Zanoni por Edward Bulwer-Lytton - Versão HTML

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mais comunicativo com seu bárbito, como o sábio Merseno nos

ensina a chamarmos a todas as variedades da grande família da

viola. Certamente, bárbito soa melhor do que “rabeca”; deixemo-

lo, pois, ser bárbito. Pisani passava horas inteiras falando com este

instrumento, - louvando-o, censurando-o, acariciando-o; e até (pois

assim é o homem, por mais inocente que seja) já o havia ouvido

jurar por seu bárbito; mas este excesso sempre lhe causava, em

seguida, remorso e penitência. E o instrumento tinha a sua

linguagem particular, sabia responder-lhe; e quando ele, o bárbito,

ralhava, fazia-o às mil maravilhas. Era um nobre companheiro, este

violino! Um tirolês, que havia saído das mãos do ilustre

instrumentista Steiner. Havia algo de misterioso em sua grande

idade. Quantas mãos, agora já convertidas em pó, tinham feito

vibrar suas cordas, antes que passasse a ser o amigo familiar de

Caetano Pisani? Até a sua caixa era venerável; tinha sido

belamente pintada, segundo se dizia, por Caraci. Um inglês

colecionador de antiguidades ofereceu a Pisani mais dinheiro pela

caixa, do que este tinha ganhado com o violino. Porém, o músico, a

quem pouco importava morar numa choupana, orgulhava-se de ter

um palácio para o bárbito, ao qual considerava como seu filho

primogênito. Mas ele tinha também uma filha, da qual agora nos

vamos ocupar.

21

Como deverei fazer, ó Viola, para descrever-te? Com certeza, a

Música foi, de algum modo, responsável pelo advento desta jovem

desconhecida. Pois tanto em sua forma, como em seu caráter,

pode-se descobrir uma semelhança familiar com essa singular e

misteriosa vida do som, que, noite após noite, andava nos ares,

imitando os divertimentos dos espíritos dos elementos nos mares

estrelados. . . Viola era formosa, porém de uma formosura pouco

comum; era urna combinação harmoniosa de atributos opostos. Os

seus cabelos eram de um ouro mais rico e mais puro do que os que

vêem no Norte; mas os olhos, totalmente pretos, eram de uma luz

mais terna e mais encantadora do que os olhos das italianas, sendo

quase

de

esplendor

oriental.

A

sua

fisionomia

era

extraordinariamente linda, mas nunca a mesma: ora rosada, ora

pálida; e, com a variação da sua fisionomia, também variava a sua

disposição: Ora era muito triste, ora muito alegre.

Sinto ter que dizer que esta jovem não tinha recebido dos seus

pais, em grau satisfatório, o que nós chamamos, com razão,

educação. Não resta dúvida que nenhum deles possuía grandes

conhecimentos que pudessem ensinar; e, naquela época, a

instrução não era tão espalhada entre o povo, como o é hoje. Mas o

Acaso ou a Natureza favoreceram a jovem Viola. Ela aprendeu,

como era natural, a falar tanto a língua materna como a paterna.

Também aprendeu, em breve, a ler e a escrever; e sua mãe, que era

católica romana, ensinou-lhe, já na infância, a rezar. Porém, em

contraste com todas estas aquisições, os estranhos costumes de

Pisani e os incessantes cuidados e ocupações que ele reclamava de

sua mulher, faziam com que, muitas vezes, a menina ficasse com

uma velha aia que, com certeza, amava-a ternamente, mas não

estava habilitada para instruí-la.

Dona Gianetta, a aia, era uma italiana e napolitana completa.

A sua juventude era todo amor, e a sua idade madura era toda

superstição. Era uma mulher loquaz e indiscreta, - uma palradora.

Umas vezes falava à menina de cavalheiros e príncipes

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prosternados a seus pés, outras vezes lhe gelava o sangue nas

veias, aterrorizando-a com histórias e lendas, talvez tão velhas

como as fábulas gregas ou etruscas, de demônios e vampiros, - das

danças ao redor da grande nogueira de Benevento, e da benzedura

contra a mal olhado. Todas estas coisas concorreram

silenciosamente para gravar supersticiosas idéias, na imaginação

de Viola, que nem a idade, nem a reflexão puderam dissipar. E

tudo isso fez com que se afeiçoasse, com uma espécie de mistura

de temor e alegria, à música de seu pai. Aquelas toadas visionárias,

lutando sempre por traduzir em tons selvagens e desconcertados a

linguagem de seres extraterrestres, rodeavam-na desde o berço.

Pode-se dizer, pois, que sua imaginação, sua mente estava cheia de

música; encontros amorosos, recordações, sensações de prazer ou

de sofrimento, - tudo estava

mesclado, inexplicavelmente, com aqueles sons que ora a

deleitavam, ora a enchiam de terror; isto a afagava e saudava

quando abria os olhos ao sol, e fazia-a despertar sobressaltada,

quando se encontrava só em sua cama, rodeada da escuridão da

noite. As lendas e os contos de Gianetta serviam somente para que

a jovem compreendesse melhor o significado daqueles misteriosos

tons; forneciam-lhe as palavras para a musica. Era, pois, natural

que a filha de tal pai manifestasse cedo algum gosto pela sua arte.

