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Volúpia do desejo por L P Baçan - Versão HTML

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Direitos exclusivos para língua portuguesa:

Copyright © 2007 L P Baçan

Pérola — PR — Brasil

Edição do Autor. Autorizadas a reprodução e distribuição gratuita desde que sejam preservadas as características originais da obra.

CAPÍTULO 1

Como médico, Richard Ball sabia os limites de sua resistência e não pretendia bater nenhum recorde enfrentando as pressões do dia-a-dia como um herói maluco.

Havia dito um basta. Era um humano, afinal. Tinha um cérebro privilegiado, mãos hábeis e um corpo bem cuidado, mas o trabalho ameaçava fazer disso uma ruína.

Cedo descobrira que um médico consciente e responsável como ele não podia ter horário.

Pouco a pouco estabeleceu-se, então, uma divisão que se acentuou com o passar dos anos.

De um lado o trabalho, monopolizando-o. De outro, a família, cada vez mais afastada.

Poderia ter sido diferente. Richard sabia, mas Lucy exigia aquilo dele, praticamente o empurrou para aquela roda-viva. Mais tarde, quando ela começou a sentir os resultados, entendeu que simplesmente perdera o marido.

Isso não a abalou, porém. Tinha vida própria, tinha o seu mundo particular, suas amigas, suas compras, talvez até seu próprio amante.

O que ela precisava de Richard ela possuía, agora. A situação privilegiada, o "status". O

dinheiro. De certa forma ele se revoltava contra isso, mas não havia como encontrar um minuto que fosse para falar com ela, tentar esclarecer o que se passava entre os dois.

Mas como, quando e onde encontrar a própria esposa, se seus horários eram tão desencontrados e se sempre havia um paciente necessitando urgentemente das mãos hábeis do maior cirurgião do pais?

Talvez não fosse apenas isso. Richard talvez conseguisse viver dessa forma, não fossem pequenos detalhes que se somavam, aumentando aquelas pressões todas.

Primeiro o filho, envolvido num processo por porque ilegal de drogas. Depois a filha envolvida com aquele playboy internacional. Como se não bastasse tudo isso, aquele processo estúpido sobre ele, responsabilizando pelo simples fato de haver salvo uma vida.

Era demais. Aos quarenta e cinco anos ainda se sentia jovem e reconhecia possuir todo o direito de pensar nele mesmo, pelo menos uma vez, pelo menos um dia.

Antes que seu cérebro se confundisse perigosamente, antes que suas mãos se tornassem trêmulas por constantes ataques nervosos, era preciso parar e se reencontrar.

Licenciou-se do hospital onde trabalhava. Seria, até, uma medida lógica, após aquele processo absurdo. A própria direção do hospital o tratava com reservas, agora. Seria prudente fazer aquilo.

Naquele dia, voltou para casa mais cedo. O silêncio da luxuosa mansão era repousante, mas intranqüilo. Ninguém da família para recebê-lo.

Era difícil para ele reconhecer, perceber a que fora reduzido. Sua importância ali dentro estava em sustentar tudo aquilo, em manter ativos aqueles cérebros que trabalhavam apenas em busca de caprichos.

Fechou-se em seu escritório. Simplesmente não sabia o que fazer em sua própria casa.

Mesmo ali, naquele canto reservado, com coisas pessoais, sentia-se deslocado.

Reclinou-se em sua cadeira e respirou fundo. Seus olhos foram pousar sobre o telefone.

Aquele maldito aparelho era a sua tortura, mas, naquele momento, Richard não o viu como um inimigo.

Como seus pacientes, que pediam socorro ao menor sinal de perigo, o telefone lhe sugeriu essa função. Sim, ele podia pedir socorro.

Inclinou-se e apanhou o telefone. Levou-o ao ouvido e ficou ouvindo o sinal característico, enquanto pensava em Sandra Mellroy.

— Sonhei com você ontem...

— Verdade? Como foi?

— Foi excitante e diferente. Eu estava numa sala... Era um apartamento, não o meu. Minhas coisas estavam esparramadas por todos os lados, eu não sabia por onde começar. Nisso a porta se abriu. Você entrou e não riu da minha cara desanimada. Aproximou-se lentamente, ajoelhou-se diante de mim e tomou minhas mãos entre as suas. Depois me perguntou se eu precisava de ajuda... Foi a coisa mais deliciosa que jamais sonhei...

— Você é fantástica, Sandra!

— Não lhe parece um sonho sugestivo?

— Sim, reconheço... Como vão as coisas?

— Como sempre foram, Richard. Como sempre foram...

Richard soltou o telefone, sem haver discado. Pensou novamente nas palavras de Sandra, naquele telefonema do começo da semana.

Ela falava nas estrelinhas, havia qualquer coisa entre eles, mas Richard fugia, sem saber o que o assustava nela. Talvez temesse um envolvimento perigoso. Sandra fora sua paciente, ele praticamente a salvara. Ela fora clara, mais tarde, ao afirmar que a vida dela pertencia a ele.

— Não, minha responsabilidade terminou, Sandra — dissera ele.

— Pelo contrario, você me devolveu a vida e é responsável por esse ato, Richard. Queria ou não, minha vida é sua, agora. Em todos os sentidos...

Parecera brincadeira, gratidão exagerada de uma paciente satisfeita, mas Richard comprovara, com o passar do tempo, que não fora nada daquilo.

Sandra falara sério. Telefonava sempre e era delicioso falar com ela. Foi algo que pouco a pouco começou a fazer parte da vida dele. Sandra se impôs, se introduziu, conquistou seu lugar, um lugar que Richard não podia dimensionar, mas que se mostrava, agora, naquele exato momento, algo importante.

Tinha uma semana, um mês, o tempo que quisesse diante de si. Investimentos bem acessorados garantiam sua vida tranqüila, mas a medicina era algo de que não poderia se divorciar.

Ingrata, às vezes, mas sempre compensadora em todos os sentidos, principalmente para ele, um nome que se impusera no conceito do país todo.

Aquele processo não iria abalar sua credibilidade, pacientes telefonavam emprestando sua solidariedade a ele, mas era, ainda assim, algo incomodo dentro dele.

Uma ingratidão a mais, um preço caro demais por uma decisão inadiável, de momento, fria como deveria ser. Não havia meio-termo naquele momento, naquelas condições, mas quem iria acreditar nele no tribunal quando aquele advogado espertalhão começasse a debulhar técnicas e nomes que, segundo ele, teriam solucionado o problema da melhor maneira?

Richard sabia que não fora assim. Aquele advogado procurara a família, acenara com a possibilidade de abiscoitarem alguns milhares de dólares e os convencera.

Mas não queria pensar naquilo. Era algo para mais tarde. Seu próprio advogado estava cuidando de tudo, ele que se preocupasse com a questão.

Richard queria pensar em Sandra, nas entrelinhas das conversas, nas promessas sugeridas, na paz que poderia obter se acreditasse no que ela poderia fazer por ele.

Voltou a apanhar o telefone. Dentro dele, como uma emoção maior, crescia a certeza de que precisava dela, que de alguma forma ela poderia ajudá-lo a se reencontrar, e se dimensionar em sua própria vida.

Sandra era morena, cabelos pretos e compridos, teimosos, um corpo esguio e cheio de juventude, uma tranqüilidade convidativa no falar. Seria bom ouvir de novo a voz dela, após aquela semana toda.

Ia discar, quando ouviu barulho de um carro chegando. Depois conversa, muita alegria por parte de um grupo de jovens que entrava com Ricky, seu filho.

