'Viver em paz com a humanidade inteira': Infância, de Graciliano Ramos, e a construção de si por Cristiana Tiradentes Boaventura - Versão HTML

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Universidade de São Paulo

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas

Programa de Pós-Graduação em Literatura Brasileira

Cristiana Tiradentes Boaventura

“Viver em paz com a humanidade inteira”:

Infância, de Graciliano Ramos, e a construção de si

São Paulo

2013

Universidade de São Paulo

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas

Programa de Pós-Graduação em Literatura Brasileira

“Viver em paz com a humanidade inteira”:

Infância, de Graciliano Ramos, e a construção de si

Cristiana Tiradentes Boaventura

Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação

em Literatura Brasileira do Departamento de

Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de

Filosofia, Letras e Ciências Humanas da

Universidade de São Paulo para obtenção do título

de doutor em Letras.

Orientador: Prof. Dr. Luiz Dagobert de Aguirra Roncari

São Paulo

2013

2

Agradecimentos

À Fapesp, pelo apoio financeiro e institucional.

A Luiz Dagobert de Aguirra Roncari, que me acolheu como orientanda, fornecendo seu apoio

generoso e paciente.

A Maria Rita Sigaud Palmeira, pelo contínuo e decisivo suporte intelectual desde que nos

conhecemos e principalmente pela presença afetiva nos últimos anos de doutorado.

Aos amigos conquistados durante estes anos de pós-graduação na USP, que atravessaram a

difícil fronteira da amizade acadêmica e fazem hoje parte do meu mundo afetivo: Valéria de Freitas

Pereira, amiga de presença maternal e cuidadosa, Jayme Costa Pinto e Moacyr Godoy Moreira, que

fazem com que os encontros sejam mais cheio de graça e humor, Aline Ulrich, amiga que tem

acompanhado sempre de perto meu percurso, Vinícius Veneziani, pela sensatez dos comentários.

Pela leitura cuidadosa de meu texto de qualificação, agradeço à professora Simone Rossinetti

Rufinoni e ao professor Erwin Torralbo Gimenez.

Às professoras Cilaine Alves e Yudith Rosenbaum, na função de coordenadoras da pós-graduação em

Literatura Brasileira, pela atenção dispensada a mim quando necessitei. Ao professor Marcos Moraes,

Hélio Seixas Guimarães e Ana Paula Pacheco, que de um modo ou de outro e sem o saberem

contribuíram para esta pesquisa. Ao professor Francisco Foot Hardman, pelas dicas e encaminhamento

iniciais. Ao professor Hélio Salles Gentil, que colaborou com as discussões acerca da filosofia

ricoeuriana. A Jaime Ginzburg, pela presença em minha formação durante meu percurso de mestrado e

a quem serei eternamente grata. Agradeço a Christian Botelho Borges pela primorosa revisão da tese.

Aos amigos que estão juntos comigo na vida: André Guedes, Beto Castilho, César Cachapuz,

Danielle Rocha, Dimi Castilho, Gabriela Tormin, Graziela Zocal, Luciano de Paula, Luiz Zen, Marcus

Tulius de Moraes, Marina Teixeira, Mirela de Oliveira, Taciana Boaventura, Tatiana Cachapuz,

Suyanne Keidel. A Renata Lise, um anjo. A Paulo Barroso e Geórgia Teixeira, pelos eternos caminhos

cruzados e a imensa cumplicidade, nas letras e na vida. Às amigas corredoras que fazem da USP um

espaço também de produtividade física: Cecilia Belele, Roseli Guimarães, Rosimeire Pinho, Adriana

Apuzzo, Thabata Giovani. E a tantos outros amigos e passantes que fazem com que eu tenha sempre

gratidão por estar cercada de pessoas do bem.

A Regina Tiradentes, pela figura amorosa, que ainda me põe no colo nos momentos que

preciso. A Noemy Correia de Arruda, que me acolhe como se eu fosse filha e a quem devo muito. A

Taciana Boaventura e Hélio Boaventura, pela companhia e amizade. E aos meus sobrinhos Hélio Neto,

Vitor Boaventura e Júlia Mendes, que fazem minha vida mais alegre.

A Isabel Castelo Branco, minha eterna gratidão. Por ser aquela que criou o ambiente possível

para o meu processo de amadurecimento e pela eterna generosidade e compaixão com que busca ser

suficientemente boa.

A André Guedes, meu agradecimento especial pela presença acolhedora, cuidadosa, generosa

e de apoio irrestrito em minha vida. Meu amigo e parceiro, que assim seja pelo restante do nosso

percurso intelectual e afetivo.

3

Não dedicar, porém sublinhar:

o processo melancólico e angustiante da confluência do estudo das memórias de Infância e a pesquisa

das minhas próprias reminiscências. Na coragem do enfrentamento desse objeto junto à constante e

ininterrupta revisão do meu passado concluo esta tese sabendo agora que é possível viver em paz com

as minhas próprias memórias. “Estala, coração de vidro pintado!”

4

Resumo

Esta tese analisa o livro Infância, de Graciliano Ramos. A leitura proposta sublinha

experiências do menino no entroncamento de questões relacionadas à violência, à não

violência e à expressão literária. Sustentamos que a construção das memórias contém

tensões e ambiguidades presentes na articulação temporal da obra, mas ao mesmo

tempo incorpora certa dimensão conciliatória como marca identitária do narrador.

Investigamos como a significação de si é elaborada de forma que o sentido atribuído

às experiências converge para apresentar um modo de agir e intervir no mundo que

combate esteticamente em favor da paz e da cultura.

Palavras-chave: literatura brasileira – Graciliano Ramos – memórias – experiência –

construção identitária – violência – dignidade humana.

5

Abstract

This thesis analyzes the book Infância, by Gracilano Ramos. The proposed approach

underlies the experiences the boy had at the junction of issues concerning violence,

non-violence and literary expression. It is our understanding that the building of

memories involves tensions and ambiguities which are present in the book’s temporal

articulation, but at the same time it also incorporates a certain reconciling dimension

as one of the narrator’s distinguishing identity marks. We investigate how the

signification of the self is elaborated, so as the meaning imparted on the experiences

eventually converge to introduce a way of acting and intervening in the world,

aesthetically fighting in favor of peace and culture.

