Vila Rica por Cláudio Manuel da Costa - Versão HTML

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VILA RICA

Cláudio Manuel da Costa (pseudônimo Glauceste Satúrnio)

VILA RICA

Poema de CLÁUDIO MANUEL DA COSTA, Árcade Ultramarino, com o nome de

GLAUCESTE SATÚRNIO, oferecido ao Ilmo e Exmo Sr. Conde de Bobadela.

Ano de 1773

Ultra gargantas, et Indos proferet imperium

VIRGÍLIO, Eneida, VI

ÍNDICE:

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Carta dedicatória

Prólogo

Fundamento Histórico

Canto I

Canto II

Canto III

Canto IV

Canto V

Canto VI

Canto VII

Canto VIII

Canto IX

Canto X

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CARTA DEDICATÓRIA

Ilmo. e Exmo. Sr.,

Depois de haver escrito o meu Poema da fundação de Vila Rica, Capital das Minas

Gerais, minha Pátria, a quem o deveria eu dedicar mais que a V.Exa.? Há muito que

ansiosamente solicito dar ao Mundo um testemunho de agradecimento aos

benefícios que tenho recebido da Excelentíssima Casa de Bobadela: este me

persuado que o pode ser, se não pelo mais completo, ao menos pelo mais puro: a

idade que o ler confessará ingenuamente que não obrou a lisonja, aonde sobressai

a verdade. Dirão que adornei de louvores os preclaríssimos nomes de V.Exa. e do

Esmo. Sr. Gomes Freire de Andrada, bem digno Irmão, mas poder-se-á conhecer ao

mesmo tempo que me deu dilatadíssimo campo um merecimento a todas as luzes

sólido, grande e incontestável.

Quem ignora que por quase trinta anos descansaram com felicidade nas mãos dos

Exmos. Freires as Minas do Ouro do nosso Portugal? Quem não viu alegres os

Povos, satisfeito o Monarca e conseguida em toda a sua extensão a igualdade da

justiça por todo este espaço do saudoso governo daqueles Heróis? Pudera produzir

muitas provas, se me não sobrasse por todas a mesma diuturnidade dos anos que

refiro. Parece que o Rei desejava fazer eternos na proteção destes Vassalos, tão

apartados do seu trono, aqueles espíritos que tanto apetecia ter ao seu lado: esta foi

a maior significação de amor com que distinguiu aos moradores das Minas e este o

testemunho maior com que qualificou o conceito que formava dos Excelentíssimos

[Freires] .

Devera agora arrebatar-me na individual exposição de todas as virtudes de V.Exa.,

no elogio do seu esclarecido sangue, na portentosa série das suas ações: tudo

tenho diante dos olhos, tudo me lisonjeia por extremo, e me estimula tudo.

Levantara uma nova Epopéia, que fizesse emudecer o rapto dos Mantuanos nos

seus Marcelos; mas que posso dizer, se reconheço tão desigual o canto à vista do

objeto que concebo! O Mundo me acusaria sempre de diminuto: e eu receberei

grande vaidade de acabar com a ponderação deste embaraço o meu obséquio. Sou

De V. Exa.

Humilde Servo,

Cláudio Manuel da Costa

PRÓLOGO

LEITOR,

Eu te dou a ler uma memória por escrito das virtudes de um Herói que fora digno de

melhor engenho para receber um louvor completo. Não é meu intento sustentar que

eu tenho produzido ao Mundo um Poema com o caráter de épico; sei que esta

felicidade não conseguiram até o presente aqueles homens a quem a Fama celebra

laureados na Grécia, na Itália, em Inglaterra, em França e nas Espanhas. Todos se

expuseram à censura dos críticos, e todos são argüidos de algum erro ou defeitos; a

razão pode ser a que assina um bom Autor: inventaram-se leis aonde as não havia.

Mas doute, que eu não te ofereça mais que uma composição em metro, para fazer

ver o distinto merecimento de um General que tão prudentemente pacificou um Povo

rebelde, que segurou a Real Autoridade e que estabeleceu e firmou, entre as diferentes emulações de uns e outros Vassalos desunidos, os interesses que se

deviam aos Soberanos Príncipes de Portugal: dirás que é digna de repreensão a

minha empresa? Na verdade não espero do teu benigno ânimo esta

correspondência: e tudo o que não for injúria ou acusação será para mim uma inestimável remuneração das minhas fadigas.

Se eu fiz alguma diligência por averiguar a verdade, digam-te as muitas Ordens e

Leis que vês citadas nas minhas notas, e a extensão de notícias tão individuais com

que formei o plano desta obra: pode ser que algum as conteste pelo que tem lido

nos escritores da História da América; mas esses não tiveram tanto à mão as concludentes provas de que eu me sirvo; não se familiarizaram tanto com os mesmos que intervieram em algumas das ações e casos acontecidos neste País; e

ultimamente não nasceram nele, nem o comunicaram por tantos anos como eu.

E se estas Minas, pelas riquezas que têm derramado por toda a Europa, e pelo

muito que socorrem com a fadiga dos seus habitantes ao comércio de todas as

nações polidas, eram dignas de alguma lembrança na posteridade, desculpa o amor

da Pátria, que me obrigou a tomar este empenho, conhecendo tanto a desigualdade

das minhas forças. Estimarei ver elogiada por melhor pena uma terra que constitui

hoje a mais importante Capitania dos domínios de Portugal.

FUNDAMENTO HISTÓRICO

PERSUADIDO O AUTOR desta obra de que não serão bastantes as notas com que

ilustrou os seus Cantos a instruir ao Leitor da notícia mais completa do descobrimento das Minas Gerais, da sua povoação e do aumento a que têm chegado os seus pequenos Arraiais, se resolveu a escrever esta preliminação histórica, em que protesta não pertender alterar a verdade a benefício de alguma

paixão, e só se regula pelo mais crítico e incontestável exame, que por si e por

pessoas de conhecida inteligência e probidade pôde conseguir sobre fatos que ou a

tradição conserva de memória, ou escreveu raramente algum gênio curioso, que o

testemunhou de vista.

Entre os desta conduta deu um importante socorro o Coronel Bento Fernandes Furtado, natural da Cidade de São Paulo, que há poucos anos faleceu no Serro do

Frio, tendo sido morador no Arraial de São Caetano, distrito da Cidade Mariana.

Confiou ele do Autor em sua vida alguns apontamentos que fizera, e achando-os o

Autor em muita parte dissonantes do que havia lido na História de Sebastião de Pita

Rocha e outros escritores das cousas da América, procurou confirmar-se na verdade

pelos monumentos das Câmeras e Secretarias dos Governos das duas Capitanias,

São Paulo e Minas.

O Sargento-Mor Pedro Taques de Almeida Paes Leme, natural também da mesma

Cidade de São Paulo, e ali morador, de estimável engenho e de completo merecimento, remeteu ao Autor desde aquela Cidade todos os documentos que

conduziam ao bom discernimento desta obra, e regendo-se o Autor por Ordens Régias, Cartas de Governadores e atestações de Prelados Eclesiásticos, e

manuscritos desde a era de 1682 achados nos arquivos que foram dos padres denominados da Companhia de Jesus naquela Província, facilmente poderá

desculpar-se se oferece ao público este Poema, sem o receio de ser insultado nas

opiniões que sustenta, ainda quando mais contestadas de uns e outros sectários.

