Verdades Amargas: estudo político dedicado às classes que pensam, que possuem e que trabalham por Cláudio José Nunes - Versão HTML

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Verdades amargas, by Claúdio José

Nunes

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Title: Verdades amargas estudo politico

dedicado às classes que pensam, que

possuem e que trabalham

Author: Claúdio José Nunes

Release Date: November 30, 2006

[EBook #19974]

Language: Portuguese

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GUTENBERG EBOOK VERDADES

AMARGAS ***

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Portugal))

VERDADES

AMARGAS

ESTUDO POLITICO

DEDICADO ÁS CLASSES QUE PENSAM,

QUE POSSUEM E QUE TRABALHAM

POR

CLAUDIO JOSÉ NUNES

LISBOA

TYPOGRAPHIA DE FRANCISCO

XAVIER DE SOUSA & FILHO 26, Rua

do Ferregial de

Baixo, 26

*1870*

AO LEITOR

O auctor d'estas linhas não pretende

endireitar com ellas o mundo, nem dar

conselhos a quem lh'os não pede.

Como pertence, porém, a essa tribu de

sonhadores que tem a simplicidade de

gastar alguns minutos no estudo das

cousas da patria, e tantas vezes te ouve

ponderar—a ti mesmo, que tens agora

este folheto nas mãos—o que adiante

acharás, julgou dever condensar em letra

redonda a expressão de teus patrioticos

reparos.

Ignora elle, comtudo, se o pudor

convencional te fará agora tapar os

olhos em publico na presença da

verdade nua, que tão frequentemente

despes nas côrtes e na imprensa, na sala

e na rua.

É natural que não.

Mas se esse facto se der; se a tua

hypocrisia tomar geitos de castidade,

repara que, ferindo o auctor, cravarás o

ferro em tua propria lingua.

Ha só uma differença. Tens dito mil

vezes que o paiz está podre. Aqui diz-se

unicamente que o paiz apodrece.

Pódes, pois, á vontade hervar a setta da

critica.

Outubro de 1870.

VERDADES

AMARGAS

Ha na vida dos povos alguns momentos

em que é honra e proveito o trabalharem

todos os cidadãos na redempção da

patria commum.

O nosso paiz atravessa uma hora difficil.

De norte a sul, em todos os recantos

d'este velho torrão portuguez, o edificio

social escaliça e range, como se

houvesse caído sobre elle uma d'essas

biblicas maldições que imprimiam o

cunho de uma irremissivel fatalidade.

As forças vivas do paiz vão

esmorecendo n'um deploravel

abatimento. Definha o commercio;

retrae-se a industria; a agricultura vê

seccar os peitos uberrimos.

Sobre os factores da riqueza nacional

anda uma athmosphera suffocadora. A

intelligencia annuvia-se; o capital

adormece; o trabalho espreguiça-se.

O melhor e maior de todos elles, a

confiança publica, declina rapidamente

para um funestissimo occaso.

Porque?

Porque um povo não vive só do que

palpa e do que vê. Transpõe-se o rio;

corta-se o monte; povoa-se o estalleiro;

fertilisa-se o solo; mas se todo o

progresso material fôr automaticamente

produzido, sem que o illumine uma

faisca d'esse espirito publico, que

constitue a alma das grandes nações,

tarde ou cedo a ephemera florescencia

murchará de encontro ao mais ligeiro

attricto.

E assim é.

Quiz Portugal acompanhar a Europa no

caminho da civilisação. Poz a estrada

aonde era o barranco e o caminho de

ferro aonde era a estrada. Estimulou a

producção pelo consummo e o

consummo pela producção. Fez do

credito a alavanca de multiplicadas

emprezas. Viveu em vinte annos o que

não vivêra n'um seculo. Mas como, no

meio d'esse tumultuar de interesses, não

quiz ter olhos e coração para o culto das

cousas do espirito, vê-se hoje a braços

com uma crise angustiosa, nascida em

grande parte da relaxação moral em que

labora o paiz, debaixo do ponto de vista

politico e social.

* * * * *

Diga-se a verdade, custe o que custar.

Não é com o silencio que se dá rebate a

um povo em perigo. Ponha-se o cauterio

na ferida, embora as carnes estremeçam

com a dor.

O verdadeiro patriotismo não cala nem

dissimula; descobre e repara.

E o remedio urge. Um veneno subtil,

mescla atroz de apathia, de relaxação e

de egoismo, vai-se lentamente

infiltrando por quasi todas as camadas

da sociedade portugueza e acabará por

matal-a, se contra elle não reagir a

poderosa triaga de moralisadora e

energica acção.

Sem criterio moral não terá o paiz o

sentimento de seus direitos e de sua

responsabilidade.

