Wakefield por Nathaniel Hawthorne - Versão HTML

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Nathaniel Hawthorne

(Inglaterra, 1804-1864)

Wakefield

Numa velha revista ou jornal, lembro haver lido uma história, contada

como verdadeira, de um homem – vamos chamá-lo de Wakefield – que se

afastou voluntariamente por um longo tempo de sua esposa. O fato, visto assim

de maneira abstrata, não é propriamente incomum e nem deve – sem uma

conveniente distinção de circunstâncias – ser condenado por maldade ou por

disparate. Seja como for, ainda que distanciado de outros piores, este é talvez o

mais estranho exemplo, em registro, de delinqüência marital; e, além do mais,

um capricho entre os mais notáveis que se possa encontrar na lista das

extravagâncias humanas. O casal vivia em Londres. O marido, a pretexto de ter

que viajar, alugou um aposento em rua próxima de sua própria casa, e ali, sem

que a esposa e os amigos o percebessem, e sem qualquer justificativa para o

autodesterro, viveu afastado por mais de vinte anos. Durante esse período, ele

olhava o seu lar a cada dia, e com freqüência avistava a abandonada senhora

Wakefield. E depois de tão grande vazio na sua felicidade matrimonial –

quando sua morte já era dada por certa, sua herança dividida, seu nome

apagado das memórias, e sua esposa há longo, longo tempo resignada à outonal

viuvez – ele entrou pela porta uma noite, tranqüilamente, como se houvesse

estado ausente apenas um dia, e se tornou um esposo dedicado até morrer.

Este resumo é tudo que lembro. Mas o incidente, ainda que da mais pura

originalidade, sem precedentes, e que provavelmente nunca virá a ser repetido,

é daqueles que, penso eu, despertam a geral simpatia da humanidade. Sabemos,

cada um por si, que nenhum de nós seria capaz de cometer tal loucura,

entretanto sentimos como se alguns outros pudessem fazê-lo. Em minhas

próprias reflexões, pelo menos, o assunto tem voltado muitas vezes, sempre

prodigioso, mas com uma sensação de que a história deve ser verdadeira e com

um conceito do caráter de seu herói. Sempre que temas tão envolventes afetam

a mente, o tempo não é perdido quando se pensa neles. Se o leitor quiser

escolher, poderá fazer suas próprias meditações; mas se preferir divagar comigo

ao longo dos vinte anos de excentricidade de Wakefield, eu lhe dou as boas-

vindas; confiando que, ainda que falhemos em encontrá-los, haverá uma moral

e um espírito penetrante sinceramente elaborados e sintetizados na sentença

final. O pensamento sempre tem sua eficácia, e todo incidente notável sua

moral.

Que tipo de homem era Wakefield? Somos livres para dar forma à nossa

própria idéia e chamá-la pelo nome dele. Estava agora no meridiano da vida; as

afeições conjugais, nunca violentas, permaneciam serenas, num sentimento

calmo e habitual. De todos os maridos, é provável que fosse o mais constante,

pois uma certa indolência mantinha o seu coração em repouso, onde quer que

estivesse. Era intelectual, mas de modo não ativo; ocupava a mente em

demorados e preguiçosos devaneios, sem propósito definido ou sem vigor para

atingí-lo. Seus pensamentos só raras vezes tinham energia para estruturarem-se

em palavras. A imaginação, na significação própria do termo, não alcançava os

dons de Wakefield.

Tendo um coração frio, mas não corrompido nem errático e um espírito

nunca afetado por pensamentos tumultuosos, nem aturdido por originalidades,

quem poderia prever que o nosso amigo iria posicionar-se num lugar de

destaque entre os realizadores de façanhas excêntricas? Se fosse perguntado a

seus conhecidos quem era, em Londres, o homem mais certo para não fazer

algo hoje que pudesse ser recordado amanhã, eles teriam pensado em

Wakefield. Só a esposa de seu coração teria hesitado. Ela, sem necessidade de

analisar seu caráter, estava parcialmente consciente de um silencioso egotismo

incrustado na mente passiva – de uma peculiar espécie de vaidade, seu atributo

mais embaraçoso – de uma disposição para a astúcia, que raramente produzia

efeitos mais positivos do que guardar insignificantes segredos, demasiado

triviais para serem revelados – e, finalmente, do que ela chamava “uma

pequena esquisitice”, às vezes, no bom homem. Esta última qualidade é

indefinível e talvez não existente.

