Vendedor de Mulheres por Giorgio F. - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub para obter uma versão completa.

index-1_1.jpg

index-2_1.jpg

©2010 Baldini Castoldi Dalai editore S.p.A. – Milão

TÍTULO ORIGINAL

Appunti di un venditore di donne

CAPA

Mara Scanavino

IMAGEM DE CAPA

Fotografia Shutterstock/Tereza Dvorak e ilustração ALE+ALE

PREPARAÇÃO

Luna de Oliveira Valeriani

REVISÃO

Milena Chagas

Clarissa Peixoto

REVISÃO DE EPUB

Cam ila Dias

GERAÇÃO DE EPUB

Intrínseca

E-ISBN

978-85-8057-176-9

Edição digital: 2012

Todos os direitos reservados à

EDITORA INTRÍNSECA LTDA

Rua Marquês de São Vicente, 99, 3º andar

22451-041 — Gávea

Rio de Janeiro — RJ

Tel./Faz: (21)3206-7400

www.intrinseca.com .br

index-5_1.jpg

index-5_2.jpg

index-5_3.jpg

index-5_4.jpg

»

»

»

»

index-6_1.jpg

»

A Marcella e Corrado,

que nunca foram embora.

Certo, vamos comê-la.

ADÃO E EVA

PRÓLOG O

EU ME CHAMO BRAVO E NÃO tenho pau.

Essa poderia ser m inha apresentação. O fato de eu andar por aí com um

apelido, e não com um nom e de verdade, não significa nada. Cada um é o que é,

apesar dos rastros burocráticos que carrega consigo com o serpentinas depois de

um baile de carnaval. Não im portava o nom e com que eu m e apresentasse ao

dar apertos de m ão: m inha vida não seria m udada em nem um a vírgula. Nada a

m ais nem a m enos. Nem altos nem baixos, nenhum braço de m ar calm o ou

agitado no qual m e atorm entar ou do qual lam entar o torm ento. O fato de eu não

ter um nom e era um a providencial área de som bra na qual m e esconder, um

rosto que m al se entrevê, um a figura quase despercebida, o nada, o ninguém . Já

que eu era o que era, um a condição sem elhante abrangia, de m aneira específica,

tudo o que m e era útil, sem opções nem exceções.

No que diz respeito à outra particularidade anatôm ica, vale a pena nos

dem orarm os um pouco m ais.

Não nasci assim .

Não houve, naquele m om ento, a expressão atônita de um m édico que m e

viu sair de dentro da fissura totalm ente desguarnecido, nem o olhar perplexo de

um a m ãe ainda abalada pelo últim o e definitivo esforço do parto. Não houve

ternuras infantis para com um m enino m arcado por um a deficiência no m ínim o

singular e suscetível a piadas pesadas nos anos que viriam . Nem trágicas

confidências adolescentes com a cabeça baixa e olhos que parecessem querer

decorar o form ato da ponta dos sapatos.

Quando m e apresentei ao m undo, tudo estava em seu devido lugar. Até

dem ais, eu diria, à luz dos fatos que vieram à tona. E, até um determ inado dia,

tudo aquilo que estava em seu devido lugar foi fonte de diversos incôm odos para

senhoras e senhoritas aventureiras e arroj adas que não procuravam outra coisa.

Sem pre pensei que aquilo fosse problem a delas.

Até que o problem a de um a delas se tornou o m eu.

O com o, o quando e o porquê não serão futuram ente obj eto de estudo dos

historiadores. Tratou-se sim plesm ente de ter conhecido a pessoa errada no

m om ento errado. Réu confesso, se é que isso pode valer algo. Eu adm ito, m as

não m e recrim ino. A ordem das coisas na vida de cada um é com o é, e ponto

final. Às vezes, não tem os com o nem por que nos com portar de outra m aneira.

Ou, se tem os, no m eu caso, foi difícil enxergar. A sim ples proposta de um porquê

seria apenas um a agulha a m ais em um bonequinho de vodu com o m eu rosto.

Em um a noite daquelas em que o tem po deixa um a m arca, houve alguém

que, com um a navalha afiada e bastante raiva e sadism o, deixou-m e na condição

atual. Fiquei caído no chão com um a m ancha de sangue que se alargava nas

m inhas calças e, em m inha boca, a voz se reduzia cada vez m ais a um sopro,

enquanto a m ancha se tornava um grito. Fui expulso do teatro e obrigado a passar

do palco para a plateia. Jogado na últim a fila, eu diria. No entanto, a dor daquele

corte não foi nada se com parada à dor do aplauso.

Até então, eu havia falado de am or por conveniência, e praticado sexo por

prazer pessoal. Naquele m om ento, vi-m e na condição de não ser m ais obrigado a

prom eter aquele am or porque não era m ais capaz de receber em troca sua

com pensação m onetária. O sexo, j ustam ente.

O corpo de um hom em não m e dizia nada e eu não tinha nada a propor ao

corpo de um a m ulher.

De repente, surgiu a calm aria. Nada de picos nem vales, apenas planície.

