Uso agrícola do território e pedagogia do Movimento Sem Terra (MST) - uma geografia do presente por Maria do Fetal Carvalho Ferreira de Almeida - Versão HTML

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MARIA DO FÉTAL CARVALHO FERREIRA DE ALMEIDA

USO AGRÍCOLA DO TERRITÓRIO E

PEDAGOGIA DO MOVIMENTO SEM TERRA (MST)

- UMA GEOGRAFIA DO PRESENTE -

Tese de Doutorado, apresentada ao

Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana,

do Departamento de Geografia, da Faculdade de Filosofia,

Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo,

para obtenção do título de Doutor em Ciências,

Área de concentração em Geografia Humana.

Orientadora:

Profa. Dra. Maria Adélia Aparecida de Souza

Professora Titular de Geografia Humana da USP

São Paulo

2007

2

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA HUMANA

USO AGRÍCOLA DO TERRITÓRIO E

PEDAGOGIA DO MOVIMENTO SEM TERRA (MST)

- UMA GEOGRAFIA DO PRESENTE -

Maria Do Fétal Carvalho Ferreira De Almeida

Bolsista do CNPq

Orientadora:

Profa. Dra. Maria Adélia Aparecida de Souza

Professora Titular de Geografia Humana da USP

3

- BANCA DE DEFESA DA TESE –

Realizada em 3 de setembro de 2007, às 14h00.

Na sala dos professores, no prédio da administração da F.F.L.C.H. – USP.

Presidente da Banca:

Prof. Dra. Maria Adélia Aparecida de Souza

Professora Titular de Geografia Humana da USP

Membros da Banca:

Professores da Casa - Internos:

Prof. Dra. Rosa Éster Rossini (Geografia da FFLCH - USP)

Prof. Dr. Armen Mamigonian (Geografia da FFLCH - USP)

Professores de Fora - Externos:

Prof. Dra. Samira Peduti Kahil (Geografia da UNESP – Rio Claro)

Prof. Dr. Márcio Antônio Cataia (Instituto de Geociências – UNICAMP)

Resultado:

O candidato foi aprovado pelos 5 Profs. Drs. participantes da Banca.

Maria Do Fétal Carvalho Ferreira De Almeida é Doutora em Ciências,

Área de concentração em Geografia Humana.

4

ÍNDICE

Epigrafo

p 07

Dedicatória

p

08

Agradecimentos

p

09

Resumo

p 10

Abstract

p 11

Résumé

p 12

Preâmbulo

p

13

Apresentação

p 14

A – Primeiro Momento

O

Mundo

e

suas

Ideologias

p

18

Introdução

Período

Popular

da

História

p

18

1a Parte - Pedagogia como Técnica

p 24

I - Formação Territorial do MST

p 25

Esboço de uma Matriz de Periodização

Cap. 1 – Território Usado pela Formação do MST

p 28

Cap. 2 – Território Usado na Formação do Brasil

p 37

Cap. 3 – Aparentes Contradições Históricas

p 45

Sistema

de

Ações

p

60

2a Parte - Pedagogia como Teoria

p 74

II - Formação Territorial no MST

p 75

Esboço de uma Matriz de Periodização

Cap. 4 – Território Usado na Pedagogia do MST

p 81

Cap. 5 – Território Usado pela Pedagogia do MST no Brasil

p 86

Cap. 6 – Aparentes Conflitos Políticos

p 93

Sistema

de

Objetos

p

104

5

3a Parte - Pedagogia como Prática

p 112

III - Formação Sócio-Espacial do MST

p 113

Território Usado na Formação Sócio-Espacial do MST

p 117

Esboço de uma Matriz de Periodização

Cap. 7 – Território Usado pela Escola do MST

p 120

Cap. 8 – Território Usado na Escola do MST pelo Brasil

p 126

Cap. 9 – Aparentes Paradoxos Territoriais

p 135

Sistema

de

Valores

p

144

Conclusão

Produção

de

Normas

p

151

B – Segundo Momento

Visões

Metodológicas

Preliminares

p

161

Introdução

Da

Consciência

à

Co-Existência

p

162

1. Da geografia agrária ao uso agrícola do território brasileiro

p 167

2. Da economia política a política territorial

brasileira

p

169

3. Agricultura e capitalismo no Brasil

p 172

4. Espaço mundial – Por uma Geografia Renovada

p 175

5. Teoria social maior (Escola dialética)

p 177

6. Teoria geográfica menor (Escola

analítica) p

180

7. Relações entre educação, cultura e natureza (humanas e inacabadas)

p 182

8. Interações entre teoria e prática

(Técnica

é

Uso)

p

184

Conclusão

Da

Co-Presença

à

Consciência

p

186

C – Terceiro Momento

Lugar e Método - Antítese da visão global do mundo

p 191

1.

Justificativa

p

191

2.

Problematização

p

204

a) Trajetória da questão da educação escolar no MST

p 210

1a – Gênese e nascimento

p 210

2a – Escola e história da formação dos sem-terra

p 212

6

3a – Ocupação da escola na formação dos sem-terra

p 214

b) Movimento social como Sujeito Pedagógico

p 215

c)

Matrizes

da

Pedagogia

do

MST

p

217

d)

Momento

histórico

do

MST

p

220

3.

Evolução

da

Pesquisa

(em

3

momentos)

p

221

1a – Hipótese no momento prático

p 221

2a – Hipótese no momento teórico

p 221

3a – Hipótese no momento técnico

p 221

4. Evolução dos Objetivos (Banalização

do

Lugar)

p

222

1o Lugar – Consciência pelo

lugar

p

222

2o Lugar - Consciência no

lugar

p

222

3o Lugar – Consciência por outro lugar

p

222

4o Lugar – Consciência do

lugar

p

222

5.

