Walden por Henry David Thoreau - Versão HTML

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Título: Walden; ou, A Vida nos Bosques

Título Original: Walden; or, Life in the Woods

Ano: 1854

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Índice

Apresentação de Eduardo Bueno ___________________________________________ 3

Walden ou A vida nos bosques _____________________________________________ 6

Economia _____________________________________________________________ 6

Onde e para que vivi ____________________________________________________ 40

Leitura _______________________________________________________________ 48

Sons ________________________________________________________________ 52

Solidão ______________________________________________________________ 60

Visitas _______________________________________________________________ 64

O campo de feijão ______________________________________________________ 71

A cidade _____________________________________________________________ 76

Os lagos ______________________________________________________________ 79

Baker Farm ___________________________________________________________ 90

Leis superiores ________________________________________________________ 95

Vizinhos irracionais ____________________________________________________ 100

Aquecimento e inauguração _____________________________________________ 106

Animais de inverno _____________________________________________________ 114

Primavera ____________________________________________________________ 120

Apêndice ____________________________________________________________ 125

Notas ______________________________________________________________ 164

Biografia _____________________________________________________________ 164

O HOMEM DA CASA DO LAGO

Eduardo Bueno[1]

HENRY DAVID THOREAU foi uma nuvem de calças.

Nascido em Concord, Massachusetts, na costa leste dos Estados Unidos, em julho de 1817, pairou acima e ao largo de seus compatriotas e contemporâneos. Lançou-se a tais altitudes – e em

eventuais platitudes – disposto não apenas a ver o mundo de cima mas a experimentar um universo próprio e idiossincrático. Muitas vezes assomou-se leve, habilitado a flutuar em céu azul, como se parte da paisagem que tanto amou. Noutras, revelou-se capaz de projetar sombras, quando não raios e trovões, vertendo aguaceiros incômodos sobre sua vila e seu país. Tratou de despejá-los na forma de discurso torrencial: uma prosa caudalosa que – caso tivesse sido realmente lida – haveria de ter o efeito de uma enchente na planície onde labutavam “em calado desespero” os homens de sua região e sua época.

Thoreau foi único, solitário e inimitável.

Mas Henry David Thoreau foi também um chato de galochas – até porque de fato as calçava. Não

era perfeito, e muito menos aperfeiçoável. Misantropo, misógino, radical e irredutível, parecia cultivar a inconveniência como virtude. Mais do que mero exercício de retórica, afrontar o senso comum sempre lhe pareceu emérita prática cotidiana. Thoreau manteve o dedo em riste – acusatório e descortês. E tratou de metê-lo nas feridas vivas de uma nação que ainda não havia forjado

plenamente a própria identidade. Identidade que, embora por vias transversas, Thoreau ajudaria a construir. Thoreau foi desprezado e ofendido, mas isso não lhe doeu tanto quanto nas ocasiões –

aliás, mais frequentes – em que pregou ao deserto.

Thoreau era um caminhante, mas nunca foi pedestre.

Para Thoreau estava tudo na cara. E Thoreau foi um cara de pau. Seu semblante despertou surpresa e susto naqueles que o contemplaram. Com feições como que talhadas a machado no cerne de

madeira nobre e dura, Thoreau tinha, muito apropriadamente, a face de um fauno. O nariz adunco, os olhos miúdos, o cenho franzido, os lábios finos como navalha emolduravam as maçãs salientes de um rosto que fazia lembrar o de um totem indígena. Thoreau era uma esfinge – e, por não

saberem decifrá-lo, alguns homens de seu tempo quiseram devorá-lo. Mas Thoreau era osso duro de roer.

Nem todo mundo ia com a cara de Thoreau. Para o grande Robert Louis Stevenson, por exemplo,

sua “face aguda, penetrante e com um narigão emitia certos sinais das limitações de sua mente e de seu caráter”. Até entre os que nutriam simpatia por ele, como Nathaniel Hawthorne, o rosto e as maneiras de Thoreau provocavam estranhamento. Conforme o autor de A letra escarlate, Thoreau era “feio como o pecado, com o nariz comprido, a boca transversal e os modos desajeitados, quase rústicos, apesar de corteses”.

Com o passar dos anos a fachada de Thoreau foi se transfigurando e, como o próprio estado de

espírito, parece ter se suavizado. Uma foto clássica, tomada em 1861, um ano antes de sua morte, aos 44 anos, exibe olhos translúcidos, quase aquosos, adornados por sobrancelhas grossas e

arqueadas, em harmonia com a testa larga e a basta barba de profeta. Um seu discípulo, Daniel Ricketson, recordou “a gentileza, humanidade e sabedoria” estampada naqueles “olhos azuis

profundos”, e, embora o admirador não tenha mencionado a evidente melancolia expressa no

retrato, não se pode dizer que exagerasse.

A voz de Thoreau também causou comoção. Não apenas o que ele dizia, mas os sons que emitia

ecoavam tonitruantes, quase estrondosos, nos ouvidos e nas mentes de seus interlocutores, mesmo depois que a tuberculose se instalou para lhe corroer os pulmões. Testemunhos presenciais o

atestam: “Suas palavras soavam tão distintas e verdadeiras ao ouvido quanto as de um emérito

cantor”, anotou o pastor Robert Collyer. “Ele hesitava por breves instantes à espera da palavra exata, ou então aguardava com paciência comovedora até vencer seu problema pulmonar, mas,

quando enfim proferia a sentença, ela ressoava perfeita e concêntrica.”

Para que sua voz literária também se projetasse, Thoreau precisou de doses ainda maiores de

paciência. Mas enfim encontrou a modulação correta ao publicar Walden ou A vida nos bosques, clássico que o leitor ora tem em mãos. Como em suas conversações recheadas de reticências, o tom autoral não lhe surgiu espontaneamente, senão que após muito esforço e alguns alarmes falsos.

Ainda assim, sua linguagem nunca primou pelo requinte literário nem pela clareza de estilo. Walden é um livro anguloso e em várias passagens prolixo. Repleto de citações e aforismos, remete a gregos e latinos e vai referindo contistas chineses ou poetas persas um tanto obscuros, em meio a

frequentes recaídas paroquiais e rasgos doutrinários.

Thoreau era, com efeito, um pregador, propondo a religião de um homem só, soando como o arauto do individualismo intransigente e da liberdade pessoal quase refratária. E se era um tribuno, fez de sua cabana em Walden a tribuna de onde, em certos momentos, parece insinuar que estava apto e era impoluto, austero e estoico o bastante para julgar o resto da humanidade.

E, no entanto, tal é a sinceridade da voz que ressoa nestas páginas, tal sua singularidade e pureza virtualmente virginal que, com o passar dos anos, Thoreau acabou se impondo no panteão dos

heróis rebeldes, dos desbravadores da mente, dos anunciadores de um novo tempo – tempo que, se não se concretizou, não foi capaz de fazer com que o discurso de Thoreau perdesse (pelo contrário, só reforçou) sua disposição utópica e indômita.

Thoreau não era uma ilha – nenhum homem é, já houve quem tenha dito. Apesar da aura de ermitão que viria a adquirir, Thoreau foi mais gregário do que a sua obra deixa transparecer. Um dos

capítulos de Walden, muito apropriadamente chamado “Visitas”, já revela que ele não viveu em completo isolamento, como, em alguns momentos, dá a entender. Mas Thoreau nunca foi

companhia exatamente agradável, e sua teimosia só era compreendida e aceita por aqueles que,

como o mentor e padrinho literário Ralph Waldo Emerson, desde o início a perceberam em toda a sua ousada pretensão.

Thoreau era um bicho do mato. O historiador James Kendall Hosmer o descreveu “parado no

umbral de sua casa, com o cabelo desgrenhado como se estivesse adornado com pinhas e musgos, e as roupas puídas e em desalinho exibindo os traços de suas andanças pelas matas e pântanos”.

Thoreau se sentia deslocado na cidade (embora sua Concord natal tivesse pouco mais de dois mil habitantes), na universidade (apesar de ter se formado em Harvard), nos saraus, na paróquia. Isolado em sua cabana de Walden, subverteu até o dito americano segundo o qual “three is a crowd” (“três é uma multidão”): para ele, um era bom, dois já era demais...

Thoreau talvez sonhasse ser o nobre selvagem. Ele “nunca se formou em nenhuma profissão”,

relatou Emerson. “(...) nunca se casou; vivia sozinho; nunca ia à igreja; nunca votou; recusou-se a pagar um imposto ao Estado; não comia carne, não tomava vinho, nunca usou tabaco; embora

estudasse a Natureza, não utilizava armas nem armadilhas. Quando lhe perguntavam à mesa qual

prato preferia, ele respondia: ‘O que estiver mais perto’.” Tais e tantas “superioridades negativas”

levaram Stevenson a concluir que Thoreau “se apresentava tão distante da humanidade que é difícil saber se devemos chamá-lo de semideus ou de semi-homem”.

Thoreau era o peixe fora d’água que, às margens do lago Walden, submeteu-se a uma metamorfose.

Só que, em vez de virar barata, um belo dia acordou transformado em pato – ou em algo

semelhante, já que sua ave favorita, a mobelha, de fato se parece com um. Dona de uma “risada demoníaca (...) talvez o som mais selvagem jamais ouvido por aqui”, aquela ave solitária o atraía, e ele se identificava com ela.

No outono, estação predileta do autor, o animal aparecia para “trocar as penas e se banhar no lago”.

Ao descrever tal período, Thoreau reflete: “Nossa estação de muda, como a das aves, deve ser um momento de crise em nossa vida. A mobelha, durante a muda, se retira para um lago solitário.

Assim também a cobra solta sua casca e a lagarta, seu casulo (...)”.

Embora Thoreau tenha se recolhido à floresta disposto a se libertar da “epiderme ou falsa pele, que não faz parte de nossa vida”, não se pode deixar de notar que, em inglês, a ave se denomina loon – e loon também significa “maluco” ou, mais propriamente, “lunático”. Thoreau, num rasgo insuspeito de humor, parece, assim, inclinado a debochar de si mesmo e ironizar seus detratores – se não a escarnecer dos futuros seguidores de seu evangelho peculiar.

É como se ele adivinhasse que, um século e meio mais tarde, Walden iria se transformar de tal forma na bíblia do movimento preservacionista – bem como no manual da desobediência civil e no livro de cabeceira dos rebeldes cheios de causas – que, conforme observou John Updike, a obra

“corre o risco de se tornar tão citada e tão pouco compreendida quanto a própria Bíblia”.