Ainda era muito criança e já cantava divinamente. Um grande

cardeal - grande igualmente no Estado e no Conservatório - tendo

ouvido elogiar o seu talento, mandou buscá-la. Desde aquele

momento, a sua sorte ficou decidida: estava destinada a ser a futura

glória de Nápoles, a “prima dona” do São Carlos. O Cardeal,

insistindo em que se cumprisse sua predição, lhe deu os mais

célebres mestres. Para despertar nela o espírito de emulação, Sua

Eminência levou-a, numa noite, ao seu camarote, crendo que

serviria de alguma coisa ver a representação e ouvir os aplausos

que se prodigalizavam às deslumbrantes artistas, as quais ela devia

superar um dia. Oh! Como é gloriosa a vida teatral, e como é belo

o mundo de música e de canto, que começava a brilhar para ela!

23

Parecia ser o único que correspondia a seus estranhos e juvenis

pensamentos. Afigurava-se-lhe que, tendo vivido até então em

terra estrangeira, via-se, enfim, transportada a uma região onde

encontrava as formas e ouvia a linguagem do seu país natal. Belo e

verdadeiro entusiasmo, elevado pela promessa do gênio! Menino

ou homem, nunca será poeta, se não sentiste o ideal, o romance, se

não viste a ilha de Calypso diante dos teus olhos, quando, pela

primeira vez, levantando-se o mágico véu, se te apresentar o

mundo da poesia sobreposto ao mundo da prosa!

E agora começou a iniciação para a jovem. Ia ler, estudar,

descrever com um gesto, com um olhar, as paixões que depois

devia expressar no palco; lições perigosas, na verdade, para

algumas pessoas, mas não para o puro entusiasmo que nasce da

arte: para a mente que a concebe exatamente, a arte não é mais que

o aparelho onde se reflete o que se põe sobre sua superfície,

enquanto está sem mácula, Viola compreendeu a natureza e a

verdade, intuitivamente. As suas audições estavam impregnadas de

um poder de que ela não era consciente; a sua voz comovia os

ouvintes até as lágrimas, ou inspirava-lhes uma generosa ira. Mas

estas emoções eram produzidas pela simpatia que manifesta

sempre o gênio, até em seus anos de infantil inocência, por tudo o

que sente, aspira ou sofre. Ela não era uma mulher prematura que

compreendesse o amor ou o ciúme que as palavras exprimiam; a

sua arte era um daqueles estranhos segredos que os psicólogos

podem explicar-nos, se lhes apraz, dizendo-nos, ao mesmo tempo,

porque crianças de uma mente singela e de um coração puro sabem

distinguir tão bem, nos contos que lhes são relatados ou nos cantos

que ouvem, a diferença entre a arte verdadeira e a falsa, entre a

linguagem apaixonada e a geringonça, entre Homero e Racine, - e

porque ressoam, dos corações que não têm ainda sentido o que

repetem, os melodiosos acentos, tão naturalmente patéticos.

Fora de seus estudos, Viola era uma menina singela e afetuosa,

porém um tanto caprichosa, - caprichosa não em seu caráter, pois

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que este era sempre afável e dócil, mas em sua disposição de

ânimo, que, como já disse, passava da tristeza à alegria e vice-

versa, sem uma causa aparente. Se existia alguma causa, só podia

atribuir-se às precoces e misteriosas influências que já referi, ao

tratar de explicar o efeito produzido em sua imaginação por

aquelas estranhas e arrebatadoras correntes de som que

constantemente a rodeavam; pois convém notar que aqueles que

são demasiado sensíveis aos efeitos da música, se vêem

incessantemente acossados, nas suas lidas mais ordinárias, por

melodias e tons que os atormentam e inquietam. A música sendo

uma vez admitida à alma converte-se em uma espécie de espírito, e

nunca morre. Ela percorre, perturbadoramente, os recantos e as

galerias da memória, e é ouvida, freqüentemente, tão viva e

distinta como quando fendeu os ares pela primeira vez. De quando

em quando, pois, estes fantasmas de sons vagavam pela

imaginação de Viola; faziam aparecer um sorriso em seus lábios,

se eram alegres; anunciavam o seu semblante, se eram tristes; e

então ela abandonava de repente a sua infantil alegria e sentava-se

num canto, muda e meditativa.