Vamos agora imaginar Wakefield despedindo-se de sua esposa. É o

crepúsculo de uma tarde de outubro. Sua bagagem se compõe de um sobretudo

pardacento, um chapéu de oleado, botas altas, um guarda-chuva numa das

mãos e uma maleta na outra. Informa à senhora Wakefield que pegará o coche

noturno para o campo. De boa vontade, ela deveria indagar sobre a duração da

viagem, o objetivo dela, e o tempo provável para o retorno; no entanto,

tolerante com o inocente amor do marido pelo mistério, interroga-o apenas com

o olhar. Ele lhe diz que não espere com certeza pela volta do coche, nem ficasse

alarmada se ele tiver que se demorar por três ou quatro dias; mas que, em todo

caso, podia contar com ele para o jantar na sexta-feira à noite. O próprio

Wakefield, isto deve ser levado em consideração, não tem a menor suspeita do

que vai acontecer. Ele adianta as mãos; ela estende as suas próprias e recebe o

beijo de despedida ao modo rotineiro de um casamento de dez anos. E o senhor

Walkfield, de meia-idade, segue em frente, quase decidido a desnortear sua boa

esposa com uma ausência de uma semana inteira. Depois de fechada a porta

atrás dele, a senhora Wakefield percebe que esta se entreabre novamente e uma

visão do rosto de seu marido reaparece através da abertura, sorrindo para ela, e

isso dura apenas um momento. Em suas múltiplas meditações ela circunda esse

sorriso original com uma profusão de fantasias, que o fazem estranho e terrível.

Se, por exemplo, ela imagina o marido num ataúde, aquele olhar de despedida

mantém-se gélido no rosto pálido; ou, se acaso sonha que ele está no céu, o

abençoado espírito ainda mostra um sorriso tranqüilo e astucioso. Contudo, no

seu interesse, quando todos os demais o têm julgado morto, ela às vezes duvida

se é uma viúva.

Mas, o nosso assunto é com o marido. Devemos correr ao seu encontro,

acompanhá-lo pelas ruas, antes que perca a individualidade e se desvaneça na

grande massa da vida de Londres. Seria inútil procurá-lo aí. Por isso, vamos

seguí-lo bem de perto, até que, após vários giros e voltas supérfluos, o

encontramos confortavelmente instalado a frente da lareira, no pequeno

aposento já mencionado. Ele está na rua seguinte à de sua própria casa e no

final de sua viagem.

Dificilmente pode atribuir à boa sorte o fato de haver chegado ali sem ser

visto – recordando que, em dada ocasião, foi retardado pela turba, ao ficar sob o

foco de luz de uma lanterna; e, de outra feita, escutou pisadas que pareciam

seguí-lo, pisadas diferentes do caminhar habitual da multidão ao redor; e, logo

depois, ouviu uma voz distante que gritava e ele imaginou que chamava pelo

seu nome. Sem dúvida, uma dúzia de pessoas apressadas e curiosas deveria tê-

lo visto e ido contar tudo para a esposa. Pobre Wakefield! Quão pouco sabes do

brilho de tua própria insignificância neste vasto mundo! Nenhum olho mortal,

exceto o meu, seguiu tuas pegadas. Vá tranqüilamente para a cama, homem

insensato; e, pela manhã, se fores sábio, retorna para casa, para a boa senhora

Wakefield e conta a ela a verdade. Não te afastes, nem mesmo por uma semana,

do lugar que ocupas em seu puro coração. Se por um único momento, tivesse

ela te julgado morto, ou perdido, ou definitivamente afastado dela, terias com

aflição tomado consciência de uma mudança irreversível na lealdade dela. É

perigoso abrir uma fenda nas afeições humanas; não porque se rompa ou

alargue em demasia - mas porque se fecha de novo, rapidamente.

Quase arrependido de sua maluquice, ou qualquer que seja o termo que a

denomine, Wakefield deita-se cedo, e acordando depois da primeira soneca,

estende os braços no largo e solitário espaço restante da cama inabitual. “Não”

– pensa ele, ajeitando o corpo sob as cobertas – “Não dormirei mais sozinho

uma única noite.”

