'Viver em paz com a humanidade inteira': Infância, de Graciliano Ramos, e a construção de si por Cristiana Tiradentes Boaventura - Versão HTML

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sobre a obra de Graciliano – principalmente a de seus contemporâneos – tendeu,

muito corretamente, à interpretação do livro, antes, como uma espécie de denúncia17

ou ainda como expressão de uma “anti-infância”18, envoltos que estavam também às

questões da época.

No entanto, a leitura sobre o passado em meio à violência também é

atravessada por outros sentidos, como a construção de uma identidade coberta

igualmente de sentimentos benévolos e compreensivos, motivados pela reflexão sobre

a própria violência ou pelo resgate de momentos positivos e afetuosos. O exemplo

mais recente ocorreu no seminário Estilo e Permanência, em que o crítico Luiz Bueno

tratou do amor em Vidas secas, buscando passagens sutis que trazem uma vínculo

afetivo amoroso entre o casal de sertanejos.

O fato é que há que se notar um movimento de inflexão na fortuna crítica de

Graciliano, abrindo espaços cada vez mais amplos para a uma leitura de face menos

sombria da obra. A essa tangente podem ser atribuídos diversos fatores que a

propiciaram, como aquele que é inerente ao próprio processo de revisão da história

17 Gustavo Silveira Ribeiro se atém em comentar esse perfil da crítica de Infância, assinalando os

principais trabalhos críticos que lidaram com a obra deste modo. Na parte de seu livro intitulada

“Escrever, um ato de vingança?” (2012, p. 42-‐52) é possível acompanhar o percurso da crítica

voltada para tais reflexões e que Ribeiro reconstrói de modo mais sistemático. Entre os críticos

estão Álvaro Lins, Helmut Feldmann, Octavio de Faria.

18 Augusto Meyer no artigo “Da infância na literatura”, de 1956, aponta para a beleza do livro mas

ressalta principalmente o realismo assustador da obra. Lembramos aqui que o primeiro livro de

memórias de Meyer data de 1949, ou seja, já havia sido publicado no momento da crítica ao livro

de infância. Nele, como veremos mais abaixo, aparecem questões que podem ser aproximadas de

Infância, mas talvez a linguagem seca e dura de Graciliano impulsione a crítica Augusto Meyer e

outros críticos do período a impressões primeiras mais próximas do entendimento da obra

somente como denúncia. Acontece, porém, que alguns deles abrem-‐se em momento subsequente

para perceber algumas sutilezas da obra que promovem a revisitação das recordações de

infância.

24

crítica brasileira, ou do acúmulo de estudos que permite a constante releitura da obra,

os novos estabelecimentos de sentido que o processo histórico permite.

Não se pode negar que se percorrermos a fortuna de modo linear, veremos que

palavras como humanismo, solidariedade, misericórdia e simpatia não soam de todo

estranhas às interpretações sobre Graciliano. Acontece, porém, que essa vertente

crítica, menor e talvez ainda menos burilada que a predominante entre os

contemporâneos do autor, permaneceu um tanto obnubilada pela outra, que viu

sentido nas obras por meio das substâncias mais pessimistas e sombrias no tratamento

das personagens.

Num olhar retroativo, somente possível agora e da perspectiva na qual se

insere esta pesquisa, é necessário apontar para dois críticos já fundamentados como

cânones da crítica literária brasileira, Álvaro Lins e Otto Maria Carpeaux,

representantes de uma leitura crítica que situa os olhares distintos de ambos. É preciso

ressaltar que não buscamos oferecer um juízo de valor comparativo entre ambos, no

sentido de delimitar a qualidade da crítica de cada um. O que está em jogo aqui é a

observação do lugar de relevância que eles assumiram dentro da fortuna crítica de

Graciliano (exemplo disso é a presença de seus textos, escritos na década de 1940,

entre os poucos escolhidos para compor a edição comemorativa dos 75 anos de

Angústia) e as posturas diversas que marcam a visada específica de cada um sobre a

maneira como o escritor vê os homens. O apontamento para tais críticos ilustra o que

estamos observando como possíveis paradigmas de leitura crítica de Graciliano.