Se lhe faltar esse duplo sentimento,

faltar-lhe-ha a vontade propria.

Sem vontade propria não ha elementos

de boa politica.

Sem boa politica não ha governos

estaveis.

Sem estabilidade nos governos não ha

confiança publica.

Sem confiança publica não ha grangeio

de riquezas.

Sem augmento de riquezas não se

avoluma facilmente a receita do estado.

Sem equilibrio no orçamento vai-se

direito á ruina.

Ruina que não provém, pois, unicamente

de razões physicas occasionaes, mas que

tem raiz e tronco na condição moral em

que vivemos.

Ruina que póde levar-nos ao suicidio na

bancarota ou na Iberia.

Incuta-se, pois, no paiz um novo alento e

o que hoje é beira de abysmo, na phrase

tradicional da imprensa, talvez não

passe amanhã de ponto confuso na

topographía politica de um povo

regenerado.

I

Haverá criterio moral no paiz, em tão

larga escala e com tal cunho, que dê

physionomia á vida publica portugueza?

Infelizmente, não.

É certo que não escaceia nas

transacções da vida particular essa

honestidade, que á força de ser

obrigação, não passa de banal virtude.

Toda a terra em que ella chegasse a

constituir excepção cedo se converteria

n'uma charneca de salteadores, aonde o

mais robusto e o mais audaz tomaria a

realeza do roubo e do assassinato.

Não falta igualmente quem modele o seu

procedimento, no tracto commum, pelas

normas de escrupulosa delicadeza, não

consentindo que a sombra sequer de uma

duvida lhe embacie a transparencia do

nome.

Mas não se trata aqui de individuos;

aprecia-se a collectividade.

Não se allude a homens; falla-se do

paiz.

Do paiz que elege.

Do paiz que legisla.

Do paiz que governa.

Do paiz politico, n'uma palavra.

N'este, força é confessal-o, as

excepções invadem a regra geral.

As convicções andam alli geralmente á

mercê dos ventos do ceu.

Um enxame de incredulos, que

borboleteiam de despeito em despeito

ou de interesse em interesse, pousando

hoje aqui e além ámanhã, suga o mel do

partido em que eventualmente pousou,

flor tanto mais procurada quanto mais se

espaneja ao sol do poder.

Os proprios programmas partidarios

batem repetidas terçãs. Ardem na febre

ou gelam no frio, segundo são

difficuldades de governo ou facilidades

de opposição.

No meio d'esta balburdia quasi toda a

gente é correligionaria de quasi toda a

gente.

Parece que o pobre do orçamento é

floresta aonde se caça a furão e a rede, a

tiro e a pau.

Não ha mezes defezos, nem habilitação

policial.

Entra quem póde. Fere, mata e apanha

quem teve melhor olho ou mais vigoroso

lebreu.

Gasta-se metade do anno a demolir os

adversarios e a outra metade a forjar

com elles alguma salvadora fusão.

E como n'esta abençoada terra não se

discutem principios mas homens, o

imbecil, o devasso, o infame da vespera

será no dia seguinte honrado collega.

A abnegação democratica é apregoada

de boca em boca mas, para honra e

gloria d'ella, um chuveiro de titulos e

condecorações alaga por vezes em

ridiculo a prosapia do agraciado e a

referenda do bemfeitor.

Mais ainda. Tropeça um conde na plebe,

levanta-se logo marquez.

Se vem a republica, é certo o ducado.

A lei anda em interinidade. Reformas de

reformas reformam o que foi reformado.

Quem se descuidar um mez de estar em

dia com a legislação arrisca-se a dar

comsigo n'algum labyrintho de

referencias ou n'algum fojo de multas.

Leis não faltam. Verdade é que, em

compensação, ficam muitas em letra

morta.

O respeito ao principio de auctoridade,

sem o qual nem a propria liberdade

florece e fructifica, vai-se pouco a

pouco obliterando no espirito das

massas.

Só em tempo de eleições e a tres metros

da urna é que, por uma fatal inversão, a

indisciplinada turbulencia do

campanario se dobra aos conselhos de

quem alli representa aquelle desprezado

principio.

Fóra d'essa quadra excepcional,

queimam-se cartorios publicos;

espancam-se empregados; negam-se

esclarecimentos e toca-se a rebate

contra os agentes da lei.

A intriga e a calumnia são moeda

corrente. Emquanto a mentiras já não

incommodam quem as ouve e as diz. O

caso é que se minta a proposito e bem.

Questão de habilidade.

As varias fórmas da utilidade invadem

todos os corpos e todas as almas. Subir

e medrar, gozar e vencer são os pontos

cardeaes do mappa das crenças.

Quem negará que o escandalo seja uma

excellente recommendação?