Com efeito, em tempos de discurso ecológico lustroso mas vazio – de supostas preocupações com

“desenvolvimento sustentável” anunciadas por conglomerados que, enquanto puderam, destruíram

tudo a seu redor; de comerciais de veículos “ecológicos” 4 x 4 patrolando dunas e riachos; de aventuras na natureza programadas para executivos estressados em busca de um novo “modelo de

gestão”, de ecovilas, eco sports e eco resorts; em tempos de roupas esportivas trajadas por turistas, mesmo que estejam apenas subindo a torre Eiffel de elevador ou voando em jatinhos para alguma ruína maia –, Thoreau haveria de odiar, e trataria de afrontar, a maioria dos que se dizem seus admiradores.

Thoreau era sua própria bússola – e jamais perdeu o norte. Mesmo após a morte, parece manter não apenas o rumo, mas o controle sobre seu legado. Isso porque a voz que ele fez soar em Walden não foi abafada pela cacofonia publicitária das palavras ocas.

Foi no dia 4 de julho de 1845 que Henry David Thoreau caminhou pelas ruas de sua pequena

Concord e seguiu em direção ao oeste, rumo ao lago Walden, onde construíra, com as próprias mãos e em terreno que pertencia a Emerson, a diminuta cabana de seis metros quadrados. Por todos os Estados Unidos celebrava-se o dia em que o país tinha se libertado da Inglaterra. Não há de ter sido à toa que Thoreau elegeu a data para a mudança: ele estava declarando a própria independência.

Tinha 28 anos e, embora houvesse estudado em Harvard, não tinha ocupação fixa: fazia apenas

bicos e lápis na pequena fábrica da família. O que ele buscava, o dinheiro e os ofícios não podiam comprar. Àqueles que espalhavam que ele não tinha profissão nem trabalho, Thoreau dizia ser

“supervisor das tempestades”, das “trilhas nas florestas” e pastor de “animais desgarrados”.

Thoreau não era um joão-ninguém. Mas era quase. Não por ser um despossuído, mas porque, apesar de contemporâneo e quase vizinho de Herman Melville, Nathaniel Hawthorne, Walt Whitman,

Edgar Allan Poe, Henry Longfellow e Emily Dickinson, só lhe foi dado compartilhar com eles a

mesma época, a mesma região do país e a mesma labuta de escritor. Afinal, embora viesse a tomar parte no movimento batizado de Transcendentalismo – também chamado, e talvez mais

apropriadamente, de “Renascimento Americano” –, Thoreau nunca foi de “frequentar” e, com

exceção de Emerson e do poeta (e seu futuro biógrafo) W. Ellery Channing, nenhum dos citados o levava a sério.

Pelo menos não até que Walden fosse descoberto.

Ao colocar em Walden o subtítulo quase romântico de A vida nos bosques, Thoreau parece convidar o leitor para o mergulho em uma aventura. Como se o livro fosse uma espécie de Robinson Crusoé passado não numa ilha, mas num lago de degelo. Mas quem apanha a obra em busca de ação e

fábula depara com uma série de sermões, quando não com uma espécie de dissertação de mestrado imersa em moralismo. E, no entanto, para além da retórica ríspida e da acidez monocromática de uma prosa eventualmente empolada, o lado “aventuresco” de Walden também se impõe. Mas, muito mais do que isso, o livro é um guia para uma viagem interior. Porque, mesmo quando imerge em

alegorias e parábolas, Thoreau se mantém firme, vigoroso e evocativo, impondo seu discurso

lúcido, acurado e tantas vezes profético.

Thoreau foi uma espécie de Júlio Verne que, em vez de descrever as maravilhas do futuro, anteviu os desatinos de um modelo desenvolvimentista que nunca quis levar em conta a preservação da

natureza. Previu o advento de um consumismo viciante e vicioso; viu os tempos em que a

privacidade deixaria de ser um recurso natural renovável para se tornar bem descartável; ouviu os gritos surdos da maioria silenciosa. E preferiu se retirar para trocar as penas.

Junto aos patos; longe dos lunáticos.

Mesmo assim, e com todo seu apreço pela solidão, Henry David Thoreau continua, 150 anos

depois, nos convidando para nos unirmos a ele na minúscula cabana às margens de Walden.

Para fazê-lo, basta mergulhar nas páginas que se seguem.

Porto Alegre

Inverno de 2010

Walden

ou A vida nos bosques

Não pretendo escrever uma ode à melancolia, e sim trombetear vigorosamente como um galo ao

amanhecer, no alto de seu poleiro, quando menos para despertar meus vizinhos.

ECONOMIA

QUANDO ESCREVI AS PÁGINAS seguintes, ou melhor, o principal delas, eu vivia sozinho na mata, a um quilômetro e meio de qualquer vizinho, numa casa que eu mesmo tinha construído à margem do

Lago Walden, em Concord, Massachusetts, e ganhava minha vida apenas com o trabalho de minhas

mãos. Vivi lá dois anos e dois meses. Hoje em dia sou de novo um hóspede da vida civilizada.

Eu não imporia tanto meus assuntos à atenção de meus leitores se meus concidadãos não tivessem feito indagações muito particulares sobre minhas condições de vida, que alguns diriam

impertinentes, embora não me pareçam nada impertinentes, e sim, dadas as circunstâncias, muito naturais e pertinentes. Uns perguntaram o que eu comia; se não me sentia solitário; se não tinha medo, e coisas assim. Outros ficaram curiosos para saber quanto de minha renda eu destinava a fins de caridade; e alguns, com famílias grandes, quantas crianças pobres eu sustentava. Portanto pedirei àqueles meus leitores que não têm nenhum interesse particular em mim que me perdoem se, neste livro, tento responder a algumas dessas perguntas. A maioria dos livros omite o eu ou a primeira pessoa; aqui ele será mantido; em relação ao egocentrismo, esta é a principal diferença. Geralmente não lembramos que, afinal, é sempre a primeira pessoa que está falando. Eu não falaria tanto sobre mim mesmo se existisse alguma outra pessoa que eu conhecesse tão bem. Infelizmente estou

restrito a este tema devido à minha experiência limitada. Além disso, de minha parte, espero de todo escritor, do primeiro ao último, um relato simples e sincero de sua vida, e não apenas o que ele ouviu da vida de outros homens; o mesmo tipo de relato que ele enviaria de uma terra distante a seus parentes; pois, se viveu com sinceridade, deve ter sido numa terra distante de mim. Talvez estas páginas se destinem mais especialmente a estudantes pobres. Quanto aos meus outros leitores, aceitarão as partes que se aplicam a eles. Confio que ninguém haverá de forçar as costuras ao vestir um casaco, pois pode ser de utilidade a quem nele couber.

Eu gostaria de dizer alguma coisa, não tanto sobre os chineses ou os habitantes das ilhas Sandwich, e sim sobre vocês que estão lendo estas páginas e que devem viver na Nova Inglaterra; alguma

coisa sobre a condição de vocês, em especial a condição externa ou as circunstâncias neste mundo, nesta cidade, ou seja, se é necessário que ela seja tão ruim como é, ou se não pode ser melhorada.

Andei muito por Concord; e por todo lugar, nas lojas, nos escritórios, nos campos, os habitantes me pareciam estar cumprindo penitência de mil surpreendentes maneiras. O que ouvi falar dos

brâmanes sentados entre quatro fogos e olhando diretamente o sol; ou pendurados de cabeça para baixo sobre labaredas; ou fitando os céus com a cabeça voltada para o alto “até que se torna

impossível retomar a posição natural, e não lhes passa nada pela garganta torcida exceto líquidos”; ou passando o resto de seus dias acorrentados ao pé de uma árvore; ou medindo com o corpo, como uma lagarta, a extensão de vastos impérios; ou de pé numa perna só no alto de uma coluna – nem essas formas de penitência voluntária conseguem ser mais incríveis e espantosas do que as cenas que presencio todos os dias. Os doze trabalhos de Hércules não passavam de brincadeira de criança em comparação aos trabalhos de meus vizinhos; pois os de Hércules eram apenas doze, e chegaram ao fim; mas nunca vi esses homens matarem ou capturarem nenhum monstro ou terminarem

trabalho algum. Eles não têm nenhum amigo Iolau que queime com ferro em brasa a raiz da cabeça da Hidra e, quando esmagam uma, logo surgem duas.

Vejo rapazes de minha cidade cujo infortúnio foi ter herdado sítios, casas, celeiros, gado e

implementos agrícolas; pois é mais fácil comprar essas coisas do que se desfazer delas. Melhor se tivessem nascido no pasto ao ar livre e fossem amamentados por uma loba, pois então poderiam

enxergar com visão mais clara o campo que foram chamados a trabalhar. Quem fez deles servos do solo? Por que teriam de comer seus sessenta acres, se o homem está condenado a comer apenas seu quinhão de terra? Por que teriam de começar a cavar o próprio túmulo desde que nascem? Precisam viver o tempo de vida de um homem, empurrando todas essas coisas em frente e seguindo como

podem. Quantas pobres almas imortais encontrei quase esmagadas e sufocadas sob suas cargas,

arrastando-se pela estrada da vida, empurrando um celeiro de trezentos metros quadrados, sem

nunca conseguir limpar seus estábulos de Áugias, e mais cem acres de terra, feno, lavoura, pasto e madeira! Quem não recebe dote, quem não se debate com a herança desses encargos desnecessários, julga trabalho suficiente dominar e cultivar uns poucos decímetros cúbicos de carne.

Mas os homens trabalham sob engano. O que o homem tem de melhor logo se mistura à terra para

se transformar em adubo. Por um destino ilusório, geralmente chamado de necessidade, eles se

dedicam, como diz um velho livro, a acumular tesouros que serão roídos pelas traças e pela

ferrugem e roubados pelos ladrões. É uma vida de tolo, como vão descobrir quando chegarem ao

final dela, ou talvez antes. Diz-se que Deucalião e Pirra criaram a humanidade atirando pedras atrás de si:

Inde genus durum sumus, experiensque laborum,

Et documenta damus qua simus origine nati.

“Por isso somos dura espécie, experiente na labuta,

E damos prova da origem de onde nascemos.”

Ou, como dizem as rimas sonoras de Raleigh:

From thence our kind hard-hearted is, enduring pain and care,

Approving that our bodies of a stony nature are.

“Por isso é nossa espécie empedernida, sofrendo dor e aflição,

Provando que nossos corpos de pétrea natureza são.”

Tudo isso por causa de uma obediência cega a um oráculo incerto, atirando as pedras por sobre os ombros, sem ver onde elas caíam.

