'Vivenciando a amamentação e a sexualidade na maternidade: 'Dividindo-se entre ser mãe e mulher' por Erika de Sá Vieira Abuchaim - Versão HTML

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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

ESCOLA DE ENFERMAGEM

VIVENCIANDO A AMAMENTAÇÃO E

A SEXUALIDADE NA MATERNIDADE:

“DIVIDINDO-SE ENTRE SER MÃE E

MULHER”

ERIKA DE SÁ VIEIRA ABUCHAIM

São Paulo

2005

ERIKA DE SÁ VIEIRA ABUCHAIM

VIVENCIANDO A AMAMENTAÇÃO E

A SEXUALIDADE NA MATERNIDADE:

“DIVIDINDO-SE ENTRE SER MÃE E

MULHER”

Tese

apresentada

ao

Programa

Interunidades

de

Doutoramento

em

Enfermagem na Escola de Enfermagem da

Universidade de São Paulo, para obtenção do

título de Doutor em Enfermagem.

Orientadora: Prof.ª Dr.ª Isilia Aparecida

Silva

São Paulo

2005

Catalogação na publicação (CIP)

Biblioteca “Wanda de Aguiar Horta” da EEUSP

Abuchaim, Erika de Sá Vieira

Vivenciando a amamentação e a sexualidade na maternidade:

“dividindo-se entre ser mãe e mulher”. / Erika de Sá Vieira Abuchaim. –

São Paulo: E. de S. V. Abuchaim; 2005.

191 p.

Tese (Doutorado) - Escola de Enfermagem da Universidade de São

Paulo.

Orientadora: Prof.ª Dr.ª Isilia Aparecida Silva

1. Aleitamento materno 2. Sexualidade 3. Mulheres. I. Título.

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Dedico este estudo a minha amada filha,

AULI VIEIRA ABUCHAIM

Que, durante seus dois anos de vida, dentro de suas possibilidades, soube

entender meus momentos de ausência e, mais importante do que isso me

ensinou a ser Mãe/Nutriz: lançando-me à maternidade, em toda sua

completude e vivenciando comigo as delícias e dificuldades da experiência

da amamentação.

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A meus pais, Jorg

r e e Ana Viei

e ra

r , meu amor e

respeito pela amamentação e por sua continuidade com

carinho, confiança, incentivo e apoio em todos os

momentos

de

minha

vida,

possibilitando-me

o

crescimento e o desenvolvimento pessoal e profissional.

A Fá

F bi

b o Abuc

u h

c ai

a m, meu companheiro, meu amor e gratidão por dividir

comigo, durante toda essa jornada, os cuidados de nossa filha, estando sempre a

seu lado e abrindo mão de alguns de seus sonhos, para que eu pudesse me

ausentar, realizando, assim, minhas aspirações como Mulher/Mãe/Profissional.

A minha irmã Mylla Vi

V eira

r , exemplo de profissional, meu apreço e

profundos agradecimentos, pelo despojamento com que me emprestou sua casa,

da qual fiz meu ambiente de estudo e trabalho, durante essa jornada.

A meu querido irmão Viníci

c us

u Viei

e ra, meu carinho e amor por estar

sempre preocupado e pronto para me acolher e atender durante toda nossa vida.

A Clei

e de dos

o Anj

n os, minha secretária fiel de tantos anos, meus sinceros

agradecimentos por cuidar, com dedicação e carinho, de minha filha, com minha

Mãe e meu Marido, possibilitando-me tranqüilidade e a certeza de garantia de

seu bem-estar.

AGRADECIMENTOS

À Prof.ª Dr.ª Isilia Aparecida Silva, que durante todo estudo soube

me orientar de maneira carinhosa e hábil; sendo amiga e acolhedora nos

momentos de dificuldade e incerteza; compreensível, amável e cuidadora

durante meu processo de tornar-me Mãe e Nutriz Pesando Riscos e Benefícios

para mim e minha filha na vivência da experiência de amamentar, mas também

firme e objetiva quando necessário em minha caminhada acadêmica.

À Prof.ª Dr.ª Ana Cristina Freitas de Vilhena Abrão por me

introduzir na prática da assistência ao aleitamento materno; por ter pronta e

carinhosamente ajudado em minhas dificuldades como nutriz; além de acreditar

em meu potencial profissional, incentivando e abrindo-me as portas do Centro de

Incentivo e Apoio ao Aleitamento Materno (C.I.A.A.M.) na Universidade Federal

de São Paulo/EPM possibilitando, assim, a realização de uma parte deste estudo.