Richard se levantou e abriu a porta de seu escritório, no momento em que o filho e os amigos entravam.

Ricky parou, surpreso, um ar de zombaria nos lábios, os olhos mal acreditando na presença do pai ali, àquela hora.

— Algum problema? — indagou Ricky e Richard gostaria de dizer a ele que os papéis estavam invertidos, que ele, como pai, deveria ter feito aquela pergunta.

— Não, tudo bem — respondeu simplesmente.

Ricky sorriu e convidou os amigos para subir. Os risos e as conversas perderam-se no corredor do andar de cima. Richard respirou fundo e voltou para o escritório, fechando a porta atrás de si.

Seus olhos foram diretos para o telefone. Sentia-se perdido. Precisava falar com alguém, comunicar sua decisão. A porta se abriu atrás dele e Karen, sua filha, sorriu para ele.

— Ricky me disse que estava aqui, eu precisava mesmo falar com você.

— O que houve? — indagou ele, como se percebesse que poderia desempenhar um papel importante entre aquelas paredes.

— Meu talão de cheques acabou sabe? Eu precisava fazer algumas compras e detestaria perder tempo indo até o banco...

— Quanto? — indagou ele, com resignação.

— Mil?

Richard preencheu o cheque. A garota agradeceu e saiu, sem nenhum outro comentário, quase atropelando Lucy, sua mãe, que entrava naquele momento.

A mulher percebeu a presença de Richard e foi ter com ele.

— Que surpresa! — disse ela, simplesmente.

— Decidi tirar umas férias...

— Que ótimo! Você estava mesmo precisando. Quer viajar?

— Não pensei ainda, mas acho que...

— Não esta semana que vem, por favor!

— Por que não?

— É o Bazar da Caridade, eu me comprometi... Vejo-o daqui a pouco. Tenho algo para fazer agora mesmo — sorriu ela, afastando-se esvoaçante e feliz.

Richard ficou olhando para a porta aberta, sem compreender realmente o que se passava com todos. Nenhuma menção a sua presença ali, ela em nada alterava a rotina da casa, em nada mudava o fluir dos acontecimentos.

A sensação de continuar sendo um corpo estranho e de que nada no mundo mudaria isso o fez apanhar o telefone com decisão.

Discou os primeiros números, depois hesitou. Não, não deveria ser daquela forma. A decisão era dele, apenas dele. Levantou-se e foi para o seu quarto, preparar suas malas.

***

John Marey olhou para sua esposa. O ventre volumoso anunciando a chegada do primeiro filho do casal o fazia se sentir um novo homem.

Inclinou-se diante dela. Sua mãos pousaram sobre o ventre dela, acariciando-o longamente.

Kitty baixou os olhos e ficou olhando os olhos dele, brilhantes, felizes.

— Como se sente hoje? — indagou ele.

— Ótima.

— E o bebê?

— Movendo-se bastante. Deve ser um menino, arteiro e irrequieto como o pai.

— John Marey Júnior — disse ele, começando a rir e abraçando-a.

Beijaram-se cuidadosamente. Kitty ria muito daquela gentileza exagerada da parte dele, daquele cuidado extremo com tudo que se relacionasse a ela e à criança.

Adorava-o por isso. Estava certa de que John seria um bom pai, tanto como era um bom marido.

— Escute, não vá se esquecer das recomendações do médico. Quando perceber qualquer coisa, devemos telefonar para ele. São cinqüenta quilômetros, ele vai ter que vir voando, por isso esteja atenta...

— Estarei, amor, estarei — sorriu Kitty, desmanchando os cabelos dele.

— Mesmo assim vou deixar o carro sempre pronto. Se houver qualquer problema, eu a levarei até a cidade. No hospital você terá todas as chances...

— Isso vai sair muito caro, John, já discutimos isso.

— Não se preocupe, eu vendo o carro depois. Eu o comprei para isso mesmo — sorriu ele, abraçando-a e beijando-a novamente.

***

A garçonete serviu o café com alguns bolinhos, depois depositou o papel com os preços e o total da conta. Steve olhou-a com interesse, apreciando aqueles seios fartos e aqueles quadris roliços.

Depositou uma nota de cinco dólares sobre o papel.

— Fique com o troco, beleza — disse ele.

Os olhos da garota agradeceram, brilhando felizes. Quando sua mão pousou sobre o dinheiro. Steve segurou-a e a manteve inclinada, aproveitando para olhar demoradamente aqueles seios tentadores.

— Se for tão bom nas outras coisas como o é nas mãos e nos olhos, posso até gostar de você — disse ela, com atrevimento.

Dodge riu alto, enquanto Steve, surpreso com a observação da garota, soltava-a e aplicava-lhe um tapa no traseiro. Ela riu também e se afastou rebolando as cadeiras com provocação.

— Garotas! Não se acha nenhuma decente — comentou Steve, tomando um pouco de café.

— Não numa espelunca como esta. Já estive num restaurante grã-fino, Steve. Que mulheres! Classe, entende? Classe mesmo.

— Depois que isso tudo acabar, é a primeira coisa que quero fazer. Visitar esse tal restaurante de que você tanto fala.

— Iremos, pode estar certo que iremos.

Os dois suspiraram e olharam para a janela. Do outro lado da rua, abrindo suas portas, estava o banco da pequena cidade.

Steve sugeria, Dodge bolara os planos. Estava tudo perfeito, perfeito até demais para um assalto numa cidade como aquela.

Dodge trabalhava na telefônica. Steve numa pedreira onde era um perito demolidor.

Juntando seus talentos, o plano tinha tudo para dar certo.

— Quanto acha que encontraremos ali? — indagou Steve, molhando um bolinho na xícara de café.

— Ei, nunca pense em fazer isso num restaurante chique! — repreendeu-o Dodge.

Steve soltou imediatamente o bolinho e enxugou os dedos na toalha da mesa.

— Está bem, eu sei que tenho muito que aprender, mas você vai me ensinar, não vai?

— Claro, amigão. Vamos ser os parceiros mais inseparáveis de todos os tempos.

— Você não disse ainda quanto vamos encontrar ali...

— Cinqüenta mil, cem mil, por aí.

— Puxa vida! Vai dar até para comprar o restaurante.

— Pode estar certo que sim.

Dodge tirou um papel de seu bolso e anotou qualquer coisa. Terminaram o café, depois deixaram a lanchonete e foram para o carro.

— Pronto? — indagou Dodge.

— Pronto! — respondeu Steve, ligando o carro.

Dodge tirou um cronômetro do porta-luvas. Steve respirou fundo, o pé pressionando o acelerador.

— Agora! — gritou Dodge.

O carro derrapou e os pneus fumegaram, ganhando rapidamente velocidade. Quando passaram diante da cadeia, o xerife saiu à porta e gritou qualquer coisa, correndo para o seu carro depois.

Dodge e Steve não se importaram com ele. Os olhos do motorista estavam fixos na ponte logo adiante. Ele sabia o quão importante era fixar um tempo exato.

— Muito bem, Steve! — disse Dodge, desligando o cronometro.

O carro-patrulhas vinha atrás deles a toda, as luzes acesas, a sirene ligada. Steve levou o carro para o acostamento após a ponte e sorriu. Quando desceu, o pé de Dodge continuou pressionando o acelerador, fazendo o motor rugir alto.

Steve abriu a tampa do cofre e inclinou-se. O carro-patrulha parou a sua frente e o xerife desceu.