Nada de m ar calm o ou revolto. Som ente a zom beteira bonança, aquela que não

estufa nem rasga velas. Quando não havia m ais m otivo para correr, pude olhar à

m inha volta e ver com o o m undo realm ente girava.

Am or e sexo.

Mentiras e ilusões.

Alternando-se. Depois, a partida em busca da próxim a escala, do próxim o

endereço anotado na m ente com m eios im provisados. Por intuição, por faro, por

toque. Cego, surdo e m udo, apenas com o auxílio do tato e do olfato, a últim a

fronteira do instinto.

Quando recuperei a visão, a audição e a fala, refleti e entendi.

Logo depois, aceitei.

No m om ento im ediatam ente seguinte, agi.

Desde então, foi derram ado sangue, m atéria-prim a de pouco valor em

qualquer parte do m undo. Pessoas m orreram e talvez o valor delas fosse ainda

m enor. Alguns dos responsáveis pagaram , outros se safaram . Com o todas as

coisas que têm um fim na m orte, esta tam bém tem um pequeno início.

Tudo com eçou quando entendi que havia m ulheres dispostas a vender o

próprio corpo para conseguir dinheiro e percebi que havia hom ens dispostos a

gastar o próprio dinheiro para ter aqueles corpos.

É necessário avidez, rancor ou cinism o para ficar no m eio dessa troca.

Eu tinha todos os três.

ABRIL DE 1978

1

QUANDO DAYTONA E EU VAMOS PARA a rua, está am anhecendo.

Param os na calçada, a dois passos de distância um do outro, respirando o ar

fresco da m anhã, que, m esm o em um a cidade grande, dá a im pressão de ser

puro. Na verdade, a respiração em Milão é um sopro m alcheiroso, exatam ente

com o deve estar nosso hálito àquela hora. A única coisa pura é a sugestão, m as

tam bém se vive disso.

Day tona abre os braços, bocej a e se espreguiça.

Acho que ouço um estalo em suas costas, m as talvez sej a apenas im pressão.

Seu rosto m ostra m arcas da noite que passou j ogando pôquer e cheirando

cocaína. Está alterado, dá para ver pelo m ovim ento dos m úsculos que se

contraem sobre os m axilares. A peruca farta que lhe cobre a calvície com o um

truque de ilusionism o e laquê cedeu um pouco e está levem ente inclinada, com o

um a boina peluda. Sua pele está pálida e um a m ancha escura contorna seus

olhos. O bigodinho faz com que ele pareça um daqueles personagens neuróticos e

m alvados dos desenhos anim ados que acabam sendo côm icos sem querer.

Leva a m ão ao rosto, puxa o punho da cam isa guarnecido pela noite em

claro e vê as horas.

— Nossa, são quase seis.

Day tona fala com o se isso fosse um problem a. Com o se, para ele, fosse

um a exceção ainda estar acordado àquela hora. Com o se tivesse que prestar

contas da própria vida a alguém além de si m esm o e, às vezes, à polícia. Deixa

cair o braço e o relógio desaparece. Aquele relógio é a origem do seu apelido.

Há anos ele usa um Rolex Day tona de ouro, m odelo Paul Newm an.

Quando o usa.

Esse detalhe faz com que sej a m uito fácil distinguir seus períodos de penúria

e de fartura. É só observar seu pulso esquerdo. Se o relógio não está ali, significa

que foi penhorado no Monte di Pietà. E, se foi penhorado, quer dizer que Day tona

está fazendo de tudo para reavê-lo. Sem se preocupar m uito com m eios e

m étodos.

De qualquer form a, agora o relógio está no seu pulso e ele sobreviveu a um a

noite desenfreada e a um a partida de pôquer na qual teve sorte. Depois do

fecham ento, ficam os na salinha do Ascot Club, aquela que fica ao lado do bar.

Ele, Sergio Fanti, o Godie, Matteo Sana (conhecido com o Sanantonio) e eu.

Bonverde, o proprietário, foi em bora com a m ulher logo depois do últim o

espectador e encarregou Giuliano, o gerente, de fechar o local. Sem se im portar

com o que aconteceria depois que ele saísse de cena. Ficam os ali, respirando um

arom a rem anescente de hum anidade prom íscua, em m eio à um idade com

cheiro de feno de um carpete que não é arej ado há anos. Surgiram cartas,

cigarros e alguns m etros de cocaína.

As horas, as cartas e os cigarros passaram e, quando a cocaína era apenas

um a lem brança, Day tona se tornou o indiscutível protagonista do evento. O golpe

de sorte foi um a quadra de noves que caiu sobre a m esa com o um raio que

destrói um fullhand com cartas de um a só cor. Foi o destaque da noitada.

Com o se tivesse lido m eu pensam ento, Day tona se vira para m im .

— Que sorte tive esta noite! Eu estava m esm o precisando.

Sorrio, em bora tenha tentado evitar. Viro a cabeça para olhar o tráfego ainda

incerto da m anhã. Poucos carros se deslocam indolentes pela via Monte Rosa.