À querida amiga e Enf.ª Kelly Coca, Obstetriz responsável pelos

atendimentos de enfermagem em Aleitamento Materno no C.I.A.A.M., que mui

gentilmente me ajudou a selecionar as mulheres/nutrizes, matriculadas no

Centro e que se encaixavam no perfil necessário para este estudo, além de

generosamente ter me cedido, quando possível, seu consultório, para que eu

pudesse nele realizar minhas entrevistas com mais privacidade.

A Fabiana Muller e Milena Benassi, sócias e amigas na empresa de

Consultoria Integrada de Assistência à Mulher (CIAM), pela valiosa

compreensão, suporte e incentivo nos momentos em que precisei estar ausente

na assistência de nossas Nutrizes e seus bebês, possibilitando-me estar

inteiramente voltada ao desenvolvimento e conclusão deste estudo.

Às amigas Alessandra Azanha, Fabrícia Góes e Mirela Passador e

que tornavam mais divertida e alegre minhas procuras e as descobertas no

percurso deste trabalho, que carinhosamente chamavam, de Sujeito Oculto.

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A Lila Schwartz que, durante toda essa jornada, escutou-me

psicanaliticamente, sempre com muita sinceridade e delicadeza, possibilitando-

me a compreensão e o discernimento de meus passos pessoais e profissionais.

À Prof.ª Joana D’arc da Silva Costa, pela minuciosa revisão de

língua portuguesa.

Ao Marcello Batista Pimentel, pelo auxílio na formatação e

diagramação deste estudo.

A Nadir Aparecida Lopes, bibliotecária chefe, pelo auxílio na

formatação das referências bibliográficas, segundo as normas vigentes.

A todos os funcionários da Secretaria do Departamento de Enfermagem

Materno-Infantil e Psiquiátrica, da Secretaria da Pós-graduação, Serviço de

Biblioteca e Documentação da Escola de Enfermagem da Universidade de São

Paulo, muito obrigada pela atenção e disponibilidade constantes.

Meu carinho e gratidão a todas as Mulheres/Mães/Nutrizes que,

participando direta ou indiretamente deste estudo, possibilitaram-me

investigar, conhecer e compreender como se verifica a interface entre

experiência de amamentar e sexualidade feminina.

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Ob igad

a a!

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Bacharel em Psicologia (2004) pela Universidade Paulista; Bacharel em

Enfermagem (1996) pela Escola de Enfermagem da Universidade São Paulo –

EEUSP. Mestre em Enfermagem Obstétrica (2001) e Especialista em

Enfermagem Obstétrica (1999) pela Escola Paulista de Medicina - Universidade

Federal de São Paulo; Especialista em Educação Sexual (2000) pela Sociedade

Brasileira de Sexualidade Humana – SBRASH e Faculdade de Medicina do ABC.

Doutoranda em Enfermagem Materno–Infantil, desde 2001, pelo Programa

Interunidades de Doutorado em Enfermagem dos Campi São Paulo e Ribeirão

Preto da Universidade São Paulo.

E-mail: abuchaimef@superig.com.br

RESUMO

ABUCHAIM, E. de S.V. Vivenciando a amamentação e a sexualidade na

maternidade: “dividindo-se entre ser mãe e mulher”. [Tese] São Paulo (SP):

Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo; 2005.

A interface entre amamentação e sexualidade feminina é um aspecto de suma

importância na vida das Mulheres/ Nutrizes, mas, pouco conhecido pelos

profissionais que as assistem. Buscou-se, portanto, investigar como essa vivência

