Uma noite sinistra por Afonso Arinos - Versão HTML

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Afonso Arinos

Uma noite sinistra

MANUEL ALVES. AO CAIR DA NOITE, sentindo-se refeito pelo jantar,

endireitou-se para a tapera, caminhando vagarosamente. Antes de sair,

descarregou os dois canos da garrucha num cupim e carregou-a de novo,

metendo em cada cano uma bala de cobre e muitos bagos de chumbo grosso.

Sua franqueira, aparelhada de prata, levou-a também, enfiada no correão da

cintura. Não lhe esqueceu o rolo de cera, nem um maço de palhas. O arrieiro

partira calado. Não queria provocar a curiosidade dos tropeiros. Lá chegando,

penetrou no pátio pela porteira escancarada.

Era noite.

Tateando com o pé, reuniu um molho de gravetos secos e, servindo-se das

palhas e da binga, fez fogo. Ajuntou mais lenha, arrastando paus de cercas

velhas, apanhando pedaços de tábua de peças em ruína, e com isso formou

uma grande fogueira. Assim alumiado o pátio, o arrieiro acendeu o rolo e

começou a percorrer as estrebarias meio apodrecidas, os paióis, as senzalas

em linha, uma velha oficina de ferreiro com o fole esburacado e a bigorna

ainda em pé,

— Quero ver se tem alguma coisa escondida por aqui. Talvez alguma

cama de bicho do mato,

E andava escarafunchando por aquelas dependências de casa nobre, ora

desbeiçadas, sítio preferido das lagartixas, dos ferozes lacraus e dos

caranguejos cerdosos!

— Senhor! Por que seria? — inquiriu de si para si o cuiabano; e parou à

porta de uma senzala, olhando para o meio do pátio, onde uma caveira

alvadia de boi espácio, fincada na ponta de uma estaca, parecia ameaçá-lo

com a grande armação aberta,

Encaminhou-se para a escadaria que levava ao alpendre e que se abria em

duas escadas, de um lado e de outro, como dois lados de um triângulo,

fechando no alpendre, seu vértice. No meio da parede e erguida sobre a

sapata, uma cruz de madeira negra avultava; aos pés desta, cavava-se um

tanque de pedra, bebedouro do gado da porta, noutro tempo. Manuel subiu

cauteloso e viu a porta aberta, com a grande fechadura sem chave, uma tranca

de ferro caída e um espeque de madeira atirado a dois passos no assoalho.

Entrou. Viu a sala da frente, sua rede armada, e, no canto da parede,

embutido na alvenaria, um grande oratório com portas de almofadas

entreabertas. Subiu a um banco de recosto alto, unido à parede, e chegou o

rosto perto do oratório, procurando examiná-lo por dentro, quando um

morcego enorme, alvoroçado, tomou susto, ciciando, e foi pregar-se ao teto,

donde os olhinhos redondos piscaram ameaçadores.

— Que é lá isso, bicho amaldiçoado? Com Deus adiante e com paz na

guia, encomendando Deus e a Virgem Maria!...

O arrieiro voltou-se, depois de ter murmurado as palavras de esconjuro, e,

cerrando a porta de fora, especou-a com firmeza. Depois, penetrou na casa,

por um corredor comprido, pelo qual o vento corria veloz, sendo-lhe preciso

amparar com a mão espaldada a luz vacilante do rolo. E foi dar na sala de

jantar, onde uma mesa escura e de rodapés torneados, cercada de bancos

esculpidos, estendia-se, vazia e negra.

