Vivre à St. Paul: os imigrantes franceses na São Paulo oitocentista por Vanessa dos Santos Bodstein Bivar - Versão HTML

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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA ECONÔMICA

V ivre à St. Paul:

O s im igrantes franceses na São Paulo oitocentista

Vanessa dos Santos Bodstein Bivar

Tese apresentada ao Programa de Pós-

Graduação

em

História

Econômica

da

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências

Humanas da Universidade de São Paulo, para a

obtenção do título de Doutor em História

Econômica.

ORIENTADORA: Profa. Dra. Eni de Mesquita Samara

São Paulo

2007

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA ECONÔMICA

Vanessa dos Santos Bodstein Bivar

V ivre à St. Paul:

O s imigrantes franceses na São P aulo oitocentista

Órgão Financiador: Fundação de Amparo à

Pesquisa do Estado de São Paulo- FAPESP

São Paulo

2007

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AGRADECIMENTOS

Foi uma longa trajetória em que sorrisos e percalços estiveram presentes. Um

conjunto de pessoas fez parte dessa história.

A começar por aquela que desde o início, aos meus 19 anos, acreditou e deu

oportunitade para que eu crescesse enquanto profissional e enquanto pessoa. Da Iniciação

Científica ao Doutorado Direto, portanto ao longo de oito anos, Profª. Eni Samara foi

mestre, direcionadora de minha carreira, espelho para as minhas aspirações futuras.

Ao Prof. Carlos Bacellar também seguem os meus agradecimentos. As suas

pertinentes sugestões desde a monografia até a qualificação. Assim como a Profª.

Esmeralda Bolsonaro, pelos momentos de aprendizado em suas aulas de graduação, pós-

graduação e, da mesma forma, no exame de qualificação.

Ao Consulado da França em São Paulo, na pessoa de seu adido cultural, o Sr.

Sébastien Roy, o qual apoiou o trabalho e abriu caminhos nos arquivos franceses para que a

viagem fosse profícua. Ao Prof. Luis Felipe de Alencastro que gentilmente me acolheu

durante a estada na França, orientando e permitindo que eu pudesse integrar seus

seminários de pós-graduação na Sorbonne.

À Profa. Nanci Leonzo que ingualmente acreditou em meu potencial, abrindo as

portas da UFMS, onde exerci outra facetas da atividade acadêmica, como ministrar

pequenos cursos e proferir palestras. Ao Prof. Fernando Tadeu de Miranda Borges pelas

boas conversas e convites para publicação.

À Profa. Vera Ferlini que, mostrando-se entusiasta da monografia, incentivou-me a

seguir em frente. Também à Profª. Lená de Medeiros, pelos apontamentos durante o

encontro da ANPUH 2007 e por ter me enviado textos de sua autoria acerca do tema

estudado, os quais em muito ajudaram na composição da tese.

Nesse esteio, seguem os Professores Hernán Otero, Jorge Mialhe e Denise Takeya

que, peritos em imigração francesa, auxiliaram-me com o envio de material.

À Silvia Siriani sou grata pelo “empurrão” inicial, pela coragem e por me fazer

acreditar que aquele caminho, inicialmente obscuro, daria certo por conta de sua própria

experiência enquanto pesquisadora. Pelo mesmo motivo e por vários outros, como os

toques para meu amadurecimento pessoal e intelectual, por ter me escutado e ajudado nos

momentos difíceis, à amiga Madalena Marques, verdadeiro exemplo de esforço e dedicação.

Além de Marie Felice, um anjo especial para esta tese e para minha vida.

À Vilminha Paes, companheira de todos esses anos, que esteve ao meu lado durante

a jornada acadêmica. Seu auxílio foi mais do que o de uma boa profissional, foi o de uma

pessoa honesta e sensível. Não posso mensurar em palavras os seus carinhosos atos.

Ao CNPq pela bolsa concedida ao inicial mestrado e à FAPESP, pelo fomento do

doutorado, sem o qual seria difícil, senão impossível, a sua realização.

Ao CEDHAL, minha morada intelectual, e a todos os seus pesquisadores. À

Patrícia por seu auxílio na digitação da tese.

Aos meus amigos e amigas que, alicerces nos momentos de desanimo e na vontade

de desistir, com o carinho de suas palavras e de suas atitudes me reergueram, sou

profundamente agradecida: Carla, Lúcia, Ana, Inajá, Jeanny, André, Sandra, Marize, Mirela

e Igor.

Não posso esquecer da minha vó Maria, das tias Adriana e Juranda, do tio

“Pochollo”, das primas Elizabeth, Vânia e Tânia que, nos percalços, estiveram firmes e

fortes com sua ajuda.

Ivone, difícil de expressar o sentimento de uma mãe que, é claro, sempre torceu

pela filha. Obrigada pelas madrugadas mal dormidas, pelos alentos. Você, sem dúvida, é

parte do meu viver e a quem devo muito. Pai, você também acreditou em mim.

A toda família Mancuso que me acolheu com tanto carinho e, em especial, a você

querido Fábio, companheiro de todas as horas, estimulador de minha carreira.

Não obstante todas essas pessoas e instiuições que me apoiaram, às quais atribuí

meus sinceros agradecimentos, esta tese é dedicada, in memorian, a alguém muito

significativa desde a minha infância. Tia Lucy, onde quer que esteja, esta vai para você.

RESUMO

Esta tese tem por fulcro o estudo dos imigrantes franceses que viveram na cidade

de São Paulo na segunda metade do século XIX. Apesar de quantitativamente minoritários,

se comparados a outras correntes migratórias, como a dos italianos, foram qualitativamente

relevantes em um momento no qual a propagação da influência francesa era ali premente.

Nos almanaques e jornais abundavam nomes de franceses com suas casas de negócio.

Tratou-se de uma imigração espontânea e de cunho individual, voltada, sobretudo, a

ocupações urbanas. A despeito dos mais conhecidos através da historiografia serem

engenheiros, pintores, médicos, enfim, detentores de saberes especializados ou técnicos, a

maior parte daqueles que emigraram eram pessoas comuns que improvisavam seus papéis

para a sobrevivência diária. Mesmo sem o savoir-faire, era estratégia do imigrante articular-se

ao universo cultural francês, tornando-se modista, cozinheiro, cabeleireiro, ourives, alfaiate,

ou proprietário dos ramos de hotéis e restaurantes – leque de inserções que a cidade, por

conta dos lucros cafeeiros, passava a demandar. Também fez parte desse contexto,

desvendar as relações comerciais e consulares entre Brasil e França, na medida em que se

formava uma teia de expansão comercial francesa em concorrência aos produtos ingleses e

alemães, na qual o cônsul era intermediador: verdadeiro elo dos interesses da França na

região.

