Walden por Henry David Thoreau - Versão HTML

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quando a região ficou adaptada à agricultura, eles construíram belas casas para si, gastando muitos milhares”.

Nesse caminho tomado por nossos antepassados havia pelo menos uma demonstração de prudência,

como se o princípio deles fosse atender primeiro às necessidades mais prementes. Mas agora estão atendidas as necessidades mais prementes? Quando penso em comprar para mim uma dessas

moradias luxuosas, desisto da ideia, pois a região, por assim dizer, ainda não está adaptada à cultura humana, e ainda somos obrigados a cortar nosso pão espiritual em fatias muito mais finas do que as do pão de trigo de nossos antepassados. Não que se deva desprezar todo e qualquer ornamento

arquitetônico, mesmo nas épocas mais rústicas; mas que nossas casas primeiro se ornem de beleza pelo contato que têm com nossa vida, como a concha do molusco, sem se revestir com um peso

adicional. Mas, pobres de nós!, visitei uma ou duas delas, e bem sei como estão revestidas.

Mesmo que não tenhamos degenerado a ponto de não conseguir mais viver numa caverna ou numa

tenda ou usar peles de animais, certamente é melhor aceitar as vantagens, mesmo tão caras,

oferecidas pelo engenho e pelo trabalho da humanidade. Onde vivemos, as tábuas e telhas de

madeira, o cal e os tijolos são mais baratos e mais fáceis de conseguir do que boas cavernas, troncos inteiros ou cascas de árvore em volume suficiente, ou mesmo pedras chatas ou argila recozida. Falo desse assunto com conhecimento de causa, pois me familiarizei com ele na teoria e na prática. Com um pouco mais de engenho, podíamos usar esses materiais e ser mais ricos do que os mais ricos de hoje, e transformar essa nossa civilização numa bênção. O homem civilizado é um selvagem mais sábio e mais experiente. Mas passemos logo à minha própria experiência.

Lá pelo final de março de 1845, peguei emprestado um machado e fui para as matas do Lago

Walden, onde eu queria construir minha casa, e comecei a derrubar alguns pinheiros-brancos altos e pontiagudos, ainda jovens, para a madeira. É difícil começar sem pedir emprestado, mas aí talvez a providência mais generosa seja permitir que nosso semelhante tenha alguma participação em nosso empreendimento. O dono do machado, quando me emprestou, disse que era a menina de seus olhos; mas eu o devolvi mais afiado do que quando o peguei. Onde eu trabalhava era uma colina

agradável, coberta de pinheirais, por onde eu podia enxergar o lago, e uma pequena clareira na mata onde brotavam pinheiros e nogueiras americanas. O gelo no lago ainda não tinha derretido, mas havia alguns trechos descongelados; ele estava escuro e o nível da água alto. Houve umas leves lufadas de neve nos dias em que trabalhei ali; mas, de modo geral, quando eu saía e ia até a estrada de ferro, voltando para casa, seus montes de areia amarela se estendiam ao longe, cintilando na atmosfera enevoada, e os trilhos brilhavam ao sol da primavera, e eu ouvia a cotovia, a pega e outros pássaros que já tinham chegado para passar mais um ano entre nós. Eram dias agradáveis de primavera, o inverno da desesperança do homem degelando como a terra, e a vida adormecida

começava a se espreguiçar de novo. Um dia em que o machado se desprendera do cabo e cortei uma nogueira verde para fazer uma cunha, que enfiei calcando com uma pedra, e pus de molho dentro de um buraco no lago para a madeira inchar, vi uma cobra listrada deslizar para dentro d’água, e ela ficou ali no fundo, aparentemente sem se incomodar, durante o tempo inteiro que fiquei por lá, mais de um quarto de hora; talvez porque ainda não tivesse saído totalmente do estado de dormência. E

imaginei que é por uma razão parecida que os homens permanecem em sua atual condição baixa e

primitiva; mas, se sentissem a prima e vera influência da primavera despertando-os da dormência, forçosamente se alçariam a uma vida mais elevada e mais etérea. Eu já tinha visto antes as cobras em meu caminho, nas manhãs de geada, com partes do corpo ainda duras e letárgicas, esperando o sol para se descongelar. No dia 1o de abril choveu, e a chuva derreteu o gelo, e no começo do dia, que estava muito nublado, ouvi um ganso extraviado tenteando pelo lago e grasnando como se

estivesse perdido, ou como se fosse o espírito da neblina.

Então continuei mais alguns dias cortando e desbastando madeira, e também vigas e caibros, tudo com meu machadinho estreito, sem muitos pensamentos que parecessem eruditos ou que pudesse

comunicar, cantarolando sozinho:

Os homens dizem que muito sabem,

Vejam só, até asas lhes cabem –

Artes e ciências,

E mil aparências;

E o vento que arrefece

É só o que o corpo conhece.[2]

[ Man say they know many things;

But lo! they have taken wings,–

The arts and sciences,

And thousand appliances;

The wind that blows

Is all that any body knows. ]

Aparei os troncos principais com 40 centímetros quadrados, a maioria dos caibros só em dois lados, e as vigas e a madeira do assoalho só de um lado, deixando o resto com costaneira, e assim ficaram retos e muito mais fortes do que se fossem serrados. Espiguei cuidadosamente as pranchas com um formão, pois a essas alturas eu já tinha pedido emprestado outras ferramentas. Meus dias na mata não eram muito compridos; mesmo assim, eu costumava levar meu lanche de pão com manteiga, e

lia o jornal em que ele vinha embrulhado, ao meio-dia, sentado entre os galhos de pinheiro verde que tinha cortado, e um pouco do perfume deles passava para o pão, pois minhas mãos ficavam

cobertas de uma camada grossa de resina. Antes de acabar, já tinha virado mais amigo do que

inimigo dos pinheiros, pois, mesmo tendo derrubado alguns, agora eu os conhecia melhor. Às vezes um andarilho no mato era atraído pelo som de meu machado, e conversávamos agradavelmente por

cima das lascas de madeira.

Em meados de abril, pois eu não tinha pressa e sim apreço no trabalho, a estrutura da casa estava montada e pronta para ser erguida. Eu já tinha comprado o barraco de James Collins, um irlandês que trabalhava na Ferrovia Fitchburg, por causa das tábuas. O barraco de James Collins era

considerado ótimo em sua categoria. Quando fui vê-lo, James não estava em casa. Dei uma volta por fora, no começo sem que me vissem lá de dentro, tão alta e recuada era a janela. Era um barraco pequeno, com um telhado em ponta, e não tinha muito mais a mostrar, com um monte de lixo de um metro e meio de altura em redor, como se fosse uma compostagem. O telhado era a parte mais

sólida da casa, embora estivesse empenado e quebradiço por causa do sol. Soleira não havia

nenhuma, e por baixo da tábua da porta havia uma passagem perpétua para as galinhas. A sra. C.

veio atender e me convidou para olhar a casa por dentro. Quando me aproximei, as galinhas

entraram correndo. Estava escuro, e o chão estava na maior parte enlameado, úmido, viscoso,

friorento, só uma tábua aqui e outra ali que não resistiriam à remoção. Ela acendeu uma lâmpada para me mostrar a parte interna do telhado e as paredes, e também que o assoalho se estendia por baixo da cama, me avisando para não cair no porão, uma espécie de buraco de terra com 60

centímetros de fundura. Como disse ela, eram “boas tábuas em cima, boas tábuas em volta e uma boa janela” – de início com duas vidraças inteiras, só que ultimamente a gata tinha resolvido sair por ali. Havia um fogão, uma cama e um lugar para sentar, um nenê nascido em casa, uma

sombrinha de seda, um espelho com moldura dourada e um moedor de café visivelmente novo

preso num toco de carvalho, e só. Logo fizemos o acordo, pois James tinha voltado nesse meio

tempo. Eu, de pagar quatro dólares e 25 centavos hoje à noite, ele, de sair amanhã às cinco da manhã, sem vender para mais ninguém nesse intervalo: eu, de tomar posse às seis. Seria bom, disse ele, chegar cedo para prevenir algumas reclamações vagas, mas totalmente injustas, sobre o aluguel do terreno e a lenha. Isso ele me garantiu que era o único encargo. Às seis cruzei com James e família na estrada. Coube tudo numa trouxa grande – cama, moedor de café, espelho, galinhas –, tudo menos a gata, que foi para o mato e virou uma gata selvagem, e fiquei sabendo depois que caiu numa armadilha para marmota e assim virou uma gata morta.

Derrubei essa casa na mesma manhã, tirando os pregos, e transportei o material em várias viagens de carriola até o lago, espalhando as tábuas por cima do capim para quarar e desempenar ao sol. Um tordo matinal me assobiou uma ou duas notas enquanto eu empurrava a carriola pela trilha da mata.

Fui traiçoeiramente informado por um rapaz irlandês que o vizinho Seeley, um outro irlandês, nos intervalos em que eu saía com a carriola, estava transferindo para seu bolso os pregos, cavilhas e grampos ainda razoavelmente retos e prestáveis, e então, quando eu voltava, ele se punha ali como se estivesse passando o tempo, e olhando a devastação com ar petulante, despreocupado, cheio de pensamentos primaveris; por falta de serviço, como disse ele. Estava ali representando a plateia, e contribuiu para tornar esse episódio aparentemente insignificante similar à saída dos deuses de Troia.

Cavei meu porão na encosta sul de uma colina, onde uma marmota já tinha feito sua toca,

atravessando raízes de sumagre e amora preta e os estratos do solo, um quadrado de 1,80 por 1,80

com 2,10 metros de profundidade, até chegar a uma areia fina onde as batatas nunca congelariam no inverno. As laterais ficaram inclinadas, e sem pedras; mas, como o sol nunca bate ali, a areia ainda se mantém no lugar. Foram apenas duas horas de trabalho. Tive especial prazer nessa tarefa de abrir o solo, pois em quase todas as latitudes os homens cavam a terra procurando uma temperatura

constante. Sob a mais esplêndida casa da cidade ainda se encontra o porão onde armazenam suas raízes como antigamente, e muito tempo depois de desaparecer a superestrutura a posteridade ainda vê seu recorte na terra. A casa ainda é apenas uma espécie de pórtico na entrada de uma toca.