Álvaro Lins no artigo “Valores e misérias de Vidas secas”, de 1945, revela sua

posição:

[...] esta preocupação de fixar e exibir o caráter humano poderia significar que o Sr.

Graciliano Ramos estima seus semelhantes e está interessado na sua sorte. Mas não.

Verifica-se o contrário; o seu julgamento dos homens é o mais pessimista e frio que se

possa imaginar; o seu sentimento em face deles é de ódio e desprezo. (1987, p. 265)

Especificamente em relação às memórias, Álvaro Lins e outros críticos

acreditam que elas possam explicar a natureza e a espécie dos romances de Graciliano

e que foram escritas para que o autor pudesse se libertar das reminiscências opressivas

e torturantes. A tese de que os romances podem ser explicados pelo livro esbarra na

visão de que a infância foi um momento de “aniquilamento, destruição e negação”.

25

Carpeaux, por sua vez, tem uma posição um tanto mais enriquecedora, que

quer mostrar o lado sombrio da escrita de Graciliano sem deixar de atribuir ao

romancista a qualidade de apiedar-se das suas personagens, “pois é cheio de

misericórdia”, apesar de construir personagens “monstros, revoltados, caçados”:

Certamente, a alma deste romancista seco não é seca: é cheia de misericórdia e de

simpatia para com todas as criaturas, é muito mais vasta do que um mestre-escola

filantrópico pode imaginar; abrange até o mudo assassino Casimiro Lopes, até a

cachorrinha Baleia, cuja morte me comoveu intensamente: “Tat twam asi”. A

misericórdia do pessimista para consigo mesmo é tão compreensiva que medita todos os

meios de salvação, para deter-se apenas no último: a destruição deste mundo, para

libertar as criaturas. (CARPEAUX, 1999, p. 447)

O que se coloca para Carpeaux é a maestria de Graciliano em construir as

personagens sem cair no “lugar-comum do humanitário, da generosidade”. A riqueza

do escritor estaria nesse estranhamento que sua literatura promove. Em outra

passagem muito aguda, esbarra também em vícios da fortuna crítica referindo-se ao

“clichê do sertanejo culto”, que “sugere aos críticos a ideia de que o romancista está

furioso contra o ambiente selvagem do seu passado. Mas não é assim. Não é o sertão

culpado” (CARPEAUX, 1999, p. 449). A percepção muito aguçada de Carpeaux faz

com que até hoje sirva de referência para pensar sobre a obra de Graciliano.

Para além de Infância não ser de todo uma narrativa harmônica dos fatos, ela

também não é uma narrativa de construção harmônica no que se refere à identidade

narrativa: há uma tensão interna que se forma no cruzamento das marcas da violência,

gravadas no “corpo e na alma” do narrador, com experiências positivas, que

inscreveram na narrativa sua disposição para a complacência. Assim, as ambiguidades

do passado ficam sempre aferradas a sua escritura e colaboram para enformar seu

presente.

Dentro do rico horizonte de significação do livro, destaca-se também a

inquietação do narrador sobre o tempo, que faz desaparecer a história daqueles

sujeitos do passado. É preciso pensar a relação de interdependência entre as partes:

esses sujeitos fizeram parte da experiência do narrador, vivendo e perpetuando-se

26

simultaneamente na proteção do relato do escritor19. Isso faz com que aquelas

histórias, inclusive a do narrador, não se percam na terra seca que os moldou, como o

Graciliano cronista percebeu: “certamente esses pobres seres anônimos, sem menção

nas cantigas dos violeiros, desfizeram-se na poeira social” (RAMOS, 2007, p. 188) 20.

Um tom de fundo melancólico, presente nessa belíssima crônica “Antonio Silvino”,

aponta para a presença de uma ordem hierárquica injusta que leva ao desaparecimento

de histórias sem voz.

Desse modo, a obra do escritor deixa de ser vista nesta tese apenas pela

perspectiva que se coaduna com certo mito pessimista em torno do escritor. Infância

não possui na sua forma somente a narrativa de um passado negro e desolador, como

denúncia à violência, às falhas assustadoras do sistema educacional 21 , ou à

barbaridade do sistema político de então. Seguindo a trilha de leituras mais recentes

sobre a obra22, abre-se espaço para vê-la também como lugar de reconciliação, de

compreensão e, conforme defendemos, de uma construção narrativa que busca

elaborar uma identidade para si em torno da reflexão literária sobre violência,

considerando a falta de equidade das relações sociais – sejam elas do contexto

familiar ou público –, mas também em torno de histórias não violentas, que

permaneceram como “luzes faiscantes” na memória.