Exemplifique-se:

Anda por ventura a attenção popular em

curioso convivio com os mestres da

escripta; com a musa da forte e sã

litteratura; com Garrett, Herculano,

Castilho, Rebello e Mendes Leal?

Passa a vista pelos trabalhos serios da

imprensa?

Occupa-se, porventura, em ler as

discussões parlamentares?

Não, não. No seu paladar pervertido

sómente causa o estimulo da curiosidade

algum pamphleto immundo, em que se

insulte a decencia; se morda na lingua;

se cuspa nas instituições e se esbofeteie

a verdade.

E quanto mais é cobarde a insinuação;

quanto é mais vil a denuncia; quanto

mais salgada é a infamia da phrase, tanto

mais as saboreia a avidez popular e se

deleita com ellas o commum dos

leitores.

* * * * *

Mas basta de generalidades e venha um

facto concreto.

Triumpha uma sedição militar. Nos

salões, outr'ora desertos, do

conspirador, acotovella-se, horas

depois, a turba cerrada dos cortezãos da

victoria. Não admira. Ha musica no côro

e bodo no pateo. Rebenta um partido do

cofre das graças. Formigam as adhesões.

Enxameam os enthusiastas. Não chegam

os clarins para os arautos da gloria.

Á excepção da parcialidade vencida,

todas as outras se derretem em negaças

ao heroe do momento. De todos os

cantos estalla um catharro provocador.

E um sargento de caçadores fechára as

portas do parlamento!

Vem uma e diz:

«Sou a Regeneração. Já não me conhece,

marechal? As amizades antigas nunca se

perdem. Se não tenho o fogo da

mocidade, tenho a madureza de espirito,

qualidade digna de ser apreciada por

quem já não tem pulmões para folegos

profundos. Em vez de cirios e

cavalgatas, passaremos os serões a

grudar as folhas da Carta, violentamente

rasgada n'um minuto de pressa, e, grudar

por grudar, grudemol-as nós. Esqueçam-

se quinze annos de amuo nas aras de um

prudente consorcio.»

Mas uma voz grita do lado:

«Arreda-te, bruxa maldita. Aqui estou

eu, que sou a Reforma. Sou joven e

bella, airosa e poupada. Uma choça e

teu coração, meu guapo marechal! Ahi

fiaremos uma existencia de rolas e

pediremos á egreja que abençõe este

feliz matrimonio.»

Clamam de baixo:

«E eu sou a Revolta! Nos meus braços

robustos tens um throno de affectos. Só

eu sou a forte; só eu sou a bella.

Despreza a velhice prudente e a infancia

dengosa. Rodopiarei comtigo n'uma

orgia perpetua. Ora soltarei os cabellos

aos ventos da demagogia, ora

polvilharei de ouro as tranças luzentes

Desde a lama até ás estrellas será

estreito o espaço para as nossas folias.»

E assim foi.

E haverá criterio moral n'um paiz aonde

se corteja o poder com tão notavel

impudor?

E depois?

Depois veio a queda. Um golpe de

estado desfez o que fizera o motim.

Cura perigosa de uma perigosa doença.

O paiz não achára em si força sufficiente

para debellal-a e entregou á corôa a

manipulação do remedio.

Triste confissão de impotencia! Triste

symptoma constitucional!

Caiu o marechal. Era execrada a

dictadura. Moveu-se-lhe guerra em

nome da nossa autonomia. Contra os

actos d'ella subiram as queixas dos

partidos até aos degráos do throno, que

as ouviu e attendeu.

Pois bem. Despediu-se o artista mas

guardou-se a obra. As leis da dictadura

são leis do paiz. Os auctores e

collaboradores d'essa gloriosa empreza,

acabam em santa paz a digestão do

festim, e um muito a meu contento que seria a condemnação do proprio decreto

em que foi lavrado, se não fôra uma

ficção constitucional, passa um golpe de

esponja sobre a logica de uma situação!

Assim era necessario para que quem

morrera ministro resuscitasse

embaixador; isto é, n'um cargo de

absoluta confiança politica ao serviço

de uma das parcialidades que maior

guerra lhe movêra!

Um recebe e parte.

Outro não parte e recebe.

O paiz olha e paga.

Á vista de um episodio d'estes haverá

criterio moral no paiz?

II

Se é verdade, o que fica exposto, não

deve causar estranheza que o paiz não

tenha claras noções de seus direitos e de

sua responsabilidade; direitos pelos

quaes deve responder não perante a

maioria mas perante a universalidade

dos cidadãos portuguezes;

responsabilidade que lhe compete diante

da prosperidade publica, da lei e da

historia.

O codigo de nossos direitos é a Carta

constitucional da monarchia.

Em quanto existir será o vehiculo legal

de toda a actividade politica.