— Desligue isso, seu maluco! — gritou ele.

Steve fez exatamente o que ele pedira. O xerife caminhou mais um pouco e inclinou-se para olhar Dodge, que sorriu, dando de ombros como se estivessem inocentes de qualquer acusação.

— Travou o acelerador! — disse, abrindo os braços.

CAPÍTULO 2

As malas estavam no carro, estacionado um pouco mais à frente. Richard estava na vitrine, olhando através dela. Lá dentro, leve e solta como a coisa mais viva e exuberante da natureza, estava Sandra.

Naqueles poucos instantes, Richard viu nela muito mais do que pudera ver desde que a conhecera. Parecia haver uma alma nova em seu corpo, fruto, talvez, de sua decisão. Por outro lado, um temor concreto, palpável, real, estranho, incomodava-o, mas não tinha importância.

Isso era um problema a ser enfrentado mais tarde. Naquele momento, ele apenas desejava aproximar-se de Sandra e comprovar de perto tudo o que descobrira e antever o que mais poderia ser descoberto.

Sandra era decoradora de interiores. Sua loja era muito procurada. Ela dissera, certa vez, que tinha mais trabalho do que poderia fazer.

Seria justo, então, propor aquilo que pretendia a ela? O que ela representava na vida dele?

Até o momento, apenas uma voz carinhosa... Uma voz especial... E o que ele representava para ela. Talvez a própria vida, como costumava dizer a garota.

Não sabia se tinha aquele direito. Estava deixando tudo para trás e precisava de uma amiga, de uma confidente, de alguém que o fizesse se sentir acompanhado realmente.

Riu de sua própria ironia. Para alguém acostumado a tomar decisões rápidas e agir da mesma forma, era um fracasso quando se tratava de resolver os próprios problemas.

Nunca saberia resposta alguma se não entrasse e indagasse a Sandra. O máximo que poderia acontecer seria uma recusa. Apesar de não estar em seus planos, isso poderia ser superado.

Logicamente não seria a mesma coisa. Sandra e ele tinham uma linguagem própria que poderia crescer, crescer muito. Isso espicaçava aquele temor dentro dele, mas, ao mesmo tempo, convidada-o a entrar.

Caminhou para a porta. Entrou e caminhou direto para ela. Sandra levantou os olhos. Seu rosto indicou surpresa, mas muita alegria também.

— Richard, que surpresa! Qual é o problema? Não devia estar no hospital? Venha sente-se... Você está muito bem...

O brilho daqueles olhos era algo que encantava Richard, que o seduzia, que o fascinava. A espontaneidade da garota, sua natural demonstração de carinho e sentimentos, tudo isso o envolvia.

— Estou saindo para umas férias... — gaguejou ele.

— Que ótimo! Gostaria de poder fazer o mesmo... Vai com a família? — indagou ela, em seguida, com certa reserva.

— Não, sozinho — respondeu ele, olhando-a nos olhos e buscando coragem para expor aquela idéia maluca, tentando dimensionar suas possibilidades.

— Vai ser bom, garanto — sorriu ela, confiante.

— Estou indo para Cron Rock, no sul, tenho uma casa de praia lá... Você...

Ela olhou-o em suspense, como que adivinhando a pergunta e suplicando para que ele a completasse.

— Você quer ir comigo? — conseguiu ele.

Sandra sorriu rapidamente, incrédula, realmente pega de surpresa. Talvez não houvesse nada do mundo que ela desejasse mais do que ouvir tudo aquilo dele.

Olhou aos eu redor. A loja estava cheia de clientes. Seus auxiliares talvez pudessem...

— Sim! — respondeu ela, olhando-o nos olhos. — Quando partimos?

— Agora mesmo.

— Agora? Que loucura! Preciso passar em meu apartamento, então, apanhar algumas roupas.

— Tudo bem.

Ela ainda o olhou por instantes, julgando viver um sonho, esperando que a qualquer momento Richard desaparecesse de sua frente, como costumava ser em suas fantasias.

Ele continuou ali, no entanto, olhando-a daquela forma estranha, mistura de suplica e alegria, como que pedindo socorro.

***

Steve terminou de fechar o segundo pacote, de onde saía um par de fios de cores diferentes. Em seguida, com um cuidado extremo, apanhou o relógio-detonador e ligou os fios aos terminais apropriados.

— Pronto — disse ele, enxugando o suor da testa. — Este é para a torre de rádio.

— Agora o próximo e último — disse Dodge, olhando-o por cima do ombro.

Steve apanhou um pacote de dinamite. Introduziu entre eles a espoleta, depois ligou os fios.

Depositou tudo dentro de uma caixa de sapatos e cobriu com serragem, deixando os fios para fora.

Passou-o por um buraco na tampa de papelão e fechou o pacote, amarrando-o cuidadosamente a seguir. Apanhou o relógio. Fez as ligações.

Respirou fundo, deixando que a tensão abandonasse seu corpo. Dodge, atrás dele, respirou igualmente aliviado e foi apanhar a garrafa de uísque.

— Isso merece um trago — disse, servindo dois copos.

— Estou com a garganta seca, realmente — riu Steve, olhando os três pacotes a sua frente.

Dois eram menores; o terceiro fora o último que ele fechara. Cada um deles tinha um lugar especial no plano que haviam elaborado.

Naquele época do ano não havia muitos veranistas em Corn Rock, mas era tempo da temporada de pesca. A fábrica de enlatados trabalhava a todo vapor. Todo o dinheiro dos pagamentos estava ali, no banco.

Tudo estava perfeito, não havia como falhar. Apanhariam o dinheiro e dariam um adeus definitivo àquela vidinha sem-graça de sempre. Seria um salto realmente emocionante para os dois.

Dodge foi se sentar à janela do quarto, olhando a rua tranqüila lá fora. A vida em Corn Rock, a não ser nos horários de entrada e saída dos empregados da fábrica de enlatados, era a mesma pasmaceira de sempre.

Nada acontecia e isso, com o tempo, acabava dando nos nervos de qualquer um. Estavam ali há três meses, mais ou menos. Haviam se encontrado por acaso num posto de gasolina na rodovia.

Estavam a caminho da cidade para se empregarem na fábrica de enlatados, mas durante a viagem, quando cada um soube da especialidade do outro, a idéia do assalto surgiu quase que naturalmente.

— Você pode sincronizar esses relógios realmente? Sem falhas? — indagou Dodge, voltando o rosto para o amigo que olhava fascinado os pacotes sobre a mesa.

— Moleza, Dodge! Moleza!

— Não está com medo, Steve?

— Deveria?

— Há um guarda armado lá.

— Já combinamos como nos livraremos dele.

— Também não pode falhar...

— Nada pode falhar, eu sei disso. Não haverá mortes ou violência. Apanharemos apenas o dinheiro e nada mais. Trancamos todo mundo e saímos a toda.

— Beleza! Nem Jesse James pensaria em algo assim...

Dodge voltou a olhar a janela, pensando no dinheiro e no que poderia comprar com ele.

Steve pensava apenas num restaurante chique, onde as mulheres tivessem classe, realmente.

***

Enquanto dirigia o velho trato, rasgando a terra e recolhendo a colheita, John Marey mantinha os olhos na casa, procurando nunca perdê-la de vista.

Seu extremo cuidado com Kitty o vinha pondo nervoso, tenso, mas valia a pena. Queria aquele filho a todo custo. Apesar das advertências do médico antes de Kitty engravidar, ambos haviam tomado a decisão.