19 Essa nos parece ser uma visão que perpassa os escritos de Graciliano não só em Infância, mas

em Memórias do cárcere e Vidas secas. Uma crítica explicitada na crônica “Norte e Sul”, presente

em Linhas tortas, deixa à tona um interessante aspecto da escrita de Graciliano, que valoriza os

escritores do Nordeste por colocarem em pauta uma realidade que estaria escondida por detrás

de preferências às leituras de vistas agradáveis.

20 Nesse sentido, por mais que o uso das reflexões de Walter Benjamin sobre a necessidade de

“escovar a história a contrapelo” tenha se transformado em senso comum, principalmente

incorrendo no perigo de descontextualizar e fragmentar seu pensamento, não pudemos também

deixar de lembrar aqui suas teses. Pois a noção de construir uma história passando ao largo das

histórias daqueles que estão integrados ao discurso hegemônico vai ao encontro do que parece

ser uma preocupação do escritor. Benjamin interpreta o passado como uma construção do

presente, e o presente como o lugar de conflitos. Assim, para ele, a forma de libertação do

intelectual consiste em adotar um olhar distanciado, e sua função é escovar a história a

contrapelo (BENJAMIN, 1994, p. 225). Segundo suas teses em Sobre o conceito da História, o

intelectual não deve ficar condicionado a um passado, mas sim configurá-‐lo a cada

reinterpretação, porque “a história é objeto de uma construção cujo lugar não é o tempo

homogêneo e vazio, mas um tempo saturado de ‘agoras’” (BENJAMIN, 1994, p. 229). Existe o

passado homogêneo construído pelo olhar do vencedor, mas esse deve ser sempre

reinterpretado para que a voz dos vencidos não seja permanentemente silenciada.

21 É forte uma tradição crítica que enxerga a narrativa pela perspectiva da formação escolar e do

aprendizado no Brasil. Essa tradição foi recorrente na área de Educação e Psicologia, e por um

tempo manteve o viés de leitura que busca refletir sobre os caminhos errados que o ensino no

Brasil veio a tomar desde os tempos iniciais da República.

22 Ver por exemplo o ensaio de Sabrina Karpa-‐Wilson (2005), as pesquisas de Gustavo Silveira

Ribeiro (2012) e de Patrícia Trindade Nakagome (2008).

27

A despeito do lugar que ocupa o escritor no momento em que escreve suas

reminiscências, ele precisa lidar com questões que o levam a refletir e agir

esteticamente de modo a contribuir para o entendimento do passado, reconstruindo-o

e transformando-o. Nesse poderoso processo, é impossível não se rever e construir

para si uma imagem levando em conta a dimensão temporal da experiência, que nos

impede de afirmar um único real ou uma única identidade, multifacetados que são,

sem dúvida.

Em meio ao repertório da literatura brasileira, um exemplo que procura

reexaminar o passado e tenta conciliá-lo consigo mesmo está presente em uma

valorosa passagem das memórias de Augusto Meyer, Segredos de infância. Nela se

exibem as ambivalências do recordar e o desejo de esquecer, o cuidado para que o

passado não se repita e a necessidade de preservá-lo do esquecimento. Curiosamente,

há um “posfácio” no livro de Meyer, no qual o crítico tece várias considerações sobre

o lugar antagônico que a escrita de si ocupa. É um fragmento de pura sensibilidade,

algo que nos remete a muitos casos como os narrados em Infância:

Abre-se uma fresta para outros lados da saudade e vejo Dudu e Fandango, os

dois negrinhos que brincavam comigo no quintal da velha casa do Caminho

Novo. Isto é, brincavam de apanhar, os pobres moleques, pois ainda não

acabavam de entrar pelo portão da chácara [...] e já eu, senhor e feitor daqueles

domínios, saía de relho erguido para o ritual da surra. (MEYER, 1996, p. 88-89)

Ao escrever o trecho acima, Meyer compreende que a recuperação do passado

traz também a possibilidade de reconciliar-se com ele. Entretanto, elabora-o não no

corpo do livro, mas sim em um texto adicionado no fim, ou seja, depois de o livro de

memórias terminado, abre-se uma brecha para explicar-se com essas personagens e

situações.