Mas quaes são, de entre alguns milhões

de portuguezes, os que tem

conhecimento directo d'esse pequeno

volume, que nos custou rios de sangue e

montanhas de ouro?

O povo, opprimido ainda pela tradição

secular da ignorancia que lhe era

imposta pelo interesse de uma politica

de confessionario e de côrte, nos tempos

do direito divino, sae ainda hoje,

lentamente e como que a custo, de uma

existencia passiva e expressamente

concentrada nas cousas do mundo

physico, para as regiões moraes aonde

brilha a idéa democratica da sociedade

moderna.

Conhece, portanto, a constituição só

pela pratica, e como a pratica não tem

geralmente sido a fiel interpretação da

theoria original, não admira que o

grosso do paiz ao cabo de trinta e tres

annos de exercicio constitucional, ainda

não comprehenda bem até onde chega o

alcance das armas que lhe poz nas mãos

o systema representativo.

As fontes do exemplo, seu guia, espelho

e mestre, não lhe tem, de certo, vertido

os mais puros licores.

* * * * *

Na cupula do edificio está o poder

moderador na pessoa do chefe do

estado.

É certo que ás espheras serenas, aonde

paira, não devem chegar as lufadas das

paixões partidarias nem os pratos da

balança em que se peza a sorte arbitraria

dos ministerios.

É certo que o rei é irresponsavel.

Mas tambem não é menos exacto que

essa irresponsabilidade não é congenita

ao exercicio da corôa, porém nasce

unicamente de um artigo da Carta.

Suspensa, pois, de facto a constituição

pela dictadura, a irresponsabilidade real

caduca desde logo.

Morta a causa, desapparece o effeito.

Póde-se, pois, alludir, sem quebra de

lei, a um acto importante de

responsabilidade pessoal, que teve logar

no mez de maio do corrente anno.

Quatrocentos soldados invadem o paço

da Ajuda. Falla a polvora e caem as

victimas. O duque de Saldanha intima a

demissão do ministerio, ao qual dera a

sua palavra de honra de que nunca se

revoltaria.

Cede o rei e concede a dictadura. A

bondade natural de seu coração recua

diante da possibilidade de um conflicto

que levasse os salpicos do sangue até ás

ruas da capital. Em seu animo, inclinado

á paz, bate de chofre, paralysando-o, a

responsabilidade eventual de uma guerra

civil.

Não se discuta o acto; pergunte-se

unicamente:

Em que ficou o direito que assiste á

corôa de escolher livremente seus

conselheiros responsaveis?

Em que lhe ficou o direito de addiar ou

dissolver a camara dos deputados,

quando um piquete de tropa de linha

dissolveu de facto os eleitos do povo?

Em que lhe ficou o direito de perdoar,

quando, seguramente contra a vontade

do soberano, o general vencedor

castigou o crime de obediencia ao

juramento prestado?

Tres direitos offendidos. Tres

perniciosos exemplos.

* * * * *

O principal direito do poder legislativo

é o de fazer leis que subam depois á

sancção real.

Direito que se exercita tanto sobre

propostas do governo como sobre as que

dimanam da iniciativa individual dos

membros do parlamento.

Mas quem ignora que esta ultima

hypothese se evapora, quasi sempre,

n'uma illusoria garantia e que falta

habitualmente ás camaras a energia para

zelarem, como deviam, os direitos de

cada um dos que a ellas pertencem,

discutindo e apreciando os trabalhos de

iniciativa particular, mórmente quando

recaem sobre assumptos de interesse

geral?

Exceptuem-se algumas ninharias locaes

e alguns negocios sobre os quaes não

tenha convindo aos governos o

comprometterem-se a favor de uma

opinião definida, e contem-se os

projectos importantes que, saídos da

carteira do deputado ou do par do reino,

tenham chegado á meza do conselho de

estado.

O direito de interpellação é uma das

mais preciosas faculdades do

parlamento. É a fiscalisação constante, a

sentinella permanente do cumprimento

da lei; a recompensa de bons serviços e

o freio de iniquidades.

E que acontece frequentemente? Vem um

deputado e interpella o ministro. O caso

é difficil. A defeza hade custar, se não

fôr impossivel. Muito bem; não se

responde. O queixoso renova tres,

quatro, cinco vezes a embaraçosa

pergunta, e a maioria condescendente

renova outras tantas um adiamento que é

sempre a negação de um direito.

* * * * *

Não lucta o poder executivo com

menores contrariedades no exercicio de

suas legitimas funcções, nem menos

vezes abdica de algumas d'estas com

prejuizo publico.

Transfere ou demitte o governo um

funccionario, que está dentro das

attribuições do poder executivo demittir

ou mudar. Rompe a celeuma. Era o acto

talvez conveniente e moral. Embora.