Os naturais da Cidade de São Paulo, que têm merecido a um grande número de

geógrafos antigos e modernos serem reputados por uns homens sem sujeição ao

seu Soberano, faltos do conhecimento e do respeito que devem às suas leis, são os

que nesta América têm dado ao Mundo as maiores provas de obediência, fidelidade

e zelo pelo seu Rei, pela sua Pátria e pelo seu Reino.

A vigilância com que atendiam pela harmonia e utilidade econômica do seu País os

aconselhou, muito antes que a todo o Portugal, a fazer sair das suas terras aos

padres denominados da Companhia de Jesus; por sediciosos e maus, os puseram

eles em um total extermínio em o mês de julho de 1640 e, por força de caridade

indiscreta de Fernão Dias Paes contra o voto comum, foram depois restituídos a São

Paulo em o ano de 1653.

Trabalharam incessantemente por adiantar os interesses do Real Erário e se gloriam

de que fossem Carlos Pedroso da Silveira e Bartolomeu Bueno de Siqueira os primeiros Paulistas que apresentaram as mostras do ouro das Minas Gerais ao Governador do Rio de Janeiro, Antônio Paes de Sande, pelos anos de 1695.

Falecendo o dito Sande, ficou com o governo Sebastião de Castro Caldas, o qual

remeteu a El-Rei D. Pedro as mostras do dito ouro em carta datada em o Rio de

Janeiro, a 16 de junho do mesmo ano.

Por este tempo se serviu Sua Majestade de despachar a Artur de Sá e Menezes por

Governador e Capitão General do Rio de janeiro, e por Carta Régia de 16 de dezembro de 1695 lhe ordenou passasse aos descobrimentos das minas do Sul a

executar o que se havia encarregado a Antônio Paes de Sande, praticando com os

Paulistas beneméritos as mesmas honras, e mercês de Hábitos, e foros de Fidalgos

da Casa, conteúdos na Real Instrução, que pela Secretaria do Estado se expedira

ao dito Sande. Depois por Carta Régia de 27 de janeiro de 1697 se mandou sair ao

dito Sá com seiscentos mil réis de ajuda de custo em cada um ano, além do seu

soldo.

Buscando porém as cousas na sua origem, segue o Autor por mais certa e prudente

opinião não se poder averiguar indubitavelmente qual fosse o primeiro Paulista que

descobriu as Minas Gerais, de que particularmente se trata nesta obra. É sem controvérsia que o primeiro objeto dos conquistadores de São Paulo foi o cativeiro

dos índios, porque eles substituíam a falta dos escravos, que ao depois entraram em

grande número das costas d'África.

Desde o estabelecimento daquela Povoação, que foi em 25 de janeiro de 1554, dia

da conversão de São Paulo, de onde derivou o nome, se deve presumir que giravam

muitos dos conquistadores pelo centro dos Sertões, e atravessavam as Minas, saindo em Bandeiras (que assim chamavam as companhias que para esta diligência

se armavam), e recolhendose ao depois com a presa que facilmente podiam

segurar.

Dos Sertões penetrados era o mais notável o da Casa da Casca, nome que se deu a

uma Aldeia sobre as costas do Rio Doce, que vai fazer barra à Capitania do Espírito

Santo e principia a formar-se desde o Córrego do Ouro Preto, recebendo em si

imensos ribeiros e rios caudalosos. Destes Sertões se recolhia na era de 1693

Antônio Rodrigues Arzão, natural da Vila de Taboaté, com mais cinqüenta homens

de sua comitiva. Chegado à Capitania doEspírito Santo, apresentou ao Capitão-Mor

Regente daquela Vila três oitavas de ouro; a Câmara os recebeu com agrado e lhes

subministrou os víveres e vestuários de que careciam, segundo as ordens que d'El-

Rei tinha.

Deste ouro se mandaram fazer duas memórias, uma, que ficou ao dito Arzão, e

outra, que tomou para si o Capitão-Mor: aqui se fundamenta o episódio do Segundo

Canto.

A denunciação desta limitada porção foi sem dúvida a primeira que se fez de ouro

que se descobria nas Minas Gerais; e a de que se conserva memória em São Paulo,

que é a de Carlos Pedroso da Silveira, por algumas circunstâncias discorre o Autor

ser posterior a ela. Antônio Rodrigues Arzão, não podendo ajuntar na Vila do Espírito Santo a gente que precisava para segunda vez tornar aos Sertões, se passou ao Rio de Janeiro e daí para São Paulo: nesta Cidade, ferido gravemente

dos trabalhos que passara, enfermou e veio a morrer finalmente, deixando

encarregado a Bartolomeu Bueno, seu cunhado, de continuar no descobrimento de

que havia apresentado as mostras.

Era Bartolomeu Bueno dotado de bastante agilidade e fortaleza de espírito e, como

tinha perdido em jogos todo o seu cabedal, foi fácil querer melhorar de fortuna,

tomando sobre si, com o favor de alguns amigos e parentes, a grande empresa a

que havia dado princípio Antônio Rodrigues Arzão.

Convocados todos e guiados pelo roteiro que lhes deixara o falecido, saíram da Vila

de São Paulo pelos anos de 1694. Romperam os matos gerais, e servindo-lhes de

norte o pico de algumas serras, que eram os faróis na penetração dos densíssimos

matos, vieram estes generosos aventureiros sair finalmente sobre a Itaverava, serra

que de Vila Rica dista pouco mais de oito léguas: aí plantaram meio alqueire de

milho; e porque o Sertão era mais estéril de caça que o do Rio das Velhas, para este

passou Bartolomeu Bueno a tropa, enquanto madurava a pequena sementeira de

que esperava manter-se, para continuar o descobrimento.

No ano seguinte, que foi o de 1695, voltaram os referidos sertanistas a colher a sua

planta, e entrando na Itaverava foram encontrados do Coronel Salvador Fernandes

Furtado e do Capitão Manuel Garcia Velho e outros, conquistadores também do

Gentio e povoadores das Vilas que ficam ao leste de São Paulo: já então trabalhavam com algum desembaraço os primeiros sertanistas, ajudados de um

grande número de índios, que haviam cativado nos sertões do Caeté e Rio Doce;

mas como lhes obstava a falta de experiência necessária, e não tinham instrumentos

de ferro para a laboreação, apenas se contentavam com o pouco que podiam apurar

em pequenos pratos de pau ou de estanho, servindo-lhes os mesmos paus

aguçados de cavar a terra e descobrir os cascalhos, formações em que se conserva

e se cria o ouro.