É como se o conflito lhe impedisse a lembrança – veremos acontecer algo

semelhante ao narrador de Infância –, mas enfim, numa bonita necessidade de

redenção, Meyer se dirige a todos aqueles que “ficaram sobrando neste mundo e

jamais aprenderam a entrar em pauta”, convocando-os a irem para Xanadu, como no

poema de Coleridge 23 , para um “bate-papo interminável e uma reconciliação

23 Os primeiros versos do poema inglês “Kubla Khan” são reproduzidos por Meyer: “In Xanadu

did Kubla Khan / A stately pleasure-‐dome decree”. Coleridge teria escrito o poema ao acordar de

28

definitiva”. Talvez apenas em ambiente totalmente recriado na fantasia utópica de um

mundo justo – como fez Graciliano em A terra dos meninos pelados – é que caiba

todo esse passado que se quer esquecer, marcado pela violência e pela injustiça. Basta

saber se também voltarão desse mundo utópico como a personagem de Graciliano.

É forçoso dizer que, na tradição memorialista brasileira, outras vertentes de

composição também tiveram espaço na reconstrução de si e do passado. Uma delas é

a que explicita a gênese da produção literária do escritor, um modo de evidenciar o

percurso intelectual de si por meio das recordações dos contatos com os livros ou

pessoas que exerceram influência. Quando se trata da relação entre gêneros

confessionais e escritores, essa circunstância não deve ser considerada uma

particularidade, uma vez que quase inevitavelmente as escritas esbarram na questão

da origem ou das influências. No entanto, há aquelas que se dedicam quase

exclusivamente a esse contorno, delineiam suas histórias a partir da trajetória

intelectual, inserindo-se em uma perscrutação do próprio percurso, numa espécie de

autobiografia literária.

O pequeno livro Como e por que sou romancista, de José de Alencar,

representa bem tal modo de condução da narrativa memorialista. Nessa obra,

publicada em 1893, o escritor detém-se em sua trajetória intelectual, apresentando a

formação de leituras e o curso que o levou à literatura. Mas é com Manuel Bandeira e

seu belo Itinerário de Pasárgada que se opera um resultado mais denso e bem-

acabado24. O poeta conduz com entusiasmo visível sua narrativa por essas veredas.

Exime-se de contar praticamente qualquer história mais voltada para suas relações

pessoais que não passe por apresentar sua vida de infância na relação com a literatura:

as influências que promoveram de algum modo sua formação, os professores, as

leituras propostas pelo pai, o descobrimento de poemas que o fizeram entender o que

é a forma poética etc. Envereda por considerações para determinado poeta ter

um sonho. Ao narrar o sonhado, e o paraíso perdido, a memória e o fragmento se tornam parte do

processo da construção do poema. Não só do poema, mas de outras criações que se apropriam e

retomam Kubla Klan, formando um repertório acumulado no tempo. Ver o artigo “A imagem

como ruína: de uma totalidade irrecuperável”, em que Miriam Volpe (2001) estabelece

comparação com os fragmentos de memória em Cidadão Kane e traz o texto de Jorge Luis Borges

“El sueño de Coleridge” para o debate. O sentido de “totalidade irrecuperável” converge para

nossa interpretação, como metáfora possível para a escolha formal de narrar em posfácio a

história que permaneceu presa na memória dolorosa e presa num passado irreparável. Na

escritura ainda é possível a redenção, talvez.

24 A título de curiosidade, nesse livro, Manuel Bandeira, ao comentar sobre o poema “O lutador”,

que ele escrevera ao acordar de um sonho, comenta o “Kubla Khan” do Coleridge.

29

escolhido tal palavra e não outra, ou pela lembrança dos primeiros versos que o

marcaram25.