se dá segundo a ótica dessas mulheres. Este estudo, tomando como princípio

norteador o modelo teórico Pesando Riscos e Benefícios (Silva, 1997), teve como

objetivos: Compreender o significado consciente da interface da sexualidade e

da amamentação para as mulheres que vivenciam este processo e Compreender a

maneira como a dimensão atribuída ao significado da interface da sexualidade e

da amamentação manifesta-se nas formas de ação para as mulheres em relação

à amamentação ou à sexualidade. Utilizou-se como referenciais teórico e

metodológico o Interacionismo Simbólico e a Teoria Fundamentada nos Dados,

respectivamente para análise dos dados, que foram obtidos por meio de 13

entrevistas realizadas com mulheres, residentes no município de São Paulo, que

estavam amamentando ou que já tivessem passado por essa experiência. Dos

resultados emergiram três fenômenos: Sentindo que o corpo mudou/ Assumindo

novos papéis e Não podendo estar inteira na relação que possibilitaram a

identificação do fenômeno central: DIVIDINDO-SE ENTRE SER MÃE E

MULHER, representativo do processo investigado. O estudo revelou que para

essas mulheres, a experiência de amamentar e sua interface com a sexualidade

se dá vivenciando a sexualidade na maternidade, quando por meio de um

movimento constante de divisão entre os papéis de Ser Mãe e Mulher busca

mediar a amamentação e sua vida sexual, procurando conciliar essas novas

funções com os demais papéis por ela desempenhado; deixando claro, no

entanto, que para as mulheres deste estudo, nessa fase de suas vidas a

prioridade é a criança e seus cuidados.

Palavras–chave: Aleitamento materno, Sexualidade e Mulheres.

ABUCHAIM, E. de S.V. Experiencing Breasfeedinf and Sexuality

in Motherhood:“separanting yourself between motherhooh and being a

woman”. [Thesis] São Paulo (SP): Escola de Enfermagem, Universidade de São

Paulo; 2005.

The interface between breast feeding and feminine sexuality is an aspect of

crucial importance in a woman's life. Nevertheless, it is not well known by the

professionals who assist them, and for this reason an investigation was begun as

to how that self-expressiveness happens throughout the woman's point of view.

This study has, as it's principle, the theoretical model "Pesando Riscos e

Beneficias" (Silva, 1997) Comprehending the meaning of the sexual interface of

breast feeding for women experiencing this process and to comprehend how

this dimension attributed the sexual interface is shown in a woman's behavior.

It was taken as theoretical and methodological referential symbolic

interactions and theory based on data and it's analysis respectively, and was

obtained by interviewing 13 women who have been living in Sao Paulo's municipal

district, that were either breast feeding or have already had this experience.

From these results emerged three observations: Feeling the body's

change; Taking on new duties, and neglecting the relationship and Separating

themselves between motherhood and relationships. The study revealed that for

these women the breast feeding experience and it's interface with the

feminine sexuality happens throughout motherhood, by trying constantly to

separate themselves from motherhood and being a woman. She wants to

mediate the breast feeding and her sexual life by trying to conciliate these new

functions with the others; understanding, however, that in this phase of her

life the priority is the child and its needs.

Key Words: Breastfeeding, Sexuality and Women.

RESUMEN

ABUCHAIM, E. de S.V. Vivenciando la imantación y la sexualidad en la

maternidad: “dividiéndose entre ser madre y mujer”. [Tesis] São Paulo (SP):

Escuela de Enfermería, Universidad de São Paulo; 2005.

La interface entre la lactancia materna y la sexualidad femenina es un aspecto

de suma importancia en la vida de las Mujeres/Nutrices, sin embargo poco

conocido por los profesionales que las asisten. Se buscó entonces investigar

cómo se da esa vivencia según la óptica de estas mujeres. El presente estudio,

realizado con el principio norteador del modelo teórico Pesando Riesgos y

Beneficios (Silva, 1997), tuvo como objetivos: Comprender el significado

conciente que tiene la interface de la sexualidad y de la lactancia materna para

las mujeres que vivencian este proceso y Comprender la manera cómo la

dimensión atribuida al significado de la interface de la sexualidad y de la

lactancia materna, se manifiesta en las formas de acción para las mujeres en

relación al amamantamiento, o a la sexualidad. Se utilizó como referenciales

teórico y metodológico el Interaccionismo Simbólico y la Teoría Fundamentada

en los Datos, respectivamente para el análisis de los datos, los cuales fueron

obtenidos por medio de trece entrevistas realizadas a mujeres, residentes en el

municipio de São Paulo, que estaban amamantando o que ya hayan pasado por esa

experiencia. De los resultados emergieron tres fenómenos: Sintiendo que el

cuerpo cambió; Asumiendo nuevos papeles y No pudiendo estar entera en la

relación, que hicieron posible la identificación del fenómeno central:

DIVIDIÉNDOSE ENTRE SER MADRE Y MUJER; representativo del proceso

investigado. El estudio reveló que para estas mujeres, la experiencia de

amamantar y su interface con la sexualidad, se da vivenciando la sexualidad en la

maternidad, cuando por medio de un movimiento constante de división entre los

papeles de Ser Madre y Mujer busca mediar la lactancia materna y su vida

sexual procurando conciliar las nuevas funciones con los demás papeles que

desempeña; dejando claro, entre tanto, que para las mujeres de este estudio, en

esta fase de su vida la prioridad es la crianza y sus cuidados.