Com razão, pois, em sentido alegórico, podia-se chamar a esta

formosa criatura, de forma tão aérea, de beleza tão harmoniosa, de

pensamentos e costumes tão pouco comuns, mais justamente filha

da música do que do músico; um ser do qual se podia imaginar que

lhe estava reservado algum destino, menos da vida comum do que

do romance, desses que, pelo que os olhos podem ver, e pelo que

os corações podem sentir, deslizam sempre, junto com a vida real,

de corrente em corrente, até ao Oceano Negro.

Por isso, não parecia estranho que Viola, mesmo já em sua

meninice, e muito mais quando começava a florescer na doce

serenidade da juventude virginal, cresse ser a sua vida destinada a

participar, fosse em bem ou mal, do romance, cheio de sonhos, que

formava a atmosfera da sua existência. Freqüentemente penetrava

nos bosquezinhos que cercavam a gruta de Posillipo, - a grande

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obra dos antigos cimerianos, - e, sentada ao lado da Tumba de

Virgilio, entregava-se a essas visões, a essas sutis divagações que

nenhuma poesia pode tornar palpáveis e definidas; porque o poeta

que excede a todos que têm cantado, é o coração da juventude

sonhadora! Muitas vezes também, sentada ali ao umbral, sobre o

qual pendiam as folhas de parreira, e olhando o azulado e sereno

mar, passava a jovem as horas do meio-dia outonal, ou os

crepúsculos do verão, construindo seus castelos no ar. Quem é que

não faz a mesma coisa, - não só na juventude, como também no

meio de débeis esperanças da idade madura? Uma das

prerrogativas do homem, desde o rei até ao campônio, é sonhar.

Mas esses sonhos eram em Viola mais habituais, mais distintos

ou mais solenes do que a maior parte de nós desfruta. Pareciam ser

como o Orama dos gregos, - fantasmas proféticos.

CAPITULO II

“Fu stupor, fu vaghezza, fu dileto!”

prazer, foi um deleite!” Gerusal. Líb, canto II, 21.

Enfim, a educação artística acha-se terminada! Viola tem perto de

dezesseis anos. O Cardeal declara que chegou o tempo de inscrever

um novo nome no Livro de Ouro, reservado aos filhos da Arte e do

Canto, mas com que caráter? Qual o gênio a que Viola deve dar

forma e vida? Ah! aqui está o segredo! Correm rumores de que o

infatigável Paisielo encantado da maneira com que a jovem

executou o seu “Nel cor piu non mi sento”, e o seu “Io son

Lindoro”, quer produzir alguma nova obra mestra para a estréia da

nova artista. Outros insistem em que Viola é mais forte no cômico,

e que Cimarosa está trabalhando assiduamente para dar outro

“Matrimônio Secreto”. Ao mesmo tempo, se observa que, em

outras partes, reina uma reserva diplomática, e que o Cardeal está

de humor pouco alegre. Ele disse publicamente estas portentosas

palavras:

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- Esta tola menina é tão sem juízo como seu pai; o que ela pede é

absurdo!

Celebra-se uma conferência atrás de outra; o Cardeal fala

muito solenemente, em seu gabinete, à pobre jovem, - tudo em

vão. Nápoles se perde num mar de curiosidade e conjecturas. A

leitura termina numa dissensão e Viola regressa à casa, enfadada e

teimosa: não representará, - desfez o contrato!

Pisani, que não conhecia os perigos do teatro, tinha concebido

a lisonjeira esperança de que ao menos uma pessoa de sua família

aumentaria a celebridade da sua arte. A obstinação da filha

causava-lhe grande desgosto; todavia, não disse uma só palavra de

enfado. Pisani nunca ralhava com palavras, mas contentava-se em

agarrar o seu fiel bárbito. O fiel bárbito, de que horrível maneira te

ralhava! O instrumento crocitava, gralhava, gemia, rosnava. E os

olhos de Viola enchiam-se de lágrimas, porque ela

compreendia aquela linguagem. A jovem aproximou-se de sua mãe

e falhou-lhe ao ouvido; e quando o pai voltou do teatro, onde fora

tocar, viu que sua mãe e a filha estavam chorando. Ele as

contemplou com admiração; e, em seguida, como se sentisse haver

sido demasiado duro para com elas, correu outra vez a agarrar o

violino. E agora, eis que se faz ouvir o arrulho melodioso de uma

fada, tratando de consolar um filho impertinente que havia

adotado. Sons suaves, influentes, argentinos, manavam do

instrumento, tocado pelo mágico arco. O mais intenso pesar

desaparecia diante daquela melodia; e, contudo, às vezes ouvia-se

uma nota estranha, alegre, repicante, parecida a um riso, porém não

ao riso mortal. Era um dos trechos mais excelentes da sua querida

ópera, - a Sereia no ato de encantar as ondas e adormecer os

ventos. O Céu sabe o que teria acontecido em seguida, se o seu

braço não tivesse sido detido. Viola se lançava ao seu peito,

abraçando-o e beijando-o, com os olhos radiantes de felicidade,

que se refletia nos seus dourados cabelos.