O teto de estuque, oblongo e escantilhado, rachara, descobrindo os caibros

e rasgando uma nesga de céu por uma frincha de telhado. Por aí corria uma

goteira no tempo das chuvas e, embaixo, o assoalho podre ameaçava tragar

quem se aproximasse despercebido. Manuel recuou e dirigiu-se para os

cômodos do fundo. Enfiando por um corredor que parecia conduzir à cozinha,

viu, ao lado, o teto abatido de um quarto, cujo soalho tinha no meio um

montículo de escombros. Olhou para o céu e viu, abafando a luz apenas

adivinhada das estrelas, um bando de nuvens escuras, roldando. Um outro

quarto havia junto deste, e o olhar do arrieiro deteve-se, acompanhando a luz

do rolo no braço esquerdo erguido, sondando as prateleiras fixas da parede,

onde uma coisa branca luzia. Era um caco velho de prato antigo. Manuel

Alves sorriu para uma figurinha de mulher, muito colorida, cuja cabeça

aparecia ainda pintada ao vivo na porcelana alva.

Um zunido de vento impetuoso, constringido na fresta de uma janela que

olhava para fora, fez o arrieiro voltar o rosto de repente e prosseguir o exame

do casarão abandonado. Pareceu-lhe ouvir nesse instante a zoada plangente de

um sino ao longe. Levantou a cabeça, estendeu o pescoço e inclinou o ouvido,

alerta: o som continuava zoando, zoando, parecendo ora morrer de todo, ora

vibrar ainda, mas sempre ao longe.

— E o vento, talvez, no sino da capela.

E penetrou num salão enorme, escuro. A luz do rolo, tremendo, deixou no

chão uma réstia avermelhada. Manuel foi adiante e esbarrou num tamborete

de couro, tombado aí. O arrieiro foi seguindo, acompanhando uma das

paredes. Chegou ao canto e entesou com a outra parede.

— Acaba aqui, murmurou.

Três grandes janelas, ao fundo, estavam fechadas.

— Que haverá aqui atrás? Talvez o terreiro de dentro. Deixe ver.

Tentou abrir uma janela, que resistiu. O vento, fora, disparava, às vezes

reboando como uma vara de queixadas em redemoinho no mato.

Manuel fez vibrar as bandeiras da janela a choques repetidos. Resistindo

elas, o arneiro recuou e, de braço direito estendido, deu-lhes um empurrão

violento. A janela, num grito estardalhaçante, escancarou-se e uma rajada

rompeu por ela adentro latindo qual matilha enfurecida; pela casa toda houve

um tatalar das portas, um ruído de reboco que cai das paredes altas e se

esfarinha no chão.

A chama do rolo apagou-se à lufada e o cuiabano ficou só, babatando na

treva.

Lembrando-se da binga, sacou-a do bolso da calça; colocou a pedra com

jeito e bateu-lhe o fuzil; as centelhas saltavam para a frente, impelidas pelo

vento, e apagavam-se logo. Então, o cuiabano deu uns passos para trás,

apalpando até tocar a parede do fundo. Encostou-se nela e foi andando para os

lados, roçando-lhes as costas, procurando o entrevão das janelas. Aí,

acocorou-se e tentou de novo tirar fogo: uma faiscazinha chamuscou o

isqueiro e Manuel Alves soprou-a delicadamente, alentando-a com carinho; a

princípio, ela animou-se, quis alastrar-se, mas de repente sumiu-se. O arrieiro

apalpou o isqueiro, virou-o nas mãos e achou-o úmido; tinha-o deixado no

chão, exposto ao sereno, na hora em que fazia a fogueira no pátio e percorria

as dependências deste.

Meteu a binga no bolso e disse:

— Espera, diaba, que tu hás de secar com o calor do corpo!

Neste entrementes, a zoada do sino fez-se ouvir de novo, dolorosa e

longínqua. Então o cuiabano pôs-se de gatinhas, atravessou a faca entre os

dentes e marchou como um felino, sutilmente, vagarosamente, de olhos

arregalados, querendo varar a treva. Súbito um ruído estranho fé-lo estacar,

arrepiado e encolhido como um jaguar que prepara o bote.

No teto, soaram uns passos apressados de tamancos paracatando e uma voz

rouquenha pareceu proferir uma imprecação. O arrieiro assentou-se nos

calcanhares, apertou o ferro nos dentes e puxou da cinta a garrucha; bateu

com os punhos cerrados nos fechos da arma, chamando a pólvora aos ouvidos

e esperou. O ruído cessara; a zoada do sino continuava, intermitentemente.