Key-words: Brazilian literature – Graciliano Ramos – memories – experience –

identity construction – violence – human dignity

6

Sumário

Introdução

8

Algumas considerações teóricas

22

Capítulo I

Em torno de vicissitudes do menino: uma história de descontinuidade

44

1.1. A história do Papa-Hóstia: uma difícil confissão

45

1.2 A história de José: uma experiência malograda

67

Capítulo II

Entre o menino e o narrador: algumas configurações de continuidade

95

2.1. Fantasias do menino: em torno da não violência

96

2.2. O menino e Fernando: aprendendo a “reformar julgamentos”

118

Capítulo III

As vicissitudes do narrador: histórias do passado e o traçado no presente

133

3.1. O avô paterno: inclinações artísticas e fracasso

134

3.2. O avô materno: rusticidade e vigor

159

Considerações finais

171

Referências bibliográficas

175

7

Introdução

1.

A palavra “paz” e seu campo semântico percorrem de modo sistemático os

escritos de Graciliano Ramos em sua última década de vida. Uma surpreendente

constatação quando se leem os textos agora compilados no livro Garranchos 1 é a

disposição do escritor para forjar discursos cuja atmosfera é de solidariedade, união e

entendimento entre os homens. Essencialmente, os discursos à frente da organização

dos escritores demonstram com bastante clareza essa tendência.

Nessa edição de inéditos, um dos mais belos títulos se refere a um discurso de

agradecimento à cidade que recebeu um dos congressos da associação dos escritores2.

Em “Viver em paz com a humanidade inteira”, Graciliano posiciona-se como aquele

que crê na possibilidade de “entendimentos para objetivo comum” (RAMOS, 2012, p.

324). Entre os apelos e as reivindicações do escritor está a convocação ao debate

sobre a profissão e sobre a própria atividade da escrita.

Ao analisarmos o texto convocatório para o referido congresso, vemos seu

discurso convergir para a reflexão sobre a liberdade e a paz como fontes fundamentais

para o almejado desenvolvimento cultural do país: “Hoje, mais do que nunca, os

escritores brasileiros sentem o inelutável dever de participar também em todos os

movimentos nacionais em defesa da democracia, do progresso e da paz de que

depende o desenvolvimento de nossa cultura” (RAMOS, 2012, p. 320).

O filósofo alemão Jürgen Habermas, no ensaio O conceito de dignidade

humana e a utopia realista dos direitos humanos, ao elaborar uma compreensão das

relações que as noções de “dignidade humana” e “direitos humanos”3 mantêm entre

1 Essa edição de inéditos organizada pelo pesquisador Thiago Mio Salla traz textos essenciais de

Graciliano, que evidenciam ainda mais o modo como se posicionou como intelectual, em busca de

interlocução com os mais diversos núcleos de pessoas. Lançada em 2012, essa edição foi uma

valiosa contribuição a esta tese.

2 O evento em questão é o IV Congresso Brasileiro de Escritores, realizado em setembro de 1951,

tendo Graciliano Ramos à frente da presidência da ABDE (Associação Brasileira de Escritores).

Além da conjuntura política de modo mais amplo, a própria entidade havia sofrido com duras

brigas e choques entre os associados e se enfraquecido bastante com a saída de diversos

membros. Sobre esse assunto, consultar Florent (2011) e Moraes (2012).

3 Ao elaborar uma compreensão das relações que manteriam entre si as noções de “dignidade

humana” e “direitos humanos”, Habermas propõe a primeira como princípio e origem da.

segunda, não obstante seu aparecimento posterior e tardio como conceito explícito na história do

Direito. Das três partes nas quais o ensaio é estruturado, a primeira procura demonstrar a

realidade constitutiva desse vínculo conceitual específico que existiria entre ambas as noções, no

8

si, afirma que, se os dois conceitos são universais, só a noção de dignidade humana

teria certa estabilidade de compreensão – necessária para que o entendimento coletivo

acerca de determinadas questões morais possa efetivamente gerar consensos. Para

Habermas, as experiências de violação da dignidade humana são desafios históricos,

cuja investigação poderia conduzir a novas dimensões de sentido a cada momento4.

Apenas o cumprimento em conjunto do que seriam as quatro categorias de direitos

humanos fundamentais5 poderia garantir o atendimento a cada uma delas. O que ele

denomina como “indivisibilidade dos direitos fundamentais”, conceito que condensa

essa quatro categorias básicas, está alicerçado na noção de dignidade humana, que,

por sua vez, fornece o vínculo lógico entre elas.

Dentre as reflexões de Habermas, importa-nos essencialmente a ideia presente

na consideração de que “os direitos fundamentais clássicos só adquirem ‘um valor

igual’ para todos os cidadãos quando acrescidos de direitos sociais e culturais”. Ou

seja: quando existe acesso de todos à “participação adequada na prosperidade

[material] e na cultura” produzidas na sociedade (HABERMAS, 2011, p. 16). Se o

conceito kantiano de dignidade humana – que, segundo Habermas, é a acepção

filosófica do termo que permanece válida atualmente – parece ser aquele que toma a

pessoa como um fim em si mesma, por oposição às coisas, então deve-se reconhecer

que só a real possibilidade de autorrealização do indivíduo em cada um dos domínios

da vida é o que pode torná-la digna. Mais que isso, para o filósofo a forma da relação

intersubjetiva que está de acordo com o respeito recíproco à dignidade é a do vínculo

solidário, na união entre os homens.

Ao mobilizarmos essas categorias conforme desenvolvidas por Habermas,

sugerimos a possibilidade de pensar os textos de Graciliano Ramos partindo de

algumas diretrizes que o conceito de dignidade humana carrega. Particularmente,

atentamos para o fato de que os direitos sociais e culturais são mencionados pelo

filósofo como uma matriz que permite alcançar o desejado valor igual a todos os

cidadãos. Projetada essa noção na produção de Graciliano Ramos, vemos como ponto

próprio desenvolvimento do campo geral do Direito, seja na ciência jurídica, no fazer legislativo

dos Estados ou ainda no domínio das decisões jurídicas.

4 Uma vez que, conforme o autor, “a intuição implícita no pano de fundo penetra de início a

consciência dos atingidos [por determinada violação] e depois os textos do Direito, para então

ser conceitualmente articulada” (HABERMAS, 2011, p. 14).

5 Habermas (2011, p. 16) nos diz que dentre essas quatro categorias fundamentais estariam “os

direitos liberais de liberdade ou direitos fundamentais clássicos” – ir e vir, livre relação de

mercado, exercício da religião e participação democrática – e “os direitos sociais e culturais”.

