Uma criatura dócil por Fiódor Dostoiévski - Versão HTML

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1. Quem era eu e quem era ela

Pois é, por enquanto ela está aqui, ainda está tudo bem: venho olhá-la a cada instante; mas amanhã será levada, e como é que irei me arranjar sozinho? Agora ela está na sala, em cima da mesa, juntaram duas mesas de jogo, o caixão vem amanhã, branco, com mortalha de seda branca, mas, aliás, não se trata disso... Eu só faço andar e tentar esclarecer isso tudo para mim mesmo. Já faz seis horas que estou tentando esclarecer e não há meio de concentrar meus pensamentos num ponto. Acontece que eu só faço andar, andar, andar... Eis como tudo se passou. Eu simplesmente contarei pela ordem (ordem!). Senhores, eu estou longe de ser um literato, e isso os senhores 1 A novela Uma criatura dócil foi publicada originalmente no número de novembro de 1876 da revista Diário de um escritor. (N. T.)

verão, mas não importa, contarei o caso tal como o compreendo. E todo o meu horror reside justamente no fato de compreender tudo!

Se querem saber, isto é, se eu começar bem do início, ela veio à minha casa naquela época, sem a menor cerimônia, penhorar uns objetos para pagar um anúncio no Golos 2 em que ela, preceptora, coisa e tal, concorda até mesmo em viajar dar aulas a domicílio etc etc. Isso foi bem no começo, e eu certamente não fazia diferença entre ela e os outros: ela vinha como todos, e até com mais simplicidade. Mas depois passei a fazer. Ela era tão franzina, loirinha, mais para alta do que baixa, sempre desajeitada no trato comigo, parecia perturbar-se (acho que era assim com todos os estranhos, e eu, sem dúvida, era igual a qualquer outro para ela, isto é, não pelo lado do penhorista, mas da pessoa). Tão logo recebia o dinheiro, no mesmo instante dava meia-volta e saía. E o tempo todo calada. Os outros discutem, insistem, regateiam de todo modo para que eu lhes dê mais; ela não, o que dessem... Parece que estou confundindo tudo... Sim, fiquei surpreso, antes de mais nada, com os seus objetos: brincos de prata dourada, uma medalhinha ordinária, jóias baratas. E ela mesma sabia que valiam, quando muito, uns dez copeques, mas pelo seu rosto eu via que eram preciosas para ela – e de fato isso era tudo o que tinha sobrado de seu paizinho e de sua mãezinha, soube depois. Somente uma vez eu me permiti caçoar de seus objetos. Isto é, vejam, isso eu não me permito nunca, meu tom com o público é de gentleman: poucas palavras, cortesia e seriedade. “Seriedade, seriedade, seriedade.” 3 Mas ela de repente se permitiu trazer os restos (isto é, literalmente) de uma jaquetinha velha de pele de lebre – então eu não me contive e de repente disse algo, fiz uma espécie de chiste. Deus meu, como ela corou! Ela tem os olhos azuis, grandes, pensativos, mas como se inflamaram! No entanto, sem deixar escapar uma palavra, pegou seus “restos” e foi-se embora. Nessa altura, pela primeira vez eu reparei nela de um modo particular e pensei sobre ela algo no gênero, isto é, justamente algo num sentido particular. Sim, e lembro ainda a impressão, isto é, possivelmente, se querem saber; a impressão principal, a síntese de tudo: justamente que ela era jovem demais, tão jovem que parecia ter catorze anos. Entretanto, faltavam na época três meses para completar dezesseis.

Aliás, não era isso o que eu queria dizer; não era nisso, em absoluto, que residia a síntese. No dia seguinte, veio de novo. Soube depois que havia levado a jaquetinha para Mozer e Dobronrávov, mas estes, afora ouro, não aceitam nada e nem quiseram conversa. Quanto a mim, certa vez recebi dela um camafeu (assim, baratinho), e depois, ao ponderar, me surpreendi: eu, afora ouro e prata, também não aceito nada, mas aceitei o camafeu. Esse então foi meu segundo pensamento sobre ela, disso eu me lembro.

Dessa vez, isto é, depois do Mozer, ela trouxe uma piteira em âmbar, uma pecinha à toa, coisa de amador, mas que para nós realmente não tem nenhum valor, porque de valor, para nós, só o ouro. Como ela voltou mesmo depois da revolta do dia anterior, eu a recebi com um ar sério. Seriedade em mim é secura. Entretanto, ao entregar-lhe dois rublos, não me contive e disse, aparentando uma certa irritação: “Só faço isso para a senhora, Mozer não aceitaria esse tipo de coisa”. Frisei de modo especial as palavras: “para a senhora”, e justamente com certa intenção.