Nada aparecendo. Manuel tocou para diante, sempre de gatinhas; mas,

desta vez, a garrucha, aperrada na mão direita, batia no chão a intervalos

rítmicos, como a úngula de um quadrúpede manco. Ao passar junto ao quarto

do teto esboroado, o cuiabano lobrigou o céu e orientou-se. Seguiu então pelo

corredor afora, apalpando. Novamente parou, ouvindo um farfalhar distante,

um sibilo como o da refega no buritizal.

Pouco depois, um estrépito medonho abalou o casarão escuro e a ventania

— alcatéia de lobos rafados — investiu uivando e passou à disparada,

estroando uma janela. Saindo por aí, voltaram de novo os austros furentes,

perseguindo-se, precipitando-se, gargalhando sarcasticamente pelos salões

vazios.

Ao mesmo tempo, o arrieiro sentiu no espaço um arfar de asas, um soído

áspero de aço que ringe e, na cabeça, nas costas, umas pancadinhas

assustadas. Pelo espaço todo ressoou um psiu, psiu, psiu!... e um bando

enorme de morcegos sinistros torvelinhou no meio da ventania.

Manuel foi impelido para a frente, à corrimaça daqueles mensageiros do

negrume e do assombramento. De músculos crispados, num começo de reação

selvagem contra a alucinação que o invadiam, o arrieiro alapardava-se,

eriçando-se-lhe os cabelos; depois, seguia de manso, com o pescoço estendido

e os olhos acesos, assim como um sabujo que negaceia. E foi rompendo a

escuridão, à caça desse ente maldito, que fazia o velho casarão falar ou gemer,

ameaçá-lo ou repeli-lo, num conluio demoníaco com o vento, os morcegos e a

treva.

Começou a sentir que tinha caído num laço armado, talvez, pelo maligno.

De vez em quando, parecia-lhe que uma cousa lhe arrepelava os cabelos e uns

animálculos desconhecidos perlustravam seu coro em

carreira vertiginosa. Ao mesmo tempo, um rir abafado, uns cochichos de

escárnio pareciam acompanhá-lo de um lado e de outro.

— Ah! vocês não me hão de levar assim, não! — exclamava o arrieiro

para o invisível, — Pode ser que eu seja onça presa na arataca. Mas eu

mostro! Eu mostro!

E batia com força a coronha da garrucha no solo ecoante.

Súbito, uma luz indecisa, coada por alguma janela próxima, fê-lo

vislumbrar um vulto branco, esguio, semelhante a uma grande serpente,

coleando-se, sacudindo-se. O vento trazia vozes estranhas das socavas da

terra, misturando-se com os lamentos do sino, mais acentuados agora.

Manuel estacou com as fontes latejando, a goela constrita e a respiração

curta. A boca semi-aberta deixou cair a faca: o fôlego, a modo de um sedenho,

penetrou-lhe na garganta seca, sarjando-a, e o arrieiro roncou como um barrão

acuado pela cachorrada. Correu a mão pelo soalho e agarrou a faca: meteu-a

de novo entre os dentes, que rangeram no ferro; engatilhou a garrucha e

apontou para o monstro; uma pancada seca do cão de aço do ouvido mostroulhe

que a sua arma fiel o traía. A escorva caíra pelo chão e a garrucha negou

fogo. O arrieiro arrojou contra o monstro a arma traidora e gaguejou em meio

a uma risada de louco:

— Mandingueiros do inferno! Botaram mandinga na minha arma de

fiança! Tiveram medo dos dentes de minha garrucha! Mas vocês hão de

conhecer homem, sombrações do demônio!

Deu um salto, arremeteu contra o inimigo; a faca, vibrada com ímpeto

feroz, ringou uma coisa e foi enterrar a ponta na tábua do assoalho, onde o

sertanejo, apanhado pelo meio do corpo num laço forte, tombou pesadamente.