9

pacífico que, de formas variadas, a luta contra a violação dos direitos do cidadão e a

procura pela igualdade social e pelo desenvolvimento cultural estão formalizadas

esteticamente e representadas em toda a literatura ficcional do escritor.

Essa comprovação está também na série de textos que acionam mais

intensamente a função referencial da escrita, sejam eles crônicas, relatórios ou

discursos. Dado seu estabelecimento em uma zona fronteiriça entre história e discurso

literário, acentua-se a possibilidade de examiná-los como espaços oportunos nos quais

aparecem congregados valores de um escritor já maduro. Convém ressaltar que com

isso não procuramos atribuir-lhes função documental. Estamos apenas levando em

conta o fato de que a elaboração estética do ethos está presente em todos os discursos

e liga-se fundamentalmente ao ato da enunciação. Ou seja, “no exercício da palavra

publicamente proferida” está também em jogo uma “apresentação de si”

(MAINGUENEAU, 2008, p. 11).

Revela-se, na investigação desses textos, um anseio que parece aproximar a

visada ética e a produção estética de Graciliano 6. Nas palavras do próprio escritor

(2012, p. 318), “desejamos a paz. Falando ou escrevendo, temos defendido a paz”. No

âmbito deste trabalho, veremos como essa escrita em favor da paz, da democracia e

do progresso adquire significado importante também em sua literatura memorialista,

ultrapassando os contornos de uma historicidade nacional, que pauta os discursos e as

crônicas-testemunho, para destacar a composição de uma história subjetiva

atravessada também por essas questões de fundo e apontando para a dimensão ética

de sua escrita.

Assim, a narrativa sustentada pelas memórias do escritor, especificamente o

livro Infância, torna-se a fonte escolhida para pensar sobre algumas questões

relacionadas à composição criativa de si. Pretendemos investigar a formalização do

discurso narrativo literário desta obra em aderência aos valores que dimensionam o

tempo do enunciado e o tempo da enunciação, a fim de tentar estabelecer de que

modo a escrita de si sustenta a composição de uma identidade narrativa. O trânsito

proposto diz respeito à possibilidade de compreender a construção, em Infância, de

um discurso do ethos em comunhão com o que parece formar o projeto literário do

escritor naquele período, cujo substrato interage com a noção de dignidade humana.

6 A questão entre ética e estética talvez seja uma das maiores preocupações que rondam os

estudos filosóficos. Longe de tentar uma discussão muito abrangente sobre o assunto, mas ao

mesmo tempo nos embasando em críticos que o debateram, retomamos nesta tese a reflexão de

Paul Ricoeur sobre o tema.

10

Desse modo, a leitura permite que a escrita sobre a infância de Graciliano

adquira sentido a partir do entendimento de que há uma rede de significação da qual

emana o desejo de um mundo pacífico e justo, garantida pela própria reflexão sobre o

passado e sua relação com o presente. É possível desmontar sua forma de modo a

analisar como e em que medida o escritor articulou algumas experiências de vida

específicas com suas escolhas estéticas do presente da enunciação, procurando

compor um narrador cujo discurso traça o entendimento a respeito da atividade

escrita, ao compreendê-la como meio privilegiado de luta e instrumento de

transformação social.

Este trabalho procura, portanto, destacar uma leitura de Infância que sublinha

histórias de um tempo de menino no entroncamento de questões relacionadas à

violência e à expressão literária. A pressuposição é de que as experiências do passado

selecionadas e apresentadas na obra contêm as tensões e ambiguidades típicas da

dupla dimensão temporal da obra, mas ao mesmo tempo incorporam certo traço

conciliatório como marca identitária do narrador. Este depositou em tais experiências

o sentido de produção de conhecimento e de possibilidade de reflexão sobre si,

chegando por esses caminhos a escolhas estéticas específicas, que esbarram na

significação de si como um sujeito em busca de agir e intervir no mundo, combatendo

esteticamente em favor da promoção da paz e da cultura.

Isso justifica o corpus selecionado. Dentre as inúmeras histórias que compõem

Infância, nos debruçamos sobre aquelas que apresentam experiências fundamentais

para que o narrador construísse uma elaboração de si como um sujeito crítico da

violência e que de algum modo evidenciassem como a compreensão de sua história o

levou à seleção de memórias particularmente formadoras. Dentre elas, optamos por

destacar as que revelam experiências que colaboraram para moldar o seu modo de ver

o mundo.

Nesse caso, a afirmação de Habermas sobre a necessidade de investigar

experiências de violação da dignidade humana como um possível modo de produzir

novos sentidos vem contribuir com a hipótese que aqui pretendemos averiguar: de que

a reflexão sobre o passado situa o narrador como investigador de sua própria história e

a vontade de revê-la coaduna com a necessidade de percorrer as memórias,

apresentando os impasses e antagonismos que enformam as experiências

selecionadas, em busca de produzir novos sentidos para elas. Entre situações de

violência ou de não violência, busca inseri-las como aquelas que lhe deram recursos

11

suficientes para se constituir como um sujeito mais conciliado consigo mesmo e que

tem para si fortemente estabelecida a função da atividade escrita.

Lembramos aqui um belo chamado de Paul Ricoeur, para o qual:

Faz-se necessário um difícil afloramento ao nível da consciência, que ainda não conta um

século, para levantar o véu da violência, do direito e da ordem. A paz é então uma tarefa

imensa, se tiver de ser o coroamento da justiça: como não haveria a violência da opressão

de provocar a violência da revolta? (RICOEUR, 1968, p. 228)

Nesse sentido, compreender que a violência suscita violência traz em si um

movimento que pode propor enfoques distintos para o enfrentamento desse fenômeno.

Assim, a procura da expressão literária como possibilidade de “levantar o véu da

violência” configura-se como uma via possível de lidar com essa tarefa, e a literatura

colabora de modo singular na ressignificação da violência7. Que a paz seja uma

missão imensa, Graciliano Ramos parece já o saber – suas experiências de vida e sua

elaboração literária sugerem como ele as conduziu de modo a colaborar

persistentemente nessa empreitada.

Dividimos a introdução da tese em duas partes. A primeira procurou

contextualizar, a partir das noções de “dignidade humana” e “direitos humanos” de

Habermas, os anseios de paz e solidariedade subjacentes aos escritos de Graciliano,

como o leitor acaba de ver. A segunda parte aborda questões relativas ao processo de

desenvolvimento deste trabalho e as escolhas feitas no percurso.