Redemoinham em torno do carrasco os

parentes da victima, até grau

desconhecido no codigo civil, e o anjo

da amnistia apaga com as pontas das

azas a assignatura que legalisara a fatal,

mas honesta sentença.

Quer o governo prover um logar, ou

resiste ao pedido de qualquer demissão,

sollicitada por terceiro? Sobre o uso de

seu direito accumula-se tal pressão, que

o ministro dobra-se ou quebra,

quebrando com elle o direito e a

moralidade.

Tumultua a ignorancia, explorada pela

politica, armando a insurreição contra o

dominio da lei. Responde o governo á

força com a força, no uso de

incontestavel direito, depois de

esgotados os outros recursos? Nem

sempre. Titubeando entre o dever e a

responsabilidade; não achando por

ventura na consciencia a base do

necessario rigor, vacilla, estremece,

informa-se e contemporisa, sendo talvez

necessario ir depois mais longe do que

podera, se um energico e opportuno

exercicio de seu direito constitucional

tivesse atacado na origem o transtorno

da ordem publica.

D'esta unanime indifferença pelos

direitos de governos e camaras nasce um

tristissimo resultado. O governo,

olhando só para os outros e não olhando

para si, julga poder assumir diante do

parlamento uma quasi attitude de

superioridade; o parlamento, vendo no

governo a maleabilidade de que já por

vezes tirou beneficio, acostuma-se a

acreditar que os ministros devem ser

chancella de empenhos ou boceta de

recommendações.

Tem o paiz o direito….

Adiante. Quem falla n'isso?

* * * * *

O peor é que, por uma logica

inexoravel, aonde falta a noção do

direito, anda igualmente em falta o

sentimento da responsabilidade.

Serio e bem serio deve elle ser, quando

seriamente comprehendido.

Mas a verdade é que de

responsabilidades ninguem cura, porque

a ninguem se tornam effectivas.

Cada um faz, geralmente, o que quer.

O ponto está em que haja audacia para

fazel-o e algum vestigio de força para o

sustentar.

Por exemplo:

Manda um ministro pagar sete annos de

ordenados a quem não serviu, por ter

sido desligado da competente

repartição. Já foi reparada essa extorsão

ao thesouro do estado? Já se pediu a

responsabilidade d'esse inaudito

successo?

A Bruxellas! A Bruxellas! E o passado,

passado!

E quando se despreza assim a

responsabilidade legal, a que assenta em

cousas tangiveis, o que succederá com

essa outra que vive nas regiões do

mundo moral? Que não entra nos

codigos, porque não sae das

consciencias? Que não sae das

consciencias, porque nem tudo arromba

o metal e a pedra?

Que sentimento de responsabilidade

acompanha o agitador, que a troco de

alguns reaes, submerge na desordem a

vida laboriosa de seus concidadãos?

Que sentimento de responsabilidade

influe nas phalanges cerradas de

eleitores, que envernizam com um

diploma alguma carunchosa podridão?

Que sentimento de responsabilidade

onera os que despedaçam os idolos da

vespera, para alimento do fogo em que

arde o incenso aos triumphadores da

ultima hora?

Que sentimento de responsabilidade

impera no indifferente, que entre dois

bocejos, lança a vista, apathica e

distraida, para o veio de agua que leva á

costa o desarvorado baixel da causa

publica?

Que sentimento de responsabilidade

aconselha o voto do deputado que limpa

com a dignidade os pés dos eleitores, ou

que traz no diploma o vinco das libras?

Que sentimento de responsabilidade

opprime o funccionario publico nas

mãos de quem os negocios ficam sempre

em processos pendentes?

Que sentimento de responsabilidade

experimenta o militar que semeia a

indisciplina nas tarimbas dos quarteis?

E que sentimento de responsabilidade

tem uma nação que, no seu desapego

profundo ao que de perto lhe deve tocar,

se contenta com o sorrir á carencia de

todas estas responsabilidades?

Essa carencia não fórma ainda o typo

completo da nossa sociedade, mas

alastra-se tanto sobre a politica e sobre

a administração, que a existencia da

nodoa será problematica sómente para

quem escuta e não ouve; para quem olha

e não vê.

III

Do que dito fica deriva esta natural

consequencia:

O paiz não tem vontade propria.

A recordação do que se acaba de

passar, no curto espaço de sete mezes,

dará inequivoca prova d'esta deploravel

proposição.

Corria o mez de março de 1870.

Governava o partido historico. Houve

eleição geral. D'ella saiu tão numerosa

maioria, que apenas dez ou doze

candidaturas de opposição declarada

conseguiram cantar victoria no dia da

lucta.

Caiu o ministerio progressista e veio o

senhor duque de Saldanha, que, mais

feliz do que Diogenes, conseguiu ao

cabo de alguns dias achar o seu homem.