A maioria dos homens, mesmo neste país relativamente livre, por mera ignorância e erro, vivem tão ocupados com as falsas preocupações e as lides desnecessariamente pesadas da vida que não

conseguem colher seus frutos mais delicados. Os dedos, pelo excesso de trabalho, ficam demasiado trôpegos, trêmulos demais para isso. Na verdade, quem trabalha não tem tempo livre para uma

autêntica integridade dia a dia; não pode se permitir manter as relações mais viris com os homens; seu trabalho seria depreciado no mercado. Não tem tempo de ser nada além de uma máquina. Como lembrará sua ignorância – o que é indispensável para crescer – quem precisa usar seu conhecimento com tanta frequência? Antes de julgá-lo, devíamos de vez em quando lhe dar roupa e comida de

graça e revigorá-lo com nossos tônicos. As mais finas qualidades de nossa natureza, como a pele aveludada dos frutos, só podem ser preservadas com o mais delicado manuseio. E no entanto não usamos desses cuidados, nem conosco, nem com os outros.

Como todos sabemos, alguns de vocês são pobres, acham a vida muito dura, às vezes nem têm por onde respirar, como se diz. Tenho certeza de que alguns leitores não podem pagar todas as refeições que comem, nem a roupa e os sapatos que logo vão se gastar ou já estão nas últimas, e que

chegaram até esta página roubando ou tirando tempo de outra coisa, furtando uma hora aos

credores. É muito evidente a vida mesquinha e furtiva de muitos de vocês, pois minha visão se aguçou com a experiência; sempre com as contas no limite, tentando dar início a alguma coisa, tentando dar fim às dívidas, atoleiro muito antigo, que os latinos chamavam de aes alienum, o cobre alheio, pois algumas de suas moedas eram feitas de cobre; e assim vivendo, e assim morrendo, e sendo enterrados por causa desse cobre alheio; sempre prometendo pagar, prometendo pagar,

amanhã, e morrendo hoje, endividados; tentando conseguir favores, arranjar clientes, de mil

maneiras, exceto crimes que deem cadeia; mentindo, bajulando, agradando, contraindo-se numa

casca de civilidade ou expandindo-se numa atmosfera de tênue e vaporosa generosidade, para

convencer o vizinho que lhes deixe fazer seus sapatos, ou o chapéu, ou o casaco, ou o frete, ou lhe importar produtos; adoecendo para economizar alguma coisa para uma futura doença, alguma coisa para guardar num baú velho, ou num pé de meia escondido entre os vãos de massa da parede ou, em mais segurança, entre os tijolos do prédio de um banco; não importa onde, não importa se muito ou pouco.

Às vezes eu me admiro como podemos ser tão, digamos, frívolos em nos ocupar com a forma de

cativeiro – grave, é certo, mas um tanto estrangeira – chamada Escravidão Negra, enquanto existem tantos senhores sutis e ardilosos que escravizam o Norte e o Sul. Já é ruim ter um capataz do sul; pior é ter um do norte; mas o pior mesmo é quando você é seu próprio feitor. E falam na divindade do homem! Olhem o carroceiro na estrada, indo para o mercado de dia ou de noite; agita-se alguma divindade dentro dele? Seu supremo dever: dar palha e água a seus cavalos! O que é para ele o próprio destino em comparação ao lucro da carga? Pois afinal não é o carroceiro do Senhor

Fazendeiro Cria-Alvoroço? Quão divino, quão imortal ele é? Vejam como se encolhe e se esgueira, como passa o dia todo vagamente assustado, não por ser imortal ou divino, e sim escravo e

prisioneiro de sua opinião sobre si mesmo, uma fama que lhe vem pelos próprios atos. A opinião pública é um fraco tirano comparada à nossa opinião sobre nós mesmos. O que um homem pensa de si, é isso o que determina ou, melhor, indica seu destino. A libertação pessoal mesmo nas Índias Ocidentais da fantasia e da imaginação – qual Wilberforce estará lá para implantá-la? Pensem

também nas senhoras da terra bordando almofadas para o assento da privada como defesa contra o último dia, para não trair um interesse demasiado vivo por seus próprios destinos! Como se fosse possível matar o tempo sem ofender a eternidade.

A grande maioria dos homens leva uma vida de calado desespero. O que se chama resignação é

desespero confirmado. Da cidade desesperada você vai para o campo desesperado, e tem de se

consolar com a coragem das martas e dos ratos almiscarados. Um desespero estereotipado, mas

inconsciente, se esconde mesmo sob os chamados jogos e prazeres da humanidade. Não há diversão neles, pois esta vem depois da obrigação. Mas uma característica da sabedoria é não fazer coisas desesperadas.

Quando consideramos qual é, para usar as palavras do catecismo, a principal finalidade do homem, e quais são as verdadeiras necessidades e meios de vida, parece evidente que os homens escolheram deliberadamente o modo usual de viver porque o preferiram a qualquer outro. No entanto eles

acreditam honestamente que não tinham outra escolha. Mas as naturezas alertas e saudáveis

lembram que o sol nasceu claro. Nunca é tarde demais para abandonar nossos preconceitos. Não se pode confiar às cegas em nenhuma maneira de pensar ou de agir, por mais antiga que seja. O que hoje todo mundo repete ou aceita em silêncio como verdade amanhã pode se revelar falso, mera

bruma de opinião que alguns tomam por uma nuvem de chuva que fertilizaria seus campos. O que

os velhos dizem que vocês não podem fazer, vocês experimentam e descobrem que podem. Aos

velhos o que é dos velhos, aos novos o que é dos novos. A gente de outrora talvez não soubesse como renovar o combustível e manter o fogo aceso; a gente de hoje põe um pouco de lenha seca

numa caldeira, e sai rodopiando ao redor do globo à velocidade dos pássaros, de uma maneira que mata os velhos, como diz a expressão. A idade não é melhor, e sequer tão boa mestra quanto a

juventude, pois mais perdeu do que ganhou. Até duvido que o mais sábio dos homens tenha

realmente aprendido algo de valor absoluto na vida. Na prática, os velhos não têm nenhum conselho muito importante para dar aos jovens; a experiência deles foi tão parcial e suas vidas foram, por razões particulares, fracassos tão miseráveis quanto eles mesmos devem saber; mas pode ser que lhes tenha restado alguma fé que desminta essa experiência, e agora seriam apenas não tão jovens quanto antes. Faz uns trinta anos que vivo neste planeta, e ainda estou para ouvir a primeira sílaba de um conselho valioso ou mesmo sincero por parte dos mais velhos. Nunca me disseram nada e

provavelmente nem podem me dizer coisa alguma de muito proveito. Eis aqui a vida, uma

experiência em grande medida inédita para mim; mas não me adianta que não seja mais inédita para eles. Se ganhei alguma experiência que julgo valiosa, tenho certeza de que meus Mentores não

comentaram nada a respeito dela.

Um agricultor me diz: “Você não pode viver só de vegetais, pois eles não fornecem nada para os ossos”; e assim ele dedica religiosamente uma parte do dia a suprir seu sistema com a matéria-prima dos ossos; e, enquanto fala, vai andando atrás de seus bois que, com ossos feitos de vegetais, vão avançando e puxando aos trancos o homem e o peso do arado, passando por cima de qualquer

obstáculo. Algumas coisas são realmente necessidades vitais em alguns círculos, os mais doentes e desamparados; em outros, elas não passam de meros luxos; em outros ainda, elas são totalmente desconhecidas.

A alguns parece que todo o terreno da vida humana já foi trilhado pelos antepassados, os vales e as montanhas, e a tudo já se deu provimento. Segundo Evelyn, “o sábio Salomão prescreveu regras até para a distância entre as árvores; e os pretores romanos decidiram quantas vezes pode-se entrar na terra do vizinho para colher as bolotas de carvalho ali caídas sem ser uma invasão, e qual a

proporção que pertence ao vizinho”. Hipócrates chegou a deixar instruções sobre a maneira de

cortar as unhas, a saber, acompanhando a ponta dos dedos, nem mais curtas, nem mais longas. Sem dúvida, o próprio tédio e ennui que presumem ter esgotado toda a variedade e as alegrias da vida são tão velhos quanto Adão. Mas as capacidades do homem jamais foram medidas; e tampouco

devemos julgar do que ele é capaz tomando como base qualquer precedente, pois o que se tentou até hoje é muito pouco. Sejam quais forem tuas falhas até agora, “não te aflijas, meu filho, pois quem te atribuirá o que deixaste de fazer?”.

Podemos fazer mil experiências simples com nossas vidas; por exemplo, o mesmo sol que

amadurece meus pés de feijão ilumina ao mesmo tempo um sistema de planetas como o nosso. Se

eu tivesse me lembrado disso, teria evitado alguns erros. Não foi sob esta luz que carpi os feijões.

Quão maravilhosos os triângulos cujos ápices são estrelas! Quão distantes e diferentes os seres nas várias mansões do universo que contemplam a mesma estrela neste mesmo momento! A natureza e

a vida humana são tão variadas quanto nossas várias constituições. Quem saberá dizer qual é a perspectiva que a vida oferece a outrem? Pode existir milagre maior do que nos perpassarmos com o olhar por um instante? Em uma hora viveríamos em todas as eras do mundo – em todos os

mundos das eras. História, Poesia, Mitologia! – não sei de nenhuma leitura da experiência alheia mais surpreendente e instrutiva do que esta.

A maioria das coisas que meus próximos dizem ser boas, acredito do fundo da alma que são ruins, e, se me arrependo de algo, muito provavelmente é de meu bom comportamento. Que demônio me

possuiu para que eu me comportasse tão bem? Podes dizer a coisa mais sábia que quiseres, ó velho

– tu com teus setenta anos de vida, não sem uma certa honra –, ouço uma voz irresistível dizendo para eu me afastar de tudo isso. Uma geração abandona os empreendimentos da outra como navios encalhados.

Acho que, em geral, poderíamos confiar muito mais do que confiamos. Todo esse cuidado que

temos conosco, poderíamos renunciar a boa parte dele e dedicá-lo honestamente a outra coisa. A natureza está adaptada tanto à nossa força quanto à nossa fraqueza. A tensão e ansiedade constante de alguns é uma forma de doença quase incurável. Gostamos de exagerar a importância de qualquer trabalho que fazemos; e, no entanto, quantas coisas não fomos nós que fizemos! ou: o que

acontecerá se adoecermos? Como somos vigilantes! decididos a não viver com fé, se pudermos

evitar; o dia todo alertas, à noite rezamos nossas orações de má vontade e nos entregamos a

incertezas. Tão cabalmente e tão sinceramente somos compelidos a viver, reverenciando nossa vida e negando a possibilidade de mudança. Esta é a única maneira que existe, dizemos nós; mas as

maneiras são tantas quantos são os raios que partem de um centro. Toda mudança é um milagre a contemplar; mas esse milagre está ocorrendo a cada instante. Confúcio disse: “Saber que sabemos o que sabemos, e que não sabemos o que não sabemos, esta é a verdadeira sabedoria”. Quando um

único homem converte um fato da imaginação num fato de seu entendimento, prevejo eu que, com

o tempo, todos os homens fundarão suas vidas sobre essa base.