Como subdivisão introdutória, optamos por fazer um aparte a respeito de

algumas questões teóricas. Procuramos definir e contextualizar o lugar de onde

partimos para a leitura de Infância, no que diz respeito às escritas de si, e situar o

7 Ao falar sobre violência, Sérgio Adorno (2010, p. 12) coloca o sentido comum aos diversos

campos de estudo, como aquele que compreende a violência como “modalidades do emprego,

não consensual ou legitimado, do uso da força para impor a vontade de uns contra outros,

mediante recurso de meios determinados, inclusive força física. Seus resultados compreendem

danos à integridade física, psíquica, à identidade, à privacidade de quem quer que tenha sido

vítima dessas modalidades de ação. Enquanto tal, dependem de contextos sociais, dos meios

empregados, da natureza das relações sociais em conflito ou dos objetos em litígio. A existência

de conflitos não implica necessariamente violência. É o modo de resolução de conflitos que pode

comportar emprego de violência. Na civilização ocidental moderna, o Estado tem, por princípio, o

monopólio do uso legítimo da força para conter conflitos entre particulares. Mas isso não requer

apenas o uso da força física, mas também a capacidade de aplicar leis para pacificar internamente

as sociedades; em outras palavras, solucionar conflitos mediante apelo às instituições

encarregadas de distribuição de justiça”.

12

debate em torno dos conceitos de formação e de identidade narrativa, definindo como

essas categorias se inserem na perspectiva deste trabalho. Já o corpo da tese foi

dividido em três capítulos, os quais pretendem explicitar como percebemos Infância

do ponto de vista formal.

O capítulo I analisa a maneira como o escritor explora algumas histórias da

sua meninice. Partindo de articulações entre elas, relaciona as escolhas narrativas,

temáticas e formais à busca do narrador por experiências que em sua visão se

constituem como momentos vicissitudinários. A procura de um sentido dessas

narrativas se encaminha para a do papel formativo ocupado por elas em sua história.

Ao pinçá-las do passado, o narrador reconhece nelas um lugar para refletir sobre a sua

história, as sucessivas transformações ao longo do tempo e a importância na palavra

assumida, dimensionando o agora que elabora o discurso no tempo da enunciação. As

marcas deixadas pela violência e pelo despotismo patriarcal se juntam a uma

construção de si como sujeito marcado por culpas e fracassos, mas também como

narrador de uma história de transformação, na qual a experiência foi e continua sendo

mediada pela literatura.

O capítulo II interpreta duas histórias de significativa importância nas

memórias. Uma delas diz respeito ao “homem mais digno” que o narrador já

conheceu, e a outra ao seu pior “inimigo” de infância. As duas são lidas de modo a

destacar não somente o sentido de violência sempre presente, mas principalmente o

sentido da experiência com a não violência. Além disso, a análise expõe a necessidade

de compreensão do outro, apresentando a dificuldade de se emitir um julgamento,

tanto de si, como desse outro incompreensível, o que deixa à vista as dúvidas com que

o narrador se depara.

No capítulo III, passamos à analise de duas personagens presentes em

“Manhã” e “Meu avô”, as quais explicitam maneiras de se orientar na vida,

formuladas a partir da perscrutação do avô paterno e do avô materno. Esses relatos de

experiência retomam o passado para narrar a diferença e o conflito, por meio da

representação de realidades narrativas cujas linhas se contrapõem. Pela filiação

metafórica a um deles, o narrador constrói suas escolhas de vida a partir de uma

narrativa de processo vicissitudinário, optando por aproximar-se muito mais do

mundo da escrita e da arte, e deixando a marca do lugar de onde estabelece seu modo

de estar no mundo.

13

Por fim, nas considerações finais, além de retomarmos as questões discutidas

na tese, procuramos abrir a perspectiva para um futuro trabalho de pesquisa em

literatura brasileira.

2.

A trajetória desta tese talvez tenha sido tão indireta como os caminhos da

memória. Iniciou-se com o desejo de estudar Graciliano Ramos, primeiramente o

livro de viagem à União Soviética, tomada que fiquei pelas notas tão peculiares da

obra. Uma outra formulação, no entanto, foi sugerida pelo Prof. Dr. Luiz Roncari, já

então meu orientador, propondo-me um estudo comparativo dos livros Infância, de

Graciliano Ramos, e Minha vida de menina, de Helena Morley. Enveredei assim pelo

projeto, que tomou corpo quando passei a analisar as especificidades dessas

produções literárias e suas relações com os diferentes contextos.

Por opção metodológica, o trabalho foi iniciado com Infância, cuja fortuna

crítica é bem mais extensa que a de Minha vida de menina. Grande parte do tempo foi

dedicada ao primeiro livro, o que acabou por estender demasiadamente as discussões

desenvolvidas a partir da leitura interpretativa da obra. Assim, julgamos mais

produtivo concentrar as reflexões no livro de Graciliano, a fim de verticalizar e

aprofundar o trabalho com Infância. Em outras palavras, em vez de trabalhar com

dois eixos para depois compará-los, elegemos a obra de Graciliano como eixo

principal.

Minha vida de menina tornou-se então um apoio interpretativo, já que ensejara

algumas considerações interessantes, que ressoavam nas reflexões sobre Graciliano

Ramos. Esse processo inicial da pesquisa gerou uma série de apontamentos

comparativos que por terem integrado o percurso da tese e contribuindo para a

reflexão sobre Infância acreditamos que merecem os comentários que pontuamos a

seguir.

Como relatos de infância da última década do século XIX, Infância e Minha

vida de menina entrecruzam o histórico e o literário. Publicadas no início da década

de 1940, as obras foram resultado das memórias do escritor no sertão nordestino, no

caso de Graciliano, e do diário escrito no final da infância pela menina mineira Alice

Dayrell Caldeira Brant, publicado sob o pseudônimo de Helena Morley. Ambos

constituem narrativas em que o tempo de enunciação se estabelece em um momento

14

muito importante da história brasileira, dado o fim recente da escravidão, os primeiros

passos da República e o início de obras de modernização pelo país. Além disso, os

relatos fundam-se em regiões cujo curso histórico havia se configurado de maneira

muito distinta desde a colonização, acentuando formulações culturais diferentes.