Palavras-chave: imigração; franceses; cotidiano; São Paulo; relações comerciais e consulares;

século XIX.

ABSTRACT

The core of this thesis was to study the French immigrants living in the city of São

Paulo during the second half of the nineteenth century. Notwithstanding their quantitative

minority compared with other migratory currents such as that of Italian people, they were

qualitatively relevant in a certain moment during which there was a pressing propagation of

French influence. Almanacs and newspapers displayed plenty of French people’s names

and commercial business. This reflected an spontaneous immigration wave and its

individual trait, which, above all, turned to urban occupations. Although many of the

names most known to history have been engineers, painters, medical doctors, all with

specialized or technical knowledge, most of the emmigrated were ordinary people who had

to improvise the parts they played to attain their daily survival. Even when they did not

have the savoir-faire, the strategy of an immigrant was to merge into the French cultural

universe, thus becoming a dressmaker, a cook, a hairdresser, a jeweler, a tailor or the owner

of a hotel or restaurant – an array of duties that the town was demanding, thanks to the

profits brought by the coffee agribusiness. Also within this context we attempted to unveil

the commercial and consular relationships between Brazil and France, since an expanding

commercial French network was being built to compete with English and German

products, in which the French consul acted as mediator and the true link of the French

interests inside this area.

Keywords: immigration; French people; everyday life; São Paulo; commercial and consular

relationships.

RÉSUMÉ

Cette thèse a comme point dáppui l étude des immigrants français qui ont vécus

dans la ville de São Paulo pendant la deuxième moitié du XIXème siècle. Même étant

quantativement minoritaires, en comparaison aux autres courants migratoires, tels que ceux

des italiens, ils avaient une qualité remarquable au moment où se faisait pressante la

propagation de línfluence française. Dans les journaux et almanachs, les maisons dáffaires

portant des noms français étaient abondantes. Il ságissait dúne immigration spontanée et

de caractère individuel visant surtout lóccupation urbaine. Les plus connus au cours de

l´histoire étaient les ingénieurs, les peintres, les médecins, les détenteurs de savoirs

spécialistes et téchniques, mais la plus grande partie des immigrants était composée de

gens communs qui improvisaient des métiers pour pouvoir survivre jour à jour. Même

sans le savoir–faire, la stratégie de límmigrant sárticulait vers lúnivers culturel français,

devenant modélistes, cuisiniers, coiffeurs, orfèvres, tailleurs, ou propriétaires dans les

branches d´hôtels et restaurants, évantail dínsertions que la ville commençait à exiger,

grâce aux profits du commerce du café. Ainsi, il fait partie de ce contexte de dévoiler les

relations commerciales et consulaires entre le Brésil et la France, au mesure que se formait

une toile déxpansion commerciale française, en concurrence des produits allemands et

anglais, étant le consul le médiateur. Véritable lien pour les intérêts de la France dans la

région.

Paroles–clé: immigration; français; quotidien; São Paulo; relations commerciales et

consulaires.

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO .............................................................................................................................. 01

PARTE 1 – DA FRANÇA PARA O BRASIL: CONTEXTO, EMIGRAÇÃO, INTERESSES

COMERCIAIS E INGERÊNCIAS CONSULARES ........................................................................ 13

CAPÍTULO I – A França em sua dimensão: caminhar político, econômico e social .......................... 14

CAPÍTULO II – Rumo ao outro lado do Atlântico: a decisão de partir .......................................... 61

CAPÍTULO III – Os interesses da França no Brasil: relações comerciais e consulares ...................... 101

PARTE 2 – OS IMIGRANTES FRANCESES EM SÃO PAULO: TRAJETÓRIAS DO VIVER 149

CAPÍTULO IV – São Paulo e os franceses: o mundo dos ofícios ...................................................... 150

IV. 1 - Cuidando das moléstias: remédios milagrosos, parteiras, médicos e 165

dentistas .........................................................................................................................

IV. 2 – Desenhando e construindo São Paulo: obras, iluminação e

transporte........................................................................................................................ 174

IV. 3- Aprendendo “boa educação” e “bons modos”: língua francesa,

professores e escolas .................................................................................................... 182

IV. 4- Ao som dos acordes e do piano: os franceses e a

música.............................................................................................................................. 190

IV. 5 – Bienvenu ao mundo da moda .......................................................................... 194

IV. 6 – Horticultura: as flores e hortaliças françaises ................................................ 215

CAPÍTULO V – Ao seu dispor: hotéis, restaurantes, livreiros, açougueiros, ferreiros ... ................... 221

V. 1 – Atrativos ao público: missas, procissões, bailes, festas e carnaval ............ 223

V. 2 – Voilà: Hotéis e restaurantes ........................................................................... 231

V. 3 – Garraux: marco da presença francesa em São Paulo .................................. 260

V. 4 – No esteio dos cabeleireiros: perfumaria, cabelo, barba e bigode .............. 272

V. 5 – Jóias reluzentes: artesanais, importadas ou “a fantasia” ............................. 281

V. 6 – Nem sempre glamour: outros ofícios ............................................................ 292

CAPÍTULO VI – Histórias de lá e de cá: famílias, sociabilidades e conflitos ................................... 295

VI. 1- Famílias e sociabilidades: facetas do viver .................................................... 296

VI. 2 - Uma vida nem tão glamourosa: percalços, conflitos e divórcios ................. 330

VI. 3 -“Agentes civilizadores” ? O viés dos processos-crime................................ 338

VI. 4 – O tecer da sociabilidade no “auxílio mútuo”: Société Française 14 Juilet .. 351

CONCLUSÕES ............................................................................................................................... 359

FONTES E BIBLIOGRAFIA .......................................................................................................... 369

ANEXO ......................................................................................................................................... 384

LISTA DE TABELAS

Tabela 1 – Proporção dos emigrantes franceses para a América, colônias e Europa 63

por décadas, 1851 – 1930 (em porcentagem) ........................................................................

