Uma discussão sobre a constituição da identidade na pós-modernidade por Letícia Vier Machado; Nikolas Olekszechen - Versão HTML

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UMA DISCUSSÃO SOBRE A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE

NA PÓS-MODERNIDADE

Letícia Vier Machado ; Nikolas Olekszechen1

RESUMO: A pós-modernidade é acompanhada de diversos traços, tais como: velocidade de informações, instantaneidade e falta de profundidade, dentre outros, que certamente interferem na subjetividade. O objetivo desta pesquisa é explorar a fragmentação do sujeito e demonstrar como os sintomas pós-modernos podem refletir na formação da identidade. Trata -se de um ensaio teórico, elaborado a partir de textos dos autores Fredric Jameson e outros estudiosos da pós-modernidade, como Bauman e Maffesoli. A partir da delimitação dos temas “pós-modernidade e constituição da identidade, fez-se uso do modelo da “Grelha de leitura” e “Resumo” propostos por Quivy e Campenhoudt (1998). Em seguida, foram comparados os estudos, procurando-se identificar os aspectos que se assemelhavam e que poderiam ter alguma relação com a formação das identidades. Entre os resultados, ressalta -se que a busca de um “eu” que defina o sujeito a partir de sua história, de seu passado, é substituída no mundo pós-moderno por uma ansiedade de viver um presente eterno e intenso, de aproveitar o instante, e por uma necessidade constante de identificação com um “nós” que julga possível suprir a inconsistência do “eu”.

PALAVRAS-CHAVE: identidade; pós-modernidade; subjetividade

INTRODUÇÃO

A pós-modernidade é um conceito que define o momento presente,

iniciado na década de 60 com o período pós-guerra. O terceiro estágio do capitalismo, denominado por Jameson (2002) de “capitalismo tardio”, permitiu que a sociedade pós-moderna se consolidasse como “sociedade de consumo”.

Instantaneidade, velocidade de informações, liquidez (BAUMAN, 2005), perda da historicidade e falta de profundidade (JAMESON, 2002) são alguns dos sintomas que evidenciam a pós-modernidade e conseqüentemente se manifestam no sujeito. Contudo, a compreensão da contemporaneidade não se encerra apenas nessas questões, mas envolve também outros aspectos, como por exemplo, a fluidez dos sentimentos (BAUMAN, 2003) que reflete nas relações e conseqüentemente na formação das identidades. É de extrema complexidade o entendimento de um contexto que se altera a todo instante, que não é estático e, sendo assim, a experiência de viver e de se relacionar com o outro e com o mundo se apresenta como um desafio constante. Diante disso, como esse quadro pode afetar a identidade dos indivíduos?

A partir dessa problematização, esta pesquisa foi motivada por questões que influenciam diretamente a constituição da subjetividade no tempo-espaço pós-moderno. Seu intuito é explorar a fragmentação do sujeito e demonstrar 1 Discentes do Curso de Psicologia da Universidade Estadual de Maringá, Maringá, Paraná.

leticia.psicouem@yahoo.com.br ; nikolas_psicouem@yahoo.com.br

como os sintomas pós-modernos podem refletir na formação da identidade, seja na forma de identificação (MAFFESOLI, 1996) ou até mesmo na possibilidade de esquizofrenia, apontada por Jameson (1985), entre outros. No entanto, Jameson (1985) não se refere à esquizofrenia no sentido clínico de uma psicose, mas se aproxima do uso que Lacan fez do conceito, no viés do rompimento com uma linearidade temporal que afirmou desembocar na perda da identidade pessoal.

MATERIAL E MÉTODOS

Esta pesquisa é resultante de discussões realizadas no grupo de

estudos “Neoliberalismo e a constituição da subjetividade” do curso de Psicologia da Universidade Estadual de Maringá, sob a supervisão da Prof.ª

Ms. Lenita Gama Cambaúva. Inicialmente, a reflexão foi pautada na abordagem sócio-histórica da Psicologia, sendo em seguida ampliada com outras reflexões.

Sendo assim, esta pesquisa é um ensaio teórico, cuja finalidade foi estudar a fragmentação do sujeito na pós-modernidade e seus efeitos na formação da identidade.

A partir de textos do autor Fredric Jameson e dos debates do grupo de estudos, delimitou-se o campo de pesquisa, que se concentrou no tema “pós-modernidade e a constituição da identidade”. Após essa etapa inicial, buscou-se em outros autores referências sobre a pós-modernidade, sobretudo Bauman e Maffesoli, a fim de estender os argumentos teóricos para sustentar a problematização.

Como ferramenta de leitura, fez-se uso do modelo da “Grelha de leitura”

e “Resumo” propostos por Quivy e Campenhoudt (1998). Em seguida, foram comparados os estudos, procurando-se identificar os aspectos que se assemelhavam e que poderiam ter alguma relação com a formação das identidades.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Estudar o homem em seu contexto histórico e social é essencial para a Psicologia. A partir dessa consideração, uma análise da pós-modernidade é imprescindível para que se possa compreender o sujeito contemporâneo e sua identidade, que compõem e são compostos por esse tempo-espaço.