Também em comum está o fato de as duas obras possuírem teor

autobiográfico, portanto o quinhão documental dessas produções tem seu lugar na

narrativa e anda junto com a elaboração artística. Quanto à recepção crítica dos livros,

o livro de Graciliano Ramos teve um espaço considerável na crítica literária brasileira

desde a primeira publicação, em 1945. Já Minha vida de menina, embora tenha gerado

muitos comentários críticos no momento de sua publicação, suscitou poucos estudos

aprofundados – o mais importante veio pelas mãos de Roberto Schwarz.

Torna-se claro que o processo de aprendizagem, nesta obra, é bem distinto

daquele de Graciliano Ramos. Sob o pseudônimo de Helena Morley, Alice Dayrell

Caldeira Brant publicou em 1943 o que teria sido seu diário escrito entre os anos de

1893 e 1895. Segundo a nota à primeira edição, o texto não sofreu alterações

significativas. Sua forma é a de um diário clássico, cada fragmento iniciado com o dia

da semana, seguido por dia e mês. Nele, por três anos, Helena narra pequenas

vivências do cotidiano, fatos escolhidos por terem-lhe causado encanto, tristeza,

indignação, entusiasmo ou riso.

As personagens estão descritas em variados episódios acontecidos na

Diamantina do final do século XIX, apresentando um retrato interessante e

relativamente diverso daquele outro Brasil de Graciliano. Como já foi pontuado, a

experiência norteia o livro e confere a cadência certa aos relatos. É uma construção

textual que focaliza as preocupações da menina de 13, 14 anos e sua relação com seu

universo. Aparecem também outros personagens que entrecruzam o caminho de

Helena, e que ela vai aos poucos enformando, em conclusões perspicazes para

situações rotineiras na maioria delas.

Muito bem recebido pela crítica no momento de seu lançamento, o livro

despertou pouca atenção da academia nas décadas seguintes. No entanto, ganhou

grande projeção mais recentemente com o importante ensaio de Roberto Schwarz,

“Outra Capitu”, em que o crítico analisa a obra e restabelece seu lugar na literatura

brasileira, em uma arguta análise comparativa entre Helena e a personagem Capitu, de

Dom Casmurro.

15

Já de início, Schwarz aponta para um debate interessantíssimo sobre a

estilística da obra. A questão envolve a autoria e o momento de produção do diário. O

crítico confronta a escrita de Helena e o rebuscamento da linguagem nas letras

brasileiras do final do século XIX, levantando algumas hipóteses sobre a possível

reescrita do livro na década de 1940, já com as características típicas das mudanças

estilísticas do Modernismo brasileiro. Com base em informações recolhidas, segundo

Schwarz meio ao acaso, o crítico aponta possíveis colaboradores modernistas no

processo de atualização da linguagem do diário, escrito de forma clara e cotidiana,

sem as literatices, a gramática do português de Portugal, ou ainda aquela escrita

cerimoniosa que vigorava no século XIX.

A possibilidade de ter sido reescrito na década de 1940 só torna o diário mais

complexo, pois as relações passam a envolver o movimento modernista e o projeto de

modernização da escrita. Também poderíamos pensá-lo na esteira da prosa

machadiana, se tomarmos, por exemplo, o Memorial de Aires e sua mistura de

linguagem, que envereda por vezes por um estilo bastante coloquial, deixando de lado

a linguagem diplomática e apurada – guardadas, é claro, as devidas proporções entre

um discurso coloquial culto, mais a contento do Conselheiro Aires, e um discurso

coloquial de rua, mais próximo de Helena. É certo que toda essa questão se apresenta

em razão de nenhum pesquisador ter visto os originais da autora, caso que criou uma

aura de mistério sobre a existência destas notas.

Minha vida de menina foi considerado por ele um dos bons livros produzidos

na literatura brasileira do século XIX (2006, p. 47). No entanto, ainda assim

permaneceu em segundo plano. Para Schwarz (2006, p. 49), o livro apresenta

“complementaridades estruturais ‘inadmissíveis’, onde o senso comum não as espera

nem aprecia; rotações no significado de categorias cruciais, tais como trabalho,

propriedade, parentesco, obséquio, troca, pobreza, Deus”.

O crítico desenvolve essas categorias apontadas, discorrendo sobre elas e

construindo o universo que cerca a obra a partir das anotações de Helena, para então

penetrar na comparação com Capitu. A ponderação sobre o valor literário de cada

obra é marcada no decorrer do estudo, mas apesar de não alçar o livro de Helena

Morley ao mesmo nível de qualidade da escritura machadiana, Schwarz sustenta a

possibilidade de cotejo. Além disso, outro fator que vale a pena aqui ressaltar é a

visão do crítico sobre Helena. Ele é consciente da autoconstrução que Helena faz de

si: ela cria uma personagem que se sobressai, que desponta, “longe de ser uma heroína

16

romântica”, e vai além. Por isso, Schwarz (2006, p. 87) afirma estarmos frente à

multilateralidade que distingue o grande romance realista.

Trata-se realmente de uma leitura fácil e amena, porém favorável à abordagem

de assuntos nevrálgicos como a cultura do favor, a presença dos agregados, a

constante reverberação da escravidão e uma tradição mineira que irrompe em

contraste claro com a nordestina. Também é interessante a problemática relação entre

os valores de uma família inglesa transferida para o interior do Brasil8 e o sentido

dado pela narradora ao choque das duas culturas. A visão de Helena a respeito é

ambígua: às vezes, constrange-se com os valores culturais do núcleo familiar maior e

se sente intimidada; às vezes supervaloriza os costumes ingleses, do pai e da Tia

Madge, por muito se diferençarem do comum.

O olhar parcial da criança se revela na visão um tanto distorcida de si e da

família. Demostra às vezes perceber que ela e a irmã ocupam um lugar destacado

naquela rede social, já que os costumes ingleses davam certo ar de nobreza e

curiosidade, veladamente relatado na narrativa. Todavia, Helena se apresenta mais

comumente em condição inferior, seja financeira, seja cultural ou social, e se compara

muitas vezes diminuindo-se frente aos outros familiares do tronco brasileiro. Opera de

modo meio deslocado do que parece ser sua real situação no contexto cultural de

Diamantina, permite que a ordem convencional demostre como sua condição destoa

dos demais, sem deixar de lado certa vitimização de si.