Dentro deles, há fantasm as assustados, que voltam para casa, e fantasm as

iludidos, que acreditam ser assustadores e saem rum o à sua danação cotidiana.

Com o observador, parece-m e que Day tona deu um nom e e um endereço à sorte

com algum as artim anhas não totalm ente im pecáveis. Ao m enos, não para m im .

Mas isso não é da m inha conta. Não j ogo, portanto, não ganho nem perco.

Sem pre fui o espectador que vê e cuida da própria vida. Com o tem po, essa regra

se tornou um hábito agradável. Vive-se m elhor e, em certos am bientes,

sim plesm ente vive-se.

Volto a ele.

— Foi sorte m esm o. Quanto você ganhou?

Day tona m e exam ina para ver se há ironia em m eu rosto. Não a encontra,

ou talvez prefira não encontrá-la. Põe a m ão no bolso e a deixa lá, com o se

bastasse o tato para contar o dinheiro. Parece que estou vendo seus dedos

gorduchos e peludos am arfanhando as notas com o m ovim ento grosseiro

geralm ente usado com o dinheiro fácil.

— Um m ilhão e oitocentas m il liras, m ais ou m enos.

— Boa j ogada.

— Verdade. Deu m ole, eu caio dentro.

Ele esfrega as m ãos satisfeito e eu penso que certos seres hum anos têm

m uita dificuldade para aprender com os próprios erros. A m esm a dificuldade que

eu tenho para não sorrir novam ente. Certa vez, durante um a partida com pessoas

que não estavam à sua altura, de tanto repetir aquela frase, Day tona levou um

soco na cara de um suj eito m ais alto, m ais forte e m ais arm ado que ele. Sem

poder reagir, por m otivos óbvios. Circulou durante um bom tem po com um olho

roxo que o fazia parecer um dálm ata roliço e triste. E havia um a bela com issão

de risadinhas que o acom panhava com o se fosse a cauda de um vestido de noiva.

Atrás de nós, surgem os outros.

Sobem um a escada sob um letreiro que, à noite, representa um convite para

descer até o Ascot Club, o indiscutível tem plo do cabaré m ilanês. Nas paredes

que ladeiam os degraus gastos, há pôsteres dos fam osos que, no início de suas

carreiras, passaram por aquelas salas, sobre aquelas m esas, sob aquelas luzes.

Todo dia, na rua, ao lado da entrada do clube, é colocado um painel lum inoso que

anuncia os nom es dos aspirantes.

Um passado provisório, um futuro de glória e um presente de esperança.

Todos reunidos no velho axiom a segundo o qual em Milão, depois de certa hora

da noite, circulam pelas ruas apenas policiais, artistas, delinquentes e putas.

O difícil sem pre foi entender quem é quem .

Giuliano sai por últim o. Dem ora-se baixando a porta de m etal que lacra

definitivam ente o Ascot Club e o protege da contam inação do dia.

Os outros nos alcançam .

O Godie se aproxim a de Day tona e apoia o indicador e o dedo m édio

abertos com o se fossem um a tesoura em seu pescoço.

— Tac! Capturado, seu gãoca!

O Godie tem um j eito de falar e de agir bastante folclórico. Representa

m uito bem o lugar, a hora e o tipo de gente com quem convive. Aquele círculo

de pessoas que se exprim e com um a linguagem que tem a pretensão de ser

reconhecível, ou até m esm o original. Basta inverter as sílabas das palavras, assim

gato se transform a em toga, m esa se transform a em same e carta se transform a

em tacar. E Diego, seu nom e verdadeiro, se transform a em Godie.

O Godie, para ser m ais preciso.

Sim ples e talvez um pouco estúpido tam bém . Mas cada um pendura as

m edalhas que quer.

Day tona afasta a m ão dele.

Gãoca nada. Vocês é que não sabem j ogar. Principalm ente você.

O Godie o em purra pelo cotovelo.

— Vá pro inferno. Lem bre que em Las Vegas só dávam os Steve McQueen

e eu.

O hum or é o de sem pre, um pouco repetitivo, às vezes inspirado naquele dos

artistas que a cada noite se exibem no Ascot, às vezes servindo de inspiração para

eles.

Giuliano nos alcança. Assim com o eu, ele tam bém não participou do j ogo.

Só da algazarra lim ítrofe. Acho que ele em bolsou algum por ter deixado o local à

nossa disposição. Mas, com o sem pre, não é da m inha conta.

— Então, o que vam os fazer?

Sergio Fanti, estatura m édia, m agro, calvo, nariz protuberante, olha o

relógio. Todos nós sabem os o que ele está prestes a dizer.

— Só tenho tem po de passar em casa, tom ar um banho e ir direto para o

escritório.

Sergio é o único que tem um em prego sério. Trabalha com m oda, o que é

confirm ado por seu terno am arrotado, porém elegante. Ninguém sabe com o ele

consegue conciliar as noites de fuego e rock’n’roll com um a atividade com ercial,

m as ele dá conta. O único indício dos seus delitos são as duas olheiras profundas

que ostenta no rosto com o se fossem um a grife.