Atentando novamente para Infância, é também facilmente identificável uma

forte e extensa relação exposta pelo narrador no tempo do enunciado, entre o menino

e os livros. Permeia toda a obra e dos mais diferentes ângulos a relação com a palavra

escrita26, apesar de não haver um percurso linear que se esforça na apresentação de

uma espécie de itinerário intelectual. Espalham-se pela obra27 não só os capítulos

marcadamente destinados a narrar o processo de alfabetização e o ambiente escolar,

mas também vários outros que demonstram as mais diversas experiências com os

livros, a leitura e a escrita.

De modo geral, o sentido opressor a gerir a atmosfera da narrativa mantém-se

nas trocas que transpassam a relação com a linguagem. Alfredo Bosi, em recente

exposição no seminário Estilo e Permanência28, discursou sobre o livro Infância. Em

certo momento, discorreu sobre a violência e o menino, apontando acertadamente

para o fato de que o estado de violência que baliza as relações familiares vai além

desse ambiente privado e baliza também a relação com as instituições de poder, como

a escola e a igreja29. Para Bosi, esse testemunho de Graciliano possui uma dimensão

cultural ampla, dada a visão crítica do autor sobre o processo de alfabetização, e é um

relato ímpar na literatura brasileira quando se trata de tamanho sofrimento para se

alfabetizar.

25 Em uma excelente síntese do que é ser poeta, diz: “tomei consciência de que era um poeta

menor; que me estaria para sempre fechado o mundo das grandes abstrações; que não havia em

mim aquela espécie de cadinho onde, pelo calor do sentimento, as emoções morais se trasmudam

em emoções estéticas [. .]. Mas ao mesmo tempo compreendi que, ainda antes de conhecer a lição

de Mallarmé, que em literatura a poesia está nas palavras, se faz com palavras e não com ideias e

sentimentos, muito embora, bem entendido, seja pela força do sentimento ou pela tensão do

espírito que acodem ao poeta as combinações de palavras onde há carga de poesia” (BANDEIRA,

1984, p. 30).

26 Ver Literatura em campo minado, de Marcelo Magalhães Bulhões. O crítico discute nesse livro

as recorrentes questões acerca do livro dentro do livro, que rondam toda obra de Graciliano.

Bulhões (1999, p. 97-‐109) abre uma sessão nomeada como “Infância: violência e iniciação” e

chama a atenção para a questão da linguagem – o sentido das palavras, o tipo de discurso

empolado – e para o fato de que desde o primeiro capítulo, nas obnubiladas lembranças

guardadas pelo narrador, o tema da alfabetização já aparece, e de forma opressiva. É fato também

que uma considerável parte da fortuna crítica lidou com Infância a partir das relações com o

ensino, a alfabetização e o gosto pela literatura. Ver também Miranda (2004).

27 A leitura da obra por esse viés interpretativo foi realizada em muitos trabalhos importantes.

Um que muito nos valeu foi a tese de Márcia Cabral da Silva, intitulada Infância, de Graciliano

Ramos: uma história da formação do leitor no Brasil.

28 Seminário realizado na Universidade de São Paulo, pelo Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) e

pelo Programa de Pós-‐Graduação da Área de Literatura Brasileira, no dia 20 de março de 3012.

29 Ver sobre isso também os textos de Valentim Facioli e José Carlos Garbuglio, in Garbuglio

(1987).

30

Ao fazer uma breve análise do capítulo “O menino da mata e o seu cão

Piloto”, o crítico acentua o laço que o narrador estabelece entre o menino e a história

protestante, e o desdobramento disso após a censura da obra pecaminosa pela prima.

Certa homologia estaria se cumprindo entre a perda do objeto desejado e a perda do

sujeito, já que a temática da obra se aproxima de algum modo das próprias vivências

do garoto. Glosando as palavras de Bosi, em Infância estaria o pressentimento de que

a palavra escrita seria a saída das trevas. Mesmo que uma saída ainda não estivesse

totalmente configurada, já haveria ali o desejo de encontrar no texto escrito o avesso

da opressão cotidiana. A ficção poderia salvá-lo, seria o caminho possível para

exorcizar o sofrimento passado30 – e não apenas a duplicação intolerável do real31.