Metodologia p

224

D – Quarto Momento

Acontecer Solidário - Síntese do Método

p 236

1. Do memorial de qualificação à tese

p 236

2.

Pontos

de

partida

da

tese

p

244

3.

Experiências

sócio-espaciais

p

247

4. Espaciologia como práxis transdisciplinar p

250

Considerações Finais

-

Uma

Geografia

do

Presente

- p

258

Referências Bibliográficas

-

Bibliografia

Transdisciplinar

-

p

266

7

Epigrafo

Trova do vento que passa

Pergunto ao vento que passa

Notícias do meu país

E o vento cala a desgraça

O vento nada me diz

Mas há sempre uma candeia

Dentro da própria desgraça

Há sempre alguém que semeia

Canções no vento que passa

Mesmo na noite mais triste

Em tempo de servidão

Há sempre alguém que resiste!

Há sempre alguém que diz não!

Fadista: António Bernardino,

Música de António Portugal,

Letra de Manuel Alegre,

Universidade de Coimbra.

8

Dedicatória

Ao Povo Português,

Ao Povo Francês,

Ao Povo Brasileiro,

Que financiou estas pesquisas de pós-graduação, através de uma bolsa do Conselho

Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico – CNPq,

Viva todos os Povos do Mundo!

Boas Vindas ao Período Popular da História!

À Professora Maria Adélia Aparecida de Souza,

A todos os Poetas que sonharam com este Mundo Novo...

9

Agradecimentos

Aos meus professores e alunos,

Aos meus colegas de trabalho,

Aos homens da minha vida,

Ás minhas famílias,

Aos meus avós,

Aos meus pais,

Que financiaram, com suas aposentadorias, esta produção material,

As minhas irmãs,

A minha filha.

10

Resumo

Essa tese de doutorado é uma tentativa transdisciplinar para desvendar o novo

período histórico, fruto de nossos dias e de nossos trabalhos, neste início de século XXI: o Período Popular da História. Ao manter esse foco, usamos a Pedagogia do Movimento

Sem Terra (MST) como o alicerce para caminharmos juntos ao repensar a Pedagogia como

Técnica, Teoria e Prática. Em paralelo, esboçamos o instrumento de possíveis matrizes de

periodização cruzadas: a Formação Territorial do MST (através de uma história estando

sendo vivida) e a Formação Territorial realizada no MST (através de uma geografia ou

epistemologia da própria existência). Desse modo, revelamos que a Formação Sócio-

Espacial do MST é uma formação, (inter e transnacional), da possibilidade de um outro

mundo: aquele do “homem pobre e lento” em sua real consciência de estar sendo “cidadão

do mundo”.

O Território Usado, como principal categoria de análise de nossa tese, nos leva a

pensar que o fundamental desafio urbano nos países “subdesenvolvidos” e “periféricos”

não são somente as verticalidades do Uso Agrícola do Território, tal qual praticado pelas empresas, em tempos de Globalitarismo. Mas, também, o próprio Espaço Geográfico

sendo praticado e multiplicado, pelo uso dos povos, no quotidiano das horizontalidades de uma outra Globalização. O que nos leva a uma indissociabilidade entre um Sistema de

Ações, Objetos e Valores que interagem, simultaneamente e paradoxalmente, sobre as mais

profundas contradições quotidianas do dia-a-dia do espaço de tudo e de todos: isto é, em

pleno Espaço Banal.

Assim, ao reatualizar, á luz do Período Popular da História, uma genealogia do

saber e uma arqueologia do poder, é o próprio Lugar, tanto como resistência quanto

acontecer solidário, que está sendo desvendado. Em sua necessidade histórica do saber-

fazer, em sua vontade filosófica do poder-fazer, e, em suas novas solidariedades políticas e conexões geográficas, doravante usadas em sua liberdade de Produção de Normas. Eis o

evento das ciências humanas em pleno uso da prática de uma nova disciplina: a

Espaciologia.

Palavras-chave (5)

Período Popular da História – Formação Sócio-Espacial do MST - Território Usado –

Espaço Geográfico – Espaciologia.

11

Abstract

This PhD Thesis is a trans-disciplinary attempt to reveal the new historical period, a

product of our times and our labors, in the dawn of the 21st century: the Popular Period of History. Maintaining this focus and using the pedagogy of the landless people’s Movement

(MST) as a foundation for us to move together re-thinking pedagogy as Technique, Theory

and Practice. In parallel to that, we draft the instrument of possible matrixes of crossed periodization: a Territorial Training of the MST (through the living history) and the

Territorial Training developed in the MST (through a geography or epistemology of its

own existence). In that sense, we revealed that the Socio-Spatial Training of the MST is

training (inter and transnational), of the possibility for another world: the one of the “poor and slow man” in its real awareness of being a “citizen of the world”.

The Territory Used, as a main category for analysis of our thesis, lead us to think

that the fundamental urban challenge in “under-developed” and “developing” countries are

not only verticalities of the Agricultural Use of Territory, as practiced by companies, in times of Globalitarism. But also the actual Geographical Space being practiced and

multiplied, by the use of the peoples, in the everyday life of the horizontalities of another Globalization. Which leads to an inseparable system between Actions, Objects and values

interacting, simultaneously and paradoxically, about the deepest contradictions in the day-to-day life of the space for everything from everyone: in other words, in the Banal Space.

Therefore, when updating under the light of the Popular period of history, a

genealogy of knowledge and an archeology of power, is the actual Place, both for

resistance and as a solidarity setting, which is being unveiled. In its historical need for know-how, in its philosophical wish to be able to do, and in its new political solidarities and geographical connections, used from now on in its freedom for the Production of

Norms. This is an event in human sciences in full use of the practice of a new discipline: Spaciology.