Quis Miguel de Almeida, um dos companheiros do Bueno, melhorar de armas, e

propôs ao Coronel Salvador Fernandes Furtado a troca de uma clavina, dando-lhe

por avanço todo o ouro que se achasse nos da comitiva; aceitou o Coronel a oferta,

e dando-se busca ao ouro, se não achou entre outros mais que doze oitavas; recebeu-as o Coronel, e como Manuel Garcia Velho quisesse ter a vaidade de aparecer com todo aquele ouro em São Paulo, cometeu ao Coronel a venda de duas

índias, mãe e filha, a preço das doze oitavas: conveio este no trato e compra das

índias, as quais catequizadas, se batizou uma com o nome de Aurora, e outra com o

de Célia. Desta última há notícia que faleceu há poucos anos na Vila de Pitangui, em

casa de uma filha casada do dito Coronel, e aqui tem fundamento histórico o episódio de Aurora.

Despedidos uns sertanistas dos outros, partiu ufano para São Paulo o Capitão-Mor

Manuel Garcia Velho; entrando na Vila de Taboaté, aí o foi visitar Carlos Pedroso da

Silveira; e porque lhe não faltava habilidade e engenho para se conciliar com os

patrícios, houve a si as doze oitavas de ouro; com elas se passou ao Rio de Janeiro,

apresentou-as ao Governador (como já se disse) e foi premiado com a patente de

Capitão-Mor da Vila de Taboaté.

Conseqüentemente o nomeou o mesmo Governador Provedor dos Quintos,

concedendo-lhe as ordens necessárias para estabelecer fundição na mesma Vila,

por ser ela a povoação onde desembarcavam primeiro os conquistadores. Por este

modo se vê que, posto que Antônio Rodrigues Arzão denunciasse primeiro que Carlos Pedroso da Silveira as três oitavas de ouro que descobriu nas Minas Gerais,

a sua morte impediu o progresso desta denunciação, e ficou Carlos Pedroso conseguindo a glória de apresentar o ouro que ele não descobrira.

O descobrimento pois denunciado pela interposta pessoa de Carlos Pedroso da Silveira e o estabelecimento da Casa da Fundição em Taboaté foram os dous fortes

estímulos que animaram os Paulistas a armarem tropas, a prevenirem-se de alguma

fábrica mais proporcionada ao uso de minerar, e a desampararem a Pátria, rompendo os matos gerais desde a grande Serra do Lobo, que divide a Capitania de

São Paulo, até penetrarem o mais recôndito das Minas, menos) á na conquista do

Gentio, que na diligência do ouro.

O grande número de concorrentes que buscavam as Minas, e a emulação que logo

se acendeu entre os da Vila de São Paulo e os naturais de Taboaté fez que, estendidos por várias partes, buscasse cada um novo descobrimento em que se

estabelecesse, não se contentando os Paulistas de entrarem em parte nas

repartições das faisqueiras que denunciavam os de Taboaté, nem estes nas que

denunciavam os Paulistas.

Esta opinião, que tinha um semblante de fanatismo, por serem todos da mesma

Pátria, posto que de diferentes distritos, veio finalmente a produzir a grande utilidade

de se desentranharem em toda a sua extensão as minas do nosso Portugal, de

serem penetradas de uns e de outros, não se perdoando ao rio mais remoto e

caudaloso, nem à serra mais intratável e áspera, se bem que o conhecimento do

ouro nas montanhas e serras veio a conceber-se mais tarde que o dos rios e seus

taboleiros, que são as margens planas que os cercam dos lados.

E porque não é intento do Autor cansar ao Leitor com a multiplicidade dos nomes de

tantos que têm a glória de descobridores, e apenas podem ser conhecidos dentro

das suas famílias e pátria, e menos noticiar individualmente os rios, córregos e serras que por sua ordem se foram descobrindo, de que tudo tem uma verídica e

suficiente informação, só pelas datas dos tempos fará ver ao curioso quais foram

aqueles que deram ao manifesto as faisqueiras mais avultadas em que hoje se

acham criadas as Vilas do Ouro Preto, a Cidade Mariana, a Vila do Sabará, a do

Caeté, a de São João d'El-Rei, a de São José e a do Príncipe no Serro do Frio, que

fazem as cabeças das quatro Comarcas da Capitania das Minas Gerais.

*

* *

Vila do Carmo, hoje Cidade Mariana

1699

MIGUEL GARCIA, natural de Taboaté, foi o primeiro que deu ao manifesto um córrego que faz barra no Ribeirão do Carmo, e se compreende no distrito da Cidade

Mariana: fez a repartição o Guarda-Mor Garcia Rodrigues Velho, com assistência do

Escrivão das Datas, o Coronel Salvador Fernandes Furtado. O Ribeirão chamado o

do Carmo descobriu pelo mesmo tempo João Lopes de Lima, natural de São Paulo,

e o manifestou em 1700: repartiuse, e porque as faisqueiras eram invencíveis pela

grande frialdade das águas, despenhadeiros e matos cerradíssimos que o cercavam

de ambas as margens, tanto, que só permitia trabalhar-se dentro dele quatro horas

do dia, além da grande penúria dos mantimentos, que chegou a trinta, e quarenta

oitavas o alqueire de milho, e o de feijão a oitenta oitavas, foi fácil desampararem os

mineiros por algum tempo a sua Povoação, e só permaneceu nela o Coronel Salvador Fernandes Furtado. Dista este Ribeirão até a barra do Rio Doce 16 te 18

léguas, e pela volta do Rio se computam 30. Está situada em 20 graus e 21 minutos.

Passou a ser Vila por criação do Governador Antônio de Albuquerque Coelho de

Carvalho, em 8 de abril de 1711.

*

* *

Ouro Preto, ou Vila Rica

O OURO PRETO, que compreende em si vários ribeiros e morros com diferentes

denominações, como são Passadez, Bom Sucesso, Ouro Fino, ou Bueno etc, teve

por descobridores nos mesmos anos de 1699, 1700, 1701 Antônio Dias, natural de

Taboaté, ao Padre João de Faria Fialho, natural da Ilha de São Sebastião, que viera

por Capelão das Tropas de Taboaté, a Tomás Lopes de Camargo, que se sitiou nas

lavras, que ao depois vieram a ser de Pascoal da Silva, e a Francisco Bueno da

Silva, ambos Paulistas, e este último primo do primeiro descobridor da Itaverava,

Bartolomeu Bueno: de todos estes tomaram nome alguns bairros de Vila Rica. Foi

criada a Vila pelo Governador Albuquerque, no dia 8 de julho de 1711; está situada

em 20 graus e 24 minutos ao poente.

*

* *

Sabará

TENDO SIDO ATRAVESSADO o dilatadíssimo sertão do Sabará-Bussu muito antes

de qualquer outro das Minas, porque os primeiros conquistadores demandavam o

Rio das Velhas, cujas dilatadas campinas eram mais povoadas dos Gentios e férteis

de caça, e as primeiras diligências do ouro e pedras se fizeram ao norte de São

Paulo, consta que o seu descobridor, ou denunciante das suas faisqueiras, fora o

Tenente-General Manuel de Borba Gato, natural de São Paulo, de cuja história se

faz menção no Canto nl. O descobrimento foi na era de 1700. Assistiu à repartição o

Governador Artur de Sá e Menezes: passou Sabará a ser Vila em 17 de julho de

1711, por criação do Governador Antônio de Albuquerque: a sua situação é em 19

graus e 52 minutos.