Finalmente, no começo de maio, com a ajuda de alguns conhecidos, mais para aproveitar uma boa ocasião de convívio com os vizinhos do que por necessidade, ergui a estrutura de minha casa.

Nenhum homem jamais teve honra maior do que eu no caráter de seus inspiradores ajudantes. Estão destinados, confio eu, a erguer algum dia estruturas mais elevadas. Comecei a ocupar minha casa em 4 de julho, logo que ela recebeu assoalho e telhado, pois as tábuas foram cuidadosamente

chanfradas e encaixadas e ficaram totalmente impermeáveis à chuva; mas, antes de assoalhar, fiz a base de uma lareira num dos lados, trazendo no braço duas carradas de pedras do lago até o alto da colina. Ergui a lareira depois da carpição do outono, antes que se tornasse indispensável o calor do fogo, enquanto isso cozinhando no chão, ao ar livre, de manhã cedo: modo este que ainda

considero, em alguns aspectos, mais conveniente e mais agradável do que o usual. Quando a chuva chegava antes que o pão estivesse pronto, eu fazia uma armação de tábuas por cima do fogo, e

ficava sentado ali embaixo cuidando de meu pão, e passava algumas horas agradáveis nisso.

Naqueles dias, com as mãos muito ocupadas, eu lia pouco, mas o menor pedacinho de jornal que

estivesse no chão, em minha vasilha ou na toalha de mesa me oferecia o mesmo entretenimento, na verdade respondia à mesma finalidade de uma Ilíada.

Valeria a pena construir ainda mais devagar do que construí, avaliando, por exemplo, qual o

fundamento que uma porta, uma janela, um porão, um sótão têm na natureza do homem, e talvez

nunca erguendo superestrutura alguma enquanto não encontrássemos para ela uma razão melhor do que nossas necessidades temporais. Quando um homem constrói sua casa, há aí um pouco da

mesma aptidão com que uma ave constrói seu ninho. Quem sabe, se os homens construíssem suas

moradias com as próprias mãos, e providenciassem alimento para si e para suas famílias com

simplicidade e honestidade, será que a faculdade poética não se desenvolveria de modo universal, tal como as aves universalmente cantam quando estão empenhadas nessas atividades? Mas, ai de

nós!, fazemos como os chupins e os cucos, que botam seus ovos nos ninhos construídos por outros passarinhos, e não alegram ninguém com seus piados pouco musicais. Iremos sempre entregar o

prazer da construção ao carpinteiro? O que a arquitetura representa na experiência da maioria dos homens? Em todos os meus passeios, nunca topei com alguém empenhado numa ocupação tão

simples e natural como construir a própria casa. Fazemos parte da comunidade. Não é só o alfaiate que é a nona parte de um homem; o pregador, o comerciante, o agricultor também são. Aonde vai parar essa divisão do trabalho? e no final das contas a que objetivo ela serve? Claro que outra pessoa também pode pensar por mim; mas nem por isso é desejável que o faça e que eu deixe de pensar por mim mesmo.

Certo, existem os chamados arquitetos aqui neste país, e ouvi falar pelo menos de um deles

possuído pela ideia de dar aos ornamentos arquitetônicos um núcleo de verdade, uma necessidade e, portanto, uma beleza, como se isso fosse uma revelação para ele. Tudo bem, talvez, do ponto de vista dele, mas não é muito mais do que mero diletantismo. Reformador sentimental da arquitetura, ele começou pela cornija, não pelo alicerce. Era apenas como colocar um núcleo de verdade dentro dos ornamentos, e de fato todo bombom pode ter uma amêndoa ou semente de cariz dentro dele –

embora eu ache que as amêndoas são extremamente saudáveis sem o açúcar –, e à diferença do

simples habitante, o morador realmente construiria por dentro e por fora, deixando que os

ornamentos cuidassem de si mesmos. Que homem sensato algum dia supôs que os ornamentos

seriam simplesmente algo externo, apenas de superfície – que a tartaruga ganhou seu casco malhado ou o molusco seus matizes de madrepérola por um contrato como o dos moradores da Broadway

com sua Trinity Church? Mas um homem não precisa se ocupar com o estilo arquitetônico de sua

casa mais do que a tartaruga com o estilo de seu casco: e tampouco o soldado precisa perder tempo tentando pintar em sua bandeira a cor exata de sua virtude. O inimigo vai descobrir. Ele pode empalidecer quando chegar a hora de se pôr à prova. Este homem me deu a impressão de se

debruçar na cornija e sussurrar timidamente sua meia verdade aos rudes ocupantes da casa, que na verdade nem acreditaram muito nele. O que vejo de beleza arquitetônica, sei que cresceu aos

poucos de dentro para fora, brotando das necessidades e do caráter do morador, que é o único

construtor – brotando de alguma verdade inconsciente e da nobreza, sem jamais pensar na

aparência; e qualquer beleza adicional desse gênero que vier a surgir será precedida por uma beleza da vida igualmente inconsciente. As moradias mais interessantes neste país, como sabe o pintor, são geralmente os chalés e casebres de tronco mais humildes e despretensiosos dos pobres; o que os torna pitorescos é a vida dos moradores que têm ali suas conchas, e não meramente alguma peculiaridade de sua superfície; e igualmente interessante será o caixote suburbano do morador citadino quando sua vida também for simples e agradável para a imaginação, e sem qualquer

esforço para obter algum efeito de estilo em sua moradia. Grande parte dos ornamentos

arquitetônicos são literalmente vazios, e um vendaval de outono os arrancaria, como plumas

emprestadas, sem nenhum dano ao essencial. Quem não tem azeitonas e vinhos na adega pode

passar sem arquitetura. E o que seria se se criasse o mesmo alvoroço em torno dos ornamentos estilísticos na literatura, e os arquitetos de nossas bíblias gastassem tanto tempo em suas cornijas quanto os arquitetos de nossas igrejas? Assim surgem as belles-lettres e os beaux-arts e seus mestres. Interessa muito a um homem, deveras, quantos paus estão assim ou assado por cima ou por baixo dele, e de que cor é sua caixa. Significaria alguma coisa se, em algum sentido importante, tivesse sido ele a colocar os paus e a pintar sua casa; mas, tendo o espírito abandonado o morador, é a mesma coisa que construir seu próprio caixão – a arquitetura da tumba, e “carpinteiro” é só um outro nome para “fazedor de caixão”. Diz alguém, em seu desespero ou indiferença à vida: pegue um punhado de terra do chão e pinte sua casa dessa cor. Está ele pensando em sua última e estreita morada? Podem apostar nisso também. Que falta do que fazer! Para que pegar um punhado de

terra? Melhor pintar a casa na cor de sua pele; aí ela vai corar e empalidecer por você. Que façanha aprimorar o estilo da arquitetura de uma cabana! Quando você estiver com meus ornamentos

prontos, vou usá-los.

Antes do inverno construí uma lareira, e revesti as laterais de minha casa, que já eram impermeáveis à chuva, com placas de madeira irregulares e úmidas de seiva que tirei da primeira camada do

tronco, cujas beiradas tive de acertar com uma plaina.

Assim tenho uma casa de estuque e placas de madeira bem firmes, com 3 metros de largura por 5

metros de comprimento, e pé direito de 2,40 metros, com um sótão e uma despensa, uma janela

larga de cada lado, dois alçapões, uma porta na ponta e uma lareira de tijolos no lado oposto. O

custo exato de minha casa, pagando o preço normal pelos materiais que usei, mas sem contar o

trabalho, todo ele feito por mim, foi o seguinte; e dou os detalhes porque pouquíssima gente sabe dizer exatamente o quanto custa sua casa, e ninguém ou quase ninguém sabe o custo de cada um

dos vários materiais empregados:

Tábuas $8,03 ½ , na maioria não aplainadas

Refugo de taubilhas

para o telhado e as laterais 4,00

Ripas 1,25

Duas janelas com vidro

de segunda mão 2,43

Mil tijolos usados 4,00

Duas barriladas de cal 2,40 Foi caro.

Fibra animal 0,31 Mais do que eu precisava.

Ferro para a armação da lareira 0,15

Pregos 3,90

Dobradiças e parafusos 0,14

Trinco 0,10

Cal 0,01

Transporte 1,40 Carreguei boa parte nas costas.

Ao todo $28,12 ½

Este é o total de material, exceto os troncos de madeira, as pedras e a areia, que incluí entre meus direitos de posseiro. Também tenho um pequeno telheiro, feito basicamente com o que sobrou

depois de construir a casa.

Pretendo construir para mim uma casa que vai superar em luxo e grandeza qualquer uma da rua

principal de Concord, logo que me der vontade, e não vai me custar mais caro do que esta.

Assim descobri que o estudante que quiser pode obter uma morada para o resto da vida a um preço não superior ao aluguel anual que ele paga hoje em dia. Se pareço me vangloriar mais do que

deveria, minha desculpa é que alardeio para a humanidade, e não para mim mesmo; e meus defeitos e incoerências não afetam a verdade do que digo. Apesar de muita hipocrisia e fingimento – joio que acho difícil separar de meu trigo, mas que lamento como todo mundo –, vou respirar livremente e me esticar à vontade, de tanto alívio que isso traz ao sistema físico e moral; e decidi que não vou me tornar o advogado do diabo só por humildade. Vou me empenhar em falar a favor da verdade.