Key–words (5)

Popular Period in History – Socio-Spacial Training of the MST – Territory Used –

Geographic Space – Spaciology

12

Résumé

Cette thèse de doctorat est une tentative transdisciplinaire de dévoiler la nouvelle

époque historique, fruit de nos jours et de nos travaux, en ce début de XXIème siècle: la Période Populaire de l’Histoire. Pour maintenir cet objectif, nous utilisons la Pédagogie du Mouvement des Sans Terre (MST) comme la fondation qui nous permet de cheminer,

ensemble, pour repenser la Pédagogie en tant que Technique, Théorie et Pratique. En

parallèle, nous esquissons l’instrument de possibles matrices de périodisation croisées: la Formation Territoriale du MST (par une histoire en train d’être vécue) et la Formation

Territoriale réalisée à l’intérieur du MST (par une géographie ou épistémologie de

l’existence, elle-même). De cette manière, nous révélons, ici, que la Formation Socio-

Spatiale du MST est une formation, (inter et transnationale), de la possibilité de

matérialisation d’un autre monde: celui de “l’homme pauvre et lent” en sa réelle

conscience d’être devenu “citoyen du monde”.

Le Territoire Utilisé, en tant que principale catégorie d’analyse de notre thèse, nous

amène à penser que le fondamental défi urbain des pays “sous-développés” et

“périphériques” ce ne sont pas seulement les verticalités de l’Usage Agricole du Territoire, tel qu’il est pratiqué par les entreprises, en cette ère du Globalitarisme. Mais, aussi,

l’Espace Géographique, lui-même, en train d’être pratiqué et multiplié, grâce à l’usage que les peuples en font, dans le quotidien des horizontalités d’une autre Globalisation. Ce qui nous amène á une indissociabilité entre un Système d’Actions, d’Objets et de Valeurs qui

interagissent, simultanément et paradoxalement, sur les plus profondes contradictions

quotidiennes du jour le jour de l’espace du tout et de tous: c’est-à-dire, en plein Espace Banal.

Ainsi, en réactualisant, à la lumière de la Période Populaire de l’Histoire, une

généalogie du savoir et une archéologie du pouvoir, c’est le Lieu, lui-même, en tant que

résistance et devenir solidaire, qui se dévoile sous nos yeux. Par le besoin historique de son savoir-faire, par la volonté philosophique de son pouvoir-faire, ainsi que, grâce á ses

nouvelles solidarités politiques et leurs connections géographiques, dorénavant utilisées en leur liberté de Production de Normes. Voici l’événement des sciences humaines en plein

usage et pratique d’une toute nouvelle discipline: la Spatiologie.

Mots-clés (5)

Période Populaire de l’Histoire – Formation Socio-Spatiale du MST - Territoire Utilisé –

Espace Géographique – Spatiologie.

13

“Até que ponto a nossa descrição de um fenômeno deixa de ser uma

interpretação para tornar-se uma reprodução fotográfica? Reconhecer esse

problema não corresponde de todo à confissão de uma fraude. Vemos a realidade

através da ótica de nossa ideologia, de nossa metodologia, de nossa visão global

do mundo. Por isso, a mesma realidade pode prestar-se a diferentes

interpretações”.

Milton Santos (1926 – 2001)

In Introdução ao “Trabalho do Geógrafo no Terceiro Mundo” – Hucitec, SP, 1978,

“Le métier du géographe dans les pays sous-développés” – Ophris, Paris, 1971,

Université de Bordeaux, Mai 1968.

14

Apresentação

“Deveríamos ser premiados pelos nossos fracassos;

não pelos nossos sucessos”.

Milton Santos.

Nossa pesquisa começou a tomar forma, em 2002, na Universidade de Campinas

quando tivemos o privilégio de descobrir, como ouvinte, a diferença que existe entre a

geografia agrária e o uso agrícola do território. As aulas da Prof. Maria Adélia Aparecida de Souza iluminaram um projeto iniciado na Universidade René Descartes – Paris V – La

Sorbonne, em 1998.

Na França, a entrada na universidade pública se dá no mínimo por três vias

institucionais possíveis já que não há vestibular. A 1a via, a via real, se dá pelo famoso Baccalauréat: cinco anos de escola primária, quatro anos de colégio secundário e três anos de liceu, num total de doze anos de ensino integral para passar este diploma nacional. No meu caso, como muitos filhos de imigrantes morando e trabalhando na periferia, me foi

oferecida a possibilidade de passar um Bac técnico-profissional, o que não implica o

acesso direto á universidade. No entanto, existia uma parte geral obrigatória com 3 anos de aulas de filosofia, literatura, história, geografia, economia, inglês, espanhol e alemão.

A 2a via, a via autodidata, se dá pelo ESEU1: um ano de estudos gerais

considerados como o ano zero da universidade; ou seja, pode ser considerado como um

cursinho onde o aluno (após os 25 anos) organiza e institucionaliza conhecimentos já

adquiridos. Foi o meu caso ao ter seguido durante doze anos o curso Ad-hoc de literatura, história, geografia e política oferecido em paralelo pela coordenação do ensino português na França. Dessa forma é que entrei em Ciências da Linguagem em Paris III – Censier

(Daubenton) onde comecei a pesquisar a aquisição da linguagem.