Consideremos por um momento a que se refere grande parte da ansiedade e da preocupação que

mencionei, e até que ponto precisamos nos preocupar ou, pelo menos, nos precaver. Seria instrutivo levar uma vida rústica e primitiva, mesmo em plena civilização aparente, ao menos para saber quais são as coisas mais necessárias à vida e quais os métodos usados para obtê-las; ou, então, examinar os velhos livros dos comerciantes, para ver o que os homens mais costumavam comprar nas lojas, o que armazenavam, ou seja, quais eram as coisas mais necessárias e mais necessitadas. Pois os

avanços dos tempos pouca influência tiveram sobre as leis essenciais da existência humana, visto que nossos esqueletos provavelmente continuam iguais aos de nossos ancestrais.

Pela expressão coisa necessária à vida entendo aquilo que, entre tudo o que o homem obtém com seu esforço, desde o começo foi, ou pelo prolongado uso se tornou, tão importante para a vida humana que nunca ou raramente alguém chega, seja por selvageria, pobreza ou filosofia, a tentar viver sem ela. Neste sentido, para muitas criaturas só existe uma coisa necessária à vida, o

Alimento. Para o bisão das pradarias, são alguns centímetros de capim saboroso e água para beber, afora quando ele vai procurar o Abrigo da mata ou a sombra da montanha. Nenhum animal exige

qualquer coisa além de Alimento e Abrigo. As coisas necessárias à vida humana em nosso clima

podem ser classificadas de maneira razoavelmente precisa sob as várias rubricas de Alimento,

Abrigo, Roupa e Combustível; pois apenas quando dispomos delas é que estamos preparados para

enfrentar os verdadeiros problemas da vida com liberdade e alguma perspectiva de êxito. O homem inventou casas, mas também inventou roupas e alimentos cozidos; e foi da descoberta acidental do calor do fogo e seu consequente uso, de início um luxo, que possivelmente nasceu a atual

necessidade de se sentar perto dele. Vemos que os gatos e os cachorros também adquirem essa

segunda natureza. Com Abrigo e Roupa adequada conservamos legitimamente nosso calor interno;

mas não será correto dizer que foi com um excesso deles, ou de Combustível, isto é, com um calor externo maior do que o nosso interno, que propriamente se iniciou o cozimento? Darwin, o

naturalista, falando dos habitantes da Terra do Fogo, conta que seu grupo, bem agasalhado e sentado perto de uma fogueira, ainda se sentia enfriorado, enquanto os selvagens nus, mais ao longe,

estavam, para a grande surpresa dele, “escorrendo de suor ao enfrentar aquele calor tão tórrido”.

Assim, pelo que nos dizem, o habitante da Nova Holanda anda nu impunemente, ao passo que o

europeu tirita de frio em suas roupas. Será impossível juntar a resistência desses selvagens à intelectualidade do homem civilizado? Segundo Liebig, o corpo do homem é uma fornalha, e o

alimento é o combustível que mantém a combustão interna nos pulmões. No frio comemos mais, no calor comemos menos. O calor animal é o resultado de uma combustão lenta, e a doença e a morte sobrevêm quando ela é rápida demais; por falta de combustível ou por algum defeito na ventilação, o fogo se apaga. É claro que não se pode confundir o calor vital com o fogo; é apenas uma analogia.

Da lista acima, portanto, parece que a expressão vida animal é quase sinônimo da expressão calor animal; pois, embora o Alimento possa ser visto como o Combustível que mantém o fogo aceso dentro de nós – e o Combustível serve apenas para preparar esse Alimento ou para aquecer mais nossos corpos por acréscimo externo –, o Abrigo e a Roupa também servem apenas para manter o

calor assim gerado e absorvido.

A grande necessidade para nosso corpo, então, é se manter aquecido, é manter o calor vital dentro de nós. E quanto trabalho temos em atender a ela, não só com Alimento, Roupa e Abrigo, mas

também com nossas camas, que são nossas roupas noturnas, saqueando os ninhos e depenando o

peito das aves para preparar este abrigo dentro do abrigo, como a toupeira que faz sua cama de capim e folhas no fundo da toca! O pobre costuma reclamar que o mundo é frio; e é ao frio, físico e social, que atribuímos diretamente uma grande parte de nossos males. O verão, em alguns climas, permite que o homem tenha uma espécie de vida idílica. Então o Combustível é desnecessário,

exceto para cozer o Alimento; seu fogo é o sol, e muitas frutas já estão suficientemente cozidas sob seus raios; ao passo que o Alimento é em geral mais variado e mais fácil de se obter, e há pouca ou nenhuma necessidade de Roupa e Abrigo. Hoje em dia, e neste país, como sei por experiência

própria, as coisas necessárias à vida praticamente se resumem a umas poucas ferramentas, uma

faca, um machado, uma pá, um carrinho de mão etc., e para o estudioso uma lâmpada, material de escrita e acesso a uns poucos livros, e tudo isso pode ser obtido a um custo irrisório. No entanto, existem aqueles, sem siso, que vão para o outro extremo do mundo, para regiões bárbaras e

insalubres, e se dedicam ao comércio por dez ou vinte anos, para só depois poder viver – isto é, se manter confortavelmente aquecidos – e então morrer na Nova Inglaterra. Os homens com muita

riqueza e luxo se mantêm não apenas confortavelmente aquecidos, e sim tremendamente

acalorados; como sugeri antes, ficam cozidos, claro que à la mode.

Não só a maioria dos luxos e muitos dos ditos confortos da vida não são indispensáveis, como são francos obstáculos à elevação da humanidade. Quanto a luxos e confortos, os mais sábios sempre levaram uma vida mais simples e frugal do que os pobres. Os filósofos antigos, chineses, hindus, persas e gregos, formavam uma classe jamais igualada em sua ausência de riquezas exteriores e abundância de riquezas interiores. Não sabemos muito sobre eles. Aliás, surpreende que nós saibamos tanto sobre eles. O mesmo vale para os reformadores e benfeitores mais modernos de suas raças. Ninguém pode ser um observador imparcial ou sábio da vida humana a não ser da perspectiva que nós deveríamos chamar de pobreza voluntária. O fruto de uma vida de luxo é o luxo, seja na agricultura, no comércio, na literatura ou na arte. Atualmente existem professores de filosofia, mas não filósofos. Mesmo assim é admirável professar, pois um dia foi admirável viver. Ser filósofo não é simplesmente ter pensamentos sutis, nem mesmo fundar uma escola, mas amar a sabedoria a

ponto de viver de acordo com seus ditames, uma vida de simplicidade, independência, generosidade e confiança. É resolver alguns problemas da vida, não apenas teoricamente, e sim na prática. O

sucesso de grandes eruditos e pensadores geralmente é um sucesso de cortesão, não de rei, não de homem. Empenham-se em viver em mera conformidade, praticamente como fizeram seus pais, e

não são, em nenhum sentido, progenitores de uma raça mais nobre de homens. Mas por que os

homens sempre degeneram? O que faz as famílias se acabarem? Qual é a natureza do luxo que

enfraquece e destrói nações? Temos plena certeza de que nossa vida não guarda nenhum luxo? O

filósofo está à frente de seu tempo também na forma exterior de sua vida. Ele não se alimenta, não se abriga, não se veste, não se aquece como seus contemporâneos. Como um homem pode ser

filósofo sem manter seu calor vital com métodos melhores do que os dos outros homens?

Quando um homem se aquece das várias maneiras que descrevi, o que ele vai querer a seguir?

Decerto não mais o mesmo tipo de aquecimento, nem alimentos mais ricos e mais abundantes, casas maiores e mais esplêndidas, roupas mais finas e variadas, fogos mais numerosos, incessantes e escaldantes, e coisas assim. Quando ele obtém as coisas que são necessárias à vida, há uma outra alternativa além das coisas supérfluas; a saber, agora que ele pode descansar do trabalho mais humilde, vai se aventurar na vida. Pelo visto o solo é propício à semente, pois ela lançou suas pequenas raízes ao fundo e agora também pode enviar confiante seus brotos para o alto. Por que o homem se enraíza com tanta firmeza na terra, a não ser para poder se elevar em igual proporção aos céus? – pois as plantas mais nobres são valorizadas pelo fruto que trazem ao ar e à luz, longe do solo, e não são tratadas como os alimentos mais rústicos que, mesmo que tenham um ciclo completo de dois anos, só são cultivados até a raiz adquirir sua plena forma, e muitas vezes são podados na parte de cima para a raiz se desenvolver melhor, de modo que muita gente nem conhece sua florada.

Não pretendo ditar regras às naturezas fortes e valentes, que cuidarão da própria vida seja no céu ou no inferno, e possivelmente construirão com maior grandiosidade e gastarão com maior

prodigalidade do que os homens mais ricos, sem empobrecer jamais, sem saber como vivem – se é que existem homens assim; nem àqueles que encontram estímulo e inspiração justamente no atual estado das coisas, e que a ele se dedicam com a paixão e o entusiasmo dos amantes – e, em certa medida, eu me incluo entre eles; não falo aos que têm bons empregos, sejam quais forem, e afinal eles é que sabem se o emprego é bom ou não – e sim principalmente às massas dos descontentes, que reclamam dos tempos difíceis ou de suas duras sinas, e à toa, pois poderiam muito bem

melhorá-las. Existem alguns que reclamam com a maior veemência e desconsolo porque, dizem

eles, estão cumprindo seu dever. Penso também naquela classe que na aparência é rica, mas na

verdade é a mais terrivelmente pobre de todas, que acumulou um monte de trastes, mas não sabe como usá-los nem como se livrar deles, e assim forjou seus próprios grilhões de ouro ou prata.

Se eu fosse contar como queria passar a minha vida alguns anos atrás, provavelmente surpreenderia os leitores que conhecem um pouco seu efetivo desenrolar; e certamente assombraria os que não sabem nada sobre ele. Vou apenas resumir alguns empreendimentos que desenvolvi.

A qualquer tempo, a qualquer hora do dia ou da noite, eu ansiava em penetrar na cunha do tempo e também cunhá-lo em meu bordão; colocar-me no cruzamento de duas eternidades, o passado e o

futuro, que é exatamente o momento presente; pôr-me ali pleno e pronto. Vocês hão de perdoar

algumas obscuridades, pois há mais segredos em meu ofício do que no da maioria dos homens, não porque eu os guarde voluntariamente, mas porque são indissociáveis de sua própria natureza. De bom grado eu contaria a todos o que sei a respeito, e jamais escreveria “Entrada Proibida” em meu portão.

Muito tempo atrás perdi um cão de caça, um cavalo baio e uma rola, e ainda continuo a procurá-los.

Falei com muitos viajantes sobre eles, descrevendo quais eram suas pegadas e a que chamados

respondiam. Encontrei um ou dois que tinham ouvido o cão e o andar do cavalo, e até tinham visto a rola desaparecer atrás de uma nuvem, e pareciam tão ansiosos em recuperá-los como se eles

mesmos os tivessem perdido.