Matteo Sana bocej a. Depois, alisa a barba descuidada, que com eça a

apresentar alguns fios brancos, assim com o seus cabelos.

— Vou tom ar um cappuccino na Gattullo.

O Godie encosta os dedos em form a de tesoura no pescoço dele tam bém .

Com seu sotaque tão m ilanês a ponto de parecer um a caricatura, adere à

proposta.

Tac! Tô nessa. Pago e aum ento. Cappuccino com croissant.

Giuliano olha para m im e para Day tona.

— Vocês dois vêm ?

Day tona bate com o indicador no dorso da m ão.

— Eu passo.

Balanço a cabeça.

— Idem . Vou para o cafofo.

Vem os os quatro que se afastam até chegarem à BMW 528 de Sergio Fanti,

que, no fim das contas, acabou cedendo. O Godie se agita e fala, com o sem pre

faz quando está m eio doidão. Entram e, abafado pelo barulho das portas batendo,

o m otor dá a partida, soltando pelo cano de descarga um a fum aça azulada. O

carro sai do estacionam ento e segue para a piazza Buonarroti, na direção da

confeitaria Gattullo, em Porta Lodovica.

Já os vej o entrar transtornados na loj a que, devido ao tem po que levarão

para chegar até lá, estará cheia de gente pedindo um cappuccino e um croissant.

Ao contrário do planej ado, talvez peçam três uísques e um Cam pari, cham ando a

atenção de um a dezena de pessoas. Depois, irão para casa dorm ir, tom arão um

Rohy pnol para com bater o efeito da cocaína e a taquicardia provocada pela

anfetam ina que, certam ente, foi usada para m alhá-la. A noite term inou e é assim

que certos anim ais voltam para as suas tocas.

Eu e Day tona estam os na calçada, novam ente sozinhos.

— Sabe o que está faltando para term inar bem um a noitada de sorte?

— Não.

Na verdade, eu sei. Sei m uito bem . Mas quero que ele diga.

Day tona m e olha com sua peruca que vai e vem e os olhos brilhantes, se é

que podem brilhar depois de um a noite insone. Depois, indica com a cabeça um

ponto do outro lado da rua.

— Um a aventura com aquela taga.

Sorrio, sem precisar disfarçar desta vez.

Em frente ao Ascot Club fica um edifício com ercial grande, totalm ente

ocupado pela Costa Britain. São quatro andares que tom am boa parte do

quarteirão. Desde a esquina com a via Tem pesta até m ais à frente de onde

estam os, na direção de piazzale Lotto. Cim ento, m etal e vidros. E luzes sem pre

acesas, ilum inando tetos e escrivaninhas para lem brar a todos que, nesta cidade,

m esm o quando estam os descansando, pensam os em trabalho.

Da porta de vidro, acaba de sair um grupo de pessoas. São as faxineiras.

Esvaziaram latas de lixo, passaram o aspirador de pó e lim param banheiros,

escravas da noite que deram duro até agora para que os escravos do dia

encontrem tudo em ordem . Duas se afastaram logo, atraídas por um a cam a ou

um café da m anhã. As outras se dem oraram um pouco em um a conversa, talvez

com a m esm a sensação que tivem os, a de que, àquela hora da m anhã, vale a

pena respirar o ar. Um a delas se detém para acender um cigarro, ficando um

pouco isolada das dem ais. É alta e m agra, e as roupas disform es não conseguem

esconder algum a graciosidade. Os cabelos são longos e castanhos, o rosto é claro,

cheio de luz.

E conform ado.

Tam bém a indico com a cabeça.

— Aquela?

— É. Que gata.

Olho para Day tona e vej o que, na sua cabeça, j á está passando um film e. E,

certam ente, não é um film e que possa ser exibido em um cinem a do centro da

cidade.

— Para você, quanto vale?

— Um a perna, se topasse.

Cem m il liras são um belo par de sapatos nos dias de hoj e, que passam cada

vez m ais rápido.

— Duzentas m il liras e ela topa.

Day tona arregala os olhos. Não questiona as m inhas palavras, m as o valor.

— Nossa, duas pernas!

— Cento e cinquenta para ela e cinquenta para m im .

— Você é um filho da puta.

Olho para ele com o olharia para um em igrante com um a m ala de papelão.

— São seis da m anhã, você está sozinho, é feio e ela é um a garota bonita.

Está indeciso. Talvez não consiga entender se estou brincando ou falando

sério.

Dou o golpe de m isericórdia.

— Você acabou de ganhar um m ilhão e oitocentas m il liras. Vai sobrar um

m ilhão e seiscentas m il.

— Tudo bem . Vam os ver o que você é capaz de fazer.

Afasto-m e. Agora, está na hora de ele bancar o espectador. Atravesso a rua

e m e aproxim o da garota, que fum a com a bolsa pendurada em um om bro e m e

observa fazendo suas avaliações. É m uito m ais graciosa de perto. Chega a ser

bonita. Seus olhos são cor de avelã, m elancólicos, talvez tenham visto periferias

dem ais, e falam de coisas desej adas e nunca obtidas.