A 3a via, a via da escola da vida, se dá por uma seleção de equivalências de

aquisições: que estas sejam profissionais, familiais, sociais, comunitárias, sindicais,

políticas, religiosas, etc. Também foi o meu caso. Ensinar português á 3a geração de filhos de emigrantes durante cinco anos e me formar em francês língua estrangeira para os novos

imigrantes me deu as equivalências necessárias para entrar diretamente em ciências da

1 ESEU: Examen Spécifique d’Entrée à l’Université. Existem dois ESEU, o A (literário) e o B (científico).

15

educação Paris V – René Descartes. O primeiro passo da autonomia universitária se dá,

justamente, pelas várias possibilidades de acesso que cada departamento tem a liberdade de oferecer ou não. Por exemplo, Paris V não aceita quem não tenha nem experiência nem

prática profissional de ensino. A reflexão teórica sendo realizada como conseqüência

destas últimas e não como causa. O canudo não garante teoria. A teoria se constrói num

processo dialético com a prática.

Minha formação universitária, já na sua origem, uma busca interdisciplinar com

“Licence2” et “Maîtrise3” em ciências da educação, encontrou-se ser enriquecida pela

descoberta das possibilidades de compreensão do mundo novo” ofertas por uma

geografia renovada e profundamente transdisciplinar porque permanentemente crítica e

dialética.

Paris V nasceu pós 68 como uma experiência de leitura dos complexos processos

pedagógicos. Á sociologia da educação e da formação, uniram-se outras disciplinas irmãs

consideradas libertárias - em apoio ao conhecimento das massas universitárias: psicologia e psicanálise; didática e lingüística; sócio e psicopedagogia; andragogia4...

Quanto mais a Sorbonne oitocentista entrava no pragmatismo da Escola de Chicago

pela porta aberta da fragmentação européia (o muro de Berlim recém começava a

despedaçar-se nas cabeças); mais o nosso pequeno departamento - René Descartes –

tentava resistir ao manter-se na Escola de Frankfurt.

A política educacional francesa do final do século XX era formar os 80% da faixa

etária que chegava ás universidades públicas. Sem esquecer a formação em alternância e

contínua dos novos desempregados (inclusive professores) a serem reciclados para atender

ás necessidades de uma Globalização que soprava pelas janelas da nova economia.

Á título de exemplo, no 1o ano de DEUG5, em ciências da linguagem, cada

professor tinha a responsabilidade de formar trimestralmente quase 1.000 alunos no seu

amphi. Meu orientador de DEA6, em Sociologia da Educação, Professor Eric Plaisance que também era Professor visitante na UFRJ, tinha quase 100 alunos por seminário de

orientação que aconteciam aos sábados na rue des Saints-Pères. Meus orientadores de

2 Como resultado de 6 Monografias e de um Memorial de Licenciatura, de 1993 a 1997.

3 Como resultado de 1 Monografia e de um Memorial de Mestrado, de 1996 a 1998.

4 Andragogia: pedagogia destinada ao homem adulto (andros) como diferencial da oferecida á criança (pedos).

5 DEUG: Diplôme d’Etudes Universitaires Générales. O DEUG equivale aos 3 primeiros anos de estudos universitários. É o primeiro grau universitário francês.

6 DEA: Diplôme d’Etudes Approfondies que equivale á uma pré-pesquisa geral (2 anos) para preparar o doutorado. Diferencia-se do DESS (Diplôme d’Etudes Scientifiques Spécialisées) considerado mais profissionalizante.

16

Maîtrise combinada, Maîtres de Conférence7, Professores Pierre Besnard, em Andragogia,

e Serge Hermine, em Sociologia da Formação, somente tinham uns 30 alunos, porque suas

disciplinas não estavam na moda.

Paralelamente, a dupla nacionalidade e o bilingüismo foram requisitados tanto no

ensino do Francês Língua Estrangeira em escolas aonde recém a 2a e 3a geração de

imigrantes vindos das novas nações européias, das velhas nações africanas e dos DOM-

TOM – Departamentos e Territórios de Além Mar - estavam sendo formadas e

(re)profissionalizadas. Quanto no ensino do Português que era ensinado em escolas

municipais a fim que os filhos de lusófonos de 1a, 2a e 3a geração resgatassem e

reincorporassem suas origens culturais. Ou ainda, como Professora de Francês Língua

Estrangeira na Aliança Francesa de Paris ao receber os novos emigrantes (oficiais e

clandestinos) - que após 19938, não tinham mais direito à nacionalidade francesa pelo solo, somente pelo sangue.

Quando no meio de 24 alunos, todos no mínimo bilíngües, há 17 nacionalidades e

religiões de todo mundo, os “tempos pedagógicos” e os “atos de palavra” da Teoria da Comunicação da Escola de Palo Alto9 eram então nossa única salvação.

Mas, a partir de nossa capacitação em “Droits de l’Homme” , na Universidade

Robert Schumann de Strasbourg, O Direito à Vida10, neste vendaval do Mundo Novo, começou a questionar todo método usado nas situações de comunicação.

7 Um dos concursos nacionais de nível de professor universitário (equivalente ao do professor titular no Brasil).

8 Início da Lei Balladur, lei que leva o nome do 1o ministro Edouard Balladur, que determinou que para ser francês, doravante, tinha-se que ter pai ou mãe franceses, senão, o fato de nascer em território francês não garantiria mais o direito à aquisição nem da nacionalidade nem da cidadania francesa. Em 1993, a França vivia num período de coabitação: o poder executivo estava nas mãos do Partido Socialista com o presidente François Mitterrand; o poder legislativo nas mãos de uma maioria de direita, na assembléia legislativa; o poder judiciário e o poder burocrático estavam nas mãos de juizes e funcionários públicos da carreira administrativa formados pelas Grandes Escolas fundadas por Napoleão Bonaparte (Escola Nacional de Administração – ENA -; Ciências Políticas; Polytechnique, Ponts et Chaussées, Saint-Cyr, etc.). O que não impediu que, em 2005, uma mulher, muçulmana, filha de arkis, alcançasse o posto de Mme Le Juge au Barreau de la Cour de Paris.