Kitty talvez tivesse problemas durante o parto, mas o médico a conhecia e sabia o que fazer quando chegasse o momento. Ela era uma mulher corajosa, realmente corajosa. Aquele filho representava um esforço comum, o elo definitivo de ligação entre os dois.

John sonhava com colheitas melhores, um trator novo, o filho ajudando-o. Dois pares de braços fortes, naquelas terras, poderiam fazer milagre. Não era muita coisa, mas o bastante para um homem de bem construir seu castelo.

Ouviu barulho de um carro chegando, quando desligou o trato para enrolar um cigarro. Era o Dr. Mell chegando. Deixou o cigarro de lado e correu para casa.

— Como é que vão as coisas, John? — indagou o velho médico.

— Ótimas! Kitty está se sentindo muito bem...

— Isso é muito bom.

Kitty apareceu à porta, sorridente e volumosa, com muito orgulho do filho que carregava.

— Vamos ver como estão esses dois — disse o médico, sorrindo e caminhando para a porta.

John o seguiu, acompanhando atentamente todo o exame. Estava se familiarizando com tudo aquilo. Queria participar ao máximo, estar com Kitty em todos os momentos.

— Está tudo muito bem — disse o médico, ao fim do exame. — Vou deixar uma relação de coisas que você precisa comprar, John. Quero que as guarde bem, para o caso de precisarmos. Você tem um congelador, não?

— Sim, mas para que tudo isso?

— Para o caso de ser preciso, apenas isso — informou o médico, com um sorriso tranquilizador. — Você tem dinheiro para essas despesas?

— Já colhi alguma coisa, posso vender lá na cidade e comprar tudo que for preciso.

— Muito bem. Kitty continua com as vitaminas e aqueles exercícios. Vai ser muito bom para ela e para o bebê quando chegar a hora. Quanto a você, cuide bem de certas coisas que vai comprar. Elas deverão permanecer no congelador, de acordo com as instruções, entendeu bem?

— Claro, não se preocupe.

Após mais alguns minutos de conversa, o médico deixou a casa. A região era extensa e havia outros pacientes a sua espera.

Quando entrou no carro, ainda pensou se estava fazendo certo. John Marey era um bom homem, mas não tivera muita sorte com as colheitas. Tinha uma hipoteca, tinha despesas extras com Kitty.

Mandá-los para Corn Rock não seria a solução. Kitty talvez devesse ir para uma cidade maior, num hospital onde estivessem preparados para todas as emergências. Seira, porém, sujeitar John a um gasto insuportável para ele.

Tinha tudo sob controle, porém. A cada novo exame comprovara que Kitty tinha todas as condições de ter aquele filho em qualquer parte do mundo.

Estava tomando suas precauções. Era o máximo que podia fazer numa situação como aquela, sem forçar demais o pobre John. Daria certo, tinha certeza de que daria certo. Kitty era um mulher forte. Esperava que John fizesse tudo direito. Ainda voltaria ali antes do parto e se certificaria de que poderia estar tranqüilo.

A porta, John e Kitty acenaram, confiantes e felizes.

***

Sandra estava nervosa, perdida, tonta em seu apartamento. A alegria e a surpresa daquela viagem a faziam a mulher mais feliz da face da terra.

Não sabia ainda o que fizera Richard tomar aquela decisão, mas isso não importava realmente. Ela vinha esperando por aquela oportunidade há muito tempo. Teria a oportunidade, agora, de expulsar dos olhos dele aquela tristeza que sempre estivera ali, aquele ar de cansaço e tédio diante da vida e das coisas bonitas.

Pensava em todo o tempo que teriam juntos, nas oportunidade que surgiriam naturalmente naqueles momentos de intima convivência, enquanto decidia o que vestir para a viagem.

Tinha perguntas a fazer a Richard, tinha dúvidas a respeito dos reais motivos que o levaram a convidá-la, mas tudo isso ficaria para depois.

Despiu-se rapidamente, enquanto retirava um conjunto "jeans" de seu armário e o depositava sobre a cama. Onde deixara mesmo aquela sandália?

Apanhou um roupão e saiu para o corredor, movendo-se apressada até o aposento vizinho.

Encontrou o que procurava. Quando retornou ao seu quarto, Richard estava parado no fim do corredor, o ombro apoiado contra o batente da porta.

Ela sorriu. Richard quis sorrir, mas qualquer coisa forte agitou seus sentidos, enquanto seus olhos se fixaram no roupão mal fechado, na visão natural de um seio semi-descoberto, nas coxas que se mostravam parcialmente.

Desejou aquela mulher como quem deseja um copo de uísque num momento de sufoco.

Fogo circulou em suas veias e a sensação de que Sandra era a solução para alguma coisa que o incomodava atingiu-o em cheio.

Ela sentiu a intensidade daquele olhar. Pensou em se recompor, em cobrir-se, mas como fazer isso se também desejava aquele homem com todas as suas forças?

Não havia sido ele a figura central de sonhos e fantasias que haviam torturado suas noites de solteira? Não havia sido ele o nome que ela pronunciara para preencher o vazio de sua solidão, quando não havia nada ser feito ou lugar onde se ir?

Pararam frente a frente. Incrivelmente, Sandra teve medo daquele desejo nos olhos dele, medo de que tudo fosse uma mentira, um engano.

Queria Richard, mas o queria a seu modo, com a naturalidade das pessoas que se amam, que se precisam, que precisam se completar.

Richard endireitou o corpo, olhando-a demoradamente, Sandra lutou contra aquela sua contradição interior. Se Richard a tomasse nos braços naquele momento ela seria dele inteiramente, mas não seria tão bom como se dessem um pouco mais de tempo um ao outro.

Seu corpo ficou em suspense, enquanto ele a olhava, deslizando o olhar do rosto para os seios e para as pernas esculturais. Sandra sentia seu coração querer saltar do peito. Sua respiração era apressada e irregular. Como fogo, a respiração de Richard batia contra o rosto dela, ardendo-a.

Ele levantou as duas mãos e firmou-as junto ao rosto da garota. Depois inclinou o rosto e beijou-a delicadamente, com muita emoção.

Sandra sentiu um arrepio percorrer seu corpo e um alivio que a satisfez e contentou quando ele a soltou, olhando-a com o mais belo sorriso de ternura que ela jamais vira no rosto de um homem.

— Eu queria saber se estava certo — disse ele.

— E o que descobriu?

— Estou.

— Isso o faz feliz?

— Muito.

— Então fico feliz também — sorriu ela, armando-o um pouco mais naquele instante.

— Vá se aprontar. Quero estar em Corn Rock antes do anoitecer de amanhã Descansaremos e teremos um domingo inteiro para nos recuperarmos da viagem.

Sandra concordou com um movimento de cabeça e girou o corpo, dando alguns passos no interior de seu quarto. Qualquer coisa a fez estremecer. Ela se voltou e olhou-o, ainda parado à porta.

De que ela tinha medo, afinal? Ele não estava ali, não lhe dera uma prova enorme de ternura?

Correu para ele, deixando-se envolver apaixonadamente por braços fortes. Seus lábios buscaram os dele, extravasando um paixão que vibrava nela insuportavelmente.

Adorava aquele homem, ele era sua própria vida. Tinha-o agora. Talvez nunca sonhasse tê-

lo daquela forma, talvez nunca tivesse esperado uma chance como aquelas, mas não a deixaria passar.

Agora que o tinha, faria o possível e o impossível para conservá-lo. Sabia exatamente do que Richard precisava para ser um homem feliz, o seu homem feliz.