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Neste mesmo instante, abriu-se a porta, para dar entrada a um

mensageiro do Cardeal. Viola devia apresentar-se imediatamente à

casa de Sua Eminência. A mãe a acompanhou. Fez-se a

reconciliação, e tudo ficou arranjado num instante; Viola foi de

novo admitida, e escolheu, ela mesma, a sua ópera.

Ó sombrias nações no Norte, ocupadas com suas dissensões e seus

debates, em suas trabalhosas vidas do Pnyx e do Agora! - não se

pode imaginar que grande movimento e ruído produziu entre a

gente musical de Nápoles o rumor de uma nova ópera e de uma

nova cantora. Mas que ópera será esta? Nunca tinha sido tão

secreta a intriga de gabinete, como desta vez.

Pisani voltou, uma noite, do teatro, evidentemente enfadado e

irado. Pobres dos seus ouvidos, leitor, se tivessem escutado o

bárbito aquela noite! Haviam-no suspenso do seu emprego,

temendo que a nova ópera e a primeira representação de sua filha,

como “prima dona”, afetassem demasiados os seus nervos. E, em

tal noite, as suas variações, as suas endemoninhadas sereias e

harpias, produziram uma algazarra que não se poderia ouvir sem

terror. Separado do teatro, e isso exatamente na noite em que sua

filha, cuja melodia não era senão uma emanação da sua, ia

representar pela primeira vez! Estar à parte e ausente, para que

ocupasse o seu posto algum novo rival: isto era demasiado para um

músico de carne e osso! Pela primeira vez, o artista se expressou

em palavras sobre este assunto, perguntando, com muita gravidade,

- pois nesta questão o bárbito, apesar de sua eloqüência, não podia

expressar-se claramente, - qual era a ópera que devia executar-se, e

qual o papel que a jovem devia representar? E Viola respondeu,

também com gravidade, que o Cardeal lhe tinha proibido que o

revelasse. Pisani não respondeu, mas desapareceu com o seu

violino; foi-se ao mais alto da casa (onde, às vezes, quando estava

de péssimo humor, se refugiava), e, em seguida, a mãe e a filha

ouviram o violino lamentar-se e suspirar de um modo capaz de

partir o coração.

28

As afeições de Pisani manifestavam-se muito pouco no seu

semblante. Não era um desses pais carinhosos, cujos filhos estão

sempre brincando ao redor dos seus joelhos; sua mente e sua alma

pertenciam tão inteiramente à sua arte, que a vida doméstica

deslizava para ele como se fosse um sonho, e o coração, a forma

substancial, o corpo da existência. As pessoas que cultivam um

estudo abstrato, especialmente os matemáticos, costumam ser

assim. Quando o criado de um célebre filósofo francês foi correndo

dizer a este: - “Senhor, a casa está em chamas!” - respondeu o

sábio, apenas levantando por um momento a vista dos seus

problemas: - “Vai dizê-lo a minha mulher, imbecil! Tenho eu que

cuidar de assuntos domésticos?“ - E que são as matemáticas para

um músico, e, sobretudo para um músico que não só compõe

Óperas, mas também toca o bárbito? Sabem o que respondeu o

ilustre Giardini, quando um principiante lhe perguntou quanto

tempo deveria empregar para aprender a tocar violino? Ouçam e

desesperem os impacientes, que desejam dobrar o arco em

comparação com o qual o arco de Ulysses foi apenas um

brinquedo: - “Doze horas todos os dias, por espaço de vinte anos

seguidos!” - Poderá, pois, um homem que toca o bárbito, estar

sempre brincando com seus filhinhos?

- Não, Pisani! Muitas vezes, com a fina suscetibilidade de sua

infância, a pobre Viola se tinha retirado da sua presença, para

chorar, pensando que não a amava.

E, contudo, debaixo desta superficial abstração do artista, se

ocultava um afetuoso carinho; e à medida que a jovem foi

crescendo, um sonhador foi compreendendo o outro. E agora, não

só lhe era fechado o caminho da fama, mas até não se lhe permitia

saudar a glória nascente da filha! - e esta filha havia entrado numa

conspiração contra ele! Tamanha ingratidão era mais cruel do que

a picada de uma serpente; e mais cruéis e dolorosos foram ainda os

lamentos do bárbito!

Chegou a hora decisiva. Viola dirigiu-se ao teatro, acompanhada

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de sua mãe. O indignado músico ficou em casa. Uma hora depois,

Gianetta entrou correndo no quarto e disse-lhe:

- A carruagem do senhor Cardeal está à porta; o seu protetor

manda buscá-lo.

Pisani teve que deixar a um lado o seu violino; era necessário por a

casaca bordada e os punhos rendados.

- Aqui estão; ligeiro, ligeiro!

E já rola a luxuosa carruagem, e o cocheiro, sentado

majestosamente na boléia, açoita os briosos cavalos. O pobre

Pisani, envolto numa nuvem de confusão, não sabe o que se passa.