9 “Tomando de empréstimo conceitos e modelos de abordagem sistêmica, mas também da lingüística e da lógica, os pesquisadores da escola de Palo Alto tentam explicar uma situação global de interação, e não apenas estudar algumas variáveis tomadas isoladamente”. (MATTELART, 1999: 68).

10 “Foucault demonstra que a vida, muito mais do que o direito, tornou-se objeto das lutas políticas. Contra esse poder, que se consolidou a partir do século XIX, as forças que resistem apóiam-se sobre aquilo que ele investe – na vida e no homem enquanto ser vivo. Portanto, um dos traços marcantes da modernidade é justamente a disputa política em torno da vida. Por um lado, o poder atua efetivamente sobre ela, produzindo saber-poder, “bem-estar”, controle individual e coletivo, condições básicas de sobrevivência, etc. Por outro, ela é também a bandeira de luta dos movimentos contra esse poder – direito à vida, ao corpo, à saúde, à felicidade, à satisfação de necessidades, aos prazeres – que, concebendo-a como a essência concreta do homem, reivindicam o direito a uma vida outra, diferente dessa vida que nos é imposta”. De Carlos José Martins, doutor em filosofia pela UFRJ, professor da UNESP – Rio Claro, In “Foucault: sexo e verdade, o confronto político em torno da vida”, Revista Mente, Cérebro & Filosofia, Fundamentos para a compreensão 17

Venho de uma universidade onde a porta de entrada dá para Rue des Ecoles e onde

os sem domicílio fixo usavam, inclusive nas noites de inverno, suas dependências e

assistiam ás nossas aulas públicas. Não foi fácil cair, como me foi dito, de pára-quedas na Unicamp. Mais difícil, ainda, foi conseguir adaptar-se a USP, como maior universidade da

América Latina. Num país onde somente 7% da população têm acesso ao ensino superior e

quando menos de 1% é mestre e doutor.

Foi neste contexto que a curiosidade pelo fenômeno do Movimento dos

Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e sua Pedagogia foi aparecendo, tanto no meio

científico e acadêmico como no meio social e político francês.

Como diz Jean Baudrillard, o Brasil é considerado laboratório da humanidade pela

Organização das Nações Unidas, visto que aqui vivem, co-habitam e co-existem todas as

raças, culturas e religiões. Isto está explicitamente presente no Centre de Recherches sur le Brésil Contemporain – CRBC - integrado á l’Ecole de Hautes Etudes em Sciences Sociales

– EHESS de Paris. Porém, se o Brasil é mesmo laboratório da humanidade; a cidade de

São Paulo, sua capital econômica e industrial, é considerada, pelo professor Nicolau

Sevcenko, do Departamento de História da USP, enquanto “laboratório cultural interdito”.

Pois, segundo Bourdieu, por ser lei social, o capital cultural vai ao capital cultural.

Enfim, se 2005 foi o Ano do Brasil, na França, o que confirma o interesse da

Europa por um território onde estão aqui representadas todas as suas grandes corporações

(sistema de objetos) e todas as suas gentes (sistema de ações), neste período de

Globalização; 2008 será o Ano da França, no Brasil.

“Creio, então, que há uma fragilidade muito grande nessa globalização, e é por

isso que o Brasil tem que ser controlado de fora, porque se o Brasil mudar de idéia um pouquinho, pode levar o mundo por água abaixo. Por isso o Brasil é hoje um dos países mais vigiado de fora, na sua política interna e externa, na sua política social, na sua política educacional...” (SANTOS, abril de 2000: 18).

Através da Geografia Nova e do Método Geográfico já podemos começar a

desvendar a instalação de um novo período histórico: o Período Popular da História e seu

Homem Pobre e Lento; enquanto principais fundamentos do Território Usado por uma

Outra Globalização.

contemporânea da Psique, No 6, “Foucault-Deleuze, a dissolução do sujeito”, A filosofia contemporânea abre novos caminhos para os estudos do psiquismo ao dar voz aos marginalizados e aos loucos, Editorial Duetto, São Paulo.

18

A – PRIMEIRO MOMENTO

- O MUNDO E SUAS IDEOLOGIAS11 -

Introdução

- Período Popular da História –

Acreditamos que é possível e desejável encararmos que já estamos vivendo no

Mundo Novo do Período Popular da História. Esse novo período histórico antevisto e

profetizado pelo Professor Milton Santos. Neste tempo conflituoso, nesta epistemologia e

geografia da existência, tão projetada por todos os poetas visionários da Humanidade. Pelo menos, é a novidade almejada por esta tese.

Para a Professora Maria Adélia Aparecida de Souza12, o Período Popular da

História começou, enquanto marco do início do período, em 11 de Setembro de 2001,

quando as televisões mostraram os ataques ás torres gêmeas do World Trade Center - na

ilha de Manhattam em Nova Iorque. Queira ou não, este acontecimento histórico também

pode ter sido, tal qual o ataque de Pearl Harbor, uma simples manipulação do congresso

americano e da opinião pública mundial a fim de legitimar a eleição de um presidente

norte-americano que não saiu vencedor das urnas. Pois, venceu um longo processo

financeiro (ao ser financiado pelas maiores empresas da guerra, do petróleo e do

marketing) e jurídico (ao ser defendido pelos maiores cérebros dos advogados do

pensamento único na versão do Consenso de Washington). Seja como for, com ou sem

conspiração interna e internacional, com ou sem manipulação política republicana, com ou

sem manipulação de dados, de mentes e de gentes, as torres gêmeas desabaram no coração

de um Império13 com pés de barro.