Sorrio.

— Oi. Você tem fogo?

Ela pega a bolsa, rem exe em seu interior e m e oferece um isqueiro de

plástico. Deve trabalhar aqui há pouco tem po. As m ãos ainda não estão

estragadas pelos detergentes e afazeres, dom ésticos e não dom ésticos. Pelo m odo

com o m e olha, entendo que intuiu que o pedido de fogo foi só um pretexto. E

nem m uito original, para ser sincero.

Pego o m aço de Marlboro e acendo um cigarro. Em m eio à fum aça, aponto

para o prédio atrás dela.

— Você trabalha aí?

Ela faz um gesto vago com a cabeça.

— Faxineira. Se você cham a isso de trabalho, sim , trabalho aí.

— Qual é seu nom e?

— Carla.

— Certo, Carla. Posso lhe fazer um a pergunta pessoal?

Ela aplica a regra do “quem cala consente”. Está curiosa. O que significa

que tam bém é esperta.

— Quanto você ganha?

Carla m e estuda, espera para ver aonde quero chegar. Não há m edo em

seus olhos, gosto disso.

— Cento e oitenta.

— Quer ganhar cento e cinquenta em duas horas?

Ela entende logo. Fico esperando um tapa que não se m aterializa. Muito

significativo. Talvez certos tipos de proposta não sej am um a novidade para ela.

Talvez ela estej a passando por um a situação de m uita necessidade. Talvez, em

um lam pej o, tenha sim plesm ente vislum brado um cam inho para sair da

periferia, dos congelados e dos vestidos da Upim . As hipóteses são m uitas e

nenhum a m e interessa.

Só falta esclarecer um a coisa e é ela quem tom a a iniciativa.

— Com quem ?

Faço um gesto com a cabeça em direção a um ponto atrás de m im . Ela

avista Day tona do outro lado da rua. Depois m e encara com um pouco de

desilusão. Por fim , baixa os olhos e procura o asfalto antes de responder.

— Não é o Robert Redford.

Mostro um a expressão inocente, com o se faz diante do óbvio.

— Se fosse, eu não estaria aqui falando com você.

Ela olha para as outras que, em grupo, parecem esperá-la a poucos passos

de distância. Desde que com eçam os a conversar, elas ficaram nos estudando,

fazendo suas considerações. Algum as risadinhas e olhadelas. Não excluo a ideia

de que algum as possam ser de invej a. Carla se volta para m im com ar de desafio

nos olhos cor de avelã.

Fala baixinho, com o se fosse um pensam ento que escapou dos lábios.

Propõe um a alternativa.

— Com você, seria grátis...

Balanço levem ente a cabeça e elim ino qualquer hipótese naquele sentido.

— Estou fora de questão.

Ela precisa de um esclarecim ento.

— Não gosta de m im ou não gosta de m ulheres?

— Nem um a coisa nem outra. Digam os que, nesta situação, sou apenas um

interm ediário.

Carla fica em silêncio. Entendo que ela está avaliando os prós e os contras.

Acho que não é um a questão m oral, m as som ente de oportunidade. Talvez ela

sej a de um a daquelas fam ílias em que o pai é o dono de tudo o que tem em casa,

inclusive das filhas. Trata-se apenas de dar um preço adequado a algo que ela

geralm ente é forçada a conceder sem possibilidade de escolha. Ou talvez essas

ideias sej am apenas fruto da m inha im aginação e, com o costum a acontecer, a

verdade é outra. Ninguém pode realm ente saber o que se passa na cabeça das

pessoas.

Às vezes, só interessa o que as pessoas decidem fazer.

Carla faz um sinal afirm ativo com a cabeça.

— Diga para ele m e esperar na frente da Alem agna na via Monte Bianco.

Daqui a dois m inutos estarei lá.

Indico o Porsche cor de abóbora de Day tona. É um m odelo antigo, com o

prestígio ofuscado. Um prestígio que ficou nas m ãos do prim eiro proprietário,

que agora certam ente dirige o últim o m odelo. Mas, para suj eitos com o Day tona

e para as pessoas com quem ele anda, aquele carro é de qualquer m aneira um

cartão de visitas.

— O carro é aquele.

— Tudo bem .

Enquanto conversam os, suas colegas de trabalho se afastam . Carla parece

aliviada. Por enquanto, não precisa dar explicações. Tenho certeza de que, no dia

seguinte, ela j á vai ter um a resposta pronta. O dinheiro e o senso de culpa são

ótim os incentivos à m entira.

— Só um conselho.

— Pode falar.

— Faça com que ele pague um café para você e não entre no carro sem o

dinheiro na bolsa.

Ela m e olha com um sorriso que não é exatam ente um sorriso.

— É assim que se faz?

— É. É assim que se faz.