CAPÍTULO 3

Dodge se certificou de que Steve estava dormindo, depois saiu silenciosamente. Foi para a rua, apanhou seu carro e se afastou. Corn Rock poderia não oferecer, aparentemente, boas diversões para um homem, mas Dodge sempre tivera o espirito de um garimpeiro.

As pedras preciosas estavam em toda parte, bastava saber procurá-las. Ganhou a rodovia e não rodou mais que meia milha, até um motel. Estacionou o carro e foi direto para um dos quartos.

Bateu levemente, depois alisou os cabelos e recompôs a roupa. A porta se abriu lentamente e a figura seguia e fascinante de Ann Michell sorriu para ele.

— Olá! — disse ele, mal podendo conter sua emoção.

— Olá! — respondeu ela, afastando o corpo para que ele passasse.

Dodge entrou, examinando rapidamente o ambiente e se satisfez com o tamanho da cama.

O chuveiro ligado indicava que Ann tinha planos para logo mais.

— Demorei? — indagou ele.

— Acabei de chegar. Ia justamente tomar um banho... Tudo bem?

— Tudo bem.

— Steve desconfia de alguma coisa?

— De modo algum. Vai fazer a parte dele.

— Decidiram o dia?

— Segunda-feira, após o almoço.

— Ótima! Mal posso esperar para apanharmos aquele dinheiro e sumirmos para Nova Iorque. Você vai cumprir tudo que prometeu?

— E por que não? — respondeu ele, com malícia e desejo nos olhos, aproximando-se e enlaçando a garota pela cintura.

Olhou-a nos olhos. Ann era a própria imagem da tentação. O brilho de seus olhos espelhava sedução; a beleza de seu rosto arrastaria qualquer homem à traição mais avilante; estar com ela seria um inferno e um paraíso ao mesmo tempo, o tipo de vida que Dodge estava acostumado.

Mordiscou os lábios carnudos e sensuais da garota. Ela estendeu a língua e Dodge sugou-a, depois colou sua boca da jovem, num beijo sôfrego.

Ann era o próprio pecado naquele corpo esguio e perfeito. O roçar de seus quadris, o arranhar de suas mãos, o rouquejar de suas palavras, tudo isso provocava os instintos de Dodge ao extremo.

Beijou-a no pescoço e nos ombros, forçando as mangas do vestido dela. Ann deixou pender a cabeça para trás. Os cabelos caíam numa cascata dourada e brilhante. Seus lábios entreabertos indicavam o modo intenso como ela se entregava às caricias de um homem.

Uma das pernas da garota introduziu-se entre as de Dodge, roçando, ensaiando movimentos, sugerindo ação.

— Oh, Dodge! Vamos ser tão felizes! — declarou ela, pedindo uma pausa.

Dodge beijou-a no pescoço, junto à orelha, nos cabelos, depois apertou-a firme contra o corpo, desejando sentir todos os contornos macios daquelas carnes ardentes e irrequietas.

— Há bebida junto à cama. Preciso de um banho — disse ela.

Com esforço Dodge se separou dela. A excitação que o tomava de assalto quando junto daquela garota era insuportável. Ela parecia pôr fogo nas veias dele, assanhar-lhe todo o corpo, fazer vibrar todos seus nervos sensíveis.

— Prometo não demorar — disse ela, jogando-lhe um beijo.

Dodge sorriu, satisfeito e excitado, depois foi se deitar. Firmou os travesseiros contra a cabeceira e serviu um pouco de uísque. Tomou um golpe, depois pensou.

Era realmente um homem de sorte, de muita sorte. Encontrara o parceiro certo para o trabalho certo. Não bastasse isso, encontrara o tipo de mulher que um homem como ele precisava para se sentir vivo e ativo.

Haveria pequenas alterações nos planos mas Steve não precisava saber disso. Muito menos precisava saber que encontrariam mais de duzentos mil naquele banco.

Dodge já pensara no que fazer com aquele dinheiro. Não era estúpido, não iria sair por aí distribuindo dinheiro a todo garçom ou espertalhão que lhe surgisse pela frente.

Tinha planos sérios, planos definitivos. Lera muito sobre ações e investimentos. Duzentos mil dólares podiam permitir uma vida tranqüila.

Ouviu o barulho da água cessar. Inquietou-se, aquele fogo voltando a circular em suas veias, tomando conta de seus sentidos, entontecendo-o deliciosamente.

A porta do banheiro se abriu. A luz apagou-se. Na penumbra que dominou o aposento a seguir. Dodge apenas pôde vislumbrar aquele vulto esguio e nu que caminhava na direção do leito.

Sentou-se na cama. Tirou os sapatos, as meias e a camisa. Ann estava parada junto dele, um perfume de frescor e juventude chegando até Dodge, embriagando-o.

Lentamente ela se deitou. Dodge soltou o cinto da calça, depois chutou-a para longe. Girou o corpo e abraçou Ann, beijando-a febrilmente.

As mãos da garota avançaram pelo corpo dele possessivamente, retribuindo caricias.

— Acha mesmo que vai dar tudo certo, amor? — indagou ela, os lábios junto ao ouvido dele, fazendo-o arrepiar.

— Tranqüilamente, Ann — respondeu ela, as mãos descendo pelas costas dela até as nádegas, descobrindo pontos úmidos sobre a pele dela. — Você já conseguiu o outro carro?

— Sim, comprei-o hoje com o dinheiro que você me deu.

— Era tudo que eu tinha, mas vai valer a pena. Só nós dois e todo aquele dinheiro —

imaginou ele, a ponta da língua penetrando o ouvido de Ann, arrepiando-a e fazendo-a encolher-se toda.

Ele a abraçou com força e a puxou para cima de si, sentindo emoção no peso delicioso daquele corpo. Beijou-a no pescoço. Suas mãos escorregaram pelos flancos da garota, estendendo-se até as coxas sedutoras.

Ann sentia a excitação dele e provocou-o habilmente, girando os quadris. Seus lábios mornos e carnudos beijaram-no no pescoço e suas unhas arranharam os ombros dele.

Dodge arrepiou-se novamente. Aquela era uma perfeita mulher, capaz de empurrar um homem ao inferno, mas capaz de estar do lado dele no meio das chamas.

Tivera sorte em descobri-la. Toda aquela fogosidade e aquela disposição criminosa numa simples telefonista. Sim, agora os planos estavam completos. Com uma mulher como aquela e todo aquele dinheiro, Dodge estava preparado para fazer inveja ao homem mais feliz do mundo.

Enquanto pensava, suas mãos percorriam aquele corpo, gravando seus contornos preciosos, impregnando-se daquele perfume de sexo e tentação que o envolvia inapelavelmente.

Os lábios ofegantes e mornos da garota iniciaram uma escalada junto ao pescoço dele, subindo até o ouvido, acariciando-o com a língua, adiantando-se até os olhos para, finalmente, roçar os lábios dele com provocação.

Arrepios e estremecimentos tomavam conta do corpo dele, ensaiando um frenesi explosivo e contagiante. Suas mãos subiram pelas costas da garota, envolvendo-se em seus cabelos, firmando-a, atraindo-a para um beijo ávido e saboroso.

Ann agarrou-se a ele, esfregando seu corpo contra o dele, subjugada, ansiosa, inquieta, ofegante e trêmula, contagiada pela mesma sede de amar que explodia dentro dele.

Em movimentos furtivos, Dodge livrou-se da sunga. Seus corpos nus se esfregaram na mais livre volúpia, na mais desenfreada paixão.