A concepção de escrita como libertação, ou como salvação32, encerra a

possibilidade de uma saída a partir da construção de outro espaço – o narrativo –, que

permitiria livrar-se da realidade reconhecida e libertar-se. “No entanto, cada narrativa

de si se posiciona de diferente maneira segundo a ênfase que coloque na exaltação de

si mesmo, na autoindignação, ou na reestruturação da memória coletiva” (KLINGER,

2012, p. 21). É fato que nem todas as produções inscritas no cânone da literatura

memorialista brasileira possuem cunho libertário, o qual constitui apenas uma das vias

de entendimento de como um escritor pode assumir a narrativa de sua própria

história33.

Entretanto, tal aspecto da escrita confessional ronda, de modo mais ou menos

aparente, a relação de muitos escritores com a narrativa de sua experiência. Encarada

como condição estética para a luta contra a opressão e atravessada pelo

30 Alfredo Bosi utiliza-‐se do termo “catarse”. No contexto geral da exposição, entendemos que a

palavra foi usada em seu sentido mais genérico como sinônimo de libertação, e no sentido mais

específico do termo no contexto aristotélico.

31 A proposição de Álvaro Lins (1987, p. 267) mostrada no texto de 1945 “Valores e misérias de

Vidas secas”, por exemplo, é a de que as memórias de Graciliano Ramos foram escritas para se

libertar das lembranças opressivas e torturantes. Teriam sido um modo de reagir ao

sufocamento, à sensibilidade maltratada, narrando os fatos que ficaram gravados mais

profundamente e que influenciaram sentimentos, ideias e visões do adulto.

32 A dimensão da escrita como salvação atravessa, por exemplo, os testemunhos de prisioneiros-‐

escritores, como possibilidade de reinserção no mundo. Ver sobre isso Palmeira (2007).

33 Recordamos aqui o livro Armadilha para Lamartine, de Carlos Sussekind, cujo sentido se

estrutura a partir da tensa relação entre pai e filho e do conflito gerado após a internação do filho

em um sanatório. É um livro com estrutura nem um pouco tradicional, partida entre dois relatos,

que propõe manter uma independência entre os textos apresentados sucessivamente, o

fragmento da carta e o fragmento do diário, os quais correspondem às confissões das duas

personagens principais, filho e pai. Uma possível leitura que junte essas partes pode partir da

hipótese de que há em ambas as personagens uma necessidade de escrita como salvação: do filho

em crise psicótica e do pai incapaz de atravessar a fronteira que o separa do filho, exorcizando na

própria escrita a loucura contida do cotidiano.

31

comprometimento com o discurso crítico e com a reflexão sobre o percurso histórico,

a narrativa vista por esse prisma torna-se, acima de tudo, possibilidade de intervir na

história 34 . Em escritores comprometidos com esse viés de reflexão crítica, a

apresentação de suas perspectivas sobre o mundo parece perpassada pela

compreensão de que a história não pode ser entendida de forma totalizadora35, mas

que fragmentos de experiências transformam-se em fragmentos testemunhais

comprometidos com a verdade, mesmo que seja uma verdade subjetiva36, própria

daquele sujeito que narra.

No caso de Graciliano, a necessidade de utilizar a própria voz como agente em

favor de uma história mais justa é inerente à sua escrita. Ao contar a própria história37,

interfere na construção identitária do país, pois mobiliza a narrativa para compor um

passado excluído da história oficial, trazendo com isso a marca das escritas de si

voltadas para uma literatura de ação e intervenção.

Em termos de literaturas produzidas em contextos autoritários ou ditatoriais38,

como é o caso da obra de Graciliano Ramos, articular experiências culturais que

divergem dos interesses políticos hegemônicos não constitui apenas uma

possibilidade de construção crítica, mas também de resistência. Chocando-se com

abordagens autoritárias, o autor posiciona-se explicitamente, por meios estéticos,

contra determinados grupos e valores sociais. Nesse caminho, Infância é magistral na

34 É necessário notar que o conceito de memória sofreu ao longo da história inúmeras

modificações. Jacques Le Goff (2003), no livro História e memória, percorre esse conceito

historicamente demonstrando como a manipulação da memória foi se constituindo e como o

conceito aos poucos tomou parte dos estudos no campo das ciências humanas, principalmente no

século XX. A noção de intervenção na história tornou-‐se mais forte em sociedades com escrita, de

modo que o advento da impressão diferenciou muito a relação da memória com a história.