Palabras–clave: Alentamiento materno, Sexualidad y Mujeres.

Listagem de figuras

Capítulo I: Introdução – Figura 1

http://www.aleitamento.org.br/galeria/pmodern16.htm (17 ago. 2005)

Capítulo II: Objetivos– Figura 2

http://www.abcgallery.com/P/picasso/picasso185.html(17 ago. 2005)

Capítulo III: Bases teórico metodológicas – Figura 3

http://www.aleitamento.org.br/galeria/pmodern51.htm(17 ago. 2005)

Capítulo IV: Descrição da pesquisa – Figura 4

http://www.aleitamento.org.br/galeria/pmodern45.htm (17 ago. 2005)

Capítulo V: Apresentação e análise dos dados – Figura 5

http://www.aleitamento.org.br/galeria/pmodern44.htm(17 ago. 2005)

Capítulo VI: Discussão – Figura 6

http://www.confidentofthis.com/artwork/humanity_picasso_lavie.html(17

ago. 2005)

Capítulo VII: Considerações finais – Figura 7

http://www.aleitamento.org.br/galeria/pmad54.htm(17 ago. 2005)

Referências Bibliogáficas – Figura 8

http://www.aleitamento.org.br/galeria/pmodern26.htm(17 ago. 2005)

Anexos – Figura 9

http://www.aleitamento.org.br/galeria/pmodern46.htm(17 ago. 2005)

Listagem de Diagramas

Diagrama 1 – Fenômeno I: SENTINDO QUE O CORPO MUDOU, suas

categorias, subcategorias, elementos e componentes.

Diagrama 2- Fenômeno II: ASSUMINDO NOVOS PAPÉIS, suas categorias,

subcategorias e elementos.

Diagrama 3 – Fenômeno III: NÃO PODENDO ESTAR INTEIRA NA

RELAÇÃO, suas categorias, subcategorias, elementos e componentes.

Diagrama 4 – Categoria: RETOMANDO AS ATIVIDADES SEXUAIS, suas

subcategorias, elementos e componentes.

Diagrama

5

Categoria:

VIVENCIANDO

A

AMAMENTAÇÃO,

subcategorias, elementos e componentes.

Diagrama 6 – Categoria: SENTINDO A PRESENÇA DA CRIANÇA, suas

subcategorias e elementos.

Diagrama 7 – Fenômeno Central: DIVIDINDO-SE ENTRE SER MÃE E

MULHER

SUMÁRIO

CAPÍTULO I: INTRODUÇÃO ....................................................................................... 15

1. ENCONTRO COM A LITERATURA ....................................................................... 22

1.1 Mamas ...................................................................................................................... 22

1.2 Sexualidade ............................................................................................................ 24

1.3 Amamentação......................................................................................................... 30

1.4 Amamentação e Sexualidade ............................................................................ 38

CAPÍTULO II: OBJETIVOS ......................................................................................... 46

CAPÍTULO III: BASES TEÓRICO - METODOLÓGICAS ................................... 48

3.1 Referencial Teórico – Interacionismo Simbólico......................................... 49

3.2 Referencial Metodológico – Teoria Fundamentada nos Dados ............... 55

3.3 Modelo teórico – “Pesando Riscos e Benefícios” ........................................ 60

CAPÍTULO IV: DESCRIÇÃO DA PESQUISA .......................................................... 65

4.1 Contexto da Pesquisa .......................................................................................... 66

4.2 Sujeitos da Pesquisa............................................................................................ 67

4.3 Estratégia para Coleta dos Dados.................................................................. 71

4.4 Coleta de Dados.................................................................................................... 75

4.5 Análise dos dados................................................................................................. 75

CAPÍTULO V: APRESENTAÇÃO E ANALISE DOS DADOS............................... 78

5.1. SENTINDO QUE O CORPO MUDOU........................................................... 81

5.2.ASSUMINDO NOVOS PAPÉIS........................................................................ 95

5.3 NÃO PODENDO ESTAR INTEIRA NA RELAÇÃO .................................. 106

5.4. Fenômeno Central:

DIVIDINDO-SE ENTRE SER MÃE E MULHER....................................... 141

CAPÍTULO VI - DISCUSSÃO.................................................................................... 148

CAPÍTULO VII: CONSIDERAÇÕES FINAIS........................................................ 164

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS............................................................................ 169

ANEXOS ............................................................................................................................ 177

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Introdução

CAPÍTULO I: INTRODUÇÃO

______________________________________________________________________15

Introdução

Em todos os seus aspectos, o interesse pelo processo de amamentação e

a convicção de que o profissional, que assiste a mulher e sua família no ciclo

gravídico-puerperal, deve fazê-lo, compreendendo e trabalhando com as

diversas questões e com os elementos decisórios que poderão influenciar no

comportamento da mulher/ mãe ante a amamentação, especificamente, aqueles

relacionados à sexualidade feminina, que se constituíram na mola propulsora

para o desenvolvimento deste estudo.