Tabela 2 – Distribuição dos imigrantes franceses por países ............................................ 83

Tabela 3 - Os franceses no estrangeiro ................................................................................. 83

Tabela 4 – Ano da naturalização e gênero correspondente ao selo pago de 25#000 .... 94

Tabela 5 – Principais mercadorias brasileiras importadas pela França – em ordem de

importância – nos decênios de 1847 a 1856 e 1887 a 1896 ................................................. 108

Tabela 6 – Principais mercadorias francesas importadas pelo Brasil – em ordem de

importância – nos decênios de 1847 a 1856 e 1887 a 1896 ................................................. 110

LISTA DE MAPAS

Mapa 1 – Naturalidade dos imigrantes franceses na São Paulo do século XIX............... 73

Mapa 2 – Local de residência dos franceses ......................................................................... 329

LISTA DE ABREVIATURAS

ACMSP – Arquivo da Cúria Metropolitana de São Paulo

ADP - Archives Départamentales de Paris (França)

AMAE - Archives du Ministère des Affaires Étrangères (Paris, França)

AN - Archives Nationales (Paris, França)

AN – Arquivo Nacional

ATJSP – Arquivo do Tribunal de Justiça de São Paulo

BHVP - Bibliotèque Historique de la Ville de Paris (França)

BN - Bibliotèque Nationale (Paris, França)

CEDHAL – Centro de Estudos de Demografia Histórica da América Latina

APESP – Arquivo Público do Estado de São Paulo.

FAPESP – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo

IEB – Instituto de Estudos Brasileiros

INED - Institut National d´Études Démographiques (Paris, França)

Introdução

1

A segunda metade do século XIX anuncia, com a opulência cafeeira, o intenso

estabelecimento de estrangeiros na capital da Província de São Paulo. Dentre estes - e a

despeito de não chamarem a atenção da historiografia da imigração em decorrência de seu

pequeno quantitativo – os franceses tomaram importante papel, especialmente no que

tange ao comércio, mesclando-se entre a população local e aos demais imigrantes, de modo

a acentuar ainda mais a propagação do ideário cultural francês, que pouco a pouco se

espraiava nos diversos âmbitos da São Paulo de outrora.

Nesse meio, fixaram residência que, temporária ou permanente, acarretou em

múltiplas estratégias de sobrevivência, redes de sociabilidade e diferenciados padrões

familiares, os quais, em realidade, evidenciam sua inserção ativa nos entremeios históricos,

tanto econômicos, quanto sociais, da cidade que hoje se rotula como “multicultural” por

ser “acolhedora” de contingentes populacionais das mais diversas nacionalidades.

Destarte, um dos vieses desta tese é trazer a lume o cotidiano dos imigrantes

franceses que tiveram como uma das vias de seu destino a imperial cidade de São Paulo, ali

trilhando suas trajetórias de vida no decorrer da segunda metade do oitocentismo – até o

momento em que é findo o Império –, baliza temporal esta que abarca desde um tímido,

porém mais constante movimento imigratório, até seu apogeu com o “boom” da chamada

imigração de massas. Mesmo com foco nesse período, ele não foi considerado de maneira

estanque, dado que vários franceses chegaram antes de 1850 e vivenciaram os anos

seguintes. Portanto, não se podia descartá-los.

Em realidade, a presença e influência francesa no Brasil, mesmo que esparsa e

indiretamente, já se consubstanciava desde a colonização1 por intermédio de Portugal ou

no seio do próprio território com as incursões de cientistas, viajantes, contrabandistas e

missionários que deixaram dentre as marcas iniciais, a escrita de obras com impressões

1 Há um leque de trabalhos que remetendo-se ao período colonial cuidam dessa questão, a qual, porém, não

deixa de ser lembrada em análises cujo fulcro é o século XIX. Nesse sentido ver entre outros: FREYRE

(1940) e VIOTTI (2000).

2

acerca do Brasil. Essas marcas indicam, no pensar de Gilberto Freyre, “que a presença, em

nosso país, de seus autores, correspondeu uma ação de influência de idéias, estilos e

maneiras francesas trazidas por elles”2. Logo, no campo das idéias, a penetração cultural era

patente e seguiu-se no correr dos séculos através de livros e membros da elite que optavam

por estudar na França. No entanto, tal penetração que assim se fazia sentir mais nos

contornos da literatura, a partir do século XIX, passou a delinear-se de maneira paulatina

na vida cotidiana, com a crescente presença de franceses que cruzavam o Atlântico para

estabelecerem-se no Brasil.

Inaugurado o século XIX, o panorama europeu enovelava-se à França sob os

auspícios de Napoleão. Em 1808, com abertura dos portos na Colônia, fator que tornou

possível e mais constante a presença de estrangeiros, era vetada a entrada de franceses. Foi

somente em 1814, findas as guerras napoleônicas e com as relações retomadas entre Brasil

e França, que uma série de personagens, incógnitos ou não, passaram a afluir

principalmente para as zonas que apresentavam maiores possibilidades de sobrevivência e

ascensão econômica. Nesse sentido, durante a primeira metade do século, as cidades eleitas

foram: Rio de Janeiro3, Salvador e Recife, que acabaram por receber engenheiros, artesãos,

artistas e comerciantes – franceses atraídos pela opulência e pelo leque de inserções que

essas localidades exalavam.

Por outro lado, pela mesma época, São Paulo, a despeito de estar longe de ser a

soturna e pacata cidade4 apregoada nas descrições de alguns viajantes e memorialistas,

guardava ainda lugar de modesto destaque nos quadros da economia, incitando, desta

forma, esparsos e miúdos contingentes imigratórios. Esta tela, entretanto, não excluía a

lenta penetração de hábitos europeus nas famílias aristocráticas que se utilizavam

especialmente do já assentado comércio da Corte de luxos e miudezas ao gosto francês, por

2 FREYRE (1940), p. 33.

3 Sobre os primeiros imigrantes franceses no Rio de Janeiro ver SILVA (1995).

4 Acerca dessa “quebra de visão” da São Paulo colonial e dos primeiros anos do Império como monótona e

reclusa ver BLAJ (2003) e MOURA (2002).

3

que no seu entorno havia somente um ou outro imigrante provindo da França que oferecia

seus “prestimosos” serviços.

De qualquer maneira, São Paulo a partir da década de 50 do oitocentos, aquela que

se verteu em palco de transição – onde o velho interagia com a inserção do novo – e de

transformações de naturezas diversas as quais mudaram seu panorama, ao pintar diferentes

cores econômicas, urbanas e sociais, foi a cidade que se tornou atrativa aos franceses que

ora lançam-se luzes. Nos seus almanaques e jornais pululavam nomes de franceses, e em

suas ruas principais se alocavam números consubstanciais de casas comerciais cujos

negociantes eram esses personagens introdutores de novos gostos, elementos importantes

em meio ao manancial que imprimia ares peculiares de dinamismo à capital.