Questões em torno da relação entre memória coletiva e memória individual, memória e

imaginação, ou memória e esquecimento perpassam as análises aqui estabelecidas.

35 É preciso recordar novamente Nelly Richards. A crítica (1999, p. 322) reflete a disposição da

memória para não se enfeixar em “totalidades demasiado seguras de si mesmas”. Ao contrário, a

partir dela pode-‐se buscar a libertação de um passado histórico oficializado, muitas vezes

construído por meio de uma política de consenso que exclui o conflito e as contradições, em favor

de construir significados específicos para um passado que se quer manter como vencedor.

36 Ver Penna (2003, p. 308), Kingler (2012, p. 23) e Richards (1999, p. 324).

37 Ver a esse respeito o ensaio “Este corpo, esta dor, esta fome: notas sobre o testemunho

hispano-‐americano” (Penna, 2003).

38 Sobre política da memória em contextos ditatoriais, o artigo de Ginzburg (2006, p. 36-‐45)

intitulado “Política da memória no Brasil: raça e história em Oliveira Vianna e Gilberto Freyre”

contribui para a compreensão de como a configuração do passado está vinculada aos valores

sociais e políticos dos produtores dessas memórias. Quando observamos à distância os contextos

de exceção, tornam-‐se mais evidentes os jogos de força por trás dos mecanismos de seleção e

conservação do passado. Ginzburg aponta para a predominância conservadora entre os

intelectuais da década de 1930, respaldados, também, pelas políticas do governo de Getúlio

Vargas, deixando exposta a hegemonia conservadora a respeito de temas como “política

educacional, migrações e relações entre raça e cultura”. Ver também Miceli (2002).

32

apresentação dessa dissimetria de forças que compõem a problemática formação

social brasileira.

Mas o papel do escritor ao imprimir sua versão da história consiste também,

como dissemos, na preservação das diversidades e lastros culturais 39 e na

possibilidade de luta contra o apagamento dos rastros de violência. Em ambos os

casos, o resultado estético promove um pensamento crítico a respeito desse passado e

vem como parte contributiva por um mundo mais justo.

A título de exemplificação, pode-se apontar em Infância o movimento no

narrador de se distanciar do modelo patriarcal e autoritário de sua tradição familiar,

mostrando um lugar de violência nas manifestações elitistas e na brutalidade contra

alguns viventes (crianças e negros, sobretudo). Por outro lado, há o movimento de

reaproximação daquela cultura, de reconciliação com o passado, que se exprime na

própria escolha de se reconstruir e apresentar-se a partir desses modelos formadores.

Isso ocorre porque a voz da enunciação se estabelece nesse lugar intermediário entre a

revisão e reconstrução do passado, de um lado, e o presente, de outro. No presente, ele

mobiliza categorias de um discurso que de algum modo se emancipou daquela cultura

onde se formou, mas ao mesmo tempo pertence a ele.

Podemos ampliar o ângulo de observação evidenciando algumas experiências

da obra às quais atribuímos ora um sentido de continuidade, ora de descontinuidade –

movimento cíclico que se apresenta como força de tensão formadora, exatamente um

movimento de ida e vinda. Na continuidade, são perceptíveis as memórias de

experiências e de indivíduos que possuíram caráter de formação no sentido positivo

do termo e que se identificam com uma narrativa estabelecida no discurso do adulto,

já reposicionada pelo presente da enunciação como elos não interrompidos entre o

menino e o narrador. Semelhante compreensão do narrador é postulada nas

experiências de sentido descontínuo, em que elos interrompidos foram selecionados

39 Uma questão importante é pensar que, nos anos próximos à publicação de Infância, Graciliano

escreve sobre a cultura nordestina em jornais cariocas para um público urbanizado,

desconhecedor das tradições do “Norte”. Na seção da Revista Cultura Política, denominada

“Quadros e costumes do Nordeste”, as crônicas possuem cunho memorialístico e o escritor

parece utilizar-‐se do espaço público que lhe cabe para apontar o processo de apagamento

daquela cultura rústica que o formou, numa atitude que não quer ver a locomotiva do progresso

apagando costumes e crenças. É como continuar iluminando aqueles sujeitos de sua infância, mas

de modo a resistir a um possível processo de homogeneização cultural ou de se subjugar aos

“donos intelectuais do Brasil”. Diferentemente do tom irônico de Paulo Honório ao constatar que

Seu Ribeiro ficara para trás, deveria ter andado mais depressa, as crônicas revelam a vontade de

dar voz àqueles que não conseguiram andar tão depressa, não no sentido capitalista, como se

quer em São Bernardo, mas no sentido da diversidade e equidade entre culturas.