Na Universidade de Cambridge, o simples aluguel de um quarto de estudante, só um pouco maior

do que o meu, sai por trinta dólares ao ano, embora a universidade tenha aproveitado para construir 32 dormitórios, um ao lado do outro e sob o mesmo teto, e o ocupante sofre o inconveniente de ter muitos vizinhos barulhentos, e talvez ainda por cima tenha de ficar no quarto andar. Não consigo deixar de pensar que, se realmente tivéssemos maior sensatez verdadeira nesses aspectos, não só seria preciso menos ensino escolar, pois de fato já se teria aprendido mais, como também as

despesas monetárias com a educação diminuiriam muito. Essas comodidades que o estudante requer em Cambridge ou algum outro lugar custam a ele ou a alguma outra pessoa um sacrifício de vida dez vezes maior do que teriam com uma administração sensata de ambos os lados. As coisas que

demandam a maior parte do dinheiro nunca são as coisas de que o estudante mais precisa. Os

cursos, por exemplo, correspondem a um item importante na anuidade, ao passo que não se cobra nada pela educação muitíssimo mais valiosa que o estudante obtém ao conviver com seus

contemporâneos mais cultivados. A maneira de criar uma faculdade é, geralmente, conseguir uma subscrição de dólares e centavos, e então seguir cegamente os princípios de uma divisão do trabalho levada a seu extremo, princípios estes que jamais deveriam ser seguidos a não ser com muita

circunspecção – chamar um empreiteiro que faz daquilo um objeto de especulação, e emprega

irlandeses ou outros operários para fazer a fundação, enquanto os futuros estudantes ficam

supostamente se preparando para o curso; e gerações inteiras têm de pagar por essas omissas

empreitadas. Penso que, para os estudantes ou os que desejam ser beneficiados com esses estudos, seria melhor eles mesmos construírem a fundação. O estudante que consegue seu sonhado retiro e lazer evitando sistematicamente qualquer trabalho necessário ao homem obtém apenas um lazer

indigno e estéril, roubando a si mesmo a experiência, única coisa capaz de tornar o lazer fecundo.

“Mas”, pode alguém perguntar, “então você está dizendo que os estudantes deveriam trabalhar com as mãos e não com a cabeça?” Não é bem isso o que estou dizendo, mas o que estou dizendo é algo que ele poderia achar bem parecido com isso; o que estou dizendo é que eles não deviam apenas estudar a vida ou brincar de viver, enquanto a comunidade os sustenta nesse jogo bem caro, e sim vivê-la sinceramente do começo ao fim. Como os jovens podem melhor aprender a viver a não ser tentando a experiência de viver? A meu ver, isso exercitaria o intelecto deles, tanto quanto a matemática. Se eu quisesse que um menino aprendesse alguma coisa de artes e ciências, por

exemplo, eu não seguiria a praxe, que é simplesmente mandá-lo para junto de algum professor,

onde se professa e se pratica qualquer coisa menos a arte da vida – examinar o mundo por um

telescópio ou por um microscópio, e nunca com o olho a nu; estudar química e não aprender como é feito o pão, ou mecânica, e não aprender como se ganha a vida; descobrir novos satélites de Netuno e não perceber o cisco nos olhos, ou de que ente errante ele mesmo é satélite; ou ser devorado pelos monstros que pululam a seu redor enquanto examina os monstros numa gota de vinagre. Depois de um mês, quem teria aprendido mais – o menino que fez seu canivete simples com o minério que ele mesmo desencavou e fundiu, lendo o que fosse necessário, ou o menino que, enquanto isso, assistiu às aulas de metalurgia no Instituto e ganhou do pai um Rogers de duas travas? Quem teria mais chance de cortar o dedo?... Para meu grande espanto, quando saí da faculdade fui informado de que tinha estudado navegação! – ora, se eu tivesse dado uma volta pelo porto, teria aprendido mais.

Mesmo o estudante pobre estuda e aprende apenas economia política, enquanto aquela economia do viver que é sinônimo de filosofia não é sequer professada sinceramente em nossas faculdades. A consequência é que, enquanto ele fica lendo Adam Smith, Ricardo e Say, leva o pai a se endividar irremediavelmente.

Tal como nas faculdades, o mesmo ocorre com inúmeros “avanços modernos”; há uma ilusão em

torno deles; nem sempre é um avanço positivo. O diabo continua até o final a ganhar juros

compostos sobre sua participação inicial e sobre os vários investimentos posteriores. Nossas

invenções costumam ser brinquedos bonitinhos, que distraem nossa atenção das coisas sérias. Não passam de meios aperfeiçoados para um fim não aperfeiçoado, um fim que já era muito fácil de

alcançar; como as ferrovias que levam a Boston ou a Nova York. Estamos na maior pressa para

construir um telégrafo magnético do Maine ao Texas; mas o Maine e o Texas possivelmente não

têm nada de importante para comunicar. Ambos ficam na situação daquele homem que tanto queria ser apresentado a uma ilustre senhora surda, mas, na hora da apresentação e quando lhe puseram na mão uma das pontas do aparelho de surdez da dama, ele não tinha nada a dizer. Como se o principal objetivo fosse falar rápido, em vez de falar com sensatez. Temos a maior vontade de fazer um túnel sob o Atlântico, para trazer o velho mundo algumas semanas mais perto do novo mundo; mas quiçá a primeira notícia que vai vazar na grande orelha de abano americana será que a princesa Adelaide sofre de tosse comprida. Afinal, o homem cujo cavalo trota 1,6 quilômetro num minuto não está levando as mensagens mais importantes; não é um apóstolo nem se alimenta de gafanhotos e mel

silvestre. Duvido que Flying Childers tenha algum dia levado um saco de milho ao moinho.

Alguém me diz: “Duvido que você não tenha dinheiro guardado; você gosta de viajar; podia pegar o trem e ir até Fichtburg hoje e ver a região”. Mas sou mais esperto. Aprendi que o viajante mais rápido é o que vai a pé. Digo a meu amigo: “Vamos supor e ver quem chega lá primeiro. A distância é de 48 quilômetros, a passagem custa 90 centavos. É quase um dia de salário. Lembro quando a diária era de 60 centavos para os trabalhadores desta mesma estrada. Bom, eu saio agora a pé, e chego lá antes do anoitecer. Tenho andado nesse ritmo a semana toda. Enquanto isso, você vai

ganhar o dinheiro da passagem, e chega lá amanhã a alguma hora, ou talvez ainda esta noite, se tiver a sorte de conseguir um serviço de temporada. Em vez de estar indo para Fitchburg, você vai estar trabalhando aqui a maior parte do dia. E assim, mesmo que a ferrovia dê a volta ao mundo, acho que sempre vou estar à sua frente; e quanto a ver a região e viver essa experiência, eu

descartaria totalmente a hipótese de que você consiga”.

Tal é a lei universal, que nenhum homem pode burlar, e quanto à ferrovia, podemos até dizer que o seu comprimento é igual à sua largura. Fazer uma ferrovia ao redor do mundo, acessível a toda a humanidade, equivale a nivelar a superfície inteira do planeta. Os homens têm uma vaga noção de que, se mantiverem essa atividade de pás, picaretas e capitais empresariais por tempo suficiente, algum dia todos irão a algum lugar quase instantaneamente e por uma ninharia; mas, embora uma multidão se precipite para a plataforma e o condutor grite “Hora de embarcar!”, quando a fumaça se dissipar e o vapor se condensar, perceberão que poucos subiram e os restantes foram atropelados – e isso será qualificado de “Um triste acidente”, e será mesmo. Sem dúvida, quem tiver dinheiro para a passagem finalmente poderá viajar, isto é, se estiver vivo até lá, mas provavelmente já terá perdido a elasticidade e a vontade de viajar. Essa coisa de gastar a melhor parte da vida ganhando dinheiro para gozar uma duvidosa liberdade em sua parte menos valiosa me faz lembrar aquele inglês que primeiro foi à Índia fazer fortuna para poder depois voltar à Inglaterra e levar uma vida de poeta.

“Mas como!”, exclama um milhão de irlandeses erguendo-se de todos os barracos na terra, “essa ferrovia que a gente construiu não é boa?” Sim, respondo eu, relativamente boa, isto é, vocês poderiam ter feito pior; mas, como vocês são meus irmãos, eu preferiria que tivessem gastado o tempo melhor do que cavando nessa lama.

Antes de terminar minha casa, querendo ganhar dez ou doze dólares com algum método honesto e

agradável para cobrir minhas despesas extraordinárias, plantei perto dela cerca de 2,5 acres de terra leve e arenosa principalmente com feijão, mas também uma pequena parte com batata, milho,

ervilha e nabo. O terreno todo tem cerca de onze acres, a maior parte consistindo em pinheiros e nogueiras, e foi vendido na estação passada por oito dólares e oito centavos o acre. Um agricultor disse que “só prestava para criar esquilos barulhentos”. Não pus nenhum esterco nessa terra, pois não era o dono, mas um simples posseiro, e não esperava plantar tanto numa próxima vez, e nunca carpi a área toda. Destoquei muitos metros cúbicos de madeira enquanto arava, o que me forneceu lenha para muito tempo, e deixei vários círculos de terra vegetal virgem, que durante o verão se distinguiam facilmente pelo feijão mais viçoso que cresceu ali. A madeira morta, na maior parte invendável, que ficava atrás de minha casa, e a madeira flutuante do lago me forneceram o restante do combustível. Fui obrigado a contratar uma parelha de bois e um homem para arar o campo, mas o arado eu mesmo conduzi. Meus gastos agrícolas na primeira estação foram de $14,72 ½ para os implementos, sementes, mão de obra etc. As sementes de milho eu ganhei. Elas não custam

praticamente nada, a não ser que você plante muito. Colhi doze balaios de feijão e dezoito balaios de batata, além de um pouco de ervilha e milho doce. O milho amarelo e os nabos foram plantados tarde demais para dar qualquer coisa. Minha receita total do sítio foi:

$23,44

Deduzindo as despesas 14,72 ½

Sobraram $8,71 ½

além da produção consumida e do estoque na época em que foi feito o cálculo, no valor de $4,50 – a quantidade em estoque mais do que compensando um pouco de pasto que não cultivei.

Considerando tudo, isto é, considerando a importância da alma de um homem e do dia de hoje,

apesar do curto tempo que durou minha experiência, em parte até por causa de seu caráter

transitório, acredito que estava indo melhor do que qualquer agricultor em Concord naquele ano.