A riqueza advinda com o café fomentou uma série de transformações5, instituindo-

se definitivamente a partir de 1850 como o primeiro artigo de exportação da Província, de

modo a consagrá-la ao topo da economia imperial. O desenvolvimento do comércio

cafeeiro teve como resultado o enriquecimento das elites locais e um processo endógeno de

aproveitamento dos lucros.6 Nessa esteira, a capital passou a centralizar todo esse

complexo, dado que a burguesia do café ali estabeleceu residência mediante as facilidades

de comunicação propiciadas pelas ferrovias que – construídas em ritmo acelerado - serviam

ao escoamento de produtos e pessoas. À medida que os fazendeiros se mudavam, crescia a

tendência em promover melhoramentos urbanos.

Na trilha dos acontecimentos, a elite cafeeira não mais se conformava com os

hábitos tradicionais, procurando incutir o esquecimento do passado colonial e abrindo as

portas ao vindouro cosmopolitismo. Logo, “sofisticou-40se, embelezou suas casas, adquiriu

5 O lucro cafeeiro como um dos agentes fomentadores de transformação da Província de São Paulo parece

ser senso comum entre trabalhos de natureza acadêmica e memorialistas. Dentre estes ver : BRUNO (1954) ;

BORGES (1973) ; MARCÍLIO (1973); MESGRAVIS (1976) ; DAVATZ (1980); FERNANDES (1997) ;

MARANS (1998); RODRIGUES (1999) ; SAMARA (1999) ; VIOTTI (1999) ; BARBUY (2001) ; SIRIANI

(2001) ; DEAECTO (2002) ; OLIVEIRA (2003).

6 DEAECTO (2002) p. 95.

4

novos hábitos, aumentou seu círculo de aspirações”.7 As fortunas permitiam viagens à

Europa e propiciavam aos paulistas “mais do que nunca entrarem em contato com a

cultura francesa e assimilarem-na em grande parte”.8 A cidade, desta forma, transformava-

se e por isso demandava novas necessidades. Ao “aburguesamento” dos gostos e do modo

de vida também estava imbricado o desenvolvimento do comércio, dos serviços e depois

das incipientes indústrias. E foi a essas novas oportunidades que se detiveram os

imigrantes, inclusive, os franceses, tanto aqueles primeiros que já vieram instalar-se em

meados do século ou antes, quanto aqueles advindos nas últimas décadas.

As lojas principais eram quase todas pertencentes a estrangeiros e nesse meio, boa

parcela de franceses eram seus negociantes. Importando artigos da França – cujo caráter

valorativo era atestado em São Paulo como de qualidade, típico do “bom gosto francês” e

dos costumes burgueses europeus – esses imigrantes inseriam-se em uma corrente de mão

dupla: sob uma faceta, acabavam por fazer parte de um contexto maior, o da expansão

comercial e consular da França para o Brasil9 em concorrência com representantes dos

negócios ingleses - cuja hegemonia pode ser denotada desde os tempos coloniais10- e

posteriormente com os alemães e italianos. E, de outro lado, o fato de que estavam

fisicamente presentes, portando consigo experiências e modos de vida próprios que, por

7 BORGES (1979), p. 28.

8 VIOTTI (2000), p.285.

9 Sobre este assunto ver : TAKEYA (1995) e MALERBI (1993). A segunda metade do século XIX - no 2º

Império - foi momento em que a França também passou por uma série de transformações: as remodelações

urbanas; o desenvolvimento do sistema de transportes; os investimentos com os crescentes grupos

financeiros e bancários; a sedimentação populacional nas cidades pela atração que os centros urbanos

exerciam; etc. A despeito de, por muito tempo a França ter caráter eminentemente agrícola, a indústria

passava a tomar papel relevante nos quadros econômicos, especialmente com as produções ligadas ao

vestuário e à moda (BRESCIANI, 1992). Assim, para o maior escoamento desses artigos, com rotatividade e

lucro, fazia-se necessária a expansão de mercados. Aí aloca-se o Brasil, inclusive com relatórios dos cônsules

franceses, que aqui se radicaram, sobre as possibilidades de inserção de seus produtos e em que regiões.

Entretanto, será que a maior parte desses franceses que cruzaram o oceano rumo ao Brasil emigraram

somente na esteira desses acontecimentos?

10 Gilberto Freyre debruçou-se sob essa questão, percebendo as diferenças entre os tipos comerciais ingleses e

franceses, assim como a aura concorrencial que os envolvia. Salienta que os franceses “eram negociantes cuja

atividade se confinava às cidades”, “eram retalhistas, vendedores de miudezas, joias e bijoux et toutes sortes de nouveautés”

(FREYRE, 1948, p. 171). Já o comércio britânico caracterizava-se pelo tráfego de largas peças de fazendas e

mercadorias pesadas, como “ferro, cobre, máquinas, pinho de Riga, vidro em caixas para janelas” (FREYRE, 1948, p.

168). Citando o ideário do comandante Laplace em seu estudo sobre os ingleses no Brasil Freyre coloca : “Ces

negociants ny vendent pas, comme lés nôtres, ce que le luxe des capitales a fait inventer de plus comptueux; mais (...) ils fournissent la population de toutis les merchancises de première necessité” (FREYRE, 1948, p. 168.).

5

certo, passaram a compor a dinâmica da cidade, participando como um dos ingredientes

principais da miscelânea desse período de transição porque passou a São Paulo oitocentista.

Tratava-se de indivíduos, - pois era uma imigração espontânea que não chama a

atenção por seu quantitativo, porém por seus aspectos qualitativos - padeiros, modistas,

cozinheiros, cabeleireiros, ourives, alfaiates, costureiros, empreendedores dos ramos de

hotéis e restaurantes, engenheiros, além de outros que se encontravam longe do glamour

tradicionalmente imputado aos franceses. E nesse sentido, estavam os porqueiros que

vendiam carne pelas ruas, pintores, pedreiros, ferreiros, mecânicos e aqueles que vagavam

pelas moradas de outrem pedindo trabalho. Enfim, pessoas comuns, não grandes

personagens acompanhados de grandes feitos, mas verdadeiros agentes históricos que

tecendo os retalhos de seu cotidiano, criaram estratégias de sobrevivência adaptando-se às

condições, circunstâncias e valores locais e, assim, integrando-se e interagindo - não de

maneira linear e sem conflitos - com as mais diversas camadas sociais: livres e escravos,

nacidos no Império e estrangeiros, pobres e mais abastados.