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* *

Caeté, Vila da Rainha

ENTRE o SABARÁ e o Arraial de Santa Bárbara se criou a Vila Nova da Rainha,

conhecida ainda pelo nome brasílico de Caeté, que vale o mesmo que mato bravo,

sem mistura alguma de campo: foi descobrimento do Sargento-Mor Leonardo

Nardes, Paulista, e de uns fulanos Guerras, naturais da Vila de Santos. O

Governador D. Brás da Silveira lhe deu o foral de Vila em 29 de janeiro de 1714, por

virtude da faculdade concedida ao seu antecessor Antônio de Albuquerque. Está

situada em 19 graus e 55 minutos.

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Rio das Mortes, Vila de São João e São José

O Rio DA MORTES, que os Paulistas e viandantes das mais partes atravessavam

freqüentemente, por distar nos primeiros tempos do Ouro Preto pouco mais de cinco

dias de jornada ordinária, foi descoberto por Tomé Portes d'El-Rei, natural de Taboaté, passados muitos anos depois do descobrimento das primeiras povoações.

Aí se criou a Vila de São João d'ElRei, ficando-lhe ao nascente a de São José, no

lugar então chamado a Ponta do Morro; foi descobrimento de José de Siqueira

Afonso, natural de Taboaté. Foram criadas estas Vilas pelo Governador D. Pedro de

Almeida, em 19 de janeiro de 1718. A Vila de São João está em 21 graus e 20

minutos; São José em 21 e 5.

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Serro Frio, Vila do Príncipe

ANTÔNIO SOARES, natural de São Paulo, avançando maior salto que todos os

outros, atravessou os Sertões ao norte de São Paulo, descobriu o grande Serro

vulgarmente chamado o do Frio, que na língua gentílica era tratado por Hivituraí, por

ser combatido de frigidíssimos ventos, todo penhascoso e intratável: do seu descobridor proveio o nome a uma das suas serras, que hoje se conhece pelo Morro

d'Antônio Soares. Neste descobrimento se associou um Antônio Rodrigues Arzão,

descendente do primeiro Arzão, de quem já se deu notícia. As grandes

preciosidades deste continente em ouro, diamantes e todo o gênero de pedras estimáveis são bem conhecidas por toda a Europa: nele se estabeleceu o Real

Contrato Diamantino, que tem devido aos Senhores Reis de Portugal a maior vigilância e zelo. A Capital denominada Vila do Príncipe foi criada por D. Brás da

Silveira, em 29 de janeiro de 1714. Está situada em 18 graus e 23 minutos.

Discorrendo por entre a grande extensão destas quatro Comarcas,

apenas se achará rio, córrego ou serra que não devesse aos Paulistas o descobrimento das suas faisqueiras, e estes são os serviços com que se têm acreditado, além de muitos outros, os naturais da Cidade de São Paulo.

Digam agora os geógrafos que todos são mamelucos; arguam-lhes defeitos que

nunca tiveram; sirva-lhes de injúria o haverem nascido entre aquelas montanhas: as

almas é certo que não têm Pátria, nem berço; deve-se amar a virtude onde ela se

acha: nenhuma obrigação tinha a natureza de produzir só na Grécia os Alexandres,

só em Roma os Cipiões.

Qui pur s'intende

Di gloria il nome, e la virtù s'onora,

A l'Alessandri suvi l'Idaspe ancora.

O ABADE PEDRO METASTÁSIO, no Drama de Alexandre

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* *

Primeira divisão das Comarcas

EM 6 DE ABRIL DE 1714 se fez a divisão das Comarcas com assistência do Sargento-Mor, Engenheiro Pedro Gomes Chaves, e do Capitão-Mor Pedro Frazão

de Brito, e se assentou que a Comarca de Vila Rica se dividisse dali em diante da de

Vila Real, indo pela estrada de Mato-Dentro pelo ribeiro que desce da Ponta do

Morro, entre o sítio do Capitão Antônio Ferreira Pinto e do Capitão Antônio Correia

Sardinha, e faz barra no Ribeirão de São Francisco, ficando a Igreja das Catas Altas

para a Vila do Carmo, e pela parte da Itaubira se faz divisão no mais alto do morro

dela, e tudo o que pertence a águas vertentes para a parte do sul tocará à dita

Comarca de Vila Rica, e para a parte do norte tocará à Comarca de Vila Real. O

Ribeirão das Congonhas, junto do qual está um sitio chamado Casa Branca, servirá

de divisão entre as Comarcas de Vila Rica e de São João d'El-Rei, devendo tocar a

Vila Rica tudo o que se compreende até ela vindo do dito ribeirão para as Minas

Gerais; e do mesmo pertencerá à Comarca de São João d'El-Rei tudo o que vai até

à Vila de Guaratinguetá pela Serra da Mantiqueira. Presidiu a esta repartição o Governador D. Brás Baltezar da Silveira, e assinaram nela todos os Procuradores

das Vilas. Consta do Livro dos Termos na Secretaria do Governo, à fl.36.

*

* *

Série dos Governadores

TORNANDO A SÉRIE dos Governadores que ou entraram nas Minas, tendo anexas

as Capitanias de São Paulo e Rio de janeiro, ou que particular e sepa radamente as

governaram, a que aludiu o Autor naquele verso.- Fernando, Artur e D. Rodrigo, o

morto - é sem dúvida que deixados alguns governos interinos de ordem d11-Rei, ou

sem ela, sucederam na administração das Minas Gerais todos os que se apontaram

cronologicamente no Canto IX.

Recolhia-se Fernão Dias Paes a enviar a El-Rei as mostras das esmeraldas, e deixando a seu genro Manuel de Borba Gato, morador no Rio das Velhas, a pólvora

e o chumbo, e mais petrechos e ferramenta da sua laboreação para tornar às Minas

logo que recebesse as Reais Ordens. Saía D. Rodrigo por este tempo (que seria

pouco mais ou menos na era de 1681) acompanhado de alguns Paulistas, como

foram Matias Cardoso, Domingos do Prado, João Saraiva de Morais, Manuel

Francisco, pai de Salvador Cardoso, Domingos do Prado, pai de Genuário Cardoso,

e vários outros que tinham a prática dos sertões das Minas.

Avizinhando-se D. Rodrigo ao Borba, no intento de querer passar às minas das

esmeraldas, lhe mandou pedir o socorro, que precisava de pólvora e chumbo, e dos

mais instrumentos de ferro: repugnou o Borba, a pretexto da espera em que estava

de seu sogro Fernão Dias Paes; e querendo os que acompanhavam ao Fidalgo ir à

força despojar o Borba do que pediam, pacificou D. Rodrigo este primeiro ímpeto,

tomando sobre si a consecução do negócio por meios menos arriscados.