Somado a isso, estagiei durante meu preparo formal, como enfermeira

obstetra e atuei por alguns anos no ambulatório de assistência de enfermagem à

puérpera e seu bebê, ligado à Escola Paulista de Medicina da Universidade

Federal de São Paulo (UNIFESP) que, na época (1999-2002), era realizado no

Centro de Assistência e Educação em Enfermagem (CAENF), situado na cidade

de São Paulo, local este onde tive a oportunidade de estar mais próxima das

mulheres que vivenciam o aleitamento materno e perceber que, grande parte

delas, não relatava questões referentes à sua sexualidade nos primeiros meses

de puerpério e as que o faziam, apontavam questões como medo de dispareunia e

ou de uma nova gestação.

Dispareunia é a possibilidade de uma nova gestação, interferindo no

processo de amamentação, são elementos presentes em estudos, como os de von

Sydow (1999) e Silva (1997). O estudo de metanálise, realizado por von Sydow

(1999), com 59 trabalhos sobre a sexualidade de gestantes e puérperas,

______________________________________________________________________16

Introdução

verificou que 40%-64% das mulheres esquivam-se ou evitam o intercurso sexual

por medo de dispareunia, problemas de contracepção e ou ejeção láctea na

relação.

Os achados acima podem ser complementados pela pesquisa realizada por

Byrd, et al (1998), cujos resultados mostram que as nutrizes encontram-se

menos satisfeitas sexualmente, referem com freqüência a redução significativa

da libido, quando comparadas às mulheres que não vivenciam o processo de

amamentação. O autor citado refere ainda que alguns fatores contribuem, para

que tais fatos ocorram, sendo eles: 1. Biológico – alterações hormonais, como a

queda nos níveis de estrógeno e progesterona, somados à elevação significativa

nos níveis de prolactina circulante que, durante o período de lactação, levam a

alterações no epitélio vaginal como, por exemplo, diminuição da lubrificação; 2.

Psicológico – algumas mulheres obtêm satisfação sexual ou suprem suas

necessidades de toque mais íntimo na mamada, o que pode resultar na redução

de interesse sexual expresso com o parceiro; 3. Físico – as mulheres que

amamentam, apresentam-se mais cansadas em razão da manutenção das

mamadas.

Silva (1997) realizou um estudo com a finalidade de compreender o fato

que norteia a decisão da mulher em amamentar ou não; a autora menciona que a

possibilidade de uma nova gravidez representa simbolicamente um dos grandes

riscos aos quais a mulher encontra-se exposta, no período em que está

amamentando, chegando, muitas vezes, a desconsiderar uma série de benefícios

______________________________________________________________________17

Introdução

do aleitamento materno por ela mesma identificados, tanto ao filho como para si

própria.

Durante minha especialização em enfermagem obstétrica, para

elaboração da monografia de conclusão de curso, realizei um levantamento

bibliográfico sobre o tema sexualidade e amamentação, surpreendi-me ao

verificar que os poucos trabalhos existentes a respeito do tema eram em sua

totalidade quantitativos, além de majoritariamente internacionais.

As pesquisas científicas nacionais não abordam esses aspectos e, em sua

maioria, tratam da importância da amamentação do ponto de vista físico-químico

do leite materno para desenvolvimento do recém-nascido, além de apontarem

benefícios à mãe e à criança.

Determinados estudos centralizam as dificuldades encontradas pelas

mães no período de amamentação; estando mais voltados a patologias, alguns

citam as possíveis causas do desmame, outros abordam a experiência de

amamentar e sua interface com os outros papéis que a mulher desempenha na

sociedade sem se aprofundar ou, algumas vezes, tais estudos sequer citam os

aspectos sexuais da vida dessa mulher/ mãe/ nutriz.

Outro assunto pouco aprofundado e que merece uma maior investigação é

a influência significativa do companheiro na experiência da amamentação e, em

todo o processo de composição familiar, levando e dando apoio a sua mulher,

seja ela gestante ou nutriz (Martins Filho, 1987).

