e o seu amigo não gostariam de uma xícara de chá?

— Não, muito obrigado — respondeu Japp. — Este aqui é o Sr. Hercule Poirot.

— É mesmo? Então, tem certeza de que não querem mesmo chá? Verdade? Bom, então vamos para a outra saleta, que a esta hora está geralmente vazia. Aquele canto, me parece bem, não concordam?

Ela conduziu os dois a um canto da saleta. Poirot pegou o lenço e a bolsa que a Srta. Sainsbury Seale tinha esquecido na outra sala.

— Ah! muito obrigada. Sou tão distraída! Agora, Inspetor, pode perguntar o que quiser. Que coisa desagradável! Pobre homem! Imagino que estivesse vivendo um grande drama; nos dias de hoje, não seria de espantar, não é mesmo?

— O dentista lhe pareceu de alguma forma preocupado?

— Bem — balbuciou a Srta. Sainsbury Seale, — para dizer a verdade, não. Talvez eu não tivesse reparado, dadas as circunstâncias... eu tenho pavor de ir ao dentista.

Satisfeita com a confissão de covardia, a Srta. Sainsbury Seale inclinou-se para a frente e sacudiu os cachinhos louros.

— Lembra de alguém mais na sala de espera?

— Deixe ver... só um moço, na hora em que eu entrei. Acho que estava com uma horrível dor de dentes, porque resmungava, olhava para os lados, folheava as revista. De repente, ele deu um pulo e saiu. Devia ser uma dor de dentes aguda!

— A senhora não sabe se, quando ele saiu da sala, foi embora?

— Não. Eu achei que ele pensou que não podia esperar mais e resolveu entrar no consultório do dentista de qualquer maneira.

Sei que não foi para o Dr. Morley porque, assim que ele saiu da sala, eu fui chamada pelo atendente.

— A Senhorita passou pela sala de visitas, na hora da saída?

— Não. Penteei os cabelos, refiz a maquilagem, no

consultório do doutor. Certas mulheres — continuou a Srta.

Sainsbury Seale, animadamente — até tiram o chapéu na sala de espera dos consultórios. Eu, não. Uma amiga minha que fez isso arrependeu-se amargamente. Imaginem que ela tinha comprado um chapéu e o colocou numa cadeira. Quando voltou do consultório, vejam só, uma criança tinha sentado em cima do pobre chapéu, reduzindo-o a frangalhos. Que horror!