Fui cruel.

Ela ficou corada outra vez ao ouvir esse “para a senhora”, mas calou-se, não largou o dinheiro, pegou-o – o que não faz a pobreza! E como corou! Percebi que a tinha magoado. E

depois que ela saiu, de repente perguntei-me: será mesmo que esse triunfo sobre ela vale dois rublos? Hi-hi-hi! Lembro-me de que fiz essa pergunta exatamente duas vezes: “será que vale?

Será que vale?”. E, rindo, decidi em meu íntimo pela afirmativa. Isso me deixou até bem alegre.

Mas não foi por um mau sentimento, eu o havia feito com um propósito, com uma intenção; eu queria colocá-la à prova, porque de súbito em minha mente começaram a fermentar certos pensamentos a seu respeito. Essa foi a terceira vez que tive um pensamento particular sobre ela.

Enfim, foi aí que tudo começou. Naturalmente, fui logo tratando de tomar informações por vias indiretas sobre todas as circunstâncias e esperei com ansiedade a sua vinda. Pois eu 2 Voz, semanário da época. (N. T.)

3 “Strogo, strogo i strogo”: o narrador cita O capote, de Gógol. (N. T.) pressenti a que ela não tardaria a voltar. Quando voltou, puxei uma conversa amável, com uma cortesia fora do comum. Pois eu recebi uma certa educação e tenho bons modos. Hum! Aí justamente descobri que ela era boa e dócil. As pessoas boas e dóceis não são de opor resistência por muito tempo e, ainda que não sejam lá de se abrir muito, esquivar-se de uma conversa é coisa que elas não conseguem de jeito nenhum: mal respondem, mas respondem, e quanto mais se insiste, melhor; só que, se estiver interessado, não vá se deixar cansar. Naturalmente que ela mesma na época não me explicou nada. Isso do Golos e do resto eu só fiquei sabendo depois.

Publicava os anúncios então já no limite de seus recursos, de início, naturalmente, com arrogância: “Preceptora”, dizia ela, “disposta a viajar, enviar as condições pelo correio”, mas depois “disposta a tudo, a dar aulas, a ser dama de companhia, a cuidar dos afazeres domésticos, a tratar de doente, e sei costurar” etc etc, o de sempre! Naturalmente que isso tudo foi sendo acrescentado aos anúncios em várias oportunidades, mas por fim, quando já estava chegando à beira do desespero, até mesmo “sem ordenado, pela comida”. Não, não encontrou trabalho!

Decidi então submetê-la à prova uma última vez: pego de repente o Golos do dia e mostro-lhe um anúncio: “órfã de pai e mãe, procura emprego de preceptora para crianças pequenas, de preferência em casa de viúvo idoso. Pode ajudar no trabalho da casa”.

– Aqui está, veja, essa colocou o anúncio de manhã e agora à tarde certamente já deve ter encontrado trabalho. É assim que se deve anunciar!

Corou de novo, os olhos voltaram a chamejai deu meia-volta e saiu no mesmo instante. A coisa me agradou muito. Pensando bem, a essa altura já estava plenamente convencido e não tinha receios: as tais piteiras ninguém ia aceitar. Até porque ela já não tinha piteira nenhuma. E

assim foi, no terceiro dia ela chega, muito pálida, perturbada – eu percebi que alguma coisa tinha lhe acontecido em casa, e de fato acontecera. Já vou explicar o que aconteceu, mas antes o que eu quero é recordar como na hora, de repente, me fiz de chique para ela e cresci aos seus olhos. A idéia me veio de repente. Acontece que ela tinha trazido a tal imagem... Ah, ouçam, ouçam! É

aqui que a coisa começa, até agora só fiz me atrapalhar todo... Acontece que agora eu quero recordar isso tudo, tintim por tintim, nos mínimos detalhes. Não faço senão tentar concentrar os pensamentos num ponto e não consigo, mas há esses detalhes, esses pequenos detalhes...

Era a imagem da Virgem. A Virgem com o Menino, antiga, familiar, caseira, com moldura de prata dourada, devia valer – bem, uns seis rublos, valia. Percebo que a imagem é preciosa para ela, que penhora a imagem toda sem tirar da moldura. Digo-lhe: seria melhor tirar a moldura e levar a imagem; mesmo porque a imagem, de qualquer maneira, não é muito apropriada.

– Por acaso é proibido?

– Não, proibido não é, mas talvez, para a senhora mesma...

– Então, tire.