Antever, não apenas o nascer do sol e a aurora, mas, se possível, a própria Natureza! Quantas manhãs, no verão e no inverno, antes que qualquer vizinho fosse cuidar de seus afazeres, eu já estava cuidando dos meus! Sem dúvida muitos de meus concidadãos me encontraram ao voltar

desse meu empreendimento, os agricultores indo para Boston ao amanhecer, ou os lenhadores indo para o trabalho. É verdade que nunca ajudei fisicamente o sol a nascer, mas, não duvidem, já era da maior importância estar ali presente.

Quantos dias de outono e, ai!, de inverno passei fora da cidade, tentando ouvir o que trazia o vento, ouvir e transmitir com urgência! Quase enterrei todo o meu capital nisso, e até perdi o fôlego no negócio, correndo na frente dele. Se interessasse a algum dos partidos políticos, acreditem nisso, sairia na Gazeta junto com a primeira notícia. Outras vezes ficando de prontidão no observatório de alguma rocha ou árvore, para telegrafar qualquer nova chegada; ou esperando ao entardecer, no alto da colina, que a noite caísse e eu pudesse pegar alguma coisa, embora nunca tenha pegado muito, que, como maná, iria se dissolver de novo ao sol.

Por muito tempo fui repórter de um jornal, de circulação não muito grande, cujo editor nunca

pareceu disposto a publicar a maioria de minhas colaborações, e, como é muito comum com os

escritores, meu trabalho foi a única paga de meu esforço. No entanto, neste caso, meu esforço era sua própria recompensa.

Por muitos anos nomeei-me inspetor das tempestades de neve e das tempestades de chuva, e cumpri fielmente meu dever; supervisor, não das estradas, mas das trilhas nas florestas e de todas as rotas pelas fazendas, mantendo-as desimpedidas, e transitáveis as pontes nas ravinas em todas as estações do ano, onde os calcanhares públicos deixaram prova de sua utilidade.

Eu cuidava dos animais desgarrados da cidade, o que dá a um pastor fiel bastante trabalho por pularem cercas; e dava atenção aos retiros e recantos isolados do campo; embora nem sempre

soubesse se era um pobre infeliz ou um sábio que naquele dia trabalhava em tal ou tal campo;

aquilo não me dizia respeito. Regava o mirtilo vermelho, a ameixeira brava e o lódão bastardo, o pinheiro vermelho e o freixo negro, a uva branca e a violeta amarela, que do contrário mirrariam na época da seca.

Em suma, continuei assim por um longo tempo, posso dizê-lo sem me vangloriar, cuidando

fielmente de meu negócio, até que foi se tornando cada vez mais evidente que meus concidadãos, ao fim e ao cabo, não iam me incluir na lista dos funcionários municipais, nem transformariam meu cargo numa sinecura a módicos proventos. Minhas contas, que posso jurar que mantive

escrupulosamente, na verdade nunca foram examinadas nem aprovadas, e menos ainda pagas e

liquidadas. No entanto, não me empenhei de corpo e alma nisso.

Não faz muito tempo, um índio andarilho foi vender cestos na casa de um famoso advogado de

minha vizinhança. “Querem comprar cestos?”, perguntou ele. “Não, não queremos”, foi a resposta.

“O quê!”, exclamou o índio ao sair pelo portão, “querem nos matar de fome?” Tendo visto seus

industriosos vizinhos brancos tão bem de vida – que bastava o advogado tecer argumentos e, por algum passe de mágica, logo se seguiam a riqueza e o prestígio –, ele falou consigo mesmo: vou montar um negócio; vou tecer cestos; é uma coisa que sei fazer. Pensando que, feitos os cestos, estava feita sua parte, agora caberia ao homem branco comprá-los. Ele não tinha descoberto que era preciso fazer com que valesse a pena, para o outro, comprá-los, ou pelo menos fazê-lo pensar que valia, ou fazer alguma outra coisa que, para ele, valesse a pena comprar. Eu também tinha tecido uma espécie de cesto de tessitura delicada, mas não tinha feito com que valesse a pena, para

ninguém, comprá-los. Mas nem por isso, em meu caso, deixei de pensar que valia a pena tecê-los e, em vez de estudar como fazer com que valesse a pena para os outros comprar meus cestos, preferi estudar como evitar a necessidade de vendê-los. A vida que os homens louvam e consideram bem-sucedida é apenas um tipo de vida. Por que havemos de exaltar só um tipo de vida em detrimento dos demais?

Vendo que meus concidadãos não pareciam dispostos a me oferecer nenhuma sala no tribunal de

justiça ou nenhum curato ou sinecura em qualquer outro lugar, mas que eu teria de me arranjar sozinho, passei a me dedicar em caráter mais exclusivo do que nunca às matas, onde eu era mais conhecido. Decidi montar logo meu negócio usando os magros recursos que já possuía, em vez de esperar até conseguir o capital habitual. Meu objetivo ao ir para o Lago Walden não era viver barato nem viver caro, e sim dar andamento a alguns negócios privados com o mínimo possível de

obstáculos; mais do que triste, parecia-me tolo ter de adiá-los só por falta de um pouco de siso, um pouco de tino empresarial e comercial.

Sempre me esforcei em adquirir hábitos empresariais rigorosos; eles são indispensáveis a qualquer homem. Se você mantém negócios com o Império Celestial, então um pequeno escritório na costa, em algum porto de Salem, já é suficiente. Você vai exportar artigos da região, produtos nativos autênticos, muito gelo, madeira de pinho e um pouco de granito, sempre em navios de madeira

nativa. Será um bom empreendimento de risco. Supervisionar pessoalmente todos os detalhes; ser piloto e capitão, dono e segurador; comprar, vender, manter a contabilidade; ler todas as cartas recebidas, escrever ou ler todas as cartas enviadas; comandar a descarga das importações dia e noite; estar em várias partes da costa quase ao mesmo tempo – muitas vezes a remessa mais valiosa será descarregada num porto de Jersey –; ser seu próprio telégrafo, perscrutando incansavelmente o horizonte, falando com todos os navios que passam ao longo da costa; manter um fluxo constante de despacho de mercadorias, para o abastecimento de um mercado tão distante e exorbitante;

manter-se informado da situação dos mercados, das perspectivas de guerra e paz no mundo todo, e prever as tendências do comércio e da civilização – aproveitar os resultados de todas as expedições de exploração, usando novas rotas e todos os avanços na navegação –; estudar mapas, conferir a posição dos recifes e dos novos faróis e boias, e sempre, sempre corrigir as tábuas de logaritmos, pois qualquer erro de cálculo pode fazer com que o navio que devia alcançar um porto acolhedor se despedace contra um rochedo – tal é o destino secreto de La Perouse –; acompanhar a ciência

universal, estudando as biografias de todos os grandes navegadores e descobridores, de todos os grandes aventureiros e mercadores, desde Hanon e os fenícios até nossos dias; por fim, fazer o controle periódico do estoque, para saber sua situação. É um trabalho que demanda muito das

faculdades de um homem – problemas de lucro e prejuízo, de juros, de tara e quebra, e aferições das mais variadas espécies, que exigem um conhecimento universal.

Achei que o Lago Walden seria um bom lugar para o negócio, não só por causa da ferrovia e do

comércio de gelo; ele oferece vantagens que não seria de boa política divulgar; apresenta um bom porto e uma boa fundação. Nenhum pântano do Neva que precise ser aterrado; mas, para construir ali, você precisa de pilotis que terá de erguer pessoalmente. Dizem que uma enchente, um vento do oeste e o gelo no Neva são capazes de varrer São Petersburgo da face da terra.

Como eu ia começar meu negócio sem o capital habitual, talvez não seja fácil imaginar onde iria obter aqueles recursos que continuavam a ser indispensáveis a qualquer empreendimento do gênero.

Quanto à Roupa, para chegar logo à parte prática da questão, talvez sejamos movidos, na hora de providenciá-la, mais pelo amor à novidade e pela preocupação com a opinião dos outros do que por uma verdadeira utilidade. Lembre-se quem precisa trabalhar que o objetivo de usar roupas é, em primeiro lugar, manter o calor vital, e em segundo lugar, no atual estado da sociedade, encobrir a nudez, e então avalie quantas coisas necessárias ou importantes pode fazer sem aumentar seu

guarda-roupa. Os reis e as rainhas que usam uma roupa apenas uma vez, mesmo feita por algum

alfaiate ou costureira para suas majestades, não têm como conhecer o conforto de usar uma roupa já amoldada. Eles mais parecem aqueles mancebos de madeira onde penduramos a roupa limpa. A

cada dia nossas roupas vão se tornando mais parecidas conosco, o caráter do usuário se imprimindo nelas, até hesitarmos em deixá-las de lado sem aquela protelação, aqueles recursos médicos e aquela solenidade que temos com nosso corpo. Jamais homem algum decaiu em minha estima por usar

uma roupa remendada; no entanto, tenho certeza de que os homens geralmente se preocupam mais

em ter roupas elegantes, ou pelo menos asseadas e sem remendos, do que em ter uma consciência limpa. Mas, mesmo que o rasgo fique sem consertar, o pior defeito que ele revela é talvez um certo desleixo. Às vezes apresento a meus conhecidos uns testes assim: Quem usaria um remendo ou

apenas uns dois pontos a mais no joelho? Em geral eles reagem como se suas perspectivas na vida fossem se arruinar por causa disso. É mais fácil irem à cidade mancando com uma perna quebrada do que com uma calça rasgada. Muitas vezes, se acontece um acidente com as pernas de um

cavalheiro, elas podem ser consertadas; mas, se um acidente parecido acontece com as pernas de suas calças, não há remédio possível; pois ele leva em conta não o que é realmente respeitável, e sim o que é respeitado. Conhecemos poucos homens, mas inúmeros casacos e calças. Vistam um

espantalho com sua roupa mais nova, e fiquem ao lado dele com uma roupa velha: quem não vai

cumprimentar primeiro o espantalho? Outro dia, passando num milharal perto de um chapéu e um

casaco numa estaca, reconheci o dono do sítio. Estava só um pouco mais maltratado pelo tempo do que a última vez que o vi. Ouvi falar de um cachorro que latia a qualquer estranho de roupa que se aproximasse da terra do dono, mas se aquietava facilmente com um ladrão nu. Uma questão

interessante é até que ponto os homens conservariam sua posição social se tirassem suas roupas.