Sem dúvida, a violência está representada de modo muito mais sutil em Minha

vida de menina, o que nos aponta para um assentamento dessa ordem em bases

bastante profundas, mesmo que o relato não a exponha tão claramente quanto

Infância. É de se notar que haja elaborações mais explícitas no livro de Graciliano, em

contraponto à violência mais implícita nos relatos de Helena. Uma hipótese plausível

para explicar a diferença pode ser o fato de a cidade mineira ser uma região

exportadora e, portanto, localizada ente o urbano e o rural, como nos aponta

8 O caso do chapéu, apesar de inocente e pueril, é um exemplo disso, e nesse caso se arranja na

figura de Helena que se autorretrata como “pobre e feia”: “Nós seguimos e fomos para a Escola.

Estavam os colegas na porta e Luisinha ouviu um deles dizer para outro: ‘Olha só o que as

inglesinhas arranjaram agora!’ e caíram na gargalhada. [. .] Entramos e escondemos os chapéus

no armário de trabalhos. Uma colega descobriu, chamou a outra e as duas saíram rodeando os

salões com chapéus de sol abertos [. .]. Eu e Luisinha ficamos tremendo de medo que elas

descobrissem que eram nossos e tratamos de ficar escondidas até que acabasse a brincadeira”

(MORLEY, 2009, p. 195). Na ocasião, Helena e sua irmã Luisinha usavam um chapéu de sol feito

por sua tia inglesa.

17

Alexandre Eulálio (2009, p. 9) em sua introdução à obra, em contraste com o sertão

de Alagoas, ainda fechado em estruturas bem arcaicas. Mas, mesmo que sutis, as

representações da violência aparecem, e de diversas formas: desde a opressiva relação

entre brancos e negros, que Helena pontua muitas vezes durante os episódios, até um

tipo de violência moral que se assenta dentro do mesmo grupo social. São atos

violentos tolerados socialmente, de intimidação ou de crítica ao mais fraco.

Como característica da narradora, é possível notar que não só os relatos

envolvendo violência, mas também outras questões narradas por Helena diluem os

valores da enunciação ao longo da narrativa, ou seja, não há uma escrita que explicite

o julgamento da narradora, em tom moralista, que precise seu posicionamento. Os

episódios vão se arranjando no livro de forma que as categorias cruciais das quais fala

Schwarz manifestam-se submergidas no texto, como se Helena fosse apresentando os

episódios aderida a eles, sem apontar formalmente para juízos de valor. Assim, na

maioria das vezes, o julgamento que a narradora faz do que vivenciou não aparece

colado à apresentação do relato.

Há, por certo, exceções, quando Helena se firma em sentenças severas, como o

relato de alguns acontecimentos que envolvem, nas palavras da narradora,

“atrevimento” de negros para com brancos ou alguma injustiça para com uma pessoa

honrada aos seus olhos. Alguns exemplos ilustram essa apresentação narrativa

descolada da crítica explícita de valor, como o caso do casal Magna e Mainarte.

Descritos no livro, respectivamente, como uma negra e um negro africano, dão mostra

de representações da violência no livro de Morley, em que a preguiça de trabalhar é

fisicamente castigada:

Na Chácara, só se fala da maldade de Magna com o pobre do Mainarte. Era raro o dia em

que ela não lhe dava uma surra. Ele foi queixar-se a vovó e pedir que aconselhasse

Magna. Vovó chamou-a e ela respondeu com todo atrevimento: “Foi a senhora mesma,

na sua casa, que pôs ele preguiçoso e quer agora que eu vá sustentar vagabundo? Ou ele

trabalha ou apanha. Eu não capeio preguiçoso.” (MORLEY, 2009, p. 50)

Helena reproduz o que teria sido o diálogo entre a avó e Magna. E, adiante,

continua a história com outro diálogo para então finalizar a escrita sem discorrer

objetivamente sobre preceitos morais. No fragmento, entretanto, manifestam-se

embutidos os juízos de valor, sendo o trabalho a categoria que sustenta e promove a

18

ordenação do castigo: se o negro africano não tivesse sido mal acostumado pela avó

de Helena, talvez agora não estivesse apanhando da mulher. As referências deste

episódio estão, antes de tudo, na relação entre brancos e negros e na indefinida

situação depois de libertos. Aparece então a condição do trabalho versus a preguiça,

desaguando na punição física.

Podemos, portanto, conjecturar que o que marca a vida desses dois narradores,

de maneira traumática ou não, é determinante em suas escrituras e alinhava

fortemente a experiência individual e com o contexto histórico. Superam a dimensão

apenas subjetiva e costuram o discurso social em suas narrativas ao ato de narrar

histórias calcadas na experiência. Elas refletem sobre o distinto universo que as tange

e as relações estabelecidas entre a rede de significação social.

Um fato muito instigante e valoroso para análise que de algum modo expõe a

grande diferença de como as experiências foram reconstruídas pelos seus respectivos

narradores é a nota que a autora inseriu junto à primeira edição do livro, em 1945.

Vale a pena reproduzi-la aqui:

Em pequena meu pai me fez tomar o hábito de escrever o que sucedia comigo. Na Escola

Normal o Professor de Português exigia das alunas uma composição quase diária, que

chamávamos “redação” e que podia ser, à nossa escolha, uma descrição, ou carta ou

narração do que se dava com cada uma. Eu achava mais fácil escrever o que se passava

em torno de mim e entre a nossa família, muito numerosa. Esses escritos, que enchem

muitos cadernos e folhas avulsas, andaram anos e anos guardados, esquecidos.

Ultimamente pus-me a revê-los e ordená-los para os meus, principalmente para minhas

netas. Nasceu daí a ideia, com que me conformei, de um livro que mostrasse às meninas

de hoje a diferença entre a vida atual e a existência simples que levávamos naquela

época.

Não sei se poderá interessar ao leitor de hoje a vida corrente de uma cidade do interior,

no fim do século passado, através das impressões de uma menina, de uma cidade sem luz

elétrica, água canalizada, telefone, nem mesmo padaria, quando se vivia contente com

pouco, sem as preocupações de hoje. E como a vida era boa naquele tempo! Quanto

desabafo, quantas queixas, quantos casos sobre os tios, as primas, os professores, as

colegas e as amigas, coisas de que não poderia mais me lembrar, depois de tantos anos,

encontrei agora nos meus cadernos antigos!