Chega ao teatro; apeia-se à porta principal; começa a olhar de um

lado para outro; sente que lhe falta alguma coisa, - onde está o

violino? Ai! a sua alma, a sua voz, o seu próprio ser, ficou em

casa! O músico não era então outra coisa senão um autômato que

os lacaios conduziam, por entre corredores, ao camarote do

Cardeal. Que surpresa, ao entrar ali! Estaria sonhando? O primeiro

ato havia terminado. Não quiseram mandar buscá- lo até que o

sucesso estivesse assegurado. O primeiro ato decidiu o triunfo.

Pisani advinha isto pela elétrica simpatia que se comunica de

coração em coração numa grande reunião de pessoas. Sente-o no

silêncio profundo que reina entre o auditório; compreende-o até

pela atitude do Cardeal, que o recebeu com o dedo levantado.

Pisani vê sua Viola no cenário, deslumbrante em seu vestido

semeado de pedras preciosas, - ele ouve sua voz que extasia

milhares de corações. Porém, a cena, o papel, a música! É outra

sua filha, -sua imortal filha; a filha espiritual da sua alma; a sua

filha predileta que ele acariciava, por muitos anos, na obscuridade;

a sua obra prima; a sua opera “A Sereia!”

Este, pois, foi o mistério que tanto o atormentara, - esta a causa da

sua dissensão com o Cardeal; este o segredo que não devia revelar-

se até que o êxito estivesse garantido; e a filha tinha unido o seu

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triunfo ao de seu pai!

E ela estava ali, enquanto todos os corações se inclinavam diante

dela, - mais formosa do que a mesma Sereia que lhe inspirava

aquelas melodias. Oh, longa e doce recompensa do trabalho! Que

prazer há, na terra, igual ao que desfruta o gênio, quando, por fim,

abandona a sua obscura caverna, para aparecer à luz e cercar-se de

fama!?

Pisani não falava, nem se movia; estava deslumbrado, sem

respirar; grossas lágrimas rolavam-lhe pelas faces; só, de quando

em quando, moviam-se suas mãos, - maquinalmente procuravam o

seu fiel instrumento; por que não estaria ali, para participar do seu

triunfo?

Por fim, o pano caiu; mas que tempestade de aplausos! O auditório

levantou-se como um só homem, - aclamando, com delírio, aquele

nome querido. Viola apresentou-se, trêmula e pálida, e, em toda

aquela

multidão, não viu senão a face de seu pai. O auditório, seguindo a

direção daquele olhar umedecido, adivinhou o impulso da filha, e

compreendeu a sua significação. O bom e velho Cardeal puxou

delicadamente o músico para diante.

- Músico indomável você acaba de receber de sua filha uma coisa

de maior valor do que a vida que lhe deu!

- Meu pobre violino! - exclamou Pisani, enxugando os olhos, -

agora nunca mais tornarão a assobiá-lo!

CAPITULO III

“Fra si contrarie tempre in ghiaccio e in foco, In riso e in pianto, e

fra paura e speme, L’ingannatrice Donna”

“Entre tão contrárias misturas de gelo e fogo, riso e pranto, temor e

esperança, a Mulher enganadora”

31

Gerusal. Lib., canto IV, 44.

Não obstante a vitória definitiva da atriz e da ópera houve um

momento, no primeiro ato, e, por conseguinte, antes da chegada de

Pisani, em que a queda da balança parecia mais que duvidosa. Foi

num coro cheio de todas as singularidades do autor. E quando este

Maelstrom de Caprichos rolava e espumava, dilacerando os

ouvidos e os sentidos com toda a variedade de sons, o auditório

reconheceu simultaneamente a mão de Pisani. Por precaução,

havia-se dado à ópera um título que afastava toda a suspeita de sua

procedência; e a introdução e o princípio dela, em que havia uma

música regular e suave, fez o público crer que ouvia algo do seu

favorito Paisiello. Acostumado desde muito tempo a ridicularizar e

quase desprezar as pretensões artísticas de Pisani, como

compositor, o auditório julgou que havia sido ilicitamente

enganado e seduzido para os aplausos, com que saudara a

introdução e as primeiras cenas. Um ominoso zunido circulou por

todo o teatro: os atores e a orquestra, - eletricamente

impressionados com o desagrado do público, - começaram a agitar-

se e a desmaiar, deixando de emprestar aos respectivos papéis a

necessária energia e precisão, que era o único recurso com que se

podia dissimular o grotesco da música.

Em cada teatro, sempre que se trata de um novo autor e de um

novo ator, são numerosos os rivais, - partido impotente quando

tudo vai bem, porém urna perigosa emboscada desde o momento

em que qualquer acidente introduz a menor confusão no curso dos

acontecimentos. Levantou-se um murmúrio; é verdade que era um

murmúrio parcial, mas o silêncio significativo que reinava por toda

parte, pressagiava que aquele desgosto não tardaria em se tornar

contagioso. Pode-se dizer que a tempestade pendia de um cabelo.