Viro-m e para ir em bora e, do outro lado da rua, vej o a figura de Day tona,

esperando. Atravesso e vou até lá. Ele assistiu ao diálogo sem saber o que

realm ente acontecia, exatam ente com o as colegas de Carla. Quando m e

aproxim o, j ogo a guim ba do cigarro e solto a últim a baforada de fum aça para

aum entar a poluição de Milão.

— Então?

— Fique esperando na frente da Alem agna. Ela encontra com você lá.

— Quanto?

— Cento e cinquenta, com o eu disse.

— Cacete!

Talvez Day tona não acredite nos próprios ouvidos e com aquela palavra

estej a querendo exprim ir espanto. Ou talvez estivesse esperando um desconto.

Parou de acreditar no próprio charm e há m uito tem po.

— E cinquenta para m im .

Estico a m ão com a palm a virada para cim a. Ele entende e vasculha o

bolso. Depois m e estende um a nota toda am arfanhada, com o é j usto que sej a

para o dinheiro ganho sem esforço. Só que, daquela vez, fui eu que ganhei. Sem

trapacear. Um j ogo tão velho quanto o m undo, e eu conheço suas regras.

Day tona tam bém as conhece, m as não se rebaixa para aplicá-las. Basta que

alguém faça isso em seu lugar. Com o tantas pessoas, está disposto a pagar por

isso.

Enquanto ponho o dinheiro no bolso do paletó, ele m e olha com seriedade.

— Não brinque com igo, Bravo.

Dou de om bros.

— Você sabe que nunca brinco.

Day tona se aproxim a do Porsche, abre a porta, entra e dá a partida. Espera

que a rua estej a livre e parte na direção de piazzale Lotto. No sinal verde, as luzes

de freio se acendem e o carro desaparece à direita, rum o a um a discutível

aventura.

Agora, estou sozinho.

Apalpo o bolso do paletó, encontro a chave e vou em direção ao carro, um

Innocenti Mini azul-escuro, estacionado ali perto.

Entro no m eu m eio de transporte anônim o. À esquerda, Carla passa

depressa, indo para o seu com prom isso. Ela m e vê e olha para o chão. Boa sorte,

garota. Um m ês de salário por duas horas de trabalho não é um m au negócio, se

você sabe se adequar. Ela dem onstrou que estava disposta. Para m im , foi um a

espécie de distração, pois geralm ente tenho contratos e contatos de outro calibre.

Não m e pergunto o que estou infringindo com o que acabei de fazer ou com o

que habitualm ente faço.

A lei dos hom ens é um a linha traçada com m ão pouco firm e. Alguns

ultrapassam o lim ite, outros o respeitam . Estou convencido de que vivo um palm o

acim a dele, sem nunca pôr os pés nem de um lado nem de outro. Não m e

questiono porque o m undo à m inha volta não m e questiona.

Isso pode agradar ou não, m as eu sou assim .

2

COM VOCÊ, SERIA GRÁTIS...

As palavras da garota ainda ecoam nos m eus ouvidos enquanto percorro a

Nuova Vigevanese indo para casa. E seus olhos são ainda um a im agem . Para

afastar sons, aparências e desej os, sobreponho a tudo o rosto congestionado e as

prováveis palavras de Day tona enquanto está na cam a com ela. Im agino-a sendo

despida apressadam ente por aquelas m ãos gorduchas, com a pele branca dos

dedos sob pelos negros. Conheço o gesto im paciente com o qual ele abaixou as

calças e em purrou a cabeça de Carla para o m eio de suas pernas. Sei o que

acontecerá ou o que aconteceu em seguida. Um a relação de qualquer j eito,

im possibilitada pelos efeitos da cocaína, pela indiferença da garota e pelo

anonim ato do m otel.

Mas Day tona não é do tipo que presta atenção a certas coisas. Não tem a

força para ser um anim al de rapina e a garota não tem a ingenuidade de um a

gazela. É apenas um contrato, que prevê coisas a serem dadas e recebidas. Para

algum as pessoas, a perspectiva do ato é m ais im portante do que a sua realização.

Esse é um caso assim . Por outros m otivos e em outro sentido, isso tam bém vale

para m im .

O sinal de trânsito m uda de am arelo para verm elho. Paro e acendo um

cigarro. Enquanto brincávam os de boa vida, o dom ingo se transform ou em

segunda-feira para o resto do m undo. À m inha volta, o tráfego com eça a se

em aranhar em um novelo que estará firm e e inextricável daqui a m eia hora ou

pouco m ais. Porém , antes disso, j á estarei escondido em casa. Não existe

charm e nem glória algum a em ser um anim al noturno. Às vezes, é um em buste,

porque a escuridão em baralha tudo, crenças e verdades. Docum entários

continuam a nos m ostrar cenas de leões que se banqueteiam e bandos de hienas

que circulam enquanto esperam para brigar pelos restos. Na verdade, m uitas

vezes foram as hienas que m ataram a presa. O leão apareceu depois, com a lei

do rei, para pegar sem esforço a m elhor parte, deixando para quem fez o

trabalho suj o os restos de sua refeição. Essa im agem , filtrada por um a lente

apressada, com o em um a lei da física, é proj etada no m undo real de cabeça

para baixo, tornando difícil entender quem é leão e quem é hiena.