O interesse pelo estudo dos franceses foi despertado ainda na graduação, quando

da elaboração da monografia de iniciação científica intitulada Além das Fronteiras. O

cotidiano dos estrangeiros na São Paulo oitocentista: vestígios testamentais11. Tal análise,

debruçada sob os testamentos deixados por estrangeiros na imperial cidade de São Paulo

durante o século XIX, procurou traçar o perfil dessa população e seu cotidiano. “Ato

solene de vontade do indivíduo que encerra a declaração derradeira do que quer que seja

executado após a sua morte”12, o testamento como fonte base propiciou o mapeamento

dos componentes da pré-imigração de massas no que remonta a seus rituais de morte;

patrimônio; convivência familiar; relações sociais; locais de moradia; ocupações

11 A monografia de iniciação científica, Além das Fronteiras. O cotidiano dos estrangeiros na São Paulo oitocentista:

vestígios testamentais, fomentada pelo PIBIC-CNPq, foi concluída em 2002 sob orientação da Profa. Dra. Eni de

Mesquita Samara no Departamento de História da Universidade de São Paulo e está no prelo pela editora

Humanitas. Ver BIVAR.

12 MARCÍLIO (1983), p.67.

6

desempenhadas no meio urbano; redes de solidariedade; contendas e dificuldades por que

passavam; as histórias de lá e de cá que comprovavam, mesmo estando distantes, os liames

com a terra natal; enfim, variáveis que também denotam mecanismos de interação entre as

diversas nacionalidades nesse palco que era a São Paulo oitocentista antes da chegada em

massa, por exemplo, dos italianos.

Além de tomar contato com uma fonte manuscrita rica em dados para inferências

de análise histórica, a monografia possibilitou a visualização do papel ativo que esses

imigrantes – advindos antes do ocaso do XIX e relegados a segundo plano pela

historiografia - imprimiam à cidade através de suas experiências individuais e coletivas.

Nesse universo, chama atenção a atuação dos franceses que, dentre a amostragem

obtida de 80 testantes, foram a quarta nacionalidade, após portugueses, africanos e alemães,

que mais deixou as suas disposições finais. Seus relatos testamentários revelam uma

multiplicidade de vivências: esposa e filhos deixados na França; confiabilidade não só em

parentes e conterrâneos estabelecidos em São Paulo, como também em brasileiros e

alemães, estes últimos na mesma condição de imigrantes, frente ao desconhecido; as

relações comerciais e ocupações pautadas na descrição dos pertences e das dívidas que, por

sua vez, descortinam toda uma rede de crédito da qual, para além dos próprios franceses,

faziam parte membros do cadinho populacional paulistano.

Por sua vez, se a monografia concentrou diversas nacionalidades, a tese tem por

pauta aprofundar as questões relativas aos imigrantes franceses, cuja carência de estudos é

notória.

Ao longo das últimas décadas, o tema imigração tem suscitado a atenção das

chamadas ciências humanas em geral, apresentando a formulação de diversos trabalhos

que, entretanto, não esgotam o arcabouço de possíveis investigações. Tarefa árdua ao

historiador é rastrear as trilhas deixadas por essas pessoas, desde os possíveis motivos que

7

os impulsionavam a ir além das fronteiras da terra de nascimento, até os imbricamentos

cotidianos e de vivências alocados no ponto de destino após a travessia.

Assim, grande foco de análises – o que corrobora em concentração de produções

historiográficas voltadas a esse temário – são as correntes migratórias que por abrigar

elevados contingentes quantitativos saltam aos olhos dos estudiosos, como é o caso dos

italianos, portugueses, árabes, japoneses13 ou ainda dos colonos de origem européia

instalados no sul do país. Não obstante, como acentua Braudel, não se deve “acreditar que

só os sectores que fazem ruído são os mais autênticos; também há os silenciosos”14 como

os franceses, minoritários numericamente, mas não menos importantes.

Correlacionados a esse aspecto, os estudos sobre a imigração em São Paulo voltam-

se especialmente ao fim do século XIX, quando a premente demanda por braços na

lavoura cafeeira engendrou um movimento em massa de europeus pauperizados que para

cá rumaram esperançosos em melhorar suas condições de vida. Logo, configuram-se dois

pontos lacunares. O primeiro remete-se ao pouco conhecimento acerca dos imigrantes

direcionados aos centros urbanos e ao revés, como atesta o levantamento efetuado por

Boris Fausto sobre a “historiografia da imigração para São Paulo”,15 a maior parte dos eixos

de análise envereda para o meio rural. O segundo situa-se no ideário de que antes do final

do oitocentos – período que denominamos pré-imigração de massas -, já havia uma

diversidade de imigrantes instalados na cidade, dentre eles os franceses. Sobre estes quase

nada foi especulado, apesar de fazerem parte dos meandros econômicos e sociais,

contribuindo para a gestação das transformações e do vindouro cosmopolitismo através da

paulatina introdução de novos gostos e experiências – “inicialmente, não derrubava

paredes, nem arrancava telhados, apenas impregnando o velho ambiente e mudando-lhe

13 Os dois últimos no período republicano.

14 BRAUDEL (1972), p. 37.

15 FAUSTO (1991).

8

mais os hábitos e a mentalidade do que propriamente as feições”,16 as quais, à medida que

se aproximavam as décadas finais do século, culminando esse processo, tendiam a

impregnar-se cada vez mais de caras e modos franceses.

Desta forma, este estudo é calcado em cunho qualitativo e compreende um grupo

definido, os franceses que, tal como o explicitado, apresentavam-se em menor número do

que os demais contingentes de imigrantes. Por isso, diferente de outras análises que tenham

corpus documental homogêneo, esta abarca uma multiplicidade de fontes no intuito de

conferir maior substância e mostrar variadas facetas da trajetória dos franceses em São

Paulo.