Desordenou a imprudência de um ameaço toda a felicidade do empenho; e ainda

que sem mandato expresso do Borba, foi morto D. Rodrigo nessa ocasião por uns

pajens, ou bastardos, que viviam agregados a ele: a esta morte se seguiu salvar-se

engenhosamente o Borba, afetando a repentina chegada de Fernão Dias Paes; e

em conseqüência da fugida, em que para logo se puseram os Paulistas acima nomeados, foram eles os primeiros que se entranharam pelo Rio de São Francisco,

e povoaram e encheram de gados as suas margens, de que hoje se sustenta o

grande corpo de Minas Gerais; nem mais quiseram voltar para a Pátria,

envergonhados do engano em que haviam caído.

Temeroso o Borba de que o buscassem as justiças, e que sobre a sua prisão fizesse

El-Rei as maiores diligências, se meteu aos sertões do Rio Doce com alguns Índios

domésticos da sua comitiva: aí viveu vários anos respeitado por Cacique, sem mais

lei, ou civilidade, que aquela que podia permitir uma comunicação entre bárbaros.

Estimulado contudo dos remorsos da consciência, cuidou em mandar dous Índios

práticos a São Paulo a tomar alguma inteligência dos seus parentes sobre o estado

em que se achava o seu crime; estes lhe facilitaram o acesso ao Governador Artur

de Sá e Menezes, recentemente chegado àquela Capitania; falou-lhe Artur de Sá

com afabilidade e lhe prometeu o perdão em nome d'El-Rei, contanto que ele fizesse

certo o descobrimento que denunciava do Rio das Velhas.

Bem se pode considerar o estado em que se achariam as Minas por

todo este tempo, em que só o despotismo e a liberdade dos facinorosos

punham e revogavam as leis a seu arbítrio. O interesse regulava as ações,

e só se cuidava em avultar em riquezas, sem se consultarem os meios

proporcionados a uma aquisição inocente. A soberba, a lascívia, a ambição, o orgulho e o atrevimento tinham chegado ao último ponto.

Aprestado o Borba, e socorrido de muitos parentes e amigos, acompanhou a Artur

de Sá, chegou ao Rio das Velhas; deu ao manifesto este descobrimento, e se fez

digno, pela grandeza das suas faisqueiras, que o Governador o premiasse com a

patente de Tenente-General de uma das praças do Rio de Janeiro.

Pouco tempo se demorou Artur de Sá no Rio das Velhas; lavrado o mais fácil daqueles ribeiros, se retirou outra vez para São Paulo, substituindo-lhe uma espécie

de jurisdição no Cível e no Crime o Mestre de Campo dos Auxiliares, Domingos da

Silva Bueno, Guarda-Mor das Repartições das Terras e Datas Minerais, criado pelo

mesmo Governador.

Com a ausência de Artur de Sá, como corpo sem cabeça, tornaram as Minas à

primeira desordem: as distâncias das quatro Comarcas já penetradas, e cheias de

um grande número de povoadores de diferentes Capitanias, que tinham entrado,

dificultavam as providências de um só homem, em quem ainda não acabavam de

reconhecer os povos a jurisdição de que estava encarregado.

Por este tempo se começaram a suscitar os ódios entre os filhos de São Paulo e os

naturais de Portugal, que eles denominavam Buabas. Dous religiosos, cujos nomes

e religiões se não declaram por se evitar o escândalo, fomentaram todo o calor

desta desunião. Viviam eles na liberdade que permitia o País, e a impulsos de uma

desordenada ambição atravessara com três arrobas de ouro o fumo e a cachaça, ou

aguardente da terra, para a venderem monopolizadamente pelo mais alto preço.

Quiseram logo praticar o mesmo com a carne dos gados, e encontrando a oposição

dos Paulistas, resolveram acabar com eles, expelindo-os de uma vez das Minas,

que eles haviam conquistado, e em que estavam estabelecidos com as suas famílias

e fábricas.

Sucedendo uns fatos a outros, e tomando corpo a emulação, conseguiram os Europeus a expulsão e despejo dos Paulistas pelos anos de 1709 para 1710, regendo-os nesta ação os dous Chefes, Manuel Nunes Viana, com o caráter de

Governador, com que o decoravam os seus, e Antônio Francisco, com o de Mestre

de Campo, por nomeação do mesmo Viana.

Quais fossem estes dous homens, o dão bem a conhecer as notas que se ajuntaram

ao Canto Quinto e Sexto e, posto que pelo que respeita a Viana se citasse só o

testemunho do Conde de Assumar em uma carta registada no Livro n° 7 da Secretaria do Governo das Minas Gerais, no mesmo Livro se encontram infinitas

outras, que acusam as intrigas, sublevações e desordens que ele continuava a maquinar nos distritos, onde vivia, do Rio das Velhas, as quais por brevidade se não

transcrevem. Quanto a Antônio Francisco, o mesmo Conde dá um testemunho do

seu caráter na carta escrita ao Doutor Valério da Costa Gouvea, Ouvidor da Comarca do Rio das Mortes, datada em 14 de março de 1718, páginas 22 e 23; nela

se lêem estas palavras:

Eu não sei se me expliquei bem, quando falava a V. Mcê. na minha antecedente no

extermínio deste homem, porque, se queria saber de V. Mcê. o partido com que aí

me achava, era julgando ser precisa a prisão, porque bem sabia eu que os perturbadores e sediciosos não só podiam, mas deviam ser expulsados; a

dificuldade só que se me oferecia era no modo de o fazer, porque a desgraça deste

País é tal, que sendo de tão baixo nascimento este homem é daqueles que se não

prendem para se soltarem.

Fazendo, porém, justiça, é certo que entre os rebeldes e levantados daquele tempo,

tinha melhor índole que todos o suposto Governador Manuel Nunes Viana: não consta que cometesse, por si ou por algum de seus confidentes, positivamente ação

alguma nociva ao próximo; desejava reger com igualdade o desordenado corpo que

se lhe ajuntara; acolhia afavelmente a uns e a outros; socorria-os com os seus cabedais; apaziguava-os, compunha-os, e os serenava com bastante prudência;

ardia porém por ser Governador das Minas e, se tivesse letras, se podia dizer que

trazia em lembrança a máxima de César - Si violandum est jus, regnandi gratia

violandum est.

Este projeto lhe desordenava a serenidade do ânimo, e o punha na consternação de

dissimular os insultos daqueles a quem era devedor do mesmo lugar que ocupava:

sobre este artigo é que o Autor o acusa nesta obra; sendo certo que a obediência

aos Soberanos se deve tributar sem algum rebuço, e que nada tão sagradamente

deve respeitar um fiel Vassalo.

Atormentavam os ouvidos de D. Fernando Martins de Mascarenhas os tumultos e

desordens em que estavam as Minas, e querendo pessoalmente sossegá-las,

marchou para elas desde o Rio de janeiro em o mês de junho de 1710. Chegou ao

Rio das Mortes com o intento de passar ao Ouro Preto, aonde residiam

principalmente os Chefes dos levantados: ofereceram-se-lhe alguns Paulistas e

filhos de Portugal mais bem intencionados para o acompanharem nesta diligência;

ele porém não consentiu no obséquio, por evitar assim algum ruído maior entre os

sublevados; não cessaram contudo eles de fazer espalhar a notícia de que D.

Fernando trazia cargas de correntes e outros instrumentos de ferro para punir aos

cúmplices do levantamento e conspiração contra os Paulistas.