Relendo esses escritos, esquecidos por tanto tempo, vieram-me lágrimas de saudades de

meus bons pais, minha boa avó e minha admirável tia Madge, a mulher mais

extraordinária que já conheci até hoje e que mais influência exerceu sobre mim, pelos

seus conselhos e pelo seu exemplo.

19

Nesses escritos nenhuma alteração foi feita, além de pequenas correções e substituições

de alguns nomes, poucos, por motivos fáceis de compreender.

Agora uma palavra às minhas netas. – Vocês que já nasceram na abastança e ficaram tão

comovidas quando leram alguns episódios de minha infância, não precisam ter pena das

meninas pobres, pelo fato de serem pobres. Nós éramos tão felizes. A felicidade não

consiste em bens materiais, mas na harmonia do lar, na afeição entre a família, na vida

simples, sem ambições – coisas que a fortuna não traz, e muitas vezes leva.

Rio, setembro de 1942. (MORLEY, 2009, p. 13-14)

É notável a disposição da autora para anunciar os objetivos pelos quais ela

teria decidido transformar e publicar em livro histórias do passado, bem como a

necessidade de afirmar que não houve intervenção nos originais. Assim, parece que se

garante o estatuto daquele objeto como retrato fiel de uma época, o que, por sua vez,

se coaduna com o objetivo anunciado como justificativa da publicação: “um livro que

mostrasse às meninas de hoje a diferença entre a vida atual e a existência simples que

levávamos naquela época”. Neste texto, o único em que a voz da autora aparece

formalmente, estão impressos temas que dizem muito sobre o contexto de produção

da obra e os valores que se mantiveram para ela 50 anos depois.

Especificamente sobre o tempo do enunciado, dois aspectos se destacam. A

condição do pai como provedor de experiência e da escola como promotora de

cultura, ambos sem o veio negativo que as experiências de Graciliano possuem. Ao

contrário, aqui a impositiva formação do hábito e a exigência do professor pela escrita

adquirem status de experiência formativa. Fez-se possível, em consequência disso,

tornar sua vivência cotidiana e ordinária em palavra escrita e assumi-la como

contribuição para a formação de si como escritora.

Helena dirige-se às netas nascidas na abastança de modo a levá-las ao

conhecimento do que seriam os valores aprendidos e firmados no passado, agora

transmitidos por meio da escritura: a harmonia do lar, a afeição familiar, a vida

simples, a falta de ambição e o desapego material. O tom de apólogo dado ao

fechamento da nota situa explicitamente a moral da história, ou melhor, a moral da

publicação. Se antes queria apresentar “às meninas de hoje” como era a vida do

passado, agora termina seu discurso desejando dar “uma palavra às netas”.

Com esse gesto de contar as histórias de um tempo antigo, ela atualiza de

algum modo a tradição das histórias orais, tão caras a ela, conforme expõe no diário:

“Hoje gosto mais das histórias do tempo antigo, principalmente do casamento de

20

minhas tias, que era tão diferente” (MORLEY, 1998, p. 190). E, nesse sentido, vemos

que o próprio caminho tomado por suas notas à primeira edição é referência de que

esse gosto ainda persistia na autora quando publicou o livro, determinando, de algum

modo, a transmissão do conhecimento e da experiência como princípio essencial da

manutenção da tradição9.

A memória, enformada por um diário que assume lugar de reminiscências –

quando sua produção se distancia no tempo de sua publicação e, concomitantemente,

preocupa-se em chancelar a autenticidade dos originais – possui estatuto de

ensinamento, como transmissão de valores morais calcados na instituição da família, e

de registro histórico, fundado em uma visão de um “passado mais feliz”10. Ao propor

que “vivia contente com pouco, sem as preocupações de hoje, [...] sem luz elétrica,

água canalizada, telefone, nem mesmo padaria”, ela associa a felicidade da infância à

vida simples do campo, a uma inocência que teria balizado aquela vida, longe das

“preocupações de hoje”, 1945. O passado, portanto, adquire força positiva, já que se

afigura mais virtuoso frente às questões que a modernização e a cidade estariam

trazendo e, paralelamente, expõe sua força melancólica, já que é infância e imagem

perdidas, somente retomáveis na escritura mnemônica e na esperança de transmitir

algo às novas gerações, alguma herança histórica que seja, daquilo que se diluiu no

presente da enunciação.

Estamos diante de dois autores e suas especificidades, refletindo de forma

particular sobre o modo de estar no mundo e sobre o sentido da literatura e da escrita.

Enquanto a autora de Minha vida de menina evidencia sua tendência à escrita

empenhada na formação moral das novas gerações, por meio da apresentação da

escritura de si, o escritor alagoano se abstém de justificativas, explicações ou notas, e

passa ao largo de apresentar possíveis intenções de sua escrita11.

Algumas considerações teóricas

9 Como bem sintetizou Jeanne Marie Gagnebin (2006, p. 50), o conceito de experiência “repousa

sobre a possibilidade de uma tradição compartilhada por uma comunidade humana, tradição

retomada e transformada, em cada geração”.

10 Ver Raymond Williams (2011) em O campo e a cidade na história e na literatura.

11 A não ser pelo fato de integrar a coleção “Memórias, Diários e Confissões”, o livro de Graciliano

não traz nenhum paratexto com referência ao seu suposto gênero – nem mesmo o subtítulo

“memórias” figurou na primeira edição. A comparação com José Lins do Rego em Meus verdes

anos também explicita as diferenças: uma nota apontando para como pretendeu construir as

memórias é colocada no início. Diferentemente do sentido de formação como em Morley, o tom

de José Lins do Rego é de denúncia misturado a uma escrita apaixonada.

21

1.

A leitura e interpretação da literatura confessional12 nesta tese parte da

perspectiva de que todas as escritas de si são resultado, ao mesmo tempo, do processo

de ordenação mnemônico13 e da construção estética dessas lembranças. Somado a

esse quinhão referencial, soma-se o preenchimento das lacunas com a imaginação e

com as fantasias de si, ou ainda com aquilo que só vem à lembrança após certa

comprovação dos outros. Enfim, a memória individual se junta e se afasta de si a todo

o momento, ora se condensa e se aglomera às daqueles que conviveram com o

memorialista, ora se confunde com fatos da história, ora se preocupa com o passado,

ora com o presente14. Dentre todas as articulações que contribuem com o resultado

literário, fica a certeza de que ela faz parte de um processo disposto a reinterpretar o

passado.