Dentre os materiais impressos foram utilizados os Almanaques, tanto comerciais,

quanto literários da Província de São Paulo para os anos de 1857, 1858, 1866, 1873, 1875,

1878 e 1883; a Bibliographie Brésilienne publicada em Paris (1898) por A. L. Garraux; e o

Registro de Estrangeiros (1840-1842) - todos existentes no acervo da biblioteca do

Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo. Igualmente os anúncios do

jornal Correio Paulistano microfilmados na Divisão de Arquivo do Estado de São Paulo.

Com periodicidade diária e dados os limites de tempo para serem pesquisados 39 anos de

jornal (1850-1889), procedeu-se à coleta para cada cinco anos: 1855 e 1862 (pois na APESP

não estavam disponíveis os exemplares para 1860 e 1861), 1865, 1870, 1875, 1880 e 1885,

totalizando 647 anúncios. No Arquivo da Cúria Metropolitana, o Álbum Publicação

comemorativa do 1º quinquagenário da fundação do Seminário Episcopal de São Paulo. E,

na Sociedade Francesa de Beneficência 14 de Julho, os Estatutos e Regulamentos de sua

fundação.

Da documentação manuscrita existente no Arquivo do Estado, por sua vez, foram

examinados os processos-crime catalogados por nome dos réus, dentre os quais rastreou-se

20 casos em que franceses estavam envolvidos. Outro corpus documental foi o dos livros de

16 BARBUY (2001), p. 117.

9

registros de escritura do 2º Cartório da Capital, nos quais encontram-se, dentre outros,

contratos de casamento; escrituras de compra e venda, doação, hipoteca, aluguel e locação

de serviços; contratos e distratos de sociedades e procurações. Examinando processo por

processo através dos nomes dos partícipes que vêm logo no início do manuscrito, foi

possível detectar 213 documentos de franceses. Há ainda os registros de passaportes da

Província de São Paulo para os anos de 1842, 1843, 1846, 1853 e 1874. Foram observados

49 passaportes.

No Arquivo da Cúria Metropolitana de São Paulo folheou-se todos os livros de

registro de casamento das paróquias existentes no período estudado, ou seja, Sé, Santa

Efigênia, Freguesia do Ó, Brás e Penha e encontrou-se 63 casamentos em que um dos

cônjuges (ou ambos) era francês. Da mesma forma, com essa relação em mãos consultou-

se aos processos de casamento em si, dos quais anotou-se 37, ao mesmo tempo em que se

coletou 04 processos de divórcio, além de 63 registros de óbito.

Para a busca dos pedidos de naturalização recorreu-se ao Arquivo Nacional no Rio

de Janeiro. Após a visualização de documento por documento remontante à segunda

metade do XIX foram obtidas apenas 06 cartas.

Já o Arquivo do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo concentra os

testamentos e inventários. A única alternativa encontrada foi buscar nomes de franceses no

banco de dados do próprio arquivo17, o que levanta a hipótese de que em meio ao acervo

deve haver mais fontes do que as captadas. Consultando aos 1º, 2º, 3º e 4º Ofícios da

Família foram coletados 30 inventários (todos posteriores a 1850), 09 testamentos anexos e

mais 06 avulsos (totalizando 15), dos quais 03 estão alocados no Centro de Estudos de

Demografia Histórica da América Latina- USP, dado que ali existem os testamentos do 3º

Ofício da Família.

17 A maior parte desses documentos não estão catalogados. E daqueles que estão no banco de dados, pequena

parcela vem acompanhada de nomes.

10

Por outro lado, ampliou-se os contornos analíticos, percebendo as peças que

compunham o olhar da França sobre o Brasil e, em especial, sobre São Paulo, imputando,

como é interessante nos estudos imigratórios, uma análise que reverbera o lá e o cá: o país

de origem e o de recebimento, de modo a criar não uma corrente unilateral, mas de mão

dupla.

As fontes, manuscritas e impressas coletadas nos arquivos franceses são

concernentes às relações Brasil-França, com foco especial na Província de São Paulo e nas

questões comerciais e consulares durante a segunda metade do século XIX.

Assim, toda uma série de fontes manuscritas e impressas foi rastreada. Nos Archives

Départamentales de Paris encontrou-se o Anuário-Almanaque Didot-Bottin. No Archives du

Ministère des Affaires Étrangers, o Anuário Diplomático e Consular da República Francesa

para os anos de 1858 a 1889. Finalmente, no Archives Nationales foi pesquisado o conjunto

referente ao comércio e à indústria que contém as correspondências entre o Ministère des

Affaires Étrangers e o Ministère du Commerce et dÍndustrie, ademais dos relatórios consulares e

boletins comerciais dirigidos ao Ministère des Affaires Étrangers relativos à Província de São

Paulo durante o século XIX, assim como a outras partes do Brasil.

As bibliotecas também congregam fontes impressas que ajudaram a consubstanciar

a tese, contribuindo com aspectos outros. A Bibliotèque Historique de la Ville de Paris abriga

Anuários, além de guias e estudos de época sobre a emigração francesa. A Bibliotèque

Nationale (Paris) possui anais do Ministério da Agricultura e do Comércio alusivos ao

comércio com o Brasil, do mesmo modo que tem o Catálogo oficial da participação do

Império do Brasil na Exposição Universal realizada em Paris em 1889. Já no Institut

National d´Études Demographiques, se encontram análises contemporâneas sobre a população

na França e no estrangeiro.

Outrossim, de maneira co-respectiva, foi traçado o tema-chave da presente tese, a

qual é dividida em duas partes. Da França para o Brasil: contexto, emigração, interesses consulares e

11

ingerências comerciais, e Os imigrantes franceses em São Paulo: trajetórias do viver, cada qual contendo

três capítulos. O primeiro, intitulado A França em sua dimensão: caminhar político, econômico e

social, mergulha na França da segunda metade do século XIX de maneira a perceber o

contexto em termos de economia, sociedade e mesmo política, os quais, em realidade,

estavam imbricados. Tudo com o intuito de compreender um pouco do universo em que o

francês estava inserido e de como a França constituiu a imagem de uma das potências da

época. No segundo capítulo, Rumo ao outro lado do Atlântico: a decisão de partir, aparecem os

caminhos e os porquês da emigração, assim como as razões pelas quais, por muito tempo,

seu estudo foi relegado a segundo plano. Já em Os interesses da França no Brasil: relações

comerciais e consulares, os negócios estão em pauta. Importação, exportação e os meios para a

expansão do escoamento de produtos franceses no Brasil e, particularmente em São Paulo,

são colocados em foco, o que evidencia também a constituição de uma teia de informações

concatenadas pelo corpo consular.