______________________________________________________________________18

Introdução

Para Hames (1980); a percepção feminina sobre a postura do homem face

à amamentação e o exercício da sexualidade, nesse período, pode afetar a auto-

imagem e a percepção da mulher/nutriz, como sexualmente atraente e desejável

no relacionamento.

Embora muitos homens incentivem ou facilitem o período de aleitamento

para a parceira, outros ainda se posicionam como seus verdadeiros inimigos. A

percepção da mulher a respeito da atitude do parceiro ante o aleitamento

materno pode influenciar sua decisão de amamentar e a duração desse período

(Avery, Duckett, Frantzich, 2000). Algumas mulheres interrompem a

amamentação, influenciadas pelos parceiros, outras desenvolvem grandes

dificuldades na convivência conjugal.

Para Clark (1984), uma das principais razões dessa atitude negativa,

mesmo não sendo de forma declarada, é que os homens receiam que os seios de

sua mulher fiquem deformados, ou ainda, recusam-se a reparti-los com o bebê.

Como complemento, Martins Filho (1987) refere que alguns homens sentem-se

insatisfeitos com o fato de sua mulher amamentar, porque acreditam que isso

possa prejudicar o relacionamento sexual, visto que não conseguem dissociar as

funções sexual e nutricional das mamas. Para alguns, pode também ser difícil a

aceitação de que o bebê e suas necessidades sejam temporariamente

prioritárias na vida, de suas parceiras, durante o período em que deveriam ser

mais pacientes.

______________________________________________________________________19

Introdução

Assim, algumas mulheres passam por uma fase de enjeitamento ao marido

e de desinteresse sexual durante o evoluir da gestação que costuma se acentuar

nas primeiras semanas após o parto, quando certos homens podem sentir a

proximidade da mãe com seu filho, intensificada pela amamentação, como

rejeição e desprezo por si.

No entanto, em um dado momento, a mulher reinterpreta e modifica os

significados que o aleitamento materno e a sexualidade representam para ela.

Em decorrência de sua interação com os elementos presentes em seu meio, re-

estabelece prioridades entre os papéis de mulher, mãe e nutriz, fato que pode

ou não resultar no desmame da criança.

Forster et al. (1994), ao pesquisarem as alterações psicológicas e sexuais

após o desmame, citam que as mulheres, ao pararem de amamentar seu primeiro

filho, experimentam depois de duas, três semanas melhora de humor, diminuição

de cansaço, melhora de interesse sexual e elevação na freqüência de coito.

Em 2000, coletando dados para minha Dissertação de Mestrado, cujo

objetivo era identificar e validar os diagnósticos de enfermagem em

sexualidade, defrontei-me novamente com mulheres que relatavam a presença

de problemas no exercício de sua sexualidade, após o nascimento de seus filhos

(Vieira, 2001).

A maioria dessas mulheres, sobretudo, aquelas que amamentavam,

referia algum tipo de dificuldade no retorno à atividade sexual após o parto que

estavam relacionadas a conflitos de valores no desempenho dos papéis

______________________________________________________________________20

Introdução

mulher/mãe e mulher/amante/esposa, à falta de disposição física e emocional,

de privacidade e conhecimento sobre sua própria sexualidade, além da

incapacidade de alcançar a satisfação sexual desejada.

De acordo com Silva (1994) e Nakano (1996), a mulher, núcleo do

processo de amamentar, deve ser vista e compreendida em sua totalidade, pois,

além de ser responsável pelo desenvolvimento biopsicossocial de seu filho,

também interage com elementos resultantes de outros papéis que desempenha,

tentando suprir suas necessidades. Verifica-se, então, que o ser nutriz é apenas

um, dentre os diversos papéis e funções desempenhados pela mulher ao longo de

sua vida.

Compreender os elementos decisórios e a vivência da mulher, no processo

de amamentação, é fundamental para qualquer profissional que a assiste; no

entanto, nenhum estudo realizado pelo método qualitativo que aborde o

significado da sexualidade e de seu exercício às mulheres, durante o processo

de amamentação, foi verificado.

Os fatos acima citados reforçam o interesse e a necessidade de uma

pesquisa qualitativa que permita uma aproximação com essa realidade, baseada

na perspectiva das mulheres que amamentam, possibilitando uma interpretação

do contexto, no qual o fenômeno e os sujeitos estão inseridos e,

conseqüentemente, que direcione a assistência de enfermagem prestada a essas

mulheres de forma global.

______________________________________________________________________21

Introdução