Pela manhã, levanta mais cedo que de costume, e se põe a considerar o

que realmente deseja fazer. Tão vago e desconexo é o seu modo de pensar, que

ele tem consciência de haver dado aquele passo singular com um propósito, é

certo, mas acha-se incapaz de defini-lo com suficiente clareza. A vaguidade do

projeto e o desordenado esforço empregado na sua execução, caracterizam de

modo igual um homem de personalidade débil. Wakefield, entretanto, examina

as suas idéias tão minuciosamente quanto pode, e sente-se curioso em saber

como vai o curso das coisas em sua casa – como sua esposa exemplar suportará

a viuvez de uma semana; e, em síntese, como a pequena esfera de pessoas e

situações, na qual ele era um objeto central, será afetada pela sua ausência. Uma

vaidade mórbida, por isso, jaz muito próxima do fundo desse caso. Mas, o que

fazer para alcançar os seus fins? Não, por certo, manter-se enclausurado neste

alojamento confortável, onde, embora tivesse dormido e acordado na rua

seguinte a de sua casa, ele efetivamente sente-se tão distante como se tivesse

viajado toda a noite numa carruagem. Contudo, se reaparecesse, o projeto

inteiro desabaria sobre sua cabeça. Com o pobre cérebro embaraçado nesse

dilema sem esperança, ele finalmente aventura-se a atravessar parcialmente a

esquina da rua e a lançar um olhar rápido na direção do domicílio abandonado.

O hábito – pois ele é um homem de hábitos – segura-o pela mão e o conduz,

sem que ele tenha a menor consciência, até a frente da própria porta, onde, justo

no momento crítico, ele é despertado pelo arrastar de seus pés sobre o degrau.

Wakefield, aonde você vai?

Nesse momento, o seu destino estava girando em torno de um centro.

Pouco imaginando sobre a fatalidade que o primeiro passo de retorno

proporcionava, sai dali apressado, mal podendo respirar ante a agitação nunca

sentida até agora, e apenas ousa virar a cabeça ao chegar na esquina distante.

Será que alguém o havia visto? Não teria o pessoal da casa – a honesta senhora

Wakefield, a esperta empregada, e o sujo garotinho de recados – feito um

alvoroço e saído pelas ruas de Londres, em busca de seu fugitivo senhor e amo?

Milagrosa escapada! Ainda arranja coragem para deter-se e olhar na direção da

casa, mas é desconcertado pela sensação de mudança que lhe transmite o

familiar edifício, assim como somos todos afetados, quando após uma

separação de meses ou anos, vemos de novo alguma colina ou lago, ou obra de

arte, dos quais, antes, gostávamos especialmente. Nos casos normais, essa

impressão indescritível é causada pela comparação e contraste entre as nossas

lembranças imperfeitas e a realidade. Em Wakefield, a mágica de uma simples

noite produziu uma transformação semelhante, porque, nesse breve período,

houve uma forte mudança moral. Mas ele próprio não sabe disso. Antes de

deixar o local, percebe um longínquo e momentâneo relance de sua esposa , que

passa pela janela da frente, com o rosto voltado para a extremidade da rua. O

ingênuo matreiro então foge do local, apavorado com a idéia de que os olhos

dela o tenham reconhecido, tal como ele se considera, entre os milhares de

átomos mortais. Quando se encontra diante do calor da lareira, em seu

alojamento, o coração está alegre, embora o cérebro se ache meio aturdido.

É o suficiente para o começo desta longa extravagância. Depois da idéia

inicial, e da incitação do caráter lerdo do nosso personagem para colocá-lo em

atividade, todo o assunto desenvolve-se num curso natural. Podemos presumi-

lo, como resultado de profunda deliberação, comprando uma nova peruca, de

cabelos avermelhados, e escolhendo diversos artigos no baú de liquidação de

roupas de um judeu, num estilo diferente de seu costumeiro terno marrom. Está

completo.

Wakefield é outro homem. Estabelecido agora o novo sistema de vida, um

movimento retrógrado para o antigo seria quase tão difícil quanto a

circunstância que o colocou na presente posição sem paralelos. Além disso, ele

se obstina num mal-humor, ocasionalmente peculiar a seu temperamento, mas

que agora se deve à sensação inadequada que ele concebe haver sido produzida

no íntimo da senhora Wakefield. Não retornará para casa enquanto não a

considerar mortalmente assustada. Bem, ela já passara duas ou três vezes ante

seus olhos, a cada vez com um passo mais pesado, um rosto mais pálido, um

aspecto mais ansioso; e, na terceira semana de seu desaparecimento, ele nota

um presságio do mal a entrar na casa, na figura de um farmacêutico. No dia

seguinte, a aldrava da porta trás uma cobertura para abafar o barulho. Ao cair

da noite, surge a carruagem de um médico e deposita, à porta da casa de

Wakefield, a sua carga solene, de grande peruca, de onde, após um quarto de

hora de visita, emerge, talvez o arauto de um funeral. Querida mulher! Estará

para morrer?