Derramada esta voz pelas Gerais, se dispôs Manuel Nunes Viana a disputar-lhe a

entrada; armou então de política e cortejo um grande número de homens de cavalo,

e repartiu ordens por todos os distritos circonvizinhos ao Ouro Preto, que com pena

de morte se aprontassem aqueles moradores para uma diligência. Chegava D.

Fernando ao Arraial das Congonhas, distante oito léguas de Vila Rica, quando os

que acompanhavam a Viana, avistando de longe ao Governador, clamaram em altas

vozes: Viva o nosso Governador Manuel Nunes Viana, e morra D. Fernando, se não

quiser voltar para o Rio de janeiro!

Alguns se querem persuadir que Manuel Nunes Viana entrara violentado nesta ação,

e ele se pertendeu escusar do conceito de rebelde e sublevado, passando

ocultamente na noite seguinte a falar a D. Fernando, protestando-lhe estar pronto

para entregar o governo quanto à sua parte, e de tudo isto lhe pediu por escrito uma

atestação.

Assustou-se o Governador com a inesperada saudação dos rebeldes, e pediu oito

dias para se retirar: concederam-se-lhe estes, mas não se aproveitou D. Fernando

do beneficio, porque sem muita demora deu as costas às Minas e voltou para São

Paulo; aí trabalhava ansiosamente em se reforçar com os Paulistas, para vir sobre

os levantados, fazendo comua a afronta deles, e meditando para o seu despique

puxar as tropas do Rio e Bahia, e juntos por uma parte e outra atacarem todos ao

mesmo tempo as Minas.

Chegou ao Rio de Janeiro a frota de Portugal, e nela veio render a D. Fernando o

Governador e Capitão General Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho, por

patente datada em Lisboa em 23 de novembro de 1709.

Sem perda de tempo se pôs em marcha para as Minas, e levando a resolução de

entrar nelas disfarçado como qualquer particular, buscou o Arraial do Caeté a avistar-se com um Sebastião Pereira de Aguilar, filho da Bahia, homem rico e poderoso, de conhecido valor e espírito, que tinha por então tomado sobre si atacar

a Manuel Nunes Viana e todos os seus parciais pelas injustiças e violências que

praticavam, especialmente com os filhos do Brasil de qualquer Província, a quem

tinha transcendido o ódio conciliado contra os Paulistas.

Consta que o dito Sebastião Pereira de Aguilar escrevera a São Paulo a D.

Fernando Martins de Mascarenhas, oferecendo-se-lhe para lhe segurar o governo

com o poder de muitas armas e gentes que tinha já adquirido; e talvez foi este o

motivo que obrigou a Albuquerque a buscar na sua entrada aquele distrito do Caeté,

hoje Vila Nova da Rainha.

Na passagem que fez a comitiva de Albuquerque pelos levantados, foi conhecido de

Antônio Francisco o Capitão José de Souza, que vinha na sua guarda:

cumprimentaram-se sem algum susto, por ter servido o dito Antônio Francisco de

soldado na praça da Colônia, na Companhia do mesmo Capitão. Este lhe deu a

notícia de haver entrado já nas Minas o Governador, e o capacitou com fortes persuasões a que o buscassem, e se lançassem a seus pés os Chefes dos levantados, se queriam melhorar de semblante na sua causa.

A perturbação em que se via posto o governo de Viana, combatido pela parcialidade

avultada de Sebastião Pereira de Aguilar, e os ameaços de um formidável castigo,

que de ordem d'El-Rei acabava de insinuar o Capitão José de Souza, obrigaram a

Manuel Nunes Viana, a Antônio Francisco e a muitos outros cabeças do

levantamento a partirem sem demora para o Arraial do Caeté: aí se achava hospedado o Governador em casa de uns três irmãos, naturais também da Bahia,

que eram José de Miranda Pereira, Antônio de Miranda Pereira e Miguel Alves Pereira, talvez parentes ou amigos de Sebastião Pereira de Aguilar.

Prostraram-se aos pés de Albuquerque os rebeldes, e desculparam como lhes foi

possível os seus crimes: o Governador os recebeu afavelmente, não querendo usar

do poder e das ordens de que vinha fortalecido; segurou a todos o perdão pela

emenda que dessem a conhecer para o futuro; e não tardou a capacitar a Manuel

Nunes e Antônio Francisco que não convinha a assistência deles nas Minas Gerais,

por sossegar de uma vez o tumulto dos povos.

Retiraram-se com este conselho os dous para as fazendas que tinham nos Sertões:

sossegou o povo com a ausência dos Patronos, e prosseguiu Albuquerque na criação das Vilas e estabelecimento da Capitania. Bem é de ver quanto suor e fadigas empregaria o prudente General em segurar o fim de uma tão escabrosa

como interessante empresa. Foi ele o primeiro que susteve com desembaraço as

rédeas do governo; que pisou as Minas com luzimento e firmeza do caráter, em que

El-Rei o pusera; que promulgou as leis do Soberano, e fez respeitar neste Continente o seu nome. Esta a heroicidade que lhe considera o Autor por virtude da

qual o contempla digno do elogio com que honra Solis ao seu Cortês:

Admirável conquista, e sempre ilustre Capitão! Daqueles que vagarosa

mente produzem.os séculos, e de que há raros exemplos na História!

Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho sucedeu D. Brás Baltezar da Silveira, o

qual tomou posse na Comarca de São Paulo, em 1713, e passou para as Minas nos

fins de setembro do dito ano.

A este sucedeu em 1717 0 Conde de Assumar, D. Pedro de Almeida, que passou

para as Minas em setembro do dito ano. Foi o seu governo bastantemente crítico por

encontrar a oposição dos povos na criação das Casas da Fundição. Subjugou heroicamente alguns levantados e sublevações, principalmente os de Pitangui,

fulminados por Domingos Rodrigues do Prado, e o de Vila Rica, que foi ter a Mariana em 28 de junho do ano de 1720: aqui se lhe fez perciso prender a uns e

castigar a outros com a última pena.

Estes procedimentos lhe adquiriram o nome de tirano nas Minas; mas à sua constância e resolução deve Portugal a inteira sujeição da Capitania; o exemplar

castigo acabou de aterrar os ânimos de um povo tantas vezes rebelde e segurou de

uma vez a Real Autoridade.

Quod si non aliam venturo fata Neroni

Invenere viam, magno que Eterna parantur

Regna Deis, CÊlumque suo servire Tonanti

Non nisi sÊvorum potuit post bella Gigantum

jam nihil, ó Superi, querimur, scelera ista nefasque Hac mercede placent.

LUCANO, Pharsal., Liv. 1, v. 33.

Durou o governo do Conde de Assumar até o ano de 1721, em que o substituiu D.

Lourenço de Almeida, que foi o primeiro Governador positivo das Minas, porque nele

se separou a Capitania de São Paulo em governo à parte, ficando os Generais

respectivos só com sujeição aos ViceReis do Estado.

Tomou D. Lourenço de Almeida posse na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ouro

Preto, com assistência da Câmera, em 18 de agosto de 1721.