A m eu lado, em um Mercedes novo em folha, um suj eito bocej a sem

escolha.

Tento entender que anim al ele é.

Seu rosto não está destruído por um a noite passada em claro, m as sua

expressão evidencia um despertador que sem pre toca cedo dem ais. Um tipo

anônim o, do gênero “não, não”. Não é j ovem e não é velho, não é bonito e não é

feio, não é rico e não é pobre. E assim por diante. Talvez tenha m ulher e filhos e

tenha com prado o Mercedes porque decidiu que era o que a vida lhe devia, do

m esm o m odo que, às vezes, com pra algum as horas de um a garota do nível que

eu costum o negociar. Deve ser um pequeno em presário, daqueles que têm

galpões espalhados com o um a serpente ao longo da estrada que leva a Vigevano.

No seu galpão de dois andares, talvez sej am produzidos perfis de alum ínio ou

vendidos sapatos a preço de custo.

O sinal abre e, sim ultaneam ente, soa a buzina de um carro. É tão previsível

que sequer desperdiço um palavrão. O céu passou de descolorido a azul e, com o

sol, apareceram as som bras. Outras devem desaparecer. É a lei da cidade e do

seu zum bido cotidiano que aum enta ou dim inui de acordo com o horário. Para

quem não o suporta, está quase na hora de tapar os ouvidos e esconder a cabeça

em baixo do travesseiro.

Quando chego à altura do m etrô, viro à direita, percorro um trecho na pista

lateral e logo estou no Quartiere Tessera, onde m oro. São edifícios quadrados de

cinco andares, revestidos de ladrilhos m arrons, delim itados por um a grade para

dar a ideia de ordem e coesão. Entre um edifício e outro, largos canteiros

cobertos por um a gram a m inguada, com alguns pinheiros e bordos que fazem o

papel de vegetação. São prédios da Ras. Fazem parte daquela reserva im obiliária

que as seguradoras devem ter. Daqui a pouco, quando os edifícios com eçarem a

se deteriorar e a m anutenção se tornar um custo excessivo no balanço, serão

postos à venda. Então, verem os quem tem vocação para proprietário e quem

continuará a pagar aluguel pelo resto da vida e será obrigado a m igrar.

Os apartam entos são, em sua m aioria, ocupados por trabalhadores

pendulares, hom ens com ternos de loj as de departam ento e colarinhos sem pre

um pouco largos ou apertados dem ais, que deixam a m ulher em casa de m anhã

e a reencontram à noite, um dia m ais velha, sem saber ou sem se im portar com

o que a fez envelhecer. Devo dizer que, nas m inhas idas e vindas, encontrei

algum as senhoras que m e olharam com interesse e, depois, lançaram com os

olhos um claro e rápido SOS. Abaixei a cabeça e segui em frente. Não tenho

nada para dar e nada a receber. Este lugar e esta vida fazem com que as cores

m urchem , e de nada adianta m isturar tons de cinza. Mais claro ou m ais escuro, o

resultado é sem pre cinza.

Paro o carro no estacionam ento, em um a vaga que está sendo liberada. O

m otorista é j ovem , m as j á tem um ar conform ado. Sua expressão o transform a

em um a bandeira branca viva. É incrível com o certas pessoas se rendem logo.

Não são perdedores, m as aqueles suj eitos que nem m esm o tentam . E isso os

transform a em protagonistas de algo m uito pior do que qualquer derrota.

Conheço m uitos assim .

Às vezes, acho que vej o um deles sem pre que m e olho no espelho. Abro a

porta, desço e tranco essa depressão de um a noite passada em claro dentro do

Mini. Tom o a direção de casa, m argeando a m ureta divisória.

À esquerda, a duzentos m etros de distância, ficam os conj untos

habitacionais. É um outro m undo, precário e perm anente ao m esm o tem po.

Áspero e em contínuo devir. Ali m ora gente heterogênea: operários e pequenos

m arginais, m ão de obra não especializada através da qual se atinge um a esfera

m aior e m ais articulada. Alguns instantes de glória, um pouco de dinheiro fácil

logo ostentado no bar com um carro novo, a chegada ao am anhecer de duas

viaturas da polícia. Surge um a vaga e sem pre tem alguém à espera, pronto para

ocupá-la. Pensando bem , essa é apenas um a outra m aneira de ser um

trabalhador pendular.

A topografia dos subúrbios m ilaneses diz que estam os na via Fratelli Rosselli,

núm ero 4. Eu digo que estou no lugar que, durante algum as horas do dia, cham o

de casa. Do outro lado do gram ado, um a senhora passeia com o cachorro. É um

pastor alem ão que corre, volta e faz festa para a dona sonolenta. O bicho parece

aceitar aquele verde adubado pela poluição m elhor que os dem ais m oradores.

Abro a porta de vidro e subo até o prim eiro andar sem encontrar ninguém .