No ano seguinte eu me saí melhor ainda, pois lavrei no braço toda a terra de que precisava, cerca de 1/3 de acre, e aprendi com a experiência dos dois anos, sem me intimidar minimamente com muitas celebradas obras sobre agricultura, entre elas a de Arthur Young, que se o sujeito vive com

simplicidade e come apenas o que planta, e não planta mais do que come, e não troca por uma

quantidade insuficiente de coisas mais caras e luxuosas, basta cultivar umas poucas carreiras, e que é mais barato lavrar no braço do que arar com bois, e escolher um novo local de tempos em tempos em vez de estercar o velho, e que ele pode fazer toda a sua lida rural com uma mão nas costas, por assim dizer, em algumas horas no verão; e assim não fica amarrado a um boi, ou cavalo, ou vaca, ou porco, como hoje em dia. Quero falar com imparcialidade sobre isso, sem nenhum interesse no

sucesso ou no fracasso dos atuais arranjos sociais e econômicos. Eu era mais independente do que qualquer agricultor em Concord, pois não estava preso a uma casa ou sítio, mas podia seguir a inclinação de meu gênio, que é muito irregular, a cada momento. Além de já estar melhor do que eles, se a minha casa tivesse queimado ou a safra não rendesse, eu ficaria quase tão bem quanto antes.

Costumo pensar que os homens não são os pastores dos rebanhos e sim os rebanhos são os pastores dos homens, pois são muito mais livres. Homens e bois trocam serviços; mas, se considerarmos

apenas o serviço necessário, veremos que os bois levam grande vantagem, pois a terra deles é muito maior. O homem cumpre uma parte do que lhe cabe na troca de serviços nas seis semanas em que

faz feno, e isso dá um trabalho que não é brincadeira. Certamente nenhuma nação que vivesse com simplicidade em todos os aspectos, ou seja, nenhuma nação de filósofos, cometeria a asneira tão grande de usar o trabalho animal. É verdade que nunca existiu e provavelmente tão cedo nunca

existirá uma nação de filósofos, e nem sei se seria bom que existisse. Em todo caso, eu nunca amansaria um cavalo ou um touro e lhe daria de comer em troca de qualquer trabalho que pudesse fazer para mim, pelo medo de me tornar simplesmente o homem do cavalo ou o homem da boiada;

e se parece ser a sociedade que sai ganhando, temos mesmo certeza de que o ganho de um não é a perda de outro, e que o menino do estábulo tem razões para se sentir tão satisfeito quanto seu patrão? Admitindo que algumas obras públicas não teriam sido construídas sem esse auxílio, o

homem então que partilhe a glória com o boi e o cavalo; segue-se daí que, neste caso, ele não poderia ter realizado obras ainda mais dignas de si? Quando os homens começam a fazer com o

auxílio dos animais uma obra não meramente desnecessária ou artística, mas luxuosa e fútil, é inevitável que alguns cumpram toda a outra parte do acordo com os bois, ou, em outras palavras, tornem-se os escravos dos mais fortes. Assim, o homem não trabalha apenas para o animal dentro de si, mas, como um símbolo disso, trabalha para o animal fora de si. Embora tenhamos muitos

casarões de pedra ou tijolo, a prosperidade do agricultor ainda é medida pela sombra que o estábulo projeta sobre a casa. Dizem que nossa cidade tem as maiores casas para bois, vacas e cavalos das redondezas, e ela não fica atrás em seus edifícios públicos; mas são pouquíssimos os espaços que abrigam a liberdade de culto ou a liberdade de expressão neste condado. Não deveria ser pela

arquitetura, e sim, por que não?, pelo poder do pensamento abstrato, que as nações deveriam

celebrar a si mesmas. Muito mais admirável é o Bhagavad-Gita do que todas as ruínas do Oriente!

Torres e templos são luxos de príncipes. Um espírito simples e independente não trabalha sob as ordens de príncipe algum. O gênio não é criado de nenhum imperador, e seu material não é o ouro, a prata ou o mármore, exceto a um ínfimo grau. Ora por favor, para que tanta pedra malhada? Na Arcádia, quando eu estava lá, não vi ninguém malhando pedra. As nações são possuídas por uma

ambição insana de perpetuar a própria memória pela quantidade de pedra malhada que deixam. E se dedicassem igual esforço para alisar e polir suas maneiras? Uma pequena obra de bom senso seria mais memorável do que um monumento da altura dos céus. Gosto muito mais de ver as pedras no

lugar. A grandeza de Tebas era uma grandeza vulgar. Mais sensata do que Tebas das cem portas, que se extraviou da verdadeira finalidade da vida, é a fiada de pedras cercando o campo de um homem honesto. A religião e a civilização que são bárbaras e pagãs constroem templos magníficos; mas o que podemos chamar de cristianismo, não. A maior parte das pedras de uma nação se destina apenas à sua tumba. Ela se enterra viva. Quanto às pirâmides, o que mais admira é o fato de terem se encontrado tantos homens tão degradados que passaram a vida construindo uma tumba para algum

néscio ambicioso, que teria sido mais sábio e mais valoroso ter afogado no Nilo e depois entregado seu cadáver aos cães. Eu até poderia inventar alguma desculpa para eles e para ele, mas não tenho tempo para isso. Quanto à religião e o amor à arte dos construtores, são muito parecidos no mundo inteiro, seja um templo egípcio ou o Banco dos Estados Unidos. Custa mais do que vale. A mola é a vaidade, ajudada pelo amor ao alho e ao pão com manteiga. O sr. Balcom, um jovem arquiteto

promissor, faz o desenho com lápis e régua nas costas de seu Vitrúvio, e o serviço é passado para Dobson & Sons, construtores. Quando os trinta séculos começam a contemplar lá do alto, a

humanidade começa a contemplar aqui de baixo. Quanto a suas altas torres e monumentos, havia

um sujeito maluco aqui na cidade que resolveu cavar até a China, e cavou tanto, disse ele, que ouviu chacoalhar os tachos e as panelas dos chineses; mas creio que não vou deixar o que estou fazendo para ir ver o buraco que ele fez. Muita gente está interessada nos monumentos do Ocidente e do Oriente – querendo saber quem os construiu. De minha parte, eu queria saber quem, naquela época, não os construiu – quem estava acima dessas miudezas. Mas vamos continuar com minhas

estatísticas.

Nesse meio tempo, prestando na cidade serviços de topógrafo, de carpinteiro e vários outros, pois sou o homem dos mil instrumentos, ganhei $13,34. O gasto com comida por oito meses, a saber, de 4 de julho a 1o de março, data em que fiz essas contas, embora tenha morado lá mais de dois anos –

sem contar as batatas, um pouco de milho verde e algumas ervilhas que eu tinha plantado, e sem considerar o valor do que tinha em estoque na data de fechamento, foi:

Arroz $1,73 ½

Melado 1,73 Forma mais barata de sacarina.

Farinha de centeio 1,04 ¾

Farinha de milho 0,99 ¾ Mais barato do que centeio.

Carne de porco 0,22

Farinha de trigo 0,88 Custa mais do que farinha de milho, em dinheiro e em dor de cabeça.

Açúcar 0,80

Toucinho 0,65

Maçãs 0,25

Maçã seca 0,22

Batata doce 0,10

Uma abóbora 0,06

Um melão 0,02

Sal 0,03

Todas esssas experiências falharam

Sim, comi $8,74, somando tudo; mas eu não publicaria tão despudoradamente minha culpa se não

soubesse que a maioria de meus leitores também incorreria na mesma culpa, e que seus gastos não fariam melhor figura na letra impressa. No ano seguinte, algumas vezes apanhei um pouco de peixe para o jantar, e uma vez cheguei ao ponto de matar uma marmota que devastou meu feijoal – efetuei sua transmigração, como diria um tártaro – e a devorei, em parte como experiência; mas, embora tenha me dado um prazer momentâneo, apesar do gosto almiscarado, vi que mesmo o longo uso não justifica a prática, por mais que as marmotas de vocês já pareçam estar prontas no açougue da cidade.

A roupa e algumas despesas ocasionais nesse mesmo período, embora pouco se possa inferir deste item, somaram:

$8,40 ¾

Óleo e alguns utensílios domésticos 2,00

De forma que todas as saídas em dinheiro, tirando lavar e consertar a roupa, que em geral foram serviços feitos fora e as contas ainda não tinham chegado – e é assim que necessariamente vai o dinheiro nesta parte do mundo –, foram:

Casa $28,12 ½

Um ano de plantio 14,72 ½

Oito meses de comida 8,74

Oito meses de roupa etc. 8,40 ¾

Oito meses de óleo etc. 2,00

Ao todo $61,99 ¾

Agora eu me dirijo aos leitores que têm de ganhar a vida. De receita, a produção do sítio deu: $23,44

Diárias recebidas 13,34

Ao todo $36,78,

que, abatendo do total das despesas, deixa um saldo de $25,21 ¾ de um lado – que é praticamente o valor com que comecei, e o montante de despesas necessárias – e de outro lado, além do tempo

livre, da independência e da saúde garantidas, uma casa confortável para mim enquanto quiser

morar nela.

Essas estatísticas, mesmo podendo parecer circunstanciais e portanto pouco instrutivas, também têm um certo valor por serem razoavelmente completas. Não recebi nada de que eu não prestasse contas de alguma maneira. O cálculo acima mostra que só minha comida me custou em dinheiro cerca de

27 centavos por semana. Foi, durante quase dois anos depois disso, farinha de centeio e de milho sem fermento, batata, arroz, bem pouco de carne de porco salgada, melado e sal, e água para beber.

Não destoava que eu, apreciando tanto a filosofia hindu, vivesse basicamente de arroz. Às objeções dos inveterados caviladores de plantão, também posso declarar que, se de vez em quando jantei fora, como sempre fiz e espero ter oportunidade de fazer de novo, foi frequentemente em

detrimento de meus arranjos domésticos. Mas visto que jantar fora, como afirmei, é um elemento constante, não afeta em nada um relatório comparativo como este.