Foi ministro do reino o sr. José Dias

Ferreira e dissolvida a camara dos

deputados. No fim de poucas semanas as

urnas inchavam com tal hydropisia

ministerial, que a opposição luctava

apenas n'um terço dos circulos.

Passou d'esta para melhor vida a pasta

do sr. José Dias. Entrou o sr. bispo de

Vizeu. Pois dezoito dias bastaram para

que a maioria, que andava na forja, tão

luzida e primorosa, se convertesse em

refugo diante do baculo episcopal.

Terá, portanto, vontade propria o paiz?

Responda o que fica narrado.

É fóra de duvida que ainda ha muito

cidadão honesto e intelligente, que tem a

consciencia do acto que pratica, quando

lança um voto na urna. Suppôr o

contrario seria injusto e pouco

verdadeiro. Quem escreve estas linhas

sabe, por experiencia propria, até aonde

póde alcançar o desinteresse e subir a

dedicação reflectida de centenares de

eleitores.

Desgraçadamente a regra é outra. O

corpo eleitoral tem por nome Legião, e

ahi, aonde se conta por dezenas de

milhares, nem sempre a espontaneidade

e o raciocinio constituem a mais

pronunciada feição d'essa cohorte

numerosissima.

O que o paiz quer sabemos nós todos.

Quer boa administração; quer paz; quer

ordem publica; quer finanças prosperas,

independencia e moralidade.

O que o paiz não sabe querer é servir-se

dos meios legaes para a obtenção do que

deseja.

E, comtudo, a formula de eterno

conselho:—«Ajuda-te que Deos te

ajudará»—leva mais de cincoenta

seculos de existencia nos ouvidos da

humanidade!

Ora como o paiz não sabe querer, corre

tudo geralmente fóra de seu influxo

directo.

As eleições, a primeira funcção

constitucional; a melhor Egeria da

corôa; a pedra de toque da

popularidade; a expressão da mais

augusta soberania, a soberania popular,

não dependem, em sua maioria, do

sentimento politico, na boa e lata

accepção da palavra: systema, idéas,

principios, mas de uma evolução

artificial dentro de tres detestaveis

corporações que as falsificam com uma

influencia impura ou deleteria:

O grupo dos indifferentes;

O rebanho dos timoratos;

A guerrilha dos corruptos.

Para os da testa do rol todos os

candidatos são de igual estatura. Uma

razoira, implacavel por descuidosa,

confunde n'uma superficie commum o

talento e a estupidez; o saber e a

ignorancia; a aptidão e a inutilidade; a

boa fé e a especulação; a honradez e a

improbidade. Dão ao favor, á cortezia, á

amizade e ao empenho, o que deveriam

conceder ao interesse publico e á

reflexão. Para elles tanto vale que entre

nas côrtes um homem d'estado, como

que alli tome assento alguma creatura

que do velhissimo Adão só tenha

herdado o barro quebradiço, ermo de

qualquer fagulha de espirito.

Quanto mais de ao pé da porta os salteia

a petição; quanto mais palpam no

candidato alguma costella de

parentesco; quanto mais de cima lhes

baixa o memorial, tanto mais batem as

redeas ao Pegaso do elogio, que vôa de

aldeia em aldeia, levando no dorso a

musa da recommendação.

Sorrirá o leitor das ampoulas da phrase.

Não tem razão. Chama-se a isto côr

local, ou cousa que a valha.

A lista é para elles uma carta que não

necessita de ser aberta. O papel, a

estampilha, a marca e o portador,

bastam para satisfazer-lhes a

curiosidade.

Porém se os indifferentes são muitos, os

timoratos ainda são mais.

Está n'elles a materia prima das

maiorias parlamentares.

São o paiz de varios governos.

São a opinião publica de algumas

situações.

Á frente d'elles caminha a auctoridade,

que se já respigou na primeira

corporação, ceifa aqui, a fouce plena,

por entre braçados de votos, mil affagos

do eleito ou de quem o mandou nomear.

Tudo varía. Ha revoluções no ceu e

revoluções na terra. Giram os astros na

immensidade e succedem-se no mundo

as estações. Tudo varía. Só o rebanho

dos que votam com quem está de cima

estende o lombo á thesoura eleitoral

com imperturbavel constancia,

submissamente pastoreado por esses

vigarios do Poder na terra, que se

chamam administradores de concelho,

regedores de parochia, escrivães, cabos

de policia, vereadores e malsins.

Suspende-se o catalogo para não enfadar

quem lêr, e lá se foram os ministros

d'estado e os governadores civis!