A pós-modernidade emergiu como uma nova ordem social e econômica no período pós-guerra, recebendo também as denominações de capitalismo multinacional, sociedade do espetáculo ou da imagem, capitalismo da mídia, sistema mundial (JAMESON, 2002). Com o surgimento desse período, o sujeito foi desprendendo-se das características que o constituíam no modernismo para incorporar novos elementos a sua subjetividade. Desse modo, o individualismo, a identidade pessoal e a singularidade foram substituídas por uma identidade múltipla, que se dá pela identificação com um todo, e o sujeito tornou-se fragmentado e superficial, perdendo sua historicidade.

Na visão de Jameson (1985), essas intensas modificações acarretaram no que ele denominou de “morte do sujeito”, ou seja, a perda do sentimento de eu singular que reinava na era moderna. Para Maffesoli (1996, p.304) , “ o eu só é uma frágil construção, ele não tem substância própria, mas se produz através das situações e experiências que o moldam num perpétuo jogo de esconde-esconde”. Assim, o eu pós-moderno não é único, mas fragmentado e adaptável ao mundo incerto que o envolve, e a ausência de uma referência estável na realidade,constantemente em movimento, inviabiliza a formação de uma identidade sólida. Nesse uso e abandono constante de máscaras, sobressaem-se aqueles que conseguem interpretar seus múltiplos

personagens de acordo com as relações espaciais e sociais que estabelecem.

É nesse sentido que Bauman (1998), tomando a incerteza como o

princípio da pós-modernidade, afirma que não é mais possível a construção da identidade do modo como se constrói uma casa, mas que essa deve ser feita como um agrupamento de “novos começos”, tão facilmente agrupados quanto demolidos. O autor não propõe, com essa metáfora, que a identidade do sujeito desapareça, mas apenas que não seja rígida, que não se fixe ao corpo por muito tempo. Essa frágil relação que o indivíduo estabelece com o tempo faz com que a experiência e o desejo de viver o presente sejam intensos, uma vez que não tem substratos para constituir um projeto futuro.

Reflexos na formação da identidade. Como conseqüência da ausência de um vínculo demasiadamente firme com a linearidade temporal, o sujeito pós-moderno é apontado por Jameson (1985) como vulnerável à

esquizofreniai. No entanto, essa esquizofrenia não se trata de um diagnóstico da sociedade contemporânea, nem pretende o autor classificar os sujeitos como psicóticos. O autor se utiliza da teoria que o psicanalista francês Jacques Lacan desenvolveu sobre essa psicose para discorrer sobre os efeitos da pós-modernidade na identidade.

Nesse sentido, limitou-se, nesta pesquisa, a compreender a

esquizofrenia do modo como Jameson (1985, p. 22) a analisou, por meio de uma aproximação com a teoria lacaniana, como sendo:

Um distúrbio do relacionamento entre significantes. Para

Lacan, a experiência da temporalidade, da temporalidade

humana (passado, presente e memória) , a persistência da

identidade pessoal através de meses e anos – a própria

sensação vivida e existencial do tempo – são também um

efeito de linguagem. Porque a linguagem possui um passado e

um futuro, porque a frase se instala no tempo, é que nós

podemos adquirir aquilo que nos dá a impressão de uma

experiência vivida e concreta do tempo. Mas já o

esquizofrênico não chega a conhecer dessa maneira a

articulação da linguagem, nem consegue ter a nossa

experiência de continuidade temporal tampouco, estando

condenado, portanto, a viver em um presente perpétuo.

Desse modo, Lacan entende a esquizofrenia como uma questão

essencialmente lingüística, que prejudica a formação da identidade pessoal, uma vez que sua constituição “depende de nossa sensação da persistência do

“eu” e de “mim” através do tempo “ (JAMESON, 1985, p.22) . Considerando que a sensação de existência no tempo é também uma questão de linguagem, e que o esquizofrênico não possui uma cadeia de significantes (materialidades

: palavra, som) sólida para formar um sentido global para si, sua identidade se perde, e o sentimento de vivenciar um presente é contínuo e aterrorizante.

Bauman (2005) afirma que a incapacidade de constituir uma identidade fixa é produto do sentimento de insegurança presente na esfera pós-moderna.

Assim, a procura desenfreada pela “identificação”, por um “nós” que acolha os diversos “eus”, torna -se uma constante. Na visão de Maffesoli (1996, p.303) ,

“essa nebulosa da identificação é um dos mitos pós-modernos” e se identificar é fazer parte de uma cultura, em que o essencial não é o objeto da identificação ao redor do qual se forma o corpo social, mas sim o “estar-junto” e experimentar em comum, integrar-se. Com isso, na medida em que o objeto deixa de despertar o interesse do grupo que com ele se identificava, ele é abandonado, mas o agrupamento permanece e procura outro objeto com o qual venha se identificar.