12 Sobre a literatura de Graciliano e a noção de que os gêneros confessionais são acontecimentos

discursivos literariamente intencionados, ver Candido (2006) e Wander Melo (1992). Que as

memórias de Graciliano são essa mistura entre ficção e história é ponto pacífico entre os

estudiosos que se debruçaram sobre a obra do escritor. Afora alguma crítica escrita ainda nas

décadas próximas à publicação do livro, que enveredou às vezes na busca de correspondência

entre a vida do escritor e a narrativa de infância, os trabalhos mais recentes já não divergem mais

nesse sentido. Um painel muito didático sobre a crítica de meados do século XX está em Hess

(2007).

13 Ordenação, aqui, refere-‐se mais ao sentido de como traduzir e organizar no papel os aspectos

relativos às recordações, abrangendo também o exercício de imprimir um modo próprio à

literatura a partir da escolha de técnicas narrativas. Ainda sobre o termo “ordenar” vale lembrar

o que Marcel Proust denominou de memória involuntária em sua obra Em busca do tempo

perdido: a parcela da nossa memória que não está controlada e ordenada conforme um esforço

consciente, mas é acionada a partir de sensações que despertam a lembrança de determinados

acontecimentos passados.

14 Todas essas variantes que de algum modo atravessam as escritas de si possuem a constante

aproximação com a função referencial. Uma hipótese muito interessante a respeito da quantidade

de obras do gênero memorialístico na literatura brasileira está no texto “Vanguarda: renovar ou

permanecer”, escrito por Antonio Candido em 1975. Ao falar sobre o concretismo e outras

literaturas não miméticas, Candido (2002, p. 221) aponta para a curiosidade de que,

concomitantemente, estaria havendo uma “invasão” das memórias no circuito nacional: “Seria

possível nos contentarmos com essa literatura que nos atrai tanto, esse tipo de poesia que foi

descrito aqui, esse tipo de romance não mimético, esse tipo de descontinuidade e fragmentação?

(.. ). Tudo aquilo que nós colocamos fora do romance ou do conto está sendo recuperado nos

livros de memórias. O sucesso de um livro como Baú de ossos, de Pedro Nava, que é um livro de

alta qualidade literária, dá a impressão de que os leitores vão procurar [. .] aquela espécie de

caminho para o mundo referencial que a literatura lhes está negando. Nós temos a tentativa de A

idade do serrote, de Murilo Mendes, que é autobiografia caminhando não para o romance, mas

para a poesia. Tanto num sentido quando noutro, nós temos uma espécie de teimosia do mundo

referencial, temos uma espécie de permanência desse desejo de ver a literatura representando o

mundo em que vivemos”. Coerentemente, Antonio Candido parece dialogar com as próprias

reflexões feitas sobre os livros confessionais de Graciliano, na pressuposição de que a forma de

elaboração memorialística é uma tentativa de alcançar o máximo possível de realismo.

22

São inúmeras, portanto, as variantes que compõem o resultado final de uma

obra memorialística bem-acabada15. Uma das teses de Walter Benjamin (1994, p. 224)

sobre a história enuncia que “articular historicamente o passado não significa

conhecê-lo ‘como ele de fato foi’. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal

como ela lampeja no momento de um perigo”. Ao pensarmos nas apropriações

mnemônicas feitas pelo escritor, percebemos o sentido plurissignificativo da obra e os

diversos usos da memória que emergem do texto.

Ao narrar o passado, alguns escritores acabam por edulcorá-lo. Outros,

eticamente conscientes do seu papel de intelectual como voz dissonante do discurso

hegemônico e de sua possibilidade de intervenção no mundo, parecem mesmo

escrever para que aquele passado de violência e opressão não se repita16.

Graciliano Ramos constrói um narrador de muita sensibilidade, que é

testemunha de sua infância inscrita num tempo e num espaço específicos. Por essa

via, iluminar as figuras e o modo de vida distanciados no passado assume um lugar

importante nessa escrita, pois preserva afetivamente esse tempo anterior e tenta

reconciliar-se com ele. E, ao mesmo tempo, garante um espaço para a reflexão das

condições em que essas relações se deram. Em conjunto com esses valores, a

declaração textual espontânea de um escritor já legitimado chega como modo de dar

expressão a um ponto de vista que nega calar-se diante dos crimes contra sujeitos sem

voz, e torna pública a extrema injustiça e brutalidade que marcaram um dado período

histórico brasileiro.

Como toda denúncia, a motivação de quem a promove é levar ao

conhecimento questões que exigem problematização, para que não se tornem

recorrentes nem retornem ao estado original que tem propiciado seu desenvolvimento.

Tomando o testemunho como lugar simultâneo de denúncia e confissão, essa narrativa

memorialística de infância tende a ressaltar as forças que permeiam os impasses da

formação social brasileira, compondo uma rede de significação preocupada em

15 Convém levar em conta as considerações de Nelly Richards ao pensarmos o modo como o

escritor Graciliano se posiciona frente às memórias. O processo de revisão e compreensão está

presente como marca fundamental de Infância. Conforme Richards (1999, p. 322), “a memória é

um processo aberto de reinterpretação do passado que desfaz e refaz os nódulos para que se

ensaiem de novo acontecimentos e compreensões. A memória remexe o dado estático do passado

com novas significações, sem parar, que põem sua recordação para trabalhar, levando começos e

finais a reescrever novas hipóteses e conjecturas para desmontar com elas o fecho explicativo

das totalidades demasiado seguras de si mesmas”.

16 Essa linha de estudos se calca na Escola de Frankfurt a respeito principalmente da relação

entre a necessidade de narrar e a experiência com a opressão e a extrema violência, tendo por

base reflexões a respeito da Primeira Guerra Mundial. Ver nota anterior.

23

contribuir como força reativa às velhas questões que se reatualizam sob novas formas,

apenas revestidas de diferente roupagem. O movimento crítico de escritores

conscientes de que é impossível haver uma síntese harmoniosa entre as relações

sociais constitui um verdadeiro e positivo campo de batalha sem fim, para que ao

menos a tensão se mantenha como força contrária.

Incluído entre os escritores que participaram ativamente das questões de seu

tempo, vê-se que Graciliano esforça-se em suas memórias para dar tratamento estético

à violência e problematizar literariamente inúmeras questões de ordem social, política

e econômica. Dessa forma, o lado sombrio instituído nas relações entre as

personagens domina as primeiras leituras de Infância. Por isso mesmo, parte da crítica