Num caso desses, vocês saberiam dizer com toda certeza quem, num grupo de homens civilizados, pertence à classe mais respeitada? Quando Madame Pfeiffer, em suas aventurosas viagens ao redor do mundo, seguindo do leste para o oeste e já se aproximando do lar, chegou à Rússia asiática, ela diz que sentiu a necessidade de trocar a roupa de viagem para ir visitar as autoridades, pois “agora estava num país civilizado, onde... as pessoas são julgadas por suas roupas”. Mesmo em nossas cidades democráticas da Nova Inglaterra, a posse circunstancial de riquezas e sua manifestação exclusiva sob a forma de roupas e equipagens conquistam para o possuidor um respeito quase

universal. Mas os que rendem tal respeito, numerosos que são, não passam de pagãos e precisam da visita de um missionário. Além disso, as roupas introduziram a costura, um tipo de trabalho que se pode dizer interminável; o vestido de uma mulher, pelo menos, nunca fica pronto.

Um homem que finalmente encontrou alguma coisa para fazer não precisará de roupas novas para

fazê-la; serve-lhe a velha, aquela mesma que ficou se empoeirando no sótão por tempo indefinido.

Os sapatos velhos servirão a um herói por mais tempo do que serviram a seu criado – se é que um herói tem criados –; pés descalços são mais antigos do que pés calçados, e lhe servirão muito bem.

Somente quem vai a soirées e bailes legislativos precisa de casaca nova, mudando de casaca com a mesma frequência com que muda o homem dentro dela. Mas se meu paletó e a minha calça, meu

chapéu e meus sapatos me servem para adorar a Deus, é o que basta – ou não? Quem já viu suas

roupas velhas – seu casaco velho, já realmente no fio, reduzido a seus elementos primitivos,

chegado a um tal ponto que nem mais seria um ato de caridade doá-lo a algum menino pobre, o qual por sua vez iria doá-lo a um outro ainda mais pobre, ou diremos mais rico, que podia passar sem ele? E digo: cuidado com todas as atividades que requerem roupas novas, em vez de um novo

usuário das roupas. Se o homem não é um novo homem, como as roupas novas vão lhe servir? Se

vocês têm alguma atividade a fazer, tentem fazê-la com suas roupas velhas. Todos os homens

querem, não fazer com alguma coisa, e sim fazer alguma coisa ou, melhor, ser alguma coisa. Talvez nem devêssemos arranjar roupas novas, por mais sujas ou esfarrapadas que estivessem as velhas, enquanto não tivéssemos dirigido, realizado ou navegado de maneira que nos sentíssemos homens novos dentro de roupas velhas e, aí sim, continuar com elas seria como guardar vinho novo em

odres velhos. Nossa estação de muda, como a das aves, deve ser um momento de crise em nossa

vida. A mobelha, durante a muda, se retira para um lago solitário. Assim também a cobra solta sua casca e a lagarta seu casulo por expansão e trabalho interno; pois as roupas são apenas nossa película mais externa e nosso invólucro mortal. Do contrário estaremos navegando sob bandeiras falsas e, ao final, seremos inevitavelmente desmascarados por nossa própria opinião e pela opinião da humanidade.

Vestimos camadas e mais camadas de roupa, como se fôssemos plantas exógenas crescendo por

adições externas. Nossas roupas exteriores, amiúde finas e elegantes, são nossa epiderme ou falsa pele, que não faz parte de nossa vida e pode ser removida aqui e ali sem maiores danos; nossas roupas mais grossas, usadas constantemente, são nosso tegumento ou córtex; mas nossas camisas são nosso floema ou verdadeira casca, que não pode ser retirada sem deixar marcas e destruir o homem. Eu acredito que todas as raças, em algumas estações, usam algo equivalente à camisa. É

bom que um homem se vista com tanta simplicidade que pode tocar em si mesmo no escuro, e que

viva sob todos os aspectos de forma tão despojada e pronta que, se um inimigo tomar a cidade, ele pode, como o velho filósofo, sair pelo portão com as mãos vazias, sem nenhuma preocupação. Se uma peça de roupa grossa equivale, para quase todos os fins, a três peças leves, e é possível comprar roupas baratas a um preço que realmente cabe no bolso do cliente; se um casaco grosso pode ser comprado por cinco dólares e vai durar pelo menos o mesmo número de anos, calças

grossas por dois dólares, botas de couro por 1,5 dólar o par, um chapéu de verão por ¼ de dólar e um gorro de frio por 62,5 centavos, ou se dá para fazer em casa um ainda melhor a custo nominal, haverá alguém tão pobre que, vestindo essas roupas que saíram de seu próprio ganha-pão, não encontre sábios que o reverenciem?

Quando peço uma roupa de um determinado feitio para minha costureira, ela me diz com ar muito sério: “Eles não fazem assim agora”, sem nenhuma ênfase no “Eles”, como se estivesse citando

uma autoridade tão impessoal quanto os Fados, e é difícil conseguir que ela faça o que eu quero, simplesmente porque ela não consegue acreditar que realmente quero o que estou dizendo, e que sou tão temerário assim. Quando ouço essa sentença oracular, fico absorto em meus pensamentos por alguns instantes, repetindo para mim mesmo cada palavra em separado para conseguir entender o sentido daquilo, para conseguir descobrir qual o grau de consanguinidade e parentesco entre Eles e mim, e qual a autoridade que Eles podem ter num assunto que me afeta tão de perto; e finalmente me sinto inclinado a responder a ela em igual tom de mistério e também sem nenhuma ênfase no

“eles” – “É verdade, eles não faziam assim até pouco tempo atrás, mas agora eles fazem”. De que adianta tirar minhas medidas se ela não mede meu caráter, mas apenas a largura de meus ombros, como se fosse um cabide para jogar o casaco por cima? Cultuamos não as Graças, não as Parcas, mas a Moda. Ela fia, tece e corta com toda a autoridade. O macaco líder em Paris põe um gorro de turista, e todos os macacos na América fazem igual. Às vezes perco as esperanças de conseguir qualquer coisa totalmente simples e honesta neste mundo, feita pela mão dos homens. Eles teriam de ser passados antes por uma prensa bem pesada, que espremesse fora todas as suas velhas ideias, e demoraria um pouco até ficarem de pé outra vez, e mesmo assim sobraria um deles com uma

minhoca na cabeça, nascida de um ovo depositado ali ninguém sabe quando, pois nem o fogo

consegue matar essas coisas, e vocês teriam tido aquela trabalheira à toa. Em todo caso, não vamos esquecer que, graças a uma múmia, chegou até nós um pouco de trigo egípcio.

De modo geral, penso que não se pode dizer que o vestuário tenha sido alçado, neste ou em

qualquer outro país, à dignidade de uma arte. Hoje em dia os homens se arranjam com o que lhes cai na mão. Como náufragos, vestem o que encontram na praia, e a uma pequena distância, no

tempo ou no espaço, riem das fantasias uns dos outros. Toda geração ri das modas antigas, mas segue religiosamente as novas. Achamos muito engraçados os trajes de Henrique VIII ou da rainha Elisabete, como se fossem as roupas do rei e da rainha das Ilhas Canibais. Toda roupa fora do corpo é patética ou grotesca. É apenas o olhar sério e perscrutador no rosto acima dos trajes e a vida sincera sob eles que refreiam o riso e consagram a indumentária de qualquer povo. Se o Arlequim tiver um acesso de cólica, seus enfeites também terão de lhe servir nessa situação. Quando o

soldado é atingido por um canhonaço, os farrapos lhe assentam tão bem quanto a púrpura.

O gosto pueril e selvagem dos homens e mulheres por novos padrões mantém sabe-se lá quantas

pessoas chacoalhando e espiando caleidoscópios até encontrar o desenho especial que esta geração quer hoje em dia. Os fabricantes já sabem que esse gosto é mero capricho. Entre dois padrões que se diferenciam apenas por uns fios a mais ou a menos de uma determinada cor, um venderá rápido, o outro ficará na prateleira, embora muitas vezes aconteça que, na estação seguinte, este outro passe a ser a última moda. Comparada a isso, a tatuagem não é tão medonha como dizem. Não é bárbara

pelo simples fato de que a impressão é profunda e indelével.

Não creio que nosso sistema fabril seja a melhor maneira de fornecer roupas aos homens. A

condição dos operários está se tornando cada vez mais parecida com a da Inglaterra; e isso não é de admirar, pois, pelo que vi ou ouvi falar, o objetivo principal não é que a humanidade possa andar vestida com qualidade e honestidade, e sim, indubitavelmente, que as empresas possam enriquecer.

A longo prazo, os homens só alcançam aquilo que almejam. Portanto, mesmo que falissem de

imediato, melhor seria que almejassem algo elevado.

Quanto ao Abrigo, não nego que agora é uma coisa necessária à vida, embora existam casos de

homens que se arranjaram sem ele por longos períodos, e em países mais frios do que o nosso.

Samuel Laing diz que “o lapônio, com sua roupa de pele, e num saco de pele que põe na cabeça e nos ombros, dorme noite após noite na neve... num tal frio que extinguiria a vida de qualquer outro vestido com roupas de lã”. Ele viu os lapônios dormirem assim. E no entanto acrescenta: “Não são mais robustos do que outros povos”. Mas, provavelmente, o homem não demorou muito tempo para

descobrir a conveniência de uma casa, dos confortos domésticos, ou seja lá a expressão que possa ter originalmente designado as satisfações da casa em si, não da família; embora devam ser

extremamente limitadas e ocasionais naqueles climas em que a casa está mentalmente associada

sobretudo ao inverno ou à estação das chuvas, sendo desnecessária durante 2/3 do ano, quando

basta um guarda-sol. Em nosso clima, no verão, antigamente a casa era quase só uma cobertura para passar a noite. Nas gazetas índias, uma tenda simbolizava um dia de marcha, e uma fileira de tendas entalhadas ou pintadas na casca de uma árvore significava o número de vezes que tinham

acampado. O homem não foi criado tão robusto e com membros tão grandes senão para tentar

estreitar seu mundo e se emparedar num espaço onde caiba. No começo ele vivia nu e ao ar livre; mas, embora isso fosse bastante agradável num clima sereno e quente durante o dia, provavelmente a época das chuvas e o inverno, para nem mencionar o sol tórrido, acabariam com sua raça ainda incipiente se ele não fosse logo se proteger sob o abrigo de uma casa. Adão e Eva, segundo a fábula, usaram o caramanchão antes de vestir qualquer roupa. O homem queria um lar, um local de calor, ou conforto, primeiro de calor físico, e depois o calor das afeições.

Podemos imaginar uma época na infância da espécie humana em que algum mortal teve a iniciativa de se arrastar para dentro de uma cavidade na rocha, em busca de abrigo. Toda criança, em certa medida, repete os inícios do mundo, e gosta de ficar ao ar livre, mesmo no frio e na umidade.

Brinca de casinha e de cavalinho, com um instinto para aquilo. Quem não lembra o interesse com que, quando criança, olhava a escarpa das rochas ou qualquer atalho que desse para uma caverna?