Em tão crítico momento, Viola, a rainha Sereia, emergia pela

primeira vez do fundo do Oceano. A medida que ia aproximando-

se das luzes, a novidade de sua situação, a fria apatia dos

espectadores, - sobre os quais nem a vista daquela singular beleza

32

parecia produzir, a principio, a mais ligeira impressão, - o cochilar

malicioso dos outros atores que havia no cenário, o resplendor das

luzes e sobretudo aquele recente murmúrio que chegara a seus

ouvidos enquanto se achava no seu esconderijo, todas estas coisas

gelaram as suas faculdades e suspenderam-lhe a voz. E, em vez da

grande invocação, na qual devia imediatamente prorromper, a régia

Sereia, transformada em tímida menina, permaneceu pálida e muda

ante aquela multidão de frios olhares que a ela se dirigiam.

Naquele instante, quando parecia já abandoná-la a consciência de

sua existência, e quando dirigia um

tímido olhar suplicante sobre a multidão silenciosa, Viola

percebeu, num camarote do lado do cenário, um semblante que, de

repente e como por magia, produziu sobre a sua mente um efeito

incapaz de poder-se analisar nem esquecer. Pareceu-lhe que

despertava em sua imaginação uma daquelas vagas e freqüentes

reminiscências que acariciara nos momentos de suas ilusões

infantis. Não podia apartar a sua vista daquele semblante e, à

medida que o contemplava, o terror e o frio, que se apoderavam

dela ao apresentar-se ante o público, dissipou-se como a névoa

diante do sol.

No escuro esplendor dos olhos que encontravam os seus, havia

realmente uma doçura que a reanimava tanto, e uma admiração

benévola e compassiva, - tanta coisa que aquecia, animava e

revigorava, - que qualquer que fosse o ator ou espectador, que

houvesse observado o efeito que produz um sério e benévolo olhar

da multidão dirigido à pessoa que se apresenta ante esta, e pela dita

pessoa é percebida, teria compreendido a repentina e inspiradora

influência que o olhar e o sorriso do estrangeiro exerceu sobre a

estreante.

E, enquanto Viola ainda o mirava, e o ardor voltava ao seu

coração, o estrangeiro levantou-se, como para chamar a atenção do

público sobre o dever de cortesia para com uma jovem tão

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formosa; reanimada, começou esta a cantar e, apenas se fez ouvir a

sua voz o público prorrompeu numa salva de generosos aplausos.

Este estrangeiro era uma personagem notável, e, além da nova

ópera, fora a sua chegada a Nápoles o objetivo principal das

conversações naqueles dias. E quando cessou o aplauso, a Sereia

renovou o seu canto com voz clara, cheia e livre de todo o

embaraço, como o espírito libertado do pesado barro.

Desde aquele momento, Viola esqueceu o auditório, o acidente, o

mundo inteiro, - exceto esse paraíso ideal ao qual ela presidia.

Parecia que a presença do estrangeiro servia somente para mais

ainda acrescentar essa ilusão, na qual os artistas não vêem criação

alguma fora do círculo de sua arte. Viola sentia como se aquela

fronte serena e aqueles olhos brilhantes lhe inspirassem poderes

anteriores nunca conhecidos: e, como se buscando uma linguagem

para expressar as estranhas sensações produzidas pela presença do

desconhecido, esta mesma presença lhe insuflasse a melodia e o

canto.

Somente quando terminou a função, e Viola viu seu pai e sentiu a

alegria dele, cedeu aquele estranho encanto, para dar lugar à pura

expansão do amor filial. Contudo, quando se retirava do cenário,

volveu a cabeça involuntariamente, e o seu olhar encontrou-se com

o do estrangeiro, cujo tranqüilo e melancólico sorriso lhe caiu até

ao fundo do coração, - para ali viver e despertar em sua alma

recordações confusas, meio risonhas e meio tristes.

Depois das congratulações do bom Cardeal-Virtuoso, admirado,

como toda Nápoles, de haver vivido tanto tempo no erro a respeito

desse assunto do gosto, - e mais admirado ainda de ver que toda

Nápoles confessava este seu erro; depois de ter ouvido murmurar

mil elogios que aturdiam a pobre atriz, esta, com seu modesto véu

e seu traje singelo, passou por entre a multidão de admiradores que

a aguardavam em todos os corredores do teatro; depois do terno

abraço do pai com a filha, volveram à sua casa na carruagem do

Cardeal, atravessando as ruas iluminadas só pelas estrelas, e ao

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longo da estrada deserta; a escuridão não deixou ver as lágrimas da

boa e sensível mãe. Ei-los já em sua casa e no seu bem

[2]

Gianetta, intensamente atarefada em

preparar a ceia, observe Pisani como tira o bárbito de sua caixa

para comunicar-lhe tudo o que sucedeu; escute como a mãe ri com

toda a alegria tranqüila de um riso inglês.