Então, Wakefield é excitado por algo como uma energia de sentimento,

mas ainda permanece afastado do leito de sua esposa, argumentando com sua

consciência que não deve. perturbá-la em tal conjuntura. Se outra coisa o retém,

ele não sabe. No curso de poucas semanas, ela gradualmente se restabelece; a

crise passa; o coração é triste, talvez, mas tranqüilo; e, volte o marido cedo ou

tarde, ela jamais ficará febril por ele de novo. Tais pensamentos bruxuleiam

através das névoas da mente de Wakefield, e fazem-no indistintamente

consciente de que um quase intransponível abismo divide o seu apartamento

alugado de sua antiga casa. “Mas se fica apenas na outra rua!”, diz, às vezes.

Tolo! fica num outro mundo. Até agora tem adiado o regresso de um particular

dia para outro. De agora em diante fica indeterminado o dia preciso. Não será

amanhã – provavelmente na próxima semana – o mais breve possível. Pobre

homem! Os mortos têm aproximadamente tantas probabilidades de revisitarem

seus lares terrestres quanto o auto-desterrado Wakefield.

Pudesse eu escrever um livro, em vez de um artigo de doze páginas! Seria

possível então exemplificar como uma influência, que vai além do controle,

coloca a sua mão forte em cada ação que cometemos, e tece as suas

conseqüências em férreo tecido de necessidade. Wakefield está enfeitiçado.

Devemos deixá-lo, por dez anos ou mais, vaguear em torno de sua casa, sem

uma vez sequer traspor o limiar, e ser fiel à sua esposa com todo o afeto de que

é capaz seu coração, enquanto vagarosamente vai desvanecendo o dela.

Há muito tempo, deve acentuar-se, que ele perdeu a percepção da

singularidade de sua conduta.

Agora, uma cena! Em meio à multidão de uma rua de Londres podemos

distinguir um homem, já idoso, com poucas características que possam atrair

observadores desatentos, entretanto mostrando em todo seu aspecto, aos que

tiverem a habilidade para tal leitura, a caligrafia de um destino incomum. É

magro; sua testa estreita e baixa tem vincos profundos; seus olhos, pequenos e

sem brilho, às vezes passeiam apreensivos ao redor, mas, na maioria das vezes,

parecem olhar para dentro. Abaixa a cabeça, mas se movimenta com uma

obliquidade indescritível no jeito de andar, como se não quisesse mostrar-se de

frente para o mundo. Observe-o, o tempo suficiente para ver o que descrevi, e

irá concordar que as circunstâncias – que muitas vezes produzem homens

notáveis a partir de matéria comum da natureza - aqui produziram um deles.

Depois disso, deixando-o a andar obliquamente pelas calçadas, lance o olhar na

direção oposta, onde uma mulher corpulenta, visivelmente no declínio da vida,

dirige-se a uma igreja que fica lá adiante, levando na mão um livro de orações.

Tem a plácida aparência da viuvez assumida. Suas tristezas, ou foram embora,

ou se fizeram tão essenciais ao seu coração, que dificilmente seriam trocadas

por alegrias. No exato instante em que o homem magro e a mulher robusta

estão passando um pelo outro, ocorre um rápido incidente, que põe as duas

figuras diretamente em contato. Suas mãos se tocam; a pressão da multidão faz

roçar o peito dela sobre o ombro dele; estão de pé, cara a cara, olhando cada um

nos olhos do outro. Depois de dez anos de separação, é assim que Wakefield

encontra-se com sua esposa!

O torvelinho da multidão não deixa de fluir, arrastando-os, separados, em

seu curso A circunspecta viúva retoma o passo anterior e prossegue na direção

da igreja, mas se detém no portal, e lança um olhar rápido e perplexo ao longo

da rua. Segue adiante, contudo, abrindo o livro de orações. E o homem? Com

um rosto tão exaltado que a atarefada e egoísta Londres permite-se parar e

olhar para ele, corre para o seu alojamento, aferrolha a porta e joga-se sobre a

cama. Os sentimentos latentes de anos irrompem de súbito; sua mente febril

imprime um efêmero vigor em suas forças; toda a infeliz esquisitice de sua vida

lhe é revelada num relance; e ele grita desesperadamente: “Wakefield!

Wakefield! Estás louco?”