Era o anseio natural daquela parcela, de alguma parcela de nossos ancestrais mais primitivos que ainda sobrevivia em nós. Da caverna passamos para os tetos de folhas de palmeira, de casca e

galhos, de pano estendido, de palha e capim, de tábuas e taubilhas, de pedras e telhas. No final, não sabemos o que é viver ao ar livre, e nossa vida é mais doméstica do que pensamos. Da lareira ao campo há uma grande distância. Seria bom, talvez, que passássemos mais dias e mais noites sem qualquer obstáculo entre nós e os corpos celestes, que o poeta não falasse tanto sob um teto, ou o santo não ficasse ali por tanto tempo. Aves não cantam em cavernas, pombas não alimentam sua

inocência em pombais.

Mas, se alguém pretende construir uma moradia, é melhor empregar um pouco de esperteza ianque, para não terminar em um reformatório, um labirinto sem saída, um museu, um albergue, uma prisão ou um esplêndido mausoléu. Vejam em primeiro lugar qual é o mínimo absolutamente necessário

para um abrigo. Vi índios penobscots, aqui na cidade, morando em tendas de algodão fino enquanto a neve atingia quase trinta centímetros em volta deles, e achei que até gostariam que ela estivesse mais alta para protegê-los do vento. Tempos atrás, quando a questão de ganhar honestamente minha vida e ter liberdade para minhas próprias atividades me afligia ainda mais do que hoje, pois

infelizmente acabei ficando um tanto insensível, eu costumava ver um caixote grande na ferrovia, com 1,80 metro de comprimento por noventa centímetros de largura, onde os trabalhadores

trancavam suas ferramentas à noite, e aquilo me deu a ideia de que qualquer homem que andasse apertado poderia arranjar um daqueles por um dólar, abriria alguns furos de verruma para ter um pouco de ventilação, entraria dentro dele à noite ou quando chovesse, fecharia a tampa, e assim poderia ter liberdade em seu amor e ser livre em sua alma. Não parecia a pior alternativa, tampouco uma opção indesejável, de maneira nenhuma. Você poderia ficar acordado até a hora que quisesse e, quando levantasse, poderia ir embora sem nenhum senhorio ou fazendeiro a persegui-lo por causa do aluguel. Muitos dos que quase morrem para pagar o aluguel de um caixote maior e mais luxuoso não morreriam congelados num caixote desses. Não estou brincando. A economia é um assunto que pode ser tratado com leveza, mas nem por isso pode ser deixado de lado. No passado, uma raça rude e resistente, que vivia a maior parte do tempo ao ar livre, fez boas casas por aqui usando quase exclusivamente materiais que a Natureza já lhe fornecia prontos. Gookin, que foi o superintendente dos índios submetidos à Colônia de Massachusetts, escrevendo em 1674, diz: “As melhores casas têm uma cobertura muito bem feita, firme e quente, de cascas de árvore tiradas dos troncos na época em que a seiva sobe, as quais ainda verdes são prensadas em lâminas sob grandes toras de madeira.

(...) As mais simples são cobertas com esteiras que eles fazem com uma espécie de junco, e também são igualmente firmes e quentes, mas não tão boas quanto as primeiras. (...) Algumas que eu vi têm de vinte a trinta metros de comprimento e dez de largura. (...) Muitas vezes me hospedei nas tendas deles, e achei tão quentes quanto as melhores casas inglesas”. Ele acrescenta que geralmente eram forradas por dentro e no chão com esteiras bem trançadas e bordadas, e tinham vários utensílios. Os índios chegavam a regular a entrada do vento com uma esteira pendurada sobre o orifício no teto e acionada por um cordel. No primeiro caso, levava um, no máximo dois dias para erguer uma tenda daquelas, a qual podia ser desmontada e embalada em poucas horas; e todas as famílias tinham uma tenda ou um espaço dentro de uma delas.

No estado selvagem, toda família possui um bom abrigo, e suficiente para suas necessidades mais simples e rústicas; mas acho que não é exagero dizer que, se as aves do ar têm seus ninhos, as raposas suas tocas e os selvagens suas tendas, na sociedade civilizada moderna só metade das

famílias possui um abrigo. Nas vilas grandes e nas cidades, onde predomina especialmente a

civilização, a quantidade dos que têm abrigo próprio é uma parcela muito pequena do total. Os restantes pagam por essa roupa mais externa de todas, que se tornou indispensável no verão e no inverno, uma taxa anual que daria para comprar uma aldeia inteira de tendas índias, mas que agora contribui para mantê-los na pobreza durante a vida toda. Não quero insistir na desvantagem de alugar em comparação a possuir, mas é evidente que o selvagem possui seu abrigo porque custa

pouco, ao passo que o homem civilizado normalmente aluga o seu porque não pode possuí-lo; e

com o tempo nem vai mais conseguir alugar. Mas, responde alguém, simplesmente pagando essa

taxa o civilizado pobre pode morar numa casa que é um palácio em comparação à do selvagem. Um aluguel anual de 25 a 100 dólares, tais são os preços da região, permite-lhe gozar das melhorias dos séculos, aposentos amplos, pintura e papel claro nas paredes, uma lareira Rumford, paredes

reforçadas com argamassa, venezianas, encanamento de cobre, fechos de mola, um porão espaçoso e outras coisas mais. Mas como é que este homem, que dizem gozar dessas coisas, geralmente é um civilizado pobre, enquanto o selvagem, que não dispõe delas, é rico em sua condição de selvagem?

Quando afirmam que a civilização é um verdadeiro avanço na condição do homem – e penso que é, embora só os sábios aproveitem suas vantagens –, precisam demonstrar que ela criou moradias

melhores sem serem mais caras; e o custo de uma coisa é a quantidade do que chamo de vida que é preciso dar em troca, à vista ou a prazo. Uma casa média aqui nas redondezas custa cerca de uns 800 dólares, e juntar esse dinheiro leva de dez a quinze anos da vida do trabalhador, mesmo que ele não tenha que sustentar uma família – calculando em 1 dólar o valor monetário da diária de um homem, pois, se alguns ganham mais, outros ganham menos –, de modo que ele terá de gastar,

geralmente, mais da metade da vida antes de poder ter uma tenda própria. Supondo que, em vez de comprar, ele pague aluguel, continua a ser uma difícil escolha entre dois males. Seria sábio da parte do selvagem trocar sua tenda por um palácio nesses termos?

Pode-se supor que estou reduzindo praticamente toda a vantagem de possuir essa propriedade

supérflua a uma reserva para o futuro do indivíduo, principalmente para pagar as despesas de seu funeral. Mas talvez não se exija de um homem que ele enterre a si mesmo. De qualquer forma, isso indica uma diferença importante entre o civilizado e o selvagem; e sem dúvida, quando se

transforma a vida de um povo civilizado numa instituição, que absorve tanto a vida do indivíduo para preservar e aprimorar a vida da raça, a intenção é por nosso bem. Mas quero mostrar a que sacrifício se obtém hoje essa vantagem, e sugerir que poderíamos viver com todas as vantagens sem nenhuma das desvantagens. O que quereis dizer ao afirmar que pobres sempre tereis convosco, ou que os pais comeram as uvas verdes e os filhos ficaram com os dentes embotados?

“Tão certo como eu vivo”, diz o Senhor Deus, “jamais direis este provérbio em Israel.”

“Eis que todas as almas são minhas; como a alma do pai, também a alma do filho é minha; a alma que pecar, esta morrerá.”

Quando olho meus vizinhos, os agricultores de Concord, que vivem pelo menos tão bem quanto as outras classes, vejo que na maioria labutam vinte, trinta ou quarenta anos até se tornarem os verdadeiros donos de suas terras, que usualmente herdaram com dívidas ou compraram com

dinheiro emprestado – e podemos calcular um terço desse preço como o custo de suas casas –, mas geralmente ainda não acabaram de pagar. É verdade que os encargos às vezes são mais altos do que o valor do sítio, e assim o próprio sítio se torna um grande encargo, que ainda por cima um homem tem que herdar, pois diz que já está acostumado a ele. Perguntando aos funcionários da coletoria, fico surpreso ao ver que não conseguem citar uma dúzia de pessoas na cidade que tenham sítios sem dívidas. Se vocês quiserem saber a história desses terrenos rurais, perguntem no banco onde estão hipotecados. É tão raro o sujeito que realmente pagou o sítio com seu trabalho que qualquer vizinho pode apontá-lo com o dedo. Duvido que haja três deles em Concord. O que se fala dos

comerciantes, que uma enorme maioria, chegando a 97% deles, certamente vai falir, também ocorre com os agricultores. Mas, quanto aos comerciantes, um deles diz a esse respeito que grande parte das falências não são verdadeiras falências financeiras, mas apenas falências na hora de honrar os compromissos, porque é uma coisa inconveniente; ou seja, o que vai à falência é a moral. Mas isso dá um aspecto infinitamente pior à questão, e sugere, ademais, que provavelmente nem mesmo os outros três por cento conseguem salvar a alma, e estão falidos num sentido pior do que aqueles que vão honestamente à falência. A falência e o não reconhecimento de uma dívida são os trampolins de onde boa parte de nossa civilização dá seus saltos e vira suas cambalhotas, enquanto o selvagem se mantém de pé na prancha firme da fome. E no entanto todos os anos a Exposição de Gado do

Middlesex se realiza com grande ostentação, como se todas as engrenagens da máquina agrícola

estivessem funcionando bem.

O agricultor se debate para resolver o problema da subsistência com uma fórmula mais complicada do que o próprio problema. Para conseguir um cadarço de sapato, ele especula com rebanhos

inteiros de gado. Com a maior habilidade ele monta sua armadilha com um laço bem fino para

agarrar o conforto e a independência, e na hora de ir embora é sua perna que fica presa na cilada. É

por isso que ele é pobre; e é por uma razão parecida que todos nós, mesmo cercados de luxos,

somos pobres em relação a mil confortos selvagens. Como canta Chapman:

“A falsa sociedade dos homens –

por grandeza terrena –

todos os confortos do céu dissipa.”

[“The false society of men –

for earthly greatness

All heavenly comforts rarefies to air. ”]

E quando o agricultor se torna dono de sua casa, não vai ficar mais rico, e sim mais pobre, e é a casa que se torna dona dele. Em meu entender, era válida a objeção que Momo levantou contra a casa construída por Minerva, pois “não a fez móvel, o que permitiria evitar os maus vizinhos”; e ela ainda se aplica, pois nossas casas são tão difíceis de manejar que não raro ficamos mais presos do que abrigados dentro delas; e os maus vizinhos que teríamos de evitar são nossos próprios míseros eus. Conheço pelo menos uma ou duas famílias aqui em Concord que, faz quase uma geração,

querem vender a casa que têm nos arrabaldes e se mudar para a cidade, mas não conseguem vendê-

la e apenas a morte vai libertá-las.

