Vontade de potência por Friedrich Nietzsche - Versão HTML

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Friedrich Wilhelm Nietzsche

V O N T A D E D E P O T Ê N C I A

Ensaio de uma transmutação de todos os valores

Esboço de um prólogo

As grandes coisas exigem silêncio, ou que delas falemos com grandeza: com grandeza significa: com

cinismo e inocência1.

Narro aqui a história dos dois séculos que virão. Descrevo o que virá, o que não mais deixará de vir:

a ascensão do niilismo. Desde já esta página da história pode ser contada: porque, no caso presente, é a

própria necessidade que a produzirá. O futuro fala desde já pela voz de cem signos, a fatalidade anuncia-se

em toda a parte; para entender esta música do futuro todos os ouvidos já estão atentos. A civilização européia

agita-se desde muito sob uma pressão que vai até a tortura, uma angústia que cresce em cada década, como se

quisesse provocar uma catástrofe: inquieta, violenta, arrebatada, semelhante a um rio que quer alcançar o

término de seu curso, que não reflete mais, que teme até refletir.

Quem toma qui a palavra nada mais fez, até o presente, que meditar e recolher-se como

filósofo e como solitário por instinto, que encontrou proveito fora da vida, apartado dos homens, na paciência,

na contemplação, no retiro; qual um espírito audaz e temerário que várias vezes se descaminhou pelos

labirintos do futuro, qual um pássaro profético que dirige seus olhos para trás quando descreve o que

pertence ao futuro, o primeiro niilista perfeito da Europa, mas que ultrapassou o niilismo, tendo-o vivido em

sua alma – e vendo atrás de si, abaixo de si, longe de si2.

Não nos enganemos quanto ao sentido do título que quer tomar este evangelho do futuro. “Vontade

de Potência. Ensaio de uma transmutação de todos os valores” – nesta fórmula expressa-se um

contramovimento, quanto à origem e à missão; um movimento que, num futuro qualquer que seja, substituirá

o niilismo total; mas que admite sua necessidade, lógica e psicológica: que absolutamente virá depois dele e

por ele. Por que se impõe desde já a vinda do niilismo? Porque precisamente foram os valores, predominantes

até o presente, que no niilismo alcançaram as últimas conseqüências; porque o niilismo é o último limite

lógico dos grandes valores e de nosso ideal; porque precisamos transpor o niilismo para compreendermos o

verdadeiro valor dos “valores” do passado... Não importa qual seja esse movimento, dia virá em que teremos

necessidade de valores novos...

1 Nietzsche não emprega aqui o termo cinismo na acepção pejorativa comum, mas no sentido filosófico-ético do desprezo às convenções

da opinião pública e da moral. Esta acepção é a decorrente da escola de Antístenes, ou escola Cínica. Ao jogar juntos os dois vocábulos:

“cinismo e inoc6encia”, Nietzsche caracteriza, de antemão, seu espírito dialético e polêmico: falar com cinismo significa: sem se

preocupar com as convenções. E com inocência, significa, sem segundas intenções, com clareza, pureza e dignidade

2 Nietzsche já se confessa niilista. Segundo sua análise, podemos dividir os niilistas em positivos e negativos, e a estes, subdividi-los em

ativos e passivos. Assim o próprio Nietzsche é um “niilista positivo e ativo”, contrastando com os cristãos que são “niilistas negativistas

passivos”, ou os socialistas da esquerda, que são “niilistas negativistas ativos”. Essa classificação é puramente exemplificativa. No

entanto, convém esclarecer que o sentido de negativo ou positivo se relaciona com o impulso de vida ou de morte, na atuação das

doutrinas ou pessoas. Para Nietzsche, predominam os impulsos de morte sobre os de vida, tanto no cristianismo como no socialismo. A

interpretação de Lichtenberger, que viu em Nietzsche um negativista ativo, não procede, a não ser julgado do ponto de referência cristão.