11 “Por ideologia, entendemos o conjunto dos reflexos e das refrações no cérebro humano da realidade social e natural que ele exprime e fixa através da palavra (...) Nenhum enunciado, em geral, pode ser atribuído ao único locutor: ele é o produto da interação dos locutores e, mais largamente, o produto de toda esta situação complexa na qual surgiu (...) A parte verbal no homem (...) pertence, não ao indivíduo, mas ao seu grupo social (ao seu [ambiente] entorno social) (...) A estrutura do enunciado, assim como daquele da experiência expressável, é uma estrutura social”. (BAKHTINE & VOLOCHINOV apud BAYLON & MIGNOT, 1994: 217)

12 In Conferência de abertura do 2o Encontro com o Pensamento de Milton Santos, Campinas, maio de 2003.

13 Em nossa tese, a noção de Império não faz somente referência ao Império “contemporâneo” de Antônio Negri. Pois, bem antes de Negri, Lênin já teorizava sobre o Imperialismo. E, bem antes de Rosa Luxemburgo, José Martí, já era um dos primeiros revolucionários antiimperialistas (RETAMAR, 1993: 14-21).

19

O período popular define um período histórico. Tem um marco inicial e tudo o que

acontece nele é produto de suas características, dinâmicas, processos. Ele é um tempo do

mundo e não de cada país. Claro que estes podem ter “episódios” que marcam o período no

país. Por exemplo, a nível nacional, o Período Popular da História teria começado a ser

ilustrado em 1o de Janeiro de 2003, quando as televisões brasileiras mostraram um ex-

sindicalista operário recebendo a faixa presidencial da República Federativa do Brasil. Pela primeira vez, na América Latina, um presidente foi eleito com 53 milhões de votos pelo

sufrágio universal14. Vale lembrar que João Goulart, o Jango, somente foi eleito com 6

milhões de votos de grandes eleitores (coronéis, profissões liberais e empresários) ao

sufrágio indireto. Jango não foi eleito pelo povo brasileiro.

Na realidade, o Período Demográfico ou Popular da História renasce a cada dia em

suas subliminais contradições geográficas, econômicas, culturais e políticas. Não há um

único momento, nem um único lugar, nem um único fato que seja capaz de lavrar, sozinho,

sua certidão de nascimento.

O Período Popular da História já é, ele já existe e já está se materializando, frente

aos nossos olhos, fora de qualquer instituição.

Na França nasce em Outubro de 2005, quando jovens da periferia - sem líderes nem

prévia organização - reagem á morte de dois adolescentes fugindo da polícia; ao incendiar, noites á fio, mais de mil ônibus e ao revelar para o mundo que o leme republicano e

universal de liberdade, igualdade e fraternidade ainda está por existir.

Na Bolívia, nasce quando, após 500 anos de colonização, um indígena alcança a

função máxima da presidência e se torna o maior servidor público e democrático de seu

povo.

Tal um Curupira ou um pintor impressionista, o Período Popular da História vai

deixando suas pegadas em vários lugares e em inúmeros momentos da história da

Humanidade. Para uns acontece nos Bálcãs, Afeganistão, Iraque, Palestina ou Irã. Para

outros, já está acontecendo, hoje, neste momento, aqui e agora.

Longe do pensamento único da ideologia liberal que vem somente anunciando as

desgraças do planeta terra; o Período Popular da História vai tratando da evolução das

instâncias sociais: política, cultura, economia e espaço geográfico. Pois, se o Homem é

responsável pelas desavenças do planeta, (como nos inculcam a todo comercial); será que é o planeta (jovem, vivo e em atividade) ou o ser humano (em lenta via de construção) ou

14 Em seu 2o mandato, 2007, o presidente Lula (PT) foi eleito com 58 milhões de votos depositados nas urnas contra o seu adversário Geraldo Alckmin (PSDB).

20

ambos, que estão sempre em evolução constante, contraditória e permanente? Sabendo

que, hoje, a humanidade tem todas as condições técnicas e materiais de controlar a farsa do

“efeito estufa” e a metáfora de seu “aquecimento global”. Danielle Mitterrand, presidente da Organização Não Governamental “France Libertés”, relembra, muito bem, que com

somente 10% dos gastos militares se resolve o problema da água para todos os seres

humanos. Basta vontade e coragem política. Pois, já há toda tecnologia necessária.

Assim, o Período Popular da História apresenta-se como mais uma tentativa de

resposta das experiências históricas e sociais às paradoxais necessidades humanas deste

Mundo Novo. Quase um efeito co-lateral da história oficial e da aceleração contemporânea

do capitalismo e de suas idéias liberais.

Talvez o mais interessante seja observar como o Período Popular da História e o

Meio Técnico Científico Informacional e Comunicacional caminham juntos. Desvendar

como a Técnica, em geral, dá suporte as suas manifestações particulares. Como foi o caso

em São Paulo, em Maio de 2006, quando, alucinada, a elite paulista e paulistana descobriu que o sistema penitenciário brasileiro não é somente um bom negócio, lucrativo, onde cada empresa terceirizada e cada diretor de presídio e governador de estado lucra com esse

exército de presidiários15. Não, a falta de liberdade, fora ou dentro do sistema carcerário, não é rentável nem auto-sustentável para o Sujeito Homem. Daí a repressão alucinante aos

que ousaram questionar o sistema: no final de semana do Dia das mães, todos os Institutos Médico-Legais – IMLs - do município de São Paulo e de sua periferia ficaram lotados.

Oficialmente, em três dias, apareceram 496 cadáveres. Muitos sem documentos. A grande

maioria foi enterrada em covas comuns. Ainda hoje, famílias paulistanas estão procurando

por seus queridos familiares “desaparecidos”.