Estabeleceu-se a confusão dos sentidos, e irrevogáveis atração, a desenfreada corrida a um objetivo único, onde beijos e caricias marcavam etapas que eram vencidas e anunciavam outras, num crescente apetite.

A excitação tomou conta de seus corpos inteiramente. Dodge girou o corpo, dominando-a, espalhando beijos sobre a pele úmida e perfumada. Suas mãos buscaram-lhe os seios para massageá-los carinhosa e possessivamente.

A fogosidade de Ann se traduzia em espasmos incontroláveis, em suspiros e gemidos que escapavam soltos de sua garganta, em mordidas e arranhões que desenhavam na pele de Dodge as mais deliciosas marcas do amor.

A incansável procura de sensibilidade que as mãos dele executavam sobre o corpo dela a punha em brasa. Em retribuição, suas mãos avançavam pelo corpo dele, desejando senti-lo e provocá-lo inteiramente.

Isso dava a Dodge um prazer extra, que se esmerava nas caricias mais alucinantes, fazendo-a ofegar mais forte e se contorcer.

Era um jogo livre, onde venceria aquele que mais desse, pois mais receberia. Alucinados e frenéticos, perderam a conta do tempo, até que seus corpos ditassem o momento da ansiedade maior, da loucura total.

Amante experiente, Ann preparou seu corpo para receber o de Dodge, fornecendo-lhe todos os encaixes, depois vibrando num gemido mais alto e deliciado quando ele a penetrou com força e potência.

Por momentos ela procurou apenas sentir aquela sensações que a alucinava, suplicando para que ela permanece indefinidamente naquele estágio.

Os movimentos dele, no entanto, arrancaram suspiros fundos e entrecortados, quase histéricos, da garota, que sentia aumentar aquele estágio de delicia a um ponto de total ebulição, quando seu corpo se faria liquido e vapor, misturando-se totalmente à natureza, incorporando-se a ela numa identidade perfeita e total.

***

O carro deslizava suavemente dentro da noite. O rádio ligado inundava de música, criando um ambiente tranqüilo e carinhosos entre os dois.

Ligeiramente voltada para ele, Sandra procurava penetrar na expressão séria de Richard, iluminada pela luz do painel do veiculo.

Richard, por seu turno, pensava apenas em como já se sentia melhor. Parecia estar renascendo, começando de novo, optando por um principio onde as experiências anteriores seriam válidas e úteis.

Aquele temor interior ainda permanecia. Ele sentia por Sandra e, talvez, pelos dois, mas aquele conceito estava dentro dele e era fatal, não havia contestação.

Um homem e uma mulher não podiam ficar juntos por muito tempo. Fatalmente acabariam se destruindo, como acontecera com ele e Lucy.

Como dizer isso a Sandra? Como dizer a ela que tudo aquilo por mais maravilhoso que fosse, teria de ser passageiro para ser indefinidamente bom?

Voltou-se e percebeu os olhos dela cravados nele.

— Cansada? — indagou ele.

— Um pouco. Só paramos para o jantar. Você não quer que eu dirija?

— Não, acho melhor procurarmos um lugar para passar a noite — respondeu ele, olhando-a rapidamente.

Em seus lábios ainda ardiam aqueles beijos trocados no apartamento dela, antes da saída.

Seu corpo parecia suplicar por uma emoção maior, desconcertante, talvez inédita para ele.

Sandra entendia a situação. Aceitara aquele jogo, aceitá-lo inteiramente. Apenas aquela pergunta continuava girando em sua mente. Não sabia até que ponto ela poderia encontrar uma repercussão negativa por parte de Richard, mas Sandra simplesmente precisava fazê-la.

— Dê uma olhada no mapa, veja se há algum motel recomendável logo à frente — pediu ele.

Sandra abriu o porta-luvas, apanhou o mapa e a lanterna. Examinou o roteiro que Richard havia assinalado até Corn Rock . Olhou pela janela, certificando-se de sua localização atual.

Havia um motel logo à frente, a menos de cinco milhas. Ia responder, mas aquela pergunta se intrometeu e precisava ser respondida, antes de mais nada.

Disso dependeria todo o comportamento de Sandra e dos dois a partir do momento em que estivessem sozinhos num quarto de motel.

— Richard, o que espera de tudo isso realmente? — conseguiu ela, afinal.

A fisionomia dele continuou imperturbável. Apenas uma ligeira alteração, a seguir, demonstrou que ele pensava no assunto.

— Não sei ainda, Sandra.

— Não sabe?

— Não.

— Sua família, seu trabalho, tudo, enfim, como ficarão?

— Para trás, no momento. Gostaria de não comentar isso. Prefiro que falemos do que temos à frente.

— E o que temos à frente?

— Bons momentos, Sandra. Bons momentos.

— E o que esse bons momentos querem dizer exatamente?

— Não diga que não entendeu...

— Está falando apenas em sexo?

— E em que mais deveria falar?

— Em termos de nós dois... Como eu fico nessa historia toda depois...

— Talvez não haja um depois, Sandra. Vamos deixar acontecer, vai ser bom e inesquecível...

— Não está pretendendo me dizer que depois disso cada um irá para os eu lado e...

— Há um meio melhor de tornar tudo inesquecível?

— Richard! Pensei que... Que houvesse uma chance para nós dois, que você tentasse...

— Se você me provar que um homem e uma mulher podem ficar juntos sem se destruírem mutuamente, eu...

— Richard, que absurdo! O que fizeram com você, amor! — exclamou ela, apertando-se inesperadamente contra ele.

Ele passou um dos braços pelos ombros dela, apertando-a contra si, desejando entender o exato significado das palavras delas.

Sandra entendeu perfeitamente o que se passava com o homem ao seu lado. Haviam magoado terrivelmente sua existência, o casamento não lhe fora uma experiência agradável.

Os conceitos dele a esse respeito estavam instalados sobre bases falsas. Ele não podia generalizar, simplesmente em função de um fracasso.

Não quis mais tocar no assunto. Sabia exatamente o que teria de fazer. Não entendia nas palavras de Richard um desestimulo, uma negativa ao futuro.

Pelo contrario, ao pedir aquela prova, Richard nada mais fizera que deixar entender que, no fundo, ainda acreditava numa possibilidade.

Sandra decidiu que provaria, de algum modo, que um homem e uma mulher, vivendo juntos, não precisam ser, necessariamente, dois inimigos.

***

A viagem de volta havia sido lenta, assim como a ida. John parecia preocupado com cada buraco da estrada, com casa desnível que pudesse provocar um solavanco maior.

Kitty ria daquela preocupação.

— Vocês homens nunca poderiam ser mães — disse ela, quando chegaram de volta.

— Por que diz isso? — indagou ele, sem entender.

— Esqueça, bobão!

— Espere, vou ajudá-la a descer — disse ele, saltando rapidamente.

Kitty não lhe deu ouvidos e, apenas para brincar com o zelo excessivo do marido, abriu a porta e desceu tão lépida quanto lhe permitia seu ventre.

— Kitty, sua maluca! — disse ele, segurando-a pelos ombros.

— Tudo bem, John. Não vou explodir a qualquer momento, se é disso que tem medo.

— Não faça isso, por favor! Talvez eu exagere, mas é assim que a vejo, Kitty. Você é preciosa demais para mim. Eu não poderia viver sem você ou sem a criança, agora —

confessou ele, estreitando-a entre seus braços.