A queda assanhou-lhe a fúria e o arrieiro, erguendo-se, deu um pulo,

rasgou, numa facada, um farrapo branco que ondulava no ar; deu-lhe um bote

e estrincou nos dedos algo como um tecido grosso. Durante alguns momentos,

ficou no lugar, hirto, suando, rugindo.

Pouco a pouco, foi correndo a mão cautelosamente, tateando aquele corpo

estranho, que seus dedos arrochavam; era um pano, da sua rede talvez, que o

Venâncio armara na sala da frente.

Neste instante, pareceu-lhe ouvir chascos de mofa nas vozes do vento e

nos assobios dos morcegos; ao mesmo tempo, percebia que o chamavam lá

dentro; "Manuel. Manuel. Manuel!", em frases tartamudeadas. O arrieiro

avançou como um possesso, dando pulos, esfaqueando sombras que fugiam.

Foi dar na sala do jantar, onde, pelo rasgão do telhado, pareciam descer

umas formas longas, esvoaçando, e uns vultos alvos, em que por vezes

passavam chamas rápidas, dançavam-Lhe diante dos olhos incendidos.

O arrieiro não pensava mais. A respiração se lhe tornara estertorosa;

horríveis contrações musculares repuxavam-lhe o rosto e ele, investindo às

sombras, uivava:

— Traiçoeiras! eu queria carne para rasgar com este ferro! Eu queria osso

para esmigalhar num murro!

As sombras fugiam, esiloravam as paredes em ascensão rápida,

iluminando-lhe subitamente o rosto, brincando-lhe um momento nos cabelos

arrepiados, ou dançando-lhe na frente. Era como uma chusma de meninos

endemoninhados a zombarem dele, puxando-o daqui, beliscando-o d'acolá,

açulando-o como a um cão de rua.

O arrieiro dava saltos de tigre, arremetendo contra o inimigo, nesta luta

fantástica, rangia os dentes e parava depois, ganindo como a onça esfaimada a

que se escapa a presa.

Houve momento em que uma coréia demoníaca se concertava ao redor

dele, entre uivos e guinchos, risadas ou gemidos. Manuel ia recuando, e

aqueles círculos infernais o iam estringindo; as sombras giravam correndo,

precipitando-se, entrando numa porta, saindo noutra, esvoaçando, rojando no

chão ou saracoteando desenfreadamente.

Um longo soluço despedaçou-lhe a garganta, num ai sentido e profundo, e

o arrieiro deixou cair pesadamente a mão esquerda espalmada num portal,

justamente quando um morcego, que fugia amedrontado, lhe deu uma forte

pancada no rosto.

Então Manuel pulou novamente para diante, apertando nos dedos o cabo

da franqueira fiel; pelo rasgão do telhado, novas sombras desciam e algumas,

quedas, pareciam dispostas a esperar o embate.

O arrieiro rugiu:

— Eu mato! Eu mato! Mato! E acometeu com fúria de alucinado aqueles

entes malditos.

De um salto, foi cair no meio das formas impalpáveis e vacilantes: um

fragor medonho se fez ouvir; o assoalho podre cedeu e um barrote, roído de

cupins, baqueou sobre uma coisa que se desmoronava embaixo da casa.

O corpo de Manuel, tragado pelo buraco que se abriu, precipitou-se e

tombou lá embaixo. Ao mesmo tempo, um som vibrante de metal, um

tilintar como de moedas derramando-se pela fenda de uma frasqueira que se

racha, acompanhou o baque do corpo do arrieiro.

Manuel, lá no fundo, ferido, ensangüentado, arrastou-se ainda, cravando as

unhas na terra como um ururau golpeado pela morte; em todo o corpo

estendido com o ventre na terra perpassava-lhe ainda uma crispação de luta;

sua boca proferiu ainda: "Eu mato! Eu mato! Ma..." — e um silêncio trágico

pesou sobre a tapera.

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