Aprendi com os dois anos dessa minha experiência que dá incrivelmente pouco trabalho obter o

alimento necessário para viver, mesmo nesta latitude; que um homem pode ter uma dieta simples como a dos animais, e manter a força e a saúde. Tive um bom banquete, e bom sob vários aspectos, com um simples prato de beldroega ( Portulaca oleracea) que colhi em meu milharal, fervi e temperei com sal. Dou o nome em latim por causa do nome saboroso que usamos.[3] E, por favor me digam, o que mais pode desejar um homem sensato, em tempos de paz, num almoço normal, do que

uma quantidade suficiente de espigas de milho verde cozidas com sal? Mesmo a pequena variedade que eu usava era mais uma concessão às exigências do apetite do que uma questão de saúde. E no entanto os homens chegaram a um tal ponto que muitas vezes passam fome, não por falta do

necessário, mas por falta do luxo; e conheço uma boa mulher que acha que o filho perdeu a vida porque passou a tomar apenas água.

O leitor perceberá que estou tratando o assunto mais de um ponto de vista econômico do que

dietético, e não se arriscará a testar a minha frugalidade, a não ser que tenha uma despensa bem fornida.

O pão, no começo, eu fazia só com farinha de milho e sal, a autêntica broa de milho, que assava em meu fogo ao ar livre, em cima de uma tábua ou na ponta de um pedaço de pau que serrei ao

construir minha casa; mas costumava ficar defumado e com gosto de pinho. Experimentei também

com farinha de trigo; mas finalmente cheguei a uma mistura de centeio e milho que ficou muito adequada e agradável. No frio era muito divertido assar vários pãezinhos assim, em sequência, atendendo-os e virando-os com todo o cuidado como um egípcio chocando seus ovos. Eram como

uma verdadeira fruta de cereal que eu amadurecia, e tinham para meus sentidos o perfume de outros frutos nobres, que eu conservava o máximo possível enrolando-os em pano. Fiz um estudo da antiga e indispensável arte de fazer pães, consultando as autoridades disponíveis, remontando aos dias primitivos e à primeira invenção da espécie ázima, quando da crueza das nozes e das carnes os homens chegaram à maciez e ao refinamento dessa dieta, e gradualmente passando em meus

estudos por aquele acidental azedamento da massa que, supõe-se, ensinou o processo de levedura e pelas várias fermentações posteriores, até que cheguei ao “bom, doce, saudável pão”, o sustento da vida. A levedura, que alguns julgam ser a alma do pão, o spiritus que preenche o tecido de suas células, que é religiosamente preservado como o fogo vestal – algum precioso frasco cheio dela, imagino eu, inicialmente trazido no Mayflower, cumpriu sua tarefa na América, e sua influência ainda está crescendo, inchando, se avolumando, em ondas cerealianas por toda a terra – esta

semente que eu pegava regularmente, fielmente, na cidade, até que um dia esqueci as regras e

escaldei meu fermento; acidente que me fez descobrir que nem ele era indispensável – pois minhas descobertas se davam não pelo processo sintético e sim pelo analítico – e desde então passei a dispensá-lo de bom grado, embora inúmeras donas de casa tenham me garantido com toda a

seriedade que pão bom e saudável sem fermento não existe, e o pessoal de idade tenha profetizado uma veloz decadência das forças vitais. Mesmo assim, penso que não é um ingrediente essencial, e depois de passar um ano sem ele ainda continuo na terra dos vivos; e fico contente de escapar à trivialidade de andar com um frasco de fermento no bolso, que às vezes solta a tampa, vaza o

conteúdo e me deixa desconcertado. É mais simples e mais respeitável dispensá-lo. O homem é um animal que, mais do que qualquer outro, consegue se adaptar a todos os climas e circunstâncias. E

eu tampouco usava bicarbonato nem qualquer outro ácido ou álcali em meu pão. Pelo visto, segui a receita que Marco Pórcio Catão deu cerca de dois séculos antes de Cristo. “Panem depsticium sic facito. Manus mortariumque bene lavato. Farinam in mortarium indito, aquae paulatim addito, subigitoque pulchre. Ubi bene subegeris, fingito, coquitoque sub testu.” Que entendo como: “Faça pão sovado assim. Lave bem as mãos e a vasilha. Ponha a farinha na vasilha, acrescente água aos poucos, amasse muito bem. Quando estiver bem amassado, dê-lhe forma e asse sob uma tampa”,

isto é, numa assadeira. Nem uma palavra sobre levedura. Mas nem sempre usei esse sustento da

vida. Certa vez, devido ao bolso vazio, passei mais de um mês sem vê-lo.

Todo morador da Nova Inglaterra poderia muito bem plantar todo o seu pão nesta terra de centeio e milho, sem depender de mercados distantes e flutuantes. Mas estamos tão longe da simplicidade e da independência que, em Concord, raramente as lojas vendem farinha fresca e fina, e quase

ninguém usa quirera e milho quebrado ainda mais grosso. Em geral o agricultor dá o cereal que planta a seus bois e porcos, e compra no comércio a farinha, que certamente mais saudável não é, a um custo mais alto. Eu vi que podia plantar meu saco ou dois de centeio e milho, pois centeio dá mesmo em terra muito pobre, e milho não exige terra muito boa, e moer num pilão, e passar sem arroz nem carne de porco; e se precisar de algum açúcar concentrado, descobri por experiência que podia fazer um ótimo melado com abóbora ou beterraba, e sabia que bastariam uns pés de bordo

para obtê-lo ainda mais facilmente, e enquanto os bordos estivessem crescendo poderia usar vários substitutos além dos que nomeei. “Pois”, como cantavam os Antepassados:

“podemos fazer licor para adoçar os lábios

De abóboras e baroas e lascas de nogueira.”

[“we can make liquor to sweeten our lips

Of pumpkins and parsnips and walnut-tree chips.”]

Por fim, quanto ao sal, tão antigo artigo, seria uma boa ocasião para visitar o litoral ou, se fosse dispensá-lo por completo, provavelmente tomaria menos água. Não tenho notícia de que os índios jamais tenham se dado ao trabalho de ir atrás dele.

Assim, quanto à comida, eu podia dispensar qualquer troca e comércio, e, já tendo um abrigo,

faltava apenas conseguir roupa e combustível. As calças que estou usando agora foram tecidas num lar de agricultores – graças aos Céus ainda existe virtude no homem; pois penso que a queda do agricultor para o operário é tão grande e memorável quanto a queda do homem para o agricultor – e num país novo combustível é um problema. Quanto ao habitat, se não me permitissem continuar

como posseiro, poderia comprar um acre ao mesmo preço a que foi vendida a terra que eu cultivei –

a saber, oito dólares e oito centavos. Mas, tal como foi, julgo que valorizei a terra ao usá-la como posseiro.

Existe uma certa categoria de céticos que às vezes me perguntam coisas como, se eu acho que posso viver só de vegetais; e para chegar logo à raiz da questão – pois a raiz é a fé –, costumo responder que posso viver de pregos. Se não conseguem entender isso, não entenderão grande parte do que tenho a dizer. Quanto a mim, fico contente em saber que andam fazendo tais experiências; que um jovem tentou viver uma quinzena comendo espigas de milho seco cru, tendo apenas os dentes para moê-los. A tribo dos esquilos tentou a mesma coisa e deu certo. A espécie humana está interessada nessas experiências, mesmo que algumas velhas incapacitadas para isso, ou as viúvas que herdaram um terço dos moinhos, possam se sentir alarmadas.

Meus acessórios domésticos, sendo que uma parte da mobília eu mesmo fiz e o restante não me

custou nada de que eu não tenha prestado contas, consistiam em uma cama, uma mesa, uma

escrivaninha, três cadeiras, um espelho com 7,5 centímetros de diâmetro, um par de tenazes e

suporte de lenha para a lareira, um tacho, uma caçarola e uma frigideira, uma caneca, uma bacia, duas facas e dois garfos, três pratos, uma xícara, uma colher, uma jarra para óleo, uma jarra para melado e uma lâmpada esmaltada. Ninguém é tão pobre que precise sentar numa abóbora. Isso é

incapacidade. Existem montes de cadeiras das que eu mais gosto nos sótãos da cidade, que basta pegar e levar. Mobília! Graças a Deus, posso sentar e ficar de pé sem a ajuda de uma loja de

mobílias. Que homem, a não ser um filósofo, não se envergonharia de ver sua mobília amontoada numa carroça e andando exposta à luz dos céus e aos olhos dos homens, uma miserável

apresentação de caixas vazias? Aquela é a mobília do Spaulding. Eu jamais saberia dizer, olhando uma carga dessas, se ela pertencia a um homem dito rico ou pobre; o dono sempre parecia afundado na pobreza. De fato, quanto mais você tem dessas coisas, mais pobre você é. Cada carga parece o conteúdo de doze barracos; se um barraco é pobre, ela é doze vezes pobre. Ora por favor, para que a gente se muda, se não for para se livrar da mobília, das exuviae; e finalmente passar deste para outro mundo com mobília nova, deixando esta aqui para ser queimada? É como se todos esses pertences estivessem presos ao cinto de um homem, e ele não conseguisse andar pelo campo acidentado onde lançamos nossas linhas sem arrastar junto essa sua armadilha. Teve sorte a raposa que deixou o rabo na armadilha. O rato almiscarado roerá a terceira pata para se libertar. Não admira que o homem tenha perdido sua elasticidade. Quantas vezes ele fica entalado! “Senhor, desculpe-me perguntar, o que o senhor quer dizer com entalado?” Se você é observador, sempre que encontrar um homem

você verá que tudo o que ele tem, coitado, e muito do que finge não ter, vai se arrastando atrás dele, até seus utensílios de cozinha e todos os trastes que ele guarda e não queimará, e o sujeito vai parecer atrelado àquilo, avançando a duras penas. Digo que o homem fica entalado quando ele

passa por uma fresta ou por um portão, e a carga com a mobília não consegue passar. Não consigo deixar de sentir dó quando ouço algum homem de ar asseado e composto, aparentemente livre, todo lépido e animado, falando de sua “mobília” como se estivesse ou não estivesse no seguro. “Mas o que vou fazer com minha mobília?” E eis aí minha alegre borboleta emaranhada numa teia de

aranha. Mesmo aqueles que faz tempo que parecem não ter nenhum móvel, se você indagar um

pouco mais, vai descobrir que têm alguma coisa guardada no celeiro de alguém. Vejo a Inglaterra de hoje como um velho cavalheiro viajando com uma montanha de bagagens, quinquilharias que

acumulou em muitos anos de casa e não tem coragem de queimar; mala grande, mala pequena,

chapeleira, pacote. Jogue fora pelo menos os três primeiros. Hoje em dia, ultrapassaria as forças de um homem sadio levantar a cama e sair andando, e com certeza aconselho ao doente que deixe a

cama e saia correndo. Quando encontrei um imigrante cambaleando sob uma trouxa que trazia tudo o que tinha – parecendo um cisto que lhe havia crescido na nuca –, fiquei com pena dele, não

porque era tudo o que tinha, mas porque tinha tudo aquilo para carregar. Se eu tiver de arrastar a armadilha de meus pertences, vou cuidar que seja leve e não me belisque numa parte vital. Mas talvez seja mais sábio nunca pôr a pata nela.