A segunda parte, por sua vez, se concentra no cotidiano dos imigrantes franceses na

cidade e como eles interagiam. Logo, os capítulos IV, São Paulo e os franceses: o mundo dos

ofícios, e V, Ao seu dispor: hotéis, restaurantes, livreiros, açougueiros, ferreiros... abordam os diversos

ofícios sobre os quais se debruçavam, de modo a auxiliar ainda mais a consubstanciação da

influência francesa e de sua própria sobrevivência. Por fim, em Histórias de lá e de cá: famílias,

sociabilidades e conflitos, está a conformação familiar de casamentos, filhos, compadres e

afilhados, uniões ilegítimas, membros deixados na França, além de vieses sobre as redes de

solidariedade, relacionamento e conflito.

12

Parte 1

D a F rança para o B rasil:

contexto, em igração, interesses com erciais

e ingerências consulares

13

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14

Fim dos anos de 1840. A França passava por um período de crise cujos contornos

estavam envoltos em aspectos econômicos, sociais e políticos. Com uma primavera

extremamente seca, seguida de um verão com chuvas intensas, o ano de 1846 marcou uma

época de péssima colheita. E não só de cereais, sustentáculo da agricultura francesa, mas

também, devido a pragas nas plantações, de uma de suas bases alimentares: a batata. As

dificuldades no setor agrícola provocaram a ruína de muitos camponeses, assim como a

escassez trouxe em seu bojo o aumento do preço dos produtos, principalmente do trigo.

Por toda a França bandos de mendigos andarilhavam pelos campos e, nas cidades,

agrupamentos de mulheres protestavam contra o valor do pão.

Esse conjunto de fatores acabou por ter eco nas indústrias. Com prioridade para o

consumo de alimentos, os produtos industrializados tiveram menor saída, acarretando o

binômio subprodução agrícola/superprodução industrial. Nos invernos de 1846 e 1847, a

crise se fez sentir na construção e de modo ainda mais relevante no setor têxtil. Em

Roubaix, 30 % dos operários estavam desempregados em fevereiro de 1847 e em maio já

se contava 60%.18

A despeito de, no decênio de 1840, assim como nas décadas seguintes, o mundo

rural ser preponderante na França tanto em termos de dinâmica econômica, como de

população; durante a chamada Monarquia de Julho houve um lento, porém efetivo

processo de industrialização. Paulatinamente, as burguesias industrial e comercial se

firmavam. E com elas, o proletariado nascente então vivia sob o signo de extenuantes

jornadas de trabalho e de salários que sequer propiciavam a sua própria subsistência.

Em meio à miséria operária e aos iniciais embates entre burguesia e trabalhadores,

fervilhavam idéias em pensadores e intelectuais, o que deu margem à elaboração de

18 WATELET, Gerárd. La IIe. République et le Second Empire 1848-1870 du Prince Président Napoleón III. Paris:

Pygmaleon, 2000, p. 19. Roubaix é uma cidade francesa que se localiza no Departamento do Norte, próxima

a Lille.

15

doutrinas liberais e socialistas19. Na França, em particular, na primeira metade do século

XIX, Saint-Simon e Fournier lançaram ideários de reformas nomeadas posteriormente

como pertencentes ao “socialismo utópico”. Acrescida a esta efervescência também

estavam os panfletos, enquetes e propagandas revolucionárias lançadas às ruas.

O desemprego, a miséria e a fome20, elementos denotados pela crise agrícola e

industrial que pairavam não só sobre os franceses, como sobre outros países da Europa,

corroboraram nos acontecimentos de fevereiro de 1848 a ponto de, no início desse ano, o

político francês Alexis de Tocqueville discursar exacerbadamente na Câmara dos

Deputados: “Nós dormimos sobre um vulcão... Os senhores não percebem que a terra

treme mais uma vez? Sopra o vento das revoluções, a tempestade está no horizonte”.21

Essa ebulição de idéias era a tônica do momento. Poucas semanas depois, foi publicado o

Manifesto Comunista em que os alemães Karl Marx e Friedrich Engels apresentaram os

princípios da revolução proletária22.

Sem dúvida, as dificuldades econômicas fragilizaram o governo de Luís Felipe - rei

que comandava a França desde a Revolução Liberal de 1830. Contudo, o seu imobilismo e

o do primeiro ministro Guizot – protestante perseguidor das escolas católicas - mediante as

19 Ver: DAVID, Ricardo. Princípios de economia política e tributação. Lisboa: Fundação Calouse Gulbenkian, 1978;

SAINT-SIMON, Henri. L’ industrie: ou, discussions politiques, morales et philosophiques dans l’ interêt de tous les hommes

livrès a des travaux utiles et indepéndans. Paris: Bureau de l’ Admnistraction, 1817; FOURIER, Charles. Nouveau

monde industriel et societaire. Paris: Falammarion, 1973; OWEN, Robert. A new view of society and other writings. New

York: Penguin Books, 1991. David Ricardo projetou as bases de uma nova sociedade fundada na associação

dos produtores e na soberania do trabalho, de modo que o governo seria substituído pela administração

conjunta de todos sobre a produção. E Charles Fourier idealizou a criação de uma nova ordem social baseada

na organização de falanstérios, comunidades socialistas onde seria abolida a divisão do trabalho e cada

homem desenvolveria ao máximo seu talento e aptidões.

20 DUBY, Georges; MANDROU, Robert. Historia de la civilización francesa. México: Foundo de cultura

econômica, 1966, p. 420.

21 TOCQUEVILLE, Alexis de. apud. HOBSBAWM, Eric J. A era do capital 1848-1875. 4ª Ed. Rio de Janeiro:

Paz e Terra, 1979, p. 29.

22 MARX, Karl. O capital. Rio de Janeiro: Zahar, 1969. Em uma de suas principais obras, O Capital, Marx

procurou investigar “o que movimentava as rodas da sociedade capitalista onde vivia” (HUBERMAN, Leo.

História da riqueza o homem. Rio de Janeiro: Zahar, 1979). Sob este prisma, alguns princípios fundamentais

norteavam o pensamento de Marx e Engels, dentre eles pode-se citar: as transformações na sociedade como

resultado de forças econômicas; a luta de classes como força motriz imediata da história; a exploração da

mais-valia como essência do capitalismo moderno; o proletariado como agente de transformação da

sociedade capitalista e o advento do socialismo como fase de transição para o comunismo. Cf. CORNU,

August. Karl Marx et Friedrich Engels: leur vie et leur ouvre. Paris: Press Universitaires de France, 1955;

COGGIOLA, Osvaldo. Marx e Engels na História. São Paulo: Xamã, 1996; CLAUDIN, Fernando. Marx,

Engels y la revolución de 1848. Madrid: Siglo veinte uno de España, 1976.