Essa volatilidade da identificação condiz com a superficialidade da cultura pós-moderna, expressa por Maffesoli (1996, p.333) como: “essa estrutura de cascas de cebola que dá essa impressão ao mesmo tempo de intensidade e de superficialidade que caracteriza a pós-modernidade”. Nessa metáfora, fica clara a pluralidade do indivíduo, a multiplicidade de máscaras que o coabitam e o impedem de constituir um “eu” único na sociedade em que o autor afirma a predominância da estética e da imagem. A superficialidade aparece também âmbito das relações afetivas, em que o outro é um possível objeto de identificação, tornando-se descartável.

Para complementar essa questão, acrescenta-se a falta de profundidade de significados, descrita por Jameson (2002) que, nessa lógica da superficialidade, aponta a arte pós-moderna como uma representação do esvaziamento do sujeito, uma vez que ela é efêmera, destituída de afetividade, não representando nada além de uma estética.

Por fim, nota -se que a identidade na pós-modernidade é marcada pela fragmentação, derivada dessa multiplicidade de referências e, sobretudo, pela ruptura na linearidade temporal na qual a experiência do presente se exacerba, como salienta Bauman (1998, p.113): “cortar o presente nas duas

extremidades, separar o presente da história. Abolir o tempo em qualquer outra forma que não a de um ajuntamento solto, ou uma seqüência arbitrária, de momentos presentes: aplanar o fluxo do tempo num presente contínuo”. A esse conjunto de características, a construção da identidade não é incólume, ao ponto do indivíduo, ao procurar a resposta para “quem sou eu?”, não buscar referências no passado que o constituiu – individual e coletivamente. Isso recai em uma confusão da sua temporalidade, contrariando os limites histórica e socialmente definidos para a categorização das etapas da vida.

CONCLUSÃO

Retomando o objetivo inicial deste ensaio, que se concentrou na análise dos efeitos da pós-modernidade na constituição da identidade, foi possível ressaltar alguns aspectos do contexto que refletem seriamente na formação desta. Da fragmentação à uma esquizofrenia pós-moderna, no sentido em que Jameson (1985) a aplicou, a identidade torna -se múltipla e descartável, resultando em uma “profunda superficialidade” (MAFFESOLI, 1996).

Deste modo, a busca de um “eu” que defina o sujeito a partir de sua história, de seu passado, é substituída por uma ansiedade de viver um presente eterno e intenso, de aproveitar o instante, e por uma necessidade constante de identificação com um “nós” que julga possível suprir a inconsistência do “eu”. Nessa sociedade da imagem e da estética

(MAFFESOLI, 1996), o que resta para a identidade são recortes, o que não a permite de se constituir de forma plena, permanecendo efêmera e moldável.

Algumas limitações persistiram nesta pesquisa, destacando a

impossibilidade de captar um período tão complexo como a pós-modernidade em sua totalidade e a abrangência do tema “identidade” na ótica da Psicologia.

Contudo, uma análise da esfera pós-moderna é essencial para a Psicologia, pois facilita a compreensão da identidade nesse instante vivenciado. Por isso, a continuidade deste estudo estará centrada na fragilidade das relações afetivas e suas implicações na subjetividade, a partir dos traços da contemporaneidade mencionados neste texto.

Por fim, como sugestão para estudos futuros, dada a amplitude do tema, salienta -se pesquisas com diferentes gerações de indivíduos para que se possa analisar os efeitos da pós-modernidade na construção da identidade de acordo a etapa da vida em que se encontram e investigar como essas etapas simultaneamente se diferenciam e convergem para o mesmo instante: o presente.

REFERÊNCIAS

Bauman, Zygmunt. Amor Líquido. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 2003.

Bauman, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 1998.

Bauman, Zygmunt. Identidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 2005.

Jameson, Fredric. Pós-Modernismo : A Lógica Cultural do Capitalismo Tardio.

São Paulo: Editora Ática. 2002.

Jameson, Fredric. Pós-Modernidade e Sociedade de Consumo. Novos Estudos, 12, p. 16-26, 1985.

Maffesoli, Michel. No fundo das aparências. Petrópolis: Vozes. 1996.

Quivy, Raymond; Campenhoudt, Luc Van. Manual de Investigação em Ciências Sociais. Lisboa: Gradiva. 1998.

i Esquizofrenia é uma doença da personalidade total que afeta a zona central do eu e altera toda estrutura vivencial. Entre os sintomas da doença destacam-se alucinações auditivas e visuais, além de sensação de ter as ações controladas e influenciadas por alguma coisa do exterior. (PsiqWEB. Disponível em: WWW.virtualpsy.locaweb.com.br/index.php?art=171&sec=54. Acesso em 08 de outubro de 2008).

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