E não se diga que nem todos os

ministros; nem todos os governadores

civis; nem todos os administradores de

concelho; nem todos os regedores de

parochia; nem todos os escrivães; nem

todos os cabos de policia; nem todos os

vereadores e nem todos os malsins,

trabalham n'essa tosquia.

Tosquia a especie. Dos individuos não

se trata aqui e é possivel que até não

sejam raros os que o não fazem, ou que,

á menor repugnancia da ovelha, a

deixam sair intacta e livre das mãos do

tonsurador.

Outros são de peor genio. Travam de

pés e mãos a paciente; tomam-lhe o

pescoço entre os joelhos e, sem que o

velo não caia ao fio do instrumento, não

a deixam saltar do redil para o campo.

E quantas vezes leva na pelle as

costuras!

O que mais custa a confessar é que anda

tão atrazada a educação politica do paiz,

que, se a auctoridade não collabora um

pouco na formação das maiorias,

apparecem camaras anarchicas, aonde

os chefes são tantos como os soldados, e

os partidos, por um sentimento de pudor

constitucional, se dão a si mesmos o

nome de grupos.

Cumpre que isto não seja assim.

É da maior urgencia que a auctoridade

administre e não eleja.

Se, á primeira vista, a intervenção

d'ella, mais ou menos directa, pode, em

dadas circumstancias, aparentar uma

sombra de proveito em favor de uma

necessidade parlamentar e

constitucional, qual a da existencia de

uma maioria solidamente organisada,

essa apparencia desapparece ao mais

ligeiro exame.

Primeiramente, não ha maioria solida

quando, em vez da ligação de

principios, tem só para unil-a a

identidade de uma origem viciosa, que

lhe rouba as condições de prestigio, sem

que não pode desassombradamente

funccionar.

Em segundo logar, ha menor perigo na

eleição de uma camara, que pela sua

turbulencia sirva de escarmento e lição

ao povo, do que em habituar este a uma

subserviencia; que apague n'elle o

sentimento de seus direitos e de sua

responsabilidade, e, portanto, qualquer

impulso de vontade propria.

* * * * *

Se a verdade da representação soffre

com a intervenção da auctoridade nas

eleições, não padece com ella menos a

regularidade da administração.

Que força moral pode conservar sobre

os seus administrados o funccionario

que, no espaço de alguns mezes, de

algumas semanas, de alguns dias até,

como succedeu ultimamente, apoia o

mesmo nome que pouco tempo antes

guerreara, ou guerreia aquelle que dias

antes defendera? Voltando, ás vezes,

dias depois a combater o que combatera

e a recommendar o que recommendara?

Que prestigio lhe assiste quando se vê

forçado, por interesses eleitoraes, a

lançar mão da escoria de sua localidade,

pelo unico motivo de que entre ella pode

recrutar algumas dezenas de votos?

Que auctoridade lhe dá o comprometter

em vão a sua palavra com promessas

que não possa cumprir, ou o abater a

dignidade de seu cargo tornando-se o

homem ligio de qualquer suzerania de

campanario?

Para se salvar das consequencias do

primeiro erro ou do primeiro delicto,

terá de requintar cada vez mais a

violencia ou a sujeição, e, ainda mesmo

que a consciencia de seu dever ou de

sua dignidade lhe não tenha consentido

que se exceda ou se avilte, a mescla de

politica e de administração redundará

sempre em prejuizo do serviço e em

descredito das instituições.

* * * * *

Mas os corruptos? Aonde ficam os

corruptos?

Bom seria não polluir a penna com esta

hedionda palavra, mas a cousa existe e o

seu nome é este; e, como se está

seguindo um filão de verdades, força é

que se atravesse esse immundo deposito

de abjecções, pois de tudo ha na mina,

—ora tapetada de esplendidos crystaes,

ora vertendo lamas infectas infectas—a

que vulgarmente se chama eleição.

E mina é, ou parece, para quem faz

commercio de votos; commercio que,

devendo ter tido por berço

provavelmente um armario sem pão, vai

hoje tambem querendo matar a fome de

vaidades ou de interesses, nos salões da

abastança.

Não é o peor corrupto quem se vende

por alguns reaes.

É-o muitas vezes quem compra.

Porque, salvas honrosas excepções, a

diploma comprado deve corresponder

deputado vendido.

Ora a corrupção eleitoral cresce de anno

para anno.

O sublime do genero é comprar a

fazenda com a algibeira do vendedor!

O que parecia molestia esporadica vai-

se transformando em epidemia.

É corrupto:

Da penuria—-o que se vende a dinheiro;

Da estulticia—-o que se vende a

promessas;

Da vaidade—o que se vende a fitas;

Do odio—o que se vende a vinganças;

Da pieguice—o que se vende a mesuras;

Do interesse baixo e sordido—o que se

vende, remediado de bens de fortuna, a

qualquer favor que lhe poupe, ou faça

ganhar alguns reaes, ou o dispense de

alguns ligeiros incommodos.