16

transformações e reivindicações da época, também foram fatores intensamente relevantes.

O direito ao voto tinha sido pouco ampliado, havia alardes de corrupção, a imprensa

continuava censurada e a oposição era reprimida. Assim, para além das ditas penúrias

sócio-econômicas levantava-se a bandeira de maior participação dos franceses na vida

política.23

Em 1847, os grupos de oposição, impedidos de fazer demonstrações políticas,

reuniam-se em banquetes para discutir reformas. Tratava-se então de espécies de reuniões

políticas feitas desse modo (banquetes) no intuito de escapar à repressão governamental.

Logo, foi marcado para 22 de fevereiro de 1848 um grande banquete com representantes

de toda a França a fim de protestar contra o regime. Dada a proibição de Guizot, o

proletariado rebelou-se pelas ruas de Paris seguido por outras camadas da população. Nas

barricadas podiam-se reconhecer estudantes, operários - com ou sem qualificação –,

artesãos e até mesmo facções da “milícia cidadã”, a Guarda Nacional cuja função principal

era ajudar o governo na manutenção da ordem.

Estava deflagrada então a Revolução de 1848 que culminou, após três dias de luta -

a 24 de fevereiro daquele ano -, com a proclamação da II República.24 A participação do

proletariado francês nessa empreitada foi marca importante, pois “aqueles que fizeram a

revolução eram inquestionavelmente os trabalhadores pobres. Foram eles que morreram

nas barricadas urbanas (...) foi sua fome que alimentou as demonstrações que se

transformaram em revoluções”25.

Um clima de festa, de fraternidade pairava no ar. “Menos que uma ilusão lírica ou

um transbordamento de bons sentimentos, deve-se perceber nesse espírito de 1848 um dos

23 WATELET, op. cit., p. 20-21.

24 A Revolução de 1848 – período conhecido como a “Primavera dos Povos” – deu-se não somente na

França, mas se alastrou para várias regiões da Europa como Bavária, Berlim, Viena e Milão, influenciando

inclusive na insurreição ocorrida em Pernambuco no mesmo ano. “Mas nunca houve uma [revolução] que

tivesse se espalhado tão rápida e amplamente, se alastrando como fogo na palha sobre as fronteiras, países e

mesmo oceanos” (HOBSBAWAM, 1979, p. 30). Entretanto, é necessário salientar que, enquanto na França o

movimento adquiriu contornos mais sociais, na Itália e na Europa central as manifestações visaram à

unificação e ao estabelecimento de regimes constitucionais.

25 HOBSBAWAM, op. cit., p. 35.

17

elementos maiores da cultura política francesa: a necessidade de um consentimento

unânime”26. Não obstante, tal “unidade” não excluiu outro componente, que era o do

conflito, dado, por exemplo, que o recém formado governo provisório era constituído por

personalidades diferentes. Cada setor que havia participado da revolução deteve

temporariamente uma parcela do poder e, da mesma forma, interpretava o conteúdo da

República a seu modo. Bonapartistas, republicanos e socialistas foram ingredientes dessa

miscelânea. Veja-se o visconde Alphonse de Lamartine, republicano liberal; Louis Blanc,

porta-voz da corrente socialista; e o operário Albert. Não se deve perder de vista, porém,

que dos onze membros do governo, nove eram burgueses. As exceções, em pólos opostos,

eram justamente os ditos visconde e operário.27

Ao povo parisiense, que permanecia em guarda, não bastava a proclamação da

República. A reivindicação principal era a efetivação do direito ao trabalho. Reclamavam do

governo “um gesto que mostrasse que os operários não foram utilizados somente para

banir a monarquia”28

A demanda social fazia-se sentir com força. O quadro de caos generalizado na

economia e na sociedade francesa persistia. Reformas urgentes eram necessárias, pois “foi

em grande parte graças à crise econômica, oriunda da recessão e do desemprego depois de

1846, que a II República teve seu advento, mas é somente com a resolução dessa crise que

poderá assegurar sua sobrevivência.”29

Uma outra questão ainda veio agregar-se a esse panorama. A efervescência social

carregada de tons revolucionários e de reforma causou pânico entre as camadas

26 WATELET, op. cit., p. 50 (tradução nossa).

27 Duas profissões estavam sobretudo representadas: jornalismo e advocacia (WATELET, 2000, p.30). Ledru-

Rolin, advogado, Ministro do Interior; Lamartine, diplomata por obrigação, mas poeta por inclinação, que se

tornou o verdadeiro chefe do governo provisório; o operário Alberto, privado de uma pasta ministerial;

Dupont de L’ Eure, advogado octogenário nomeado para o Ministério da Justiça e Trabalhos Públicos; o

físico François Arago, para a Marinha; Louis Garnier-Pages, negociante, Ministro das Finanças; Armand

Mavast, jornalista, sem Ministério; o banqueiro Michel Goudchaux; Paul Bethmont no Comércio; e

Hyppolyte Carnot para a Instrução Pública (GARRIGUES, 2002, p. 4-6).

28 WATELET, op. cit., p. 39 (tradução nossa).

29 GARRIGUES, Jean. La France de 1848 à 1870. Paris: Armand Colin, 2002, p. 9 (tradução nossa).

18

possuidoras, aquelas que detinham o capital. Houve uma parada brutal dos investimentos

no aparelho produtivo, assim como escassez da moeda circulante. Ademais, as finanças

públicas estavam em estado dramático. Enfim, tudo corroborava para uma crise monetária,

ou na expressão de Ernest Labrousse, para “uma paralisia econômica sem precedentes”30 O

mote era poupar e não investir, o que acarretou uma série de conseqüências, dentre elas a

relação entre queda de consumo e baixa de produção, redundando em diminuição de

salários e, inclusive, falências de industriais.

Seguiu-se, então, uma sucessão de decretos que anunciavam reformas, como a

abolição da pena de morte em matéria política e a supressão da escravidão nas colônias

francesas.31 A jornada de trabalho foi diminuída, sendo fixado um máximo de dez horas em

Paris e onze horas nas Províncias. Marco também importante foi o da criação dos Ateliês