A D. Lourenço de Almeida sucedeu o Conde das Galveas, André de Melo e Castro,

que tomou posse em o 10 de setembro de 1732, na Igreja Matriz de Nossa Senhora

da Conceição de Antônio Dias.

O Conde das Galveas deu posse a Gomes Freire de Andrada, em 26 de março de

1735.

Mediaram alguns governos, como foi o de Martinho de Mendonça Pina e Melo na ida

que fez o dito Conde de Bobadela ao Rio de Janeiro, em 15 de março de 1736; foi

outra vez levantado o pleito de homenagem em 26 de dezembro de 1737.

Pelos tempos em que se deteve no Uraguai com a Real Comissão do Tratado de

Limites, substituiu seu irmão José Antônio Freire de Andrada, Conde atual de Bobadela, o governo das Minas. Igualmente falecendo em o 1.° de janeiro de 1763,

se praticou a via de sucessão no Exmo. Bispo D. Frei Antônio do Desterro, e nos

mais chamados por ela, te que no ano de 1763, em 28 de dezembro, entrou no

governo o General Luiz Diogo Lobo da Silva.

Este Governador, enchendo de merecimento os dias do seu governo, deu a posse

ao Exmo. Conde de Valadares, em 16 de julho de 1768.

*

* *

Descobrimento das esmeraldas, de que se faz

menção no Canto Oitavo

DA o AUTOR uma idéia deste descobrimento, conforme o que leu em um Poema

manuscrito de Diogo Grasson Tinoco, feito no ano de 1689; e mostra quanto trabalhou nesta empresa Fernão Dias Paes, natural de São Paulo.

A 27 de setembro de 1664, cometeu o Senhor Rei D. Afonso VI a Agostinho Barbalho a empresa do descobrimento das esmeraldas, facilitando-lhe o fim deste

negócio com uma carta, que escreveu o mesmo Senhor a Fernão Dias Paes, cujo

zelo e capacidade já era bem conhecida naquela Corte, na qual lhe ordenava desse

todo o socorro necessário para a conclusão deste particular. Esta carta fez tanta

impressão no espírito generoso de Fernão Dias Paes, como se pode coligir da presteza com que satisfez as primeiras ordens que nela se continham, e bem o

refere Diogo Grasson na oitava 27 do seu panagírico ao mesmo Fernão Dias.

Lendo-a Fernão, achou que EI-Rei mandava

Dar-lhe ajuda, e favor para esta empresa,

E em juntar mantimentos se empenhava

Com zelo liberal, rara grandeza;

Mas porque exausta a terra então se achava,

E convinha o socorro ir com presteza,

Mandou-lhe só cem negros carregados

À custa de seus bens, e seus cuidados.

Depois de passados alguns anos, tempo em que já estava no Trono o Senhor D.

Pedro i , sabendo Fernão Dias que com a morte de Agostinho Barbalho não tiveram

efeito as ordens que trouxera, se quis encarregar voluntariamente da execução delas, escrevendo primeiro a Afonso Furtado de Mendonça, Governador que era

então daqueles Estados, e tinha a sua residência na Bahia, oferecendo-se-lhe para

este fim com a sua pessoa, e com todos os seus bens: mandou-lhe Afonso Furtado

uma patente de primeiro Chefe daquela empresa aos 3o de abril de 1672. Nos

princípios do ano de 1673 se pôs Fernão Dias em marcha com vários parentes e

amigos seus, demandando a altura em que Marcos de Azeredo fazia certo o descobrimento das esmeraldas, em cuja diligência sofreu trabalhos infinitos, como

testifica o seu panagerista na oitava 35.

Parte enfim para os serros pertendidos,

Deixando a Pátria transformada em fontes,

Por termos nunca usados, nem sabidos,

Cortando matos, e arrasando montes;

Os rios vadeando mais temidos

Em jangadas, canoas, balsas, pontes,

Sofrendo calmas, padecendo frios

Por montes, campos, serras, vales, rios.

Desta sorte chegou à paragem chamada pelos naturais Anhonhecanhuva, que quer

dizer água que se some, e entre nós tem o nome de sumidouro. Aqui se deteve

Fernão Dias por espaço de quatro anos com pouca diferença, e fez várias entradas

no Sobra Bussu, que val o mesmo que cousa felpuda, e é uma serra de altura

desmarcada, que está vizinha ao Sumidouro, a qual chamam todos hoje Comarca

do Sabará. Nela achou diversa qualidade de pedras, que por falta de prática se lhes

não soube dar o valor de que talvez eram dignas. Da demora que aqui teve Fernão

Dias, e do muito que aqui sofreu, teve origem a discórdia entre muitos dos seus

companheiros, pois quase todos conspiraram contra a sua vida, e por último o deixaram só.

Vendo-se Fernão Dias neste desamparo, não esmorece, antes entra a cuidar na

brevidade da sua derrota, com ânimo de buscar a endireitura chamada Vupabussu,

que soa na nossa língua lago grande, e junto deste é que se supunham os socavões

das esmeraldas. Achava-se Fernão Dias falto do necessário para adiantar o giro

desta expedição. Escreve à Pátria e ordena à mulher não se lhe negue cousa alguma do que pede. Assim o diz a oitava 4 do seu elogio.

Isto suposto, já para a jornada

Manda à Pátria buscar quanto a seu cargo

Incumbe, pois que a fábrica guiada

Destruída se vê do tempo largo.

Determiria à fiel consorte amada

Que a nada, do que pede, ponha embargo,

Inda que sejam por tal fim vendidas

Das filhinhas as jóias mais queridas.

Com efeito chegou o postilhão, e trouxe consigo o que Fernão Dias pedia. Puseram-

se a caminho e foram discorrendo por uma dilatada montanha, até que chegaram a

Tucambira, que quer dizer papo de tucano, e deixando todo este espaço

avassalado, partiram para a Itamirindiba, que é rio muito fértil de peixe e significa

propriamente pedra pequenina e buliçosa. Aqui pararam por algum tempo, e se

proveram de forma que lhes não fosse danosa qualquer invasão do Gentio:

ultimamente buscaram o rumo do Norte, te que, depois de atravessarem uma parte

dos Sertões incultos, chegaram águas do Vupabussu.

Aqui cuidou Fernão Dias logo em expedir cem bastardos dos que trazia, a fim de

examinar a formalidade das terras circunvizinhas a este lago, a ver se achavam

algum língua que os informasse melhor do que buscavam. Na verdade não se frustrou de todo esta diligência, porque sobre o cume de uma montanha, vendo os

bastardos muita gente daquela que podia dar notícia das pedras pertendidas, investiram a ela, e apenas seguraram um que, sendo trazido à presença de Fernão

Dias, mandou este que com toda a humanidade fosse tratado entre os seus. Era ele

de um ânimo seguro, conforme o pinta Diogo Grasson na oitava 61.

Era o Silvestre moço valeroso,

Sobre nervudo, de perfidia alheio,

O gesto respirava um ar brioso,

Que nunca conhecera o vão receio:

Pintado de urutu vinha pomposo,

E o lábio baixo roto pelo meio,

Com três penas de arara laureado,

De flechas, de arco e de garrote armado.