Suponhamos que a maioria consiga finalmente comprar ou alugar a casa moderna com todas as suas melhorias. Enquanto a civilização andou melhorando nossas casas, ela não melhorou por igual os homens que vão ocupá-las. Criou palácios, mas não foi tão fácil criar nobres e reis. Se as metas do homem civilizado não valem mais do que as metas do selvagem, se ele dedica a maior parte de sua vida a obter apenas as principais necessidades e comodidades, por que haveria de ter uma moradia melhor do que o selvagem?

Mas como vive a minoria pobre? Talvez se descubra que, na mesma proporção em que alguns homens, nos aspectos externos, foram elevados acima do selvagem, outros foram degradados

abaixo dele. O luxo de uma classe é contrabalançado pela indigência de outra. De um lado fica o palácio, do outro o asilo de mendigos e os “pobres silenciosos”. Os milhares que construíram as pirâmides para ser as tumbas dos Faraós recebiam alho para comer e talvez nem tenham recebido um enterro decente. O pedreiro que dá o acabamento na cornija do palácio volta à noite para uma choça talvez pior do que uma tenda. É um erro supor que, num país onde existem as habituais

mostras de civilização, a condição de uma enorme parcela dos habitantes não possa ser tão

degradada quanto a dos selvagens. Estou me referindo agora ao degradado pobre, não ao degradado rico. Para vê-lo, basta olhar os barracos que por toda parte margeiam as ferrovias, este último avanço da civilização; onde em minhas caminhadas diárias vejo seres humanos vivendo em

pocilgas, e passando o inverno inteiro com uma porta aberta, por causa da luz, sem nenhuma pilha de lenha visível ou imaginável, e as silhuetas dos velhos e jovens permanentemente contraídas pelo longo hábito de se encolherem de frio e de fome, e o desenvolvimento interrompido de todos os seus membros e faculdades. Que bela visão olhar essa classe que foi quem fez, com seu trabalho, as obras que distinguem nossa geração. Em maior ou menor grau, é também a condição dos operários de todas as categorias na Inglaterra, que é o maior reformatório de trabalho forçado do mundo. Ou eu poderia remetê-los à Irlanda, que aparece como um dos pontos brancos ou esclarecidos no mapa.

Comparem a condição física do irlandês à do índio norte-americano, ou à do ilhéu dos Mares do Sul, ou à de qualquer outra raça selvagem antes de se degradar ao contato com o homem civilizado.

E no entanto não duvido que os governantes daquele povo sejam tão sábios ou sensatos quanto a média dos governantes civilizados. A condição deles só prova quanta miséria pode acompanhar a civilização. Nem preciso mencionar os trabalhadores de nossos estados sulinos que produzem os bens de exportação deste país, e são eles mesmos um item de produção do Sul. Vou me restringir aos que supostamente vivem em condições medianas.

Muitos homens parecem nunca ter pensado o que é uma casa, e são realmente, embora

desnecessariamente, pobres a vida inteira porque julgam necessário ter uma casa igual à dos

vizinhos. Como se alguém tivesse de usar um tipo qualquer de paletó que o alfaiate resolveu cortar ou, abandonando aos poucos o chapéu de folha de palmeira ou o boné de pele de marmota,

reclamasse dos tempos difíceis porque não consegue comprar uma coroa! É possível inventar uma casa ainda mais prática e mais luxuosa do que já temos, e pela qual no entanto todos admitiriam que ninguém tem condições de pagar. Ficaremos sempre estudando como conseguir mais coisas dessas, e nunca, nem de vez em quando, nos contentaremos com menos? O cidadão respeitável ficará

ensinando com toda a gravidade, pelo preceito e pelo exemplo, a necessidade de que o jovem

providencie uma determinada quantidade de galochas, guarda-chuvas e quartos de hóspedes vazios para hóspedes vazios, até morrer? Por que nosso mobiliário não pode ser tão simples quando o dos árabes ou dos índios? Quando penso nos benfeitores da nação, que saudamos apoteoticamente como mensageiros dos céus, portadores de dádivas divinas ao homem, não vejo mentalmente nenhum

séquito em seus calcanhares, nenhum carregamento de móveis elegantes atrás deles. Ou: e se eu conceder – não seria uma concessão curiosa? – que nossa mobília deve ser mais complexa do que a dos árabes, na mesma proporção em que somos moral e intelectualmente superiores a eles! Hoje em dia nossas casas vivem atravancadas e poluídas de móveis, e uma boa dona de casa preferiria jogar a maior parte no buraco do lixo do que deixar seu trabalho matinal sem terminar. Trabalho matinal!

Pelas cores da Aurora e pela música de Mêmnon, o que há de ser o trabalho matinal do homem neste mundo? Eu tinha três peças de calcário em minha escrivaninha, mas fiquei apavorado quando descobri que precisaria tirar o pó todo dia, enquanto a mobília de meu espírito ainda estava toda empoeirada, e de desgosto joguei fora as pedras pela janela. Então como poderia eu ter uma casa mobiliada? Prefiro sentar ao ar livre, pois o mato não junta pó, a não ser onde o homem fendeu o solo.

É o luxuoso e dissipado que cria as modas que o rebanho segue com tanto empenho. O viajante que se detém nos melhores estabelecimentos, como dizem, logo descobre isso, pois os taverneiros

imaginam que ele é algum Sardanápalo, e se ele aceitar suas gentis atenções logo vai ficar

completamente efeminado. Penso que, num vagão de trem, nossa tendência é gastar mais no luxo do que na segurança e na praticidade, e ele corre o risco de não se tornar nem seguro nem prático, e se converter apenas em uma sala de visitas moderna, com seus divãs, sofás, persianas e tantas outras coisas orientais que estamos trazendo para o Ocidente, inventadas para as damas dos haréns e para os nativos efeminados do Império Celestial que qualquer americano teria vergonha de conhecer.

Prefiro sentar numa abóbora e ter ela inteira para mim do que me espremer com mais gente em

almofadas de veludo. Prefiro andar na terra num carro de bois com o ar circulando livremente do que ir para o céu no vagão luxuoso de um trem de excursão e ficar respirando malaria a viagem toda.

A própria simplicidade e despojamento da vida do homem nos tempos primitivos traz pelo menos

esta vantagem, que ainda lhe permitia ser apenas um hóspede na natureza. Restaurado depois de comer e dormir, ele encarava de novo a viagem. Morava, por assim dizer, numa tenda neste mundo, e estava percorrendo os vales, ou atravessando as planícies, ou escalando o alto das montanhas.

Mas, ai!, os homens se tornaram os instrumentos de seus instrumentos. O homem independente que colhia os frutos quando estava com fome virou agricultor; aquele que se abrigava sob uma árvore agora tem uma casa para cuidar. Não acampamos mais por uma noite, mas assentamos na terra e

esquecemos o céu. Adotamos o cristianismo apenas como um método aperfeiçoado de cultura

agrícola. Construímos para este mundo uma mansão, e para o próximo um jazigo. As melhores obras de arte expressam a luta do homem para se libertar dessa condição, mas o efeito de nossa arte é apenas dar conforto a este estado baixo e fazer esquecer aquele estado elevado. Na verdade, aqui na cidade não há lugar onde possa ficar uma obra de belas artes, mesmo que tivéssemos alguma, pois nossa vida, nossas casas e ruas não oferecem nenhum pedestal adequado. Não há um prego

para pendurar um quadro, não há uma estante para receber o busto de um herói ou de um santo.

Quando vejo como nossas casas são construídas e pagas, ou não pagas, e como é mantida a

economia doméstica, admira-me que o chão não ceda sob os pés da visita que está a admirar as

quinquilharias no console da lareira, e que ela não caia no porão, sobre uma base apenas ordinária, mas sólida e honesta. Não posso deixar de perceber que se chegou a essa vida dita rica e refinada dando-se um salto, e não consigo me entregar ao gozo das belas artes que a ornamentam, pois minha atenção fica totalmente concentrada nesse salto; pois eu lembro que o maior salto genuíno de que se tem notícia, devido apenas aos músculos humanos, é o de alguns árabes nômades, que consta terem saltado mais de 7,60 metros de distância. Sem recursos artificiais, além dessa distância o homem certamente cai de novo na terra. A primeira pergunta que tenho vontade de fazer ao

proprietário de tão grande impropriedade é: Quem lhe dá suporte? Você é um daqueles 97 que vão à falência, ou um dos três que dão certo? Responda essas perguntas, e então talvez eu possa olhar suas bugigangas e achar bonitas. O carro na frente dos bois não é belo nem útil. Antes de enfeitar nossas casas com belos objetos, temos de descascar as paredes, e descascar nossas vidas, e trocar o belo modo de vida e a bela administração doméstica por bons alicerces: ora, o gosto pelo belo se cultiva melhor ao ar livre, onde não há casa nem administração doméstica.

Old Johnson, em seu Wonder-Working Providence, falando dos primeiros colonos daqui da cidade, contemporâneos seus, conta que “eles se entocam como primeiro abrigo no sopé de algum morro, e, espalhando terra por cima da madeira, fazem um fogo de fumaça para requeimar a terra, na parte mais alta”. Ficaram sem “construir casas”, diz ele, “até que o solo, pela bênção do Senhor, trouxe pão para alimentá-los”, e a colheita do primeiro ano foi tão pequena que “tiveram de cortar o pão em fatias muito finas por uma longa temporada”. O secretário da Província da Nova Holanda,

escrevendo em holandês, em 1650, para a informação dos que quisessem ocupar terras por lá,

afirma mais especificamente que “aqueles na Nova Holanda, e principalmente na Nova Inglaterra, que no começo não têm meios de construir casas rurais segundo seus desejos, cavam um buraco

quadrado no chão, como um porão, com 1,80 a 2,10 metros de fundura, da largura e do

comprimento que julgam adequados, revestem a cova por dentro com madeira ao longo das paredes, e cobrem a madeira com cascas de árvore ou alguma outra coisa para impedir o desmoronamento;

assoalham esse porão com tábuas e põem um lambril por cima servindo de forro, erguem um

telhado de toletes roliços de madeira e cobrem os toletes com torrões de turfa ou cascas de árvore, e assim podem morar com a família inteira nessas casas quentes e protegidas da chuva por dois, três ou quatro anos, entendendo-se que esses porões são divididos por tabiques internos, adaptados ao tamanho da família. Os homens ricos e mais importantes da Nova Inglaterra, no início das colônias, começaram suas primeiras casas desta maneira por duas razões: primeiro, para não perder tempo construindo, e para não faltar comida na próxima estação; segundo, para não desencorajar o grande número de trabalhadores pobres que trouxeram da Terra Natal. Depois de três ou quatro anos,