Aliás, eu comentaria que não gasto nada com cortinas, pois não tenho quem me espreite de fora a não ser o sol e a lua, e estes muito me agrada que espreitem dentro de casa. A lua não vai azedar meu leite nem estragar minha carne, o sol não vai manchar minha mobília nem desbotar meu tapete, e se às vezes ele é um amigo caloroso demais, ainda acho melhor providência me refugiar atrás de alguma cortina oferecida pela natureza do que acrescentar um item que seja aos detalhes

domésticos. Certa vez uma senhora me ofereceu um capacho, mas como eu não tinha espaço

sobrando dentro de casa, nem tempo sobrando dentro ou fora de casa para abaná-lo, declinei,

preferindo limpar os pés na grama na frente da porta. É melhor evitar o mal desde o começo.

Não muito tempo depois, assisti ao leilão dos efetivos de um pároco, pois efetiva não deixara de ser sua vida:

“O mal que os homens fazem sobrevive a eles.”

Como de costume, uma grande parte eram quinquilharias que tinham começado a se acumular

desde a época do pai dele. Entre os restos havia uma lombriga seca. E agora, depois de passar meio século no sótão e outros desvãos cheios de pó, essas coisas não foram queimadas; em vez de um bom fogo, ou a destruição purificadora delas, houve uma hasta ou o aumento delas. Os vizinhos se juntaram ansiosos em vê-las, compraram tudo e cuidadosamente transportaram as quinquilharias

para seus sótãos e desvãos, para jazerem lá até a hora do acerto de seus espólios, quando partirão de novo. Ao morrer, o homem chuta o pó.

Talvez fosse proveitoso imitar os costumes de algumas nações selvagens, pois pelo menos

aparentam trocar a pele uma vez por ano; elas têm a ideia da coisa, quer tenham ou não a realidade dela. Não seria bom se comemorássemos um “busk” ou “festa dos frutos frescos”, como descreve Bartram o costume dos índios de Mucclasse? Ele diz: “Quando um povoado celebra o busk, tendo previamente providenciado novas roupas, novos potes, panelas e outros móveis e utensílios

domésticos, eles juntam todas as suas roupas gastas e outras coisas que não prestam, varrem e limpam a sujeira de suas casas, das praças e do povoado inteiro, que jogam com o resto dos grãos e outras provisões velhas num monte geral e consomem com o fogo. Depois de fazer o necessário e jejuar por três dias, todo o fogo no povoado é extinto. Durante este jejum, eles se abstêm de satisfazer qualquer apetite e paixão que seja. Proclama-se uma anistia geral; todos os malfeitores podem retornar a seu povoado”.

“Na quarta manhã, o sumo sacerdote, esfregando dois gravetos secos, acende um novo fogo na

praça pública, de onde cada habitação do povoado recebe uma chama pura e nova.”

Então eles festejam o milho e os frutos frescos, dançam e cantam por três dias, “e nos quatro dias seguintes recebem visitas e se regozijam com seus amigos dos povoados próximos que se

purificaram e se prepararam de forma parecida”.

Os mexicanos também realizavam uma purificação semelhante a cada 52 anos, na crença de que o

mundo estava para se acabar.

Raramente ouvi falar de sacramento, isto é, como define o dicionário, “sinal externo e visível de uma graça interna e espiritual”, mais autêntico do que este, e não duvido de que originalmente tenham recebido inspiração do próprio Céu para agir assim, embora não possuam nenhum registro bíblico da revelação.

Portanto, por mais de cinco anos eu me mantive exclusivamente com o labor de minhas mãos, e

descobri que, trabalhando cerca de seis semanas por ano, podia fazer frente a todas as despesas da vida. Todos os meus invernos, bem como a maior parte de meus verões, tinha-os livres e disponíveis para estudar. Tentei manter uma escola, e descobri que minhas despesas eram proporcionais, ou melhor, desproporcionais à minha receita, pois eu era obrigado a me apresentar e ensinar, para não dizer pensar e acreditar, de acordo com as regras da escola, e na troca eu saía perdendo meu tempo.

Como eu não ensinava para o bem de meus semelhantes, mas simplesmente para meu sustento, foi

um fracasso. Tentei o comércio; mas descobri que levaria dez anos para avançar nesse caminho, e que nessas alturas já estaria em meu caminho para o demônio. Na verdade, eu receava que estaria fazendo o que se chama de bom negócio. Antes disso, procurando o que podia fazer para viver,

ainda estando frescas em minha lembrança algumas tristes experiências, denunciando minha

inexperiência, em me moldar aos desejos dos amigos, muitas vezes pensei seriamente em colher

mirtilos; isso certamente eu poderia fazer, e o pouco de lucro bastaria – pois minha maior habilidade sempre foi precisar de pouco –, tão pouco capital exigia, tão pouca distração de meus humores habituais, pensei eu tolamente. Enquanto meus conhecidos entravam sem hesitar no comércio ou

nas profissões liberais, eu considerava esta ocupação quase igual às deles; percorrendo as colinas durante todo o verão para colher as bagas que aparecessem em meu caminho e depois dispondo

delas despreocupado; assim, era como cuidar dos rebanhos de Admeto. Eu também sonhava em

colher as ervas silvestres ou levar ramos de coníferas para os moradores que gostavam de relembrar a mata, e mesmo para a cidade, às carretadas. Mas depois aprendi que o comércio amaldiçoa tudo o que toca; e mesmo que você comercie mensagens celestiais, a maldição toda do comércio se cola à atividade.

Como eu preferia umas coisas a outras, e acima de tudo valorizava minha liberdade, como eu podia passar com pouco e mesmo assim me sair bem, não queria gastar meu tempo para ter ricos tapetes ou outros belos móveis, ou delicados pratos, ou uma casa em estilo grego ou gótico. Se existe alguém para quem não é estorvo adquirir essas coisas e que sabe usá-las depois de adquiri-las, cedo-lhe tal meta. Alguns são “industriosos” e parecem gostar do trabalho em si, ou talvez porque o trabalho os mantenha distantes de coisa pior; a estes, no momento, não tenho nada a dizer. Àqueles que não saberiam o que fazer com mais tempo livre do que agora têm, eu aconselharia que

trabalhem o dobro do que trabalham agora – que trabalhem até se alforriar e conseguir o recibo de quitação de suas dívidas. Por mim, descobri que a profissão de diarista rural era a mais

independente de todas, principalmente porque bastavam apenas trinta ou quarenta dias por ano para sustentar uma pessoa. A jornada do diarista termina com o pôr do sol, e então ele fica livre para se dedicar à atividade que quiser, independente de seu trabalho; já o patrão, que especula mês a mês, não tem uma única folga do começo ao final do ano.

Em suma, estou convencido, por fé e pela experiência, que se sustentar nesta terra não é um

sofrimento e sim um passatempo, se vivermos com simplicidade e sabedoria, da mesma forma

como as atividades de subsistência das nações mais simples continuam a existir como atividades de esporte nas mais artificiais. Não é necessário que um homem ganhe a vida com o suor do rosto, a não ser que ele sue mais do que eu.

Um rapaz conhecido meu, que herdou alguns acres, me disse que gostaria de viver como eu, se tivesse os meios. Eu não gostaria que ninguém adotasse meu modo de vida em hipótese alguma; pois, além de poder encontrar algum outro antes que ele tivesse aprendido direito este de agora, desejo que possa existir o maior número possível de pessoas diferentes no mundo; mas gostaria que cada uma delas se dedicasse a encontrar e seguir seu próprio caminho, e não o do pai, da mãe ou do vizinho. O jovem pode construir, plantar ou navegar, basta que não seja impedido de fazer o que ele me diz que gostaria de fazer. Se somos sábios é apenas graças a um ponto matemático, como o

marinheiro ou o escravo fugido que se orienta pela estrela polar; mas é um guia suficiente para toda nossa vida. Podemos não chegar a nosso porto num período calculável, mas manteremos o curso

certo.

Sem dúvida, neste caso, o que é certo para um é ainda mais certo para mil, tal como uma casa

grande, em termos proporcionais, não custa mais do que uma pequena, visto que um só telhado

pode cobrir, um só porão pode subjazer, e uma só parede pode separar diversos aposentos. Mas, de minha parte, eu preferiria a morada individual. Além disso, geralmente sairá mais barato construir o todo sozinho do que convencer o outro das vantagens de uma mesma parede; e quando você o tiver convencido, a divisória comum, para ser bem mais barata, terá de ser fina, e aquele outro pode se revelar um mau vizinho, e talvez nem cuide direito do lado dele. Em geral, a única cooperação possível é extremamente parcial e superficial; e a mínima cooperação verdadeira que exista, é como se não existisse, sendo uma harmonia inaudível aos homens. Se um homem tem fé, ele irá cooperar com igual fé por toda parte; se não tem fé, continuará a viver como o resto do mundo, em qualquer companhia a que se reúna. Cooperar, no sentido mais alto e mais baixo do termo, significa ganhar a vida juntos. Recentemente eu soube que dois rapazes estavam pensando em viajar juntos pelo mundo, um sem dinheiro, ganhando o pão ao longo da viagem, sob a proa e atrás do arado, o outro com uma letra de câmbio no bolso. Era fácil ver que não seriam companheiros nem cooperariam

por muito tempo, visto que um deles não operaria nada. Iriam se separar no primeiro conflito de interesses em suas aventuras. Além de tudo, conforme sugeri, o homem que segue sozinho pode sair hoje; mas quem viaja com outrem precisa esperar até que o outro esteja pronto, e a hora da partida pode demorar muito.