Por que, Viola, estranha criatura, senta-se sozinha num canto com

as faces apoiadas em suas lindas mãos e com os olhos fixos no

espaço? Levante-se! Tudo deve rir em sua casa, esta noite.

Feliz era o grupo que se sentou em redor daquela mesa humilde:

era uma festa capaz de causar inveja ao próprio Lúculo, em sua

sala de Apoio; havia uvas secas, delicadas sardinhas, rica “polenta”

e o velho vinho “Lácrima”, presente do bom Cardeal.

O bárbito, colocado numa alta cadeira, ao lado do músico, parecia

participar da festiva ceia. A sua honesta e envernizada lace

brilhava à luz da lâmpada; e havia algo de astuta gravidade em seu

silêncio, quando, depois de cada bocado engolido, o seu amo se

dirigia a ele para dizer-lhe alguma coisa que se esquecera de

contar-lhe. A boa esposa olhava afeiçoada de um lado para outro, e

a alegria que experimentava não lhe permitia comer; até que,

levantando-se de repente, correu a colocar sobre as fontes do

artista uma coroa de louros, que o seu carinho lhe fizera preparar já

antecipadamente; e Viola, sentada ao outro lado do seu irmão, o

bárbito, arrumava o boné e alisava os cabelos de seu pai, dizendo-

lhe:

- Querido papai, não deixará, daqui para diante, que “ele” me

ralhe, não é verdade?

Então, o pobre Pisani, louco de prazer entre sua filha e o violino, e

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um tanto excitado pelo “Lácrima” e pelo seu triunfo, voltou-se

para Viola, e, com ingênuo e grotesco orgulho, disse-lhe:

- Não sei a quem dos dois devo estar mais agradecido. Você me

causou um grande prazer, querida filha, e estou orgulhoso de si e

de mim. Mas ele e eu, pobre companheiro, temos passado juntos

tantos momentos de sofrimento!

O sono de Viola foi inquieto, perturbado, e isso era natural. A

embriagues da vaidade e do triunfo, e a sua felicidade, pela

felicidade que causara, eram coisas melhores do que dormir. Não

obstante, o seu pensamento voava seguidamente atrás daqueles

olhos expressivos e daquele doce sorriso, aos quais deveria ir para

sempre unida a recordação do seu triunfo e da sua felicidade. Seus

sentimentos, como o seu caráter mesmo, eram estranhos e

peculiares. Não eram os de uma jovem cujo coração, alcançado

pela primeira vez pelo olhar, suspira sua natural e original

linguagem do primeiro amor. Ainda que o rosto, que em todas as

ondas de sua desassossegada imaginação se refletia, ostentasse

uma singular majestade e beleza, não era tanto a admiração, nem a

lembrança agradável e amorosa que a vista desse estrangeiro

despertara no seu coração: mas era um sentimento humano de

gratidão e prazer, mesclado a outra idéia misteriosa de medo e

respeito. Estava certa de que tinha visto, já antes, aquelas feições;

porém, quando e onde? Sem dúvida, só quando seus pensamentos

haviam tratado de penetrar no seu futuro, e quando, apesar de

todos os esforços para apresentar em sua imaginação um porvir

semeado de flores e cheio de agradáveis raios solares, um negro e

glacial pressentimento a fazia retroceder ao seu mais profundo

interior. Parecia-lhe como se tivesse achado uma coisa que, desde

muito tempo, buscara por entre mil tristes inquietações e vagos

desejos, menos do coração que da mente; não como quando o

estudante, depois de ter-se fatigado, correndo muito tempo atrás de

uma verdade científica, a vê brilhar confusamente diante de si,

porém ainda longe, e a vê luzir, apagar-se, reaparecer, e novamente

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sumir-se. Por fim, Viola caiu num sono inquieto, povoado de

disformes, fugitivos, vagos fantasmas; e, ao despertar, quando os

raios do sol, rompendo por meio de um véu de nebulosa nuvem,

brilhavam indecisos através da janela, ouviu seu pai que desde

muito cedo se havia entregado à sua tarefa quotidiana, arrancando

do seu violino um lento e triste som, parecido a um canto fúnebre.

- Como é, - perguntou Viola, quando desceu ao quarto de Písani, -

como é, meu pai, que sua inspiração foi tão triste, depois da alegria

da noite passada?

- Não sei, minha filha. Eu queria estar alegre e compor algo para

dedicar-lhe, mas este obstinado não

quis dar outras notas além das que você ouviu.

CAPITULO IV

“E cosi i pigri e timidi desiri Sprona”.

“E assim estimula os lentos e túmidos desejos”.