Foi este o que descobriu os socavões de Marcos de Azeredo junto a um serro que

corre do Norte para o Sul. Mas quanto não custou a Fernão Dias este

descobrimento? Trabalhou sete anos nesta empresa. Foi-lhe perciso muitas vezes

romper por todas as resoluções dos seus, que só o aconselhavam se retirasse para

Itamirindiba, e deixasse para melhor tempo o descobrimento pertendido,

certificando-o de que os matos circunvizinhos a Vupabussu exalavam de si um hálito

pestilento, e que toda a sua demora ali não podia ser proveitosa. Ultimamente mandou enforcar à vista de todos os seus soldados um filho bastardo, que mais

estimava, por lhe constar que conspirava contra a sua vida. Chegou enfim a ver o

que tanto desejava, e fazendo-se na volta de São Paulo, donde era natural, não quis

o Céu que ele tivesse a glória de apresentar ao seu Soberano o testemunho do seu

zelo e da sua lealdade. Morreu junto ao Guaiaqui, que entre nós vale o mesmo que

rio das velhas. Isto é tudo quanto sabemos do descobrimento das esmeraldas, sem

que possamos afirmar o rumo, altura e os graus certos em que foram descobertas

estas pedras.

CANTO I

Cantemos, Musa, a fundação primeira

Da Capital das Minas, onde inteira

Se guarda ainda, e vive inda a memória

Que enche de aplauso de Albuquerque a história.

Tu, pátrio Ribeirão, que em outra idade

Deste assunto a meu verso, na igualdade

De um épico transporte, hoje me inspira

Mais digno influxo, porque entoe a Lira,

Por que leve o meu Canto ao clima estranho

O claro Herói, que sigo e que acompanho:

Faze vizinho ao Tejo, enfim, que eu veja

Cheias as Ninfas de amorosa inveja.

E vós, honra da Pátria, glória bela

Da Casa e do Solar de Bobadela,

Conde feliz, em cujo ilustre peito

De alta virtude respeitando o efeito,

O Irmão defunto reviver admiro:

Afável permiti que eu tente o giro

Das minhas asas pela glória vossa,

E entre a série de Heróis louvar-vos possa.

Rotos os mares, e o comércio aberto,

Já de América o Gênio descoberto

Tinha ao Rei Lusitano as grandes terras,

Que o Sul rodeia de escabrosas serras.

O título contavam de Cidades

Pernambuco, Bahia; e as crueldades

Dos índios superadas, já se via

O Rio de janeiro, que fazia

Escala às Naus: buscando o continente

De Paulo, uma conquista está patente,

Que aos Portugueses com feliz agoiro

Prometia o diamante, a prata, o oiro.

O arbítrio de um só braço moderava.

Toda a Capitania; e projetava

Albuquerque, que a gente ao Cetro alista,

Fazer mais dilatada esta conquista.

Da notícia de alguns tinha alcançado

(E muito mais na idéia está gravado

O profético anúncio) que faria

Grande serviço ao Rei, se a Serrania

Vencesse, e além passasse, e visse a testa

Do soberbo Itamonte: manifesta

A estrada se lhe mostra, e um Gênio experto

O guia a ver da empresa o fim mais certo.

Tornando à margem de um soberbo Rio,

Já se alojava o Herói, e do sombrio

Amparo de umas árvores, enquanto

Vagava a comitiva, ao doce encanto

Do murmúrio das águas e do vento,

Dando aos membros suave acolhimento,

O leve sono lhe deitava as asas.

Tecia débil cana as moles casas,

Em que apenas descansa algum rendido

Da fatigada marcha; ali ferido

De uma estranha paixão, que n'alma alenta,

Ao lado está do General; sustenta

O brioso Garcia o oficio inteiro

De súdito, de amigo e companheiro.

Rende-se ao sono o Herói, e ao anelante

Pulsar do peito, observa o vigilante

Mancebo que o combate aflita luta

No horror da fantesia; um ai lhe escuta,

Que ansioso respira; outro mais vivo

Lhe percebe no assalto sucessivo;

E ao ver que estende duramente os braços,

Já teme, e grita, e já lhe rompe os laços

Do funesto letargo: Ai! caro amigo

(Lhe diz o Herói), não temas, eu prossigo,

Se é que o espanto e o terror, que n'alma provo,

Me dão para falar-te alento novo.

Neste instante (ai de mim!), ou fosse imagem

Que há muito me oprimia, ou que a passagem

Deste Rio me ofereça agouro triste,

Eu vi (eu inda o vejo, inda me assiste

Presente aos olhos o medonho objeto!),

Eu vi que me apartava do projeto

De penetrar estes Sertões escuros

O grande Dom Rodrigo; dos seguros

Ombros, de que pendera agrave espada,

Rasga o vestido, e mostra inda manchada

A carne das feridas, de que o sangue

Correr se via; eu tremo, e quase exangue

Desmaio a tanta vista. Ele se avança,

Da mão me prende, e diz: Em vão se cansa,

Em vão o vosso Rei, se ver pertende

Subjugado este povo, que defende

Com o bárbaro zelo as pátrias Minas;

Debalde tu também hoje imaginas

Chegar ao centro delas; eu contemplo

Mil perigos na empresa; fresco exemplo

Te dá a minha morte; só te espera

De gênios brutos pertinácia fera;

Falta de fé, traições, crimes atrozes

Só terás de encontrar; se as minhas vozes

Teu crédito merecem, deixa, evita

A infame estrada... ; nisto ao ver que grita

Mais forte e mais medonha a sombra, tremo,

Pasmo, e me assusto, me horrorizo, e gemo.

Sem trabalhos (Garcia então lhe torna)

A glória não se alcança, não se adorna

Do louro da virtude o que se nega

Às árduas diligências; sei que chega

Vosso zelo e valor ao termo, aonde

Tudo o que é grande apenas corresponde

Ao meditado arrojo; mas passado

É talvez o pior, e já lembrado

Posso esperar que o mal encha algum dia

Os corações e as almas de alegria.

Temos dobrado a grande Serra;

temos Rompido os matos, onde ver podemos

As feras e o Gentio que a brenha oculta

Girar por entre nós: a alma insepulta

Do morto General a nós nos deva

Vencer do esquecimento a escura treva;

Busque-se o seu cadáver, e entre os nossos

Honrada sepultura achem seus ossos.

Aqui chegava, quando a comitiva,

Desde o vizinho monte, viva! viva!

Bradava em altas vozes; cresce o espanto;

Ambos se admiram; de alarido tanto

A causa buscam; pouco tempo tarda

Em recolher-se a dividida guarda,

Com salvas, e com vivas festejando

A presa, que já vem apresentando.

Três índias são, que do Pori robusto

Em resto escapam; todo o corpo adusto

Mostra que o Sol sobre a nudez queimara,

E que a ingênita cor de branca e clara

Tornou um pouco escura; a longa idade

A todas três enruga a mocidade;

Curvos os ombros, poucas cãs, os braços

Murchos e descarnados, mal os passos

Regem tremendo; breve arrimo fazem