Mas tudo isso é muito egoísta, ouvi dizerem alguns de meus concidadãos. Confesso que, até agora, tenho me entregado muito pouco a empreendimentos filantrópicos. Fiz alguns sacrifícios a um

senso de dever e, entre outros, sacrifiquei também este prazer. Houve quem usou de todas as suas artes para me persuadir a tomar a meu cargo o sustento de alguma família pobre da cidade; e se eu não tivesse nada para fazer – pois o demônio encontra ocupação para os ociosos –, até poderia me dedicar a algum passatempo assim. Mas, quando pensei em me entregar a tal assunto e abrir um

crédito para mim nos Céus sustentando alguns pobres com o mesmo conforto com que sustento a

mim mesmo em todos os aspectos, e até me aventurei a lhes fazer tal oferta, todos eles não

hesitaram em preferir continuar na pobreza. Já que meus concidadãos e concidadãs se devotam de tantas maneiras ao bem de seus semelhantes, confio que pelo menos um pode ser poupado para

outras atividades menos humanitárias. É preciso ter talento para a caridade como para qualquer outra coisa. Quanto a Praticar o Bem, é uma das profissões mais concorridas. Além disso, tentei a sério e, por estranho que possa parecer, fico satisfeito que tal prática não combine com meu

temperamento. Talvez eu não devesse desatender deliberadamente à obrigação pessoal de praticar o bem que a sociedade me impõe, a de salvar o universo da aniquilação; e acredito que a única coisa que agora o preserva é uma impassibilidade parecida, mas infinitamente maior. Porém eu jamais me interporia entre um homem e seu talento; e àquele que faz esse trabalho, que eu declino, com todo o seu coração, alma e vida, eu diria: Persevere, mesmo que o mundo diga que é praticar o mal, como muitos provavelmente dirão.

Estou longe de supor que meu caso é peculiar; sem dúvida, muitos de meus leitores apresentariam uma justificativa parecida. Quanto a fazer alguma coisa – não garanto que meus próximos digam que é o bem –, não hesito em dizer que seria um ótimo empregado; mas que coisa é essa, cabe ao meu empregador descobrir. O eventual bem que eu pratique, na acepção comum dessa palavra, decerto é marginal ao meu caminho e em grande medida involuntário. Os homens dizem, de

maneira muito prática: Comece por onde está e tal como você é, principalmente sem pretender ser melhor do que é, e siga praticando o bem com bondade deliberada. Se eu algum dia fosse pregar algo nessa linha, eu diria: Comece sendo bom. Como se o sol fosse parar quando tivesse se

iluminado até alcançar o brilho de uma lua ou de uma estrela de sexta grandeza, e fosse passear por aí como um alegre diabretezinho, espiando pelas janelas dos chalés, inspirando os lunáticos,

estragando as carnes, tornando visível a escuridão, em vez de continuar a aumentar seu agradável calor e benignidade até atingir tamanho esplendor que nenhum mortal é capaz de fitá-lo de frente, e depois, e enquanto isso também, sair pelo mundo em sua própria órbita, fazendo-o bom, ou melhor, como descobriu uma filosofia mais verdadeira, o mundo andando ao redor dele e tornando-se bom.

Faetonte queria provar com boas ações que era de nascimento celeste e tomou a carruagem do sol por um único dia: saiu da trilha batida, queimou muitos casarios nas ruas mais baixas do céu, esturricou a superfície da terra, secou todas as fontes e criou o grande deserto do Saara, até que finalmente, com um raio, Júpiter o arremessou de ponta-cabeça ao chão – e o sol, de luto por sua morte, deixou de brilhar durante um ano.

Não existe cheiro pior do que o da bondade estragada. É carniça humana, é carniça divina. Se eu soubesse que um homem estava vindo à minha casa com o propósito deliberado de me fazer o bem, eu sairia numa corrida desabalada, como se estivesse fugindo daquele vento seco e tórrido dos desertos africanos, chamado simum, que entope de areia a boca, o nariz, os ouvidos e os olhos até sufocar, de medo de pegar um pouco do bem que faria a mim – de medo que algum vírus dele

contaminasse meu sangue. Não – neste caso eu preferiria pegar a doença de maneira natural. Para mim, um homem não é um bom homem porque me alimenta se estou com fome, ou me aquece se estou com frio, ou me tira de uma vala se eu tiver caído dentro dela. Posso arranjar para vocês um terra-nova que faz a mesma coisa. A filantropia não é o amor ao próximo no sentido mais amplo.

Howard foi, sem dúvida, um homem extremamente digno e bondoso à maneira dele, e teve sua

recompensa; mas, falando em termos comparativos, o que é uma centena de Howards para nós, se a filantropia deles não nos ajuda quando estamos em nossa melhor posição e somos mais merecedores de ajuda? Nunca soube de nenhuma reunião filantrópica que sinceramente propusesse fazer algum bem a mim, ou aos parecidos comigo.

Os jesuítas ficavam muito desapontados com aqueles índios que, ardendo na fogueira, sugeriam

novas modalidades de tortura a seus torturadores. Estando acima do sofrimento físico, talvez

também estivessem acima de qualquer consolo que os missionários tinham a oferecer; e a lei que nos diz para fazer aos outros o que queremos que os outros nos façam não era tão persuasiva aos ouvidos daqueles que, por sua parte, não se importavam com o que lhes faziam, amavam seus

inimigos de uma maneira inédita e chegavam quase ao ponto de lhes perdoar generosamente tudo o que faziam.

Certifiquem-se de estar dando aos pobres a ajuda de que eles mais necessitam, mesmo que o mais importante seja dar o exemplo. Se vocês derem dinheiro, deem-se junto com ele, e não o larguem simplesmente ali. Às vezes cometemos uns enganos curiosos. Muitas vezes não é fome ou frio que o pobre sente; acontece que ele vive mesmo mais sujo, mais roto e esfarrapado. Em parte é por gosto, e não apenas por infortúnio. Se vocês lhe derem dinheiro, talvez ele vá comprar outros andrajos. Eu costumava sentir pena dos toscos peões irlandeses que cortavam gelo no lago, com roupas tão miseráveis e esfarrapadas, enquanto eu tiritava em meus trajes mais limpos e um pouco mais elegantes, até que, num dia geladíssimo, um sujeito que tinha se afundado na água veio à minha casa para se esquentar, e vi o homem tirar três pares de calças e dois pares de meias antes de ficar em pelo, embora aqueles trapos estivessem mesmo bastante sujos e esfarrapados, e pôde se dar ao luxo de recusar as roupas extra que lhe ofereci, tantas intra tinha ele. Aquele banho era exatamente o que ele precisava. Então comecei eu a ter pena de mim, e vi que seria mais caridoso darem uma camisa de flanela para mim do que uma loja inteira de roupas ordinárias para ele. Há mil homens podando os ramos do mal para apenas um golpeando a raiz, e talvez aquele que dedica mais tempo e mais dinheiro aos necessitados seja quem mais contribui, com seu modo de vida, para gerar aquela miséria que inutilmente tenta aliviar. É como o piedoso criador de escravos que destina os lucros da venda de um em cada dez escravos para comprar um domingo de liberdade aos

restantes. Alguns mostram sua bondade com os pobres pondo-os como empregados em suas

cozinhas. Não seriam mais bondosos se fossem eles mesmos cozinhar? Vocês se vangloriam de

gastar um décimo de sua renda em caridade; talvez devessem gastar os outros nove décimos, e

acabar com ela. Pois significa que a sociedade recupera apenas uma décima parte da propriedade.

Isso se deve à generosidade do dono ou à negligência dos oficiais de justiça?

A filantropia é quase a única virtude já bastante apreciada pela humanidade. Digo mais, é

superestimada; e é nosso egoísmo que a superestima. Um pobre robusto, num dia ensolarado aqui em Concord, elogiou um certo concidadão nosso, porque, como me disse ele, era bondoso com os

pobres, referindo-se a si mesmo. Os tios e tias benevolentes da raça são mais estimados do que os verdadeiros pais e mães espirituais. Certa vez ouvi um reverendo, homem de erudição e

inteligência, ministrando uma palestra sobre a Inglaterra; depois de enumerar seus luminares

científicos, literários e políticos, Shakespeare, Bacon, Cromwell, Milton, Newton e outros, ele passou a falar de seus heróis cristãos, os quais alçou, como se sua religião o exigisse, a um pináculo muito acima de todos os demais, como os maiores dentre os maiores. Eram Penn, Howard e a sra.

Fry. Todo mundo há de perceber a falsidade e a hipocrisia disso. Não eram os maiores indivíduos da Inglaterra; eram talvez apenas seus maiores filantropos.

Não quero subtrair nada ao elogio que se deve à filantropia, mas simplesmente peço justiça para aqueles que, com suas vidas e obras, são uma bênção para a humanidade. Não coloco acima de tudo a retidão e a benevolência de um homem, as quais são, por assim dizer, o tronco e as folhas.

Aquelas plantas que, depois de secas, usamos para fazer chás para os doentes, servem apenas a uma humilde finalidade, e são empregadas principalmente por charlatães. Eu quero a flor e o fruto de um homem; que alguma fragrância flutue dele até mim, que alguma doçura dê sabor a nosso contato. A bondade dele não deve ser um ato parcial e transitório, mas um transbordamento constante, que não lhe custa nada e do qual ele não se apercebe. É uma caridade que encobre uma multidão de pecados.