Ponho a chave no orifício, abro a fechadura e um a voz m e surpreende.

— O som de um hom em que volta para casa é diferente do som de um

hom em que está saindo.

Viro-m e e, da porta em frente à m inha, desponta a figura de Lucio. A

direção do seu olhar está levem ente fora de eixo em relação ao ponto em que

estou. Ele está de óculos escuros. Sei que quando está sozinho não os usa, m as seu

com preensível pudor de cego im põe que ele cubra os olhos velados por um

branco angustiante quando está na presença de alguém .

Esboço um sorriso que ele não pode ver, apenas sentir.

— Você tem ouvidos de gato.

— Tenho ouvidos de m úsico.

Logo se censura.

— Piada m uito discutível. Eu j am ais poderia trabalhar em um cabaré. Acho

que terei de m e contentar em ser a versão italiana de Stevie Wonder.

Lucio toca violão, esplendidam ente por sinal. Da m inha casa, m uitas vezes o

ouço enquanto pratica. Aquele instrum ento sinuoso, com as laterais largas,

am plas, fem ininas, representa sua alforria da escuridão e sua liberdade. Graças à

m úsica, ele se vira bastante bem . Alterna períodos em que toca em alguns bares

em Brera e outros em que se exibe no m etrô. Im agino que sej a sua m aneira de

diferenciar o dia da noite, j á que, senão, tudo seria um a noite perene. Talvez ele

pudesse ter m ais, m as o que possui lhe é suficiente. Nunca perguntei e ele nunca

m e disse. Todos os hom ens têm um a área da vida que faz parte do perím etro

sacrossanto dos assuntos que não dizem respeito a m ais ninguém . O m ais difícil é

entender a extensão dessa área para cada um .

— Quer um café?

Fico parado com a porta aberta. Ele levanta um om bro.

— Apague do rosto essa expressão de dúvida. Sei que ela está aí. Não se

nega a ninguém com panhia para um café. E isto não é um a exceção. Não vej o

m otivo.

Lucio fez um a breve pausa antes de dizer essa últim a frase e a enfatizou

levem ente com a voz. Acho que a autoironia é um dos escudos que ele põe entre

si e seu m undo invisível. Igualar-se, tentando não ser visto por quem não

consegue ver.

— Vam os tom ar esse café. Você é um pé no saco.

Ouve m inha porta se fechar e m eus passos atravessando o corredor. Abre

um pouco m ais sua porta e se afasta para m e deixar entrar.

— E você é um babaca m al-agradecido. Vou fazer um café horrível, assim

você aprende.

Entram os no seu apartam ento. Não há qualquer concessão à visão. Os

tecidos foram escolhidos pelo tato e as cores são aleatórias. A decoração, não.

Quando nos conhecem os, há um ano, Lucio m e disse que se m udou para ali

porque a planta era m uito sem elhante à do apartam ento no qual m orava antes.

Os m óveis foram arrum ados na m esm a disposição e os percursos foram

m em orizados sem esforço.

Ou quase.

Com o ele costum a dizer, tem sem pre um “quase” na sua situação.

Dirij o-m e para a m esa perto da porta-balcão. Lanço um olhar para além

dos vidros sem cortinas. A senhora com o cachorro não está m ais lá em baixo.

Não há ninguém na rua.

Estam os sozinhos, dentro e fora.

Lucio se m ovim enta com o se enxergasse em seu pequeno dom ínio privado

sem arestas ou quinas. Desaparece atrás da porta da pequena cozinha e o ouço

m exer nos arm ários e na cafeteira. Suas palavras chegam até m im enquanto m e

sento.

— Um a fácil, j á que você passou a noite em claro.

— Manda ver.

— Espeta cachorro. Quatro m ais três igual a sete.

É um criptogram a. A partir da definição, tem os de descobrir duas palavras

que, j untas, dão origem a um a terceira que é a som a de suas letras. Não precisei

pensar nem um segundo.

— Espeta cachorro. Fura cão. Furacão.

Desta vez, sou eu que ouço o sorriso na sua voz, m esm o sem vê-lo.

— Bem , essa era realmente fácil dem ais. Bravo, senhor Bravo! — É um

hábito antigo entre nós. Inventam os e trocam os enigm as em vez de confidências

sobre nossas vidas. Um dia, um de nós inventará um a charada particularm ente

com plexa e o outro a resolverá. Talvez, nesse dia, poderem os dizer que som os

am igos. Por enquanto, som os apenas duas pessoas que dividem o quintal durante

algum as horas para tom ar ar.

O café se m anifesta através do som rouco da cafeteira. Lucio sai da cozinha

com duas xícaras diferentes e um açucareiro na m ão. Não ofereço aj uda porque

sei que ele não iria querer. A confirm ação é que ele nunca m e pediu.

Ele apoia tudo sobre a m esa e desaparece novam ente. Quando volta, está

trazendo um a cafeteira com capacidade para duas xícaras e duas colherzinhas.

Põe tudo em cim a da m esa e se senta à m inha frente.

— Tudo bem , Matilde. Pode servir o café.