Era costume de Pisani, exceto quando os deveres de sua profissão

lhe exigiam o sacrifício do seu tempo, dedicar uma parte do meio-

dia ao sono; costume que não era tanto um luxo, como uma

necessidade para um homem que dormia pouco de noite. Com

efeito, as horas do meio-dia eram exatamente o tempo em que

Pisani não podia fazer nada, nem compor, nem se exercitar, mesmo

que o quisesse. O seu gênio assemelhava-se às fontes que estão

cheias de manhã cedo e ao entardecer, abundantes de noite, e

inteiramente esgotadas ao meio-dia. Durante este tempo que o

músico consagrava ao descanso, a sua esposa costumava sair de

casa, a fim de comprar o necessário para a família, ou para

aproveitar (e qual é a mulher que não gosta de fazê-lo?) a ocasião

de poder conversar um pouco com outras pessoas de seu sexo. E

no dia seguinte ao daquele brilhante triunfo, quantas felicitações a

esperavam!

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Viola, por sua vez, costumava sentar-se, a essas horas, fora da

porta da casa, debaixo de um toldo estendido para preservar do sol,

mas que não impedia a vista. Ali, com o livro posto sobre os

joelhos, no qual seus olhos se fixavam negligentemente de vez em

quando, você a veria contemplar as folhas da parreira que pendiam

da latada que havia por sobre a porta, e os ligeiros barcos que, com

as velas brancas, deslizavam, levantando flocos de espuma, ao

longo da praia que se estendia a perder de vista.

Enquanto Viola estava assim sentada, entregue antes a um sonho

do que a pensamentos, um homem que vinha ao lado de Posilippo

com passo lento e os olhos baixos passava por diante da casa e a

jovem, levantando os olhos de repente, ficou sobressaltada ao ver

diante de si o estrangeiro que a havia fitado no teatro. Ela deixou

escapar uma involuntária exclamação, e o cavalheiro, volvendo a

cabeça, avistou-a e parou.

Ficou por um instante mudo diante da jovem, contemplando-a;

aquele silêncio era demasiado sério e tranqüilo para que pudesse

interpretar-se como uma demonstração de galanteria. Por fim,

falou:

- É feliz, minha filha, - perguntou-lhe em tom quase paternal, - na

carreira que escolheu? Dos dezesseis anos aos trinta, a música do

suave rumor dos aplausos é mais doce do que toda a música que

sua voz pode exprimir.

- Não sei, - respondeu Viola, em tom vacilante, porém animada

pelo afável acento da voz que se lhe dirigia, - não sei se sou feliz

ou não, neste momento; mas fui feliz ontem à noite. E também

sinto, Excelência, que devo agradecer-lhe, ainda que, talvez, não

saiba o motivo disso.

- Engana-se, - disse sorrindo o cavalheiro; - eu assisti ao seu

merecido sucesso, e você talvez não saiba de que maneira.

O “porquê”, eu lhe direi: porque vi que se albergava no seu

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coração uma ambição mais nobre do que a vaidade de mulher; foi a

filha que me interessou. Talvez você preferisse que eu admirasse a

artista?

- Não; oh! não!

- Bem, eu creio. E agora, já que nos encontramos assim, quero dar-

lhe um conselho. Quando for outra vez ao teatro, terá aos seus pés

todos os jovens galantes de Nápoles. Pobre menina! A fama que

deslumbra a vista, pode queimar as asas. Não esqueça que a única

homenagem que não mancha, é a que nenhum desses aduladores

lhe fornecerá. E por mais elevados que sejam os seus sonhos

futuros, - e eu estou vendo neste momento, enquanto falo contigo,

como são extravagantes e exagerados - Oxalá que só se realizem

aqueles que se refiram à vida tranqüila do lar.

Quando o desconhecido se calou, o peito de Viola palpitava

agitadamente sob o fino corpete. E, cheia de uma natural e

inocente emoção, compreendendo imperfeitamente, apesar de ser

italiana, a gravidade do aviso, exclamou:

- Ah, Excelência! Não pode fazer idéia de como já me é caro esse

lar. E meu pai - ah! para mim não haveria lar, sem meu querido

pai!

O semblante do cavalheiro cobriu-se de profunda e melancólica

sombra. Ele olhou a tranqüila casa, construída entre as parreiras, e

fixou outra vez os seus olhos na vívida e animada face da jovem

atriz.

- Está bem, - disse. - Uma jovem singela não necessita outro guia

que o seu coração inocente. Avante, pois, e prospere!

- Adeus, bela cantora!

- Adeus, Excelência; porém... - e um impulso irresistível, uma

espécie de ansiedade, um vago sentimento de temor e de

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esperança, a impeliu a perguntar: - tornarei a vê-lo em São Carlos?

- Não, pelo menos por algum tempo. Hoje deixo Nápoles.

- Sim! - E, ao dizer isto, Viola sentiu-se desfalecer. O teatro perdia

para ela toda a sua poesia.

- E, - disse o cavalheiro, voltando atrás, e pondo suavemente sua