O próprio sistema de comunicação e seus objetos, tais celulares, tiveram o

privilégio de inaugurar um outro uso maciço, coletivo e silencioso, do próprio estado da

coisa. Para outros fins. Com outros objetivos e outras finalidades. Não somente para aquilo em que foram projetados: ou seja, a criação de um processo de criminalização da miséria16

para beneficiar e expandir o lucro do mercado consumidor de segurança pública e

privada17 de uma elite transnacional. Ou seja, assistimos a criação de um puro mecanismo

15 Nos Estados-unidos, o sistema prisional já é o 3o empregador nacional, somente após o Wall Mart e a General Motors, inclusive com ações na bolsa de valores. (Seminário de pesquisa, 4 de maio de 2007).

16 O processo de criminalização da miséria é um fenômeno mundial paralelo ás necessidades do capitalismo.

Nos Estados-Unidos 10% da população norte-americana estão do outro lado da muralha.

17 O desmonte de qualquer sistema vai sempre preparando sua privatização. É o caso do sistema educacional, de saúde, saneamento, energia, comunicação, segurança pública (como no Rio de Janeiro, na rota do Pan 2007)... Hoje, assistimos a uma preparação prévia da privatização do controle aéreo brasileiro. Ou, então, 21

do medo e do terror absolutos – basta assistir ao Jornal Nacional - que disfarça um

verdadeiro estado de guerra permanente de ocupação dos corpos, de entretenimento dos

espíritos e de manipulação das consciências.

Em busca desse novo Cidadão deste Mundo Novo considerado “subversivo”

decidimos estudar o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST. Pois,

segundo Dom Pedro Casaldáliga18 o Movimento Sem Terra é: “Hoje em dia, o maior

movimento popular social da América Latina” (CASALDÁLIGA, janeiro de 2007). Na

própria Université de Paris – La Sorbonne - a Pedagogia e a Escola do MST são

apresentadas e consideradas como as mais evoluídas e atuais do século XX. Por isso, o

tripé desta Tese de Doutorado é a Formação, Pedagogia e Escola do MST. Ao propor, a

partir daí, os fundamentos da construção de uma nova matriz pedagógica para o MST: a

Pedagogia do Território Usado, enquanto Pedagogia Cidadã.

Como será que a Pedagogia – enquanto Técnica, Teoria e Prática - consegue ajudar-

nos a entender este Mundo Novo? Ao tomar, aqui, como enfoque a própria Pedagogia do

Movimento Sem Terra (MST).

Como o Território Usado, uma das ferramentas da Geografia Renovada inspirada

no professor Milton Santos e na professora Maria Adélia De Souza, é indispensável para

tentarmos desvendar este Período Popular da História? Inclusive, ao tomar o Território,

tanto como categoria de análise, quanto princípio essencial, já Usado pela Pedagogia do

MST, qualificando, assim, suas ações na luta pela terra no Brasil e no Mundo.

Como o diálogo entre estas disciplinas das ciências humanas consegue esclarecer

este Meio Técnico Científico Informacional e Comunicacional que nos submerge e nos

rodeia? Sem, no entanto, que: “O amoralismo ao qual as ciências do homem são

convidadas pare[ça] indispensável para atribuir uma roupagem de idéias a um capitalismo

tornado cada vez mais autoritário, carapaça pseudocientífica indispensável a manter ao

preço da violência, se necessário, a dominação sobre os recursos que constituem a base

material do sistema, cada dia mais estreita” (SANTOS, 1982 apud 2005)

Como o revolucionário conceito de Espaço Geográfico – uma indissociabilidade

entre um sistema de Ações e um sistema de Objetos, regulada por Normas – ilumina o

esses controladores de vôo, hoje amutinados, estão nos revelando uma anterior privatização, de fato, desde a implantação do Sistema de Vigilância Aérea Nacional – SIVAN. Quem ganhou o direito de cuidar do Sivan é uma empresa civil norte-americana que ganhou, como qualquer outra empresa, uma licitação pública durante o período das privatizações no 1o governo de Fernando Henrique Cardoso (1994-1998).

18 Missionário da Ordem dos Claretianos, catalão, 79 anos, esteve à frente da prelazia de São Felix do Araguaia (MT) por mais de 30 anos. Atualmente, é seu bispo emérito. A prelazia tornou-se referência para os movimentos de oposição à ditadura militar e alvo de ataques pelo fato de ser encarada como foco de guerrilha. Dom Casaldáliga foi preso e torturado pelos militares. (CASALDÁLIGA, janeiro de 2007) 22

nascimento de um novo sistema de Valores? Ao aprimorar o conceito de Território Usado,

ajustando-o a compreensão do uso agrícola do território, como fundamento de método da

pedagogia do MST; e ao tentar compreender o sentido do Território Brasileiro na

Pedagogia do MST, tal qual, hoje, definida e praticada pelo próprio Movimento.

Mesmo se o Período Popular da História não nasce aqui ou ali. Pois, pela sua

própria definição ele tem um marco histórico. No entanto, algumas experiências sociais e

alguns eventos históricos e geográficos, não-oficiais, foram revelando-o para os olhos de quem, tal o Professor Milton Santos, não estava alheio aos informais eventos sócio-espaciais.

Assim, em 17 de abril de 1996, em plena reunião da Via Campesina Internacional,

o MST descobre que já está “encaixado” no conceito de período, que pode ser proposto

como a definição, em tempo real, da informação. Com a nova feição da Política sustentada

e possibilitada pelo Meio Técnico Científico e Informacional expandido (já pesquisado e

definido por Milton Santos). O que implica, na unicidade técnica do planeta, aí sim,

enquanto suporte da difusão global da informação.