Demasiado amiúde o filantropo cerca a humanidade com uma atmosfera composta pela lembrança

de suas próprias dores superadas, e ele dá a isso o nome de solidariedade. Devíamos compartilhar nossa coragem, não nosso desespero, nossa saúde e nosso bem-estar, não nosso mal-estar, e cuidar para que este não se espalhe por contágio. De que planícies do sul se elevam as vozes da

lamentação? Em que latitudes residem os pagãos a quem enviaremos a luz? Quem é o bruto e

intemperado que redimiremos? Se alguma indisposição ataca um homem e ele não faz suas

necessidades, se sente dor nos intestinos – pois aí fica a sede da solidariedade –, imediatamente ele se põe a reformar – o mundo. Sendo um microcosmo, ele descobre – e é uma autêntica descoberta, e ele é o homem certo para fazê-la – que o mundo anda comendo maçãs verdes; a seus olhos, de fato, o próprio mundo é uma grande maçã verde, e há o perigo, medonho só de pensar, de que os filhos dos homens lhe deem uma mordida antes que esteja madura; e sua drástica filantropia se estende incontinenti aos esquimós e aos patagônios, e abraça as populosas aldeias indianas e chinesas; e assim, com alguns anos de atividade filantrópica, enquanto isso os poderes políticos certamente utilizando-o para seus próprios fins, ele sara de sua dispepsia, o globo adquire uma leve cor numa ou nas duas faces, como se estivesse começando a amadurecer, a vida perde seu travo e volta a ser doce e saudável viver. Nunca sonhei com nenhuma enormidade maior do que cometi. Nunca

conheci, e nunca conhecerei, homem pior do que eu mesmo.

Acredito que o que tanto entristece o reformador não é sua solidariedade com os semelhantes em desgraça, e sim, embora possa ser o mais santo filho de Deus, sua indisposição pessoal. Que ela se regularize, que lhe venha a primavera, que a manhã desponte sobre sua cama, e ele abandonará seus generosos companheiros sem nem se justificar. Minha desculpa para não perorar contra o uso do tabaco é que nunca masquei fumo – este castigo os mascadores de fumo arrependidos é que têm de pagar –, embora existam muitas coisas que masquei e contra as quais poderia perorar. Se algum dia vocês se traírem entrando numa dessas filantropias, não deixem que a mão esquerda saiba o que a direita faz, pois não vale a pena saber. Salvem quem está se afogando e amarrem o cadarço do

sapato. Não se apressem, e comecem algum trabalho gratuito.

Nossas maneiras foram corrompidas pela comunicação com os santos. Nossos hinários ressoam

melodiosamente praguejando contra Deus e suportando-o para todo o sempre. Dir-se-ia que mesmo os profetas e redentores mais consolaram os medos do que confirmaram as esperanças do homem.

Não existem em lugar algum os registros de uma satisfação simples e irreprimível com a dádiva da vida, nenhum memorável louvor a Deus. Toda saúde e sucesso me faz bem, por mais distante e

recuado que possa estar. Toda doença e fracasso me ajuda a ficar triste e me faz mal, por mais solidário que possa ser comigo ou eu com ele. Então, se de fato queremos restaurar a humanidade com meios realmente nativos, botânicos, magnéticos ou naturais, sejamos primeiro simples e

saudáveis como a Natureza, dissipemos as nuvens que nos pesam na fronte, instilemos um pouco de vida em nossos poros. Não vá ser inspetor dos pobres, mas se empenhe em se tornar um dos

valorosos do mundo.

Li no Gulistan, ou Jardim das flores, do xeque Sadi de Shiraz, que “Eles perguntaram a um sábio: Entre as muitas árvores celebradas que o Deus Altíssimo criou imponentes e umbrosas, nenhuma se chama azad, ou livre, exceto o cipreste, que não dá frutos; qual o mistério que há aí? Ele respondeu: Cada uma tem seu fruto apropriado e sua estação adequada, durante a qual ela é fresca e viçosa, e durante cuja ausência ela é seca e mirrada; a nenhum desses estados fica exposto o cipreste, sendo sempre florescente; e desta natureza são os azads ou religiosos independentes. Não prendas teu coração ao que é transitório; pois o Dijlah, ou Tigre, continuará a percorrer Bagdá depois de extinta a linhagem dos califas; se tua mão tem abundância, sê liberal como a tamareira; mas se ela nada tem para dar, sê um azad, ou homem livre, como o cipreste”.

VERSOS COMPLEMENTARES

AS PRETENSÕES DA POBREZA

“Presumes demais, mísero coitado,

Ao querer um lugar no firmamento

Porque tua humilde cabana ou vasilha

Alimenta ociosa ou pedante virtude

Ao sol vulgar ou na fonte obscura,

Com raízes e verduras; onde tua direita,

Arrancando d’alma as paixões humanas

Com tronco onde florescem belas virtudes,

Degrada a natureza, embota o senso,

E, Górgona, o homem ativo converte em pedra.

Não queremos a obtusa companhia

De vossa forçada temperança,

Ou daquela desnaturada estupidez

Que ignora dor e alegria; nem vossa imposta

Fortaleza passiva, falsamente exaltada,

Acima dos ativos. Essa laia vil e abjeta,

Que se assenta na mediocridade,

Torna-se vosso espírito servil; louvamos

Apenas virtudes que admitam excesso,

Bravos e largos gestos, régia grandeza,

Prudência vidente, magnanimidade

Sem fim, e aquela heroica virtude

De que a antiguidade não legou nome,

Apenas modelos, como Hércules,

Aquiles, Teseu. Volta à tua odiada cela;

Ao ver a nova esfera iluminada,

Procura saber quem foram tais valorosos.”

[ THE PRETENSIONS OF POVERTY

Thou dost presume too much, poor needy wretch,

To claim a station in the firmament,

Because thy humble cottage, or thy tub,

Nurses some lazy or pedantic virtue

In the cheap sunshine or by shady springs,

With roots and pot-herbs; where thy right hand,

Tearing those humane passions from the mind,

Upon those stocks fair blooming virtues flourish,

Degradeth nature, and benumbeth sense,

And, Gorgon-like, turns active men to stone.

We not require the dull society

Of your necessitated temperance,

Or that unnatural stupidity

That knows nor joy nor sorrow; nor your forc’d

Falsely exalted passive fortitude

Above the active. This low abject brood,

That fix their seats in mediocrity,

Become your servile minds; but we advance

Such virtues only as admit excess,

Brave, bounteous acts, regal magnificence,

All-seing prudence, magnanimity

That knows no bound, and that heroic virtue

For which antiquity hath left no name,

But patters only, such as Hercules,

Achilles, Theseus. Back to thy loath’d cell:

And when thou seest the new enlightened sphere,

Study to know but what those worthies were”].

T. CAREW

ONDE E PARA QUE VIVI

EM CERTA ESTAÇÃO DE nossa vida, acostumamo-nos a considerar qualquer local como possível lugar para uma casa. Assim, inspecionei a região por todos os lados num raio de quase vinte quilômetros de onde eu vivo. Na imaginação, comprei todos os sítios em sucessão, pois todos deviam ser

comprados, e eu sabia os preços. Pisava premissas e primícias de cada agricultor, provava suas maçãs silvestres, discorria sobre agricultura com ele, aceitava o sítio ao preço que ele dispunha, qualquer preço, assinando-lhe uma hipoteca mental; até propunha um preço maior – aceitava tudo, só não lavrava o ato –, aceitava a palavra como ato lavrado, pois dou muito valor à fala – cultivava a terra, e até certo ponto ele também, espero eu, e me retirava quando já tinha aproveitado bastante, deixando-o para seguir em frente. Essa experiência me autorizou a ser visto por meus amigos como uma espécie de corretor imobiliário. Onde eu tomava assento, podia viver, e a paisagem irradiava de mim em harmonia com isso. O que é uma casa, se não uma sedes, uma sede ou assento? – melhor ainda se for uma sede rural e um assento no campo. Encontrei muitos lugares para uma casa que tão cedo não receberiam melhorias, que alguns podiam achar demasiado longe da cidade, mas a meus

olhos era a cidade que ficava bem longe deles. Ora, aqui eu viveria, dizia eu; e lá, durante uma hora, eu vivia a vida de um verão e de um inverno; via como podia deixar os anos passarem, entrando e saindo inverno, entrando e saindo primavera. Os futuros habitantes desta região, assentem-se onde quiserem, podem ter certeza de que alguém esteve aqui antes deles. Bastava uma tarde para

demarcar o pomar, a área de mata e o pasto, e decidir quais os carvalhos ou pinheiros bonitos que seriam deixados diante da casa, e de onde se teria a melhor vista das árvores mais depauperadas, e então deixava a terra descansar, talvez em pousio, pois a riqueza de um homem é proporcional ao número de coisas que pode deixar em paz.

Minha imaginação me levava tão longe que até chegaram a me recusar vários sítios – a recusa era o que eu mais queria –, mas nunca queimei meus dedos com a posse efetiva. O mais perto que

cheguei de uma posse efetiva foi quando comprei o sítio Hollowell, e tinha começado a separar minhas sementes, e juntei os materiais para fazer uma carriola de carga e descarga; mas, antes que o dono me lavrasse o ato, a mulher dele – todo homem tem uma mulher assim – mudou de ideia e

quis ficar com o sítio, e ele me ofereceu dez dólares para desobrigá-lo. Ora, para falar a verdade, eu só tinha dez centavos, e era demais para minha aritmética saber se eu tinha dez centavos, um sítio ou dez dólares, ou tudo junto ao mesmo tempo. Seja como for, deixei que ele ficasse com os dez dólares e o sítio também, pois a coisa já tinha ido longe o suficiente; ou melhor, para ser generoso, eu lhe vendi o sítio pelo mesmo que dei por ele, e, como o sujeito não era rico, presenteei-lhe dez dólares, e ainda me restaram meus dez centavos, as sementes e os materiais para uma carriola.

Assim descobri que tinha sido rico sem qualquer prejuízo para minha pobreza. Mas fiquei com a paisagem, e desde então todos os anos retiro uma carga do que ela produziu, e nem preciso de