33

para figurar nas memórias como aqueles que se afastaram do que o narrador escolheu

para sua história do presente, não sem perder seu sentido formador.

Sobreleva-se desses aspectos a espinhosa questão da autenticidade do relato e

da relação entre literatura e biografia, que inevitavelmente ressurge a cada instante

nas reflexões que cercam as teorias do gênero. A fundamentação de que tudo é

construção, com maior ou menor grau referencial, possibilita à análise e interpretação

considerar que o momento histórico que perpassa os textos alinha de algum modo

esse espírito comum que deles podemos extrair. Afinal, é impossível medir o quanto

são autênticos os relatos enformados como memórias40.

Pensar numa literatura que possui teor testemunhal é também pensar na

subjetividade testemunhal e na impossibilidade de representação do real. Importa

menos a busca da verdade “real” do que a forma construída na narrativa. O

acontecimento narrativo não é espelho do mundo real, mas é postulado e chancelado

pela voz do escritor como modo necessário de apresentar-se à história. Para João

Camillo Penna (2003, p. 309)41, quando se trata de testemunho,

a categoria de autenticidade passa a segundo plano, e o que é mais relevante é a maneira

como o plano da cultura tradicional é modificado e reescrito pela prática emancipatória,

subordinando-a aos interesses da construção identitária. O essencial, portanto, consiste na

40 Uma das questões mais instigantes ao tratarmos de uma possível autenticidade, um caráter de

fidedignidade, é a comparação das experiências narradas em Infância e em Angústia. Passagens

muito próximas já percebidas pela crítica entre os dois livros esbarram fortemente nesse tema.

Wilson Martins em um artigo de 1948 nota o que ele chama de um “trabalho inverso” entre

Infância e os demais livros: “enquanto nos romances o autor aproveita reminiscências de sua

vida para enriquecer a figura de personagens [. .] naquele é o romanesco que concorre para dar à

pobre vida de criança o interesse vivaz indispensável à verossimilhança da narrativa”( (in

Brayner, 1978, p. 44). Gimenez (2012, p. 221) também aponta a semelhança em ensaio recente.

Ao comentar Angústia: “a presença, em Angústia, de vários tipos e eventos extraídos das retinas

do autor – o que Infância, título autobiográfico, veio mostrar – serve antes como prova do

empenho inventivo [. .]Movido por igual ânimo nos dois livros, ou seja, disposto a acusar “a marca

suja da vida”, o romancista exigente avalia as perdas, mas resiste com uma dialética que

mergulha na particularidade para melhor objetivar os reveses – das nossas trevas interiores.

Nesse sentido, as duas obras tornam o pacto de leitura proposto no clássico estudo de Philippe

Lejeune sobre autobiografias um conceito nem sempre seguro se o tomarmos como a única via

possível de leitura das obras, pois, por exemplo, em termos de recursos estilísticos de que

Graciliano lança mão em ambas as narrativas eles se aproximam entre si, bem como o processo

de rememoração vivido pelos narradores. Isso deixa à mostra o terreno pantanoso que envolve a

classificação dos gêneros.

41 Penna está refletindo acerca do testemunho da ativista política indígena Rigoberta Menchú,

ganhadora do Prêmio Nobel da Paz em 1992. Nesse caso, a discussão envolve pensar a questão da

autenticidade cultural da ativista em relação ao uso de vestimentas e outros símbolos que lhe

conferem uma posição de indígena autêntica. Para Penna (2003, p. 308), “a mobilização de um

passado cultural tradicional está articulado à tematização da prática política”. No caso de

Infância, é importante pensar a ideia da construção identitária subordinada ao controle da

imagem narrativa que se quer criar.

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postulação de um sujeito que se escreve, autodefine e autoproblematiza em seus próprios