Ainda ha outra especie de corrupção,

não tão cynica, porém mais perigosa:

A corrupção collectiva em nome da

utilidade publica.

São corruptos, por exemplo:

O districto que se vende a estradas;

O concelho que se vende a arames;

A freguezia que se vende a reparos;

A localidade que se vende a concertos;

Tudo com et coetera na clave.

Todos os votos, emfim, que se

hypothecam ao lucro.

Trabalhe o deputado por satisfazer as

necessidades do circulo. É dever; mas

não se reduza o beneficio a contracto.

Isso rebaixa.

Demais, se o contracto é decente e justo,

torne-se extensivo a todas as povoações

do reino e diga-se depois o que serão os

orçamentos das camaras municipaes,

dos districtos e do estado, e que imposto

chegará para satisfazel-os.

Não se torne extensivo a todas, e pagará

a independencia uma parte do preço da

compra, que terá de sair do cofre

commum.

Paga a honestidade o que lucra a

mercancia.

Indifferença, subserviencia, corrupção!

E por ellas e com ellas se atraiçoam os

amigos; se quebra a fé jurada; se

falsificam os escrutinios; se deshonra o

mais sagrado de todos os direitos!

Uma observação:

Quanto ganhou n'este commercio o

operario ou o jornaleiro que vendeu o

voto por algumas peças de prata?

Concorreu para a feitura de um mau

deputado. Maus deputados dão más

camaras. Más camaras dão maus

governos. Maus governos dão más

finanças. Más finanças assustam os

capitaes. O susto dos capitaes faz

esmorecer o trabalho. Sem trabalho não

ha pão, e o jornaleiro e o operario

perderão mais n'essas grèves forçadas, de semanas e mezes, do que lucraram

n'esse dia de ignobil veniaga.

Nem ao menos a compensação do

proveito!

Estenda-se o argumento a todas as outras

fórmas de corrupção e achar-se-ha

sempre o mesmo fatal resultado.

* * * * *

Vontade propria no paiz!

São dez horas da manhã do dia 19 de

maio de 1870.

Está Lisboa em socego profundo.

Nem a mais ligeira alteração na

apparencia da nobre cidade!

A loja não se abre a meia porta;

patenteia-se de par em par ao freguez

que a procura, como a procurara na

vespera, pacifico e talvez risonho.

O negociante trabalha no escriptorio.

O operario moureja na officina.

O vendedor ambulante apregoa na rua.

Socego profundo! Uma tal ou qual

reacção que houve, sómente semanas

depois começou a traduzir-se em factos.

E, comtudo, o paiz desandara em dez

horas o que lhe levara dez annos a

andar!

A ordem e a liberdade, o rei e a lei,

estavam á mercê da espada!

Francamente; haverá no paiz vontade

propria?

IV

Sem vontade propria; sem que se pense,

se compare e se escolha; sem iniciativa

de dentro e sensibilidade por fóra, não

póde haver elementos de boa politica

n'uma nação que se rege pelo systema

representativo.

Porque não ha boa politica sem bons

partidos, e não ha partidos regulares

sem espirito publico no povo.

Quando falta o espirito publico não ha

partidos; ha parcialidades e grupos.

A raiz etymologica é a mesma, mas a

accepção philosophica cava um abysmo

entre estas palavras.

As ultimas são o troco, em cobre

azebrado, de uma peça de ouro formosa

e luzente.

Valor convencional em frente de valor

intrinseco.

Partido regular é o que tem logica nas

idéas; constancia na defensão d'ellas;

unidade e disciplina.

Quantos conta Portugal n'estas

circumstancias?

A logica:

Estão seis homens em conversa politica.

Andam ha dois ou tres annos (dois ou

tres seculos!) em camaradagem seguida.

Frequentam as mesmas reuniões e tem

por guia identico chefe. Muito bem.

Trata-se de uma escaramuça de bando?

Unanimidade completa? Discute-se um

interesse de grupo? Completa

unanimidade. Mas appareça uma questão

economica ou social: a liberdade de

commercio; a descentralisação

administrativa; qualquer outra que deva

ser crença de escola, e a concordia

desapparece, sendo talvez necessario

que uma parte dos correligionarios

busque reforço na sala visinha, aonde

um conventiculo de adversarios se

dilacera tambem, á mesma hora, ácerca

do mesmissimo ponto.

Grita-se, discute-se, invectiva-se. O

amigo é inimigo. O inimigo, defensor

ardente. Confundem-se os campos e só

algum incidente que traga a terreiro uma

questão grave, uma questão pessoal, por

exemplo, terá o condão de restituir cada