Um beijo carinhosos foi trocado pelos dois. Por momentos John sentiu acesa aquela chama ardente que sempre brilhara, entre os dois, mas as recordações do médico, principalmente naqueles últimos dias, apagaram qualquer resquício de desejo ou paixão.

CAPÍTULO 4

Havia certo constrangimento entre eles, apesar da intimidade aconchegante daquele quarto de motel. Richard a desejou, mas sem pensar em qualquer tipo de compromisso. Desejou-a por estar ali, por ser bonita e agradável, por ter algo a dar a ele.

— Eu vou tomar um banho — disse ela, antecipando-se a ele e apanhando sua mala.

Levou-a para cima da cama. Abriu-a. Richard vagou pelo aposento, olhando detalhes comuns da decoração. Nada de especial, mas tudo muito bem arrumado e higiênico.

Olhou Sandra e teve desejo de abraçá-la e esfregar seu corpo ao dela, mas não viu razão para quilo. Era seu desejo apenas.

Talvez estivesse cansado. Haviam viajado muito. Por momentos Richard parou e pensou no que estava fazendo. Seus motivos pareciam se diluir em seu cansaço, deixando-lhe apenas a vaga noção de que não estava sendo sincero.

Sandra endireitou o corpo e olhou-o. Estava cansada também. De certo modo, as palavras dele na última conversa haviam magoado um pouco a garota, apesar de ter feito tudo para disfarçar isso.

Não vacilava, não se arrependia. Apenas tentava aceitar os motivos de Richard para trazê-

la junto. Sandra queria algo mais sólido ou mesmo uma esperança, que fosse. Olhou-o nos olhos e viu cansaço e confusão.

Sorriu ligeiramente e passou por ele, a caminho do banheiro. Ao fechar a porta, Sandra olhou o trinco. Aquele simples detalhe ganhou uma importância enorme para ela.

Era quase como uma decisão. Fechá-lo seria barrar uma intimidade que, fatalmente, acabaria surgindo entre eles. Deixa-lo aberto seria aceitar as condições de Richard, os motivos dele, seu modo de encarar e entender aquele relacionamento.

Talvez estivesse apenas sendo tola. Sempre sonhara com algo assim na companhia de Richard. Em suas fantasias, nunca fizera exigências alguma. Apenas o aceitava.

Havia, porém, por mais que tentasse minimizar, uma diferença enorme. Não se tratava agora de uma fantasia. Richard estava ali, do outro lado da porta e talvez o próximo gesto dela significasse muito para ele.

Respirou fundo e deixou o trinco aberto. Foi para o box e regulou a temperatura da água.

Depois começou a se despir lentamente.

Ao deixar a água morna cair sobre seu corpo, Sandra sentiu como que choques elétricos sensibilizando-a. Macia e constante, a água formou correntes sobre sua pele, juntando-se e dividindo-se em cascatas que segredavam volúpia.

No quarto, Richard foi até a pequena geladeira e apanhou gelo e uísque. Misturou um pouco de água no copo e depois caminhou pelo aposento.

Parou diante da porta do banheiro. O barulho da água lá dentro sugeria encontros e ações que embriagavam seus pensamentos de homem.

Empurrou ligeiramente a porta. Sem ruído ela abriu-se e deixou ver a silhueta escultural contra o vidro fosco. Eram movimentos suaves e femininos, elegantes ao extremo, alguns provocantes pelas sugestões que inspiravam.

Richard sentiu qualquer coisa latejar em sua cabeça, como uma leve e deliciosa vertigem.

Endireitou o corpo. Tomou um pouco mais de uísque.

O cair da água insinuava um fim de caricia e Richard invejou aquelas gotas pela caminhada e pelas descobertas que haviam feito.

Em sua mente, o fato de estar livre o trinco da porta ganhou significado. Ele julgara haver perdido qualquer coisa com ela, quando daquela ultima conversa.

Talvez o que dissera, mas não podia voltar atrás. Não queria mentir, pelo menos para Sandra. Era um fato, era o que ele sentia e ela precisava saber.

Talvez fizesse diferença daí para frente, mas Richard talvez quisesse expulsar de dentro de si aquela sensação de não haver sido sincero com ela.

O barulho da água cessou. Richard estremeceu, hesitado. Estendeu a mão e puxou lentamente a porta, fechando-a. Depois foi depositar sua mala sobre a cama e apanhar suas roupas.

***

Quando John terminou de guardar tudo, foi até o quarto, onde Kitty repousava. Apesar de ligeiramente cansada. Kitty se sentia muito bem e demonstrou isso num sorriso confiante.

— Guardou tudo?

— Sim, guardei. Gastei um bocado de dinheiro... Não posso entender porque o doutor quis assim...

— Ele deve ter seus motivos e você não gastou tanto assim — desmentiu ela.

— Quando se tem pouco, qualquer gasto é demais — disse ele, mas sem ressentimento ou mágoa.

— Chorão! — repreendeu-o ela, fazendo um sinal para que ele fosse se sentar ao lado dela.

— Pense nos motivos e verá que vale a pena.

— Claro que sim — sorriu, ele, estendendo a mão e tocando o ventre da esposa.

— O que faremos coma quilo se não for preciso?

— Guardaremos para o próximo.

— O próximo? Você... — riu ele, abraçando-a e beijando-a.

Qualquer coisa se agitou mais forte no ventre de Kitty, quase apagando repentinamente o sorriso de seus lábios. Fora uma contração estranha, ligeiramente dolorida, como se qualquer coisa houvesse se distendido dentro dela.

— Algo errado? — indagou John.

— Acho que ele chutou com mais força agora...

— Descanse. Você precisa repousar muito. Vou preparar o jantar? Alguma coisa especial?

— Panquecas com creme, pode ser?

— Panquecas com creme... Uma ou duas porções?

— Duas, uma para mim, outra para ele — explicou ela, apontando para seu ventre.

Riram juntos.

***

Dodge abriu a lata de cerveja, depois voltou para a cama. Ann estava deliciosamente enrolada no lençol. Uma de suas pernas, no entanto, estendia-se com provocação para fora da cama.

Ele se sentou ao lado dela. Tomou um gole de cerveja espalmou uma das mãos sobre o joelho da garota, iniciando uma caricia que avançou até a coxa de Ann, que o olhava com um sorriso malicioso nos lábios.

O calor daquela pele contagiava os dedos de Dodge. Ann estendeu uma das mãos, pedindo a lata de cerveja. Dodge passou-a para a garota, depois inclinou-se e depositou seus lábios pouco acima do joelho da garota.

Ann tomou um gole de cerveja e fechou os olhos. A respiração de Dodge progrediu sobre a perna dela, enquanto aqueles lábios avançavam um pouco mais sobre a pele da jovem.

— Você trouxe o que pedi? — indagou ele, endireitando o corpo e olhando-a diretamente nos olhos.

— Sim, estão em minha bolsa, mas confesso que não gosto da idéia.

Dodge tomou-lhe a cerveja da mão e se levantou. Foi até onde Ann havia deixado a bolsa e abriu-a. Sobressaindo-se das demais coisas, havia uma caixa amarela.

Ele a tirou e voltou para a cama. Abriu a caixa e esparramou uma porção de cartuchos recém-carregados.

— Onde os conseguiu? — indagou Dodge.

— Slim os preparou, você o conhece, é da manutenção e Reparos. Ele gosta de caçar e tem todo o equipamento em casa. Perguntou-me se eu pretendia matar algum elefante.

— Realmente não, mas isso pode nos ser útil — disse ele.