No Movimento Sem Terra - MST, o Meio Técnico Científico Informacional, e seu

outro viés o Período Popular da História, são re-transcritos estritu sensu em 17 de abril de 1996, quando 19 Sem Terra são assassinados à queima-roupa, deixando viúvas e órfãos,

que se tornaram companheiros de luta dos 69 mutilados e das famílias dos 11

desaparecidos do Massacre de Eldorado dos Carajás (PA). Pois, a repercussão da emoção

internacional foi maior do que a difusão da razão do estado nacional brasileiro. No mundo todo, os consulados e embaixadas brasileiras acabaram recebendo milhões de envelopes

cujo conteúdo era somente 10g dessa terra que, somados uns aos outros, representaram

toneladas desta terra indesejável: os sete palmos de chão aos quais todos os homens têm

enfim direito.

A partir desse evento, o massacre de sem-terra brasileiros no sul do Pará19, mas sem

esperar pelo reconhecimento das instituições de direitos humanos, dos governos (estadual e federal) ou dos organismos internacionais; acontece outro evento, simultâneo e desta vez

elaborado pelo próprio auto-decreto-lei de uma reunião de simples “camponeses”

internacionais: o 17 de abril se torna, para o mundo contemporâneo dos “homens pobres e

19 “Era o segundo massacre no governo Fernando Henrique Cardoso. O primeiro foi em Corumbiara, Rondônia, em 9 de agosto de 1995, quando quinhentas e quatorze famílias, organizadas pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Corumbiara, ocuparam a fazenda Santa Elina. Durante o despejo violento, dez sem-terra e dois policiais foram mortos”. (FERNANDES, 2000: 209). Em 9 de junho de 1997, na Zona da Mata, em Pernambuco, acontece o massacre de Camarazal: 30 jagunços atiram em mulheres e crianças; dois Sem Terra são torturados e assassinados; todo o acampamento é incendiado e destruído.

23

lentos”, (outro conceito de Milton Santos, determinando o Período Popular da História), O

Dia Internacional da Luta Camponesa.

“O que permitiu a Milton Santos propor a existência do Período Popular da História

foi esse conjunto de contra-racionalidades mais a cultura popular, o conhecimento

aprofundado que os pobres possuem dos lugares onde vivem, num mundo cada vez mais

marcado pela escassez. Essa realidade, que já presenciamos, faz com que a sobrevivência

de grande parte da população se dê através de estratégias feitas e refeitas cotidianamente, tendo como âncora o futuro”. (TOLEDO Jr, 2005: 69)20

Eis, entre muitas outras, uma ilustração das perguntas que esta Tese de Doutorado

vai tentar levantar, ilustrar e manter no seu foco.

20 Para o professor do Departamento e do Mestrado em Geografia da Universidade Federal da Bahia, Rubens de Toledo Jr., o Período Popular da História tem, fundamentalmente, como base a dialética entre verticalidades e horizontalidades; racionalidades e contra-racionalidades; cultura, pobreza e escassez.

Concordamos, em princípio. Pois, a dialética maior não está entre Período Popular da História e Globalização, como indicado na abertura de seu excelente artigo científico. Mas, sim, entre Período Popular da História e Globalitarismo. Isto é, o Período Demográfico ou Popular da História, por sua qualidade, apresenta-se como a possibilidade de uma Outra Globalização.

24

1a Parte

- Pedagogia como Técnica21

“Para Friedrich Nietzsche, a técnica não é neutra. O que, talvez, explicaria,

de forma retroativa, o fracasso do socialismo real europeu. Pois, como encontrar

argumentos para justificar que Lênin, o teórico revolucionário da Revolução

Soviética, ao desejar materializar a passagem de uma Rússia “serva, medieval e

camponesa”, do século XIX, para uma Rússia “contemporânea, moderna e

operária”, do século XX, tenha tomado a decisão de desenvolver toda a jovem-

guarda da recém criada indústria socialista a partir da prática exploradora de

uma técnica do trabalho capitalista que aliena os trabalhadores: o fordismo e o

taylorismo? Os servos eram analfabetos mas não eram burros.”

(IASI, 2007)

21 “A idéia de técnica como algo onde o “humano” e o “não-humano” são inseparáveis, é central”.

(SANTOS, 1996 apud 2003: 24).

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I - Formação territorial do MST

“Incorporamos, como fonte de nossa própria existência, várias correntes.

Não somos fruto de apenas uma corrente, somos fruto do trabalho da Igreja, do sindicato, das organizações de esquerda, somos fruto de tudo isso, num processo de reascenso do

movimento de massas que houve na nossa sociedade”.

(STEDILE, 2006: 181)

Segundo as palavras de João Pedro Stédile, membro da direção nacional e um dos

fundadores do MST, o próprio Movimento Sem Terra assume que não é uma criação nova,

resultado de uma geração espontânea de lutadores do povo.

Sim, hoje, no mundo globalitarizado é difícil pensar-se como autocriação. Jean-

Paul Sartre já insistia, mesmo antes do Período Popular da História, no fato de que:

“Somos filho de muitos!”. Pois, hoje, vivemos não só na nossa aldeia, bairro, cidade,

estado, região, país ou continente. Hoje, nós todos, cada um de nós, já nasce, cresce e vive lançado no próprio mundo. Ora, para continuar caminhando com Sartre, “Se somos filho

de muitos, só somos pai de nós mesmo”.

Sempre ouvimos dos pobres a expressão: “Botar um filho no mundo!”. Mas, esta

expressão popular nunca foi tão atual nem tão real e concreta como no nosso mundo de

hoje.