Talvez o estivesse. A singularidade de sua conduta modelou-o de tal

forma a si mesma, que, examinando-o em relação a seus companheiros e aos

afazeres da vida, não se podia dizer que tivesse o juízo perfeito. Ele havia

imaginado (ou antes, as coisas haviam acontecido), separar-se do mundo,

sumir, abandonar a sua posição e privilégios entre os vivos, sem que fosse

admitido entre os mortos. De nenhum modo a vida de um eremita pode ser

posta em paralelo com a sua. Ele estava, como outrora, em plena agitação da

cidade; mas a multidão movia-se impetuosa e indiferente, ignorando-o. Estava,

podemos dizer figuradamente, sempre ao lado da esposa, e junto da lareira,

entretanto sem nunca sentir o calor desta, nem a afeição daquela. O destino sem

precedentes de Wakefield foi o de conservar a sua parte original de simpatia

humana, e estar ainda envolvido nos interesses dos homens, enquanto havia

perdido a recíproca influência sobre eles. Seria uma especulação bastante

curiosa traçar o efeito de tais circunstâncias em seu coração e intelecto,

separadamente, ou em conjunto. Todavia, transformado como estava, raras

vezes se dava conta disso, julgando-se o mesmo homem de sempre. Lampejos

da verdade, de fato, surgiam, mas só por alguns instantes; e ainda assim

teimava em dizer: “Logo estarei de volta”, sem refletir que vinha dizendo isso

há vinte anos.

Penso também que, em retrospecto, esses vinte anos deviam parecer a

Wakefield um tempo pouca coisa maior que a semana que ele havia definido

para sua ausência. Devia olhar a aventura como não mais que um interlúdio no

tema principal de sua vida. Quando, após um outro curto espaço de tempo, ele

achasse que era o momento de reentrar no salão, sua esposa bateria palmas de

alegria, ao rever o homem de meia-idade, Senhor Wakefield. Que infeliz ilusão!

Pudesse o Tempo esperar até o final de nossas loucuras preferidas, então

seríamos jovens até o Dia do Juízo.

Uma noite, transcorridos os vinte anos de seu desaparecimento, Wakefield

faz a caminhada costumeira na direção da residência que ainda diz ser dele. É

uma noite de outono, de forte vento. Freqüentes pancadas d’água caem,

tamborilando sobre as calçadas, e cessam repentinas, antes que alguém possa

abrir seu guarda-chuva. Detendo-se próximo da casa, Wakefield vislumbra,

através das janelas da sala do segundo andar, o brilho rubro, o tremeluzir, os

inquietos lampejos de um fogo confortável. Sobre o teto, aparece a sombra

grotesca da boa senhora Wakefield. O barrete, o nariz e o queixo, e a larga

cintura, desenham uma admirável caricatura, que dança, além disso, em

movimentos variados, de acordo com as oscilações das labaredas, numa

jovialidade quase excessiva para a sombra de uma idosa viúva.

Nesse momento, cai uma pancada de chuva que, dirigida sem piedade

pelo vento, atinge em cheio o rosto e o peito de Wakefield. O frio outonal

penetra-o por todo o corpo. Deverá ficar parado naquele lugar, encharcado e

tiritando, quando sua própria lareira tem um bom fogo para aquecê-lo, e sua

própria esposa correrá para ir buscar o casaco cinza e as roupas de baixo que,

sem dúvida, guardou cuidadosamente no armário de seu quarto? Não!

Wakefield não chega a ser tão tolo! Ele sobe os degraus – com grande esforço! –

pois vinte anos haviam-lhe enrijecido as pernas, desde que descera por ali da

última vez –, mas não se dá conta disso. Espera, Wakefield! Estás indo para o

único lugar que te resta? Então, podes subir para a tua sepultura! A porta abre.

Enquanto ele a transpõe, temos uma rápida visão de despedida de seu rosto, e

reconhecemos o sorriso astucioso, precursor do pequeno gracejo que desde aí

vem representando à custa de sua esposa. Como zombou desumanamente da

pobre mulher! Bem, que ele tenha uma boa noite!

Esse feliz evento – supondo-o assim – só podia ter ocorrido num momento

não premeditado. Não seguiremos o nosso amigo além do umbral. Ele nos

deixou alimento suficiente para reflexão, parte da qual emprestará sua

sabedoria para uma moral, que pode ser modelada numa imagem. Em meio à

aparente confusão de nosso mundo misterioso, as pessoas estão ajustadas a um

sistema de modo tão preciso, e os sistemas ajustados uns aos outros, e a um

todo, que, ao afastar-se disso por um momento, um homem expõe-se ao risco

terrível de perder o seu lugar para sempre. Tal como Wakefield, pode tornar-se,

por assim dizer, o Pária do Universo.

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