— Por que você não os podia comprar simplesmente?

— Não queremos deixar pistas, nada que se ligue a nós em relação àquele assalto.

— Por que não me conta todos os planos? Eu sou muito curiosa a esse respeito, sabia?

— Quanto menos souber, melhor para você e para nós — disse ele, com seriedade.

— Talvez eu possa ajudá-los em alguma coisa, uma sugestão, uma idéia, um palpite... Além disso, não se esqueça de que estamos juntos e você tem que confiar inteiramente em mim.

— Não! Basta que você faça a sua parte.

— E quanto ao Steve?

— É como eu disse, precisamos de todo aquele dinheiro só para nós. Não se esqueça de exibir seu novo carro e de dizer a todos que iremos a um piquenique na segunda-feira, aproveitando nossas folgas semanais. E consiga-me uma duplicata das chaves do carro do Sr.

Slade. É o mais veloz que temos por aqui.

— Não será difícil. Ele as deixa em sua mesa, quando vai para o trabalho.

— Tem certeza de que pode fazer isso?

— Deixe comigo! Você não sabe a garota que tem — disse ela, sorrindo misteriosamente.

— Será? — riu ele, descobrindo lentamente aquela coxa carnuda e tentadora, até que seus olhos tivessem uma visão completa do triângulo sedoso.

Apanhou a cerveja e tomou mais um gole. Estendeu a lata na direção de Ann.

— Mais um pouco? — indagou ele.

— Não — respondeu ela, uma das mãos tateando a parede à procura do interruptor do abajur.

***

Richard se sentia ridículo vestido daquela forma, enquanto Sandra vestia apenas seu negligé. Talvez fosse força do hábito, talvez ainda precisassem de mais tempo para que uma intimidade verdadeiramente natural se estabelecesse entre eles.

Haviam terminado o lanche. Sandra levou a bandeja para cima da geladeira, depois parou por instantes para afastar a cortina e olhar pela janela.

— O tempo deve estar bom em Corn Rock — comentou ela, na falta de qualquer coisa mais significativa.

O que não podia suportar mais era aquele silêncio que parecia gritar que toda aquela aventura estava se tornando um erro para os dois.

Richard não sabia ainda o que queria. Isso deixava Sandra confusa a respeito de como conduzir aquele relacionamento. Era inegável que seu desejo maior era libertar-se de todo aquele constrangimento e dar vazão aos sentimentos que fervilhavam dentro dela.

Aquele homem significava muito para ela. Amava-o. Fora um amor nascido do própria desespero, do temor à morte, da confiança última que depositou nas mãos de alguém e se viu atendida.

Querer Richard se tornara um hábito na vida dela, uma razão, talvez, de viver, um objetivo que, por ser inatingível, a havia tentado tanto.

Tantas águas pareciam haver passado e, de repente, inesperadamente, ela se via frente a frente com ele, encarando-o diretamente, esperando dele qualquer coisa mais concreta que reticências e apelos velados ao telefone.

Estava disposta a tudo. Talvez devesse encarar tudo aquilo abertamente e procurar aproveitar aqueles momentos da forma como sempre desejava fazê-lo.

Não importava como terminaria, não importava como Richard reagiria mais tarde. Era certo que Sandra esperava muito dele, mas talvez devesse lhe dar mais algum tempo. Nisso poderia estar aquela prova que ele desejava.

Por momentos sentiu pena de Richard e aborreceu-se com isso. Não devia se sentir assim em relação a ele. Deveria desejá-lo abertamente, provocá-lo, excitá-lo, fazê-lo reagir como homem que a amava nos sonhos dela, como o homem ardente que preenchia suas noites de insônia com as sensações mais intimas e vibrantes que poderiam percorrer um corpo de mulher.

Voltou-se para ele. Em silêncio, estendido sobre a cama, mãos cruzadas atrás da cabeça.

Richard a olhava. Ele também sentia aquele clima de afastamento entre eles.

Não deveria ser daquela forma e ele sabia que o culpado era ele. Talvez Sandra não entendesse, mas não era fácil para ele, naquele momento, estar com ela.

Richard procurava romper com uma série de coisas. Julgara ser fácil como dizer um basta, mas não era assim. Seus pensamentos dançavam entre Sandra, sua esposa, o filho irresponsável e a filha igual à mãe.

De alguma forma eles faziam parte da vida de Richard, estiveram nela durante muito tempo.

Esquecê-los simplesmente não era apenas uma questão de vontade.

Talvez devesse expor tudo isso a Sandra, mas já fora sincero demais por um dia e sabia que a havia magoado foi confundido por isso.

Apenas a olhou, então, e seu olhar traduziu um apelo que nem o próprio Richard podia dimensionar. Ele queria alguma coisa de Sandra, alguma coisa muito importante para ele.

Talvez apoio, talvez orientação, talvez amor.

Aos olhos apaixonados de Sandra, aquele olhar perdido de Richard teve sentido. Por instantes ela pensou em tudo que sabia sobre ele.

Era uma tarefa difícil, reconheceu ela, mas conquistaria aquele homem. Amava-o e o faria por isso. Devolver a ele a espontaneidade, a naturalidade, a beleza dos sentimentos sem repressão, tudo isso se fez desejoso dentro dela.

— Você é corajoso, Richard! — disse ela, com um sorriso sincero nos cantos dos lábios.

— Corajoso? Por que disse isso?

— Porque você é corajoso e acho que eu também sou corajosa.

— Em que sentido?

— Pelo simples fato de estarmos aqui...

Ele sorriu quase com ironia, reconhecendo que sua performance não era das mais românticas ou corajosas.

— Falo sério — afirmou ela, caminhando na direção da cama e se sentando ao lado dele.

— Você sempre me fascinou. Sandra, e me amedrontou também.

— Eu o amedrontei?

— Sim...

— Então você é mesmo um corajoso. Está aqui comigo, não? Mesmo que se sinta deslocado, perdido, confuso, constrangido, estamos aqui e isso foi uma escolha nossa. Já pensou nisso, Richard? Já pensou no que me faz estar aqui com você ao invés de estar em Nova Iorque pensando em minhas clientes e no meu trabalho?

Richard a olhou nos olhos. Os olhos de Sandra brilharam e seu rosto ganhou uma expressão firme e forte, quase dominadora, levemente severa.

— Estou confuso, Sandra — reconheceu ele.

— Abra-se então, Richard. Não estou aqui apenas por estar. Quero ver um motivo em minha permanência ao seu lado, em sua escolha por mim.

Richard tentou, então, exprimir em palavras toda aquela tormenta confusa que se agitava dentro dele, mas pouco a pouco foi sentindo o que tudo aquilo era desnecessário, que a situação não teria sentido como desabafo, que Sandra nunca poderia se julgar uma muleta na vida dele.

Ela estava ali por motivo especial. Richard não sabia ainda que aventura era aquela, que fuga era aquela. Queria aquela mulher, queria a suavidade de sua voz, queria seu amor contido e sincero porque precisava de tudo isso.

Talvez fosse o sentido da vida dele, o oásis de suas tormentas, a tranqüilidade de suas preocupações. Fosse uma aventura passageira ou uma paixão que se contentaria com encontros ocasionais, não importava.

O que realmente valia era que haviam começado algo. Uma espécie de jogo com regras próprias e Richard as estava burlando agindo do modo como agia com Sandra.

Aquele desejo inicial de atirar-se ao acaso, de peito aberto em qualquer direção, esperando encontrar o que procurava, ganhou vida novamente dentro dele.