– Quer saber de uma coisa, não vou tirar, e vou colocar ali no nicho – disse eu, depois de refletir – com as outras imagens, embaixo da lamparina – desde que abri a caixa de penhores, mantive sempre uma lamparina acesa –, e não faça cerimônia, tome dez rublos.

– Não preciso de dez, dê-me cinco, venho resgatá-la sem falta.

– Mas não quer os dez? A imagem vale – acrescentei, notando que seus olhinhos tornavam a luzir. Ela não abriu a boca. Entreguei-lhe cinco rublos.

– Não se deve desprezar ninguém, eu mesmo já passei por tais apuros, e até pior, minha senhora, e se hoje a senhora me vê em tal ocupação... Pois isso foi depois de tudo o que suportei...

– O senhor não está se vingando da sociedade, está? – interrompeu-me de repente com um ar de troça bem sarcástico, no qual, aliás, transparecia muita ingenuidade (isto é, em geral, por que na época decididamente não me distinguia dos outros, tanto que o disse quase sem maldade).

Pensei, “veja só quem é você, seu caráter se revela sob um novo ângulo!”

– Veja – observei no mesmo instante, meio brincalhão, meio enigmático –, “eu sou uma parte daquela força que quer o mal, mas cria o bem...”.

Ela olhou para mim imediatamente e com uma curiosidade, aliás, quase infantil:

– Espere... Que pensamento é esse? De onde vem? Ouvi em algum lugar...

– Não precisa quebrar a cabeça, com estas palavras Mefistófeles recomenda-se a Fausto.

Leu o Fausto?

– Não... Com muita atenção, não.

– Então, não leu absolutamente. Deveria ler. E aliás, torno a perceber nos lábios da senhora um sinal de troça. Por favor, não atribua a mim tanto mau gosto, como se eu, para embelezar meu papel de penhorista, quisesse recomendar-me à senhora como Mefistófeles. Uma vez agiota, sempre agiota. Sabemos disso, minha senhora.

– O senhor é estranho... Eu não queria absolutamente dizer lhe nada nesse sentido...

Queria dizer “Eu não esperava que o senhor fosse uma pessoa culta”, mas não disse, no entanto eu sabia que tinha pensado isso; eu a toquei fundo.

– Veja – observei –, em qualquer atividade é possível fazer o bem. Não é o meu caso, é certo: além do mal, vamos admitir, não faço nada, mas...

– É certo que se pode fazer o bem em qualquer profissão – disse ela, olhando para mim com um olhar vivo e compenetrado. – Absolutamente em qualquer profissão – acrescentou de repente.

Oh, eu me lembro bem, eu me lembro de todos esses momentos! E ainda quero acrescentar que quando essa juventude, essa adorável juventude, deseja dizer alguma coisa inteligente e profunda, então de repente mostra com uma expressão extremamente sincera e cândida que “veja, estou lhe dizendo agora uma coisa inteligente e compenetrada”, e não por vaidade, como é do nosso feitio, mas ainda assim percebe-se que ela própria dá muito valor a tudo isso, não só acredita como respeita e pensa que também os senhores respeitam isso tudo do mesmo modo que ela, Oh, a sinceridade! E aí, justamente, é que vencem. E como isso era encantador nela!

Eu me lembro bem, não me esqueci de nada! Quando ela saiu, tomei de vez a decisão.

Naquele mesmo dia saí para as últimas averiguações e soube tudo o que faltava sobre ela, sobre os podres de agora; os podres de antes eu já conhecia todos pela Lukéria, que nessa época trabalhava na casa dela e que eu tinha subornado uns dias antes. Esses podres eram tão terríveis que eu não consigo compreender como ainda era possível rir como ela fizera havia pouco e mostrar curiosidade pelas palavras de Mefistófeles, achando-se ela mesma em tal horror. Porém, coisas da juventude! Na hora foi exatamente o que pensei a seu respeito com orgulho e alegria, porque aí, de fato, também há magnanimidade: ao que parece, apesar de se encontrar à beira da ruína, as palavras grandiosas de Goethe resplandecem para ela. A juventude, ainda que um pinguinho meio sem rumo, é sempre magnânima. Ou seja, é dela que estou falando, dela apenas.

E o mais importante é que então eu já a olhava como minha e não duvidava do meu poder. Os senhores sabem como esse pensamento é voluptuoso, quando já não se tem qualquer dúvida.

Mas o que se passa comigo? Se continuar assim, quando é que vou concentrar tudo num ponto? Mais rápido, mais rápido – não é disso absolutamente que se trata, oh, Deus!